segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - O Poeta

 


O cheiro de pergaminho antigo e cera de abelha preenchia a biblioteca central de Kalm. As grandes janelas de vidro permitiam que a luz dourada do fim da tarde banhasse as prateleiras de carvalho, criando o cenário perfeito para o teatro particular de Genesis Rhapsodos.
Encostado no balcão de atendimento com uma postura de elegância indolente, o poeta folheava um exemplar de capa dura com detalhes em dourado. Ele ergueu os olhos azuis, lançando um sorriso de canto perfeitamente calculado para a jovem bibliotecária do outro lado da mesa.
— A curadoria desta seção clássica está simplesmente impecável, senhorita Clara — Genesis murmurou, a voz aveludada e polida ressoando no ambiente silencioso. — Uma biblioteca tão bem preservada e rica em detalhes reflete perfeitamente a dedicação de quem a guarda.
A bibliotecária sentiu as bochechas esquentarem no mesmo instante. Ela ajeitou os óculos e abaixou o olhar para o registro de empréstimos, tentando disfarçar o sorriso bobo e a respiração que havia descompassado levemente.
— V-Você é muito gentil, Senhor Rhapsodos... — ela gaguejou um pouco, empurrando uma mecha de cabelo para trás da orelha, claramente caidinha pela figura imponente à sua frente. — Para ser honesta, o senhor é de longe o nosso leitor mais ávido. Acho que já devorou quase metade do acervo de poesia e drama clássico.
Genesis soltou uma risada baixa e anasalada, fechando o livro com um estalo suave.
— A literatura é o único refúgio seguro para a alma, minha cara. Mas hoje, meu paladar literário exige algo diferente. — Ele apoiou os cotovelos no balcão, inclinando-se sutilmente na direção dela, o que a fez prender a respiração. — Preciso de histórias épicas. Jornadas de bravura, mistérios e lendas. As minhas crianças estão precisando de novos horizontes.
Clara piscou, derretendo-se ainda mais com a imagem daquele homem vestido no casaco escarlate dedicado a ler fábulas para crianças.
— Ah, claro! Temos edições infantojuvenis lindíssimas na seção ao lado. — Ela se apressou em sair de trás do balcão, caminhando até uma prateleira próxima, sendo acompanhada de perto pelos passos silenciosos e elegantes de Genesis. — O que acha deste aqui? "O Grande Compêndio das Florestas Kupo".
— Perfeito para a Kether — Genesis assentiu, os olhos brilhando de pura diversão ao lembrar da atual e barulhenta obsessão da sobrinha desde o recente resgate na praia. — Ela está absolutamente fascinada por Moogles de verdade e projetos de arquitetura para árvores-castelo ultimamente. Isso vai mantê-la ocupada por horas.
— E para a pequena Marlene? — Clara perguntou, com um sorriso gentil.
— Marlene é sagaz. Uma mente analítica que não se contenta com soluções fáceis — Genesis pontuou, alisando o queixo com os dedos de forma pensativa. — Para ela, precisamos de "Os Segredos do Labirinto de Cristal". Um conto denso sobre enigmas e exploradores desbravando ruínas esquecidas.
Genesis fez uma breve pausa, o olhar suavizando ao lembrar do mais novo integrante daquela família caótica.
— E precisamos de algo verdadeiramente grandioso para o Denzel. O garoto se juntou a nós recentemente... — Genesis explicou, a voz ganhando um tom mais ameno e genuinamente protetor. — A alma dele carrega feridas profundas daquele massacre em Midgar, então ele precisa de uma epopeia clássica. Creio que "A Jornada do Cavaleiro do Amanhecer" seja a escolha exata. Uma daquelas histórias imersivas sobre guerreiros de luz e esperança, algo que o lembre de que as maiores vitórias e os dias mais bonitos nascem após a pior das tempestades.
Clara, completamente encantada com o cuidado e a doçura dele com o menino recém-adotado, rapidamente selecionou os volumes de capas ricas e coloridas, empilhando-os com zelo e entregando-os a Genesis. Ele segurou os livros com um braço e, com a mão livre, tocou levemente as pontas dos dedos da bibliotecária por um segundo a mais do que o necessário ao pegar o último exemplar.
— Você acaba de salvar a minha noite, Clara. Minha eterna gratidão — ele agradeceu com uma reverência sutil de cabeça que parecia saída diretamente do palco de uma ópera.
A moça apenas assentiu freneticamente, com o rosto completamente vermelho, observando-o virar as costas enquanto ele se dirigia à saída da biblioteca.
O que Genesis não aparentava saber, no entanto, é que o seu pequeno espetáculo literário não estava sendo assistido apenas pela bibliotecária apaixonada. Do outro lado da rua, escondida nas sombras entre dois edifícios, estava a mulher observando ele.

Para Lucia Lin, o mundo nunca foi moldado por heróis ou lendas, mas sim pela direção do vento, pelo silêncio antes de um disparo e pelas leis implacáveis da probabilidade.
Quando o seu antigo esquadrão desmoronou — marcado pelo desaparecimento repentino e sem respostas de Glenn, e pelos rumos solitários que ela e Matt precisaram tomar —, Lucia compreendeu cedo demais que a lealdade à corporação era uma âncora que só a puxaria para o abismo. Ela não esperou que o céu caísse para tomar uma decisão. Muito antes de o mundo virar de cabeça para baixo, a atiradora apagou os próprios passos dos registros da sede, recolheu seu rifle e dissolveu-se no continente, tornando-se apenas uma testemunha invisível.
Durante os anos em que Sephiroth desertou e a Avalanche travou sua guerra para derrubar a corporação, Lucia operou estritamente nas sombras. Ela sobrevivia trabalhando como uma rastreadora de informações, neutra e intocável. Quando Hojo perdeu o controle, instaurando o caos absoluto e inundando Midgar com a fumaça purpurada de Mako, Lucia não estava lá para bancar a heroína.

Agora, a realidade era outra. A Fundação Neo-Gaia havia reerguido as cidades e restaurado a civilização, e antigos agentes de elite — como Tseng e os Turks — haviam se reinventado como mercenários do novo mundo. Lucia, no entanto, não se juntou a companhias ou guildas. Ela continuou como uma investigadora independente, rastreando anomalias biológicas e tecnologias perigosas que ficaram perdidas nas ruínas.
Para Lucia, a matemática da biologia precisava fechar. O Projeto G não era um mito; era uma sentença de degradação irreversível, documentada em relatórios que ela conhecia muito bem. A ciência ditava que Genesis Rhapsodos deveria ser apenas poeira há muito tempo. No entanto, os ecos pelo continente insistiam que a falha original estava viva, curada e caminhando livremente sob a luz do sol.
Aquilo era uma equação impossível. E como o sumiço de Glenn já era um enigma indigesto o suficiente, ela não estava disposta a conviver com outro. Lucia não cruzou o continente por vingança ou por qualquer apego aos tempos de farda. Ela estava ali simplesmente porque precisava olhar nos olhos daquela impossibilidade e descobrir, de uma vez por todas, como ele havia enganado o próprio destino.
O sino da biblioteca soou de forma suave, e Genesis passou pelas portas de vidro com um sorriso de pura satisfação desenhado no rosto. Do outro lado da rua, escondida pela penumbra estreita entre dois edifícios, Lucia acompanhava cada movimento dele.
A visão ofendia a sua lógica. Enquanto observava o homem caminhar de forma tão despretensiosa, a mente de Lucia folheava os relatórios confidenciais que ela havia passado meses descriptografando. Os laudos finais, assinados pelo próprio Hojo, eram categóricos e detalhistas. Eles atestavam que a anomalia biológica havia chegado ao limite da degradação, e que seu corpo desfigurado tombara inerte contra o ferro de uma passarela, desmanchando-se em uma poça de Mako estagnado no fundo de um reator abandonado.
Morto. Esse era o veredito irrefutável da ciência. O fim da linha para o Projeto G.
Mas lá estava o suposto defunto biológico, vivo, imponente e parando tranquilamente em uma vendinha de esquina. Genesis pediu um café fumegante e, com um sorriso educado para a senhora do quiosque, solicitou uma sacola de papel pardo. Ele ajeitou os livros infantis lá dentro com uma delicadeza meticulosa, certificando-se de que as capas não amassassem, antes de voltar a caminhar pela calçada de pedra, bebericando a bebida quente sob a brisa fresca do fim de tarde.
Lucia não suportou mais o teatro do absurdo. Ela calculou a distância, o passo dele e o ponto cego da rua.
Assim que Genesis passou perto de uma viela estreita e vazia, a investigadora avançou. A mão dela cravou no ombro do casaco escarlate com uma firmeza absoluta, puxando-o para trás com um tranco rápido e violento que o arrastou para as sombras do beco.
O solavanco quebrou a inércia pacífica do poeta. Pego de surpresa, os dedos dele afrouxaram, e o copo de papel escapou. O café quente espirrou de uma vez, manchando o tecido impecável de sua roupa e espalhando-se pelas pedras irregulares do chão, enquanto o vento encarregou-se de levar o copo vazio rolando ladeira abaixo com um som oco e irritante.
Genesis piscou. Ele segurou a sacola de livros longe do respingo por puro instinto de proteção literária, mas seus olhos azuis desceram para a mancha úmida e escura arruinando a lapela de seu casaco.
Ele soltou um suspiro longo, sofrido e profundamente teatral. Com um balançar de cabeça lamentoso, Genesis ergueu o rosto para encarar a mulher à sua frente, exibindo um sorriso carregado de uma ironia fina e aristocrática.
— Eu confesso que estou começando a me acostumar com a ideia de moças apaixonadas se jogando aos meus pés pelas ruas de Kalm... — Genesis murmurou, a voz aveludada pingando um falso drama enquanto sacudia levemente o casaco manchado. — Mas eu realmente apreciaria se houvesse um pouco mais de calma e delicadeza nessas abordagens. O tecido, infelizmente, não compartilha do mesmo entusiasmo que você.
A expressão de Lucia escureceu na mesma hora. A indignação subiu à garganta diante daquela petulância poética. Sem um pingo de paciência para charadas ou galanteios baratos, ela cruzou os braços, a voz saindo seca e afiada como uma lâmina.
— Poupa o fôlego — Lucia cortou de imediato, o olhar frio cravado no rosto dele. — A papelada carimbada pelo Hojo diz que você apodreceu no fundo de um reator. O Projeto G era uma falha genética sem cura. Então para com o teatro, abre a boca e me explica agora mesmo como um erro biológico que deveria estar morto há anos está comprando livros de historinha.
A lembrança do passado cruzou os olhos de Genesis, substituindo a ironia por um brilho melancólico, porém pacífico. O som metálico da passarela no reator de Nibelheim, o peso impiedoso das lâminas e a queda nas profundezas do Mako estagnado ainda eram memórias vivas.
— Os relatórios não mentiram sobre o meu fim. Pelo menos, não na parte técnica — Genesis respondeu, um sorriso calmo e genuíno despontando nos lábios. — Eu fui derrotado, é verdade. O meu corpo cedeu à degradação e o meu orgulho foi estilhaçado. Mas, quando a escuridão me abraçou no fundo daquele abismo, eu senti uma energia inconfundível... O calor do Lifestream me envolveu. Ele me puxou de volta à superfície. E, contrariando a tragédia que parecia ser o meu único destino, eu simplesmente decidi que queria viver. Viver de verdade.
A explicação com ares divinos apenas alimentou a irritação da investigadora. Para Lucia, o Lifestream não era uma entidade poética de compaixão; era um fluxo de energia quantificável e volátil.
— Milagres não reconstroem telômeros rompidos nem revertem decomposição celular — ela rebateu, encurtando o espaço entre os dois de forma agressiva.
A mão dela avançou como um bote, agarrando o braço dele com uma força bruta. Os dedos de Lucia cravaram através do tecido escarlate, apertando a musculatura dele como se quisesse encontrar a anomalia, o enxerto mecânico ou a farsa por baixo daquela aparência saudável.
— Como a sua biologia funciona agora? — ela pressionou, o tom implacável. — Você está blefando para cobrir os próprios rastros. Que tipo de mutação você esconde?
Genesis soltou um muxoxo longo e cansado, franzindo a testa para o aperto de ferro no próprio braço.
— Mais uma vez, a hostilidade... — ele suspirou, revirando os olhos.
Sem pressa ou qualquer traço de agressividade letal, Genesis moveu a mão livre. Ele envolveu o pulso de Lucia com uma firmeza polida, porém irredutível, e afastou a mão dela de seu braço em um movimento fluido.
Ele soltou o pulso da atiradora logo em seguida e ajeitou a postura, alisando o tecido amassado de sua roupa antes de acomodar melhor a sacola com os livros infantis.
— Se você faz tanta questão de dissecar a minha anatomia e debater as minhas escolhas de vida, nós podemos muito bem fazer isso sentados em uma cafeteria — Genesis sugeriu, o tom voltando a carregar aquela tranquilidade de quem convida alguém para um passeio no parque. — Até porque, graças ao seu tranco de agora há pouco, você me deve uma bebida nova.
O raciocínio lógico de Lucia parou completamente. A mente tática dela operava prevendo emboscadas, rotas de fuga evasivas ou um duelo de vida ou morte no meio daquele beco. Um convite casual para tomar café, no entanto, quebrou todas as suas diretrizes de combate. Ela piscou, os lábios entreabertos, subitamente paralisada e sem ter a menor ideia de como rebater ou reagir àquela oferta mundana.
Percebendo o curto-circuito escancarado no rosto da atiradora, Genesis abriu um sorriso largo. Ele deu uma piscadela descontraída, os olhos azuis brilhando de pura diversão com a falta de traquejo social dela.
— Acalme-se, senhorita... seja lá qual for o seu nome. Não é um encontro. — Ele brincou, girando os calcanhares para sair das sombras do beco e voltar para a rua banhada pelo sol. — Venha. Conheço um lugar na próxima esquina que serve um bolo de maçã razoavelmente bom.
Lucia hesitou por uma fração de segundo, os olhos cravados nas costas do homem de casaco escarlate, antes de soltar a respiração e começar a segui-lo. Os passos dela eram insonoros sobre as pedras, um contraste gritante com o caminhar confiante e quase desfilado dele.
A investigadora não conseguia simplesmente desligar o modo de interrogatório. Se havia uma falha no sistema, ela precisava saber a extensão do dano.
— Se a sua degradação foi revertida de alguma forma, o que aconteceu com o restante das cobaias biológicas? — ela questionou, a voz baixa, mantendo o compasso logo atrás dele. — Com as outras ramificações? Angeal Hewley. Sephiroth. A Shinra caiu, mas as patologias não desaparecem com prédios desabando.
Genesis soltou um riso contido, achando uma graça genuína na forma como ela soava implacável. Ele não fazia ideia de quem era aquela mulher de postura armada e olhar questionador. As cicatrizes de sua própria história o ensinaram a não entregar os segredos e a rotina de sua família de mão beijada para estranhos nas ruas, mas a paz dos últimos anos havia amolecido seus antigos espinhos. Ele podia se dar ao luxo de ser gentil, à sua própria maneira enigmática.
— Angeal decidiu que liderar pelo exemplo rende mais do que apenas distribuir sermões. Ele abriu uma guilda de logística e proteção — Genesis respondeu, o tom casual, sem olhar para trás enquanto ajustava a sacola de livros no braço. — E quanto a Sephiroth... bem, ele casou-se.
As solas das botas de Lucia travaram instantaneamente contra o paralelepípedo da calçada. Ela parou de andar, o choque travando a respiração em sua garganta.
Casou.
A palavra ecoou na mente dela, completamente absurda e incompatível com o guerreiro gélido e distante que estampava os relatórios militares da corporação. No entanto, o choque durou pouco, sendo engolido por uma lembrança muito mais antiga e profunda.
A mente de Lucia a transportou para os dias em que ela, Matt e Glenn dividiam acampamentos com um jovem de cabelos prateados. Ela se lembrou do adolescente que escondia um desejo desesperado por aprovação por trás do treinamento rígido. Do garoto que carregava uma bondade contida, que desviava o olhar com certa timidez e que só queria a chance de viver uma vida comum.
Uma sensação estranha apertou o peito da investigadora. A tensão que dominava seus ombros desde o momento em que abordou Genesis no beco cedeu, dando lugar a um alívio silencioso e avassalador. O garoto tinha conseguido. A corporação não havia devorado a alma dele, afinal.
Percebendo que a acompanhante havia ficado para trás, Genesis interrompeu a caminhada. Ele parou debaixo de um toldo listrado, de frente para uma porta de madeira com vidros levemente embaçados pelo vapor quente do lado de dentro. O aroma de grãos moídos e maçã com canela já escapava para a calçada.
Ele ajeitou o casaco, abriu a porta com uma das mãos e lançou um olhar divertido e convidativo na direção dela.
— As respostas que você procura ficam muito mais palatáveis com uma fatia de bolo, eu garanto — ele comentou, mantendo a porta aberta. — Depois de você.
Lucia piscou, recompondo a postura antes que qualquer resquício de vulnerabilidade ficasse evidente. Sem dizer uma palavra, ela atravessou a rua e entrou no café logo à frente dele.
O interior do café era acolhedor, revestido por painéis de madeira clara e dominado pelo aroma reconfortante de grãos torrados e especiarias. Mas Lucia mal registrou o ambiente. A revelação havia aberto uma fenda em sua habitual barreira de silêncio, e o choque transbordou.
— Casou? Como assim, casou? — a voz dela saiu um tom mais alto do que o normal, atropelando a própria compostura. — Isso não faz o menor sentido. Eu conheci o Sephiroth na juventude. O garoto não sabia nem discernir uma brincadeira! Se o Glenn fizesse uma piada ou usasse sarcasmo, ele ficava parado, analisando a frase inteira como se fosse um código de batalha criptografado.
Genesis caminhou até o balcão com tranquilidade, mas mantendo a atenção focada em cada palavra que saía da boca dela.
— Uma mesa para dois, por gentileza — ele pediu ao atendente, a voz aveludada acompanhada de um sorriso educado. — E providencie a melhor fatia do bolo de maçã da casa para a dama, acompanhada de café escuro e forte.
Lucia caminhava logo atrás dele, gesticulando com uma das mãos enquanto despejava sua incredulidade absoluta.
— Ele não sabia nem como abraçar alguém! — ela continuou, soando genuinamente indignada com a falha em sua lógica. — Se qualquer pessoa chegasse perto demais para um contato físico, ele travava. Ficava rígido como uma tábua. O menino mal sabia o que fazer com as próprias mãos e com a postura se não estivesse segurando o cabo de uma espada.
Genesis a guiou até uma mesa menor, posicionada perto de uma janela com os vidros levemente embaçados pelo calor do lugar. Com um cavalheirismo inato que parecia fazer parte de sua própria respiração, ele puxou a cadeira de madeira, aguardando que ela se acomodasse.
Lucia afundou no assento quase no automático, sem interromper o raciocínio.
— Como alguém que não entendia o conceito básico de ironia ou de espaço pessoal consegue navegar por um relacionamento romântico? Como ele pede alguém em casamento? Quem, em sã consciência, conseguiu ter a paciência para essa proeza e quebrar aquela barreira de gelo que a corporação construiu em volta dele?
Genesis acomodou a sacola com os livros infantis na cadeira vazia ao lado e sentou-se de frente para ela. Ele cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas sobre a mesa, os olhos azuis observando a mulher com um cuidado silencioso e profundo.
Ele não a interrompeu. Pelo contrário, ouvia o falatório com um pequeno sorriso de canto despontando nos lábios. Toda aquela torrente de choque e descrença, disfarçada de indignação analítica, mostrava exatamente o que ele precisava saber. Ela não era uma ameaça. Era apenas alguém que conhecia o menino solitário que existia antes da lenda, e que se importava de verdade com o bem-estar dele.
— A mente dele era uma engrenagem de combate. Para ele, sentimentos complexos eram variáveis não quantificáveis. Eu me lembro de uma missão específica, quando o Glenn tentou explicar a ele o conceito básico de chamar alguém para sair, e o garoto praticamente entrou em pane no sistema. Ele simplesmente não...
O garçom aproximou-se em silêncio, depositando a fatia generosa de bolo de maçã fumegante e a xícara de café escuro na frente dela, seguidas por uma xícara de chá para Genesis. Assim que o atendente virou as costas, o poeta ergueu a mão enluvada, interrompendo o raciocínio dela de forma pontual e polida.
— Perdoe-me a interrupção — Genesis disse, levando a xícara de chá aos lábios com um sorriso brando e carregado de diversão. — Mas eu preciso fazer uma pergunta muito honesta. Você me jogou contra a parede de um beco escuro para desvendar os maiores mistérios da minha sobrevivência biológica... ou simplesmente me arrastou até aqui porque queria fofocar sobre a vida amorosa do Sephiroth?
A fala a atingiu como um balde de água fria.
Os lábios de Lucia se fecharam no mesmo instante. O silêncio reinou na mesa. Ela olhou para a fatia de bolo, para a fumaça subindo do café, e depois para a expressão perfeitamente calma do homem à sua frente. A investigadora implacável, que não perdia o foco sob fogo cruzado, havia acabado de gastar os últimos cinco minutos tagarelando como uma tia preocupada com o sobrinho.
Ela respirou fundo, endireitando as costas e puxando de volta a parede de pragmatismo que havia deixado escorregar. Com um movimento contido, Lucia estendeu a mão direita por cima da mesa. O semblante voltou a assumir a seriedade habitual, mas agora despido daquela agressividade hostil de antes.
— Lucia Lin — ela se apresentou, a voz voltando ao tom seco e direto.
Genesis olhou para a mão estendida. Ele pousou a xícara no pires sem fazer barulho e esticou a sua, retribuindo o cumprimento com um aperto firme e elegante.
— Eu sei muito bem quem você é, Lucia — Genesis revelou. O sorriso de canto perdeu o traço de provocação, ganhando uma nota rara de nostalgia sincera. — Na nossa época dourada, quando ainda dividíamos os mesmos corredores na corporação, o Sephiroth não era exatamente o tipo que sentava para conversar sobre o próprio passado. Mas, nas raras noites em que a armadura dele cedia, ele confessou sobre os dias que passou com você, com o Matt e com o Glenn. Vocês foram os poucos que se importaram com o bem-estar dele de verdade, e não apenas com a arma que a Shinra queria que ele fosse.
Genesis soltou a mão dela com suavidade, encostando-se no estofado da cadeira.
— Ele não apenas lembra de vocês, como mencionava o quanto desejava ter uma vida comum graças aos dias que passaram juntos. Portanto... você não precisa se preocupar com ele. A Inome, a esposa dele, não precisou de chaves de fenda para abrir aquela barreira de gelo. Ela apenas o amou com o coração que ele achava que não merecia ter.
Lucia absorvia as palavras lentamente. Ela concordava com a cabeça de forma repetitiva, o olhar fixo na fumaça que subia de sua xícara enquanto a mente tentava acomodar a ideia de que o garoto solitário que ela outrora protegeu agora tinha uma família.
— Certo... — ela murmurou, a voz quase alheia ao ambiente ao redor, testando a sonoridade do nome. — Inome, então... Inome.
Ela deu um gole no café forte, ainda perdida em pensamentos. Genesis acompanhou a divagação dela com um silêncio cortês por alguns segundos, mas logo pigarreou de forma suave, apoiando a própria xícara no pires com um estalo de porcelana para chamar a atenção dela de volta para o lado de cá da mesa.
— Mas, se a dama me permite... sobre mim — ele cortou, o tom ganhando uma nota mais densa.
Lucia piscou, despertando do transe e focando os olhos escuros no homem à sua frente, a postura voltando imediatamente para a investigação inicial.
— A degradação celular não é uma falha gentil, Lucia — Genesis começou, o rosto perdendo qualquer traço de ironia poética para dar lugar a uma sinceridade crua. — É um apodrecimento lento e humilhante de dentro para fora. Quando o meu corpo começou a ceder, eu entrei em desespero. Busquei a ajuda de Hollander, um ato estúpido e inútil. O processo que ele tentou usar gerou clones, mas eles não passavam de cópias vazias. A biologia deles era tão falha quanto a minha, e todos simplesmente definharam e morreram pelo caminho, sem significado algum.
Ele olhou para a própria mão enluvada, movendo os dedos devagar, como se a memória da pele rachada e adoecida ainda morasse ali.
— Sem opções, eu me tranquei no reator de Nibelheim, observando a minha própria carne apodrecer e esperando o fim. Mas, naquela época, a minha mente estava tão adoecida quanto o meu corpo. Eu estava completamente consumido pelo pavor da degradação e pela inveja que sentia do nosso General.
Genesis ergueu os olhos azuis para Lucia. Não havia mais a arrogância de um Primeira Classe ali; apenas o peso das próprias falhas.
— Na minha loucura, eu decidi que o Sephiroth não podia continuar no pedestal da perfeição que a corporação criou. Eu queria que ele soubesse que também era um monstro, um experimento de laboratório, exatamente como eu.
O poeta fechou os olhos por um breve momento. A dor que marcou suas feições era tangível.
— Eu esfreguei a verdade no rosto dele da pior maneira possível, no lugar mais sombrio do mundo. Fui movido pelo puro desespero de alguém que não suportava a ideia de ruir sozinho. — Genesis soltou um suspiro pesado, a vergonha esmagadora de tudo o que fez ecoando em cada sílaba. — É um arrependimento com o qual eu durmo todas as noites. Eu queria destruir a fachada intocável dele... e, por muito pouco, eu quase destruí a mente do garoto que você conheceu.
O silêncio pesou na mesa por alguns segundos. Genesis notou a sombra de apreensão que cruzou o olhar de Lucia, mas ele prontamente balançou a cabeça, oferecendo um sorriso suave e reconfortante.
— Mas não precisa se preocupar com isso — ele assegurou, a voz mansa, dissipando o fantasma daquela tragédia. — Inome estava lá com ele no reator. E nos dias sombrios que se seguiram, foi ela quem o ancorou na realidade. Ela o puxou de volta da beira do abismo e o salvou.
Lucia soltou o ar devagar, os ombros relaxando um pouco mais ao ter a confirmação definitiva de que o antigo companheiro de esquadrão estava são e seguro.
— Mas... sobre mim — Genesis retomou, girando levemente a xícara de chá no pires para trazer o foco de volta ao que realmente a levara até Kalm. — A degradação celular cobrou um preço muito mais alto do que apenas o apodrecimento da carne.
Ele olhou para a própria mão, os olhos azuis escurecendo com a memória da dor.
— Eu senti a minha mente senciente deixar o meu corpo, Lucia. Várias vezes. As falhas no meu código genético não destruíam apenas a estrutura física, elas apagavam a minha consciência. Conforme as mutações avançavam, eu fui sendo tomado por uma raiva brutal, monstruosa, e por um instinto puramente selvagem.
Genesis ergueu o olhar para ela, a franqueza crua marcando suas feições.
— Esse era um dos lados mais obscuros e negativos do Projeto G. Uma consequência catastrófica que podia acontecer quando o hospedeiro enfraquecia, e aconteceu comigo. A biologia intrusa tomou o controle. No fim, eu já não era um soldado, nem um poeta. Eu era apenas uma casca corrompida e sem mente, uma besta cega e irracional movida pelo desejo de dilacerar tudo ao meu redor.
Lucia o escutava sem interromper. A xícara de café permanecia esquecida sobre a mesa enquanto a mente dela trabalhava. A matemática que antes lhe faltava finalmente começava a se alinhar. O sequestro do sistema nervoso central por um agente genético instável fazia todo o sentido biológico. A mutação não era apenas um definhamento celular, mas uma reescrita genética agressiva que obliterava o hospedeiro.
Genesis apoiou os antebraços sobre a mesa, os dedos entrelaçados, enquanto deixava a lembrança daquele dia assentar.
— Enquanto a minha monstruosidade aguardava na escuridão, cega e raivosa, esperando travar uma batalha brutal contra Sephiroth... o destino achou por bem me dar um desfecho diferente — ele comentou, o tom de voz calmo, mas afiado o suficiente para testar as águas. Ele inclinou a cabeça, os olhos azuis cravados no rosto dela. — Naquele dia, eu fui morto por Zack Fair e Cloud Strife.
Lucia não moveu um músculo, mas seus olhos estreitaram-se imperceptivelmente. Ela registrou os nomes completos de imediato. A mente dela conectou as peças no tabuleiro corporativo que havia ficado para trás, mas a atiradora manteve a expressão neutra, recusando-se a morder a isca e entregar qualquer reação que alimentasse a curiosidade dele.
Satisfeito com a firmeza da mulher à sua frente, Genesis abriu um sorriso pequeno, quase solene.
— E não acaba por aí, minha dama — ele sussurrou, a voz caindo para um tom quase reverente. — Eu presenciei o Lifestream.
Ele olhou para a própria xícara, como se o abismo esmeralda ainda pudesse ser visto no reflexo do chá.
— É um oceano absoluto. Uma correnteza quente, formada por vozes incontáveis e memórias antigas. Eu senti a dor da degradação desaparecer, porque o meu próprio ser começou a se dissolver naquela imensidão. Era o fim natural, a devolução da minha essência para o planeta. Eu estava pronto para desaparecer.
Genesis ergueu o olhar, e Lucia percebeu que não havia qualquer traço de teatro naquelas palavras. Era o relato nu e cru de alguém que havia tocado a morte.
— Mas antes que eu me apagasse por completo, eu senti uma mão — ele continuou, a voz embargada por um fascínio que os anos não conseguiram apagar. — Uma presença guiada por uma força muito maior, imensa e incrivelmente afetuosa. Ela me segurou contra a correnteza e me puxou de volta para a superfície. E não foi apenas uma restauração celular, Lucia. Aquela luz atravessou a podridão do meu código genético e purificou até a minha alma.
Ele recostou-se na cadeira de madeira, o ombro relaxando sob o peso daquela lembrança.
— Quando eu finalmente abri os olhos, o pesadelo tinha acabado — Genesis murmurou, balançando a cabeça devagar. — Eu acordei largado em um canto do reator, nas sombras. O meu corpo estava voltando ao normal, curado. Mas não havia glória nenhuma naquela ressurreição. Eu fiquei ali, no chão sujo, paralisado por uma vergonha esmagadora e absoluta por tudo o que eu havia causado a mim mesmo e aos outros.
A xícara de café de Lucia já começava a esfriar sobre a mesa. A investigadora implacável, que enxergava o mundo apenas em probabilidades e anomalias biológicas, cedeu espaço a uma curiosidade genuína e silenciosa.
Ela cruzou as mãos sobre a mesa, o olhar focado no homem que antes considerava apenas uma falha científica.
— E depois? — Lucia perguntou, a voz perdendo a aspereza, soando quase hesitante e sincera. — Se me permite a pergunta... o que você fez quando se viu curado e sozinho naquele lugar?
Genesis deu um sorriso triste, girando a xícara de chá entre os dedos.
— O preço da cura foi o meu poder, Lucia — ele revelou, a voz mansa e sem qualquer traço de ressentimento. — A energia Mako, os reflexos aprimorados, as habilidades do Projeto G... tudo simplesmente desapareceu. A anomalia foi apagada de mim. Eu deixei de ser a arma letal que a corporação criou. Sobrou apenas um homem comum. Apenas um poeta.
Ele olhou para a rua através do vidro embaçado da cafeteria, acompanhando o movimento tranquilo de Kalm antes de voltar a encará-la.
— E eu fiz o que qualquer pessoa faria se acordasse completamente afogada em medo e vergonha. Eu sumi. Fugindo de mim mesmo e do julgamento dos outros, passei anos recluso nas sombras, escondido do mundo.
Genesis soltou um suspiro profundo, o peso daqueles anos de isolamento ecoando em sua postura.
— Fiquei paralisado por uma vergonha esmagadora de todas as atrocidades que eu havia cometido e das pessoas que eu tinha machucado. Eu precisava de tempo para me reencontrar, para entender quem eu era sem a armadura e sem a degradação. Mas, acima de tudo, eu estava apavorado. Tinha um medo paralisante de que alguém me encontrasse e me matasse antes que eu pudesse consertar as coisas. Medo de desperdiçar a segunda chance absurda e milagrosa que o Planeta havia me dado.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo zumbido distante das conversas no café e pelo tilintar de talheres. Lucia encarou a própria xícara. A barreira de pragmatismo implacável que a protegia há anos pareceu trincar diante daquela vulnerabilidade tão humana. Ela sabia lidar com relatórios, anomalias e rotas de fuga, mas não tinha o menor traquejo para lidar com a dor genuína de alguém que havia sobrevivido ao próprio inferno.
Desconcertada com a empatia que subitamente apertou seu peito, ela pegou a xícara e deu um gole longo no café que já começava a esfriar, usando o gesto para esconder o desconforto e ganhar alguns segundos.
— Eu... não costumo errar nas minhas projeções — Lucia murmurou, a voz perdendo por completo a rispidez militar, soando desajeitada e até um pouco envergonhada. Ela desviou o olhar para a mesa, incapaz de sustentar os olhos dele. — Eu calculei que encontraria uma bomba-relógio escondida nas ruínas. Não alguém tentando recomeçar. Sinto muito pela abordagem brusca no beco.
Foi um pedido de desculpas raro, seco, mas carregado de uma sinceridade absoluta que combinava com a atiradora. Ela engoliu em seco e voltou a encará-lo, a expressão agora marcada por uma preocupação quase fraternal que ela não conseguiu mascarar.
— Mas como você se mantém agora? — ela perguntou, inclinando-se ligeiramente para a frente. — Sem a força física do Mako, sem uma farda... Você está realmente seguro andando por Kalm desse jeito? As pessoas não reconhecem o seu rosto nas ruas? O que acontece se algum remanescente da guerra decidir cobrar as contas do passado?
Genesis observou a mudança sutil e instantânea na mulher à sua frente. A investigadora fria e desconfiada havia dado lugar a uma velha colega de corporação genuinamente preocupada com a sua integridade. O poeta deixou que um sorriso manso e caloroso curvasse seus lábios. Ele levou a própria xícara ao rosto, bebericando o chá com uma calma invejável antes de responder.
— Eu encontrei o meu espaço, Lucia. Quando eu finalmente tomei a coragem de bater na porta do Sephiroth e pedir perdão, eu fui acolhido. Eles me deram um lugar na família deles. E acredite, não há esconderijo ou exército no mundo mais seguro do que estar sob a proteção daquelas pessoas.
Ele pousou a xícara no pires de porcelana com um estalo suave. O olhar azul encontrou os olhos escuros dela, carregando uma sabedoria mansa que apenas a proximidade com a morte poderia forjar.
— Você passou todos esses anos rastreando os escombros da corporação, procurando respostas para equações que ficaram pelo caminho — Genesis comentou, a voz aveludada soando não como uma repreensão, mas como o conselho acolhedor de um velho amigo. — Mas a guerra acabou. Os monstros que nos criaram caíram. Talvez seja o momento de você parar de caçar assombrações pelas sombras, minha cara.
Ele apontou sutilmente para a janela do café, onde o sol já começava a se pôr, iluminando as ruas pacíficas da nova era.
— É preciso ter a coragem de enterrar de uma vez por todas o que já deixou de existir. Só assim o seu amanhã terá espaço para começar.
A vulnerabilidade tomou conta das feições de Lucia. A investigadora impassível, que momentos antes exigia respostas científicas em um beco, cedeu lugar à mulher que havia passado os últimos anos engolindo a própria solidão em nome da sobrevivência.
Ela olhou para o fundo escuro da xícara de café, a postura rígida finalmente desmoronando, e apoiou as duas mãos abertas sobre a mesa de madeira. Os dedos dela se curvaram de leve, como se tentassem segurar algo que há muito tempo havia escorrido por entre eles.
— Quando o Glenn sumiu... — Lucia começou, a voz saindo um pouco trêmula, despida de qualquer cálculo ou tática. — Quando o perdemos de vista e o Matt foi forçado a seguir por um caminho diferente para não ser engolido pelo sistema, eu me vi completamente desamparada. Nós éramos uma unidade. Uma família, do nosso próprio jeito torto.
A atiradora respirou fundo, os olhos escuros brilhando com uma frustração antiga e mal curada.
— E eu me lembro de que foi a mesma coisa com o garoto — ela continuou, o olhar distante, revivendo as peças se movendo no tabuleiro corporativo. — Lembro exatamente de quando eles afastaram o Sephiroth da gente. Eles o isolaram de propósito para dar continuidade aos projetos de elite, colocando-o no mesmo esquadrão que você e o Angeal. Eu me senti de mãos atadas. Fiquei ali, assistindo aos meus amigos serem arrancados de mim, um por um, sem poder disparar um único tiro para impedir.
Genesis ouviu o desabafo em um silêncio absoluto e reverente. A dor de Lucia não era sobre anomalias biológicas ou falhas genéticas; era o luto silencioso de quem havia sobrevivido à ruptura de todos os seus laços e passou anos acreditando que precisava carregar esse peso sozinha.
Com uma delicadeza que Lucia jamais imaginaria vir dele, Genesis moveu as mãos sobre a mesa. Ele cobriu as mãos tensas e frias da atiradora com as suas, o toque sendo firme e reconfortante, transmitindo uma empatia profunda que não precisava de ensaios ou teatralidade.
Lucia paralisou por um segundo diante do contato, mas não recuou.
— Eles nos roubaram quase tudo, Lucia — Genesis murmurou, a voz aveludada carregando o peso de quem também havia sido quebrado e reconstruído. — Eles desenharam os nossos destinos, nos separaram de quem amávamos e tentaram nos convencer de que éramos apenas ferramentas em um laboratório. Mas as correntes deles não existem mais. O império ruiu.
Ele apertou as mãos dela de forma suave, o olhar azul transbordando uma sabedoria mansa.
— Você não falhou com eles. Você sobreviveu à tempestade — ele aconselhou, o tom grave e caloroso. — Mas não permita que a ausência do Glenn ou do Matt continue ditando o ritmo dos seus dias. Está na hora de soltar as âncoras desse passado doloroso. Permita-se baixar a guarda, minha cara... e encontre um novo lugar ao qual pertencer, onde não precisará mais carregar o mundo inteiro sozinha.
Lucia ergueu o rosto, os olhos escuros encontrando o azul sereno de Genesis. O calor do toque e o peso daquelas palavras desfizeram o último nó que apertava a garganta da atiradora. Ela assentiu devagar, absorvendo o conselho com um respeito silencioso.
— Obrigada — Lucia murmurou, a voz soando finalmente leve, despida das amarras de quem passou anos apenas sobrevivendo. — Obrigada pela honestidade, Genesis. De verdade.
Ela soltou um suspiro curto, reunindo a coragem que lhe restava, e fez a pergunta que martelava em sua cabeça desde que sentaram àquela mesa.
— Eu... posso vê-lo de novo? O Sephiroth. Você pode me dizer onde ele mora?
Genesis sorriu de forma compreensiva, mas recolheu as mãos devagar, apoiando-as de volta sobre a mesa. A postura dele manteve a gentileza, mas ganhou um traço inegociável de lealdade.
— Você precisa entender que a paz que ele encontrou custou muito caro — Genesis explicou com delicadeza, o tom grave carregando um instinto protetor imediato. — Eu não tenho o direito de revelar a localização exata do refúgio da família dele. É uma privacidade que eu jurei respeitar e defender.
Lucia abaixou a cabeça de leve, compreendendo perfeitamente a barreira. Na verdade, ela até admirava aquela lealdade. Ela não podia culpá-lo por blindar a nova vida do amigo.
Mas, antes que qualquer desânimo tomasse conta, Genesis inclinou a cabeça e abriu um sorriso convidativo.
— No entanto... — o poeta continuou, o tom voltando a ficar descontraído e amigável. — Eu posso ser um excelente intermediário. Posso organizar um novo café e convidar o Sephiroth para vir até aqui. Assim, eu aviso a ele sobre o seu retorno e vocês dois terão um ambiente neutro e tranquilo para conversarem e colocarem o passado no devido lugar. O que me diz?
Lucia soltou a respiração, um peso genuíno deixando seus ombros de uma só vez. A perspectiva de rever o garoto que ela havia protegido, agora um homem com uma família, trouxe um brilho de esperança que ela não sentia há anos.
— Seria perfeito — Lucia concordou, acenando devagar com a cabeça. — Obrigada, Genesis. De verdade.
Ela ergueu a mão, chamando a atenção do garçom que passava pelo corredor. Sem abrir espaço para os protestos ou para o cavalheirismo do poeta, Lucia tirou os Gils do bolso da jaqueta e pagou a conta inteira da mesa. No entanto, após o atendente se afastar com o pagamento, ela não fez menção de se levantar ou de encerrar a conversa.
Apoiando os cotovelos sobre a mesa, ela o analisou com uma curiosidade nova, muito mais mundana e leve do que a investigação biológica de antes.
— Mas me tire uma última dúvida — ela pediu, estreitando os olhos de forma amigável. — Como você se mantém? Digo... financeiramente. Se você perdeu as habilidades do Projeto G, abandonou a farda e não trabalha mais com o Angeal... como paga as contas?
Genesis soltou uma risada polida, claramente divertido com a mente prática e irrequieta dela, que precisava que todas as engrenagens lógicas estivessem em seus devidos lugares.
— Eu faço avaliações de livros — ele revelou, apontando com um aceno elegante para a sacola de papel na cadeira ao lado. — A biblioteca me fornece acesso às obras, e eu escrevo críticas literárias e análises de clássicos para um jornal local aqui de Kalm. É um trabalho pacato, admito, mas paga o meu aluguel e me mantém cercado pelas palavras que eu tanto amo, longe de qualquer campo de batalha.
Ele recostou-se na cadeira de madeira, cruzando as pernas, e inclinou a cabeça de leve. O olhar azul faiscou com uma curiosidade devolvida na mesma moeda.
— Mas a que se deve essa pergunta? — Genesis indagou, o sorriso de canto voltando a desenhar seus lábios. — O que a pragmática Lucia Lin faz para ganhar a vida no nosso novo mundo, já que também não veste mais fardas?
Lucia deu de ombros, a postura relaxando de vez na cadeira de madeira. A desconfiança deu lugar a uma franqueza absoluta.
— Vendendo informações confidenciais que eu consigo rastrear — ela respondeu com naturalidade. — Não é exatamente o trabalho mais justo ou nobre do mundo, eu sei. Mas ainda tem muita gente disposta a pagar alto pelos velhos podres da Shinra, nem que seja para jogar um documento confidencial na mesa da Neo-Gaia como forma de protestar por direitos e exigir reparações.
Genesis soltou uma risada baixa e anasalada, o som vibrando de forma genuína. A sinceridade despudorada dela, combinada com aquela moralidade cinzenta que a antiga corporação havia enraizado em todos eles, era no mínimo refrescante. Ele encostou as costas na cadeira, o olhar azul transbordando diversão.
— Uma mercenária da informação, vejo — ele comentou, balançando a cabeça de leve. — E, a julgar pelo súbito interesse em como eu pago o meu aluguel, ouso perguntar: a senhorita está pretendendo mudar de emprego?
O pequeno sorriso que surgiu nos lábios de Lucia não tinha humor, apenas uma exaustão silenciosa. Ela traçou a borda da xícara de café com a ponta do dedo, o olhar se perdendo por um momento nas ruas tranquilas do lado de fora da vidraça.
— Talvez — ela admitiu, a voz baixando um tom, soando vulnerável. — Sendo honesta, estou um pouco cansada de ser uma nômade. Ficar pulando de cidade em cidade, apagando meus rastros pela minha própria paz e caçando fantasmas apenas para pagar as contas... chega uma hora em que essa rotina esmaga a gente. Acho que, no fundo, eu só estou cansada de não ter um lugar para ficar.
Genesis acompanhou a confissão com um olhar atento. Havia uma exaustão muito real nos ombros daquela mulher, o peso acumulado de quem passou os últimos anos dormindo com um olho aberto e a arma carregada debaixo do travesseiro.
Ele apoiou o rosto em uma das mãos, o antigo brilho travesso e teatral ressurgindo no fundo dos olhos azuis de forma quase instintiva.
— Sabe, se o problema for hospedagem... o meu pequeno apartamento tem duas camas no quarto — Genesis soltou, a voz polida e macia carregando uma naturalidade absolutamente desarmante.
O raciocínio de Lucia sofreu uma falha crítica no mesmo instante. Ela congelou. Os olhos escuros arregalaram-se ligeiramente enquanto ela tentava processar a frase. Toda a bagagem investigativa e o foco que a mantinham alerta simplesmente evaporaram, deixando-a com a mente em branco.
Ela abriu a boca para rebater, fechou, e abriu de novo.
— O... quê? — ela conseguiu balbuciar, a voz morrendo na garganta. O rosto dela esquentou, completamente desconcertada e sem palavras diante da ousadia repentina.
Vendo a pane escancarada nas feições dela, Genesis não resistiu. Ele soltou uma risada aberta e calorosa, achando uma graça infinita na facilidade com que conseguia desarmar a postura sempre tão rígida daquela mulher.
— Acalme-se. É uma brincadeira — ele tranquilizou, erguendo a mão livre em um pequeno gesto de rendição para que ela voltasse a respirar.
Mas logo o sorriso dele perdeu a ponta de provocação, suavizando até se tornar uma expressão de pura hospitalidade.
— Foi apenas para arrancar você dessa melancolia — Genesis explicou, o tom de voz agora manso e acolhedor. — No entanto, a oferta de um teto é genuína. Se você precisa de um lugar seguro para soltar o peso dos ombros, largar as malas e dormir em paz por algumas noites sem precisar olhar por cima do ombro, as minhas portas estão abertas. Você é muito bem-vinda lá, Lucia. Se precisar de um porto seguro enquanto decide o que fazer com o seu amanhã, não hesite em aceitar.
A mente analítica de Lucia imediatamente entrou em conflito com a oferta. Por mais que estivesse exausta, o seu instinto de sobrevivência apitava diante da ausência de lógica daquela hospitalidade. Ela franziu a testa, cruzando os braços e recuando um pouco na cadeira.
— Você tem noção do quão absurda é essa oferta? — ela disparou, a voz ganhando velocidade enquanto o raciocínio tático tentava encontrar sentido naquilo. — Eu sou praticamente uma estranha. Há menos de uma hora, eu te encurralei em um beco escuro. Eu te puxei pelo casaco, derrubei a sua bebida, te acusei de ser uma ameaça biológica e exigi o seu histórico médico como se eu ainda estivesse em um interrogatório militar. Pela lógica básica, eu poderia ser uma assassina da corporação ou um remanescente instável. O certo seria você ter chamado a guarda de Kalm para me escoltar para fora da cidade, Genesis, não me oferecer as chaves da sua casa!
Genesis deixou que ela despejasse o monólogo indignado até ficar sem fôlego. Ele não se abalou com a enxurrada de argumentos defensivos. Pelo contrário, acompanhou a fala afiada dela com um sorriso brando, achando fascinante a forma como ela tentava racionalizar até mesmo um simples ato de bondade.
Quando Lucia finalmente parou de falar, Genesis ergueu a mão enluvada em um gesto brando, pedindo passagem.
— Acalme-se, Lucia. Respire — ele pediu, a voz aveludada e tranquila dissipando a urgência dos argumentos dela. — Eu admito que o nosso primeiro encontro não foi dos mais poéticos, e que a sua abordagem careceu de certo charme. Mas eu já passei por provações sombrias o suficiente para saber reconhecer quando alguém está apenas assustado, e não mal-intencionado.
Ele inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os braços sobre a mesa, e o olhar azul encontrou o dela com uma sinceridade inabalável.
— É verdade que eu não a conheço profundamente — Genesis continuou, o tom ganhando uma reverência respeitosa. — Mas eu conheço o Sephiroth. Eu convivi com a mente afiada daquele homem e sei o quão raro era para ele abaixar as armas e deixar alguém se aproximar. O carinho e o respeito que ele nutria por você e pelos rapazes não eram baseados em patentes, mas em quem vocês realmente eram.
Ele abriu as mãos em um gesto acolhedor e definitivo.
— O Sephiroth tinha um instinto infalível para saber em quem confiar no meio daquele ninho de cobras corporativo. Se ele acreditava que vocês eram o porto seguro dele... então eu confio plenamente na intuição do meu amigo. Você não é uma ameaça, Lucia Lin. É apenas alguém que precisa descansar.
Lucia ouviu tudo em silêncio. As palavras de Genesis desarmaram as últimas barricadas que ela ainda tentava erguer. Sem ter como argumentar contra a confiança que Sephiroth depositava nela — e sentindo o próprio corpo pesar sob uma fadiga de anos —, a investigadora pegou o garfo de sobremesa e finalmente levou um pedaço do bolo de maçã à boca. O sabor era quente, doce e reconfortante, um lembrete vivo de que havia um mundo além da sobrevivência pura e crua.
Ela mastigou devagar, engoliu e então soltou um suspiro longo. Os ombros dela cederam sob o tecido da jaqueta, marcando a rendição absoluta.
— Você venceu — Lucia admitiu, a voz carregada de uma honestidade cansada. — Eu realmente preciso dormir em paz por uns dias. E, pensando bem... Kalm ainda não tem nenhum registro de entrada ou de estadia no meu nome. É um ponto cego perfeitamente seguro para sumir do mapa por enquanto.
Genesis abriu um sorriso satisfeito. Ele levou a xícara aos lábios, terminando o último gole de seu chá com uma tranquilidade apreciativa. Após pousar a porcelana vazia no pires com um leve estalo, ele ajeitou a postura, cruzando as mãos sobre o colo com uma expressão prestimosa.
— Uma excelente decisão. Fico feliz que tenha aceitado — ele celebrou de forma mansa. — Mas, já que dividiremos o teto por alguns dias, eu preciso fazer a pergunta mais crucial de toda a sua estadia. Que tipo de travesseiro você prefere?
Lucia piscou, a testa franzindo levemente diante daquela preocupação doméstica tão repentina e específica.
— Eu pergunto porque disponho de duas opções lá no apartamento — Genesis explicou, erguendo dois dedos enluvados com sua graciosidade habitual. — Um deles é mais firme, feito de espuma densa, excelente para alinhar a coluna. O outro é absurdamente macio, recheado com plumas de ganso, que passa a sensação de que a sua cabeça está afundando em uma nuvem. Você só precisa escolher o seu favorito, e eu troco os travesseiros de cama antes de dormirmos. A prioridade do conforto hoje é inteiramente sua.
A cor subiu furtivamente pelo pescoço de Lucia, traindo a sua postura inabalável mais uma vez. Para alguém que passou os últimos anos dormindo em sacos de dormir sobre chãos de pedra, raízes de árvores e bancos de trens abandonados, ser confrontada com um menu de travesseiros era um choque cultural gigantesco.
Ela pigarreou, subitamente muito interessada nas migalhas sobre o prato, completamente desarmada pela hospitalidade trivial.
— O que já estiver na cama está ótimo, Genesis — ela resmungou, a voz soando um pouco mais áspera na tentativa falha de disfarçar a vergonha. — Eu durmo encostada em mochilas cheias de equipamento. Qualquer coisa que não tenha metal e fivelas já é um luxo. Não precisa trocar nada.
O poeta abriu um sorriso radiante, inabalável diante da resistência rústica dela. Ele apoiou o queixo nas mãos, os olhos azuis brilhando com uma teimosia polida.
— Absolutamente não. Seria um desrespeito terrível, uma ofensa às regras básicas da hospitalidade, não oferecer o melhor conforto possível a uma visita — Genesis retrucou, o tom aveludado carregando aquele antigo drama aristocrático, mas agora completamente inofensivo e amigável. — Se você não escolher, eu serei obrigado a colocar os dois na sua cama para garantir que a sua coluna seja devidamente honrada após tantos anos de negligência.
Lucia soltou um som que soou meio como um resmungo indignado e meio como um suspiro derrotado. Sem ter como vencer a teimosia elegante do anfitrião, ela simplesmente enfiou o garfo no bolo de maçã e levou um pedaço exageradamente grande à boca.
Ela deu de ombros de forma desajeitada enquanto mastigava, mantendo o olhar fixo na rua lá fora pelo vidro embaçado. O silêncio forçado pelo bolo foi a melhor tática evasiva que encontrou para desviar a atenção de si mesma e escapar daquele interrogatório doméstico. Genesis apenas riu baixo, o som vibrando de forma calorosa, satisfeito com a pequena vitória enquanto esperava que ela terminasse a sobremesa.
Com a chegada da noite e ambos já recolhidos no pequeno apartamento, uma quietude que Lucia não experimentava há anos tomou conta do ambiente. Despojada de qualquer fivela tática, tecido balístico ou coldre oculto, ela vestia roupas de algodão macias e estava confortavelmente encolhida no canto do sofá da sala. Nas mãos, segurava uma tigela de um caldo quente e bem temperado que Genesis havia preparado em poucos minutos, o vapor aquecendo seu rosto enquanto ela comia em um silêncio restaurador.
A poucos passos dali, o poeta estava de pé junto à janela do apartamento, com as mãos cruzadas nas costas e a postura perfeitamente reta. Ele observava a noite limpa de Kalm, o olhar sereno perdido na vastidão das estrelas que pontilhavam o céu escuro, muito além dos telhados e das chaminés da cidade.
Lucia raspou a colher no fundo da tigela, o som cerâmico soando baixo. Ela olhou para a silhueta dele contra a luz da lua, a mente ainda tentando alinhar o peso daquele longo dia.
— Ainda me impressiona — ela quebrou o silêncio, a voz suave, desprovida de qualquer barreira defensiva. — A Shinra investiu bilhões. Eles alteraram a biologia humana, apagaram históricos, desenharam propósitos em relatórios carimbados e acharam que tinham o controle absoluto sobre cada suspiro nosso. E, mesmo assim... falharam. Não controlaram você, não controlaram o Sephiroth. Nem a mim. Eles não tiveram o controle de nada no fim das contas.
Genesis não desviou o olhar do céu noturno de imediato. A luz prateada banhava seu rosto, delineando um sorriso manso
— Eles cometeram o erro mais antigo e previsível da humanidade, Lucia — Genesis respondeu, a voz aveludada preenchendo a pequena sala com uma gravidade poética e absoluta. — Eles acreditaram que poderiam forjar correntes de aço para prender o vento e engarrafar o oceano em tubos de ensaio. Acharam que podiam escrever o destino do Planeta e de seus filhos usando apenas megalomania.
Ele finalmente virou o rosto na direção dela, os olhos azuis refletindo uma paz profunda e inabalável.
— Mas a vida é uma peça que não aceita diretores arrogantes. O concreto que a corporação despejou sobre todos nós era espesso e cruel, não vou negar. Mas a alma, minha cara... a alma opera sob leis que a ciência deles nunca foi capaz de quantificar. Ela sempre encontra uma minúscula fenda nas ruínas para romper a superfície, buscar a luz e voltar a florescer. O controle deles sempre foi uma ilusão, porque ninguém possui poder o suficiente para domar quem decide, de forma genuína, que apenas quer viver.
As palavras de Genesis ressoaram na mente de Lucia, preenchendo as rachaduras que anos de sobrevivência haviam deixado. Ela olhou para o fundo da tigela, processando a simplicidade brutal e libertadora daquela verdade.
— É... — ela murmurou, a voz desarmada, concordando com um aceno lento de cabeça. — No fim das contas, eu acho que só quero viver. Viver de verdade.
Ela se levantou do sofá, sentindo os músculos protestarem sob o peso do cansaço acumulado. O apartamento era pequeno, projetado de forma prática, com a sala dividindo o mesmo espaço contínuo com uma cozinha modesta. Com passos arrastados, Lucia atravessou o cômodo e depositou a tigela de cerâmica na pia.
A atiradora virou-se na direção da janela, apoiando o peso do corpo no balcão da cozinha.
— Boa noite, Genesis — ela desejou, soltando um suspiro pesado acompanhado de um sorriso pequeno e exausto. — Eu realmente preciso dormir. Se eu ficar de pé por mais cinco minutos, acho que desmaio no meio da sala.
O poeta afastou-se da janela e virou-se para ela. A luz suave da luminária destacou o sorriso polido em seu rosto e aquele antigo brilho teatral que nunca o abandonava por completo. Havia uma galanteza natural na forma como ele se movia, mas agora, temperada por uma empatia genuína e acolhedora.
Ele levou uma das mãos ao peito e fez uma mesura leve, o gesto digno de um lorde cortejando uma visita ilustre.
— Que as estrelas guiem o seu descanso, minha dama — Genesis respondeu, a voz aveludada carregando aquele inconfundível charme provocador, mas com uma suavidade cuidadosa. — O mundo vai continuar girando lá fora, mas eu prometo manter seu sono seguro. Durma bem.


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