O ronco pesado do motor da caminhonete cortou a calmaria salgada da manhã em Costa del Sol, muito antes de o sol esquentar a areia da praia. Barret desligou o veículo perto do píer, desceu com uma mochila pendurada no ombro bom e caminhou até a fachada do Oitavo Luar. A placa na porta de vidro ainda indicava "Fechado".
Ele deu três batidas firmes na esquadria de madeira. Poucos segundos depois, o som de passos rápidos desceu a escada interna. A tranca girou e Tifa abriu a porta, o rosto iluminando-se em um sorriso imediato ao ver a dupla.
— Barret! — ela exclamou, puxando o homem imenso para um abraço apertado, que ele retribuiu com um tapinha cuidadoso e pesado nas costas dela.
— Desculpa aparecer assim tão cedo, Tifa — Barret resmungou, a voz grave carregando um tom de urgência prática. Ele abaixou a mochila no chão de madeira. — A Guilda de Logística pegou um contrato de escolta de carga pesada de última hora. É uma rota bruta, Angeal e eu vamos ter que cobrir a retaguarda do comboio o fim de semana inteiro. Não dá pra levar a Marlene pro meio da poeira e do sol quente.
Tifa franziu o cenho de leve, ajeitando o cabelo para trás da orelha enquanto olhava para a garotinha.
— E a dona Elmyra? — Tifa perguntou, num tom de leve preocupação. — Ela não podia ficar com a Marlene em Kalm? Está tudo bem com ela?
Barret soltou uma risada anasalada e rústica, descruzando o braço mecânico.
— A coroa tá ótima, mas viajou. Recebeu um convite dos anciões lá de Cosmo Canyon para catalogar umas flores medicinais raras que só brotam nas fendas dos desfiladeiros de lá. Angeal achou que seria bom pra ela respirar outros ares e mexer com uma terra diferente, então despachamos a velha num dirigível seguro ontem à noite.
Tifa não hesitou por um segundo. O sorriso voltou fácil ao rosto dela, aliviada pela notícia. Ela abaixou-se levemente e, com a força natural que possuía nos braços, pegou Marlene no colo com facilidade, ajeitando a garota no quadril.
— Ah, que maravilha! Ela merece mesmo esse descanso — Tifa disse, dando um beijo estalado na bochecha de Marlene, que abriu um sorriso largo. Ela olhou de volta para o grandalhão. — Você sabe que nem precisa se explicar. Ela é sempre bem-vinda aqui. O Denzel e a Kether vão adorar a companhia. Pode ir tranquilo, Barret, e boa viagem pra vocês dois na escolta.
O líder da guilda soltou um suspiro longo, a tensão visível nos ombros largos cedendo por completo. Ele esticou a mão e bagunçou os cabelos curtos da filha de forma afetuosa.
— Se comporta, ouviu bem? Ajuda a Tifa e não dá trabalho pro Cloud — Barret instruiu, recebendo um aceno afirmativo e enérgico da menina. — Obrigado, Tifa.
Após uma última despedida rápida, Barret deu as costas e caminhou de volta para a caminhonete. Tifa e Marlene ficaram na soleira da porta, acenando enquanto o motor rugia e o veículo se afastava pela estrada, deixando para trás apenas o som suave das ondas que quebravam na areia.
Assim que a caminhonete desapareceu na curva da estrada, Tifa fechou a porta de vidro, girando a tranca com um clique metálico suave. Ainda no colo da lutadora, Marlene inclinou a cabeça para o lado, as sobrancelhas franzidas em uma confusão genuína e adorável de criança.
— Tia Tifa... quem é Denzel? — Marlene perguntou, ajeitando a alça da mochila no ombro enquanto Tifa começava a caminhar com ela pelo salão principal. — O bebê da tia Inome já nasceu? E ele já consegue brincar?
Tifa não conseguiu conter uma risada gostosa, o som ecoando leve pelo ambiente silencioso do Oitavo Luar. Ela acomodou melhor o peso da menina no quadril e começou a subir os degraus de madeira que levavam à área residencial no andar de cima.
— Não, meu amor, o bebê da Inome ainda está bem guardadinho na barriga dela — Tifa explicou, a voz transbordando um carinho morno. — Denzel é um menino um pouquinho mais novo que você. Ele é filho meu e do Cloud.
Marlene arregalou os olhos, a surpresa apagando qualquer traço de sono que ainda restasse nela. A ideia de Cloud e Tifa terem um filho parecia mágica na cabeça da garota.
— Filho de vocês?! — Marlene sussurrou, maravilhada, como se estivesse recebendo um grande segredo.
— Isso mesmo — Tifa sorriu largo, chegando ao topo da escada e guiando a menina até a sala de estar. — E aposto que eles já estão acordados.
Tifa parou na soleira da sala, o sorriso se alargando. O sol da manhã mal havia começado a iluminar o cômodo, mas Cloud já estava sentado de pernas cruzadas no tapete macio. Ao lado dele, Denzel estava deitado de barriga para baixo, com os pezinhos balançando no ar. A mesa de centro havia sido empurrada para o lado, e o chão ao redor dos dois estava coberto por folhas de papel e lápis de cor espalhados.
Cloud, com uma expressão de concentração absoluta, segurava um giz de cera amarelo, rabiscando o papel para tentar ensinar o garoto a desenhar um Chocobo gordinho. Ao ouvir os passos, o loiro ergueu os olhos azuis e Denzel virou o rosto de imediato, ambos encarando as recém-chegadas com a mesmíssima expressão curiosa.
Tifa abaixou-se suavemente, soltando Marlene no tapete felpudo da sala. A garotinha arrumou o vestido e deu um passo à frente, os olhos escuros fixos no menino e nos desenhos espalhados.
— Denzel, essa é a Marlene, a filha do Barret que eu te falei sobre.— Tifa os apresentou, a voz mansa, encorajando a interação. — E Marlene, esse é o Denzel.
O garoto piscou, soltando o giz de cera sobre o papel. Ele se sentou no tapete, cruzando as pernas de um jeito meio desajeitado. Denzel era naturalmente mais reservado, mas a curiosidade falou mais alto. Ele observou a mochila de Marlene e, aos poucos, relaxou os ombros.
— Oi... — Denzel murmurou, um pequeno sorriso surgindo no canto dos lábios. Ele inclinou a cabeça levemente. — A Kether já me falou de você.
Marlene colocou as mãos na cintura, assumindo imediatamente aquela postura confiante que herdara do pai.
— Falou, é? E o que ela disse?
— Disse que você é quem manda nas brincadeiras — Denzel respondeu com uma sinceridade inocente. — Mas reclamou que você não quer mais brincar de navio, porque agora só quer saber de coisas de mocinha e maquiagem.
Marlene soltou uma risadinha, sentando-se no tapete ao lado dele sem a menor cerimônia, já puxando um papel em branco e uma caixa de lápis para perto.
— Ela é muito exagerada. Mas eu sei desenhar Moogles bem melhor que o tio Cloud. Quer ver?
Enquanto as crianças já mergulhavam no próprio mundo no chão da sala, quebrando o gelo com a facilidade que só a infância permite, Tifa caminhou até o marido. Ela tocou o ombro de Cloud, fazendo um carinho rápido e afetuoso na nuca dele.
— Cloud, vem me ajudar a adiantar o café da manhã lá na cozinha. O restaurante vai abrir daqui a pouco e o dia vai ser longo — Tifa chamou, baixando o tom de voz para não atrapalhar os dois.
Cloud apoiou as mãos nos joelhos e se levantou com um movimento fluido, espanando uma poeira invisível da calça. Ele olhou para a escada vazia e franziu o cenho de leve.
— O Barret nem subiu para tomar um café com a gente?
— Ele estava com muita pressa. A Guilda de Logística pegou um contrato de escolta pesada de última hora — Tifa explicou, caminhando lado a lado com ele em direção aos degraus. — Ele e o Angeal vão passar o fim de semana inteiro cobrindo a retaguarda de um comboio. Por isso a Marlene veio tão cedo.
Cloud assentiu silenciosamente, compreendendo a urgência. Ele olhou uma última vez por cima do ombro, observando Denzel rir de algo que Marlene havia desenhado, e um sorriso de canto genuíno moldou seu rosto antes de descer as escadas com Tifa para começar o dia.
O sino de bronze acima da porta de vidro não parava de tilintar, soando como um alarme constante. O Oitavo Luar havia sido engolido pelo caos do meio-dia graças à atracação de uma gigantesca balsa de turismo vinda do continente. Dezenas de turistas esfomeados, vestindo roupas de banho, camisas floridas e carregando câmeras, lotaram todas as mesas do salão interno e da varanda em questão de minutos.
O ar do restaurante estava pesado, saturado com o cheiro inebriante de peixe grelhado, alho frito, maresia e o burburinho alto de conversas sobrepostas.
Na cozinha, Tifa era um borrão de movimento. O suor já brilhava em sua testa enquanto ela operava três frigideiras simultâneas, usando a agilidade e a força absurda dos braços para virar postas de peixe e saltear legumes sem deixar nada queimar. O calor das bocas de fogo era intenso.
A porta de vai-e-vem da cozinha abriu com um solavanco e Cloud entrou a passos rápidos, prendendo três comandas de papel no trilho de metal pendurado acima da bancada.
— Duas porções de iscas de peixe e um risoto de polvo pra mesa sete! — Cloud ditou, a voz alta e focada cortando o chiado do óleo. — E a mesa dois tá perguntando das bebidas!
— Iscas saindo em dois minutos! — Tifa respondeu no mesmo tom, batendo o cabo de uma frigideira na grade do fogão. — Cloud, avisa a Inome que o especial da cinco já tá na boqueta! Não deixa esfriar!
Cloud assentiu rápido, deu meia-volta e mergulhou de volta no oceano de clientes. O salão operava em uma sincronia caótica, mas funcional. Ele interceptou Inome perto do balcão de bebidas; ela equilibrava uma bandeja redonda cheia de copos suados de suco gelado, o rosto levemente corado pelo ritmo frenético.
— Inome, o especial da cinco tá pronto! — Cloud avisou, passando por ela num esbarrão milimetricamente calculado. — Eu assumo os pedidos da varanda, foca na mesa dois que eles tão com pressa!
— Pode deixar! — Inome respondeu, desviando com agilidade de uma cadeira que um turista empurrou de repente. — E Cloud, avisa a Tifa que a mesa três pediu pra tirar a pimenta do caldo, pelo amor dos deuses!
Antes que Inome pudesse seguir para a mesa dois, uma sombra alta e familiar cruzou o salão.
Sephiroth deslizava por entre as mesas apertadas com uma fluidez que desafiava a física. A postura polida e imponente dele contrastava de forma hilária com o avental escuro amarrado na cintura, mas a eficiência era inegável. Ele carregava três pratos quentes de cerâmica equilibrados no braço esquerdo e dois no direito com uma destreza absurda, sem derramar uma única gota de molho. As conversas nas mesas próximas chegavam a diminuir quando ele passava, os turistas intimidados e fascinados pela figura plácida do homem de cabelos prateados.
— Com licença. O especial da casa — Sephiroth anunciou com sua voz grave e mansa, depositando os pratos na mesa cinco com movimentos perfeitamente calculados, arrancando murmúrios de agradecimento dos clientes surpresos.
Ele se virou, os olhos felinos varrendo o salão até encontrar Inome. Em dois passos largos, ele alcançou a esposa e tirou a bandeja de bebidas pesada das mãos dela com uma delicadeza contrastante.
— Eu levo as bebidas para a mesa dois — Sephiroth instruiu, o tom baixo, mascarando o instinto protetor sob a desculpa de ajudar no salão. — Tire o pedido da mesa nove, eles acabaram de fechar os cardápios.
Inome abriu um sorriso ofegante e agradecido, dando um tapinha rápido no braço dele.
— Entendido. Salva a Tifa lá dentro depois, o bicho tá pegando!
Sephiroth entregou as bebidas em tempo recorde e empurrou a porta da cozinha. Vendo Tifa lutar contra o tempo e o calor para finalizar as guarnições de seis mesas ao mesmo tempo, ele não hesitou. Arregaçou as mangas da camisa de algodão, lavou as mãos rapidamente na pia de inox e assumiu a estação das grelhas.
— Foque nas guarnições e nas frituras, Tifa — Sephiroth ditou, pegando uma pinça longa e já virando os filés de robalo que chiavam no fogo alto com precisão. — Eu assumo os grelhados e o ponto das carnes.
Tifa soltou um suspiro longo, enxugando a testa com as costas do pulso.
— Graças aos deuses, Seph! — ela exclamou, aliviada, já puxando três pratos fundos para montar os risotos. — O robalo da dez precisa de mais três minutos. Cloud acabou de pedir mais dois caldos sem pimenta!
— Considere feito — ele respondeu, sem tirar os olhos do fogo.
Lá fora, o sino da porta voltou a tilintar, anunciando que o fluxo daquela balsa estava longe de acabar, mas a mecânica daquela equipe havia se adaptado à pressão com a sintonia perfeita de uma família que sabia exatamente como cuidar uns dos outros.
O som abafado de pratos tilintando e o burburinho do restaurante lotado no andar de baixo contrastava com o silêncio monótono da sala de estar.
Kether estava largada no tapete felpudo de barriga para cima, os bracinhos abertos em cruz e os pezinhos descalços jogados sobre o assento do sofá. Ela encarava o teto fixamente, balançando as pernas curtas de um lado para o outro em um ritmo preguiçoso e arrastado, soltando pequenos resmungos de tédio.
No outro canto do tapete, Marlene soltou um sopro frustrado, escorando o queixo nas duas mãos. Os olhos escuros passavam pelas imagens coloridas da televisão, mas nenhum dos programas parecia prender a atenção dela. Ela já tinha mudado de canal três vezes com o controle remoto e absolutamente nada de legal estava passando.
Perto da mesa de centro, Denzel soltou um suspiro longo e pesado. Ele largou o lápis de cor verde em cima da folha de papel e esfregou os olhos com as costas da mão. O chão ao redor dele estava coberto de Chocobos e Moogles de papel, mas ele já estava exausto de tanto rabiscar e pintar na mesma posição. A inspiração tinha acabado.
— A gente não tem nada pra fazer... — Marlene comentou, a voz arrastada pelo desânimo enquanto continuava encarando a TV.
Kether concordou, deixando a cabeça cair para o lado no tapete e olhando para Denzel. O menino apenas encolheu os ombros, empurrando os lápis para o lado, sentindo que o dia inteiro parecia ter estacionado naquela sala de estar.
Marlene bufou, jogando o controle remoto no sofá. Ela se sentou com as costas retas e olhou para os dois, os olhos escuros brilhando com uma ideia muito melhor do que ficar trancada ali em cima.
— Quer saber? A gente devia pedir pra brincar lá fora, na praia — Marlene sugeriu, assumindo imediatamente um tom confiante e protetor de irmã mais velha. — Não tem problema, eu cuido de vocês.
O efeito foi instantâneo. Kether rolou no tapete e ficou de pé num solavanco, dando um pulinho de alegria. Denzel também levantou num pulo só, largando os papéis para trás, a exaustão sumindo de seu rosto em uma fração de segundo. O tédio havia evaporado.
O trio desceu a escada de madeira às pressas, parando no canto do salão para não ser atropelado pelos turistas ou pelas bandejas que cruzavam o restaurante. Eles vasculharam o ambiente com os olhos até encontrarem Inome perto do balcão de bebidas. Era o seu único minuto de pausa real desde que o movimento explodiu; ela estava encostada na madeira, com os olhos fechados, tomando um longo gole de um copo de água gelada.
— Mãe, praia! A gente quer a areia! — Kether disparou, correndo até ela e abraçando suas pernas, a voz esganiçada de empolgação.
— Tem umas pedras lá, a gente pode ir? — Denzel emendou no mesmo segundo, falando tão rápido e animado que atropelou as palavras da menina.
Marlene deu um passo à frente, erguendo a mão e interrompendo o falatório dos dois com a paciência que costumava ver Tifa usar.
— Calma, deixa que eu falo — Marlene cortou, arrumando a postura e olhando para Inome com a maior seriedade que conseguia reunir. — Tia Inome, a gente pode brincar ali nas piscinas de pedra na frente do restaurante? Eu prometo que tomo conta deles e não deixo ninguém ir pro fundo.
Inome abriu os olhos, baixando o copo de água. O peito ainda subia e descia rápido pelo cansaço do trabalho, mas ela não conseguiu evitar um sorriso carinhoso diante daquela pequena comandante. Ter Marlene ali era um alívio enorme.
— Tudo bem, podem ir — Inome concordou, afagando os cabelos de Kether e olhando para os três. Ela apontou para a enorme porta de vidro que dava para a varanda. — Mas prestem atenção: não saiam de jeito nenhum do meu campo de visão, fiquem só naquele pedaço ali da frente, ouviram? E se precisarem de qualquer coisa, é só gritar bem alto que a gente escuta. Pode ser?
Os três balançaram a cabeça em uma concordância apressada e, antes que Inome pudesse dizer mais alguma coisa, giraram nos calcanhares e correram em direção à areia.
Assim que os pés pequenos afundaram na areia morna, Kether correu direto para o canto da varanda de madeira, onde costumava largar sua coleção de baldinhos coloridos, forminhas de plástico e pazinhas. Denzel foi logo atrás, agachando-se ao lado dela sem precisar que pedissem. Com aquele seu jeito sempre prestativo, ele começou a juntar as pás espalhadas e a empilhar os baldes para ajudar a menina a carregar tudo até perto da água.
Enquanto os dois se distraíam com os brinquedos, Marlene parou no lugar. Ela colocou as duas mãos na cintura e varreu a orla com o olhar, inspecionando a distância entre as piscinas naturais de pedra e as grandes janelas de vidro do Oitavo Luar. Queria ter certeza absoluta de que estavam no campo de visão perfeito do restaurante.
— Ó, vocês escutaram a tia Inome, né? — Marlene avisou, engrossando um pouquinho a voz para soar mais responsável, apontando o dedo na direção dos dois. — Não é pra sair de perto daquelas pedras ali da frente. Se passarem do limite, eu vou ter que arrastar os dois de volta!
Kether, que já estava tentando equilibrar um baldinho verde cheio de forminhas em cima da própria cabeça, mal olhou para a amiga.
— Tá bom, tá bom, a gente sabe... — a garotinha concordou de qualquer jeito, sacudindo a mãozinha no ar com pura impaciência.
— Uh-hum, a gente fica aqui... — Denzel emendou na mesmíssima sintonia, a atenção completamente focada em desenterrar uma peneira amarela que estava afundada na areia, sem nem erguer os olhos.
Nenhum dos dois menores estava realmente prestando atenção no discurso de liderança de Marlene. A urgência de começar a brincar era muito maior. Percebendo que já tinha perdido totalmente a sua plateia para os brinquedos de plástico, a mais velha apenas soltou um suspiro longo, revirou os olhos e correu para alcançá-los rumo às pedras.
O som do Oitavo Luar formava uma trilha sonora constante e viva ao fundo. Era possível ouvir o tilintar agudo de talheres esbarrando na cerâmica, as risadas altas dos turistas na varanda e o chiado violento do óleo nas frigideiras de Tifa, que escapava pelas janelas abertas. O cheiro era uma mistura reconfortante e pesada de alho dourado, robalo grelhado e maresia, que o vento quente da praia carregava direto para o ponto onde as crianças brincavam.
De tempos em tempos, a porta lateral de serviço se abria com um rangido rápido. Cloud saía apressado para despejar embalagens vazias na lixeira, ou Sephiroth surgia, ainda com o avental amarrado à cintura, para descartar caixas de ingredientes. Apesar do caos e da urgência do lado de dentro, a rotina dos dois era idêntica: paravam ao lado dos latões por dois ou três segundos, estreitavam os olhos contra a claridade do sol e varriam a orla até encontrarem as três cabecinhas perto das pedras. Só depois de confirmarem que o trio estava seguro e exatamente onde Inome havia ordenado, giravam os calcanhares e mergulhavam de volta na pressão da cozinha.
Alheios à vigilância discreta, as crianças trabalhavam duro na própria missão. Kether estava sentada com as pernas abertas na areia úmida, rindo alto enquanto despejava seu balde verde cheio de água do mar dentro de um buraco que Denzel havia acabado de cavar, enchendo a pequena piscininha rasa. O garoto usava as duas mãos, completamente sujas de lama e areia, para alargar o fosso ao redor da estrutura, focado como se estivesse construindo uma fortaleza de verdade para protegê-las.
No centro de tudo, Marlene operava como a engenheira-chefe. Ela empilhava as forminhas de areia compactada com cuidado para erguer as torres altas de um castelo, batendo com as costas da pazinha de plástico nas laterais para alisar as paredes e evitar desmoronamentos. Os três operavam em uma sintonia perfeita, sujos de areia até os joelhos e perfeitamente em paz no comando do pequeno reino que haviam inventado.
Completamente alheios ao mundo ao redor, imersos na engenharia do castelo de areia, os três não notaram a pequena sombra redonda que cruzou o sol acima deles. Um som rápido e peculiar de asinhas curtas batendo cortou a brisa salgada, até que a criatura pousou de forma desengonçada nas rochas úmidas das piscinas naturais, a poucos metros de onde brincavam.
Era um Moogle de verdade. A pelagem branca e felpuda estava um pouco bagunçada pelo vento costeiro, as asinhas roxas de morcego encolheram-se nas costas, e o grande pompom vermelho preso à antena no topo de sua cabeça balançava preguiçosamente. Ele soltou um suspiro de pura exaustão, sentando-se no topo de uma pedra chata e lisa coberta de limo verde.
Com um sorriso aliviado, o Moogle enfiou uma das patinhas gordinhas dentro de uma pequena bolsa de couro a tiracolo e pescou o seu maior tesouro: uma Noz Kupo intacta, marrom, brilhante e com um cheiro adocicado inconfundível. Ele fechou os olhinhos, já salivando, e abriu a boca para dar a primeira e merecida mordida de seu almoço.
Mas a superfície da rocha era traiçoeira. Quando ele se ajeitou, a bundinha felpuda escorregou no limo. O Moogle deu um sobressalto para não cair e, no susto, a noz escapou de suas mãos. O alimento rolou, quicou com um clack seco na pedra de baixo e sumiu, caindo direto em uma fenda funda e escura entre os corais, bem perto da linha da água.
— Kupo! — o Moogle gritou, a voz fina e esganiçada ecoando em puro pânico.
Ele se atirou de barriga na pedra, espremendo a bochecha contra o limo frio enquanto tentava enfiar o bracinho curto na fenda, tateando o escuro em vão.
— Não, não, não! Minha noz! — Ele puxou o braço vazio de volta, batendo as duas patinhas na pedra num acesso de desespero cômico. O pompom vermelho em sua cabeça piscava agitado. — Que desastre, kupo! Era a minha última! O que um Moogle trabalhador e faminto vai comer agora, por favor, kupo?! Que mundo injusto!
O resmungo dramático e choroso foi alto o suficiente para furar a bolha de concentração das crianças.
Na areia, Kether congelou com o baldinho no ar, a água derramando e molhando seus pés. A garotinha arregalou os olhos, fascinada, achando que seu boneco favorito tinha acabado de ganhar vida. Denzel soltou um longo "Uau" sussurrado; ele largou a areia que segurava e limpou as mãos na bermuda, os olhos azuis maravilhados diante de uma criatura mágica de verdade, tão diferente dos ratos que via em Midgar.
Marlene, com a praticidade assumindo o controle, largou a pazinha. Ela ficou de pé, sacudiu a areia grossa dos joelhos e apertou os olhos na direção das pedras, já avaliando o problema daquela coisinha barulhenta.
Kether não pensou duas vezes. Ela largou o baldinho verde de qualquer jeito, deixando a água salgada escorrer livremente pela areia, e marchou até as pedras com passinhos apressados e curiosos. Parou bem de frente para a criatura, inclinando o tronco e apoiando as mãozinhas gordinhas nos joelhos. Os olhos dela brilhavam de pura adoração.
— As deusas escutaram meus pedidos? — Kether sussurrou, a voz esganiçada carregada de encanto. — Elas transformaram minha pelúcia do Rei Moogle em um de verdade?
O Moogle parou de esfregar as bochechas no limo da pedra e piscou seus olhinhos pretos para a garotinha. O pompom vermelho em sua cabeça balançou quando ele inclinou o rosto para o lado. Percebendo a inocência dela, ele decidiu entrar na brincadeira por um segundo, esquecendo a própria fome.
— Transformaram? Kupo! Bem, isso depende, mocinha — o Moogle respondeu, cruzando os bracinhos curtos e felpudos sobre a barriga. — Foi a deusa Minerva, cheia de luz? Ou a deusa Shiva do gelo? Tem a deusa Leviathan dos mares profundos também! Com tantas deusas poderosas por aí, me diga, qual delas você acha que fez essa mágica toda, kupo?
Antes que Kether pudesse escolher a sua deusa favorita para a resposta, Denzel parou ao lado dela. Ele enfiou as mãos sujas de areia nos bolsos da bermuda e estufou o peito de leve, assumindo aquela postura orgulhosa de quem tinha a resposta certa e queria mostrar que sabia as coisas.
— Ele não é uma pelúcia que virou mágica, Kether — Denzel explicou, o tom de voz sério e sabichão. — Ele é um Moogle de verdade. Eu vi o desenho dele igualzinho num dos livros pesados de fauna de Gaia que o tio Sephiroth e a tia Inome deixam na prateleira da sala. Eles são reais, voam e gostam de florestas.
O Moogle abriu a boca para confirmar a sabedoria do garoto, mas Marlene se meteu no meio dos dois, acabando com a aula de biologia e com o conto de fadas em um único segundo. Com as mãos na cintura, a postura idêntica à de Tifa quando exigia respostas, ela olhou direto para a criaturinha felpuda.
— Tá, tá bom. Ele é de verdade e tá nos livros, já entendemos — Marlene cortou, prática e impaciente. Ela apontou para a fenda escura entre os corais de onde o bicho não tirava os olhos. — Mas e aí? O que foi que você deixou cair nesse buraco pra estar fazendo esse escândalo todo no nosso castelo?
O Moogle deixou os ombrinhos caírem, as asinhas roxas murchando nas costas enquanto ele apontava dramaticamente para o buraco escuro entre os corais.
— Foi a minha Noz Kupo, por favor! — ele choramingou, esfregando a barriguinha redonda com as duas patinhas. — O tesouro mais delicioso, crocante e docinho de toda Gaia, kupo! Eu estava voando o dia inteirinho e ia comer meu almoço, mas ela escorregou e caiu lá embaixo!
Marlene não perdeu tempo. Ela se ajoelhou na pedra úmida, ignorando o limo verde que sujou seus joelhos, e espiou pela fenda. Denzel e Kether se espremeram logo atrás dela, quase encostando os rostos no ombro da mais velha, esticando os pescoços para conseguir enxergar a sombra da poça formada pela maré baixa.
A Noz Kupo não estava apenas caída na areia do fundo.
Alojado confortavelmente em uma poça rasa, um filhote de Giant Grab — um daqueles monstrinhos comuns e ranzinzas das praias de Costa del So — segurava a noz marrom com força usando uma de suas garras. O bicho ergueu a outra garra na direção das crianças e bateu as pinças com um estalo seco e agressivo. Clack-clack. O aviso territorial era claro: o tesouro era dele e ninguém deveria chegar perto.
— Kupo! Olha o tamanho das garras daquela coisa! — o Moogle guinchou, dando um pulinho para trás e escondendo o rosto peludo. — Ele vai quebrar o meu almoço ao meio!
Kether olhou do monstrinho ameaçador na poça para a barriguinha felpuda do Moogle e juntou as mãos, cheia de pena.
— Já sei! A tia Lani deixou uns docinhos de coco guardados lá em casa! — Kether exclamou, já dando um passo para trás na areia, pronta para correr. — Eu posso ir lá buscar pra ele comer!
Marlene esticou o braço no mesmo instante, segurando a barra do vestidinho da menina com firmeza.
— Nem pensar. A tia Inome deixou bem claro que é pra gente ficar só aqui — Marlene alertou, apontando o dedo de volta para as janelas de vidro do restaurante. — Se você sair da visão dela e entrar lá, a gente vai levar a maior bronca e nunca mais brinca aqui fora.
Enquanto as duas começavam a se estranhar, Denzel deu as costas para o buraco e caminhou alguns metros pela areia. Ele vasculhou os detritos trazidos pela maré alta até encontrar um galho de madeira resistente, alisado pela água do mar. Ele o recolheu, testou o peso girando o pulso e voltou para perto da poça com um sorriso confiante e prático no rosto.
— Não precisa de docinho nenhum — Denzel anunciou, segurando o galho com firmeza. — Eu tenho a solução.
Mas as meninas estavam imersas demais no próprio conflito para dar atenção a ele. A teimosia infantil já tinha escalado.
— Mas ele tá com fome, Marlene! — Kether bateu o pezinho descalço na areia, cruzando os braços e fazendo o seu melhor bico de irritação. — Aquele bicho mau vai quebrar a noz dele! Eu tenho que ir buscar o docinho pra salvar o Moogle!
— E eu já disse que não vai! Você ouviu o que a sua mãe falou! — Marlene retrucou, engrossando a voz e levantando o queixo, recusando-se a perder a autoridade.
— Mas ele não pode passar fome! Você é muito chata!
— E você é desobediente!
O Moogle arregalou os olhinhos pretos, olhando da menina de cabelos curtos para a pequena emburrada. O pompom vermelho em sua cabeça começou a piscar rápido em sinal de alerta. Ele deu um pulinho, entrando bem no meio das duas e sacudindo as patinhas curtas no ar para tentar parar a briga.
— Kupo! Meninas, por favor, não briguem, kupo! — o Moogle pediu, a voz fina esganiçada tentando apartar a confusão. — Minha barriguinha roncando não é motivo pra briga! A noz é importante, mas sem confusão, por favorzinho, kupo!
A discussão das duas foi interrompida pelo som seco do pedaço de pau batendo contra a pedra. Denzel pigarreou, segurando o galho firmemente com as duas mãos, e olhou para as meninas com uma expressão decidida.
— Ei, prestem atenção — Denzel chamou, a voz tranquila cortando a gritaria. Ele apontou o queixo para a poça rasa onde o filhote de Caranguejo Gigante estalava as pinças, agora muito bem identificado sob a luz do sol. — Não precisa de briga. Eu vou descer lá e pegar a noz de volta.
Marlene arregalou os olhos, o senso de responsabilidade atropelando qualquer espírito de aventura.
— Você ficou maluco?! — ela exclamou, apontando freneticamente para a fenda. — Se aquele Caranguejo Gigante prender a pinça no seu braço e você se machucar, o tio Cloud e a tia Tifa vão ficar furiosos comigo! Eu sou a mais velha, a culpa vai ser toda minha!
Mas antes que Marlene pudesse puxar Denzel pela camisa e arrastá-lo para longe dali, Kether já tinha se abaixado e pescado outro galho menor perdido entre as rochas. A garotinha apertou a madeira com força, fechou os olhinhos redondos em pura concentração e, em questão de segundos, uma pequena faísca de magia brilhou na ponta de seus dedos, envolvendo a ponta do graveto com um estalo luminoso e inofensivo.
— Não tem problema, eu ajudo ele! — Kether anunciou, estufando o peito, pronta para a batalha como se enfrentar crustáceos monstruosos fosse apenas mais uma brincadeira de roda.
Marlene ficou paralisada, os braços caindo moles ao lado do corpo. Ela olhou para Denzel empunhando o galho como um espadachim treinado e para Kether, do tamanho de um toco, conjurando magia de base sem o menor pingo de medo. Lentamente, a garota virou o rosto para a criaturinha felpuda sentada na pedra, a expressão completamente enlouquecida e incrédula.
— Sabe de uma coisa? — Marlene resmungou, a voz pingando uma ironia seca e exausta. — Eu achei que trombar com um Moogle falante e esfomeado na praia seria a coisa mais surreal do meu dia. Mas a falta de juízo absoluto desses dois consegue ser mil vezes pior.
O Moogle coçou a orelhinha com a pata traseira, balançando o pompom vermelho de forma pensativa.
— Kupo! A verdadeira coragem quase nunca vem do tamanho das asas, mocinha. Na maioria das vezes, ela vem de um coração muito bom... ou de uma falta de juízo muito grande mesmo, kupo! — a criaturinha filosofou, cruzando os bracinhos com um aceno sábio e resignado.
Antes que Marlene pudesse rebater o excesso de sabedoria do bicho, Denzel já havia escorregado com cuidado pela lateral da rocha, descendo até a beirada da poça rasa. Kether pousou logo atrás dele, segurando o graveto que ainda soltava pequenas e inofensivas faíscas brilhantes.
O filhote de Caranguejo Gigante recuou para a parte mais funda da poça, erguendo as duas pinças em posição de alerta máximo. A Noz Kupo continuava firmemente presa na garra esquerda, enquanto a direita estalava no ar.
— Denzel! — Kether avisou, parando atrás do garoto. A expressão dela ficou subitamente séria, a vozinha tentando imitar o tom calmo do pai. — O papai disse que a gente nunca deve matar as criaturas soltas na natureza. Eles só atacam porque acham que a gente é perigoso. A gente só precisa botar medo nele de volta pra ele largar a noz!
Denzel assentiu, os olhos azuis focados na carapaça do crustáceo. Empunhando o galho de madeira desgastada como se fosse uma verdadeira lâmina, ele avançou. O caranguejo atacou primeiro, desferindo um golpe rápido com a pinça livre. Denzel deu um passo lateral ágil e bloqueou o ataque com a madeira. Tlac! O som seco do casco batendo no galho ecoou pela fenda.
O menino cumpriu a regra. Não tentou machucar o bicho; em vez disso, usou o galho para bater na água e desviar a atenção, cutucando as pedras perto das perninhas do crustáceo para obrigá-lo a recuar. Foi uma luta justa e ritmada. O caranguejo estalava as pinças, defendendo seu território, enquanto Denzel usava a paciência e a movimentação para abrir a guarda da criatura. Mas o pequeno monstro era teimoso e apertava o tesouro do Moogle contra o peito com ainda mais força, recusando-se a ceder.
Foi então que Kether viu a brecha perfeita.
Ela apertou os olhinhos, focando toda a sua concentração na ponta do seu graveto.
— Solta o almoço dele! — ela gritou.
Um pequeno pulso de energia luminosa disparou da madeira. O feixe de magia não atingiu o caranguejo, mas acertou em cheio a casca dura da Noz Kupo. O impacto mágico gerou um estalo de luz brilhante e um tranco que assustou o monstrinho na mesma hora.
No susto, o caranguejo abriu a pinça e mergulhou rapidamente para se esconder debaixo de uma pedra submersa, são e salvo.
A Noz Kupo voou pelos ares, girando em um arco perfeito sobre a poça d'água. Denzel não pensou duas vezes. Ele largou o galho na água e, com um reflexo surpreendente, esticou os braços e capturou a noz no ar, prendendo-a firmemente contra o peito antes que ela pudesse bater nas rochas pontiagudas.
Marlene deixou os braços caírem moles ao lado do corpo, a boca levemente aberta enquanto processava a cena absurdamente dramática e heroica que acabara de presenciar em uma simples poça d'água.
— Eu não acredito que vocês conseguiram resolver uma briga com um caranguejo usando faísca de graveto... — ela murmurou, balançando a cabeça em pura incredulidade, mas com um sorriso orgulhoso e aliviado escapando no canto dos lábios. — Tio Cloud vai surtar quando eu contar isso.
O Moogle, por outro lado, estava em êxtase. Ele deu três piruetas no ar, batendo as asinhas roxas em uma velocidade impressionante, enquanto o pompom vermelho em sua cabeça piscava como uma luz de emergência festiva.
— Heróis! Meus pequenos heróis salvadores, kupo! — a criaturinha esganiçou, voando em círculos ao redor dos dois. — Vocês salvaram o meu almoço e a minha vida, por favorzinho, kupo!
Kether e Denzel não perderam tempo e começaram a escalar de volta as pedras úmidas. A garotinha subiu primeiro, com a ajuda de Denzel, que vinha logo atrás protegendo a noz marrom com uma das mãos. Ambos estavam com as pernas cheias de areia molhada e pequenos arranhões sem importância, mas os rostos transbordavam a pura glória de uma missão bem-sucedida.
Ao chegar no topo da rocha, Denzel abriu um sorriso largo e estendeu a mão, entregando a Noz Kupo intacta para a criatura felpuda.
— Toma. E tenta não sentar no limo da próxima vez pra não deixar cair — Denzel aconselhou, com a maior seriedade do mundo.
O Moogle agarrou a noz e a abraçou contra a barriguinha gordinha como se fosse o bem mais precioso de toda Gaia, esfregando a bochecha na casca dura.
— Muito, muito obrigado, kupo! Você tem os reflexos e a coragem de um grande guerreiro da floresta!
Denzel estufou o peito de leve, claramente satisfeito com o elogio da criatura mágica. Ele limpou um resquício de areia da bochecha com as costas da mão suja e olhou para Kether, que também sorria orgulhosa do amigo.
— Eu aprendi a lutar assim observando o tio Seph treinar lá no quintal — Denzel explicou, ajeitando a postura com confiança. — Ele sempre diz que a gente tem que ter paciência pra achar o momento certo de atacar. E funcionou!
O Moogle arregalou os olhinhos redondos, o pompom vermelho em sua cabeça balançando de um lado para o outro em puro fascínio.
— Kupo! Esse tal de tio Seph deve ser um herói e tanto para te ensinar truques tão bons, kupo! — a criaturinha exclamou, cruzando os bracinhos felpudos com absoluto respeito.
Kether não aguentou. Ela soltou uma risadinha gostosa, cobrindo a boca com as duas mãos sujas de areia.
— Ele não é um herói de história, ele é só o meu papai! — Kether corrigiu, os olhos brilhando de diversão. — E ele dá os melhores abraços de urso do mundo.
O Moogle piscou, assimilando a informação com um sorriso simpático. Sem perder mais tempo, ele levou a Noz Kupo até a boca e deu a primeira mordida. Um estalo crocante ecoou pelas rochas. O bicho fechou os olhos, soltando um gemido de pura satisfação enquanto comia a noz, com bastante calma.
Satisfeito com a primeira mordida, o Moogle bateu as asinhas roxas e flutuou apenas alguns centímetros, o pompom em sua cabeça brilhando com uma luzinha dourada que espalhou uma brisa com cheiro de doce.
Satisfeito com a primeira mordida, o Moogle bateu as asinhas roxas e flutuou apenas alguns centímetros, o pompom em sua cabeça brilhando com uma luzinha dourada que espalhou uma brisa com cheiro de doce.
— Que a sorte dos Moogles acompanhe vocês, kupo! — ele declarou, a vozinha afinada soando como uma bênção genuína. Ele pousou de volta na rocha úmida, dando tapinhas na barriga redonda. — Vou ficar sentado bem aqui e terminar o meu lanchinho em paz, por favorzinho, kupo.
Os três arregalaram os olhos ao mesmo tempo, a mesma ideia fantástica brilhando em suas cabeças. Um Moogle de verdade, ali, comendo tranquilo. Eles precisavam provar isso para os adultos.
— Espera aí! Não sai voando de jeito nenhum, fica bem sentado aí! — Marlene ordenou, apontando o dedo com firmeza para a criatura antes de virar para os meninos. — A gente tem que chamar o tio Cloud correndo pra ver isso!
— A mamãe ia gostar mais, ela tem que ver! — Denzel rebateu, já girando nos calcanhares e começando a correr pela areia fofa.
— Não, tem que ser a mamãe e o papai! — Kether gritou, correndo logo atrás do garoto, quase tropeçando nos próprios pés de tanta pressa e empolgação.
O trio disparou pela praia e invadiu o Oitavo Luar como um pequeno furacão. A porta de vidro bateu, e as três vozes infantis se misturaram em um coro eufórico e atropelado no meio do salão lotado. Eles chamavam por Cloud, Tifa, Inome e Sephiroth simultaneamente, gesticulando de forma frenética e atraindo os olhares curiosos dos turistas nas mesas.
Na cozinha, o calor e o ritmo dos pedidos não permitiam interrupções. Ao ouvir a gritaria infantil abafando o som das frigideiras, Sephiroth soltou a pinça de carne na bancada e limpou as mãos rapidamente no avental escuro.
— Deixem comigo. Eu vejo o que as crianças querem, não parem a linha de montagem — ele instruiu, a voz grave e perfeitamente calma cortando a tensão da cozinha.
Ele saiu para o salão antes que Tifa ou Cloud precisassem largar o fogão, interceptando os três no meio do caminho. Com um gesto suave, Sephiroth guiou as crianças de volta para a varanda, escapando do barulho interno. O trio falava sem parar ao mesmo tempo, misturando palavras sobre caranguejos gigantes, magias em gravetos e asas de morcego enquanto arrastavam o platinado em direção às piscinas naturais.
— Ele estava sentadinho bem ali, papai, eu juro! — Kether exclamou, correndo na frente e apontando ansiosa para a rocha.
Mas quando chegaram à beirada das pedras, o local estava vazio. A brisa costeira soprava calma, e não havia nenhuma criaturinha felpuda à vista. O Moogle já tinha ido embora.
A única prova de que a aventura inteira não havia sido fruto da imaginação dos três estava depositada com todo o cuidado em cima de uma pedra seca, fora do alcance da maré: uma Noz Kupo novinha em folha, marrom e perfeitamente polida, deixada ali como um agradecimento silencioso aos seus heróis.
Sephiroth se aproximou da rocha seca e recolheu a Noz Kupo com as pontas dos dedos. A casca marrom e polida contrastava com a mão grande e firme do platinado. Ele girou a semente lisa sob a luz do sol, sentindo o cheiro levemente adocicado que ela exalava, e um meio sorriso nostálgico quebrou a expressão normalmente serena de seu rosto.
— Faz muito tempo que não vejo uma dessas inteira — Sephiroth murmurou, a voz grave soando quase reflexiva enquanto olhava para a noz. — Acho que a última vez que cruzei com um Moogle, eu devia estar na minha adolescência. Eles são rápidos quando querem sumir.
A confirmação casual foi o suficiente para acender um barril de pólvora na cabeça das crianças. Os três começaram a pular no mesmo lugar, a euforia infantil transbordando.
— Então você acredita na gente?! — Marlene disparou, cruzando os braços e erguendo o queixo, querendo garantir que os adultos não iam achar que era invenção. — Você não acha que a gente tá mentindo só pra não levar bronca por ter brincado na água?
— Eu falei que ele tava aqui, tio Seph! — Denzel emendou, atropelando a fala da mais velha, os olhos azuis arregalados de pura empolgação. — E eu lutei com o caranguejo pra pegar a noz dele de volta! Igualzinho a gente treina!
— Ele era muito felpudo, papai! E o pompom dele acendia de verdade! — Kether gritou, agarrando a perna da calça de Sephiroth e dando pulinhos. — A gente salvou o almoço dele! Você acredita na gente, não é?!
Sephiroth guardou a Noz Kupo com cuidado no bolso do avental escuro. Ele se abaixou, apoiando um joelho na areia para ficar na altura dos três, ignorando completamente o fato de que sujaria a roupa de trabalho. Com uma tranquilidade que apenas um pai acostumado ao caos infantil conseguiria ter, ele olhou nos olhos de cada um deles.
— É claro que eu acredito em vocês — Sephiroth respondeu, o tom manso e encorajador. Ele afagou os cabelos de Kether e deu um aceno de aprovação para Denzel e Marlene. — Gaia é um lugar muito grande, cheio de criaturas que preferem não ser vistas. Se vocês acham que um Moogle tagarela e esfomeado na praia é uma grande surpresa, esperem até o dia em que virem um Cactuar correndo. Aqueles sim são estranhos e dão uma dor de cabeça enorme para pegar.
As crianças soltaram exclamações maravilhadas, a imaginação já correndo solta com a menção de mais um monstrinho bizarro. O platinado se levantou devagar, sacudindo a areia do joelho.
— Agora, o que acham de lavarmos essas mãos e guardarmos esse troféu lá dentro? A cozinha ainda precisa de ajuda, e aposto que Tifa e Cloud vão querer ouvir essa história inteira quando o movimento acalmar.
Kether agarrou os dedos da mão esquerda de Sephiroth com as duas mãozinhas, apertando firme enquanto dava pequenos pulinhos a cada passo na areia macia. O rosto dela estava iluminado, a pressa para espalhar a novidade quase a fazendo tropeçar nos próprios pés.
— Eu vou contar tudinho pra mamãe assim que a gente entrar! — Kether anunciou, a voz esganiçada de ansiedade. — Ela nem vai acreditar que a minha mágica na noz funcionou de verdade!
Marlene e Denzel caminhavam logo ao lado, acompanhando o ritmo calmo do platinado em direção às portas de vidro do restaurante. Denzel, ainda inebriado pela própria vitória e com o peito estufado, apressou o passo para garantir que Sephiroth escutasse todos os detalhes de sua estratégia.
— Eu espantei a criatura, tio Seph! — Denzel repetiu, gesticulando no ar como se ainda segurasse o galho de madeira. — Eu não deixei ele beliscar a noz e também não bati nele de verdade. Eu só fiz ele recuar, igualzinho você ensina!
Sephiroth diminuiu um pouco o ritmo da caminhada, olhando para o garoto. A expressão sempre tão austera e contida do homem suavizou-se, dando lugar a um olhar de aprovação genuína e afetuosa.
— E você fez exatamente o certo, Denzel. Estou orgulhoso da sua postura — Sephiroth afirmou, a voz grave transmitindo o peso de um elogio sincero, sem qualquer exagero. Ele olhou para as três crianças, reforçando a lição que sempre tentava passar nos treinos no quintal. — Lembrem-se sempre disso. Um verdadeiro guerreiro sabe que o nosso dever é proteger, e nunca machucar ninguém sem necessidade. A força existe para manter a paz.
Denzel abriu um sorriso largo, as bochechas corando sob a luz do sol, sentindo-se o garoto mais forte de Gaia com aquela validação. Marlene apenas deu um empurrãozinho amigável no ombro do amigo, rindo do orgulho dele enquanto pisavam no deck de madeira da varanda do Oitavo Luar.
A noite finalmente trouxe a calmaria. O caos do Oitavo Luar havia ficado para trás, substituído pelo conforto quente da sala de estar na casa de Inome e Sephiroth. O vento noturno de Costa del Sol batia suavemente contra as janelas, enquanto o cheiro doce de chocolate quente e biscoitos amanteigados de Zeio preenchia o ambiente.
No centro de tudo, repousando soberana sobre a mesinha de centro, estava a prova irrefutável daquela tarde: a Noz Kupo polida e brilhante.
Marlene estava quase em pé no tapete, gesticulando animadamente com a mão livre enquanto a outra segurava com cuidado a caneca fumegante, narrando a aventura mais uma vez.
— E aí, a faísca da Kether bateu bem na casca da noz! O caranguejo tomou o maior susto, estalou a pinça e sumiu debaixo da água, largando tudo! — Marlene contava, os olhos escuros arregalados de fascínio enquanto recriava a cena do resgate.
Tifa, sentada no sofá com as pernas encolhidas, levou a mão ao rosto, dividida entre o encanto puro e a preocupação inevitável de mãe.
— Eu ainda custo a acreditar nisso... — Tifa questionou, balançando a cabeça devagar, olhando de Denzel para Kether. — Vocês realmente entraram em uma disputa de território com um filhote de Caranguejo Gigante usando gravetos? Vocês deram muita sorte daquele bicho não ter beliscado ninguém!
Encostada no braço da poltrona grande onde Sephiroth descansava, Inome sorriu de forma acolhedora, segurando sua própria caneca. O olhar dela para as três crianças transbordava afeto.
— Independentemente do susto, vocês foram incrivelmente corajosos e trabalharam juntos. Não deixaram o Moogle na mão e, mais importante de tudo, ninguém saiu machucado — Inome elogiou, a voz aquecendo a sala. — Foi um verdadeiro trabalho de equipe. Vocês foram ótimos.
Marlene sentou-se no chão, cruzando as pernas, mas não deixou a oportunidade passar em branco.
— É, a gente trabalhou bem... Mas a Kether ainda é muito teimosa! — Marlene apontou, olhando direto para a garotinha menor que estava sentada perto de Denzel. — Ela bateu o pé e quase desobedeceu a regra de não sair de perto das pedras. Ela queria porque queria vir até aqui buscar os docos da tia Lani, no meio da confusão!
Kether inflou as bochechas na hora, apertando os lábios sujos de chocolate em um bico indignado e defensivo.
— Marlene, calma... — Tifa interveio, a voz muito doce, repreendendo a mais velha com um olhar carinhoso e paciente. — Você é a líder do grupo, precisa ter jogo de cintura. A Kether só ficou desesperada porque queria ajudar a criaturinha que estava com fome, não foi por maldade.
Inome suspirou de leve. Ela depositou sua caneca sobre a mesinha, ao lado da noz mágica, e cruzou os braços, assumindo aquela postura maternal que Kether conhecia perfeitamente bem.
— A Tifa tem razão, Marlene. Não havia necessidade de brigar ou gritar lá na beira da água, vocês poderiam ter resolvido isso conversando e mantendo a calma — Inome pontuou, a voz mansa. Mas, antes que a mais velha pudesse tentar argumentar, ela virou o olhar direto para a própria filha, estreitando um pouco os olhos. — Mas a Marlene estava certíssima sobre as regras, mocinha.
Kether encolheu os ombros na mesma hora, o bico desmanchando e o olhar caindo para o tapete felpudo.
— Se eu disse que era para ficar no campo de visão, você não pode simplesmente decidir sair correndo porque achou uma solução melhor na sua cabecinha — Inome continuou, o tom de repreensão banhado em carinho absoluto, mas sem deixar espaço para negociação. — A teimosia nunca pode ser maior que a sua segurança, Kether. Na próxima vez, você escuta a Marlene, combinado?
A garotinha olhou para baixo, mexendo no farelo de biscoito em seu colo, e assentiu devagar, sabendo que a mãe estava certa.
Kether ergueu os grandes olhos para Inome, o bico de indignação voltando com força total enquanto ela tentava usar a própria lógica contra a mãe.
— Mas mamãe! — Kether protestou, abrindo as mãozinhas sujas de biscoito. — A regra lá do quintal é ajudar quem tá triste! Se o bicho mau quebrasse a noz, o Moogle ia ficar com a barriguinha roncando. Eu não ia fugir, eu só ia lá rapidinho pegar o docinho pra ele!
Antes que Inome pudesse suspirar para rebater a desculpa, Sephiroth se inclinou da poltrona. Com a mão grande e movimentos surpreendentemente cuidadosos, ele começou a ajeitar os fios claros e despenteados do cabelo de Kether, penteando levemente com os dedos e colocando uma mecha teimosa atrás da orelhinha dela.
— Uma boa tentativa, Kether, mas a sua mãe tem toda a razão — Sephiroth pontuou, a voz grave soando mansa e afetuosa, sem deixar de reforçar o limite. — Se você sai de perto de todo mundo e some na praia, a gente ia ficar muito preocupado procurando você. Na próxima vez, escuta o que a Marlene falar, sem teimosia.
Kether soltou um muxoxo derrotado, as bochechas corando enquanto recebia o cafuné arrumado do pai, aceitando que não conseguiria vencer.
Notando a pequena frustração da menina e querendo aliviar o clima de vez, Cloud mudou de posição do outro lado da sala. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, segurando sua caneca fumegante com as duas mãos, e lançou um olhar curioso para o trio sentado no tapete.
— Tem uma coisa muito importante dessa história toda que vocês esqueceram de contar — Cloud comentou, o tom casual e levemente divertido prendendo a atenção das crianças na mesma hora. — Vocês espantaram o caranguejo, salvaram a comida e ganharam essa Noz Kupo inteira de presente... Mas vocês pelo menos lembraram de perguntar o nome dele?
Kether ouviu a pergunta de Cloud e não hesitou nem por um segundo. Ela estufou o peitinho, largou o restinho de biscoito no guardanapo e levantou a mão, tomando a frente da conversa com a confiança inabalável que só uma criança de três anos poderia ter.
— O nome dele é Rei Moogle! — Kether anunciou em alto e bom som, os olhos brilhando de certeza. — Igualzinho ao meu lá do quarto!
Denzel balançou a cabeça quase na mesma hora, cortando a fantasia da amiga com a sua costumeira sinceridade. Ele olhou para Cloud, ajeitando-se no tapete felpudo.
— A gente não perguntou o nome dele, pai — Denzel explicou, direto e literal. — Ela que tá chamando ele assim porque acha parecido. A verdade é que ele só falava "kupo" o tempo todo e chorava por causa da comida.
Marlene assentiu, dando de ombros antes de dar mais um gole em seu chocolate quente.
— É, a gente não perguntou mesmo — ela confirmou, com a sua praticidade habitual. — Com a gritaria do caranguejo e a pressa de fazer ele esperar paradinho pra vocês verem, ninguém nem lembrou desse detalhe. A gente só queria trazer a prova.
Inome olhou para Tifa por cima da borda da caneca, um sorriso suave e cúmplice despontando no rosto. Tifa captou a ideia na mesma hora, ajeitando-se no sofá com um brilho divertido no olhar.
— Já que ninguém perguntou o nome verdadeiro dele — Inome começou, apoiando a caneca no pires —, o que acham de darmos um nome simbólico para ele?
— Seria perfeito para guardar de lembrança da aventura de vocês hoje — Tifa completou, incentivando o trio.
Kether deu um pulinho no tapete, levantando a mãozinha na mesma hora. — Rei Moogle!
Denzel franziu a testa, balançando a cabeça em discordância. — Não, Kether, Rei Moogle é o seu boneco de pelúcia. O nome dele devia ser Esfomeado. Ele não parava de chorar por causa de comida.
Marlene revirou os olhos, descartando a ideia dos dois com a praticidade de sempre. — Esfomeado é feio, e Rei Moogle não faz sentido. Ele devia se chamar Azarado, porque foi ele mesmo que escorregou e deixou o almoço cair no buraco.
— Não! É Rei Moogle sim! — Kether rebateu, cruzando os bracinhos e fazendo bico. — Azarado é muito melhor! — Marlene insistiu.
Antes que o atrito infantil pudesse virar uma verdadeira discussão na sala, Cloud suspirou, balançando a cabeça com um sorriso de canto. Ele se levantou devagar, caminhou até o aparador perto da porta e pegou um pequeno bloco de notas e uma caneta. Retornando para a mesinha de centro, ele se abaixou perto das crianças e escreveu os três nomes no papel em letras de fôrma bem nítidas, um embaixo do outro.
Cloud destacou a folha e a colocou em cima da mesa, bem ao lado da brilhante Noz Kupo.
Marlene bateu os olhos no papel e leu rapidamente a última linha, apontando para o seu nome escolhido. Kether, reconhecendo a letra inicial bem grande e arredondada que sempre via em seus livrinhos no quarto, apontou para a primeira palavra, declarando sua vitória com um sorriso vitorioso.
Denzel se inclinou um pouco mais sobre a mesa. Ele acompanhou as letras da palavra do meio com a ponta do dedo indicador, franzindo levemente as sobrancelhas em concentração.
— Es... fo... me... a... do — Denzel leu em voz alta, a voz pausada e cuidadosa enquanto juntava as sílabas uma por uma. Ao terminar a palavra inteira, ele abriu um sorriso satisfeito e olhou para Cloud.
Do outro lado da sala, encostado confortavelmente no encosto de sua poltrona, Sephiroth apenas observava a dinâmica da família. Ele levou a caneca aos lábios e deu um gole lento no chocolate quente, o olhar calmo acompanhando o pequeno pedaço de papel na mesa e o sorriso das crianças.
Cloud bateu a ponta da caneta no bloco de notas, pensando por um momento antes de dar a sua sugestão.
— Que tal Sortudo? — ele sugeriu, apontando com a caneta para a noz. — Ele deu muita sorte de vocês estarem lá para salvar a comida dele.
As três crianças fizeram uma careta quase idêntica na mesma hora. Denzel torceu o nariz.
— Sortudo é nome de cachorro de filme, pai. Não combina.
Tifa se inclinou para frente no sofá, entrando na brincadeira.
— E Pompom? Por causa daquela bolinha vermelha brilhante na cabeça dele. É bonitinho.
Marlene e Denzel balançaram a cabeça, e até Kether fez que não com o dedo indicador.
— Ele não é bonitinho, tia Tifa, ele é da floresta — Marlene descartou a ideia com sua praticidade implacável.
Inome, rindo da exigência dos três juízes no tapete, tentou a sorte.
— E que tal Amendoim? Já que ele gosta tanto de sementes e nozes.
Kether abriu um sorriso enorme e deu um pulinho no lugar.
— Eu gostei de Amendoim! É muito legal! — ela comemorou, mas sua alegria durou pouco. Denzel e Marlene trocaram um olhar rápido e cortaram a ideia.
— Amendoim é de comer, tia Inome, não é nome de ninguém — Denzel argumentou, encerrando o assunto com pura lógica.
Sephiroth abaixou a caneca de chocolate quente. Ele olhou para o bloco de notas e depois para o pequeno comitê sentado ao redor da mesinha de centro.
— Sobrevivente — Sephiroth sugeriu, a voz grave e perfeitamente serena. — Ele escapou de um predador na praia e recuperou o próprio almoço.
Kether arregalou os olhos, franzindo a testa enquanto tentava processar o tamanho da palavra que o pai tinha acabado de falar.
— So-bre-vi... ente! É um nome muito grandão, papai! Eu gostei! — ela comemorou, batendo palminhas e rindo da palavra difícil.
Mas, mais uma vez, Denzel e Marlene não se impressionaram e vetaram a opção da garotinha.
— Tio Seph, ele não sobreviveu lutando. Ele só sentou na pedra, escondeu o rosto e chorou — Denzel pontuou.
— É, foi a gente que fez tudo — Marlene concordou, balançando a cabeça.
Os três se entreolharam em silêncio por alguns segundos. A teimosia infantil pairou no ar enquanto eles encaravam os três nomes escritos no papel e a Noz Kupo brilhante ao lado. Marlene sussurrou algo no ouvido de Denzel, que assentiu pensativo e cochichou algo para Kether. A garotinha deu uma risadinha, concordando com a cabeça.
Eles se viraram para os adultos ao mesmo tempo, as costas eretas e os rostos decididos.
— A gente chegou num acordo — Marlene anunciou, assumindo a liderança.
E então, sem errar o tempo, as três vozes infantis soaram na sala em perfeito uníssono:
— Rei Esfomeado!
A risada coletiva dos adultos encheu a sala, aquecendo ainda mais o clima da noite. Tifa precisou apoiar a caneca no joelho para não derramar o chocolate quente, enquanto Inome cobria o rosto com uma das mãos, rindo da lógica impecável e literal do trio. Sephiroth acompanhou a esposa, soltando uma risada grave e perfeitamente solta, completamente à vontade com o conforto de sua casa, balançando a cabeça diante do consenso irrefutável das crianças.
Cloud riu baixo, um som soprado e genuíno. Ele se inclinou para frente e puxou o pedaço de papel solto que já estava em cima da mesinha.
— Rei Esfomeado. Tá certo, não tem como discutir com os fatos — Cloud concordou, a voz carregada de bom humor.
Com a caneta em mãos, ele riscou as três opções anteriores e escreveu Rei Esfomeado bem no centro da folha, com letras grandes para que as crianças pudessem identificar. Em seguida, ele se esforçou para rabiscar um pequeno Moogle ao lado do nome. O resultado foi um desenho bem torto e amador: uma bolinha gordinha com asinhas irregulares e um pompom desproporcional que parecia mais um círculo amassado flutuando em cima da cabeça.
Ainda assim, satisfeito com sua arte duvidosa, ele encostou o papelzinho de volta na verdadeira Noz Kupo, como se fosse uma placa de museu.
Kether se esticou no tapete, apoiando as mãozinhas na borda da mesa para ver de perto. Apesar dos traços desajeitados de Cloud, os olhos redondos dela brilharam de encantamento com a figura. Denzel e Marlene se debruçaram logo em seguida, aprovando com acenos sérios o registro oficial da missão. A prova da aventura na praia agora estava completa e devidamente documentada.

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