O Lifestream era, em sua essência natural, um oceano de energia espiritual onde as memórias do Planeta fluíam e as consciências aos poucos se dissolviam para retornar à terra. No entanto, a regra não se aplicava àqueles que se recusavam a desaparecer. Movido por uma força de vontade inabalável e um ego que não se fragmentava, e somado ao domínio absoluto que uma Cetra possuía sobre o fluxo vital, a energia bruta tornava-se maleável. Moldando a própria realidade através de memórias, desejos e determinação, Zack e Aerith haviam ancorado suas consciências. Eles não eram apenas espíritos vagando à deriva; haviam criado um santuário físico, sólido e palpável dentro do Planeta.
A materialização desse desejo inquebrável era uma casa de madeira perfeitamente aconchegante, com uma varanda acolhedora, erguida no centro de um jardim que parecia não ter fim. Não havia a sombra sufocante dos reatores ou os escombros de favelas. O espaço era tomado por canteiros vibrantes e centenas de flores de todas as espécies e cores imagináveis, vivas ao toque e exalando perfumes reais sob uma luz dourada e perpétua.
A poucos metros da varanda da casa, à beira de um pequeno lago de águas cristalinas que refletia a luz do ambiente, os dois haviam estendido uma toalha sobre a grama macia. O piquenique montado era farto, com uma variedade de frutas frescas, pães macios, queijos e pequenos doces, tudo gerado e mantido pela energia que eles mesmos moldavam.
Zack e Aerith dividiam a refeição na mais absoluta paz. Sentados lado a lado no chão, com os ombros encostados confortavelmente um no outro, o toque físico entre eles era quente e real. Zack mastigava um pedaço de pão enquanto observava a superfície calma da água, sentindo a brisa suave e reconfortante balançar os cabelos de Aerith encostados em seu braço, aproveitando o silêncio que finalmente pertencia apenas aos dois.
Aerith engoliu um pequeno pedaço de doce e inclinou o corpo levemente para a frente, desfazendo o encosto dos ombros por um momento.
— Sabe, eu adoraria ver como os nossos amigos estão agora — ela comentou, a voz suave carregando uma curiosidade afetuosa e protetora.
Ela esticou o braço e deslizou a ponta dos dedos pela superfície do laguinho à frente deles. A água cristalina ondulou ao toque da Cetra, brilhando em um tom sutil de verde-esmeralda. Usando sua conexão natural, ela sintonizou o Lifestream com a energia da superfície, transformando o espelho d'água em uma janela clara e nítida.
A primeira imagem que se formou nas águas não era exatamente do presente, mas um eco poderoso que havia ficado marcado na energia do Planeta: o casamento de Tifa e Cloud. Através do reflexo, eles viram os dois trocando votos, rodeados pela família que haviam construído, com o loiro exibindo um sorriso raro e verdadeiro. Aerith abriu um sorriso radiante, puramente feliz ao ver que Tifa e Cloud haviam finalmente encontrado a paz que tanto mereciam. Ao lado dela, ouviu-se um fungar alto. Quando Aerith virou o rosto, viu grossas lágrimas escorrendo pelo rosto de Zack. O SOLDIER sorria de orelha a orelha, chorando copiosamente de emoção enquanto limpava as bochechas com as costas da mão, incapaz de conter o orgulho de ver o amigo bem.
Logo, a superfície da água tremeluziu, avançando pelas correntes do tempo e trazendo as imagens do dia atual. O espelho mostrou a agitação vibrante da Costa del Sol e o Oitavo Luar em pleno funcionamento durante sua inauguração. Eles puderam assistir a um resumo rápido do dia intenso: Cloud correndo com as entregas na moto sob o sol, Angeal e Barret operando o balcão cheio de copos, e o trabalho constante de Sephiroth e Inome servindo as mesas, até o momento em que o bar fechou e todos se reuniram exaustos e felizes em volta da mesa com as sobras do jantar.
Os olhos de Aerith passearam pelos detalhes do salão, focando nas crianças.
— Olha só como a Marlene cresceu — ela murmurou, encantada. — E a Kether brincando com o Moogle... — Aerith parou abruptamente, os olhos verdes se arregalando de leve antes de se iluminarem com uma surpresa genuína. — Espera, Zack. Olha ali! A Inome está grávida de novo!
A constatação a fez dar uma risadinha deliciosa. Ela se virou para Zack e deu um empurrãozinho brincalhão com o ombro contra o braço dele.
— Se você estivesse lá embaixo hoje, eu tenho certeza absoluta de que estaria pingando de suor, ajudando o Cloud a carregar todas aquelas caixas pesadas de bebida para o estoque.
Zack deu uma gargalhada alta e gostosa, os olhos ainda um pouco vermelhos pelo choro recente. Ele terminou de mastigar o pedaço de pão que estava na boca, engoliu com calma e apontou para o espelho d'água.
— Pode apostar que sim! E eu seria o funcionário mais rápido daquele bar inteiro — ele garantiu, batendo no próprio peito com um sorriso convencido. — Mas eu não ia carregar caixa de graça não. O Cloud ia ter que me pagar o dia de trabalho inteirinho com aquelas batatas fritas e suco gelado.
Zack esticou as pernas sobre a grama, cruzando os tornozelos, e apoiou as mãos atrás do corpo. Um sorriso nostálgico e travesso despontou em seu rosto enquanto ele olhava para o reflexo na água.
— E te digo mais: eu ia amar encher o saco do Angeal e do Sephiroth o dia inteirinho — Zack comentou, os olhos azuis brilhando de pura diversão. — Imagina só a cara do Angeal tentando manter a postura atrás daquele balcão enquanto eu faço malabarismo com as garrafas? E o Sephiroth... ah, eu com certeza ia arrumar um jeito de fazer ele perder aquela pose dele servindo as mesas.
Aerith balançou a cabeça, soltando uma risada suave e cristalina. Ela ajeitou a saia do vestido e olhou para ele com um carinho imenso.
— Você não tem jeito mesmo, Zack. Eles iam acabar te jogando na rua e te proibindo de entrar na primeira meia hora.
O espelho d'água tremeluziu de leve, e o som ambiente do salão agora vazio do Oitavo Luar começou a ecoar de forma clara pelo jardim deles. A imagem focou diretamente na grande mesa onde o grupo estava reunido em volta das jarras de suco e das travessas de peixe. A voz grave de Angeal cruzou o véu de energia:
— E quanto a vocês dois? Vão mesmo bater ponto e trabalhar aqui direto?
A resposta empolgada de Inome sobre atuar ativamente no salão soou límpida pela água. Em seguida, Zack e Aerith assistiram em tempo real Sephiroth abrir a boca para advertir a esposa sobre o descanso na gravidez, apenas para receber um olhar fulminante que o paralisou no mesmo milésimo de segundo. A voz do platinado soou mansa e perfeitamente derrotada:
— Você pode fazer exatamente o que quiser.
A gargalhada que explodiu no salão do Oitavo Luar misturou-se perfeitamente com a que estourou no Lifestream. Zack jogou a cabeça para trás, rindo tão alto que o som ecoou pelas paredes da casa de madeira. Aerith cobriu a boca com as mãos, rindo até os olhos se apertarem, absolutamente maravilhada com a submissão imediata e cômica do ex-General da Shinra.
Zack enxugou uma lágrima no canto do olho, ainda sorrindo abertamente enquanto a imagem da água começava a se acalmar e se dissipar suavemente, deixando apenas o reflexo do céu dourado.
— Cara, isso é bom demais — ele suspirou, o tom da voz perdendo o tom de brincadeira e transbordando uma paz profunda e genuína. — Eu tô muito feliz por eles, Aerith. Por todos eles. De verdade.
A Cetra sorriu doce e encostou a cabeça no ombro dele novamente, entrelaçando os dedos finos na mão calejada do SOLDIER.
— Eu também, Zack. Eles finalmente estão livres. E vivendo.
O espelho d'água tremeluziu mais uma vez sob o toque sutil de Aerith. O sorriso dela suavizou, ganhando um tom um pouco mais reflexivo enquanto ela olhava para as pequenas ondulações de energia verde.
— A energia da Jenova ainda tentou resistir por um tempo aqui no Lifestream, sabia? — Aerith murmurou, a voz tranquila, sem o peso do medo que aquele nome costumava trazer. — Mas como o Hojo tomou tudo para si no final da nossa luta, tentando se tornar algo maior, a energia dela colapsou junto com ele. Foi completamente extinta. Não sobrou absolutamente nada.
Zack franziu a testa no mesmo instante, um resmungo gutural escapando da garganta só de ouvir o nome do cientista. Ele cruzou os braços sobre o peito, a lembrança de tudo o que haviam passado no laboratório escurecendo seu olhar por um segundo.
— Aquele velho desgraçado... só de ouvir o nome dele me dá dor de cabeça — Zack resmungou, balançando a cabeça em reprovação. Mas, logo em seguida, a tensão em seus ombros desapareceu por completo. Ele soltou um suspiro longo, a postura relaxando de volta na grama. — Bom... se ele serviu para levar aquela coisa bizarra pro ralo de vez e limpar o Planeta, menos mal. É um alívio saber que essa ameaça acabou para sempre.
Aerith concordou com um aceno suave, deixando a energia pesada daquela lembrança se dissipar nas águas puras do lago. A imagem na superfície mudou novamente, focando agora no interior da casa de Tifa e Cloud, no andar de cima do bar.
Através do reflexo, eles viram os dois no sofá espaçoso da sala. O loiro estava relaxado, com as pernas esticadas, enquanto Tifa estava confortavelmente aninhada contra o peito dele. Os dois dividiam a leitura de um livro, o silêncio da noite sendo quebrado apenas pelo som das páginas virando e por um beijo suave que Cloud deixou no topo da cabeça da esposa.
— Ah, olha só para os dois... — Aerith suspirou, o rosto iluminado por um sorriso encantado. Ela juntou as mãos perto do queixo, elogiando a cena com pura ternura. — Tão adoráveis juntos. É lindo ver o Cloud cuidando dela assim.
Zack estreitou os olhos, inclinando o corpo para trás com uma careta exagerada de desgosto.
— Ah, não, não, não. Quanta meloseira — ele reclamou, balançando a mão na frente do rosto como se tentasse espantar a imagem. — É muito açúcar pro meu gosto. Ver o Cloud todo derretido e marido babão desse jeito, lendo livrinho no sofá, parece até cena de novela. Corta essa transmissão aí, Aerith, deixa os pombinhos em paz que virou invasão de privacidade!
Aerith soltou uma gargalhada alta, balançando a mão sobre a água. A imagem da casa de Tifa e Cloud ondulou e se desfez, dando lugar novamente apenas ao reflexo do céu dourado e verde da dimensão deles. Ela suspirou, ainda sorrindo, e se encostou confortavelmente no ombro de Zack mais uma vez.
Aerith desfez a conexão com a superfície de vez, deixando as águas do pequeno lago voltarem à sua quietude cristalina. Com um sorriso travesso dançando nos lábios, ela se levantou da grama em um movimento fluido e estendeu a mão para o SOLDIER.
Zack aceitou o gesto sem hesitar, segurando firme nos dedos finos da Cetra. Assim que as mãos se entrelaçaram, o ambiente ao redor respondeu à sintonia dos dois. A claridade perpétua do Lifestream começou a mergulhar em tons quentes de alaranjado, rosa e lilás, simulando um entardecer perfeito e aconchegante sobre a casa de madeira e o infinito mar de flores.
Com um leve impulso, Aerith guiou Zack para cima. Naquela realidade moldada por eles, a gravidade era apenas uma lembrança opcional. Os pés de ambos deixaram o chão de grama suavemente, e eles começaram a flutuar a poucos palmos da terra, suspensos de forma leve e natural no ar morno e perfumado do jardim.
— Sabe, reclamar do Cloud lendo um livro no sofá é muito fácil — Aerith provocou, a voz mansa flutuando junto com eles enquanto ela se aproximava um pouco mais, deslizando as mãos para envolver o pescoço de Zack. — Mas você esquece que também é incrivelmente meloso quando quer, Zack Fair.
Ele arregalou os olhos de forma teatral, segurando a cintura dela para estabilizá-los no ar enquanto uma risada gostosa vibrava em seu peito.
— Eu? Meloso? — Zack fingiu indignação, erguendo o queixo com um orgulho falso e brincalhão. — Eu sou um guerreiro, um cara durão da linha de frente! Totalmente imune a essas coisas de romance excessivo.
— Ah, é mesmo? — Aerith rebateu com um risinho deliciosamente provocativo, aproximando o rosto do dele. — Engraçado, porque o "cara durão" está literalmente flutuando num campo de flores mágicas agora mesmo, me segurando pela cintura com cara de bobo.
O sorriso de Zack se abriu tanto que os olhos azuis se apertaram. Ele não tinha como se defender, e a verdade é que não queria. Puxando-a gentilmente para mais perto em pleno ar, ele diminuiu a distância entre eles.
— Tá bom, talvez eu seja um pouco meloso de vez em quando — ele admitiu em um sussurro, o tom carregado de um afeto profundo e incondicional. — Mas só com você.
Aerith sorriu, os olhos verdes brilhando de pura felicidade sob a luz do crepúsculo. Ela encostou a testa na dele, fechando os olhos enquanto os dois continuavam girando devagar, pairando acima do chão em um silêncio absoluto e reconfortante. Com o mundo dos vivos finalmente em segurança lá em cima, Zack e Aerith abraçaram a paz do próprio lar, flutuando juntos no santuário perfeito que haviam construído.
Ainda sustentados no ar, o sorriso de Zack ganhou um contorno mais travesso. Se era para assumir o lado meloso, ele faria isso direito.
Sem aviso, ele afastou o rosto por um instante e pigarreou, assumindo uma postura exageradamente formal em pleno ar. Com uma mão ainda firme na cintura de Aerith, ele ergueu a outra e entrelaçou seus dedos nos dela, posicionando-os como se estivessem no centro de um grande salão de baile.
— O que você está fazendo? — Aerith perguntou, soltando uma risada surpresa com a mudança repentina de postura.
— Convidando a senhorita para uma dança, obviamente — ele respondeu, piscando um olho. — Já que perdemos a festa da inauguração e o casamento lá embaixo, acho mais do que justo termos a nossa própria comemoração.
E, para a completa surpresa da Cetra, Zack começou a cantarolar. Ele inventou uma melodia de valsa desajeitada, um compasso ritmado e um pouco desafinado, e começou a conduzi-la pelo ar. Como não havia chão sob os pés deles, os passos invisíveis do SOLDIER eram totalmente estabanados. Ele tropeçava no próprio impulso, fazendo os dois balançarem de forma cômica enquanto tentava manter o ritmo da própria música.
Aerith jogou a cabeça para trás, rindo tão alto que a cantoria de Zack quase foi abafada. O vestido rosa esvoaçava a cada rodopio desajeitado que ele a forçava a dar sob a luz lilás do entardecer. A energia do Lifestream reagiu à alegria pura do momento, e milhares de pétalas amarelas subiram do chão para dançar junto com eles, acompanhando o movimento circular do casal como um redemoinho brilhante.
— Zack! Você é péssimo nisso! — ela exclamou entre gargalhadas, agarrando-se aos ombros dele quando um rodopio os fez tombar levemente para a esquerda.
— Ei, eu sou um SOLDIER de primeira classe, não um dançarino de primeira classe! — ele retrucou rindo, puxando-a de volta para si com um solavanco suave e seguro. — A culpa é claramente dessa falta de gravidade!
Com um último giro embalado pela risada dos dois, Zack parou de cantarolar e simplesmente deixou que o controle flutuante se desfizesse. Eles desceram devagar, em uma queda suave e flutuante, até aterrissarem de volta no canteiro.
Eles caíram juntos sobre a grama macia e as flores, um emaranhado de braços e risadas sem fôlego. Aerith ajeitou-se e deitou a cabeça no peito de Zack, sentindo a vibração do riso dele enquanto o moreno continuava olhando para o céu alaranjado com um sorriso largo. Ali, cercados por um mar de pétalas amarelas e pelo eco da própria felicidade, a eternidade que tinham pela frente parecia o presente perfeito.
O riso foi diminuindo aos poucos, dando lugar apenas ao som suave da brisa balançando as flores ao redor. Deitados na grama macia, ainda recuperando o fôlego da dança atrapalhada, Aerith virou o rosto no canteiro para olhar para Zack. A luz do entardecer refletia em seus olhos verdes, carregados de uma serenidade profunda.
— No fim das contas... nós ganhamos um presente — ela sussurrou, a voz doce cortando o silêncio confortável do jardim.
Zack virou a cabeça para encará-la, o sorriso brincalhão de antes suavizando para uma expressão de afeto puro e calmo. Ele moveu a mão sobre a grama, entrelaçando os dedos nos dela mais uma vez.
— Eu jamais escolheria que fosse de outra maneira — Zack respondeu, a sinceridade transbordando em cada palavra. Ele olhou para o céu em tons de lilás por um instante, respirando fundo o ar perfumado. — Sabe, cada vez mais eu entendo o propósito das coisas. Sobre o que aconteceu comigo... sobre a minha morte contínua, em todas as linhas do tempo. Tinha que ser assim.
Aerith apertou a mão dele de leve, deslizando o polegar sobre a pele calejada do guerreiro. O peso do conhecimento de uma Cetra, de todas as memórias e destinos cruzados, sempre esteve com ela, mas agora o fardo não existia mais.
— Eu sempre entendi isso — ela concordou, o tom suave, livre da tristeza de antigamente. Um sorriso pequeno e reconfortante desenhou-se em seus lábios enquanto ela se aninhava um pouco mais contra o peito dele. — Mas... eu confesso que fico muito feliz. Feliz por dividir essa eternidade com você, em vez de ter que vagar sozinha por todo esse Lifestream.
Zack não precisou dizer mais nada. Ele apenas puxou a mão dela, deixando um beijo demorado e carinhoso nos nós de seus dedos antes de descansar o braço ao redor dos ombros da Cetra. Sob o crepúsculo dourado daquele santuário construído por suas memórias e vontades inquebráveis, eles fecharam os olhos e deixaram o tempo parar, aproveitando a paz definitiva que haviam conquistado.

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