quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - Oitavo Luar

 

Os três meses que se seguiram após o casamento voaram em uma neblina caótica de caixas de mudança, cheiro de tinta fresca e poeira de reforma. A transição de Kalm para Costa del Sol exigiu trabalho duro, mas a decisão de onde morar havia sido a parte mais fácil de todo o processo. Quando descobriram que a casa exatamente em frente à residência de Inome e Sephiroth estava à venda, não pensaram duas vezes. Era a oportunidade perfeita para estabelecer raízes a poucos passos da família, transformando a rua quieta de paralelepípedos em um verdadeiro reduto particular deles.
O piso térreo do novo lar, de frente para a calçada larga e com vista para o mar, foi inteiramente reestruturado para dar vida ao Oitavo Luar.
O nome não foi escolhido por acaso. Se o antigo Sétimo Céu havia sido um símbolo de resistência e de sobrevivência em tempos difíceis, o número oito representa o próximo passo. Era o novo ciclo, a vida que vinha depois da tempestade. E "Luar" era a homenagem perfeita à calmaria que finalmente haviam encontrado, refletindo as noites tranquilas de Costa del Sol onde o mar encontrava a areia sob a luz da lua.
O salão do bar era espaçoso, com grandes janelas que deixavam a brisa salgada e a luz da manhã invadirem o ambiente. Mesas redondas de madeira clara estavam espalhadas pelo piso rústico, e o longo balcão principal dominava o fundo do salão.
Atrás dele, Tifa trabalhava com a familiaridade de quem estava em seu habitat natural. Ela usava um avental simples amarrado na cintura e cantarolava baixinho enquanto passava um pano de prato limpo nos copos de vidro, alinhando-os um a um nas prateleiras. O cheiro de café fresco já começava a impregnar a madeira do lugar, misturando-se à maresia.
Do lado de fora, logo à frente do deck de entrada do bar, o som metálico de ferramentas preenchia o ar. Cloud estava agachado ao lado de sua moto, recém-adaptada para suportar a areia e o sol constante do litoral. Ele segurava uma chave inglesa, apertando os parafusos do bagageiro traseiro que usaria para o novo sistema de entregas expressas pela costa. A blusa sem mangas deixava à mostra os braços tensionados pelo esforço, o rosto levemente sujo de graxa, mas a expressão era de pura concentração e tranquilidade. Ele deu um último aperto no parafuso e bateu a mão no metal do bagageiro, satisfeito com o resultado da própria manutenção.
Cloud se levantou, limpando o excesso de graxa das mãos em uma flanela velha, exatamente no momento em que a porta do salão se abriu. Tifa caminhou pelo deck de madeira e se aproximou, passando os braços ao redor do pescoço dele em um abraço gostoso. Cloud retribuiu envolvendo a cintura dela com facilidade, e os dois trocaram um beijo demorado e sem pressa sob o sol da manhã.
Quando se afastou um pouco, Tifa olhou para o alto da fachada, os olhos brilhando de orgulho.
— A placa ficou perfeita ali em cima — ela elogiou, admirando o letreiro de madeira rústica com o nome Oitavo Luar muito bem entalhado.
— Ficou bem centralizada. Deu um certo trabalho alinhar sozinho, mas valeu a pena — Cloud concordou, avaliando o próprio trabalho antes de jogar a flanela no ombro e apontar para a parte traseira da moto. — O suporte novo também tá no lugar.
Tifa soltou a cintura dele e se inclinou levemente para examinar a estrutura de metal reforçada que Cloud havia instalado.
— E aí? O entregador oficial da costa já calculou quantas entregas consegue levar nisso de uma vez?
— Com as caixas térmicas maiores, dá pra levar umas seis encomendas grandes por viagem — Cloud respondeu, testando a firmeza do bagageiro com a mão para garantir que nada estava solto. — Se for só bebida e petisco leve, até mais. O centro de gravidade ficou no lugar certo, então o peso não vai me atrapalhar nas curvas da orla.
Tifa e Cloud ainda estavam parados no deck de madeira quando o som de um portão se abrindo chamou a atenção dos dois. Do outro lado da calçada, atravessando a estreita rua de paralelepípedos que separava as duas casas, vinha o restante da família para estrear o dia.
Sephiroth caminhava na frente. A postura ereta e impecável de sempre contrastava de forma cômica com o objeto que ele carregava com facilidade em um dos ombros: um barril de madeira úmido que, mesmo a alguns metros de distância, já exalava um cheiro forte e inconfundível de peixes frescos.
Logo atrás dele, Inome atravessava a rua caminhando sem pressa, a blusa solta marcando perfeitamente a barriga de grávida. Com uma das mãos, ela segurava com firmeza os dedinhos de Kether. A garotinha dava pulinhos animados a cada passo, apertando contra o peito com o braço livre uma pelúcia de um Moogle gordinho. O boneco de pano já estava com as asinhas de morcego meio amassadas, e o clássico pompom vermelho balançava freneticamente no topo da cabeça felpuda enquanto ela acompanhava o ritmo da mãe.
Tifa apoiou as mãos na cintura, abrindo um sorriso largo de boas-vindas, enquanto Cloud descruzava os braços, erguendo uma sobrancelha ao avaliar a carga do homem
— Bom dia para os primeiros clientes — Tifa cumprimentou, rindo ao notar o cheiro de maresia ficando mais forte. — E o que exatamente é isso, Sephiroth?
O platinado parou em frente ao deck e depositou o barril no chão com um baque surdo, ajeitando as mangas da camisa.
— Uma contribuição para o cardápio de inauguração. Conversei com os pescadores no cais logo cedo. São as melhores postas de robalo que eles trouxeram hoje — Sephiroth respondeu, o tom perfeitamente calmo, como se comprar barris de peixe às nove da manhã fosse sua atividade mais corriqueira.
Inome soltou a mão de Kether para que a menina corresse até as pernas de Tifa, rindo ao parar ao lado do marido.
— Ele insistiu que o prato principal de hoje precisava estar à altura — ela explicou, passando a mão no ombro de Sephiroth.
Tifa abriu um sorriso radiante, o coração aquecido pela atitude, e agradeceu de imediato a gentileza do casal. Cloud também assentiu, ajeitando a flanela no ombro antes de dar um passo à frente e pegar Kether no colo com facilidade. A garotinha imediatamente esfregou o boneco felpudo no rosto do loiro.
— O Kupo foi muito valente essa noite — Kether anunciou com uma seriedade adorável, os olhinhos amarelados arregalados enquanto apertava o boneco. — Ele ficou vigiando a janela do quarto para não deixar os monstros de areia pegarem o bebê da mamãe.
Cloud segurou a risada, ajeitando a menina no braço enquanto examinava o Moogle de pelúcia com a mesma seriedade fingida.
— É um trabalho perigoso — Cloud concordou, a voz tranquila e perfeitamente imersa na brincadeira. — Acho que o Kupo merece uma porção de batatas fritas do bar mais tarde por ter protegido a casa tão bem. O que você acha?
Kether concordou freneticamente com a cabeça, já garantindo o pagamento do seu parceiro de pelúcia.
Enquanto isso, Sephiroth assumiu novamente o peso do barril e caminhou lado a lado com Tifa em direção ao interior do Oitavo Luar.
— Vou precisar de uma tábua grande e da sua faca mais afiada, Tifa — o platinado comentava, a voz mansa ecoando pelo salão enquanto eles seguiam para a cozinha. — Há uma técnica específica de corte para esses robalos. Vou te mostrar como retirar a espinha dorsal de um jeito limpo, mantendo os filés inteiros. Ficam perfeitos e completamente seguros para comer, sem risco de espinhos.
No lado de fora, Inome encostou-se de forma relaxada na grade de madeira do deck, acompanhando o marido sumir pelas portas do bar antes de voltar a atenção para Cloud.
— E então? — Inome perguntou, o tom carregado de um afeto tranquilo enquanto ajeitava a blusa sobre a barriga. — A correria desses meses valeu a pena? O andar de cima já está com jeito de casa de verdade ou ainda parece um depósito de caixas?
Cloud encostou-se na lateral da moto, arrumando a postura para que Kether pudesse brincar com o zíper de seu colete. Um sorriso calmo, livre de qualquer tensão, curvou seus lábios.
— Mais do que eu imaginava — Cloud admitiu, a voz serena e honesta. — Nós terminamos de esvaziar as últimas caixas da sala ontem à noite. A Tifa fez questão de pendurar aquela foto nossa, do dia do casamento com todo mundo reunido, bem no centro da parede, do lado do sofá. Acho que foi nessa hora, quando a gente sentou pra olhar a sala pronta com aquela foto ali... que a ficha finalmente caiu. Não é só um lugar novo. É a nossa casa.
O sorriso de Inome se alargou, os olhos amarelados brilhando com uma alegria genuína e tranquila pela conquista dos amigos. Era o fechamento perfeito para a longa jornada que todos haviam enfrentado.
Enquanto Cloud segurava a pequena platinada, Inome deu um passo para mais perto e notou os dedinhos inquietos da filha puxando repetidamente o metal do zíper do colete dele. Com um toque suave, ela segurou a mãozinha de Kether, redirecionando os dedos da menina de volta para o boneco felpudo.
— Deixe o zíper do tio Cloud em paz, filha. O Kupo está precisando de carinho depois de vigiar a casa a noite inteira, não acha? — Inome murmurou, ajeitando a pelúcia no braço da menina.
Kether soltou um muxoxo emburrado, franzindo a testa e tentando esticar a mãozinha de volta para o colete, em um leve protesto por perder o brinquedo metálico recém-descoberto.
Cloud deu uma risada baixa, ajeitando a garotinha no colo para que ela ficasse de frente para o Moogle.
— É melhor você ouvir a sua mãe — Cloud aconselhou, o tom calmo e levemente divertido. — O Kupo parece que vai chorar se você não der atenção pra ele agora.
A atenção de Kether, no entanto, logo se desviou do boneco felpudo para o veículo de metal estacionado a poucos passos dali. Os olhinhos amarelados brilharam em puro fascínio.
— Quero sentar na moto! — a garotinha exigiu, esticando os bracinhos na direção do banco de couro.
Cloud não a colocou de imediato. Ele ergueu o olhar para Inome, em um pedido silencioso de permissão, esperando a aprovação dela antes de qualquer movimento.
— Tudo bem por você? — Cloud perguntou.
Inome assentiu, mantendo o sorriso tranquilo.
— Pode colocar. Só segura firme para ela não escorregar.
Com cuidado, Cloud ajeitou Kether sobre o assento escuro da moto. A menina abriu um sorriso imenso, apertando o Moogle contra a barriga com uma mão enquanto tentava bater a outra no tanque de combustível. Cloud se manteve colado nela, as duas mãos segurando a cintura pequena com total firmeza para garantir que ela não perdesse o equilíbrio. Inome ficou logo ao lado, rodeando os dois de perto, os olhos atentos, mas cheios de afeto, acompanhando a farra da filha.
Enquanto isso, no interior fresco da cozinha do Oitavo Luar, o clima era de foco absoluto.
O platinado estava parado diante da extensa bancada de preparação. Com movimentos limpos e cirúrgicos, o homem deslizava a ponta de uma faca incrivelmente afiada pela lateral do robalo, separando a carne da estrutura óssea sem despedaçar um único milímetro.
— O segredo é não aplicar força bruta. Você precisa deixar a lâmina encontrar o caminho natural entre a carne e a base da espinha — o mais alto explicava, a voz mansa e didática ecoando no ambiente limpo.
Ao lado dele, Tifa mantinha os olhos fixos na demonstração. Em sua própria tábua, repousava um segundo robalo. Com a testa levemente franzida em concentração, ela posicionou sua faca no exato mesmo ângulo que ele havia acabado de mostrar. Respirando fundo, Tifa imitou o movimento de forma meticulosa. A lâmina deslizou limpa e sem solavancos, abrindo um filé perfeito. Ela soltou um suspiro satisfeito ao ver o resultado, pronta para repetir o processo.
Tifa afastou a faca e admirou o próprio trabalho na tábua, genuinamente impressionada com o resultado.
— Ficou perfeito — ela elogiou, apontando para o filé impecável antes de voltar a atenção para ele. — Eu costumava perder muito tempo tirando os espinhos menores um por um, e a carne quase sempre acabava machucada. Como você descobriu um método tão específico assim?
Ele limpou a lâmina da própria faca com um pano de prato limpo, a postura incrivelmente relaxada no ambiente doméstico da cozinha. Um sorriso sutil e quase imperceptível tocou os cantos de seus lábios ao ouvir a pergunta.
— Necessidade de adaptação — o homem respondeu, a voz mansa carregando um tom de leve diversão enquanto apoiava as mãos na borda da bancada. — Inome desenvolveu um vício absoluto por peixes nas últimas semanas. Se eu não pesquisasse e aprendesse a limpá-los da maneira mais rápida e segura possível, não daria conta de acompanhar os desejos dela ultimamente.
Tifa soltou uma risada gostosa, balançando a cabeça enquanto preparava o próximo peixe na tábua.
— Gravidez tem dessas coisas — Tifa comentou com um sorriso compreensivo. — Pelo menos ela escolheu algo saudável. Podia ser pior, imagina se ela inventasse de querer comer cacto do deserto de Corel de madrugada?
O platinado deu um leve sorriso nasalado, concordando silenciosamente com a sorte de não ter que lidar com espinhos literais de cacto. Tifa então apontou o queixo para a porta do salão.
— Se importa de ajudar o Cloud a descarregar as caixas de ingredientes lá de fora para cá enquanto eu termino de limpar os robalos?
— Sem problemas — o homem respondeu com sua calma habitual.
Ele lavou as mãos na pia e caminhou pelo salão até sair no deck de madeira. Ao cruzar a porta, deparou-se com a cena na calçada: Cloud ainda mantinha as mãos firmes na cintura de Kether para que ela não caísse do banco da moto, com Inome logo ao lado, vigiando os dois de perto.
Ao notar a aproximação do pai, Kether abriu um sorriso orgulhoso, batendo a mãozinha no tanque de combustível.
— Eu sou motoqueira! — a garotinha anunciou com firmeza, erguendo o Moogle no ar para provar seu ponto.
O mais alto parou ao lado de Inome, um sorriso contido suavizando seus traços enquanto olhava para a filha.
— Estou vendo. Apenas certifique-se de não acelerar muito rápido pelas ruas, motoqueira — ele respondeu com a voz mansa, entrando na brincadeira com naturalidade antes de desviar o olhar para Cloud. — Tifa me encarregou de te ajudar a descarregar os ingredientes para a cozinha.
Ao ouvir sobre a nova tarefa, Kether imediatamente se agitou no banco de couro.
— Eu quero ir! Quero ajudar a carregar! — ela exigiu, já tentando se esticar.
Antes que ela tentasse descer sozinha e acabasse escorregando, Inome se adiantou. Ela tirou a menina da moto e a acomodou no colo com cuidado.
— Nada disso, mocinha. Deixa o trabalho pesado para eles — Inome disse em um tom doce, mas que não abria espaço para discussão, ajeitando a pelúcia nos braços da filha. — Além disso, o Kupo não pode tomar muito sol na cabeça, senão o pompom dele queima. Nós precisamos entrar e achar um lugar fresquinho lá dentro para ele descansar.
O argumento sobre o bem-estar de seu companheiro de pelúcia foi irrefutável. Kether abraçou o Moogle com mais força para protegê-lo e concordou com a cabeça, permitindo que Inome a levasse para dentro do Oitavo Luar e deixasse os dois homens livres para o trabalho.
Do lado de fora, Cloud e o platinado começaram a transferir as caixas de mantimentos e bebidas em direção à porta do bar. Cloud ergueu um engradado mais pesado, ajeitando a postura.
— Pelo menos essas caixas dão bem menos dor de cabeça do que carregar equipamento nas costas pela neve — Cloud comentou, caminhando rumo à entrada com um tom casual.
O mais alto, trazendo duas caixas pesadas empilhadas sem o menor sinal de esforço, acompanhou o passo do loiro.
— O esforço físico é o mesmo, mas o propósito é consideravelmente mais agradável — o homem respondeu, a voz mansa soando tranquila enquanto avaliava a estrutura do lugar. — Vocês construíram um espaço muito bom aqui, Cloud. O trabalho valeu a pena.
Enquanto os dois descarregavam o estoque, dentro do salão do Oitavo Luar, Inome acomodou Kether sentadinha em uma das cadeiras perto do balcão. Assim que se endireitou, ela soltou um suspiro contido, levando a mão à base da coluna com uma leve careta.
— Minhas costas estão começando a cobrar o preço do peso dessa barriga — Inome murmurou, esticando um pouco o corpo para aliviar a tensão na lombar.
Da cozinha, ouvindo a movimentação através da porta entreaberta, Tifa fez questão de comentar.
— Trate de ir com calma, não vai abusar do esforço agora! — a voz de Tifa soou mais alta, pontuada pelo barulho da água na pia e da faca na tábua.
— Mas eu não quero ficar só sentada assistindo, eu quero ajudar com alguma coisa! — Inome retrucou, falando mais alto para ser ouvida no outro cômodo.
— Então é bom que você e a Kether me ajudem ajeitando as toalhas e as flores nas mesas do salão! — Tifa respondeu da cozinha de imediato, encontrando a função perfeita. — O material tá todo aí no móvel, não pesa nada e vocês podem fazer isso sentadas!
Inome sorriu, satisfeita com a tarefa, e caminhou até o pequeno móvel de madeira no canto da parede. Ela recolheu as toalhas dobradas, pegando em seguida as pequenas jarras de vidro e o maço de flores frescas que descansavam ali em cima. Voltando para a mesa onde a filha estava, Inome espalhou os itens ao alcance da menina.
— Olha só, mocinha, vamos deixar as mesas bem bonitas para os clientes — Inome explicou direitinho, a voz doce e didática, mostrando uma das jarrinhas para a filha. — Você tem que colocar apenas uma flor dentro de cada jarrinha dessas.
Kether concordou com um aceno sério de cabeça, encostando o Moogle no encosto da cadeira para ter as duas mãos livres. Com os olhinhos amarelados focados na tarefa, a garotinha pegou a primeira flor pelo caule e a deslizou para dentro do vidro com um cuidado meticuloso, completamente absorvida em sua nova e importante função no bar.
O barulho de um motor potente e o som dos pneus grossos amassando a areia e os paralelepípedos da rua chamaram a atenção de Cloud e do platinado, que ainda estavam na calçada com as últimas caixas de estoque.
Um utilitário robusto e largo estacionou perfeitamente em frente ao Oitavo Luar. Era um modelo antigo de transporte de tropas, muito provavelmente um refugo de Midgar que havia sido inteiramente restaurado e adaptado para a vida civil nas estradas irregulares de Kalm. Pintado em um tom verde-musgo fosco, o carro tinha suspensão alta, janelas reforçadas e espaço de sobra — o veículo perfeito para quem precisava carregar muito peso, crianças e bagagens com total segurança.
O motor morreu com um ruído grave, e as portas logo se abriram. Sem que ninguém fizesse menção de descarregar as malas pesadas que abarrotavam o porta-malas, os viajantes começaram a saltar para a rua.
Barret foi o primeiro a descer do banco do carona, estalando o pescoço e espreguiçando os braços imensos para espantar a rigidez da viagem. Do assento do motorista, Angeal desceu logo em seguida, batendo a porta do utilitário e soltando um suspiro pesado de alívio por finalmente ter chegado ao destino.
A porta traseira se abriu de supetão, e Marlene saltou para o deck de madeira quase voando, o rostinho iluminado pelo sol e pela brisa do mar. Elmyra, no fim das contas, não havia feito a viagem. Ela havia preferido ficar em Kalm para cuidar de seu próprio jardim e aproveitar a paz absoluta de ter a casa vazia e silenciosa por alguns dias, deixando a pequena sob a supervisão integral dos tios e do pai.
Atrás da garotinha, Genesis emergiu do banco de trás com sua habitual falta de pressa e excesso de teatro. Ele ajeitou a gola do sobretudo vermelho — perfeitamente impecável e completamente inadequado para o calor de Costa del Sol —, inspecionou o estado das próprias luvas e lançou um olhar avaliativo para a fachada de madeira do bar.
— Finalmente, a maresia! — Genesis declarou para a rua inteira ouvir, abrindo os braços como se estivesse saudando o próprio oceano. — Angeal dirige com a cautela de um monge idoso. Achei que envelheceríamos no banco de trás antes de chegar ao litoral.
Angeal apenas revirou os olhos, jogando as chaves do carro no bolso da calça com um bufo exasperado. Barret soltou uma risada estrondosa que ecoou pela calçada e caminhou na direção de Cloud e do platinado.
— E aí, entregador oficial? — Barret brincou, dando um tapa amigável no ombro de Cloud. — Viemos garantir que essa inauguração vai acontecer direito. Onde a Tifa escondeu a bebida? A estrada secou a minha garganta.
Cloud deu um sorriso de canto, sem se abalar com a provocação.
— O entregador oficial ainda não começou o expediente — Cloud respondeu. Ele se curvou sobre a caixa térmica que repousava no topo da pilha recém-descarregada na calçada, abriu a tampa e puxou uma garrafa de cerveja perfeitamente gelada. Com um movimento ágil, ele jogou a bebida na direção de Barret.
O homem agarrou a garrafa no ar com a mão enorme, abrindo um sorriso largo e satisfeito antes mesmo de tirar a tampa.
Ao lado deles, o platinado não perdeu tempo. Sustentando o peso de duas caixas com a postura perfeitamente alinhada e sem qualquer sinal de esforço, o mais alto voltou o olhar para o motorista recém-chegado.
— Já que a viagem no banco da frente foi tão monótona, Angeal, presumo que você tenha energia de sobra para nos ajudar a levar o restante desta carga até a cozinha — o homem convocou. A voz mansa carregava aquele tom polido e irrecusável que não deixava qualquer margem para discussão.
Angeal soltou um suspiro resignado, balançando a cabeça, mas já estava arregaçando as mangas da camisa para assumir as caixas empilhadas no chão.
Enquanto os homens se organizavam lá fora, no interior do salão, Marlene disparou pela porta de entrada como um pequeno furacão. Ela correu direto até a mesa onde Inome e Kether trabalhavam, apoiando as mãos na madeira e erguendo-se na ponta dos pés para espiar as toalhas dobradas e os vidros sobre o móvel.
— O que vocês estão fazendo? — Marlene perguntou, os olhos escuros brilhando de curiosidade.
Inome terminou de alisar as bordas de uma toalha limpa e sorriu para a recém-chegada.
— Estamos deixando o salão bonito para os clientes que vão chegar hoje — Inome explicou, apontando para a filha, que deslizava mais uma flor para dentro da jarrinha com extrema concentração. — A Kether é a responsável por colocar as flores nos vasos. Quer ajudar a gente a espalhar tudo pelas mesas, mocinha?
Marlene concordou na mesma hora com um aceno vigoroso de cabeça. Ela imediatamente puxou uma cadeira ao lado de Kether, sentando-se e arregaçando as manguinhas da blusa, pronta para se juntar à força-tarefa da decoração antes mesmo que Inome precisasse explicar as instruções duas vezes.
A porta da cozinha foi empurrada com o ombro por Cloud, que liderava o caminho com o primeiro engradado. Logo atrás,o platinado passava pelo batente da porta, abaixando levemente a cabeça por reflexo, seguido por um Angeal que já começava a suar no calor litorâneo com as duas caixas empilhadas nos braços.
Cloud apoiou sua carga no chão e apontou para os diferentes cantos da cozinha, assumindo o controle do espaço com naturalidade.
— Os laticínios e os temperos frescos vão direto para aquele refrigerador vertical ali no fundo — Cloud instruiu, enquanto já começava a esvaziar a própria caixa. — As garrafas de destilados podem deixar na prateleira de metal perto da porta. A Tifa e eu arrumamos isso nas estantes do salão antes de abrir. O resto do estoque seco vai para a despensa ali à esquerda.
O homem mais alto assentiu em silêncio, depositando a carga exatamente onde fora instruído com movimentos fluidos e sem ruído, enquanto Angeal soltava um suspiro pesado, acomodando seu lado do estoque perto do refrigerador. A dinâmica entre os três fluía fácil, a força bruta reduzindo um trabalho demorado a uma tarefa de poucos minutos.
Enquanto isso, no salão principal, Barret havia se encostado no balcão de madeira polida. Ele tomou um longo gole da cerveja gelada e girou o tronco, observando o ambiente com calma. O vento soprava livre pelas janelas grandes, trazendo o som das ondas e a luz do sol da manhã.
— Ficou bonito demais, Tifa — Barret comentou, a voz grave carregada de um carinho sincero. — Tem o mesmo clima acolhedor do nosso velho Sétimo Céu, mas com uma cara nova. Mais iluminado, sabe? Combina com vocês.
Tifa, que acabava de lavar as mãos após finalizar os cortes dos robalos, pegou um pano limpo para secá-las e abriu um sorriso largo e radiante.
— Obrigada, Barret. Deu muito trabalho lixar, envernizar e montar tudo isso, mas era exatamente o que a gente queria — ela respondeu, o olhar passeando pelo salão com um brilho inegável de orgulho. — A ideia era manter a nossa essência, mas trazer uma energia nova.

No centro do salão, a equipe de decoração terminava seu expediente impecável. Sob o olhar atento e as instruções calmas de Inome, as mesinhas rústicas haviam ganhado vida. Marlene, sendo um pouco mais velha e rápida, esticava e alisava as toalhas claras sobre a madeira redonda, certificando-se de que as pontas caíssem do mesmo tamanho em todos os lados.
Logo atrás dela, Kether caminhava a passos curtos e compenetrados, segurando as pequenas jarras de vidro com as duas mãos, o Moogle devidamente acomodado em uma cadeira próxima para "supervisionar". A pequena depositava um vasinho de flor bem no centro de cada mesa finalizada por Marlene, completando a tarefa com uma seriedade adorável. Quando a última flor foi colocada na mesa mais próxima da porta, o salão do Oitavo Luar finalmente ganhou a alma de um lugar pronto para receber o mundo.
A porta principal do salão se abriu por completo e Genesis finalmente adentrou o ambiente, caminhando com a mesma graciosidade teatral de quem desfilava em um tapete vermelho. Ele ignorou Barret no balcão e passou os olhos analíticos pelas prateleiras de bebidas recém-montadas.
— A iluminação natural é louvável, Tifa, mas vocês precisam repensar a distribuição dessas garrafas urgentemente — Genesis anunciou, apontando uma mão enluvada para o alto do bar. — Os vinhos não podem ficar expostos diretamente a essa janela. A maresia e o sol vão arruinar as safras antes do fim do mês.
Sem esperar por uma resposta, ele caminhou até a mesa mais próxima, que Marlene e Kether haviam acabado de arrumar, e pegou um dos cardápios novos com a ponta dos dedos. Seus olhos correram pelas páginas antes de ele soltar um suspiro dramático, balançando a cabeça em profunda desaprovação.
— Um ultraje. Onde está a carta de chás? — ele questionou, erguendo o olhar para Tifa com genuína indignação. — Vocês estão no litoral. Faltou um chá branco com pêssego, uma infusão de hibisco com cascas de laranja, hortelã fresca e, no mínimo, um Earl Grey clássico para as tardes chuvosas. Como esperam atrair uma clientela refinada oferecendo apenas... cerveja e sucos tropicais?
Tifa apoiou os cotovelos no balcão, abrindo um sorriso largo e não conseguindo segurar uma risada gostosa diante do espetáculo do amigo.
— Com esse nível de exigência e consultoria de luxo, estou começando a achar que você quer ser contratado, Genesis — ela brincou, arqueando uma sobrancelha. — Se quiser, eu tenho um avental sobrando. Posso te colocar no balcão agora mesmo.
Barret, que assistia a tudo encostado ali perto, soltou um resmungo gutural e revirou os olhos antes de dar mais um gole na sua cerveja gelada.
— Ninguém vem pra um bar de frente pro mar pra tomar água quente com mato, seu almofadinha. Acha que tá no meio de um palácio?
Genesis fechou o cardápio com um estalo seco, devolvendo-o ao centro da mesa com uma precisão impecável. Ele ajeitou a gola do sobretudo vermelho e lançou um olhar perfeitamente presunçoso na direção do grandalhão.
— Eu estou onde a cultura e o bom gosto clamam por socorro, Barret — Genesis rebateu com um sorriso cínico desenhado no rosto. Em seguida, voltou-se para a dona do bar, abanando a mão de forma preguiçosa. — E quanto à sua oferta, Tifa, eu declino. O meu talento custaria caro demais para o orçamento de um negócio que acabou de abrir as portas. Considere as minhas dicas como uma caridade para salvar o prestígio do Oitavo Luar.
A porta da frente se abriu por completo, trazendo a brisa fresca do mar e a primeira cliente oficial do dia. Tia Lani entrou devagar, com seu típico vestido florido e um sorriso afetuoso que enrugava os cantos dos olhos.
— Bom dia, meus queridos! Que lugar lindo vocês montaram! — ela cumprimentou, acenando para Barret e Genesis antes de caminhar direto para a mesa onde Inome, Marlene e Kether estavam.
Tia Lani acomodou-se em uma das cadeiras de madeira, apoiando a bolsa de palha no colo. Ela olhou para o centro da mesa, reparando na toalha lisa e na jarra de vidro com a flor fresca.
— Que mesa mais caprichada — Tia Lani comentou, olhando para a pequena com um sorriso gentil. — Foi você quem colocou as flores assim?
Kether estufou o peito, os olhinhos amarelados brilhando, e concordou com um aceno sério e orgulhoso.
— Que ajudante maravilhosa — Tia Lani elogiou, completamente encantada com a cena. — Já que você sabe de tudo por aqui, me diga, meu anjo: o que é bem gostoso de comer hoje?
Kether endireitou a postura, sentindo a importância do momento. Ela puxou o cardápio recém-impresso do centro da mesa, abrindo-o no colo. Seus dedinhos passearam pelas páginas, passando pelas letras que ela ainda não compreendia com uma seriedade absoluta. Os olhinhos focaram por alguns segundos antes de ela dar o seu veredito, cheia de convicção:
— Aqui tem ba-tata de frita. E suco. E um peixinho grandão!
Tia Lani soltou uma risada deliciosa, achando a recomendação impecável. Tifa, que acompanhava a interação, saiu de trás do balcão e aproximou-se da mesa segurando seu bloco de notas, o rosto iluminado por um sorriso radiante.
— Seja muito bem-vinda ao Oitavo Luar, Tia Lani — Tifa saudou, a voz transbordando o carinho de quem recebia a vizinhança como família. — É uma honra ter você como nossa primeiríssima cliente. E posso garantir que a recomendação da Kether é a melhor da casa.
Enquanto o salão começava a ganhar vida e o calor do primeiro atendimento, o trabalho pesado chegava ao fim na parte de trás do bar. Na cozinha, o ambiente já estava impecavelmente organizado e livre de qualquer bagunça da mudança.
Cloud, Angeal e Sephiroth terminavam de amassar e dobrar as últimas caixas de papelão vazias que antes guardavam o estoque. Com a força bruta reduzindo as caixas a pilhas compactas, os três homens seguiram juntos em direção à porta dos fundos, carregando o material descartado para as lixeiras do beco, encerrando a arrumação pesada a tempo de verem o bar finalmente funcionar.
Depois da chegada de Tia Lani, não demorou para que o som dos sinos acima da porta se tornasse uma constante. O boca a boca na Costa del Sol era rápido, e logo o Oitavo Luar começou a encher de moradores locais, turistas curiosos e conhecidos da vizinhança. O cheiro irresistível de robalo frito, batatas e temperos frescos que vinha da cozinha de Tifa invadiu a rua de paralelepípedos, servindo como o melhor convite possível.
Para dar conta da sede da clientela, Barret e Angeal tomaram conta do balcão de madeira. A dupla operava com uma dinâmica própria: Barret ria alto, conversava com quem estivesse por perto e enchia as canecas de chope até a borda, enquanto Angeal preparava sucos tropicais e drinks com uma concentração absoluta, cortando frutas e alinhando os copos com perfeição antes de mandá-los para as bandejas.
Não demorou para que o telefone próximo ao caixa começasse a tocar. As ligações de entrega ganharam ritmo e Cloud assumiu a função de imediato. A cada nova leva de caixas térmicas e pacotes bem embalados, o loiro cruzava o salão, montava na moto estacionada no deck e sumia orla afora. O ronco do motor tornouse parte da trilha sonora daquele dia, marcando as idas e vindas de Cloud, que operava com foco total, garantindo que a comida chegasse quente a cada ponto da praia.
No centro do salão, o atendimento fluía com uma eficiência surpreendente. O platinado e Inome haviam assumido a linha de frente como garçons. O homem mais alto deslizava por entre as cadeiras cheias com uma elegância silenciosa e imponente, equilibrando bandejas pesadas repletas de pratos e copos sem que uma única gota fosse derramada. Vez ou outra, quando o volume de pedidos de comida ameaçava sobrecarregar a dona do bar, Sephiroth cruzava as portas de vaivém e entrava na cozinha, assumindo imediatamente uma das estações de corte e preparo ao lado de Tifa para não deixar o ritmo cair.
Em meio a esse movimento, Genesis encontrou seu próprio palco. Autoproclamado sommelier e consultor gastronômico não oficial do estabelecimento, ele desfilava pelo salão com seu sobretudo vermelho perfeitamente alinhado. Parando estrategicamente ao lado de algumas mesas, Genesis distribuía dicas não solicitadas, explicando com propriedade teatral qual safra de vinho harmonizava melhor com o peixe recém-frito e sugerindo que as batatas rústicas fossem degustadas com "uma pitada de sal marinho e ervas específicas". Para o completo desgosto de Barret, que revirava os olhos no balcão a cada conselho dado, muitos turistas pareciam genuinamente fascinados pela consultoria de luxo inesperada.
Inome circulava anotando os pedidos com seu habitual sorriso caloroso, mas, conforme as horas passavam e a gravidez pedia um descanso natural, ela estabeleceu uma base estratégica. Em uma mesa confortável no canto do salão, longe do corredor principal de circulação, ela acomodou Marlene e Kether. O espaço logo foi coberto por papéis em branco e dezenas de lápis de cera coloridos. Enquanto o bar pulsava ao redor, Inome descansava as costas na cadeira, pintando e desenhando junto com as duas. Marlene, com a paciência de uma irmã mais velha, ajudava a pequena Kether a preencher os desenhos do Moogle sem borrar as linhas, criando um oásis de tranquilidade infantil no meio do bar agitado.
A tarde avançou embalada pelo tilintar constante de talheres, brindes e risadas. Lentamente, a claridade intensa deu lugar à "golden hour". O sol começou sua descida dramática em direção ao oceano, banhando o interior do Oitavo Luar com tons quentes de dourado, âmbar e laranja. As sombras das mesas se alongaram sobre o chão de madeira, e a brisa do mar trouxe um frescor gostoso que aliviou o calor do dia.
Quando o céu finalmente derreteu em camadas de violeta e azul profundo, as lâmpadas amarelas espalhadas pelo teto do salão foram acesas, criando um clima intimista e acolhedor. Lá fora, os holofotes focaram na placa entalhada. Mesmo com o anoitecer, as mesas continuavam cheias, as conversas seguiam animadas e o lugar transpirava a vida de um lar que acabava de abrir as portas para o mundo.
A noite já estava alta e o movimento no salão havia ganhado o tom mais boêmio e ruidoso típico do litoral, quando um cliente particularmente excêntrico decidiu testar a paciência da equipe. O sujeito, vestindo uma camisa estampada espalhafatosa e óculos escuros totalmente desnecessários para a falta de sol, começou a causar problemas em uma das mesas perto da janela.
O atrito começou quando o platinado passou por ali para recolher pratos vazios. Sem motivo aparente além do excesso de bebida, o homem empurrou a própria cadeira para trás de solavanco, esbarrando de propósito no ombro de Sephiroth. O impacto quase derrubou os pratos empilhados na bandeja.
— Opa! Qual é o seu problema, grandalhão? — o cliente elevou a voz na mesma hora, chamando a atenção das mesas vizinhas enquanto se levantava de rompante. — Tá cego? Não sabe olhar por onde anda, não?
O mais alto sequer mudou a expressão. Ele apenas ajeitou o peso da bandeja em uma das mãos, estabilizando a louça, e olhou para o sujeito com a mesma paciência apática de quem observa uma mosca batendo contra a vidraça.
— A passagem estava perfeitamente livre até o senhor recuar a cadeira de forma abrupta — o platinado respondeu, o tom manso, nivelado e desprovido de qualquer irritação. — Sugiro que mantenha os cotovelos dentro do limite da sua mesa para evitar acidentes.
A recusa em entrar na briga pareceu inflamar ainda mais o sujeito, que deu um passo à frente, estufando o peito.
— Tá me dando ordem com essa cara de paisagem? Você não sabe com quem tá falando! Eu devia fazer você engolir essa bandeja inteira pra aprender a servir direito!
Atrás do balcão, no entanto, Barret não tinha a mesma tolerância.
— Ei, seu palhaço! — Barret esbravejou, a voz grave cortando o barulho do salão enquanto ele batia o pano de prato na madeira com um estalo seco. — Baixa o tom de voz agora, ou eu mesmo te jogo de cabeça na calçada! Ninguém faz showzinho aqui dentro!
O cliente virou o rosto para retrucar, inflamado pelo grito do grandalhão, mas antes que a situação escalasse, Tifa e Inome intervieram.
Tifa saiu da cozinha a passos rápidos, parando ao lado da mesa com os braços cruzados e a postura rígida de quem manda no próprio negócio. Inome, que passava pelo corredor, aproximou-se no mesmo instante. Com naturalidade, a grávida tocou de leve no braço do marido, um sinal silencioso de que elas assumiriam a frente.
— Algum problema aqui? — Tifa disparou, a voz firme e cortante. — Porque no meu bar, quem dita o tom da conversa sou eu. Se quer gritar com a minha equipe, a porta da rua é logo ali.
— E se o ambiente não está do seu agrado, a sua conta já pode ser fechada no caixa — Inome completou, misturando a franqueza implacável com um sorriso polido. — Sem cobrar os 10% de serviço pelo seu pequeno espetáculo, é claro. Sugiro que volte a se sentar e termine sua bebida em total silêncio.
Encurralado pelas duas e sob o olhar furioso de Barret, o sujeito murchou na mesma hora, resmungando baixo enquanto afundava de volta na cadeira.
Encostado em uma das pilastras de madeira com sua taça de vinho na mão, Genesis soltou um riso baixo de canto de boca, achando pura graça da audácia de um turista qualquer esbarrando no platinado daquela forma.
No balcão, porém, o clima era outro. Angeal parou de secar os copos. A postura do cliente, a roupa chamativa e o tumulto muito forçado ativaram o alerta do moreno. Com o maxilar tenso, ele estreitou os olhos e passou a acompanhar os movimentos do sujeito com total desconfiança, avaliando em silêncio se aquilo era apenas o vexame de um bêbado ou se havia alguma outra intenção por trás da cena mal armada.
O sujeito, vendo que havia perdido a razão e a plateia, levantou-se com o rosto vermelho de pura frustração.
— Serviço deplorável! — ele esbravejou.
Na tentativa de salvar algum pingo de orgulho ferido, ele agarrou o copo vazio que estava sobre a mesa e o atirou no chão com força. O vidro estilhaçou com um estrondo agudo contra as tábuas de madeira. Sem esperar pela reação de ninguém, o homem virou as costas e saiu bufando pela porta da frente, pisando duro até sumir na rua.
O som da quebra fez o salão inteiro mergulhar em um silêncio instantâneo. Os outros clientes pararam de comer e beber, virando os rostos na direção da porta, trocando olhares surpresos e murmúrios curiosos sobre a cena repentina. O clima leve da inauguração ameaçou desandar.
Foi então que Genesis encontrou o momento perfeito para o seu protagonismo.
Ele se afastou da pilastra, erguendo a taça de vinho com um floreio impecável, e deu dois passos para o centro do corredor, garantindo que o bar inteiro pudesse ouvi-lo.
— E é exatamente por isso, senhoras e senhores, que a falta de classe é a maior tragédia da humanidade! — Genesis declarou, a voz projetada com o carisma absoluto de um ator em seu palco. — O cavalheiro não tem paladar para o peixe e, claramente, não sabe como fazer uma saída elegante. Mas nós sabemos apreciar as coisas boas da vida. Um brinde aos que têm bom gosto e ficam para a sobremesa!
O tom perfeitamente cínico e teatral quebrou a tensão no mesmo instante. Uma mulher em uma mesa próxima soltou uma risada alta, logo seguida por outros clientes. Em questão de segundos, o salão inteiro estava rindo, erguendo canecas e copos em resposta ao brinde improvisado de Genesis. O burburinho animado voltou a tomar conta do Oitavo Luar, apagando a confusão como se ela nunca tivesse acontecido.
Enquanto as conversas recomeçavam, o platinado já havia retornado do balcão trazendo uma pequena vassoura e uma pá. Com movimentos fluidos e em absoluto silêncio, ele varreu os cacos de vidro, recolhendo a sujeira com a mesma naturalidade de quem limpava uma migalha, sem dar a menor importância ao tumulto.
Com a paz totalmente restaurada e a clientela de bom humor, Inome deu um suspiro tranquilo. Ela alisou a frente da roupa e afastou-se do corredor principal, caminhando de volta para a sua mesa no canto, onde Marlene e Kether já a esperavam cercadas de papéis e lápis de cor.
As últimas horas da noite esvaziaram o salão aos poucos, até que o som constante das ondas do mar voltou a ser a única trilha sonora vinda da rua. Com as portas da frente finalmente trancadas e a placa virada para "Fechado", o Oitavo Luar pertencia apenas a eles outra vez, banhado por uma luz amarelada e aconchegante.
No centro do salão principal, uma disputa silenciosa e arrastada acontecia. Inome, armada com um esfregão, estava irredutível em sua missão de limpar as marcas de sapato do piso de madeira. Sephiroth, parado bem na frente dela, segurava a outra ponta do cabo com uma das mãos, tentando parar o avanço da esposa com sua paciência infinita e olhar manso.
— Eu não estou doente, Sephiroth, estou grávida — Inome argumentou, tentando puxar o esfregão de volta para si. — É só o chão. Eu posso muito bem ajudar a finalizar o nosso próprio bar.
— Você já passou a maior parte do dia caminhando e servindo mesas. O piso pode perfeitamente esperar até amanhã, ou ser feito por mim — ele rebateu, a voz perfeitamente nivelada, sem ceder um único centímetro do cabo de madeira.
Angeal, que passava por eles recolhendo os últimos copos esquecidos nas mesas, parou por um segundo e soltou um suspiro profundo.
— É melhor você soltar esse esfregão e deixar ela fazer alguma coisa, Sephiroth — Angeal comentou, balançando a cabeça com a sabedoria de quem já conhecia muito bem a teimosia dos amigos. — Se você proibir ela de limpar o chão, ela vai acabar inventando de arrastar os balcões de bebida sozinha. Deixa ela fazer esse canto.
O mais alto ponderou a situação por um instante, olhando para a expressão teimosa de Inome. Com um leve e quase imperceptível sorriso de rendição, ele afrouxou os dedos e soltou o cabo, mantendo-se por perto caso o peso da barriga a incomodasse.
Em um dos sofás estofados do canto, o cansaço do dia já havia vencido. Barret estava esparramado confortavelmente, o braço imenso envolvendo Marlene, que dormia profundamente aninhada contra o peito dele. O grandalhão respirava devagar, mantendo o ambiente quieto ao seu redor, apenas acariciando o cabelo da garota enquanto aproveitava o encerramento daquela noite longa.
Mas o silêncio passava longe da mesa mais próxima da porta. Kether estava sentada de joelhos na cadeira, completamente hipnotizada pelo espetáculo exclusivo que acontecia diante de si. Genesis havia confiscado o Moogle de pelúcia e, usando sua habitual gesticulação dramática, transformara o boneco no protagonista de uma epopeia trágica.
— "Oh, céus! O terrível dragão das marés se aproxima, mas eu, o valente Sir Kupo, não recuarei!" — Genesis declamava com a intensidade de um ator em seu ápice, fazendo o pompom do boneco balançar freneticamente enquanto simulava ataques pelo ar. — "Pela honra da Costa del Sol, eu defenderei o salão!"
Kether soltava gargalhadas puras e altas, batendo palminhas maravilhada enquanto Genesis fazia o felpudo executar piruetas teatrais e reverências exageradas sobre a mesa de madeira.
Através das portas de vaivém da cozinha, a cena aquecia o ambiente. Cloud e Tifa estavam lado a lado na pia espaçosa, cuidando das últimas louças. Tifa ensaboava as facas e tábuas com um cansaço bom repuxando os músculos, enquanto Cloud enxaguava e secava, os ombros relaxados e a postura perfeitamente à vontade naquele espaço que agora era o lar deles. No meio do barulho da água e das risadas de Kether ecoando no salão lá fora, os dois trocaram um olhar cúmplice e um sorriso silencioso. A inauguração havia sido um sucesso absoluto.
Com a cozinha finalmente limpa e as portas trancadas, a calmaria pós-inauguração se instalou de vez. As luzes principais do salão foram apagadas, deixando apenas as arandelas amareladas iluminando a grande mesa rústica onde os adultos restantes haviam se reunido. No centro, jarras de suco gelado dividiam espaço com as travessas do que sobrou da noite: porções generosas de peixe frito e batatas rústicas.
O cansaço já havia cobrado seu preço de parte do grupo. No sofá espaçoso do canto, Barret roncava baixo, profundamente adormecido com Marlene aninhada em um de seus braços imensos. Perto da mesa, Kether também havia se rendido. A pequena ressonava tranquila, com o rostinho apoiado no ombro do platinado, o boneco Moogle esmagado com segurança entre ela e o peito largo do pai. O mais alto mantinha um dos braços ao redor da filha, garantindo seu conforto com cuidado enquanto participava da refeição.
Angeal pegou um pedaço de peixe, encostando-se na cadeira com uma expressão genuinamente satisfeita.
— Se o movimento de hoje servir de base, vocês vão precisar reforçar esse estoque muito antes do esperado — Angeal comentou, o tom grave carregando um respeito evidente pelo trabalho da dupla. — A Costa del Sol inteira cruzou aquela porta. Foi uma inauguração impecável.
Genesis, que até então girava seu copo de suco com a mesma solenidade de quem segura uma taça de cristal, aproveitou a deixa no mesmo instante.
— O que apenas reforça o meu ponto inegociável — Genesis insistiu, apontando com elegância na direção dos anfitriões. — Com esse volume de clientela, a exigência naturalmente vai subir. Vocês simplesmente não podem continuar servindo frutos do mar frescos sem uma carta de vinhos brancos decente para harmonizar. O paladar da praia exige esse respeito.
Tifa não aguentou e soltou uma risada gostosa, encostando a cabeça no ombro de Cloud enquanto mastigava uma batata. O loiro deu um sorriso de canto, balançando a cabeça em pura rendição ao ouvir a teimosia inesgotável do amigo.
— Tudo bem, Genesis, você venceu — Cloud admitiu, a voz serena e relaxada. — Talvez eu ceda nessa questão e adicione algumas opções ao cardápio. Você pode me passar a sua lista amanhã, e eu vejo como conseguir as garrafas com os fornecedores.
Genesis sorriu, vitorioso, erguendo o copo de suco em um brinde silencioso à própria genialidade.
Inome, sentada de frente para os donos do bar, olhou ao redor, absorvendo a atmosfera acolhedora e pacífica do ambiente agora vazio, com o som das ondas ecoando suave lá fora.
— Mas teimosias de cardápio à parte, vocês realmente construíram algo maravilhoso aqui — Inome elogiou, a voz doce e carregada de afeto. — Não parece só um comércio. Tem calor, tem vida.
— Inome tem razão — o platinado concordou, a voz mansa soando propositalmente baixa para não despertar a filha adormecida em seu colo. Ele ergueu o olhar para Cloud e Tifa, transmitindo uma sinceridade quieta. — O espaço reflete com perfeição a tranquilidade que vocês buscaram. É um excelente lar.
Tifa sorriu largo, os olhos brilhando com o reconhecimento carinhoso. Ela apertou de leve a mão de Cloud sobre a mesa, enquanto o loiro assentia, relaxando os ombros com uma expressão de alívio silencioso.
— Significa muito ouvir isso de vocês. Obrigado — Cloud respondeu, o tom sereno e honesto.
Angeal aproveitou a pausa na conversa para pescar mais uma porção generosa de batatas rústicas da travessa central. Ele mastigou com calma, encostando-se na cadeira antes de voltar o olhar para o casal à sua frente.
— E quanto a vocês dois? — Angeal perguntou, apontando de leve com a batata. — Vão mesmo bater ponto e trabalhar aqui direto?
Inome não hesitou em confirmar.
— Com certeza. Além de garantir que toda a pesca seja direcionada fresca para a cozinha do Oitavo Luar, nós vamos atuar aqui no salão ativamente — ela explicou, o tom empolgado. — O movimento é ótimo e eu gosto demais de estar na linha de frente para ficar parada em casa.
Ao ouvir a afirmação tão confiante da esposa, o platinado inclinou levemente a cabeça. Ele abriu a boca, claramente prestes a fazer uma ponderação muito sensata sobre o peso da barriga e a necessidade inegável de ela focar em descansar nessa reta final.
No entanto, antes que a primeira sílaba de advertência pudesse sequer se formar no ar, Inome virou o rosto em sua direção. Ela o fuzilou com um olhar tão mortal, afiado e definitivo que silenciou qualquer contra-argumento no mesmo milésimo de segundo.
O mais alto parou na hora. Os olhos claros piscaram devagar e, com uma fluidez impressionante, o instinto de cautela se dissolveu em um sorriso manso e perfeitamente derrotado.
— Você pode fazer exatamente o que quiser — ele declarou, a voz suave carregando uma rendição absoluta e inquestionável.
A submissão imediata de Sephiroth diante do aviso silencioso de Inome fez Angeal engasgar levemente com o pedaço de batata. Genesis soltou uma risada rica e sonora que ecoou pelas paredes de madeira, enquanto Tifa e Cloud não conseguiram segurar as gargalhadas francas. O som da mesa inteira rindo junta encheu o salão do Oitavo Luar, selando o fim perfeito para a primeira noite do bar.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário ajuda muito com a continuação da história!! Não deixe de comentar :)