sábado, 5 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - O garoto

 
 

 
 
O salão do Oitavo Luar estava imerso no cheiro reconfortante de maresia, temperos tostados e peixe assado. O restaurante operava em ritmo constante, mesclando a estrutura rústica de madeira com a claridade litorânea da Costa del Sol. Na cozinha aberta, Tifa girava entre as chamas dos fogões, com o cabelo preso em um rabo de cavalo alto, coordenando as panelas com precisão enquanto virava filés e finalizava as guarnições dos pratos do dia.
Em um canto seguro e visível, próximo ao balcão, Kether estava sentada no chão, completamente concentrada enquanto fazia duas pelúcias de Moogle "conversarem", batendo os pompons vermelhos um contra o outro.
No salão, Sephiroth parou diante de uma das mesas. A postura reta e impecável contrastava de forma peculiar com o avental escuro amarrado na cintura. Ele segurava um pequeno bloco de notas, focado no cliente à sua frente.
— Um robalo na brasa com crosta de ervas e duas porções de batatas rústicas — Sephiroth confirmou, a voz grave e mansa soando com total polidez. — O ponto do peixe será o da casa. Desejam que as bebidas sejam servidas de imediato?
Enquanto o cliente assentia rapidamente, Inome aproximou-se da mesa logo ao lado. Ela deslizou pelo espaço com uma bandeja perfeitamente equilibrada em uma das mãos, distribuindo copos suados de bebida gelada e pratos de acompanhamento com um sorriso ágil e passos rápidos.
— Pedido da mesa seis na boqueta! — Tifa avisou em voz alta, batendo a mão no sininho prateado do balcão da cozinha.
Perto do caixa, o telefone fixo do restaurante começou a tocar. Cloud, que estava encostado organizando algumas contas, puxou o gancho.
Oitavo Luar, boa tarde — ele atendeu, com o tom prático de sempre.
Do outro lado da linha, uma voz ligeiramente esnobe e apressada começou a ditar um pedido colossal. Era um banquete completo para viagem: peixes grandes, guarnições dobradas, caixas térmicas e vinhos caros. Cloud pegou a caneta, apoiando o bloco no balcão e acompanhando as exigências.
— Certo. Entrega na Alameda dos Corais, Mansão 12, na área da Marina Alta. Anotado.
Ele desligou o telefone, arrancou a folha longa preenchida do bloco e caminhou direto para a cozinha. Cloud pendurou a comanda no trilho de alumínio, bem na linha de visão de Tifa.
— Pode separar as caixas térmicas maiores. Entrega pesada lá pra área nobre — Cloud avisou.
Tifa puxou a comanda do trilho de alumínio e secou as mãos no avental. Os olhos castanhos correram pela lista extensa, e ela arregalou os olhos levemente, virando-se para o loiro com uma expressão desconfiada.
— Tudo isso, Cloud? — Tifa questionou, apontando para o papel. — Você tem certeza de que não é golpe? Não seria a primeira vez que alguém tenta passar a perna na gente com um pedido falso gigante.
Cloud balançou a cabeça em negativa, encostando o ombro no batente da porta da cozinha com a habitual tranquilidade.
— Não é golpe. Dava pra perceber pela forma que a pessoa falava. Era aquele tom engessado, impaciente e cheio de arrogância, sotaque típico de gente rica que mora na marina. Eles têm dinheiro de sobra para pagar.
Tifa suspirou, o pragmatismo assumindo o controle enquanto ela passava os olhos rapidamente pelas estações de preparo.
— Certo. Mas para dar conta dessa quantidade de peixe e acompanhamento de uma vez só, vou precisar de fogo máximo. — Ela ergueu a voz para o salão. — Sephiroth, reforços na cozinha, por favor!
No meio do salão, o platinado apenas assentiu. Ele entregou o bloquinho de notas para a esposa com um gesto suave e caminhou com passos largos para trás do balcão, pegando a faca de corte e assumindo a estação ao lado de Tifa com total precisão e agilidade.
Inome acompanhou o movimento do marido com o olhar e soltou um suspiro longo, levando a mão à base da coluna enquanto dava uma leve esticada.

— Ai, minhas costas... — Inome resmungou baixinho, fazendo uma careta rápida antes de arregaçar as mangas e se virar para Cloud. — Vem, deixa eu te ajudar a separar as caixas térmicas grandes lá no fundo antes que a Tifa comece a empilhar as travessas quentes.
Enquanto os adultos se desdobravam para organizar a logística da entrega pesada, alheia à correria do restaurante, Kether continuava sentada no seu cantinho seguro. A garotinha balançava as pelúcias no ar, completamente imersa em seu próprio mundo, engrossando a voz para dar vida ao primeiro boneco.
Entregue logo todos os seus bolinhos de coco, kupo! Eu sou o grande pirata dos mares! — ela fez o Moogle dar um pulinho agressivo para frente.
Em seguida, ela afinou a vozinha para encarnar o herói da história, batendo os pompons vermelhos das duas pelúcias de forma estabanada, simulando um duelo épico.
Você nunca vai roubar meu navio, seu monstro malvado, kupo! Toma a minha espada de madeira!
Na área dos fundos do restaurante, Cloud puxou três caixas térmicas grandes da prateleira inferior, empilhando-as no chão enquanto Inome verificava o estado das travas de segurança de cada uma.
— Sabe, eu nunca fui pros lados da Marina Alta — Cloud comentou, passando a mão na nuca, a tensão evidente na voz. — É muita comida de uma vez só pra um pessoal que tem cara de que reclama se a fita da sacola estiver meio torta. Confesso que tô meio nervoso de dar algum problema no trajeto.
Inome soltou um riso anasalado, dando um tapinha encorajador no braço dele.
— Cloud, relaxa. Você faz o seu serviço perfeitamente bem — ela rebateu, testando a alça de mais uma caixa térmica. — Esqueceu que semana passada você levou aquela encomenda enorme pro condomínio de luxo nas falésias? E no mês passado, fez aquela entrega dupla pros donos da rede de hotéis na orla norte? Eles ligaram aqui no dia seguinte só pra elogiar. Falaram que a comida chegou pelando de quente e que você foi super ágil.
Cloud soltou um suspiro longo, absorvendo as palavras dela. A postura rígida cedeu um pouco enquanto ele pegava duas das caixas pesadas do chão com facilidade.
— É... você tem razão — ele murmurou, esboçando um sorriso pequeno, mais confiante.
— Eu sempre tenho — Inome piscou, com um sorriso divertido. — Agora pega o resto e vamos levar lá pra frente que a Tifa já deve estar terminando a primeira leva.
Na cozinha, o calor das grelhas e das fritadeiras dominava o ambiente. Tifa e Sephiroth trabalhavam em uma sincronia silenciosa e eficiente, acostumados com o ritmo pesado do restaurante. Sephiroth estava totalmente focado na grelha principal, manuseando os filés de robalo com movimentos precisos e calmos, garantindo que a crosta de ervas ficasse perfeitamente dourada sem ressecar o interior do peixe. Logo ao lado, Tifa cuidava das grandes cubas, sacudindo os cestos de batatas rústicas para que fritassem por igual e ficassem crocantes, antes de despejá-las nas travessas de metal para temperar.
Assim que Cloud e Inome entraram na cozinha carregando as caixas térmicas vazias, Tifa desviou os olhos do fogão por um segundo.
— Cloud, aproveita e já vai separando as bebidas desse pedido, por favor — Tifa pediu, apontando com a escumadeira na direção da comanda enquanto escorria mais uma leva de batatas. — Estão pedindo várias garrafas de vinho branco e sucos. Tá tudo na geladeira dois.
— Pode deixar — Cloud assentiu. Ele deixou as caixas térmicas sobre a bancada de inox e virou as costas, indo direto para os refrigeradores ao fundo.
Na grelha, Sephiroth começou a finalizar a primeira leva do banquete. Com agilidade, ele transferia os peixes perfeitamente assados para as grandes embalagens de viagem, adicionando as porções generosas de batatas que Tifa repassava na sequência. Ele fechava e lacrava cada recipiente de forma metódica, deslizando-os pela bancada.
Inome assumiu a ponta da linha de montagem. Conforme Sephiroth finalizava os pedidos quentes, ela os pegava e acomodava com todo o cuidado dentro das caixas térmicas, organizando o espaço como um quebra-cabeça para que nada virasse, amassasse ou perdesse o calor durante o longo trajeto até a marina.
Sephiroth lacrou a última embalagem de peixe e a deslizou pela bancada de inox, finalizando a sua parte do pedido. Ele limpou as mãos no pano de prato preso ao avental e se inclinou levemente, depositando um beijo suave e demorado na testa de Inome. A morena ergueu o rosto, e os dois trocaram um olhar profundo e apaixonado, compartilhando um instante de pura cumplicidade no meio da agitação da cozinha.
O som do pequeno sino acima da porta principal tocou, ecoando até os fundos e anunciando a chegada de novos clientes no salão. Sephiroth desfez o contato com um sorriso sutil, ajustou a postura e caminhou de volta para a área das mesas, pronto para retomar o atendimento.
Enquanto isso, Tifa desligou o fogo da última cuba e Inome fechou os zíperes reforçados das caixas térmicas. Juntas, as duas terminaram de ajeitar e alinhar todo o banquete de forma segura sobre a bancada, deixando a encomenda colossal perfeitamente organizada e pronta para a viagem.
No salão, Sephiroth já recepcionava o grupo recém-chegado com sua habitual postura impecável, guiando-os até uma das mesas vazias perto da janela com um aceno polido. Enquanto isso, na porta dos fundos do restaurante, Tifa, Inome e Cloud faziam um esforço conjunto para acomodar o volume imenso do pedido na moto de entregas.
Eles ajeitaram as pesadas caixas térmicas no bagageiro traseiro e prenderam as bolsas reforçadas com as garrafas de vinho nas laterais. Cloud esticou as cordas elásticas, travando os ganchos com força no metal para garantir que absolutamente nada balançasse.
Tifa deu uma última conferida na comanda de papel e estendeu a folha na direção do loiro.
— Alameda dos Corais, Mansão 12. Marina Alta. É isso mesmo, Cloud? — ela perguntou, querendo garantir que não haveria nenhum desvio na rota.
Cloud pegou o papel, passando os olhos pelas anotações rapidamente antes de dobrá-lo e guardar no bolso. Ele ajeitou as luvas e assentiu com um sorriso confiante para ela.
— Mansão 12, Marina Alta. Confere — Cloud confirmou, já montando no veículo. — Pode deixar, Tifa. Vai chegar tudo inteiro e pelando de quente.
Ele girou a chave e o motor roncou forte, preenchendo o beco com o som grave. Tifa e Inome deram um passo para trás para sair do caminho do escapamento. As duas abriram sorrisos largos e ergueram as mãos, acenando de forma animada para o amigo.
— Vai com cuidado! — Inome gritou por cima do barulho do motor.
— Boa sorte na área rica! — Tifa emendou, ainda acenando sem parar.
Cloud ergueu a mão em um aceno rápido e firme, devolvendo o sorriso. Ele abaixou a viseira, engatou a marcha e acelerou, saindo do pátio do Oitavo Luar e partindo para a estrada ensolarada em direção ao destino.
O trajeto do centro comercial até a Marina Alta era um contraste nítido de realidades. Cloud pilotou a moto contornando a orla principal de Costa del Sol, sentindo a brisa salgada do mar bater contra o rosto. Ele deixou para trás as ruas de paralelepípedo, as barracas de praia lotadas e o barulho dos turistas, entrando em uma via perfeitamente asfaltada e silenciosa, cercada por palmeiras altas. Lentamente, as casas rústicas e coloridas deram lugar a propriedades imensas com muros brancos, portões de ferro forjado e carros luxuosos estacionados nas calçadas.
Ele reduziu a marcha ao entrar na Alameda dos Corais, acompanhando a numeração até parar a moto em frente aos grandes portões da Mansão 12. O lugar era imponente, com uma arquitetura moderna e uma vista privilegiada para os iates ancorados nas águas claras da marina logo abaixo.
Cloud desligou o motor, abaixou o descanso da moto e tirou as luvas. Ele puxou o papel dobrado do bolso, desdobrando-o para conferir o nome da pessoa anotado no topo da comanda antes de se anunciar.
"Senhorita Donavan", ele leu mentalmente, decorando o nome para não cometer nenhuma gafe.
Cloud guardou a comanda de volta no bolso e caminhou até a entrada. Ele ajeitou a postura, esticou o braço e apertou o botão prateado do interfone ao lado do portão principal, aguardando pacientemente que alguém atendesse
O portão de ferro destravou com um bipe eletrônico, revelando uma longa rampa de pedras claras cercada por um jardim impecável. Como a mansão ficava muito recuada, bem distante da rua, e a entrada era estreita, Cloud precisou deixar a moto estacionada lá embaixo, rente à calçada. Ele caminhou por toda a extensão da subida até alcançar a imensa porta dupla de madeira maciça.
Após tocar a campainha, esperou alguns instantes até a porta ser aberta por um senhor alto, de postura milimetricamente ereta e vestindo um terno escuro alinhado.
— Boa tarde — o homem se apresentou, a voz polida e neutra. — Sou Bernard, o mordomo da senhorita Donavan. Presumo que seja a encomenda do restaurante. — Boa tarde. Sou eu mesmo — Cloud respondeu. — O pedido é bem volumoso e a moto ficou estacionada lá na rua. Vou precisar fazer algumas viagens para trazer tudo até aqui. — Compreendo perfeitamente — Bernard assentiu, abrindo um pouco mais a porta para revelar um carrinho de serviço no hall. — Aguardarei aqui na entrada para receber os pacotes. Fique à vontade.
Cloud concordou e desceu a rampa. Na primeira viagem, ele pegou metade das caixas térmicas mais pesadas, equilibrando-as sem esforço e subindo a ladeira até entregá-las ao mordomo. Na segunda viagem, o trajeto se repetiu: ele desceu até a moto, recolheu todas as bolsas reforçadas com os vinhos e os sucos e voltou para a porta da mansão, deixando tudo intacto no carrinho de Bernard.
Foi apenas na terceira e última viagem que o ritmo de Cloud quebrou.
Enquanto se aproximava da moto para pegar a última caixa térmica, que continha o restante das porções de peixe e batatas, ele notou que a trava de segurança estava solta e a tampa, escancarada. Seus passos desaceleraram imediatamente. Encolhido no chão, quase escondido contra a roda traseira da moto, havia um garoto.
Ele não devia ter mais do que cinco anos de idade. Era visivelmente magro e vestia roupas encardidas, grandes demais para o seu tamanho e com as barras esfarrapadas. O cabelo castanho estava desgrenhado, cheio de nós e caindo sobre o rosto pálido e sujo de poeira. Com as mãos pequenas e trêmulas lambuzadas de óleo e ervas, o menino segurava um pedaço generoso de robalo assado, mastigando a carne de forma urgente e desesperada.
Ao ouvir os passos pesados de Cloud parando ao lado da moto, o garoto congelou. Ele ergueu o rosto devagar, com o peixe ainda a centímetros da boca, e os olhos arregalados brilharam em puro terror.
O instinto de sobrevivência do garoto gritava para que ele corresse, mas a fome era maior. Ele se encolheu ainda mais contra o pneu da moto, fechando os olhos com força, esperando o golpe ou o grito que estava acostumado a receber.
Mas o golpe não veio.
— Ei... calma — Cloud falou, a voz baixa, rouca e totalmente desprovida de agressividade. Ele ergueu as duas mãos vazias na altura do peito, mostrando que não era uma ameaça. — Eu não vou fazer mal a você. Pode continuar comendo.
O garoto abriu um dos olhos, espiando o loiro com total desconfiança, ainda tremendo.
— Só... me espera um pouquinho, tá bom? Não foge — Cloud pediu, mantendo o tom suave.
Sem fazer movimentos bruscos, Cloud virou as costas e subiu a longa rampa de pedras a passos largos, deixando o garoto para trás com a caixa térmica. Ao chegar novamente à imensa porta de madeira, Bernard o aguardava com o carrinho.
— Aconteceu algum problema, senhor? — o mordomo perguntou, notando que o loiro estava de mãos vazias.
— Houve uma falha minha — Cloud mentiu, a expressão séria e inabalável. — Eu acabei esquecendo a última caixa térmica lá no Oitavo Luar. Preciso voltar ao restaurante para buscar. Peço desculpas pelo transtorno.
Bernard assentiu de forma polida, sem demonstrar qualquer aborrecimento.
— Compreendo perfeitamente. Avisarei a senhorita Donavan sobre o ocorrido. Vá com segurança e não se preocupe, aguardaremos o seu retorno com a última parte da encomenda.
Cloud agradeceu com um aceno breve e desceu a rampa novamente. Ao se aproximar da rua, o coração apertou por um segundo com o medo de que o garoto tivesse fugido, mas logo a silhueta pequena apareceu. O menino continuava exatamente no mesmo lugar. Ele havia devorado quase todo o pedaço de robalo, mas ainda mastigava com pressa, os olhos arregalados acompanhando cada passo do loiro, ainda apavorado e pronto para fugir se Cloud levantasse a mão.
Cloud parou a uma distância segura. Ele abaixou-se devagar, apoiando um dos joelhos no asfalto para ficar na mesma altura da criança, diminuindo qualquer sombra de intimidação.
— Tava bom? — Cloud perguntou mansamente.
O garoto hesitou, engolindo o peixe com dificuldade, e apenas concordou com a cabeça, um movimento mudo e assustado.
— Qual é o seu nome? — Cloud continuou, a voz tranquila.
— Denzel... — a vozinha saiu fraca, quase um sussurro rouco.
— É um nome legal, Denzel. Eu sou o Cloud. — Ele apontou o polegar para o próprio peito. — O que você tá fazendo tão longe de casa? Cadê a sua família?
Denzel abaixou os olhos para as próprias mãos sujas de óleo, os ombros magros encolhendo.
— Eu não tenho mais família... Eles morreram lá em Midgar. Meus pais trabalhavam naquele prédio gigante da Shinra. Disseram que um cientista ficou louco, soltou um gás verde e um monte de monstros lá dentro... e eles não conseguiram fugir.
Cloud sentiu um soco invisível no estômago. O massacre no Edifício Shinra. O garoto era uma vítima direta da loucura do Hojo, alguém cuja vida foi destruída pelas mesmas abominações que a Vanguarda e a Avalanche lutaram para eliminar.
— Sinto muito, Denzel — Cloud disse, a empatia transbordando em seu olhar azul. Ele inclinou o corpo levemente para frente. — Mas com quem você tá morando agora? Como veio parar aqui?
— Eu vim com uma família num caminhão... mas eles disseram que não dava pra me alimentar. Me deixaram numa casa, mas a moça brigava muito. Aí me deram pra outro moço... mas ele não me quis porque eu dava trabalho — Denzel explicou, esfregando o rosto com as costas da mão e sujando ainda mais a bochecha pálida de graxa. Ele fungou, as lágrimas começando a se misturar com a sujeira. — Ninguém me quer. Eu tô dormindo na rua faz uns dias.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Cloud olhou para aquele menino pequeno, rejeitado, faminto e completamente sozinho no mundo. O loiro viu o próprio reflexo naqueles olhos amendoados e assustados — a mesma sensação de não ter um lar, de ser um fardo e de não pertencer a lugar nenhum, algo que ele conhecia muito bem antes de Tifa lhe dar um propósito.
Cloud não precisou pensar muito. Ele já sabia exatamente o que ia fazer.
Cloud diminuiu ainda mais a distância, sentando-se de vez no asfalto com as pernas cruzadas. Ficar no mesmo nível do garoto era o único jeito de quebrar aquela barreira de pânico. Ele apontou com a cabeça para o peixe que Denzel ainda segurava com força.
— Estava bom mesmo? — Cloud perguntou mais uma vez, o tom quase casual.
Denzel hesitou, mas assentiu devagar, os olhos ainda fixos em cada movimento do loiro.
— Sabe, tem muito mais de onde esse peixe veio. — Cloud continuou, apoiando os braços nos joelhos. — Eu moro e trabalho num restaurante aqui na praia. Chama Oitavo Luar. É um lugar grande, sempre quentinho. A Tifa, minha esposa, é quem cozinha tudo o que sai de lá. Ela ia adorar saber que você gostou da comida dela.
O menino piscou, a fome brigando com a desconfiança. Ele encolheu os ombros sujos, apertando os lábios, o olhar fugindo para o chão.
— A moça da última casa falou que eu comia demais... e que eu dava trabalho. — Denzel sussurrou, a voz carregada de uma culpa que uma criança de cinco anos nunca deveria sentir. — Eles não vão brigar se você me levar pra lá?
Cloud balançou a cabeça em negativa. A lembrança de sua própria mente fragmentada e do tempo em que foi apenas um peso morto sendo cuidado por Tifa nas favelas veio forte à tona. Ele sabia exatamente o que era se sentir um estorvo.
— Ninguém vai brigar. A gente tem uma menininha lá, a Kether. Ela tem três anos e aposto que ia adorar ter alguém pra brincar com ela — Cloud explicou, a voz mansa, porém inabalável. Ele tirou uma das luvas de couro, deixando a mão nua, e a estendeu devagar na direção do garoto. — Lá no Oitavo Luar, a gente não devolve as pessoas. Se você for comigo, ninguém nunca mais vai te passar pra frente, Denzel. Eu prometo.
Denzel olhou para a mão estendida de Cloud. O peito do menino subia e descia rápido. Ele olhou para a rua de pedra fria, para a caixa de comida, e depois para os olhos azuis e calmos do homem à sua frente. Aos poucos, a mãozinha trêmula e suja de óleo se soltou do próprio joelho e alcançou os dedos do loiro, segurando-os com força.
Cloud abriu um sorriso pequeno, um sorriso real. Ele apertou a mão do garoto com cuidado, levantando-se e puxando Denzel gentilmente para cima.
— Vem. Vamos pra casa. — Cloud disse, ajudando o menino a se acomodar em segurança no espaço à frente do banco da moto antes de travar a caixa térmica novamente.
Cloud acomodou Denzel com cuidado no espaço à frente do banco, garantindo que os pés do garoto tivessem algum apoio seguro. Em seguida, ele conferiu as cordas elásticas, travando firmemente a caixa térmica vazia no bagageiro traseiro para que não fizesse barulho. Com a carga estabilizada, o loiro montou na moto, envolvendo o garoto com os braços para alcançar o guidão, formando uma barreira protetora natural ao redor do corpo magro e tenso do menino.
A viagem de volta foi tranquila. À medida que desciam da Marina Alta e se aproximavam da orla principal, os olhos amendoados de Denzel brilhavam deslumbrados. O pânico cedia espaço para a fascinação infantil enquanto ele observava o mar azul-turquesa se estendendo no horizonte, as palmeiras altas balançando com o vento quente e o movimento vibrante e colorido das ruas de Costa del Sol. Era um mundo de luz e calor, um contraste absoluto com os destroços de Midgar e o asfalto frio das ruas onde vinha dormindo.
Cloud estacionou no pátio dos fundos do Oitavo Luar, desligou o motor e ajudou o garoto a descer. Sem pressa, ele segurou a mão suja de Denzel e o guiou pela porta dos fundos.
Ao cruzarem o batente, o ritmo caótico e acolhedor do restaurante os abraçou. No centro da cozinha, Tifa estava completamente imersa nas chamas do fogão, virando filés e organizando guarnições em uma dança frenética, sem sequer notar quem havia entrado. Perto do balcão, Kether continuava imersa em seu mundo, organizando suas pelúcias de Moogle em uma nova configuração de brincadeira.
Sephiroth e Inome haviam acabado de cruzar a porta do salão para buscar mais pratos quando estancaram. O olhar do platinado suavizou instantaneamente, perdendo qualquer traço da postura profissional, enquanto Inome levou as mãos ao peito. Os olhos da morena transbordaram de um amor materno puro e imediato ao absorver a imagem daquela criança magra, encolhida e coberta de fuligem.
— Cloud... — Inome murmurou, aproximando-se com passos curtos e contidos para não assustar o garoto. — Quem é esse pequeno?
— Esse é o Denzel — Cloud respondeu de forma simples, apertando levemente a mão do menino para lhe passar confiança. — Ele veio morar com a gente.
Sephiroth se aproximou em silêncio. Ele dobrou as pernas e apoiou um dos joelhos no chão, reduzindo sua altura imponente para ficar no mesmo nível do garoto, emanando apenas calmaria e segurança.
— Olá, Denzel. É um prazer conhecer você — Sephiroth disse, a voz grave e aveludada soando mansa. — Bem-vindo ao Oitavo Luar.
Denzel piscou, momentaneamente intimidado pelos cabelos prateados e pelo tamanho do homem, mas o tom gentil o fez relaxar os ombros e assentir de forma muito tímida.
— Você deve estar exausto, meu amor — Inome interveio com um sorriso extremamente doce, abaixando-se ao lado do marido. Ela estendeu a mão devagar, oferecendo-a em vez de forçar o toque. — Aqui embaixo está muito quente e barulhento agora. O que acha de subir comigo lá pra casa da Tifa e do Cloud? A gente toma um banho quentinho, tira essa poeira da rua e eu arrumo umas roupas macias para você vestir enquanto eles terminam o trabalho aqui. Pode ser?
O menino olhou para Cloud, uma pergunta silenciosa em busca de permissão. O loiro apenas assentiu com um sorriso encorajador, soltando a mãozinha dele. Denzel respirou fundo e deu um pequeno passo à frente, segurando a mão de Inome. Com todo o cuidado do mundo, ela se levantou e começou a guiar o garoto em direção às escadas que levavam ao andar de cima, deixando o caos da cozinha para trás.
Antes que Denzel começasse a subir, Cloud deu um passo à frente, encostando a mão na base do corrimão.
— Pode ir tranquilo. A tia Inome e o tio Sephiroth são muito legais — Cloud garantiu, com um sorriso leve.
Denzel olhou por cima do ombro, apertando um pouco mais a mão de Inome. O garoto piscou, e um pequeno sorriso tímido finalmente apareceu em seu rosto sujo. Ele concordou com um aceno mudo antes de continuar subindo os degraus de madeira ao lado dela.
Assim que os dois sumiram no andar de cima, Sephiroth se levantou, sacudindo uma poeira invisível do avental. Ele cruzou os braços e olhou para Cloud com um sorriso de canto, os olhos verdes brilhando com um humor sutil.
— Saiu para entregar peixe assado e voltou sendo pai. Sua eficiência no serviço de entregas é realmente surpreendente, Cloud.
Cloud soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos loiros, a tensão da viagem finalmente abandonando seus ombros. Ele encostou na parede perto da escada, cruzando os braços também.
— Eu não tive como virar as costas — Cloud explicou, o tom de voz baixando, soando mais vulnerável. — Ele estava encolhido na roda da moto, morrendo de medo e comendo escondido o que sobrou na nossa caixa térmica. Os pais dele morreram no ataque do Hojo no Edifício Shinra. O garoto vem sendo repassado de casa em casa desde então, tratado feito um estorvo. Fiquei com muita dó. Olhei para a situação dele e... eu simplesmente não podia deixar ele lá.
A expressão de Sephiroth suavizou por completo. O tom de brincadeira sumiu, dando lugar a uma compreensão genuína e amigável. Ele descruzou os braços, deu um passo à frente e colocou a mão no ombro de Cloud, apertando de forma reconfortante.
— Você fez o certo, Cloud. Sem dúvida alguma — Sephiroth afirmou, a voz grave e calma transmitindo uma certeza inabalável. — Ele não poderia ter encontrado um lugar melhor. Você tomou a melhor decisão possível hoje.
No andar de cima, longe do calor das grelhas e do barulho dos clientes, o ambiente era muito mais silencioso e com cheiro de limpeza. Inome guiou Denzel pelo corredor da casa até abrir a porta do banheiro principal.
— É aqui, pequeno — Inome disse com um sorriso gentil, acendendo a luz. Ela se inclinou sobre o box e abriu o registro, regulando a temperatura até que a água caísse perfeitamente morna e agradável. — Pode entrar e tomar o seu banho com bastante calma. Tem sabonete ali no cantinho e uma toalha limpa e fofinha na prateleira. Se precisar de qualquer coisa, é só me gritar, tá bom?
Denzel assentiu devagar, os olhos percorrendo os azulejos limpos e o vapor reconfortante que já começava a embaçar o espelho. Ele estava maravilhado. Sem dizer nada, o garoto entrou e fechou a porta com cuidado.
Assim que ouviu o barulho da água bater no chão do box, Inome caminhou pelo corredor e entrou no quarto de hóspedes. Ela abriu o armário que Cloud e Tifa reservavam para as visitas e começou a vasculhar as gavetas.
Não demorou muito para seus olhos brilharem com alívio ao encontrar o que procurava no fundo da segunda gaveta. Era um conjunto neutro de moletom — uma calça confortável e uma blusa macia — que Marlene usava e sempre deixava guardado ali para quando vinha passar o fim de semana com os tios. Sendo um tecido mais encorpado e ajustável, com elásticos nas pontas, parecia ser exatamente do tamanho que Denzel precisava agora para não ficar nadando nas roupas.
Com um sorriso satisfeito, Inome separou o conjunto e o deixou dobrado com carinho sobre a cama, pronto para recebê-lo assim que saísse do banho.
Cloud esfregou a nuca, escolhendo as palavras com cuidado enquanto o barulho das panelas fervia ao redor deles.
— A comida não caiu, Tifa. Aconteceu que... um garotinho de cinco anos usou a última caixa térmica como almoço. O nome dele é Denzel. Ele é órfão, estava morando na rua e não tem ninguém no mundo.
Tifa piscou algumas vezes, o olhar oscilando entre o rosto do marido e a comanda amassada na mão dele.
— Cloud... onde esse menino está agora?
— Lá em cima. Tomando banho com a ajuda da Inome. — Cloud abriu um sorriso um pouco nervoso, mas totalmente sincero. — Eu disse que ele podia vir pra cá. Ele vai morar com a gente, Tifa. Nós temos um filho agora.
A escumadeira escorregou da mão de Tifa, caindo na bancada de inox com um baque metálico. Os olhos castanhos se arregalaram e ela levou as duas mãos ao rosto. A realidade bateu com a força de um trem: o choque, a empatia e o pânico imediato de uma mãe de primeira viagem se misturaram de uma vez só.
— Um filho?! Cloud! A gente é pai e mãe agora?! Pelos deuses, eu não sei ser mãe de um menino de cinco anos! Eu não arrumei um quarto pra ele, eu não comprei comida de criança! Eu nem sei o que ele gosta de comer além de robalo!
Antes que Cloud pudesse tentar acalmá-la ou dizer qualquer outra coisa, Tifa arrancou o avental num movimento brusco, jogando-o sobre o balcão. O instinto materno atropelou o pragmatismo da chef de cozinha. Ela virou o rosto para o salão, o tom de voz urgente.
— Sephiroth! Assume a minha estação, por favor! A cozinha é toda sua!
Sem esperar pela confirmação do platinado, Tifa disparou em direção aos fundos, subindo os degraus de madeira de dois em dois, com o coração quase saltando pela boca.
Quando ela alcançou o topo da escada e entrou na sala de estar, seus passos desaceleraram instantaneamente. O silêncio do ambiente e a cena diante de seus olhos fizeram todo o pânico evaporar, dando lugar a um nó na garganta e um calor imenso no peito.
Denzel estava sentado no sofá. O menino magro e coberto de graxa de minutos atrás havia desaparecido. Agora, ele estava com o cabelo castanho molhado e limpo, cheirando a sabonete suave. Ele vestia o conjunto de moletom que Inome havia separado; as mangas e as barras estavam levemente dobradas para não arrastarem, o que o deixava com uma aparência acolhedora e fofa.
Inome estava sentada de lado, logo atrás dele no sofá, passando um pente de dentes largos com todo o cuidado para desfazer os pequenos nós dos fios úmidos sem machucá-lo.
O garoto balançava as pernas curtas no ar. A postura ainda era um pouco retraída, mas a expressão estava nitidamente mais relaxada e segura.
— E me conta, pequeno, do que você mais gosta de brincar? — Inome perguntou, a voz mansa e cheia de doçura, conduzindo a conversa com a naturalidade perfeita de uma tia coruja.
— Eu gosto de... desenhar — Denzel respondeu, a voz fina e tímida, mas já sem o tremor do pavor de antes. — E de ver os chocobos correrem.
— Sério? Nossa, que legal! — Inome sorriu abertamente, penteando mais uma mecha com total delicadeza. — Sabia que aqui perto tem uma fazenda cheia deles? Qualquer dia desses a gente pode ir lá ver os filhotes. E sobre os desenhos, eu tenho certeza absoluta de que a gente acha um monte de papel e lápis coloridos pra você fazer umas artes incríveis pra gente colar na porta da geladeira. O que você acha?
Denzel abriu um sorriso pequeno, envergonhado, mas verdadeiro, e concordou com a cabeça.
Foi nesse exato momento que os olhos de Inome captaram a movimentação. Ela ergueu o olhar e viu Tifa paralisada na entrada da sala, com as mãos unidas em frente ao peito e os olhos castanhos completamente marejados, absorvendo cada detalhe do menino que acabara de transformar a sua vida.
Tifa respirou fundo, piscando rápido para afastar as lágrimas e não assustar o garoto. Ela caminhou a passos lentos e macios até o sofá, abaixando-se para ficar na altura dos olhos dele, com as mãos apoiadas nos próprios joelhos.
— Oi, Denzel. Eu sou a Tifa — ela se apresentou, a voz um pouco embargada, mas transbordando uma doçura infinita.
Denzel a observou com atenção, apertando um pouco o tecido macio do moletom entre os dedos, mas sem recuar. Ele reconheceu o nome imediatamente.
— O Cloud falou de você — o menino respondeu baixinho. — Ele disse que você faz a comida... e que não ia brigar comigo.
Inome abriu um sorriso largo, parando o movimento da escova por um momento. Ela se inclinou levemente, falando em um tom carinhoso e descontraído.
— Viu só? Eu não disse que ela era boazinha? Aí está a sua nova mamãe, pequeno.
A palavra "mamãe" fez o coração de Tifa dar um salto e uma lágrima solitária escorrer por sua bochecha. Ela não tentou esconder, apenas abriu um sorriso radiante, concordando com a cabeça.
— O Cloud disse a verdade, meu amor. Ninguém nunca mais vai brigar com você por causa de comida, ou por qualquer outra coisa — Tifa prometeu, a voz ganhando firmeza, carregada de afeto. — A partir de hoje, você vai ter tudo o que quiser comer, um quarto quentinho e uma família. Nós estamos muito felizes que você está aqui.
Denzel relaxou os ombros por completo. O peso de dias dormindo na rua e o medo da rejeição pareciam finalmente começar a derreter. Ele deu um sorriso pequenininho, aliviado, e assentiu.
Sentindo que seu papel ali estava perfeitamente cumprido, Inome levantou-se com delicadeza. Ela contornou o sofá e estendeu a escova, entregando-a nas mãos trêmulas de Tifa.
— Bom, acho que agora vocês têm muito o que conversar e se conhecer — Inome disse, com um piscar de olhos cúmplice para a amiga. — Eu vou descer para ajudar o Sephiroth na cozinha e assumir os pedidos, e deixo você e o Cloud cuidando do Denzel.
Tifa segurou a escova, murmurando um "obrigada" silencioso, o olhar cheio de uma gratidão profunda. Inome afagou os cabelos úmidos de Denzel uma última vez com carinho e se afastou, caminhando para as escadas em silêncio para deixar que a nova família tivesse, enfim, o seu primeiro momento de verdade.
No andar de cima, Cloud terminou de subir as escadas e entrou na sala de estar, encostando-se no batente da porta por um segundo para observar a cena. Tifa continuava sentada ao lado de Denzel no sofá, passando a escova pelos cabelos castanhos do menino com movimentos lentos e calmantes.
Cloud caminhou até eles e sentou-se na poltrona em frente ao sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Vejo que já conheceu a melhor cozinheira de Costa del Sol — Cloud disse, lançando um sorriso cúmplice para Tifa antes de voltar a atenção para o garoto. — O banho estava bom?
Denzel assentiu, passando as mãos pelo tecido macio do moletom.
— A água era bem quentinha... — ele respondeu, a voz fina ganhando um pouco mais de força agora que o medo havia sumido quase por completo.
— Eu ouvi você contando pra Inome que gosta de desenhar — Tifa puxou assunto, deixando a escova de lado e ajeitando os fios do cabelo dele com os dedos. — O que você mais gosta de desenhar, Denzel?
O menino olhou para as próprias mãos descansando no colo e depois ergueu os olhos amendoados para Tifa, pensando um pouco.
— Eu gosto de desenhar os chocobos... e os carros grandes. O moço da outra casa tinha uns papéis que iam pro lixo, aí eu desenhava na parte de trás com um carvão que achei na rua.
Tifa sentiu o peito apertar com a simplicidade daquela realidade, mas manteve o sorriso acolhedor no rosto.
— Pois agora você não vai mais precisar usar lixo nem carvão — Cloud interveio, a voz calma e firme. — A gente compra um caderno novo só pra você. E lápis de todas as cores.
Os olhos de Denzel brilharam. Um brilho real de infância que parecia ter estado apagado por muito tempo.
— De todas as cores? Mesmo?
— Mesmo. E amanhã a gente cola o seu primeiro desenho na porta da geladeira, pra todo mundo ver — Tifa garantiu, dando um leve toque na ponta do nariz do menino, o que o fez dar um riso tímido. Ela então se acomodou melhor no sofá. — Mas me diz uma coisa... tirando aquele robalo assado gigantesco, o que mais você gosta de comer? Pode pedir o que quiser.
Denzel piscou, como se a ideia de poder escolher a própria comida fosse um conceito alienígena. Ele franziu a testa, concentrado, puxando na memória.
— Eu gosto de... sopa. Uma vez me deram uma sopa de batata que era muito boa. E maçã cortada em pedacinhos.
— Sopa de batata e maçã — Tifa repetiu, o sorriso se alargando. — É um pedido excelente. Negócio fechado.
Aos poucos, a sala de estar foi tomada por uma atmosfera de puro conforto. Entre as perguntas calmas de Cloud e os sorrisos afetuosos de Tifa, Denzel finalmente deixou os ombros caírem, relaxando contra o encosto do sofá. Era a primeira vez em meses que ele não precisava ficar em estado de alerta, esperando uma bronca ou um olhar de desprezo. Ali, cercado por aquelas duas presenças protetoras, ele se sentiu genuinamente seguro.
Tifa fez um cafuné final nos cabelos já quase secos do menino e suspirou de leve, ajustando a postura.
— Denzel, meu amor, agora a gente vai precisar descer — ela explicou, o tom cuidadoso. — O restaurante só fecha à noite, então eu e o Cloud ainda temos muito trabalho lá embaixo. Você vai precisar ficar brincando com a Kether num cantinho seguro perto do balcão por enquanto, tudo bem?
Denzel engoliu em seco. A ideia de voltar para o barulho e ter que interagir com uma criança desconhecida o deixou visivelmente receoso. Ele apertou os lábios, mas assentiu em silêncio e escorregou do sofá, segurando firme na mão que Cloud lhe estendeu.
Os três desceram as escadas juntos. Assim que chegaram ao andar principal, Tifa deu um beijo rápido no topo da cabeça de Denzel e voltou apressada para a cozinha, reassumindo seu posto nas grelhas para liberar Sephiroth. Cloud, por sua vez, guiou o menino em direção ao canto do balcão, onde a pequena platinada continuava cercada por suas pelúcias.
— Kether — Cloud chamou, abaixando-se para ficar na altura dos dois. — Esse aqui é o Denzel. Ele vai morar com o tio Cloud e com a tia Tifa agora.
A garotinha parou a brincadeira e piscou os grandes olhos claros, absorvendo a novidade. Quando a informação processou em sua mente de três anos, ela arregalou os olhos, abriu um sorriso gigantesco e começou a dar pulinhos no lugar.
— Meu priminhooo! A Deusa me ouviu! — Kether deu um gritinho agudo e animado, a empolgação infantil transbordando.
— Ei, calma aí, toquinho de gente. Não assusta o garoto — Cloud pediu, rindo baixo enquanto tentava conter a euforia dela.
Denzel deu um passo tímido para trás, os ombros encolhendo levemente enquanto tentava se esconder atrás da perna de Cloud, intimidado com aquele furacão de energia. Mas Kether não deu espaço para a timidez dele. Ela se aproximou sem cerimônia, pegou a mãozinha hesitante de Denzel com firmeza e empurrou um de seus Moogles fofinhos entre os dedos do menino.
— Esse aqui é o rei Moogle — ela já foi ditando as regras com total naturalidade, puxando-o de leve para sentar no chão com ela. — Você tem que ajudar ele a fugir do dragão malvado, tá bom?
Denzel olhou para o Moogle em suas mãos, depois para a garotinha animada, e um sorriso minúsculo finalmente quebrou sua expressão assustada. Sem soltar a pelúcia, ele se sentou no chão de bom grado.
Cloud observou a cena com o peito leve. Ele afagou os cabelos platinados de Kether antes de se levantar para voltar ao serviço.
— Seja boazinha com ele, Kether — Cloud instruiu suavemente, virando as costas com a certeza de que Denzel já estava em casa.
Denzel olhou para a pelúcia macia em suas mãos, examinando o pompom vermelho na cabeça do bicho. Ele franziu a testa de leve, virando o boneco.
— Por que Rei Moogle? — Denzel perguntou, a voz ainda baixinha. — Ele não tem coroa de rei. Acho que ele parece mais um... cavaleiro valente.
Kether arregalou os olhos claros e colocou as mãozinhas na cintura, assumindo uma postura autoritária.
— Então você tem que rebatizar ele! — ela decretou, apontando o dedo para a pelúcia na mão do primo. — Como o cavaleiro vai se chamar para salvar a gente do dragão?
Enquanto Denzel pensava em um nome, agora mais imerso na brincadeira, Inome passava pelo salão equilibrando uma bandeja após entregar bebidas na mesa quatro. Ao voltar, ela acompanhou a cena das crianças com o canto do olho e soltou uma risadinha suave. Ela se aproximou de Cloud, que continuava parado ali perto, vigiando a interação dos dois.
— Tudo certo por aqui? — Inome perguntou, parando ao lado dele.
— Sim... — Cloud respondeu em um suspiro, cruzando os braços sem desviar os olhos de Denzel. — Mas eu tô preocupado. É muita mudança, muito barulho. Não quero que ele se sinta pressionado ou assustado de novo.
Inome apoiou a bandeja vazia no quadril e deu um leve empurrãozinho com o ombro no braço do loiro.
— Relaxa um pouco, Cloud — ela brincou. — Faz menos de uma hora que você trouxe o menino pra casa e já virou um pai babão. Fica tranquilo, o Denzel está indo super bem.
O resto da tarde passou num piscar de olhos, engolido pelo ritmo frenético do Oitavo Luar. Cloud fez inúmeras viagens pela orla, retornando à Mansão 12 para entregar a caixa térmica reposta com o peixe da senhorita Donavan e cruzando a cidade repetidas vezes com novos pedidos. Na cozinha, Tifa e Sephiroth operavam em sincronia absoluta entre as grelhas e comandas, enquanto Inome desdobrava-se no salão, equilibrando bandejas e atendendo as mesas cheias. Longe de todo o caos do serviço, Denzel e Kether passaram aquelas horas completamente alheios ao movimento, imersos nas próprias brincadeiras no canto seguro do balcão.
Quando a noite finalmente caiu e a placa de "Fechado" foi virada na porta de vidro, o ambiente mudou. O som das conversas dos clientes deu lugar à calmaria da rotina de encerramento.
A equipe se dividiu naturalmente para a limpeza. Atrás do bar, Inome ajeitava as garrafas de bebida nas prateleiras, organizando o que havia sobrado. Na cozinha, o som de água corrente ecoava com Cloud de mangas arregaçadas, esfregando as louças e panelas pesadas na pia. Perto dali, Tifa passava a vassoura com agilidade, varrendo o chão, enquanto no salão principal, Sephiroth limpava o tampo de cada mesa com um pano úmido, alinhando as cadeiras uma a uma.
O silêncio do trabalho, no entanto, era constantemente quebrado pelo som de passos rápidos e risadas infantis. Em questão de horas, Denzel e Kether já haviam se tornado melhores amigos inseparáveis. Os dois corriam soltos pelo espaço aberto entre as mesas limpas do salão, cada um segurando uma pelúcia no ar.
— O cavaleiro Moogle tá voando muito rápido! — Denzel exclamou, fazendo o boneco dar rasantes por cima de uma das mesas. O medo e o receio haviam evaporado por completo, revelando apenas um menino de cinco anos correndo de um lado para o outro. — Ele vai pegar o dragão por cima!
— Mas o dragão solta fogo de mentirinha! Fooooosh! — Kether gritou de volta, correndo atrás dele com as perninhas curtas e balançando outra pelúcia. — Eu tô fazendo um escudo mágico, senão ele queima!
Da janela de passagem da cozinha, Cloud fechou a torneira por um instante, apoiando as mãos na borda da pia. Tifa parou com a vassoura ao lado dele. No salão, Sephiroth interrompeu a limpeza de uma mesa e Inome ergueu os olhos do balcão. Os quatro se entreolharam em silêncio. Foi uma troca de olhares rápida, mas carregada de um alívio profundo ao verem as duas crianças correndo e rindo juntas, como se já se conhecessem há anos.
Pouco tempo depois, a limpeza foi concluída e eles se juntaram ao redor de uma das mesas para jantar. O prato fundo de sopa de batata fumegava na frente de Denzel. Antes mesmo de pegar a colher, o garoto ergueu o boneco Moogle com as duas mãos, mostrando-o com um sorriso largo para Cloud e Tifa.
— Olha... — Denzel disse, a voz cheia de um orgulho tímido. — A Kether me deu de presente. Agora ele é meu de verdade.
Do outro lado da mesa, Inome e Sephiroth trocaram um olhar cheio de felicidade voltado para a filha, que já mastigava seus pedacinhos de maçã.
Tifa sorriu e apoiou o queixo na mão. — Que presente mais especial, Denzel. A Kether não costuma soltar esses Moogles por nada, então isso mostra o quanto ela gostou de você.
— Tem que cuidar bem dele agora. Cavaleiros precisam estar sempre preparados — Cloud acrescentou, enchendo o copo de suco do garoto.
Inome esticou o braço e fez um cafuné nos cabelos platinados da filha. — Você foi uma menina de ouro hoje, Kether. Dividir os brinquedos com o primo é uma atitude muito linda.
Sephiroth assentiu, a voz grave carregando um tom quente e familiar. Ele desviou o olhar para o menino, mantendo a expressão suave. — Ela soube escolher bem o parceiro de brincadeiras. E você defendeu o território muito bem contra os dragões hoje à noite, Denzel. Vocês formam uma ótima equipe.
Denzel concordou, a voz ganhando um pouco mais de confiança ao falar com o platinado.
— A gente não deixou nenhum dragão de fogo passar. O cavaleiro defendeu tudo.
Antes que Sephiroth pudesse responder, Kether engoliu um pedaço de maçã às pressas e ergueu o bracinho, quase batendo na beirada da mesa.
— Nós somos a melhor dupla de todas! Os dragões fugiram chorando!
Sephiroth deu um pequeno sorriso, levando o garfo à boca.
— A melhor dupla de Costa del Sol, sem dúvida alguma. Tenho certeza de que vocês ainda vão dar muito trabalho para os monstros daqui em diante.
Tifa observava a interação com o peito leve. Ela levou uma garfada de sua própria comida à boca e, após saborear, apontou com o queixo para o prato fundo que fumegava na frente do garoto.
— E a sopa de batata, Denzel? — ela perguntou. — Está do jeito que você queria?
Ao redor da mesa, o clima era de puro acolhimento. Inome e Cloud também jantavam em um silêncio confortável, aproveitando a calmaria que sempre sucedia o expediente corrido. Ao lado de Denzel, Kether voltava a mastigar seus pedacinhos de maçã com vontade, balançando as pernas curtas sob a cadeira de madeira enquanto esperava o primo comer.
Denzel pegou a colher, assoprou o caldo fumegante e tomou um bom gole. Um sorriso de pura satisfação surgiu em seu rosto sujo.
— Tá muito boa... A melhor que eu já comi — Denzel respondeu. Ele tomou mais uma colherada antes de olhar para o platinado, uma curiosidade nova brilhando nos olhos amendoados. — A Kether me falou que você ensina a brincar com espada de pau. É verdade?
Kether engoliu a maçã às pressas, balançando a cabeça afirmativamente com tanta força que os cabelos platinados chicotearam no ar.
— É sim! O papai me deu uma espadinha e eu já sei bater nos monstros tudo!
Sephiroth soltou uma risada baixa, um som contido e genuíno que raramente escapava. Ele ergueu o olhar da mesa e focou diretamente em Cloud e Tifa. Havia um respeito absoluto naquela troca de olhares; uma pergunta silenciosa em suas íris verdes, buscando a aprovação dos dois antes de assumir qualquer papel na vida do garoto.
— Eu adoraria ensinar os movimentos básicos de defesa para o nosso novo cavaleiro — Sephiroth disse, o tom polido, mas carregado de afeto. — Se vocês estiverem de acordo, é claro.
Cloud cruzou os braços sobre a mesa e trocou um olhar rápido e cúmplice com Tifa. A morena abriu um sorriso largo, concordando plenamente com a ideia, sabendo o quanto aquilo faria bem para a confiança do menino.
— Acho justo — Cloud concordou, voltando a olhar para o filho com um sorriso de canto. — Todo cavaleiro precisa saber como segurar uma espada de verdade.
Inome, que acompanhava toda a cena com o coração aquecido, inclinou-se um pouco para a frente e apontou de brincadeira para o prato fundo do menino.
— Mas olha lá, mocinho — ela alertou, a voz doce e animada. — Pra aguentar o treinamento com o tio Sephiroth, você vai ter que raspar esse prato. Tem que comer muito bem e ficar bem fortinho para conseguir levantar a espada, viu?
Denzel arregalou os olhos levemente, levando a situação com total seriedade. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele mergulhou a colher na sopa de batata e voltou a comer com o dobro da vontade de antes, arrancando risos baixos de todos na mesa.
O jantar chegou ao fim com uma tranquilidade que o Oitavo Luar raramente via. Com as louças limpas e o salão organizado, as duas famílias se dividiram para o descanso. Sephiroth pegou Kether no colo, a garotinha já lutando contra os bocejos com o Moogle firmemente esmagado contra o peito, e se despediu antes de atravessar a rua com ela em direção à casa deles, localizada bem em frente ao restaurante. Cloud, por sua vez, segurou a mão de Denzel e guiou o menino pelas escadas até o andar de cima.
Na casa do outro lado da rua, o quarto de Kether era iluminado apenas por um abajur fraco. Sephiroth estava sentado na beirada da cama, a voz grave e aveludada preenchendo o ambiente de forma rítmica enquanto ele lia um livro de histórias ilustrado. A garotinha, já coberta até os ombros, piscava cada vez mais devagar, totalmente embalada pela presença protetora e inabalável do pai.
No andar de cima do restaurante, o clima exigia mais delicadeza. Denzel estava deitado na cama do quarto de hóspedes, encolhido sob os cobertores macios e vestido com o moletom de Marlene. Apesar da exaustão visível, ele mantinha os olhos arregalados, lutando bravamente contra o sono. O trauma das ruas ainda falava alto; era o pânico irracional de fechar os olhos e acordar de volta no frio, no abandono e na fome.
Cloud percebeu a respiração ofegante e o olhar assustado do garoto. Ele puxou uma cadeira para perto da cama e sentou-se, apoiando a mão grande de forma suave sobre as cobertas, bem no ombro do menino.
— Eu não vou sair daqui — Cloud sussurrou, a voz firme e ancoradora, lendo exatamente o que se passava na cabeça de Denzel. — Você pode dormir em segurança. Quando acordar, ainda vai estar na sua cama, e eu ainda vou estar sentado bem aqui.
Enquanto isso, no salão vazio do andar de baixo, Tifa andava de um lado para o outro atrás do balcão, a cabeça funcionando a mil por hora, enquanto Inome secava os últimos copos com um pano de prato.
— Inome, pelos deuses, eu não tenho absolutamente nada de criança em casa além de algumas coisas de hóspedes da Marlene! — Tifa disparou, parando de andar e apoiando as duas mãos no balcão, os olhos castanhos arregalados de pânico materno. — O que eu dou de café da manhã para ele amanhã? E roupas? Ele só tem esse moletom! A gente precisa comprar calças, camisas, sapatos, roupas íntimas... E os brinquedos? Meninos de cinco anos brincam do quê?
Inome soltou uma risada contida e afetuosa, dobrando o pano com calma antes de se encostar no balcão, olhando para a amiga com pura compreensão.
— Tifa, respira. Você está indo a cem quilômetros por hora — Inome esticou a mão e apertou o braço da morena com carinho. — Ele comeu quase um robalo inteiro e raspou um prato fundo de sopa. Ele vai amar qualquer comida sua, pode ter certeza. Amanhã cedo, você faz umas panquecas e leite, algo simples. Sobre as roupas, amanhã mesmo nós duas damos um pulo nas lojas da orla. A gente compra o básico de algodão para ele ficar confortável e uns sapatos do tamanho certo.
— E a rotina? — Tifa interrompeu, ainda ansiosa, os dedos batucando na madeira polida. — Tem hora certa para dormir? A água do banho tem que ser muito quente? Ele passou por tanta coisa ruim... e se ele não conseguir se adaptar?
— Ele já se adaptou à Kether em duas horas e está lá em cima com o Cloud. Ele já está em casa, Tifa — Inome sorriu, a voz doce e extremamente tranquilizadora. — Não existe um manual perfeito. O horário de dormir é quando ele começa a coçar os olhos e ficar quietinho, igual a Kether faz. A água do banho é morna, do jeito que não queima o seu pulso. E sobre os brinquedos... você viu ele conversando com vocês sobre desenhar chocobos e brincando de cavaleiro agora há pouco. Nós compramos cadernos, lápis de cor, algumas espadinhas de madeira para o treinamento com o Sephiroth... e ele vai ser o menino mais feliz de Costa del Sol. Ele não precisa de uma mãe que saiba de tudo logo no primeiro dia. Ele só precisa de você.
As palavras de Inome atingiram Tifa em cheio. A tensão acumulada nos ombros da morena cedeu de uma vez, e os olhos castanhos transbordaram. As lágrimas começaram a descer de levinho pelo rosto dela, um choro silencioso que misturava um alívio imenso com a insegurança esmagadora daquela nova realidade.
Inome não hesitou. Ela deu a volta no balcão rapidamente e envolveu Tifa num abraço apertado e protetor. Tifa retribuiu no mesmo instante, escondendo o rosto no ombro da amiga por um momento, respirando fundo para tentar se acalmar enquanto as lágrimas molhavam o tecido da blusa de Inome.
— Eu estou tão feliz com o Denzel aqui... tão feliz mesmo — Tifa murmurou, a voz embargada pelo choro, apertando o abraço. — Mas eu tenho tanto medo de errar, Inome. Tenho medo de ser uma péssima mãe e não saber dar o que ele precisa depois de tudo que ele passou.
Inome afagou as costas de Tifa com movimentos lentos e regulares.
— Tifa, escuta bem: eu penso exatamente a mesma coisa todos os santos dias sobre a Kether — Inome confessou, o tom de voz baixo e repleto de empatia. — É perfeitamente normal. A gente acha que vai falhar, que vai fazer a escolha errada, que não vai ser suficiente. Mãe se preocupa demais com tudo o tempo todo, faz parte do pacote.
Tifa se afastou apenas o suficiente para olhar no rosto da amiga, secando as bochechas úmidas com as costas das mãos. Ela balançou a cabeça de leve.
— Mas não dá pra comparar. Você é uma mãe incrível para a Kether. Ela é uma menina linda, feliz, inteligente... você sabe exatamente o que está fazendo com ela.
Inome soltou uma risada gostosa, um som leve e genuíno que quebrou o peso daquela tensão, e segurou as duas mãos de Tifa com firmeza, olhando no fundo dos olhos dela.
— E adivinha só? Você já foi uma ótima mãe para o Denzel nessas últimas horas — Inome rebateu, o olhar transbordando de orgulho e carinho. — Você acolheu aquele garoto de braços abertos. Sentou com ele, conversou, descobriu o que ele gosta, fez a comida que ele queria e já está aqui perdendo o sono para planejar a vida dele. Isso é ser mãe, Tifa. Você já tem tudo o que ele precisa.
Tifa absorveu aquelas palavras, sentindo o aperto no peito finalmente dar lugar a uma esperança reconfortante. Ela deu um sorriso úmido, suspirando fundo para afastar o resto da ansiedade.
— Você faz parecer tão fácil — Tifa comentou, a voz já mais calma e natural. — Promete que não vai me deixar surtar se eu não souber que tamanho de camisa comprar amanhã cedo?
— Prometo! — Inome riu, apertando as mãos da amiga uma última vez. — Estarei bem do seu lado. E olha pelo lado bom: você já chegou pulando a pior parte. Nada de fraldas, papinhas amassadas e noites em claro por causa de cólica. Tirou a sorte grande.
Tifa soltou uma risada fraca e verdadeira, concordando. Ela então soltou a amiga por completo, mas manteve uma das mãos estendida, pousando-a com extrema delicadeza sobre o pequeno volume que já começava a se formar na barriga de Inome.
— Falando em fraldas e noites em claro... você precisa ir para casa descansar agora — Tifa repreendeu de forma carinhosa, fazendo um leve carinho na barriga dela. — O expediente hoje foi absurdamente corrido e você ficou de pé o dia todo. Vai deitar, pelo bem do bebê.
Inome cobriu a mão de Tifa com a sua, dando um sorriso radiante, porém exausto.
— Pode deixar. Até porque, se eu demorar mais cinco minutos aqui, o Sephiroth vai cruzar a rua, abrir aquela porta e me carregar no ombro até a nossa cama. Desde que descobrimos, ele acha que eu sou feita de vidro e posso quebrar a qualquer momento — Inome brincou, revirando os olhos de forma bem-humorada, embora o brilho apaixonado na voz entregasse o quanto ela amava aquele cuidado.
Tifa riu, sabendo perfeitamente bem como o homem podia ser exageradamente protetor com a família, especialmente agora.
— Então é melhor não arriscar a fúria dele. Boa noite, Inome. Obrigada por me acalmar e por tudo o que fez hoje.
— Boa noite, mamãe Tifa — Inome provocou com um piscar de olhos divertido, pegando sua bolsa atrás do balcão. — Durmam bem. Até amanhã.
Tifa trancou a porta do restaurante logo após a saída de Inome. Com o Oitavo Luar mergulhado no silêncio, ela desligou as luzes do salão e começou a subir as escadas. Tifa subiu os degraus de madeira em silêncio, deixando a penumbra do restaurante para trás. Ao chegar no corredor, passou primeiro pelo próprio quarto, notando a cama de casal perfeitamente arrumada e vazia. Com passos macios, ela seguiu até empurrar devagar a porta entreaberta do quarto de hóspedes.
Ela parou na soleira, prendendo a respiração para não fazer o menor ruído.
Cloud estava sentado na cadeira ao lado da cama, a cabeça pendendo para a frente. Ele havia adormecido ali mesmo, montando guarda, com a mão grande e calejada repousando de forma firme sobre o ombro de Denzel. O menino, por sua vez, estava completamente apagado, respirando de forma profunda e compassada, entregue ao primeiro sono seguro que tinha em meses.
Observando os dois, um pensamento silencioso e poderoso tomou conta da mente de Tifa. Ela olhou para o marido e para o garoto, e o último resquício de medo que confessara a Inome evaporou. “Nós vamos dar conta”, ela pensou, sentindo um calor absoluto preencher o peito. “Nós realmente somos uma família agora.”
Com um sorriso afetuoso, Tifa entrou no quarto a passos de pluma. Ela se aproximou de Cloud e levou a mão ao ombro dele, fazendo um carinho leve, com movimentos lentos e contínuos para despertá-lo sem sobressaltos.
O loiro franziu a testa de leve e abriu os olhos azuis, piscando devagar para focar no rosto da esposa. Ele se endireitou na cadeira, tentando não fazer barulho.
— Vem... — Tifa sussurrou, a voz não passando de um sopro no ambiente silencioso, inclinando-se perto do ouvido dele. — Vamos deitar os dois com ele. Um de cada lado.
Cloud olhou para a cama espaçosa, depois para o rosto sereno de Denzel e, finalmente, para Tifa. Ele assentiu em silêncio, os olhos brilhando com uma concordância terna.
Com o máximo de cuidado, Cloud se levantou da cadeira, tirando as botas e acomodando-se lentamente do lado direito da cama, por baixo das cobertas. Tifa deu a volta no móvel e deitou-se do lado esquerdo. Eles se ajeitaram em silêncio, formando uma barreira protetora, quente e inabalável ao redor do garoto.
No meio dos dois, Denzel soltou um suspiro longo, como se o subconsciente registrasse a presença daquela segurança absoluta, e afundou ainda mais no travesseiro. Ali, ancorados um no outro e com o filho protegido entre eles, Cloud e Tifa finalmente fecharam os olhos e adormeceram.

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