segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - A Escolta

 



O sol a pino castigava a lataria fosca do veículo de carga. Angeal puxou a última cinta de lona com firmeza, testando a tensão antes de bater duas vezes na lateral de aço reforçado do blindado. Não satisfeito, ele deu mais uma volta completa ao redor do carro, os olhos escuros varrendo metodicamente o alinhamento da suspensão, os eixos das rodas e a trava do compartimento traseiro onde a carga repousava.
Dentro da cabine, o som do ar-condicionado no máximo mal dava conta de abafar a impaciência de Barret. O grandalhão bufou, tamborilando os dedos de metal do braço mecânico contra o painel em um ritmo frenético e irritado.
— Qual é, Angeal! Vai conferir se cada parafuso tá lustrado agora? — Barret esbravejou, colocando a cabeça para fora da janela. — Eu nunca vi um carro tão blindado na minha vida! Essa lata velha tá com tanta placa de aço que aguenta até um tiro de canhão no peito. Entra logo nessa porcaria antes que a gente asse aqui fora!
Angeal terminou a vistoria sem alterar a expressão calma e ponderada. Ele abriu a porta do carona, acomodou sua lâmina colossal no espaço atrás dos bancos com o cuidado de sempre, e finalmente sentou-se, batendo a porta pesada.
— A cautela previne o fracasso, Barret — o veterano respondeu, ajustando o cinto de segurança. — O cliente pagou adiantado e exigiu especificamente este veículo. Se o nível de blindagem é esse, significa que não podemos negligenciar nenhum detalhe.
Barret apenas rosnou um xingamento abafado, engatando a marcha com força e arrancando com o blindado, levantando uma espessa nuvem de poeira para trás.
A viagem seguiu por horas em um trajeto árido. O asfalto quebrado das antigas rodovias logo deu lugar a uma estrada de terra batida e irregular, espremida entre desfiladeiros de pedra alaranjada e formações rochosas pontiagudas. Era uma rota completamente marginal, bem longe dos caminhos comerciais que a guilda deles costumava usar para abastecer as vilas em reconstrução. A paisagem era morta, silenciosa e esquecida.
Barret mantinha as duas mãos firmes no volante, mas seus olhos não paravam de saltar para os retrovisores. A cada curva fechada do cânion, a carranca dele ficava mais pesada.
— Eu não gosto nem um pouco dessa rota — Barret quebrou o silêncio, a voz estrondosa reverberando na cabine. — A gente nunca veio por esses lados. Não tem um posto de sucata, não tem marca de pneu, não tem nem bicho morto na beira da estrada. Por que diabos o cliente exigiu que a entrega fosse feita por esse cu de mundo?
Angeal, que mantinha os braços cruzados e o olhar vigilante no horizonte, soltou um suspiro curto e paciente.
— Você é muito desconfiado, Barret. A rota foi traçada para evitar exatamente o que você está procurando: movimento.
— Desconfiado?! Eu chamo isso de instinto de sobrevivência! — Barret retrucou na hora, apontando o dedo grosso na direção do compartimento traseiro. — Olha o cenário, Angeal! Uma rota no meio do nada, um pagamento que daria pra comprar Kalm inteira, e aquela maldita caixa de aço selada com um logo desbotado da Shinra gravado nela. Isso fede a armadilha de longe!
— A corporação já caiu. Aquele logo é apenas um resquício em uma caixa velha de contenção — Angeal argumentou, o tom inflexível, focado puramente no profissionalismo. — E o conteúdo dela não nos diz respeito. Nosso contrato é para transporte e entrega. Nós pegamos a carga, nós a levamos até o ponto e recebemos o resto do dinheiro. Simples assim.
— É, "simples assim" até o momento em que um bando de mercenário pular dessas pedras pra arrancar nosso couro — Barret rebateu, cerrando os dentes e acelerando o blindado em uma reta poeirenta. — Eu só tô dizendo... dinheiro fácil de gente que não mostra a cara nunca termina bem. E se tiver um desgraçado da Shinra esperando no final dessa linha, eu juro que descarrego meu braço nele antes de perguntar o nome.
Angeal virou levemente o pescoço, espiando por cima do ombro para checar a lâmina colossal que descansava no banco traseiro do blindado. Ele abriu um sorriso de canto, a diversão quebrando sua postura rígida por um segundo.
— Se as coisas chegarem a esse ponto, fique à vontade para usar o seu braço de ferro. O meu "braço direito" está muito bem acomodado aqui no banco de trás — Angeal brincou, referindo-se à própria espada pesada com um tapinha no encosto do banco. — Pronto para o uso, caso você decida não resolver tudo sozinho.
Barret bufou alto, revirando os olhos com tanta força que quase comeu a curva seguinte do cânion. Ele apertou o volante, a paciência evaporando no ar quente da cabine enquanto pisava um pouco mais fundo no acelerador.
— Pelos deuses do Planeta, me lembra por que foi mesmo que eu aceitei abrir uma guilda com você? — o grandalhão esbravejou, balançando a cabeça em pura indignação e exasperação. — Eu devia ter montado um bar. Um bar é quieto. Bêbado não fala tanta besteira mantendo essa sua cara de paisagem!
Angeal soltou uma risada grave e genuína, o som preenchendo o interior do blindado e contrastando perfeitamente com o mau humor do parceiro. Ele voltou a se acomodar no banco do carona, cruzando os braços de forma relaxada.
— Você pode reclamar o quanto quiser, Barret, mas nós dois sabemos a verdade — Angeal rebateu, o tom carregado de um humor perspicaz. — Você claramente adora a minha companhia. Quem mais no mundo teria paciência para aguentar essa sua rabugice o dia inteiro na estrada?
— Não se ache demais — Barret rebateu, soltando um grunhido grosso enquanto firmava as mãos no volante, recusando-se a olhar para o lado. — Eu gosto é dessa sua força bruta pra me ajudar a descarregar as cargas no fim do dia e pra fatiar monstro quando a coisa fica feia. Fora isso, você é só um peso morto que ocupa espaço demais na minha cabine.
Angeal riu ainda mais alto, um som que era raro para o veterano, mas que ressoava com uma camaradagem genuína.
— Pode admitir, Barret. Sem mim, você estaria chorando toda vez que precisasse erguer mais de três caixas. Eu sou o verdadeiro motor de tração dessa guilda.
Barret abriu a boca, puxando o ar para disparar o maior xingamento que sua mente conseguisse formular, mas as palavras nunca saíram.
Um impacto brutal atingiu a lateral direita do blindado com a força de um trem descarrilado. O estrondo de aço amassando ecoou pelo cânion enquanto o veículo de toneladas era jogado violentamente para o lado. Os pneus grossos derraparam na terra batida, levantando uma cortina sufocante de poeira e cascalho.
— Segura! — Barret rugiu, lutando com a direção para evitar que capotassem e pisando fundo no freio. O blindado arrastou por vários metros até finalmente estancar na beira do desfiladeiro, com o motor roncando alto.
Através do para-brisa trincado, a poeira começou a baixar, revelando a ameaça. Três feras massivas — predadores encouraçados do deserto, com garras de obsidiana e mandíbulas que pingavam um ácido esverdeado — cercavam o veículo. Elas arranhavam a terra freneticamente, as narinas dilatadas enquanto farejavam o ar em direção à carroceria traseira.
— Mas que inferno é isso?! — Barret esbravejou, o braço mecânico já emitindo o zumbido característico de destravamento. — Esses bichos não costumam caçar desse lado do cânion, muito menos no sol a pino!
O humor de Angeal evaporou em um piscar de olhos, substituído instantaneamente pelo foco frio e tático. Ele já estava virado para o banco de trás, os dedos largos se fechando com firmeza ao redor do cabo de couro de sua espada pesada.
— Eles não estão caçando — Angeal concluiu, os olhos escuros fixos nas criaturas através do vidro. — Eles estão farejando. A velha caixa da Shinra deve ter algum resquício de cheiro de Mako impregnado no aço. Foi isso que atraiu a atenção deles.
— Ótimo! Além de carregar lixo do mercado negro, a gente ainda serve de isca! — Barret chutou a porta do motorista para abri-la, pulando para a estrada com a arma em riste. — Vambora! Vamos transformar esses bichos em peneira antes que eles arranhem a minha pintura!
O estrondo ensurdecedor da metralhadora de Barret engoliu qualquer outro som no desfiladeiro. Plantando as botas pesadas na terra rochosa, o grandalhão transformou seu braço direito em um verdadeiro inferno de chumbo incandescente, descarregando uma tempestade contínua contra a fera que estava mais próxima do blindado. As balas colidiam furiosamente contra a carapaça grossa do monstro, arrancando faíscas e lascas afiadas de obsidiana para todos os lados. O impacto brutal não perfurou a armadura de imediato, mas a força absurda e ininterrupta do fogo de supressão empurrou a criatura brutalmente para trás. — Vem provar chumbo quente, suas lagartixas de esgoto! — Barret rugiu, chamando toda a atenção da horda para si e garantindo, com puro ódio e barulho, que nenhuma garra chegasse a um metro da carga.
Aproveitando a brecha perfeita criada pela fúria de seu parceiro, Angeal mergulhou direto no caos da linha de frente. Sem perder um milésimo de segundo, ele empunhou sua lâmina colossal com as duas mãos, os músculos das costas retesando sob a camisa. Um dos rastejadores saltou lateralmente, as mandíbulas pingando ácido escuro prontas para rasgar seu pescoço. Com uma frieza cirúrgica e técnica absoluta, Angeal não recuou. Ele girou o calcanhar na areia, usando a parte chata e larga de sua espada pesada como uma barreira inquebrável. O impacto ressoou como o estrondo de um sino de ferro, esmagando as presas da criatura contra o metal. Canalizando a própria inércia do ataque inimigo, o veterano da guilda de escolta rodopiou o corpo e desceu o aço em um arco vertical avassalador, fatiando o crânio encouraçado do monstro ao meio antes que a fera pudesse tocar o chão.
O último predador, percebendo a queda dos outros dois, tentou ser astuto. Ignorando Angeal, o monstro mergulhou nas sombras das pedras para flanquear o grupo e saltar diretamente sobre a traseira do blindado, farejando o Mako de forma desesperada. Mas a sinergia daquela guilda beirava o absurdo. Sem precisar trocar uma única palavra ou olhar, Barret antecipou a trajetória. O líder girou o tronco pesado, recalibrando a mira em uma fração de segundo, e disparou uma rajada concentrada bem nas juntas da perna traseira da fera. A articulação estilhaçou em uma nuvem de sangue e poeira, forçando a criatura a cair de joelhos e derrapar na terra. Era a abertura letal. Em um avanço rápido e implacável, Angeal cobriu a distância em dois passos largos, a espada colossal zumbindo no ar seco do deserto antes de decapitar o monstro em um golpe horizontal limpo, encerrando a ameaça antes mesmo que uma única gota de ácido tocasse a lataria do caminhão.
A poeira avermelhada do desfiladeiro começou a baixar lentamente, misturando-se ao cheiro acre do sangue e do ácido que agora manchavam a terra seca. Angeal sacudiu a lâmina colossal com um movimento seco e preciso para limpar o excesso de fluido escuro antes de guardá-la nas costas. Ele se agachou perto da carcaça do último monstro abatido, os olhos escuros examinando a textura das escamas grossas e a gosma levemente esverdeada que ainda escorria das mandíbulas sem vida.
Barret caminhou pesadamente até ele, o cano de sua metralhadora ainda dissipando fumaça no ar quente. O grandalhão chutou o flanco de uma das criaturas mortas com a ponta da bota, mantendo o olhar desconfiado varrendo as fendas escuras e os platôs rochosos que cercavam o caminhão blindado, atento a qualquer pedrisco caindo.
— Acha que tem mais dessa praga escondida por aí esperando a gente vacilar? — Barret perguntou, a voz estrondosa abaixando para um tom mais tático, esquadrinhando o terreno rochoso.
— É bem provável. Predadores que sofrem esse tipo de alteração costumam rastrear suas presas em bandos maiores — Angeal respondeu, erguendo-se e espanando a poeira da roupa, os sentidos igualmente em alerta. — A poeira abaixou, mas o barulho e o cheiro de sangue fresco vão atrair o resto. Não podemos nos dar ao luxo de ficar parados aqui para descobrir.
Barret soltou um cuspe na areia, esfregando o rosto suado com as costas da mão de carne. O cheiro pungente de Mako residual que exalava da carcaça ativava memórias que ele preferia manter enterradas.
— Eu jurava que essa merda de surto de Mako tinha ficado no passado — o parceiro resmungou, a carranca se aprofundando em pura e absoluta frustração. — Já faz três anos que a Shinra foi pro buraco. Três malditos anos! A gente desligou tudo, cortou o mal pela raiz, e mesmo assim a gente continua esbarrando nessas aberrações encharcadas de energia corrompida no meio do nada. Parece que a sujeira daquela corporação se recusa a morrer de vez.
Angeal deu as costas para as carcaças e caminhou de volta para a porta do carona do blindado, abrindo-a com um puxão firme.
— Fantasmas demoram a desaparecer, Barret, especialmente os que deixaram raízes tão fundas — Angeal comentou, o tom perfeitamente calmo, mas com uma lógica afiada. Ele apoiou a bota no degrau da cabine e olhou por cima do ombro. — Mas se ficarmos aqui fora filosofando sobre os erros do passado, seremos nós que faremos companhia a eles no deserto. Vamos voltar para a estrada. A carga não vai se entregar sozinha.
Barret soltou mais um resmungo gutural, sabendo muito bem que o parceiro tinha total razão. Ele deu uma última olhada torta para as bestas mortas, cuspiu no chão e subiu na cabine, batendo a porta do motorista com força suficiente para fazer a lataria reforçada tremer.
O blindado voltou a rugir, rasgando a poeira e deixando o matadouro para trás. O caminho a partir dali só ficava mais estreito e agourento. As escarpas do cânion pareciam se fechar sobre o teto do caminhão, projetando sombras longas que escondiam qualquer coisa que estivesse à espreita. Eles cruzaram pontes de ferro retorcido que rangiam ameaçadoramente sob o peso absurdo do comboio e passaram por carcaças de antigas tubulações que sangravam água suja para o nada. O cenário era o esconderijo perfeito para emboscadas, o que deixava a expressão de Barret cada vez mais fechada, as mãos apertando o volante de forma tão bruta que os nós dos dedos estalavam.
Finalmente, após quase uma hora de tensão silenciosa, o desfiladeiro se abriu. O blindado freou devagar no meio de uma antiga estação de escavação cercada por cabanas improvisadas com lonas rasgadas e chapas de zinco corroídas. O lugar era um cemitério de sucata abandonado. Barret desligou o motor. O silêncio que se seguiu era denso, quebrado apenas pelo vento uivando pelas frestas de metal.
Os dois desceram do veículo. Barret manteve o braço-metralhadora erguido, o corpo largo posicionado instintivamente como um escudo perto do caminhão, enquanto seus olhos varriam cada buraco escuro daquele acampamento fantasma. Angeal deu a volta na caçamba e retirou a pesada caixa selada, acomodando-a no ombro com uma facilidade irreal.
O veterano caminhou até o centro do terreno, assumindo sua postura diplomática e inabalável.
— A carga está aqui! — a voz grave e potente de Angeal ecoou pelas cabanas vazias, exigindo atenção de forma respeitosa, porém impositiva. — O trajeto foi concluído conforme o acordo.
— E já que pagaram aquela fortuna toda adiantada, tenham pelo menos a decência de vir buscar a mercadoria! — Barret berrou logo em seguida, a desconfiança e a impaciência fervendo na garganta. — A gente só quer deixar essa tralha aqui e dar o fora. Acabou o mistério, saiam logo da toca!
O barulho de uma placa de zinco rangendo chamou a atenção da dupla. De dentro da maior cabana improvisada do acampamento, passos lentos e medidos começaram a ecoar. Quatro figuras emergiram da escuridão, descendo os degraus de madeira podre sob a luz fraca do fim de tarde.
Eles não usavam mais os ternos impecáveis e engravatados de três anos atrás. Estavam vestidos com roupas táticas gastas, sobretudos de lona cobertos de poeira e cintos cheios de munição, claramente adaptados à vida de sobrevivência. Tseng tomou a frente de forma calculista, ladeado pelos rostos inconfundíveis de Reno, Rude e Elena.
A surpresa estampada no rosto de Barret foi rapidamente substituída por uma fúria instintiva. Seus olhos se arregalaram ao cruzar o olhar com os antigos fantasmas da corporação, figuras táticas que ele só conhecia por descrições, rumores e arquivos da época da rebelião.
Reno parou no pé da escada de madeira podre, apoiando o bastão elétrico no ombro com uma postura desleixada e preguiçosa. Ele olhou em volta, varrendo o acampamento vazio com o olhar antes de soltar um suspiro exagerado e genuinamente desapontado.
— É só isso? Só vocês dois? — Reno perguntou, estalando a língua com desdém. — E cadê o resto da famigerada Avalanche? Achei que a gente tinha pago o suficiente pra ver a equipe completa. Que decepção, yo.
Barret travou a mandíbula, os músculos do pescoço retesando enquanto ele erguia o cano da sua metralhadora na direção do ruivo.
— A Avalanche morreu junto com o caos e com a Shinra, há três anos! — o grandalhão rosnou, a voz estrondosa reverberando no ferro-velho. — O que vocês contrataram foi a Guilda de Logística e Escolta Pesada. E somos mais do que o suficiente pra limpar o chão com a cara de qualquer um de vocês.
Reno soltou uma risada anasalada e cínica, dando alguns passos à frente com aquela arrogância característica que parecia imune ao perigo.
— "Guilda de Logística e Escolta Pesada"? — o ex-Turk repetiu, o tom pingando deboche enquanto ele começava a girar o bastão na mão. — Que nome mais civilizado. Quase me faz esquecer que tô olhando pra um brutamontes estressado com um canhão no lugar do braço. Achei que pelo menos teriam um pouco mais de classe, ou um serviço de atendimento ao cliente mais amigável.
O sangue de Barret ferveu. Ignorando qualquer protocolo de cautela ou segurança, ele deu passadas duras na direção de Reno, o motor do braço mecânico zumbindo em um aviso letal e ensurdecedor.
— Eu nunca tinha visto a cara de um Turk pessoalmente antes de hoje... — Barret vociferou, o peito largo estufado enquanto ele encurtava a distância de forma intimidadora, parando a centímetros do ruivo. — Mas todas as histórias que eu ouvi sobre vocês estavam certas! Pelo visto, a arrogância e a falta de educação já vinham costuradas no uniforme da Shinra, né? E continuam aí, intactas, mesmo agora que vocês não passam de ratos de esgoto vestindo farrapos!
A provocação atingiu o alvo em cheio. O sorriso debochado de Reno sumiu, substituído por um brilho frio nos olhos enquanto ele ativava a corrente elétrica do seu bastão. As faíscas azuis estalaram no ar quente, iluminando os rostos furiosos dos dois.
Mas, antes que qualquer um deles desse o primeiro golpe, uma mão larga e enluvada pousou firmemente sobre o ombro de Reno, forçando o bastão faiscante para baixo.
Rude deu um passo à frente, ajustando os óculos escuros com a outra mão. Ele lançou um olhar severo para o parceiro antes de encarar Barret com uma expressão neutra, carregada de uma exaustão que ia além do físico.
— Já chega, Reno — a voz grave e contida de Rude soou como um balde de água fria no meio do pátio. — Os Turks também morreram junto com a Shinra, há três anos. Não somos mais nada daquilo.
Logo atrás, Elena, que havia levado a mão instintivamente ao coldre no auge da tensão, soltou a arma e deu um passo à frente, erguendo as mãos em um gesto apaziguador.
— Nós não viemos aqui para brigar com ninguém! — ela interveio, a voz soando um pouco ansiosa, mas decidida. — Por favor. A gente só quer a nossa carga e ir embora em paz.
A poucos metros de distância daquela explosão de xingamentos e testosterona, Tseng e Angeal observavam o caos em um silêncio absoluto. O ex-líder corporativo e o veterano de honra cruzaram os olhares por um breve segundo. Em meio àquela tensão, a troca silenciosa entre os dois compartilhou uma compreensão muda e quase irônica — o cansaço universal de serem os líderes sensatos lidando eternamente com parceiros explosivos e inconsequentes.
Angeal, mantendo a postura diplomática de sempre, apenas balançou a cabeça de forma imperceptível para Tseng antes de voltar seus olhos para a confusão. Ele deu um passo pesado na direção de Barret e colocou a mão firme sobre o cano da metralhadora, abaixando a arma do parceiro com a mesma autoridade que Rude usara com Reno.
— A moça tem razão, Barret. Controle-se — Angeal ordenou, a voz grave cortando o resto da tensão. — A honra do nosso contrato não inclui tiroteios gratuitos. Nós viemos entregar, não guerrear.
Reno soltou um estalo irritado com a língua, esquivando-se do aperto de Rude com um dar de ombros preguiçoso e frustrado.
— Qual é, yo... — o ruivo resmungou, girando o bastão elétrico antes de desativá-lo. — Eu só queria uma briga justa contra um fracassado pra desestressar. Faz meses que a gente não se diverte.
O sangue de Barret ferveu até o limite.
— Fracassado?! — o grandalhão rugiu, o braço-metralhadora girando alto. — Seu rato de esgoto, eu vou te mostrar quem é o fracassado quando eu transformar você e esse seu bastão de choque em sucata!
Com um sorriso presunçoso no rosto e sem dar qualquer tempo para o grandalhão cumprir a ameaça, Reno simplesmente girou nos calcanhares. Ele caminhou de volta em direção à cabana central de onde o grupo havia acabado de sair, abriu a porta de madeira podre com um empurrão desleixado com o pé, enfiou-se lá dentro e bateu a porta com força. O som nítido da tranca de ferro escorregando ecoou pelo pátio silencioso.
Barret urrou de ódio, avançando como um trator desgovernado direto para a cabana principal. Antes que ele pudesse dar o terceiro passo, Angeal travou os braços ao redor do peito do parceiro com uma força absurda, cravando as botas na poeira para parar o avanço. No mesmo milésimo de segundo, Rude entrou na frente de Barret, cruzando os braços grossos e usando o próprio peso e a base firme de combate para bloquear a muralha de músculos.
— Me solta, Angeal! — Barret berrou, lutando em vão contra o aperto duplo de um ex-Primeira Classe e de um ex-Turk. — Sai da frente, seu careca do inferno! Eu vou arrancar aquela porta principal junto com a cara de fuinha dele!
Com o caos finalmente sob controle graças ao esforço físico conjunto de Angeal e Rude, Tseng e o veterano puderam focar no motivo real de estarem ali. Tseng ajeitou a gola do da roupa com sua frieza habitual e caminhou a passos lentos até a caixa selada no centro do pátio, enquanto Angeal mantinha Barret firmemente imobilizado.
— A carga está exatamente como foi exigido — Angeal declarou, a respiração pesada pelo esforço de conter Barret, mas o tom estritamente profissional e de negócios. — Selada, intacta e entregue no prazo.
— Eu vejo — Tseng respondeu de forma contida, agachando-se para inspecionar os trincos empoeirados da caixa de contenção. Ele passou os dedos pelo antigo logo desbotado, a expressão ilegível. — A eficiência operacional de vocês faz jus aos rumores que estão correndo pelo continente. A transferência com o restante do pagamento já foi autorizada. O dinheiro cairá na conta da guilda de vocês a qualquer momento.
— O contrato está encerrado, então — Angeal concluiu, dando um leve empurrão em Barret para forçá-lo a recuar um passo e sinalizando para que Rude também pudesse relaxar a guarda. O veterano lançou um olhar avaliativo para o ex-líder corporativo. — Apenas... tentem não acabar mortos por conta do que quer que estejam guardando aí dentro.
Tseng digitou um código no painel da caixa e ergueu a pesada tampa de aço, revelando o servidor físico intacto com os arquivos confidenciais. Ele olhou de volta para Angeal, a frieza de sempre mesclada a um cansaço sombrio de sobrevivência.
— É exatamente para não sermos mortos pelas novas lideranças que precisamos disso, Angeal. É o nosso seguro de vida.
Barret arregalou os olhos, encarando o servidor blindado dentro da caixa com uma mistura de choque e desconfiança. A ideia de que uma peça tão vital da corporação ainda existia era difícil de engolir.
— Seguro de vida? — Barret franziu a testa, a voz ainda estrondosa, mas agora carregada de pura incredulidade. — Como é que essa tralha ainda tá inteira? Há três anos, tudo o que tinha o nome da maldita Shinra foi pros ares num inferno de fogo e Mako derretido! Como é que esses arquivos sobreviveram se tudo foi destruído?
Antes que a falta de filtro de Barret pudesse causar um novo atrito ou que ele exigisse mais detalhes sobre segredos corporativos, Angeal interveio. O veterano lançou um olhar severo e incisivo para o parceiro, exigindo discrição imediata com um simples gesto firme de mão. Em seguida, voltou-se para o ex-líder corporativo, assumindo sua habitual postura diplomática.
— Peço desculpas pela falta de modos do meu parceiro, Tseng — Angeal declarou, o tom polido e grave quebrando a hostilidade. — Como já percebeu, a discrição não é exatamente o ponto forte dele. 
Elena, percebendo que a poeira havia finalmente baixado de vez, deu um passo à frente. A ex-Turk relaxou os ombros, decidindo esclarecer a dúvida para garantir que os ânimos não voltassem a se exaltar.
— A infraestrutura principal foi destruída, é verdade, mas esse servidor não estava mais lá embaixo quando o colapso terminou — Elena explicou, a voz calma e analítica. — Nós rastreamos o paradeiro desses dados por meses. Descobrimos que os Sentinelas do Submundo haviam vasculhado os escombros e tomado posse desses documentos.
Tseng deslizou as travas pesadas da caixa de aço, trancando o servidor com um estalo seco, e complementou o raciocínio da subordinada.
— Assim que tivemos a confirmação de que os Sentinelas do Submundo estavam com os arquivos, eu mesmo decidi que iríamos atrás de tê-los de volta — Tseng pontuou. — O risco de deixar essas informações circulando nas mãos de uma facção como a deles era inaceitável. Era a única forma de garantir o nosso amanhã.
Barret soltou uma risada ríspida, cheia de escárnio, cruzando o braço bom sobre o peito.
— Garantir o amanhã? — o grandalhão tirou onda, o tom pingando sarcasmo. — Essa caixa de sucata velha aí garante o quê, exatamente? Um passe livre pra vocês continuarem brincando de espiões no esgoto enquanto o resto de nós tenta consertar a merda que a corporação de vocês deixou pra trás?
Angeal lançou um olhar de advertência, endurecendo o semblante de forma implacável.
— Baixa a bola, Barret. O nosso trabalho acabou aqui. O que eles fazem com a carga não é da nossa conta.
Tseng não demonstrou qualquer irritação com a provocação. Ele travou a maleta em definitivo e ergueu o rosto, mantendo a postura de quem tinha o tabuleiro inteiro mapeado na cabeça.
— Você subestima o peso da burocracia no meio do caos — Tseng rebateu, apresentando os fatos com uma frieza inabalável. — A Neo-Gaia assumiu o controle e gosta de agir como a salvadora do novo mundo. Mas havia cláusulas muito específicas nos documentos oficiais da Shinra: qualquer instituição que tomasse o poder após a queda da empresa ou um desastre com o Mako, herdaria automaticamente todas as consequências.
O ex-líder deu um leve tapinha na tampa de aço da caixa, os olhos escuros fixos em Barret.
— A Neo-Gaia se tornou a responsável legal por todos os edifícios antigos da Shinra que ainda estão de pé, pelos desastres deixados para trás e por cada um dos antigos funcionários que foram abandonados à própria sorte após o colapso. É uma bomba-relógio de obrigações e processos. E as únicas cópias originais que provam que essa responsabilidade é inteiramente deles estão aqui dentro. Enquanto tivermos isso nas mãos, a Neo-Gaia não pode nos descartar ou nos caçar.
Angeal ouviu a explicação em silêncio, compreendendo perfeitamente o peso tático daquela jogada. Ele deu um leve aceno de cabeça, reconhecendo que, no fim das contas, a sobrevivência era a única regra que ainda importava para os fantasmas da corporação.
— Boa sorte com isso, Tseng — Angeal desejou, a voz grave assumindo um tom de alerta sincero e ponderado. — Mas não feche os olhos para o lado de fora. A Neo-Gaia reergueu este mundo. Eles já restauraram a infraestrutura, estabeleceram a paz e trouxeram as cidades de volta à vida nesses últimos três anos. Para falar a verdade, eu estou feliz com o mundo como ele está agora. As pessoas finalmente têm segurança.
Tseng não alterou a expressão. Ele segurou a maleta pela alça de aço, o olhar frio refletindo o pragmatismo inabalável de quem já havia operado nas piores sombras possíveis.
— A filantropia e as boas intenções deles pouco me importam, Angeal — Tseng respondeu de forma seca, ajeitando a postura com a mesma frieza de sempre. — Eu não ligo para a salvação do mundo. Eu só quero o que é nosso por direito e garantir que o meu pessoal não pague a conta sozinho.
O clima estritamente de negócios encerrou a tensão letal que havia dominado o pátio. Percebendo que o contrato estava finalizado e que não haveria mais conflito, Elena deu um passo para trás. Ela relaxou a postura, esboçando um sorriso contido de alívio, e deu um aceno educado com a mão, despedindo-se da dupla de forma amigável.
Barret, no entanto, não retribuiu. O grandalhão apenas soltou um grunhido áspero, revirando os olhos com puro desprezo. Sem dizer mais meia palavra aos ex-Turks, Barret virou as costas bruscamente e começou a marchar a passos duros e pesados de volta para o comboio. O metal do braço mecânico zumbia baixo enquanto ele caminhava, a raiva fervendo a cada pisada na poeira, deixando claro que ele só queria ligar o motor e sumir daquele ferro-velho antes que perdesse de vez o restinho de paciência que lhe sobrava.
Tseng segurou a alça da maleta com firmeza, o olhar mantendo a mesma frieza calculista de sempre.
— Nós temos outros negócios agora, Angeal. Formamos a nossa própria companhia independente de mercenários, aceitando contratos e oferecendo serviços de proteção, investigação e extração. Mas ter esses documentos em nossa posse muda o cenário. Isso nos coloca como os profissionais mais requisitados do continente e, acima de tudo, os mais perigosos. Quem decidir nos contratar daqui para frente precisará ter muito medo ou, no mínimo, plena consciência do risco que corre ao se envolver conosco. É um aviso.
Angeal assentiu lentamente, reconhecendo a velha lógica predatória que sempre guiou os passos dos ex-Turks.
— Apenas garantam que essa vantagem toda não se torne a corda no pescoço de vocês — Angeal comentou, a voz grave mantendo o tom ponderado. — Novamente, boa sorte, Tseng.
Sem prolongar mais a conversa, o veterano deu um último aceno de cabeça respeitoso para o grupo. Ele virou as costas e começou a caminhar a passos largos e tranquilos pelo pátio poeirento em direção ao comboio, onde o motor do blindado já começava a roncar agressivamente, refletindo a pressa e a total irritação de Barret para dar o fora dali.
O interior do blindado já estava com o ar-condicionado no máximo quando Angeal abriu a porta do carona e se acomodou. No banco do motorista, Barret já havia recolhido o mecanismo pesado de sua metralhadora, ajustando o braço para a prótese civil articulada, permitindo que ele manuseasse a direção com precisão. Com um puxão agressivo na marcha, o grandalhão pisou fundo no acelerador, fazendo o caminhão dar um solavanco ruidoso antes de rasgar a estrada de terra batida, ansioso para deixar aquele acampamento fantasma para trás.
— Companhia independente de mercenários... Conta outra! — Barret rosnou, apertando o volante com tanta força que o metal de seus dedos mecânicos rangeu contra o couro desgastado. — Você engoliu essa historinha, Angeal? Aquele bando de rato de esgoto tá segurando a papelada oficial porque certamente vão querer trazer a merda da Shinra de volta à vida. Eles não dão a mínima pra sobrevivência dos funcionários coisa nenhuma, eles só querem segurar a coleira de todo mundo de novo!
Angeal acomodou sua postura no banco do carona e soltou um suspiro longo, observando as formações rochosas do cânion passarem como vultos pela janela trincada.
— A dinâmica de um mercenário neste novo mundo é muito mais complicada do que uma simples sede de poder e controle corporativo, Barret — o veterano respondeu, a voz grave carregada de um pragmatismo sereno e imparcial. — Com a queda da Shinra e as cidades tentando se reerguer do zero, muita gente que só conhecia o treinamento militar ficou sem bandeira e sem propósito. O que os Turks estão fazendo agora é apenas uma versão mais elitizada do que já vemos espalhado por toda Gaia.
Barret bufou, os olhos cerrados e fixos na estrada poeirenta, recusando-se a dar o braço a torcer, mas Angeal continuou sua linha de raciocínio.
— Lembre-se das nossas próprias rotas no último semestre — Angeal pontuou, trazendo a realidade do trabalho da guilda para a discussão. — Nós mesmos entregamos caixas de munição e ração de sobrevivência para os "Cães de Junon". Eles eram sargentos da antiga infantaria, e hoje atuam como mercenários cobrando para proteger os pescadores da costa contra a vida marinha mutante. E, no mês passado, nós fizemos a escolta daquele comboio médico até as ruínas de Gongaga dividindo a linha de frente com as "Lâminas da Sucata". Eram apenas moradores locais e ex-milicianos dos Setores que pegaram em armas para garantir que as vilas não fossem saqueadas.
O homem  cruzou os braços, encerrando o pensamento com a mesma lógica inabalável que guiou toda a entrega.
— Esse é o mercado atual, Barret. É sujo, é arriscado e é movido pelo desespero. A única diferença é que, enquanto as outras companhias de mercenários cobram por proteção bruta usando rifles velhos e lâminas cegas, Tseng e a equipe dele cobram proteção usando os segredos mais perigosos do planeta. No fim do dia, estão todos apenas usando as armas que têm para não morrerem de fome.
Barret soltou um resmungo longo e arrastado, os olhos fixos na estrada empoeirada enquanto o blindado ganhava velocidade. Ele sabia quando estava perdendo uma discussão, mas o seu orgulho e a teimosia o impediam de dar o braço a torcer completamente.
— Que seja — Barret resmungou, balançando a mão de carne no ar em um gesto de desdém antes de voltar a apertar o volante. — Se eles quiserem brincar de donos do submundo com aquela tralha, o problema é deles. Eu só me importo com a nossa guilda. Falando nisso, pega o comunicador e já liga pra Tifa lá no Oitavo Luar.
Angeal ergueu uma sobrancelha, tirando o PHS do bolso interno do colete tático.
— Avisa pra ela que a entrega foi feita e que o pagamento já deve estar caindo na conta — o grandalhão continuou, a voz suavizando uma fração apenas por pensar no verdadeiro motivo de todo aquele esforço. — E diz que a gente já tá pegando a estrada pra Costa del Sol pra buscar a Marlene. A Tifa deve tá atolada de trabalho no bar, não quero deixar a menina dando dor de cabeça pra ela no meio daquela bagunça.
Angeal abriu um sorriso de canto, um brilho de pura diversão quebrando sua máscara de seriedade habitual. Ele discou o número e esperou alguns segundos até a linha estabilizar.
— Tifa? Sim, sou eu — Angeal começou, a voz grave e perfeitamente polida. Ele olhou de soslaio para Barret. — O trabalho foi concluído. A carga foi entregue aos nossos... antigos conhecidos. E sim, nós dois sobrevivemos, o que é um verdadeiro milagre, considerando que o Barret quase explodiu o cliente porque não tem controle emocional algum.
— Ei! — Barret berrou, virando o pescoço bruscamente. — Eu não perdi o controle! Aquele ruivo desgraçado que ficou pedindo pra apanhar! Fala a verdade pra ela, porra!
Angeal ignorou os gritos que ecoavam na cabine, mantendo o telefone na orelha com a maior tranquilidade do mundo, os olhos brilhando com ironia.
— Ah, e a suspensão do blindado também está pedindo socorro — o veterano continuou, provocando ainda mais. — Nosso líder de guilda decidiu que passar por cima das crateras é muito mais eficiente do que desviar delas. Enfim, estamos a caminho de Costa del Sol para buscar a Marlene no Oitavo Luar... isso se o caminhão não desmontar com a direção dele até chegarmos no litoral.
— Me dá essa merda aqui! — Barret rugiu, soltando uma mão do volante para tentar arrancar o PHS dos dedos de Angeal, que simplesmente se encostou mais na porta do carona, rindo de forma contida e genuína. — Tifa, não escuta esse soldado de meia-tigela! O caminhão tá inteiro! Angeal, se você não me der esse rádio agora, eu te jogo pra fora pela janela!
— Tifa, vou desligar antes que ele cause um acidente real. Até breve — Angeal finalizou a chamada com um clique seco, guardando o aparelho enquanto a cabine era preenchida pelos xingamentos estrondosos do parceiro.
A discussão acalorada e repleta de camaradagem continuou ecoando alto enquanto o blindado deixava a região dos desfiladeiros. Com o sol começando a se pôr no horizonte, tingindo o deserto de laranja e vermelho, o caminhão pesado seguiu seu rumo, levantando uma trilha grossa de poeira na longa estrada em direção a Costa del Sol.


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