quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A Consciência de Veridios - Capítulo 5: Água profundas.

 


Gray Hare Woodlands estendia-se pelo mapa como um vasto e eterno crepúsculo verde-acinzentado. Ali, o ar era denso, permanentemente impregnado com o cheiro de limo, terra úmida e a umidade morna que subia dos musgos seculares. A névoa não descia do céu; ela nascia do chão, rastejando entre as raízes retorcidas de árvores cujos troncos pareciam carregar o peso de eras silenciosas. Era uma terra de silêncios profundos, onde o som mais alto costumava ser o gotejar constante da água nas folhas e o coaxar abafado de anfíbios invisíveis.

Mas, conforme se avançava para o coração da região, a atmosfera ganhava forma, densidade e vida própria na Subtribo dos Charcos. Diferente das metrópoles erguidas sobre pedra polida e regras rígidas, os Charcos eram uma comunidade orgânica, cujas palafitas de madeira escura e pedra lodo saíam de dentro das águas rasas dos pântanos, integrando-se perfeitamente à paisagem.

Nesse reduto isolado, Vaerthos exercia sua liderança com uma tranquilidade que surpreendia quem vinha de fora. Ele não governava com o pulso de ferro de um tirano ou com a pompa fria das grandes cortes; seu poder era fundamentado na proximidade e no respeito mútuo. Sendo uma subtribo relativamente compacta, os problemas do povo chegavam direto às mãos dele — uma ponte de madeira corrompida pela cheia, uma disputa de pesca, a escassez de lenha seca. Vaerthos ouvia, ponderava e resolvia com pragmatismo, mantendo um clima de paz estável que abraçava todos os clãs locais.

Nesse ecossistema de trabalho braçal e cooperação, Saphira encontrava seu próprio espaço. Aos vinte e cinco anos, ela não vivia o marasmo de uma nobre enclausurada em torre; sua posição oficial como Superintendente de Logística e Provisões exigia botas sujas de lama, calos nas mãos e uma atenção implacável aos detalhes. Era respeitada pelo peso das caixas que carregava e pela precisão com que gerenciava os armazéns da subtribo, e não por privilégio de sangue.

Naquela manhã, o vapor da névoa ainda grudava nas paredes de madeira do paiol central quando Saphira cruzou os braços, encarando o pergaminho de inventário na prancheta de carvalho. À sua frente, o batedor Kaelen — um rapaz de escamas escuras no pescoço e respiração ofegante — engolia em seco, segurando o chapéu encharcado de sereno entre os dedos calejados.

— Repete para mim, Kaelen — pediu Saphira, a voz baixa, mantendo o tom firme e analítico que cortava qualquer tentativa de desculpa. — A caravana que descia do norte dos pântanos... O lote de ferramentas de ferro e o sal de conservação. Onde estão?

— Eles... eles não chegaram ao posto de troca do setor três, Mestra Saphira — gaguejou o batedor, desviando o olhar por um segundo antes de encará-la de volta. — Nós fomos checar o trajeto assim que o prazo estourou. O comboio parou na bifurcação do Salgueiro Torto.

Os olhos dourados de Saphira estreitaram-se levemente.

— Parou por quê? Atolou na lama? Houve desabamento na encosta?

— Não, senhora — Kaelen balançou a cabeça, a expressão tensa ganhando um tom de aversão mal disfarçada. — As quatro carroças estavam lá. Os bois... os bois tinham sido estilhaçados, mas as caixas de suprimentos... nenhuma delas foi tocada. O sal estava intacto. As ferramentas continuavam nos caixotes de pinho.

Saphira abaixou a prancheta de madeira sobre a mesa de trabalho, o som seco ecoando no paiol vazio.

— Intactas? Ninguém saqueou nada? Nenhuma moeda ou mercadoria foi levada?

— Nada, Mestra. Mas os guardas... — o batedor engoliu em seco, passando a mão pela nuca. — Os dois carroceiros e os escoltas não tiveram tanta sorte. Encontramos os restos espalhados pela vegetação. Não foi banditismo comum, Saphira. Parecia que algo havia rasgado a carne deles por puro instinto, sem se importar com a carga.

Saphira permaneceu em silêncio por alguns segundos, sentindo o ar denso do pântano parecer de repente pesado demais nos pulmões. O aviso que sua mãe, Walmmore, havia deixado dias antes sobre a praga e a mutação descontrolada ecoou em sua mente como um sino de alarme. A aparente paz dos Charcos começava a mostrar suas primeiras e perigosas faturas.

Saphira não pertencia àqueles pântanos por berço de infância; ela havia retornado à subtribo dos Charcos quando atingiu a maioridade, movida pelo desejo de conhecer o pai e a cultura de seu povo. O que era para ser uma visita de reconhecimento transformou-se em lar quando percebeu o quão bem foi acolhida. Foi o próprio Vaerthos quem fizera questão de designar à filha o cargo de Superintendente de Logística e Provisões, vendo nela a firmeza necessária para manter o clã em ordem.

Voltando-se para o batedor, Saphira encerrou o assunto com um suspiro curto, apertando a prancheta contra o peito.

— Eu mesma vou levar isso ao líder — disse ela, ajeitando a gola do casaco encerrado contra a umidade.

Kaelen esboçou um meio sorriso soturno, tentando aliviar a tensão do paiol.

— Quer que eu avise o "pai" que a senhora está chegando, Mestra Saphira?

Saphira o fuzilou com um olhar gélido, a mandíbula travada.

— No momento, Kaelen, ele é o líder da subtribo. Cuide das suas rondas.

Dito isso, virou as costas e deixou o batedor plantado na poeira úmida.

A sala do trono dos Charcos não ostentava o ouro ou o mármore das grandes fortalezas do continente; era um vasto salão de vigas de carvalho enegrecidas e pedra vulcânica, erguido sobre as águas profundas do pântano. Ali, sentado em um trono largo esculpido em rocha e raízes petrificadas, aguardava Vaerthos.

Ele era uma imponente manifestação de sua estirpe dracônica: escamas espessas de um verde-escuro quase musgo revestiam seus ombros largos e braços musculosos, mesclando-se a placas ósseas robustas que davam a ele uma aura de autoridade ancestral e imperturbável. Saphira herdara muito daquela genética — suas próprias escamas traziam o mesmo tom escuro e resistente ao longo dos braços e do pescoço. Contudo, enquanto Vaerthos exibia a crista e os chifres tradicionais de sua linhagem, Saphira carregava uma marca única e marcante: seis chifres perfeitamente alinhados em sua cabeça, três de cada lado, emoldurando um par de olhos de um azul-claro translúcido, frios e penetrantes como o gelo das montanhas distantes.

Ao vê-la cruzar as portas pesadas, Vaerthos ergueu o rosto, a expressão severa suavizando-se sutilmente ao reconhecer a filha.

— Saphira. Vejo que a ronda matinal trouxe mais do que pergaminhos amassados. O que houve? — perguntou ele, a voz grave ecoando nas paredes de pedra.

Saphira aproximou-se do estrado, depositando a prancheta sobre a mesa rústica ao lado do trono.

— Tivemos problemas nas rotas do norte, pai. Ou melhor... na rota que deveria ter chegado até nós. As caravanas de suprimentos foram interceptadas.

Vaerthos franziu a testa, cruzando os braços maciços.

— Interceptadas? Os registros dizem que os comboios do setor leste passaram sem incidentes no mesmo horário. O que aconteceu com o comboio do norte?

— Nenhuma caixa foi levada. O sal e as ferramentas continuam intactos nos caixotes — Saphira respondeu, os olhos azuis fixos nos do pai, carregando o peso da constatação. — Mas os homens não sobreviveram. Encontramos os corpos estilhaçados. Algo os massacrou por puro instinto, sem sequer tocar na carga.

O líder dos Charcos endireitou-se no assento, o cenho franzido em uma ruga profunda. Ele abriu um mapa de pergaminho estendido na mesa, conferindo os relatórios recentes que os mensageiros traziam das bordas do território.

— Isso não faz sentido... Se fosse banditismo, levariam o ferro. Se fossem feras comuns, devorariam as provisões.

— Minha mãe me enviou avisos antes — Saphira continuou, a voz caindo um tom, carregando o eco de uma preocupação antiga. — Ela citou os aberramorfos. Criaturas mutantes geradas pelo enfraquecimento e pela distorção da energia de Verídios no continente. Acha que essa praga já alcançou nossos limites?

Vaerthos recostou-se devagar, encarando o teto de madeira enquanto os dedos tamborilavam na pedra do trono. Um silêncio pesado instalou-se no salão, quebrado apenas pelo som da água batendo ritmicamente nas estacas de sustentação.

— Se os aberramorfos já estão testando nossas fronteiras, a situação é mais grave do que imaginávamos — admitiu Vaerthos, a mandíbula tencionada. — E, para ser sincero... não me surpreende tanto. Sinto isso na pele há luas. A minha conexão com Verídios... ela mudou. Ficou fraca, distante, como se a própria divindade estivesse perdendo o fôlego ou sendo abafada por algo muito maior lá fora.

— Não é só lá em cima, pai — retrucou Saphira, a voz cortando o ar pesado do salão com uma nitidez afiada. Ela deu um passo à frente, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo. — Eu sinto isso no meu próprio sangue. O meu fogo interior... Ele está pesado, como se estivesse afundando em óleo frio. Minha magia não responde com a mesma limpidez de antes.

Vaerthos soltou um suspiro profundo, o som carregado de um cansaço ancestral que parecia esmagar seus ombros largos. Ele esfregou a ponta dos dedos nas têmporas escamadas.

— Se o seu foco está oscilando, isso só prova o meu ponto. Vou enviar uma tropa de seis homens para averiguar o local da emboscada amanhã cedo. Eles vão revirar a estrada, rastrear essas carcaças e trazer um relatório completo.

— Então eu vou junto com eles — disparou Saphira, sem pestanejar.

O líder dos Charcos ergueu os olhos de imediato, a severidade retornando ao seu semblante com força total.

— De jeito nenhum. Você não vai colocar os pés naquele pântano corrompido para brincar de batedora. Nós sequer sabemos o que são esses aberramorfos, Saphira! Não fazemos ideia de qual tipo de toxina ou distorção mental essas coisas espalham ao rasgar carne. Como líder deste clã, eu tenho a responsabilidade de manter a integridade da minha gente, e isso inclui você.

A mandíbula de Saphira travou, a raiva subindo quente pela garganta, mas não era a birra de uma criança contrariada; era o choque de duas visões de mundo inconciliáveis.

— Sua gente? É nisso que você pensa? Em erguer muralhas de madeira e esperar o perigo bater na porta e esperar para ver se ele vai embora sozinho? — Saphira sibilou, os olhos azuis faiscando de indignação. — Esqueceu quem eu sou? Eu sou uma maga de Vaeloria! A essência da minha magia não é se esconder atrás de palafitas e rezar para que o lodo nos esconda. Vaeloria molda o mundo, ela intervém, ela corta o mal pela raiz! Ficar sentada aqui esperando um relatório enquanto o continente apodrece vai contra tudo o que eu defendo!

Vaerthos levantou-se do trono de uma vez, o impacto das suas botas pesadas estalando na rocha. A fúria dele não vinha do medo de perdê-la para o perigo, mas da rigidez pragmática de quem via a filha subestimar a escala da catástrofe.

— Acorde para a realidade, Saphira! — trovejou o pai, a voz grave ecoando pelas vigas de carvalho. — Esqueça essa ilusão de pureza da sua deusa por um segundo! Nós dois viemos da mesma linhagem, ambos somos filhos de Verídios. Se a conexão primordial com o deus está alterada e fragmentada na terra, a sua magia está tão corrompida e frágil quanto a minha! Você acha que o seu título de Vaeloria faz de você uma divindade intocável? Se pisar lá fora achando que pode controlar o caos com feitiços de livro, você vai virar apenas mais um pedaço de carne estilhaçada na lama!

— Eu não sou uma frágil! — Saphira gritou, o peito arfando violentamente enquanto as lágrimas de pura frustração e impotência pinicavam o canto de seus olhos azuis, embora ela se recusasse a deixá-las cair. Para ela, o pior não era o perigo dos monstros, mas o fato de o próprio pai reduzi-la a uma peça frágil de seu tabuleiro político e de segurança, ignorando a sua vocação e a urgência de agir. — Eu não vou ficar acovardada aqui dentro! Eu conheço o terreno melhor do que qualquer um dos seus soldados. Vou liderar cinco homens para aquela rota, quer você queira, quer não. Eu preciso ver o que aconteceu com meus próprios olhos.

O silêncio que se seguiu foi denso e sufocante. Pai e filha mediram-se por longos segundos, as respirações pesadas preenchendo o espaço. Saphira mantinha os punhos tão apertados que as unhas cravavam nas palmas das mãos, segurando o choro que ameaçava travar sua voz.

Vaerthos a encarou fixamente, reconhecendo na teimosia obstinada dela a mesma têmpera dura que ele próprio possuía. Percebendo que tentar contê-la à força geraria uma fratura irreparável entre eles, o líder soltou o ar em um muxoxo de derrota contida, recuando um passo.

— Cinco homens. Nem um a mais — determinou Vaerthos, a voz baixa, carregada de um peso imenso. — Mas me escute bem, Saphira: quero você de volta dentro dos limites dos Charcos antes do jantar. Você sabe muito bem que, quando a noite cai, gosta de caminhar sozinha pelos arredores da margem, e eu não vou ter paz sabendo que há aberramorfos à solta enquanto você perambula no escuro.

Saphira engoliu em seco, contendo o tremor nos lábios, e virou as costas sem dizer uma palavra a mais, marchando para fora do salão com o orgulho ferido e a mente em ebulição.

O ar frio da tarde nos Charcos batia no rosto de Saphira enquanto ela subia a ladeira de madeira encharcada, marchando em direção ao Bastião das Marés. Sua mente ainda fervilhava com o eco da discussão com Vaerthos, o peito apertado pela frustração.

Tão absorta em seus pensamentos estava que, ao contornar um dos pilares de sustentação do armazém principal, quase perdeu o equilíbrio em uma tábua solta coberta de lodo. Antes que caísse, uma mão firme segurou seu braço com precisão, puxando-a para o prumo.

— Cuidado onde pisa, Saphira. Desse jeito você vai acabar mergulhando de cara na lama antes do anoitecer — a voz leve e conhecida soou logo acima dela.

Era Nerian. O rapaz anfíbio, com seus traços flexíveis e o olhar sempre atento, a encarava com uma mistura de afeto e preocupação genuína.

— Eu estou bem, Nerian. Só... distraída — murmurou ela, balançando a cabeça para afastar o turbilhão de ideias.


A história deles vinha de longe. Tinham se conhecido anos atrás, nos corredores da Academia de Magia de Vaeloria, onde aprenderam a moldar as primeiras energias. O que começou como uma parceria de estudos logo evoluiu para uma amizade profunda, e dali para um romance clandestino. Era um segredo guardado com cautela: Saphira sabia que, se Vaerthos descobrisse que sua herdeira mantinha um laço amoroso com um rapaz anfíbio — alguém sem o sangue ou as escamas da linhagem pura —, o pai faria oposição ferrenha em nome da tradição dos Charcos. 

Nerian olhou para o rosto tenso dela, percebendo instantaneamente que o peso nos ombros ia muito além de um dia comum de trabalho.

— Você está pálida, Saphira. Aconteceu alguma coisa no salão do trono? — perguntou ele, os dedos deslizando suavemente pelo dorso da mão dela, buscando um ponto de conforto, sem invadir o espaço dela.

— As caravanas do norte foram interceptadas, Nerian. Há aberramorfos rondando os limites da região, e eu vou com uma patrulha averiguar o que aconteceu — respondeu Saphira, direta, sem rodeios.

Nerian franziu o cenho, o semblante endurecendo com a gravidade da notícia. Ele a conhecia bem demais para tentar tratá-la como uma criança indefesa, mas a simples menção a essas criaturas o deixou em alerta. Ele ponderou a situação, olhando-a nos olhos com seriedade e respeito à autonomia dela.

— Se essas coisas estão lá fora e o perigo é real desse jeito... como você pretende gerenciar essa patrulha sem se expor à toa, Saphira? — perguntou ele, a voz firme, porém carregada de um cuidado genuíno que reconhecia a competência dela.

Saphira sentiu a rigidez do próprio corpo relaxar um pouco diante da maturidade dele. Nerian não estava tentando controlá-la; ele estava avaliando o risco ao lado dela, como um parceiro de verdade.

— Eu vou com cinco batedores de confiança. Conheço cada palmo daquele pântano melhor do que qualquer um, Nerian. Preciso ver isso de perto para sabermos o que estamos enfrentando — afirmou ela, a voz suavizada.

Nerian assentiu devagar, aceitando a decisão dela e oferecendo seu apoio incondicional. Ele deu um passo mais perto, ajeitando com delicadeza a gola do casaco dela.

— Entendido. Só... tome cuidado lá fora. Nós vamos nos encontrar depois do jantar? Preciso saber que você vai voltar inteira.

Saphira olhou nos olhos dele, acenando com firmeza

— Vamos. Prometo. Me encontre na velha ponte de pedra... às oito em ponto.

Nerian sorriu de leve, embora a preocupação ainda relampejasse em seu olhar. Ele estendeu a mão, os dedos acariciando com suavidade o contorno do rosto dela antes de inclinar-se para deixar um beijo rápido e terno em sua bochecha.

Saphira deixou escapar um sorriso fraco, sentindo a tensão do dia se dissolver minimamente com o gesto, antes de se afastar um passo.

— Eu já volto. E amo você — disse ela, dando meia-volta com passos decididos rumo à ladeira de madeira.

Enquanto ela subia e afastava-se para adentrar os portões do Bastião das Marés, Nerian permaneceu no recanto sombreado, acompanhando cada movimento com os olhos.

— Eu te amo — murmurou ele para o vento úmido, a voz suave acompanhando o caminhar firme dela até que sumisse de vista dentro do quartel.

O interior do Bastião das Marés era espaçoso e denso, iluminado por tochas de óleo cujas chamas tremulavam contra as paredes de toras de carvalho enegrecidas e pedra úmida. Assim que Saphira cruzou o umbral, um soldado anferiano — de constituição robusta e traços anfíbios perfeitamente adaptados às águas dos pântanos — ergueu-se de uma mesa de mapas, pigarreando.

— Mestra Saphira. O seu pai já havia passado por aquilo mais cedo, avisando que a senhora iria liderar a patrulha e...

Saphira o interrompeu com um gesto seco da mão, a mandíbula travada.

— Aqui dentro do Bastião, ele não é meu pai; é o líder da subtribo, e eu sou a Superintendente. Trate-o pela patente ou cargo, soldado — corrigiu ela, com um tom cortante que cortou o ar como uma lâmina fria.

Apoiada displicentemente em um dos pilares estruturais de pedra, uma soldada anferiana anfíbia — destacando-se pela pele lisa e esverdeada com leves membranas e escamas nas laterais do pescoço, ideal para se mover com silêncio nas águas barrentas — cruzou os braços e soltou um riso curto e irônico.

— Bem dito, Superintendente. É sempre a mesma conversinha de bastidor... Se fosse um herdeiro macho no lugar da senhora, estariam debatendo táticas de avanço e honra em vez de tratá-la como a filhinha do líder que precisa de tutelamento — murmurou ela, balançando a cabeça com desdém.

Um veterano anferiano da guarnição, postado na outra ponta da bancada com traços marcados por cicatrizes de antigas cheias, ergueu o rosto de imediato e rebateu com aspereza:

— Menos, Vesper. O líder Vaerthos nunca deu colher de chá para linhagem nenhuma, e a Superintendente conquistou o posto no suor e na lâmina. O problema não é o sangue dela, é o bando de fofoqueiros daqui de dentro que adora transformar posto militar em taverna.

— Já chega os dois! — Saphira disparou, a voz estressada cortando o início da discussão antes que virasse uma contenda inútil. Ela bateu com a palma da mão na madeira da mesa, os olhos azuis faiscando de impaciência. — O foco aqui não é o meu título, não são as minhas origens e muito menos a opinião de vocês sobre a liderança dos Charcos. O que importa é recuperarmos a rota e descobrirmos que desgraça abateu aquelas caravanas.

Ela respirou fundo, puxando o ar úmido para estabilizar os nervos, antes de apontar firme para fechar a equipe.

— Vesper, Kaelis, Tarsis, Mael e Hael. Vocês cinco formam a patrulha comigo — ordenou Saphira, batendo com os nós dos dedos na mesa de mapas. — Verifiquem o equipamento leve, apliquem o veneno de truta nas lâminas e tragam bobinas extras de corda reforçada. Partimos em dez minutos.

Sem dar espaço para mais uma palavra, Saphira virou as costas e marchou em direção aos portões externos do quartel. O grupo de cinco soldados anferianos prontamente bateu continência e a seguiu, atravessando a saída que dava acesso direto à trilha enlamaçada do norte.

Conforme se distanciavam das palafitas seguras dos Charcos, a vegetação de Gray Hare Woodland fechava-se ao redor deles como uma cortina cinzenta e sufocante. O cheiro de musgo podre intensificava-se a cada passo na lama grossa, até que, logo adiante, as quatro carroças abandonadas da caravana apareceram na bifurcação do Salgueiro Torto — o cenário silencioso e brutal onde os aberramorfos haviam deixado sua marca estilhaçada.

O cenário na bifurcação do Salgueiro Torto era uma tapeçaria de ruína e carne desfigurada. As quatro pesadas carroças da caravana jaziam tombadas de lado, com os eixos de pinho estilhaçados em estacas secas e as rodas girando frouxamente no ar lamacento. O carregamento havia sido espalhado e pisoteado no lodo negro: centenas de sacas de sal rasgadas dissolviam-se na umidade estagnada, transformando a lama em uma pasta leitosa e salobra, enquanto ferramentas de ferro forjado e barras de metal sobressaíam parcialmente submersas sob o crepúsculo cinzento.

Mas o horror real concentrava-se nos corpos dos viajantes e da escolta, massacrados com uma precisão brutal que desafiava qualquer lógica de combate comum. Perto de uma das rodas quebradas, um comerciante humano tinha o tórax completamente aberto, as costelas esmagadas para fora como estacas de osso expostas ao ar frio. A poucos metros, um anferiano anfíbio repousava com os membros torcidos em curvas e rotações anatômicas impossíveis, a pele lisa completamente esfolada dos músculos até a altura do pescoço. Mais adiante, os restos mortais de um maculado exibiam a pele corrompida por manchas escuras e cristalizadas; parecia que seu próprio interior havia implodido, com agulhas de cristal negro irrompendo de dentro de suas vísceras. Entre os mortos, um meio-dragão de escamas espessas e traços marcantes tinha o peito fendido ao meio por uma força colossal, como se placas ósseas grossas tivessem sido cortadas a seco. Nada fora levado; as bolsas de moedas e as lâminas valiosas continuavam intactas. Tudo ali fora destruído por um ímpeto puramente sádico de desconstrução anatômica.

— Tarsis, venha comigo. Vamos examinar o padrão das mutilações nos corpos — ordenou Saphira, a voz cortante quebrando o silêncio fúnebre. Ela olhou para os outros quatro soldados anferianos posicionados ao redor. — Vesper, Kaelis, Mael e Hael, estabeleçam um perímetro de cem metros. Mantenham os arcos tensionados com flechas envenenadas e as espadas curtas desembainhadas. Verifiquem se o veneno de truta está bem aplicado nas lâminas. Qualquer oscilidade na névoa, avisem imediatamente.

Enquanto Vesper e Mael recuavam para pontos estratégicos da vegetação densa, posicionando seus arcos curtos de caça com flechas prontas para o disparo, Tarsis, Kaelis e Hael mantinham as espadas curtas em punho, avançando com passos silenciosos sobre a lama. Saphira agachou-se junto aos escombros, tentando focar sua magia para rastrear a assinatura energética do local, mas seu fogo interior repousava pesado e letárgico, como óleo congelado em suas veias. O fedor de sangue coagulado, entranhas abertas e musgo podre tornava cada inspiração sufocante.

— Olha a carcaça daquele boi de carga, Mestra... — murmurou Tarsis, com a espada firmemente empunhada, apontando com a ponta da lâmina para o animal rasgado ao meio. — Não foram lâminas. A carne foi esmagada e arrancada ao mesmo tempo, como se mandíbulas múltiplas tivessem se fechado...

O som interrompeu-se seco. A umidade da mata foi rasgada por um arrastar rítmico e úmido vindo de todas as direções da neblina: schhlip, schhlip, schhlip.

— Perímetro quebrado! Contato em massa! — gritou Vesper da copa de uma raiz alta, soltando imediatamente a corda de seu arco e disparando uma flecha envenenada que atingiu o alvo com um estalo rançoso.

A vegetação ao redor implodiu em um frenesi disforme. Das sombras cinzentas, os aberramorfos irromperam com uma velocidade antinatural: silhuetas esqueléticas de pele translúcida e oleosa, esticadas sobre ossaturas erráticas. Tinham membros extras retorcidos que brotavam desalinhados dos torsos, bocas sem lábios recheadas de fileiras triplas de dentes serrilhados e olhos múltiplos que piscavam de forma descompassada.

O combate explodiu em violência pura. Saphira tentou canalizar o pouco de energia que restava em seu núcleo, mas a magia engasgou em fagulhas inúteis, forçando-a a sacar sua lâmina para se defender no reflexo.

O campo tornou-se um pandemônio de carne e metal. Vesper alternava com agilidade felina entre disparos rápidos com seu arco curto e estocadas precisas de espada quando os monstros saltavam em sua direção. Mael cobria o flanco esquerdo, cravando flechas envenenadas direto nas cavidades oculares das aberrações, enquanto Tarsis descarregava golpes pesados com sua espada, decepando membros espessos que continuavam se contorcendo e estalando na lama após separados.

No flanco direito, contudo, a linha defensiva ruiu. Uma aberração de proporções maiores, cujos braços haviam se fundido em longos tentáculos ósseos farpados, despencou de uma árvore e atingiu Hael em cheio. O impacto estilhaçou o arco do soldado e triturou o osso de seu ombro com um estalo oco; o monstro cravou garras sujas profundamente na carne do braço, arrancando tiras inteiras de tecido enquanto Hael desabava na lama, urrando de dor lancinante.

Vendo o companheiro encurralado, Kaelis atirou-se à frente para abrir caminho com sua espada curta. Mas a reação foi imediata: outro aberramorfo emergiu da névoa cega, cravando uma mordida selvagem na coxa de Kaelis. A mandíbula cheia de dentes múltiplos rasgou a calça de couro e arrancou um naco expressivo de carne e músculo, abrindo um ferimento fundo que inundou o lodo de sangue escuro. Kaelis caiu de joelhos, cravando a lâmina no chão para não desabar por completo.

— Kaelis! Hael! — rugiu Saphira.

Impulsionada por puro instinto de sobrevivência, ela ignorou o próprio esgotamento, forçou as entranhas a canalizarem o mínimo de calor e liberou uma rajada curta de chamas concentradas. O fogo místico engolfou o aberramorfo que atacava Kaelis, fundindo sua carne translúcida em uma massa fumegante e borbulhante. Aproveitando a brecha, Tarsis e Mael avançaram com estocadas furiosas, decapitando as últimas criaturas restantes.

O silêncio desabou sobre a clareza, pontuado apenas pelo som da respiração sufocada, cavalar e trêmula dos sobreviventes. O cheiro de gordura queimada, sangue fresco e terra úmida impregnava o ar. Kaelis e Hael jaziam escorados nas carcaças das carroças, contorcendo-se de dor enquanto Vesper rasgava tiras de tecido para aplicar torniquetes apertados nos ferimentos abertos de seus membros mutilados.

Saphira apoiou as mãos trêmulas sobre os joelhos, o corpo encharcado de suor frio e lama. Ela tentou erguer o tronco para avaliar os danos da patrulha e ditar a ordem de retirada, forçando o olhar a se focar nos soldados.

— A... a infecção dessas coisas... Elas não estão destruindo por recursos, elas estão... — Saphira tentou articular, mas a frase travou bruscamente na sua garganta.

Um formigamento gélido, agudo e violento disparou por toda a extensão de sua espinha, irradiando-se para os braços e pernas como milhares de agulhas de gelo. Um embrulho estomacal seco, profundo e lancinante revirou suas entranhas com uma força brutal, como um nó invisível apertando-se por dentro. Sua visão estreitou-se em um túnel cinzento, o som ao redor abafou-se em um zumbido distante e, antes que qualquer um dos soldados pudesse alcançá-la, as pernas de Saphira cederam completamente, fazendo-a despencar desacordada na lama úmida dos Charcos.

— Saphira! Acorde, por favor! — a voz de Vesper ecoava abafada e urgente, enquanto passos apressados chapinhavam na lama ao redor. As mãos de Tarsis pressionavam seus ombros de leve, tentando trazê-la de volta.

A penumbra do pântano dissolveu-se num piscar de olhos, substituída pelo teto de toras de madeira tratada e pelo cheiro forte de ungüentos medicinais e ervas secas penduradas nas vigas.

Saphira pestanejou pesadamente, a claridade fraca das lanternas fazendo seus olhos arderem. Ela estava deitada em uma maca firme no posto de enfermagem dos Charcos. Ao lado, organizando frascos e tubos de vidro marcados com runas em uma bancada de madeira, estava Nyla, a enfermeira maculada de pele azulada.

Assim que percebeu os olhos de Saphira se abrirem, Nyla largou um pano limpo sobre a mesa e aproximou-se com passos tranquilos, segurando o pulso dela para checar o ritmo.

— Olha só quem resolveu voltar — disse Nyla, com um tom direto e pragmático. — Achei que teria que apelar para banhos de sal para reativar esse seu cérebro teimoso. Como você está se sentindo? O que aconteceu lá na rota do norte?

Saphira gemeu fracamente, levando a mão à testa enquanto o cansaço latejava em cada osso.

— Eu só... me forcei além do limite — murmurou, a voz rouca. — O esforço com a magia na umidade daquele lugar esgotou meu núcleo.

Nyla cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha azulada enquanto desviava o olhar para um pergaminho coberto de anotações rúnicas e biológicas rabiscadas às pressas.

— Saphira, os meus instrumentos não inventam coisas. Eu passei as últimas duas horas rodando uma varredura completa em você: cheguei a ressonância rúnica no seu fluxo sanguíneo, medi a saturação de mana no tecido muscular e cruzei isso com a biometria da sua pressão e temperatura interna — explicou Nyla, apontando para as marcações no papel. — O seu núcleo mágico principal está esgotado, sim, mas o colapso veio de outro lugar. A sua energia vital secundária apresenta uma demanda metabólica autônoma e em aceleração, exigindo fluxo sanguíneo, nutrientes e suporte celular contínuo. Em termos clínicos, o seu organismo está metabolizando uma gestação em estágio inicial, e o esforço da patrulha somado a essa demanda oculta foi exatamente o que desligou o seu sistema.

O silêncio que se seguiu no posto de enfermagem pesou como chumbo. Saphira travou na maca. O fôlego pareceu sumir de seus pulmões, dando lugar a um vazio gélido que despencou em seu estômago. Um pânico silencioso e pesado apertou seu peito. Ela agarrou as bordas do colchão com os nós dos dedos brancos, encarando Nyla com os olhos arregalados, a expressão tomada por uma vulnerabilidade contida.

— Você... você contou para ele? — a voz de Saphira saiu trêmula, quase inaudível. — O meu pai... Nyla, você disse alguma coisa ao Vaerthos?

Nyla balançou a cabeça de imediato, erguendo as mãos em um gesto firme de negação.

— Não, eu não contei nada a ninguém. Você acabou de acordar, a ficha médica é sigilosa e o seu pai nem sequer pisou aqui desde que trouxeram você da patrulha — respondeu Nyla, suavizando o tom. — Fique calma. Nenhuma palavra saiu daqui.

O alívio durou pouco, logo sufocado por uma onda avassaladora de desespero. Saphira fechou os olhos com força, e as lágrimas começaram a descer em silêncio por seu rosto pálido, revelando o quanto ela estava exausta e desolada por dentro. Ela enterrou o rosto nas mãos.

— Eu não acredito nisso... Nyla, me diz que tem um jeito. É possível... é possível interromper isso?

Nyla perdeu qualquer resquício de rigidez técnica. O rosto de pele azulada suavizou-se em um vinco de profunda empatia. Ela largou o pergaminho, pegou um copo de água fresca de uma jarra próxima e o estendeu com cuidado para Saphira.

— Ei. Olha para mim. Respira fundo — disse Nyla, com a voz baixa e acolhedora, segurando o ombro de Saphira com delicadeza enquanto a ajudava a segurar o copo. — Não tome nenhuma decisão agora, com o corpo esgotado e a cabeça a mil por hora. Beba um pouco d'água e processe isso com calma.

Saphira aceitou o copo com as mãos trêmulas, dando um gole pequeno apenas para molhar a garganta apertada, antes de devolvê-lo à bancada. Ela olhou para o nada, com os ombros caídos.

— Você não entende, Nyla... Eu nunca quis isso. Nunca quis carregar esse fardo. O meu pai... Vaerthos não quer um neto, ele quer um herdeiro dragão perfeito para manter a linhagem e o controle dos Charcos. E o Nerian... o Nerian é incrível, mas a nossa vida já é caótica o suficiente com as patrulhas e as tensões da subtribo. Se meu pai descobrir, ele vai transformar essa criança em uma ferramenta política antes mesmo de ela nascer. Eu não posso... eu não vou ser incubadora de linhagem nenhuma.

Nyla ouviu tudo em silêncio, assentindo com a cabeça de forma compreensiva. Na subtribo dos Charcos, a obsessão de Vaerthos por pureza de sangue e controle rígido sobre a descendência era um segredo aberto que todos comentavam em sussurros. A Maculada puxou um banquinho, sentou-se ao lado da maca e segurou a mão fria de Saphira.

— Saphira, todo mundo nos Charcos sabe como o Vaerthos enxerga a família e a linhagem; ele confunde dever militar com propriedade pessoal — falou Nyla, com um tom franco e reconfortante. — Se você decidir por interromper, os procedimentos existem e são seguros aqui na enfermaria. Mas se a escolha for outra, ou se você precisar de tempo para respirar e pensar em como lidar com o Nerian e com o velho, saiba que você não está sozinha nessa situação. O seu corpo, a sua vida e as suas decisões ainda são seus, independentemente do que o líder dos Charcos espere de você. Vai ficar tudo bem. Um passo de cada vez.

As horas se arrastaram até que a liberação formal fosse concedida no posto médico. Saphira cruzou o limiar da residência principal quando a noite já havia consumido por completo a umidade esverdeada dos Charcos, transformando a paisagem em um breu denso e silencioso. 

Saphira cruzou a porta e entrou na sala de estar. O ambiente estava iluminado pelas lamparinas comuns de casa. Vaerthos a aguardava sentado no sofá, com o semblante sério e os braços apoiados nos joelhos. Ela olhou rapidamente para o relógio na parede: a hora do jantar havia passado há muito, perdida nas horas em que seu corpo negara qualquer obediência no posto médico.

Antes que ela desse mais um passo, a voz de Vaerthos quebrou o silêncio, direta e firme:

— Você tem ideia de que horas são? — disparou ele, erguendo o rosto e tocando o colar metálico em seu pescoço, o artefato que sintonizava a pulsação dos herdeiros e a havia denunciado ao emitir o alerta de internação no hospital. — Prometeu que estaria de volta antes da noite cair.

Saphira travou os maxilares, sentindo o cansaço latejar nas têmporas.

— Eu passei mal com o cheiro da névoa e a decomposição dos Aberramorfos no Córrego Baixo — respondeu ela na defensiva. — A patrulha cumpriu o objetivo. Todos os monstros foram abatidos e a rota está limpa.

Vaerthos levantou-se do sofá, demonstrando a frustração de um pai preocupado.

— Os relatórios já chegaram à minha mesa e detalharam o seu colapso na lama — retrucou ele, dando um passo à frente. — Você continua agindo com uma irresponsabilidade desnecessária. Tratar a própria saúde desse jeito não faz de você uma líder melhor.

Observando a palidez dela, os tremores contidos e o aspecto profundamente abatido, ele estreitou os olhos com suspeita:

— Há mais alguma coisa que você está me escondendo?

O coração de Saphira deu um salto violento contra as costelas. O pânico de que ele pudesse enxergar através de sua postura, de que percebesse o verdadeiro motivo de seu mal-estar e descobrisse a gravidez, fez com que sua mão se movesse por puro instinto protetor em direção ao ventre. Ela freou o movimento a centímetros de tocar a barriga, percebendo o perigo a tempo, e fechou os dedos com força contra a lateral da própria coxa, sufocando o gesto em um segundo de pura tensão.

Engolindo o nó na garganta para manter a voz firme, ela sustentou o olhar dele.

— Você está certo... em tudo — murmurou Saphira, forçando-se a não demonstrar o tremor que ameaçava desmoroná-la. — Estou apenas exausta. Vou subir para fazer as malas; amanhã cedo, parto para Narrow Groove.

Vaerthos franziu o cenho, contrariado com a forma evasiva.

— Saphira. Volte aqui e fale comigo direito. As coisas não se resolvem fugindo para o quarto!

Parada no primeiro degrau da escada, sem se virar para encará-lo, Saphira respondeu com frieza:

— Você está certo. E eu não tenho absolutamente nada a dizer.

Sem esperar por uma nova bronca, ela continuou subindo os degraus, com o peito apertado e a certeza de que por pouco não havia deixado seu segredo escapar.

O som dos passos pesados de Vaerthos ecoou pela escada logo em seguida, subindo com pressa. Saphira mal teve tempo de trancar a porta do quarto e soltar a bolsa sobre a cama quando fortes pancadas secas estalaram contra a madeira.

— Abra essa porta, Saphira — ordenou a voz de Vaerthos, do outro lado.

Ela encostou a testa contra a madeira, fechando os olhos com um suspiro carregado de impaciência.

— Eu já disse que não tenho nada para conversar, pai! — respondeu ela, com a voz ríspida.

Do lado de fora, o silêncio durou o espaço de um suspiro antes que Vaerthos lançasse o ultimato:

— É assim? Quer continuar fingindo que não há nada errado enquanto treme pelos cantos e esconde o próprio estado? — disparou ele, a voz carregando uma ameaça firme. — Se você insiste em fechar essa porta e tratar isso com descaso, eu mesmo vou avisar Walmmore da sua condição agora mesmo.

Ao ouvir aquilo, Saphira sentiu um bolo de irritação subir pela garganta — pura raiva. Sempre a mesma coisa. Era típico de Vaerthos: toda vez que perdia o controle de uma discussão ou não sabia como lidar com as escolhas dela, recorria à mãe como se precisasse de supervisão adulta para gerenciar a própria filha.

Desdenhosa do blefe e exausta daquela mania infantil dele de correr para a mãe ao primeiro sinal de obstáculo, ela desencostou da porta, cruzando os braços com um sorriso irônico e frio.

— Avisa a mãe, pai. Faz o que você sempre faz quando não consegue lidar com as coisas sozinho — retrucou ela, a voz tinindo de desprezo. — Que seja. Faça o que quiser. Eu só quero ficar sozinha.

Do lado de fora, o silêncio de Vaerthos pesou contra a madeira, pego de surpresa pelo fato de o coringa dele não ter gerado o efeito que esperava.

A manhã seguinte nasceu envolta pela névoa úmida dos Charcos. Saphira aguardava junto ao pequeno ancoradouro, com uma mala de mão compacta apoiada aos seus pés e o barqueiro conferindo as cordas da embarcação. Ela havia saído de casa bem cedo, antes mesmo que os primeiros raios de sol rompessem por completo, movida pela urgência de evitar qualquer nova discussão ou o olhar controlador de Vaerthos. No fundo da mala, profundamente soterrado sob as mudas de roupa e os panos de viagem, o colar de comunicação metálico jazia escondido, cortando de vez qualquer sinal ou tentativa de rastreio. 


O som de passos rápidos cortou a atmosfera silenciosa da doca. Antes que Saphira pudesse erguer o rosto, Nerian emergiu da névoa e a envolveu em um abraço instintivo e firme, puxando-a contra o próprio peito.

— Por que você não apareceu na minha casa ontem à noite? — perguntou ele, a voz baixa carregada de uma apreensão genuína enquanto os dedos longos se firmavam em sua cintura. — Eu esperei por você horas a fio. Pensei que seu pai tivesse feito alguma cena e te impedido de sair de casa de novo.

Ainda visivelmente abalada pela carga emocional da noite anterior, Saphira soltou o ar com força e afastou-se o suficiente para encará-lo. O cansaço misturava-se à raiva crua em suas expressões. Com a voz trêmula e contida, ela despejou o que havia acontecido dentro daquela casa:

— Meu pai estava me esperando acordado... Tivemos uma discussão insuportável. Ele ficou furioso com o Córrego Baixo, agiu como se eu fosse uma desmiolada e, quando viu que eu não ia abaixar a cabeça, jogou sujo: ameaçou correr para avisar a mãe sobre o meu estado.

Nerian a ouviu em absoluto silêncio, sentindo a rigidez nos ombros dela, enquanto o barqueiro dava o primeiro sinal de que a embarcação estava pronta para partir.

Enquanto a mão de Nerian continuava o trajeto firme e reconfortante pelas costas dela, algo mudou na forma como ele percebia o ambiente ao redor. Sendo um druida de Vaeloria, sua sintonia com as correntes da vida era fina e aguçada; e foi assim que, por baixo da energia da própria Saphira, ele captou um segundo pulso. Uma pulsação sutil, delicada, mas inconfundível, emanando diretamente do ventre dela.

O movimento dos dedos dele parou de repente. Os olhos de Nerian se arregalaram levemente num misto de surpresa e choque silencioso, e ele a encarou, abrindo a boca como se estivesse prestes a articular a pergunta que formava-se em sua mente.

Saphira percebeu na mesma hora a mudança no olhar dele, captando o exato momento em que a percepção druídica dele alcançou o que ela tentava manter em silêncio. Antes que ele pudesse dizer uma só palavra, ela se afastou bruscamente do toque, fechando o espaço entre eles com um beijo rápido e firme em seus lábios.

— Depois eu me conecto com você pelo colar — murmurou ela, já dando meia-volta em direção à prancha do barco.

Nerian ficou estatelado na beirada do píer, com uma expressão profundamente desolada. As palavras travaram em sua garganta, sem saber como processar o que acabara de sentir e ver. Ele apenas soltou um suspiro pesado, engolindo a angústia que o apertava por dentro.

— Eu amo você... Boa viagem, Saphira — disse ele, a voz baixa e carregada, enquanto o barqueiro desatava as amarras e ele ficava ali parado, observando o barco afastar-se na neblina.

Enquanto o barco lentamente se desprendia do píer, cortando as águas escuras e nevoentas dos Charcos, Saphira permaneceu imóvel na borda da embarcação. As lágrimas, que ela havia contido com tanta força enquanto mantinha a postura firme, finalmente romperam a barreira, escorrendo silenciosas e quentes por seu rosto. Com os olhos embaçados, ela acompanhou a figura de Nerian virar as costas e afastar-se pela madeira gasta da doca, com as mãos enfiadas fundo nos bolsos do casaco, os ombros levemente curvados sob o peso de mil indagações.

Passo a passo, enquanto se distanciava do cais, a mente de Nerian era um turbilhão caótico. Eu realmente senti aquilo? — pensava ele, o eco daquela segunda pulsação ainda reverberando em suas mãos, como se o calor de uma vida minúscula tivesse deixado uma marca indelével em sua sensibilidade de druida. Não podia ser engano. A sintonia com as correntes vitais de Vaeloria nunca falhava, e a energia dupla que emanara de Saphira era nítida, pulsante, inegável.

Um filho? Nós vamos ter um filho?

O pensamento ecoou em sua cabeça com uma força avassaladora, misturando um assombro indescritível, a vertigem da incerteza e uma onda repentina de um carinho quase doloroso. Por que ela havia guardado aquilo para si? Estaria Saphira com medo da reação dele, ou o caos da partida iminente e a briga violenta com Vaerthos a tinham feito silenciar? E agora, com ela navegando em direção a Narrow Groove — um território perigoso e tomado por aberramorfos —, como ele lidaria com a distância sabendo do que sabia?

Nerian parou por um breve instante no meio do caminho, fitando as próprias mãos com frustração, enquanto os questionamentos continuavam a devorá-lo por dentro, sem nenhuma resposta à vista.

As águas escuras e lamacentas de Parallel Woodland chocavam-se contra o casco de madeira com um som abafado, como sussurros vindos das profundezas da terra. A névoa cinzenta e densa cobria a superfície, colando-se à pele de Walmmore enquanto ela ajustava a postura sobre o dorso de seu robusto besouro de carga, uma montaria resistente e perfeitamente adaptada aos terrenos sinuosos daquela fronteira mística.

O barqueiro, um humano de rosto marcado e vestes gastas pela umidade perpétua, manejava o remo longo com cautela evidente. Ao ouvir o nome de Vespera mencionado pela meio-dragonesa como referência de passagem, o homem paralisou o movimento por um segundo, os olhos arregalados em uma mistura de surpresa e temor reverente. — Vespera... — murmurou o barqueiro, a voz carregada de um peso ancestral. — Poucos ousam invocar esse nome nas matas de Parallel Woodland e sobrevivem para contar a história. Se ela a enviou até aqui, que os deuses guardem seus passos.

Walmmore manteve a expressão impassível, os chifres escuros e as escamas reluzindo sob a luz fantasmagórica que emanava entre as copas das árvores. Como uma mercenária experiente e mãe devota, ela compreendia que cada aliança ou rota exigia um preço, mas sua determinação era inabalável: proteger sua prole e estancar a praga que corrompia o continente.

A jornada sobre o besouro estendeu-se por entre trilhas cobertas de musgo até que, enfim, ela parou nas imediações de uma vila abandonada. O ar ali estava viciado, pesado com um odor metálico de sangue velho e o calor sufocante de energias arcanas desgovernadas. Sinais inequívocos de corrupção ritualística rasgavam as estruturas de madeira podre e o solo profanado.

Walmmore desmontou com precisão, a mão enluvada pousando instintivamente no pomo de sua arma enquanto avançava para averiguar os resquícios do ritual. No centro exato da clareza devastada, o solo rasgado irradiava um brilho pulsante e doentio.

De repente, pequenas esferas oculares começaram a brotar da luz, girando em círculos erráticos e frenéticos. O zumbido agudo de dezenas de pupilas movendo-se em sincronia preencheu o silêncio da vila morta, até que uma abertura maior se rasgou no ar e o olho central se abriu, revelando a figura imponente de Charlotte.

A entidade manifestou-se em toda a sua glória monstruosa e ancestral: um corpo grande, alongado e de coloração azul-escura, mesclando traços felinos a uma anatomia profundamente sobrenatural. Sua pele era marcada por grandes aberturas circulares, semelhantes a feridas abertas de onde escorria incessantemente uma substância vermelha e espessa, análoga ao sangue. Membros compridos terminavam em patas com garras afiadas e almofadas azul-esverdeadas, enquanto uma cauda fina e serpenteante desenhava arabescos no cenário, finalizando em uma ponta bifurcada. Ao seu redor, formas circulares amarelo-esverdeadas flutuavam como olhos gigantes, cada uma marcada por uma fenda preta e impiedosa no centro. Na região superior, exibia uma estrutura humanoide de braços erguidos e garras prontas, culminando em uma cabeça de boca escancarada e assustadora, repleta de dentes pontiagudos, adornada por uma gargantilha de elementos metálicos e pontiagudos. Tudo isso suspenso em meio a uma atmosfera cinzenta, nebulosa e repleta de estrelas e sombras sobrepostas que desafiavam a ordem natural.

O olhar da criatura recaiu sobre a meio-dragonesa, carregando o peso de eras. Charlotte resmungou, a voz ecoando como um trovão abafado no espaço ritualístico: — A Vespera mandou uma subordinada pra cá então?

Notando a forma disforme e corrompida que Charlotte ostentava, a meio-dragonesa ergueu o queixo, deixando claro o seu propósito: — São inimigas, então? — E prosseguiu —Não sirvo a lados e não busco guerras vãs. Estou aqui por uma única razão: assegurar que meus filhos não sejam corrompidos por este mal. Vim para descobrir a origem deste mal.

Por um instante, o silêncio tenso pairou sobre as ruínas, pesado como chumbo. Então, lentamente, as mãos com garras de Charlotte se ergueram, batendo palmas em um aplauso seco, sarcástico e ecoante.

— Afinal... — ressoou a entidade, com um sorriso de dentes afiados rompendo em sua boca monstruosa. — Você é uma mãe mesmo.