segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - Mais um Dia

 


A luz clara da manhã de Costa del Sol invadia a sala de estar, mas a brisa morna que balançava as cortinas brancas não era suficiente para aplacar o desconforto. Afundada nos estofados do sofá, Inome respirou fundo pelo nariz, fechando os olhos e engolindo em seco na tentativa de domar o estômago embrulhado. Aos seis meses de gestação, o enjoo matinal havia voltado com força.
A poucos passos dali, o som leve de louça encostando na madeira atraiu sua atenção. Sephiroth organizava o café da manhã na mesinha de centro com o cuidado e a dedicação de sempre. Para ele e para a pequena Kether — que logo acordaria —, havia pão torrado, queijo e frutas. Mas, do lado de Inome, ele depositou uma tigela fumegante com um caldo claro de vegetais e gengibre, feito justamente para assentar o estômago sem agredir o olfato dela.
Inome soltou um suspiro arrastado, ajeitando o tecido solto do vestido sobre a curva do barrigão.
— Eu odeio me sentir inútil — ela resmungou, cruzando os braços até onde o volume da barriga permitia, o bico de frustração evidente no rosto pálido. — É injusto eu ficar aqui jogada no sofá enquanto a Tifa e o Cloud lidam com todo o movimento da manhã lá no Oitavo Luar sozinhos.
Apesar da reclamação teimosa, ela se inclinou para frente com cuidado, apoiando as mãos nos ombros largos de Sephiroth enquanto ele terminava de ajeitar as coisas. Inome depositou um beijo demorado e carinhoso na testa do marido, sentindo os fios prateados roçarem em seu rosto.
— Mas obrigada pelo caldo. O cheiro está ótimo, de verdade.
Sephiroth aceitou o beijo fechando os olhos por um instante, absorvendo o carinho antes de se sentar no sofá, bem ao lado dela. Ele ajustou a postura, virando-se para encará-la com aquela calma mansa e acolhedora de sempre.
— Tifa e Cloud dão conta do restaurante perfeitamente bem, Inome — Sephiroth pontuou, a voz grave soando serena e racional.
Com um movimento natural e devotado, ele estendeu a mão grande, pousando-a com extrema delicadeza sobre a barriga esticada da esposa. O polegar dele iniciou uma carícia lenta e circular, sentindo o bebê ali sob o tecido.
— Ficar de repouso não é ser inútil. É o que você e o bebê precisam hoje — ele continuou, o olhar brilhando com uma proteção silenciosa e afetuosa. — Não vou deixar você ir para uma cozinha quente se sentindo mal só por teimosia. Tome o seu caldo enquanto está quente. O restaurante sobrevive um dia sem você.
Inome olhou para a tigela de caldo à sua frente e soltou uma risada fraca, ajeitando-se um pouco mais contra o encosto do sofá.
— Pensando bem, acho que não tenho tanto do que reclamar — ela comentou, o tom ganhando uma leveza nostálgica. — Pelo menos é infinitamente melhor passar mal no conforto do nosso sofá, de pijama, do que sentindo enjoo no meio de uma floresta ou congelada com o vento batendo nas costas.
Sephiroth riu. Foi um som baixo, grave e genuíno que vibrou no peito dele, dissipando qualquer resquício de seriedade. O polegar continuou o carinho ritmado sobre a barriga dela, absorvendo a tranquilidade daquela manhã.
— Sem dúvida alguma — ele concordou, os olhos refletindo a paz daquela sala. — Ter um teto seguro, comida quente e a certeza de que não precisamos ir a lugar nenhum... é um privilégio ao qual eu me acostumei muito bem.
Inome sorriu, o coração aquecido pela resposta. Antes mesmo de pegar a colher para começar a comer, ela se inclinou e passou os braços ao redor do tronco dele, escondendo o rosto na curva do pescoço do marido. Sephiroth correspondeu no mesmo instante, envolvendo-a em um abraço protetor e carinhoso, segurando-a perto com uma firmeza mansa que afastava qualquer resquício de mal-estar.
Eles ficaram assim por alguns segundos longos e confortáveis, apenas aproveitando o silêncio da casa, antes de se separarem devagar para finalmente dar atenção ao café da manhã.
Sephiroth pegou o controle remoto que estava na ponta da mesa de centro e apontou para a televisão.
— O que você quer assistir? — ele perguntou, relaxando as costas no sofá enquanto a tela acendia.
Inome pegou a tigela de caldo, sentindo o vapor quente no rosto.
— Coloca naquele programa de reformas de casas litorâneas — ela pediu, assoprando a colher. — Quero ver se eles dão alguma ideia boa de como a gente pode arrumar o quarto do bebê, e as vozes daquele casal de apresentadores me dão um sono maravilhoso. É perfeito pra hoje.
O programa de reformas mal havia começado quando passos pequenos e arrastados soaram no corredor. Kether apareceu na porta da sala, com os cabelos prateados um pouco amassados do sono, abraçada com certa dificuldade a uma pelúcia de Chocobo amarelo que era praticamente do tamanho dela.
Ela piscou os olhinhos redondos, apertando o pescoço do pássaro de pelúcia, e olhou da televisão para os pais sentados no sofá.
— Papai, mamãe... por que a gente não foi trabalhar lá no tio Cloud? — ela perguntou, a voz fininha ainda carregada de sono, tombando a cabeça para o lado em confusão.
Sephiroth abaixou o volume da televisão e estendeu a mão para a filha, convidando-a para perto com um sorriso brando e acolhedor.
— Bom dia, passarinho — ele cumprimentou, e esperou que ela se aproximasse para arrumar uma mecha rebelde do cabelo prateado da menina. — Nós vamos ficar em casa hoje. O bebezinho está crescendo bastante e deixou a barriga da mamãe um pouco cansada. Então, ela precisa de repouso para se sentir melhor.
Kether olhou para o barrigão de Inome com uma expressão muito séria e atenta. Ela assentiu com a cabeça devagar, como se a explicação fizesse todo o sentido do mundo, e arrastou seu Chocobo até o tapete. Sentando-se de pernas cruzadas bem de frente para a mesinha de centro, ela puxou o pratinho que Sephiroth havia preparado para ela e começou a comer.
Ela mastigou um pedaço de queijo e uma fatia de pão em silêncio por alguns instantes. Depois, pegou um pedaço de fruta bem colorida do prato. Em vez de levar à própria boca, Kether se levantou de joelhos no tapete, esticou o bracinho e ergueu a comida na direção da barriga de Inome.
— Toma, bebezinho — Kether ofereceu com a maior naturalidade, encostando a mãozinha de leve no tecido do vestido da mãe. — Come pra você melhorar.
Inome não conseguiu segurar uma risada gostosa, o coração derretendo completamente com a inocência e o cuidado da garotinha. Ela cobriu a mãozinha de Kether com a sua, afastando o pedaço de fruta com muita delicadeza.
— Obrigada, meu amor, mas o bebê não quer comer isso agora — Inome explicou com um sorriso doce. Ela pegou a própria colher e apontou para a tigela fumegante em mão. — O bebê disse que só quer tomar essa sopa aqui hoje. Pode comer a sua frutinha, ele deixa.
Kether olhou da sopa para a própria mão, deu de ombros conformada e enfiou a fruta na boca, voltando a se sentar no chão ao lado do Chocobo enquanto Inome e Sephiroth trocavam um olhar cheio de cumplicidade e afeto.
Kether engoliu a frutinha e deu uns tapinhas carinhosos na cabeça felpuda do pássaro amarelo ao seu lado.
— O Amendoim já acordou, mas o Rei Esfomeado quis ficar dormindo lá na minha cama — ela explicou com a maior seriedade do mundo, justificando a ausência do Moogle.
Sephiroth inclinou-se ligeiramente para a frente e arrumou com cuidado mais alguns fios prateados que teimavam em cair sobre os olhos da menina.
— As aventuras sempre exigem muito dele. É perfeitamente compreensível que um rei precise repousar — Sephiroth comentou, a voz mansa validando a fantasia da filha com a mesma naturalidade que usava para os assuntos mais rotineiros da casa.
Inome sorriu, apoiando o rosto na mão enquanto observava a dinâmica dos dois do sofá. Ela apontou de leve para o pratinho no tapete.
— Sabe de uma coisa? Eu acho que o Amendoim ia gostar muito daquele pedacinho de maçã ali.
Os olhinhos de Kether brilharam com a sugestão. Ela pegou a fatia de maçã com a ponta dos dedos e a levou até o bico de tecido da pelúcia, encenando a refeição.
— Nham, nham, nham, croch! — Kether fez os barulhos de mastigação bem alto, balançando a cabeça do pássaro amarelo para frente e para trás. Logo em seguida, ela afinou a vozinha o máximo que conseguiu para interpretar o boneco: — Kweh! Isso tava muito gostoso, Kether! Obrigado!
Sephiroth acompanhou a brincadeira com um sorriso brando, achando graça da vozinha aguda que a filha havia feito. Ele se inclinou um pouco mais no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos, e assumiu o tom de quem passava um conhecimento muito valioso.
— Você fez uma excelente escolha para o café da manhã dele — Sephiroth validou, mantendo uma seriedade amável e didática. — Frutas doces, como as maçãs, e Verduras Gysahl são os alimentos preferidos dos chocobos. É exatamente disso que eles precisam para manter as penas fortes e terem energia para correr bastante.
Kether arregalou os olhinhos redondos, absorvendo a informação do pai como se fosse uma verdadeira especialista recebendo um treinamento importante. Ela apertou a pelúcia amarela contra o peito e estufou a barriguinha, o rosto transbordando determinação.
— Então eu vou dar um monte de maçã pra ele! — ela declarou, a voz subindo uma oitava de pura empolgação. — Quando eu for bem grandona, eu vou ser a maior cuidadora de bichinhos de todo o mundo! Vou cuidar dos chocobos, dos moogles e de todos os gatinhos também!
Inome sorriu largo, o coração aquecido pela ambição adorável da garotinha. O calor daquele momento em família fez até a sensação de azia e enjoo dar uma trégua.
— Eu não tenho a menor dúvida de que você vai conseguir, meu amor — Inome garantiu, a voz doce e carregada de orgulho. — Você já cuida tão bem do Amendoim e do Rei Esfomeado... Com certeza vai ser a melhor e mais carinhosa cuidadora que esse planeta já viu. E eu e o papai vamos fazer fila para ver os seus bichinhos!
O dia seguiu seu curso manso e preguiçoso. No meio da tarde, o quarto do casal estava banhado por uma luz suave, e o silêncio era quebrado apenas pelo barulho distante das ondas do mar. Inome estava deitada confortavelmente na cama, apoiada em uma pilha de travesseiros macios, com um livro aberto no colo. O enjoo finalmente havia dado uma trégua merecida, permitindo que ela mergulhasse na leitura em paz.
De repente, o som alegre da campainha ecoou pela casa.
Na sala, Sephiroth caminhou sem pressa até a entrada e abriu a porta. Denzel estava parado no batente, vestindo roupas frescas de calor, com as mãos nos bolsos e um sorriso animado no rosto.
— Oi, tio Seph. A Kether pode vir brincar? — o garoto perguntou, erguendo o olhar para o homem.
Antes que Sephiroth pudesse sequer abrir a boca para responder, o barulho de passos apressados e curtos ecoou pelo corredor. Kether apareceu correndo, os pezinhos batendo rápido no piso de madeira. Ela já estava pronta para a aventura, arrastando o Rei Esfomeado por uma das asinhas de morcego da pelúcia.
— Denzel! — ela comemorou, parando ao lado das pernas do pai com os olhinhos brilhando de empolgação.
Sephiroth olhou de Denzel para a filha, um sorriso contido e afetuoso despontando no rosto. Ele abaixou-se um pouco, apoiando uma das mãos no ombro de Kether, e olhou diretamente para o menino mais velho.
— Ela pode ir, mas quero os dois brincando por perto — Sephiroth orientou, a voz grave assumindo aquele tom manso e puramente protetor de pai. — Tomem cuidado com as carroças de carga que passam na rua e não corram para o lado da água sem que a Tifa ou o Cloud estejam olhando. Entendido?
— Pode deixar, tio Seph. Eu cuido dela! — Denzel garantiu de pronto, estufando o peito e assumindo a responsabilidade com toda a seriedade de um irmão mais velho.
— Eu também cuido dele, papai! E o Rei Esfomeado vai proteger a gente! — Kether completou, abraçando o Moogle contra a barriga com convicção.
Sephiroth riu baixo, deu um beijo no topo da cabeça da filha e abriu espaço na porta. Kether saiu saltitando para a rua ensolarada ao lado de Denzel, emendando um assunto qualquer sobre castelos de areia, enquanto Sephiroth encostava no batente, observando os dois se afastarem em segurança antes de fechar a porta e deixar a casa imersa novamente na tranquilidade da tarde.
Os dois caminharam pela rua de paralelepípedos em direção ao restaurante. Kether segurava a asinha do Rei Esfomeado, arrastando-o levemente enquanto tagarelava com Denzel.
— Denzel, o Rei Esfomeado precisa de um castelo muito grande pra guardar todas as nozes dele — Kether determinou, olhando para o boneco de pelúcia e depois para o menino.
Denzell, balançou a cabeça enquanto andava com as mãos nos bolsos.
— Kether, Moogles não moram em castelos. Eles moram na floresta, escondidos em árvores. A gente pode desenhar uma árvore bem gigante pra ele hoje.
Kether parou por um segundo, os olhinhos redondos brilhando ao processar a informação.
— Então a gente desenha uma árvore-castelo! Com folhas e portas!
Denzel suspirou, mas acabou dando um sorriso de canto, cedendo rapidamente à lógica invencível da garotinha.
Quando os dois cruzaram a entrada do Oitavo Luar, o salão estava imerso naquele cheiro reconfortante de maresia e temperos tostados típicos do restaurante. Tifa estava enxugando as mãos em um pano de prato perto da cozinha aberta, enquanto Cloud organizava algumas coisas atrás do balcão.
Assim que bateu os olhos no casal, Kether soltou a mão de Denzel e acenou com os dois bracinhos, dando pulinhos no lugar.
— Tia Tifa! Tio Cloud! A gente veio trabalhar!
Cloud parou o que estava fazendo na mesma hora. Toda a postura dele amoleceu, e um sorriso genuíno e bobo tomou conta do rosto do loiro, completamente rendido pela presença da garotinha.
— É mesmo? O restaurante agradece muito a ajuda de vocês dois — Cloud respondeu, apoiando os braços no balcão de madeira. — E o Rei Esfomeado, veio fiscalizar o serviço hoje?
— Ele veio ganhar uma árvore-castelo! — Kether anunciou, estufando o peitinho com orgulho.
Tifa soltou uma risada cristalina, caminhando até o balcão para ficar ao lado de Cloud, olhando para os dois com um carinho imenso.
— Uma árvore-castelo me parece um projeto muito importante. Vocês vão precisar de muitos lápis verdes e marrons para isso dar certo.
— Eu já deixei o meu estojo e os cadernos de desenho lá no meu quarto, mãe — Denzel avisou, assumindo o controle da missão com toda a responsabilidade de irmão mais velho. Ele tocou de leve no ombro de Kether, chamando a atenção dela. — Vem, Kether. Vamos subir logo pra começar.
Kether deu uma risadinha, acenou mais uma vez para os tios e girou nos calcanhares. Abraçando o Moogle de pelúcia contra a barriga com as duas mãos, ela seguiu o menino, subindo os degraus de madeira rumo ao andar de cima com pressa, deixando Cloud e Tifa sorrindo de forma cúmplice no meio do salão.
O salão do Oitavo Luar estava lotado, mergulhado no cheiro inconfundível de maresia, temperos tostados e peixe assado. O som de conversas animadas e talheres batendo se misturava ao barulho distante das ondas, criando uma atmosfera viva e barulhenta.
Tifa se desdobrava pelo espaço com uma agilidade natural. Com o cabelo escuro preso em um rabo de cavalo alto, ela girava entre as chamas dos fogões na cozinha aberta, virando filés e finalizando as guarnições com precisão. No segundo seguinte, já estava do outro lado do balcão, equilibrando bandejas e servindo as mesas com um sorriso acolhedor e atencioso para os clientes.
Enquanto isso, o sino da porta de entrada não parava de tocar. Cloud entrava e saía em um ritmo constante, encarregado de fazer as entregas pela vila. Ele cruzava o salão carregando caixas térmicas e pacotes, o rosto levemente suado sob o sol quente de Costa del Sol, mas mantendo uma expressão relaxada e focada.
Apesar do movimento intenso e da correria de pico, não havia caos. Os dois operavam em uma sintonia perfeita, quase coreografada. Quando Cloud passava pelo balcão para pegar mais uma leva de pedidos, Tifa lhe entregava as sacolas com um toque rápido em sua mão e um sorriso cúmplice. O loiro retribuía com um aceno de cabeça e um sorriso de canto antes de voltar para a rua. Era um dia de trabalho pesado, mas eles davam conta de absolutamente tudo, dividindo o peso e aproveitando a vida que haviam construído juntos.
No andar de cima, longe da agitação do salão e do cheiro de temperos, o chão do quarto de Denzel havia se transformado em um grande estúdio de arte espalhado pelo tapete. Folhas de papel em branco, lápis de cor e gizes de cera cobriam o espaço entre as pernas cruzadas das duas crianças. O Rei Esfomeado estava sentado bem no meio da bagunça, encostado na beirada da cama como o grande inspetor da obra.
Denzel desenhava com a ponta da língua levemente para fora, super concentrado em traçar as raízes grossas de uma árvore gigante no centro da folha, usando uma régua para fazer os caminhos ao redor. Kether, por outro lado, esfregava um giz de cera verde no papel com a energia de um pequeno furacão, criando um emaranhado de rabiscos circulares intensos e cheios de força.
— Pronto! — Kether anunciou, largando o giz verde no tapete e pegando um marrom. Ela fez um risco grosso e torto bem no meio do círculo esverdeado. — Essa aqui é a porta secreta do Rei Esfomeado.
Denzel parou de desenhar e esticou o pescoço para analisar a arte da garotinha. Ele piscou algumas vezes, tentando achar a lógica.
— Kether, isso é só uma bola verde gigante.
— Não é uma bola, Denzel! — ela protestou, balançando a cabeça e apontando o dedinho gordinho para o centro do papel. — É a árvore-castelo cheia de folhas! E aqui dentro tem um monte de nozes escondidas. Ele rola lá de cima até a porta pra ninguém ver.
Denzel soltou um suspiro, pegando sua própria folha e virando para mostrá-la. O desenho dele tinha uma floresta detalhada, uma trilha de pedrinhas muito bem feita e um grande 'X' vermelho marcado perto de um arbusto.
— Olha, o meu é um mapa de verdade. A trilha do Rei começa aqui, e o X marca onde o tesouro de nozes está enterrado pra nenhum monstro roubar. Tem até as medidas dos passos.
Os olhinhos redondos de Kether brilharam ao ver o desenho super organizado do menino. Sem pedir permissão, ela avançou engatinhando, pegou o giz vermelho que estava solto no chão e fez um rabisco enorme bem em cima da trilha que Denzel tinha desenhado com tanto cuidado.
— E esse é o dragão de fogo que protege a árvore de todo mundo! — ela decretou, abrindo um sorriso orgulhoso para o próprio acréscimo.
Denzel olhou para o seu mapa meticuloso, agora atravessado por um tornado vermelho, e balançou a cabeça de forma resignada. Sendo o irmão mais velho prático que era, ele já havia aprendido que não adiantava discutir com as regras que ela inventava.
— Tá bom — Denzel concordou, pegando o lápis de volta com um sorriso de canto. — Mas o dragão tem que dormir do lado de fora da trilha, Kether. Senão ele queima as nozes do Moogle.
O fim de tarde já começava a tingir o quarto do casal com tons quentes de laranja e dourado, trazendo uma calmaria absoluta para dentro de casa. Apoiada na cabeceira da cama, Inome estava de olhos fechados, com o rosto afundado confortavelmente na curva do pescoço de Sephiroth. O cansaço do dia e as horas lidando com o estômago embrulhado a deixaram molenga, quase se entregando ao sono ali mesmo, aninhada no calor dele.
Sephiroth mantinha um braço ao redor dos ombros da esposa, fazendo um cafuné lento nos cabelos dela, enquanto a outra mão repousava com total naturalidade sobre a curva do barrigão. O silêncio do quarto era quebrado apenas pela respiração tranquila dos dois e pelo barulho suave do mar ao longe.
Inome soltou um suspiro longo. Ela deslizou a própria mão por cima da mão grande do marido, acariciando o ventre esticado junto com ele, e deu um sorriso preguiçoso, ainda de olhos fechados.
— Malkuth está me dando um trabalho enorme hoje... — ela murmurou, a voz arrastada de sono, brincando com a exaustão que o bebezinho estava causando.
Como se o bebê tivesse escutado o próprio nome, um solavanco repentino e bem nítido empurrou a pele da barriga de Inome de dentro para fora. Um chutinho firme.
A mão de Sephiroth captou o impacto no mesmo segundo. O rosto dele se iluminou na hora com um sorriso bobo, largo e transbordando devoção. Ele abaixou o olhar para a barriga da esposa, os olhos felinos brilhando com um afeto indescritível e puramente paterno.
— Pelo visto, ele fez questão de confirmar que ouviu você — Sephiroth comentou, a voz grave saindo num sussurro carregado de carinho.
Ele moveu o polegar com extrema delicadeza, acariciando exatamente o ponto onde o pequeno Malkuth havia chutado, sentindo Inome rir baixinho contra seu pescoço.
— E, a julgar pela vitalidade desse movimento... ele definitivamente já herdou toda a sua energia, meu amor — ele completou, roçando os lábios no topo da cabeça dela em um beijo demorado.
Inome se aconchegou ainda mais contra o peito dele, sentindo a vibração da risada mansa do marido. Ali, na intimidade daquele quarto, o mal-estar da manhã simplesmente deixou de importar.
Aconchegado nela, Sephiroth escorregou o corpo devagar pelo colchão, descendo até repousar o rosto diretamente sobre o ventre esticado da esposa. Ele deitou a bochecha na roupa de Inome, fechando os olhos enquanto envolvia a barriga com os braços, com um cuidado absoluto.
— Você reconhece a voz do papai, Malkuth? — ele perguntou, o timbre grave saindo em um sussurro carinhoso contra a barriga dela.
Como resposta, um novo solavanco carimbou o ventre, batendo exatamente onde Sephiroth encostava o rosto. O platinado soltou uma risada baixa e gostosa, que vibrou contra o corpo de Inome. Ele ficou em silêncio por alguns instantes, apenas prestando atenção àquela vida, usando a sua sensibilidade natural para sentir a energia do menino.
— O fluxo de Mako dele é mais fraco... bem mais suave do que o da Kether — Sephiroth observou, virando o rosto para olhar para Inome de baixo para cima, com uma expressão muito serena.
Inome, que havia começado a fazer um cafuné nos cabelos longos e prateados dele esparramados pelos travesseiros, soltou um suspiro de conforto.
— Confesso que fico aliviada com isso — ela disse, com um sorriso brando, os dedos deslizando com calma entre as mechas claras do marido. — A Kether aprendeu a lidar super bem com a sensibilidade dela, e vocês dois lidam com isso com muita naturalidade... mas, sendo mais fraco, acho que a cabecinha dele vai ficar mais tranquila. Vai ser mais fácil pra ele administrar as coisas ao redor.
Sephiroth concordou em um aceno lento, fechando os olhos de novo e deixando um beijo demorado na barriga dela, aproveitando aquele final de tarde com a cabeça esvaziada de qualquer outra preocupação.
— Com o tempo, Malkuth vai encontrar o próprio ritmo, sem a sobrecarga que a sensibilidade muito alta traz — Sephiroth concordou, a voz vibrando suavemente contra a pele dela.
Ele deixou mais um beijo demorado e carinhoso na curva da barriga e, sem pressa, apoiou o queixo no colchão para olhar Inome nos olhos. A expressão dele carregava uma paz absoluta.
— Eu sou imensamente feliz com a família que nós construímos, Inome — ele disse, o timbre baixo transbordando uma devoção pura e simples. — Com a vida que temos aqui com vocês.
A sinceridade nas palavras dele fez o coração de Inome aquecer. Ela sorriu, deslizando o polegar pela bochecha do marido, aproveitando o momento. No entanto, a menção à família fez o instinto materno apitar, e ela franziu o cenho de leve, rompendo um pouquinho a bolha de paz.
— Eu também sou, meu amor — ela respondeu, antes de soltar um suspiro leve. — Mas, falando nisso... será que a Kether está dando muito trabalho para a Tifa e o Cloud? Eles já tinham o movimento todo do salão para dar conta, e a nossa filha ligada no duzentos e vinte não é exatamente uma ajuda muito silenciosa.
Sephiroth soltou uma risada baixa, escorregando de volta para cima até se acomodar novamente ao lado dela, puxando Inome para perto pelo ombro.
— Você não precisa se preocupar com isso — ele a tranquilizou, fazendo um carinho no braço dela. — Cloud não sabe dizer "não" para absolutamente nada que a Kether inventa, e a Tifa tem um jeito muito natural para lidar com ela. Além do mais, o Denzel está lá e levou a missão de irmão mais velho muito a sério hoje.
Ele beijou o topo da cabeça de Inome, acomodando-a melhor contra seu peito.
— Os três sabem lidar perfeitamente com ela. Foque apenas em descansar agora.
Inome suspirou, aconchegando-se um pouco mais e fechando os olhos. O silêncio do quarto era reconfortante, mas a ausência do furacãozinho de cabelos prateados deixava um eco pela casa que era difícil de ignorar.
— Acho que, na verdade, eu só estou procurando motivos para me preocupar porque já estou sentindo falta dela — Inome confessou, a voz embargando de repente, traindo sua própria tentativa de parecer racional.
Uma lágrima teimosa escapou pelo canto do olho, escorrendo quente pela bochecha antes que ela pudesse disfarçar. Inome levou a mão ao rosto rapidamente, secando a pele com as costas dos dedos, sentindo-se um pouco tola.
— É ridículo, eu sei. Ela está logo ali, na mesma rua, com os nossos melhores amigos... — ela fungou baixinho, dando um sorriso fraco e frustrado. — Mas eu me sinto tão mal por ser tão apegada assim. Parece que não sei ficar algumas horas longe sem querer chorar. Malditos hormônios.
Sephiroth não riu da vulnerabilidade dela, tampouco tentou apressar o momento. Ele apenas ajustou a postura para enxergar o rosto da esposa, movendo a mão grande para acariciar os cabelos dela com uma lentidão contínua e reconfortante. O toque era leve, desembaraçando os fios com a ponta dos dedos de um jeito que acalmava o corpo inteiro.
— Não há absolutamente nada de mal em ser apegada à nossa filha, Inome — ele murmurou, o timbre grave soando como um porto seguro no quarto silencioso. O polegar dele deslizou pelo rosto dela, enxugando o rastro úmido que a lágrima havia deixado. — Você é a mãe dela. É a coisa mais natural do mundo que queira tê-la por perto, principalmente nos dias em que o seu corpo pede mais recolhimento. Não precisa se punir por transbordar amor.
Inome soltou um suspiro mais leve, aninhando-se contra o peito dele e absorvendo o carinho contínuo em seus cabelos.
— É... acho que me permitir sentir isso, só por hoje, já é o suficiente — ela murmurou, a voz já mais calma, fechando os olhos sob o toque reconfortante dele.
Sephiroth respondeu estreitando o abraço, depositando um beijo longo e afetuoso no topo da cabeça da esposa, validando o sentimento dela sem precisar de mais palavras.
O quarto ficou imerso em um silêncio aconchegante por alguns minutos, até que Inome abriu um sorriso miúdo, os olhos vagando pelas paredes iluminadas pelo fim de tarde.
— Sabe... isso me lembra de quando compramos essa casa — ela comentou, o tom ganhando uma leveza divertida e nostálgica. — Lembra quando ela deixou de dormir no nosso quarto? Eu simplesmente não conseguia deixar a Kether dormir sozinha lá no quartinho dela de jeito nenhum.
Sephiroth soltou uma risada baixa, a vibração mansa ressoando no peito dele e aquecendo as costas de Inome.
— Como eu poderia esquecer? Você passava a noite inteira acordada.
— Eu ficava em cima o tempo todo! — Inome riu de si mesma, balançando a cabeça diante da própria lembrança. — Parecia que eu não confiava no berço. Qualquer suspiro diferente que ela dava, qualquer resmungo ou estalinho na madeira, já era motivo para eu pular da cama e voltar correndo pro quarto dela no meio da madrugada.
Sephiroth riu novamente, os olhos brilhando de afeto enquanto ele continuava o cafuné, descendo a mão para acariciar o ombro dela.
— Você apenas não conseguia desligar o instinto protetor — ele comentou com doçura. — E eu sempre admirei isso. Você é uma mãe maravilhosa e dedicada, Inome. Sempre tão preocupada e atenta a cada necessidade deles. A Kether e o Malkuth não poderiam ter tido uma sorte maior.
Inome levantou o rosto devagar, apoiando o queixo no peito dele para poder olhar diretamente naqueles olhos verdes. O sorriso dela agora era sereno, carregado de uma admiração profunda e sincera.
— E você acha que eu não presto atenção em você? — ela sussurrou, deslizando a mão pela camisa dele, descansando a palma sobre o coração do marido. — Desde o primeiro dia, a forma como você sempre segurou a Kether, com tanto cuidado... Você sempre se prontifica para dar o banho, para preparar a comidinha dela, para cuidar de cada detalhe. Ter você dividindo tudo isso comigo, com tamanha dedicação, me faz sentir tão leve, Seph. Tira qualquer peso das minhas costas.
Sephiroth sustentou o olhar dela, um sorriso manso e desarmado despontando nos lábios. Ele acomodou a mão na cintura da esposa, fazendo um carinho lento ali.
— Eu apenas aprendi a seguir esse pequeno protocolo que, confesso, um dia já me deu bastante medo — ele brincou, a voz grave ganhando um tom suave e reflexivo ao se lembrar do início da paternidade. — No começo, eu não sabia explicar direito o que acontecia dentro de mim. Era uma sensação esquisita.
Ele parou por um instante, o olhar ganhando uma distância terna enquanto buscava as palavras exatas para traduzir o peso bom daquela mudança.
— Era como se o meu próprio coração tivesse passado a bater do lado de fora do meu corpo — Sephiroth descreveu, a voz baixando para um sussurro íntimo. — Uma necessidade irracional e constante de colocar o bem-estar daquela criaturinha acima da minha própria existência. Era algo que bagunçava toda a minha lógica, que apertava o peito e preenchia a mente de um jeito quase esmagador. Mas, com o tempo, eu finalmente entendi que esse sentimento tão esquisito era, na verdade, um amor puro e genuíno por ela.
Ele abaixou o rosto, roçando o nariz no de Inome com extrema delicadeza, antes de descer a mão da cintura dela de volta para a curva do barrigão.
— Um amor que eu sei que já sinto exatamente igual por ele.
O sol já começava a se esconder de vez quando a placa do Oitavo Luar foi virada para "Fechado", encerrando o expediente um pouco mais cedo do que o habitual. Sem Inome e sem Sephiroth para ajudarem na retaguarda, o ritmo intenso de clientes cobrara seu preço, e Cloud e Tifa decidiram que o dia já havia rendido o suficiente.
No salão agora banhado apenas pela luz quente das lâmpadas internas, Kether e Denzel estavam sentados em cima de uma das mesas de canto. Os dois dividiam o espaço de madeira com o mapa recém-desenhado, completamente imersos em uma aventura complexa enquanto brincavam com suas pelúcias de moogle — o Rei Esfomeado de Kether e o moogle do próprio Denzel —, simulando o transporte de um amontoado de nozes imaginárias pelas rotas do papel.
Atrás do balcão, Tifa ajeitava com um cuidado meticuloso uma marmitinha térmica para mandar para Inome. Dentro dela, repousava uma daquelas sopas clássicas de quando se está gripado ou indisposto — um caldo dourado, límpido e muito leve de frango, com pedacinhos macios de batata, cenoura e um macarrão bem fininho. O cheiro era puramente reconfortante, mas Tifa mordia o lábio inferior, claramente receosa com a própria criação.
— Será que ela vai conseguir comer isso? — Tifa murmurou, hesitando antes de encaixar a tampa. — Enjoo de gravidez é algo tão particular. Fico com medo de ter errado a mão, do tempero estar forte demais para o olfato dela, ou de simplesmente não ser o que ela está com vontade agora...
Cloud parou ao lado dela, enxugando as mãos em um pano de prato, e espiou o conteúdo da marmita. Ele deu um sorriso de canto, esbarrando o ombro no da esposa de forma tranquilizadora.
— Está com uma cara ótima, Tifa. É leve e quente, exatamente o que o estômago dela precisa para assentar. Tenho certeza de que está perfeito.
A palavra mágica bastou. Ao ouvir a conversa dos adultos, Kether pulou de cima da mesa num solavanco, abandonando Denzel e o mapa do tesouro, e correu até o balcão. Ela ficou na ponta dos pés, abraçada ao seu moogle de pelúcia, com os olhinhos redondos brilhando de determinação.
— Eu quero curar o enjoo da mamãe! — a garotinha anunciou, estufando o peito. Então, ela virou o rostinho para a morena e disparou a pergunta com a maior naturalidade do mundo: — Tia Tifa, como que a gente faz pra curar um bebezinho que tá bagunçando a barriga?
Tifa piscou, completamente pega de surpresa. Ela, que lidava com o salão lotado com maestria e tinha resposta para quase tudo no dia a dia, de repente se viu de mãos atadas. Totalmente sem experiência com gravidez e pega no pulo pela lógica impecável da criança, um rubor leve subiu pelas bochechas da morena.
— Ah... bem, Kether... é que... — Tifa gaguejou, rindo de nervoso e gesticulando de leve com as mãos, tateando o escuro em busca das palavras certas. — O bebezinho não está bagunçando por mal, sabe? Ele só... bem, ele está crescendo, e aí ele ocupa um espaço enorme lá dentro, e a barriga da mamãe fica um pouco confusa com isso. A sopa serve para dar um abraço quentinho nessa confusão... eu acho.
— Ela não quis comer nem maçã hoje de manhã — Kether comentou, o tom fininho carregado de uma preocupação muito genuína.
Com um pouco de esforço, a garotinha escalou um dos bancos altos do balcão, apoiando os cotovelos na madeira para conseguir espiar o trabalho da tia. Ela inclinou o rosto sobre a marmita e deu uma fungada profunda, avaliando o cheirinho do caldo com bastante seriedade, antes de voltar a encarar a morena.
— A mamãe tá com a barriga toda embrulhada e com vontade de vomitar toda hora. Você já sentiu isso, tia Tifa? Sabe como funciona pra consertar?
O rubor que já estava nas bochechas de Tifa desceu direto para o pescoço. Ela trocou um olhar de puro desespero com Cloud, pedindo socorro silenciosamente, mas o loiro apenas desviou os olhos, focando muito em limpar uma mancha invisível no balcão para disfarçar o sorriso contido no canto da boca. Tifa encolheu os ombros, completamente envergonhada sob o olhar inquisidor, direto e puramente inocente da menininha.
— Eu... bem, Kether, a verdade é que... eu nunca passei por isso — Tifa confessou, esfregando a nuca, rindo de forma ainda mais sem jeito por ter que admitir sua total falta de conhecimento prático sobre o assunto. — Então eu não sei muito bem como funciona de verdade.
Kether abriu a boca, puxando o fôlego, provavelmente para disparar mais uma daquelas perguntas impossíveis e maravilhosas que só uma criança de três anos consegue formular. Mas, antes que qualquer som saísse, foi salva por uma voz vinda da mesa de canto.
— Quando eu fico gripado e com o estômago ruim, suco de limão sempre ajuda — Denzel comentou, aproximando-se do balcão com o seu próprio moogle debaixo do braço. Ele assumiu aquela postura prática e madura de sempre. — Lembra daquela água com limão que a gente fez de manhã, Kether? A gente pode fazer de novo se a sopa não der certo.
Cloud deixou o pano de prato de lado, claramente satisfeito com a solução prática de Denzel que havia salvado Tifa daquele interrogatório.
— Eu vou buscar os ingredientes — ele anunciou, assumindo a frente da operação.
Ele sumiu por um instante na cozinha e logo retornou para o balcão carregando o necessário. Cloud organizou na madeira uma garrafa vazia, uma jarra de vidro, um espremedor manual, água bem geladinha e alguns limões frescos e esverdeados.
Tifa soltou a respiração que nem percebeu que estava segurando. Visivelmente aliviada por ter uma rota de fuga, ela puxou uma faca pequena da gaveta com uma agilidade quase exagerada.
— Deixem que eu corto os limões para vocês dois espremerem! — ela se prontificou de imediato, pegando a primeira fruta, desesperada para mudar o foco e esquecer o embaraçoso assunto anterior o mais rápido possível.
Cloud arrumou o espremedor no centro do balcão, entre Kether e Denzel, e apoiou os braços na madeira, assumindo um tom didático e calmo enquanto Tifa enfileirava as metades cortadas.
— Muito bem, a regra é a seguinte — Cloud instruiu, apontando para a ferramenta. — Vocês vão colocar a metade do limão bem aqui no meio, com a polpa para baixo. Tem que segurar firme e apertar rodando para os lados, sem pressa, para tirar todo o suco antes da gente misturar com a água gelada. Entendido?
Denzel pegou a primeira metade do limão e seguiu as instruções à risca. Sendo mais velho, ele encaixou a fruta no espremedor e girou com facilidade, extraindo o suco rápido e sem grandes problemas, mantendo a postura prática de sempre.
Kether, por outro lado, precisou de um pouco mais de esforço. Ela segurou a metade do limão com as duas mãozinhas gordinhas e pressionou contra o cone do espremedor, fazendo uma careta intensa de concentração. O suco escorria devagar, e ela bufava, balançando o corpinho para os lados na tentativa de imitar o movimento perfeito do irmão.
Quando chegou na vez do último limão, Kether decidiu que precisava terminar o trabalho mais rápido. Ela se apoiou melhor no banco, colocou todo o peso do corpo sobre os braços e empurrou a fruta para baixo com toda a sua força.
Um estalo seco ecoou pelo balcão. O plástico grosso do pequeno espremedor não aguentou a pressão repentina da garotinha e simplesmente rachou ao meio, quebrando sob as mãos dela.
Kether congelou no mesmo instante. Ela soltou a fruta amassada e os olhinhos redondos se encheram de lágrimas imediatamente. O lábio inferior começou a tremer enquanto ela olhava, assustada e chorosa, de Cloud para Tifa.
— Desculpa, tia Tifa... Eu estraguei... — ela murmurou, a voz fininha embargando em um choro contido.
Tifa largou a faca na hora, deu a volta no balcão em passos rápidos e parou ao lado do banco da menina. Sem se importar com o suco escorrendo na madeira, ela segurou as mãozinhas sujas de limão e abriu um sorriso doce, puramente tranquilizador.
— Ei, não precisa chorar, meu amor, está tudo bem — Tifa a confortou, usando a manga da própria blusa para secar com cuidado uma lágrima fujona que escorreu pela bochecha de Kether. — Foi só um pedaço de plástico, a gente compra outro amanhã. Sabe, ter muita força é uma coisa incrível, mas a gente precisa aprender a controlar como usamos ela. Às vezes, o segredo não é apertar com tudo de uma vez, mas sim usar a sua força bem devagarinho, com jeito e paciência. Entendeu?
Kether balançou a cabeça devagar, concordando com as palavras da morena. Ela abaixou o rostinho, encarando as próprias mãos sujas de limão com uma curiosidade nova, processando a lição sobre o controle da própria força.
Do outro lado do balcão, Cloud se debruçou sobre a madeira. Ele esticou os braços e envolveu as mãozinhas dela com extrema delicadeza, virando as palmas para cima para inspecionar qualquer sinal de corte no meio do suco.
— Você se machucou, Kether? — o loiro perguntou, a voz grave carregada de uma preocupação atenta e protetora.
A garotinha piscou, abrindo e fechando os dedinhos sob o toque cuidadoso de Cloud, demonstrando que estava intacta.
— Não machucou, tio Cloud. Tá tudo bem — ela garantiu, o biquinho de choro finalmente se desfazendo e dando lugar a uma expressão aliviada.
Denzel, que observava a cena mantendo sua típica postura prática, deu um meio sorriso. Totalmente focado em finalizar a missão de salvar a noite de Inome, ele puxou a jarra de vidro para perto de si e a posicionou cuidadosamente sobre o bocal da garrafa.
— Ainda bem que não machucou. E olha pelo lado bom, você espremeu tão forte que tirou todo o suco que a gente precisava — o menino comentou de forma reconfortante, mas sem perder o ritmo, concentrado em despejar a mistura gelada na garrafa de prontidão, sem deixar derramar uma única gota.
Cloud esticou a mão sobre o balcão, segurando a base da garrafa com firmeza para garantir que ela não escorregasse ou tombasse enquanto Denzel despejava a mistura gelada com extrema concentração.
Tifa, aproveitando que a missão principal estava sob controle, passou os braços ao redor de Kether e a ergueu do banco, ajeitando a menina confortavelmente em seu colo.
— Vem cá, vamos tirar todo esse suco de limão grudado nas suas mãos lá na pia — ela chamou com doçura, caminhando com a garotinha para a parte de trás da cozinha.
Poucos minutos depois, a noite já cobria Costa del Sol com uma brisa fresca quando os quatro deixaram o restaurante. Atravessando a rua de paralelepípedos, eles formavam uma verdadeira pequena comitiva de resgate caminhando em direção à casa de Inome e Sephiroth.
Tifa ia um pouco mais à frente, ainda carregando Kether no colo. A garotinha mantinha o rosto escondido na curva do pescoço da morena, abraçada ao Rei Esfomeado, ainda um pouquinho sentida e calada por ter quebrado o espremedor de plástico. Logo ao lado, Cloud caminhava com a postura relaxada, segurando a marmita térmica que guardava a sopa quente. Fechando o grupo, Denzel andava a passos lentos e muito bem calculados, abraçando a garrafa de vidro com as duas mãos contra o peito, totalmente focado em não tropeçar nas pedras da rua.
Assim que pisaram na varanda da casa, Tifa ajeitou o peso de Kether em seus braços e esticou a mão livre, tocando a campainha que logo ecoou de forma familiar pelo interior silencioso da residência.
A porta não demorou a ser aberta. Sephiroth apareceu no batente, a expressão serena se iluminando com um sorriso acolhedor ao ver a pequena comitiva na varanda.
Antes mesmo que qualquer um pudesse dizer um "boa noite" ou que pudessem relatar como havia sido o longo dia de trabalho no restaurante, Kether esticou os bracinhos, praticamente pulando do colo de Tifa direto para o peito do pai.
— Papai! Cadê a mamãe? — a garotinha disparou, ansiosa.
Sephiroth a segurou com firmeza, ajeitando a filha nos braços com a naturalidade de sempre.
— A mamãe está lá no segundo andar, cochilando no nosso quarto — ele respondeu, a voz mansa.
Foi a deixa perfeita. Kether imediatamente se remexeu no colo dele, pedindo para descer. Assim que os pezinhos calçados tocaram o chão de madeira, ela abraçou o Rei Esfomeado contra a barriga.
— Eu vou dormir com a mamãe! — ela anunciou e, sem esperar qualquer resposta, saiu correndo em direção à escada, os passos curtos e apressados ecoando pela casa rumo ao andar de cima.
Sephiroth acompanhou a pequena com o olhar e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. Ele então deu um passo para trás, abrindo mais a porta para dar espaço.
— Entrem, por favor.
O grupo seguiu até a sala de estar. Com uma concentração admirável, Denzel caminhou até a mesinha de centro e depositou a garrafa de vidro com o suco de limão bem devagar sobre a superfície, garantindo que estava perfeitamente equilibrada e segura. Cloud se aproximou logo em seguida e colocou a marmita térmica ao lado da garrafa.
— A Tifa preparou uma sopa bem leve para ver se ajuda a assentar o estômago da Inome — Cloud tomou a frente para explicar, mantendo o tom tranquilo e apontando para a marmita.
— É um caldo bem simples de frango com legumes, sem temperos fortes para não agredir o olfato dela — Tifa completou, ainda com um leve traço de timidez, cruzando as mãos à frente do corpo. — E o Denzel deu a ideia de fazermos uma água com limão geladinha.
— É bom para curar o enjoo, tio Seph. A Kether e eu esprememos os limões sozinhos no balcão — o menino pontuou, estufando o peito com um pingo de orgulho pelo trabalho que tiveram.
Sephiroth olhou para as vasilhas cuidadosamente arrumadas na mesinha e depois para os três à sua frente. A postura do platinado desarmou-se, dando lugar a uma expressão de pura e absoluta gratidão. Ele sentiu o peito aquecer diante da dedicação genuína daquela família.
— Eu nem sei como agradecer a vocês por isso — Sephiroth disse, a voz grave descendo um tom, carregada de uma emoção sincera e tocada. Ele olhou nos olhos de cada um deles, o afeto transbordando de forma clara. — Todo esse carinho, o tempo que tiraram para preparar isso e a preocupação com a Inome... significa muito para nós. Obrigado por cuidarem tão bem dela e da Kether hoje.
Denzel ajeitou a postura, enfiando as mãos nos bolsos da calça com um sorriso tranquilo e muito sincero.
— Não precisa agradecer, tio Seph. Eu adoro brincar com a Kether. Ela sempre inventa as melhores histórias e os mapas mais legais para os moogles — o menino respondeu, mostrando o quanto levava a sério o papel de irmão mais velho para a garotinha.
Cloud concordou com um aceno lento, cruzando os braços com uma expressão serena e um sorriso de canto.
— Nós somos família, Sephiroth. Cuidar de vocês é o mínimo que podemos fazer — o loiro reforçou, o tom grave transbordando lealdade.
Tifa abriu um sorriso doce, balançando a cabeça em concordância. Ela deu um passo à frente e, adotando um tom um pouco mais cauteloso, mas cheio de afeto, decidiu mencionar o que havia acontecido no restaurante.
— E, falando na Kether... — Tifa começou, escolhendo as palavras com cuidado para não soar de forma alguma como uma repreensão. — Quando estávamos fazendo o suco de limão, ela acabou se empolgando um pouco com o último pedaço. Ela tem uma força física impressionante, Sephiroth, exatamente como você. Acabou rachando o espremedor de plástico ao meio, sem querer. Ela ficou um pouquinho sentida e assustada na hora, mas não se machucou, nós olhamos com cuidado. Eu só achei que você deveria saber, para poder ajudá-la a entender como dosar toda essa força daqui para frente.
O sorriso de Sephiroth vacilou por uma fração de segundo, substituído por uma expressão passageira de preocupação ao imaginar o susto e o rostinho de choro da filha no balcão. No entanto, o semblante dele logo suavizou para uma feição muito compreensiva. Ele soltou um suspiro leve, balançando a cabeça devagar.
— Eu entendo... — o platinado murmurou, a voz grave ganhando um tom reflexivo. Ele abriu um sorriso manso e tranquilizador para a morena. — Na minha própria infância, eu também acabei descobrindo sobre a minha força de forma bem precoce. Sei o quanto pode ser confuso e até assustador não ter controle sobre o próprio corpo no começo. Mas não se preocupem. Eu vou cuidar pessoalmente para que ela aprenda a lidar com isso de maneira segura e paciente.
Cloud e Denzel ouviam a troca de palavras em um silêncio atento e respeitoso. O garoto processava a informação sobre a força de Kether com curiosidade, enquanto Cloud apenas descruzava os braços e dava um leve aceno de confirmação. O loiro confiava plenamente na capacidade de Sephiroth de guiar a filha, sabendo que a menina não poderia estar em mãos mais seguras para aprender sobre si mesma.
Tifa relaxou os ombros, visivelmente aliviada pela reação calma e compreensiva do platinado.
— Para ser sincera, eu fico muito feliz que ela tenha descoberto essa força toda de uma forma tão inofensiva — Tifa comentou com honestidade, o sorriso doce voltando ao rosto enquanto olhava para ele. — Foi só um pedacinho de plástico quebrado e um susto pequeno. Poderia ter sido em uma situação bem mais perigosa, então acho que no fim das contas foi um aprendizado seguro.
— Concordo. Foi o melhor cenário possível para um primeiro teste de força — Cloud confirmou, a voz tranquila ecoando a lógica da esposa.
Nesse momento, Denzel enfiou a mão no bolso da calça e tirou de lá um pedaço de papel cuidadosamente dobrado. Ele o desdobrou com atenção, revelando um desenho caprichado e bem colorido de um pássaro amarelo, com a palavra "Amendoim" escrita no topo com a sua caligrafia organizada.
Ele deu um passo à frente e estendeu o papel na direção de Sephiroth.
— Tio Seph, você pode entregar isso pra Kether? — o menino pediu, erguendo o olhar para o homem com um sorriso gentil de quem conhecia muito bem a irmã postiça. — Eu fiz enquanto a gente desenhava os mapas lá no meu quarto. Fala pra ela que é pro Amendoim não ficar com ciúmes do castelo do Rei Esfomeado. Acho que vai deixar ela feliz e fazer ela esquecer o susto do limão de vez.
Sephiroth pegou o desenho com extrema delicadeza, segurando o papel entre os dedos longos como se fosse algo muito valioso. Ele olhou para o traço cuidadoso de Denzel e depois para o menino, o peito transbordando de afeto por aquela dinâmica tão pura que os dois compartilhavam.
— Eu entregarei, Denzel. Tenho certeza absoluta de que ela vai adorar — Sephiroth garantiu, a voz grave e macia carregada de gratidão. Ele guardou o desenho com cuidado. — Obrigado por ser um irmão tão atencioso para ela.
O grupo ainda permaneceu na sala de estar por mais algum tempo, deixando a conversa fluir leve e sem pressa enquanto a noite terminava de cair do lado de fora. Tifa e Cloud detalharam as refeições e as pequenas aventuras de Kether durante o dia, tranquilizando Sephiroth ao confirmar que a garotinha havia se alimentado muito bem e gastado bastante energia. O clima era de puro conforto. Cloud aproveitou a calmaria para comentar sobre alguns ajustes recentes que estava fazendo no motor de sua moto, detalhando as peças que precisava encomendar, enquanto Tifa e Sephiroth trocaram ideias animadas sobre uma nova receita de peixe branco assado com ervas locais que ela pretendia testar no menu do restaurante. Denzel, sempre admirando a postura impecável do platinado, aproveitou a brecha no assunto para pedir mais algumas dicas de base e equilíbrio para lutas de espadas, absorvendo cada orientação de Sephiroth com os olhos brilhando de fascínio.
Quando o céu escureceu por completo e o cansaço do longo dia finalmente começou a dar as caras, o trio decidiu que era hora de ir. Sephiroth os acompanhou até a porta, o semblante sereno transbordando gratidão pela marmita térmica, pelo suco e por todo o cuidado que tiveram com sua família. Despediram-se com sorrisos genuínos e afetuosos, trocando acenos contínuos enquanto Tifa, Cloud e Denzel caminhavam de volta pela rua de paralelepípedos.
Sephiroth ficou escorado no batente da varanda, observando pacientemente até que os três cruzassem a entrada do Oitavo Luar em total segurança. Apenas alguns minutos depois, em uma sincronia silenciosa e reconfortante, as luzes do restaurante e as da casa de Sephiroth e Inome se apagaram uma a uma, envolvendo as duas famílias no merecido descanso e encerrando o dia com a certeza de que cuidavam muito bem uns dos outros.



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