Tseng encerrou a transmissão com um clique seco. Ele abaixou o PHS lentamente, a expressão esculpida em uma máscara de frieza inabalável que contrastava violentamente com a cacofonia de alarmes que ecoava pelo Centro de Comando do Edifício Shinra. O ambiente, antes o cérebro intocável da corporação, agora estava banhado pelo piscar frenético das luzes vermelhas de emergência.
Ele virou-se para Elena. A Turk mais jovem estava debruçada sobre o painel principal de operações, as mãos tensas pairando sobre os controles. Seus olhos estavam arregalados, refletindo o caos das dezenas de monitores de segurança que mostravam as ruas e os andares inferiores sendo lentamente engolidos por uma neblina esverdeada.
— Elena, inicie o Protocolo de Quarentena Absoluta — a voz de Tseng soou grave, cortando o pânico incipiente na sala com a precisão de uma lâmina. — Sele as comportas de contenção em todos os níveis. Isole a rede de ventilação que sobe dos esgotos e bloqueie os acessos do andar 50 para cima. Vamos trancar essa contaminação do lado de fora.
— Entendido, chefe. Isolamento total em andamento. — Elena respondeu, engolindo a seco para afastar o nervosismo.
Ela cravou as mãos no painel, ativando as chaves de segurança da liderança. O comando foi acionado. Por um milésimo de segundo, o logotipo azul da Shinra brilhou majestoso nas telas gigantes da sala, indicando que a estrutura havia acatado a ordem. O estrondo pesado de aço contra aço reverberou pelas fundações da torre quando as colossais portas blindadas começaram a descer simultaneamente em todos os andares.
Mas o som de segurança mecânica rapidamente se transformou em algo grotesco.
Um ruído úmido e borbulhante começou a chiar nos alto-falantes da sala de comando, como se as próprias entranhas de metal do prédio estivessem engasgando. O logotipo nas telas piscou freneticamente, distorcendo-se em uma estática nauseante. Visualmente, a imagem nas telas começou a derreter, assumindo uma tonalidade doentia que misturava o verde tóxico e o púrpura pulsante, como se um sangue alienígena estivesse escorrendo por dentro do vidro dos monitores.
— Chefe... o painel principal! — Elena exclamou, a voz falhando enquanto ela batia nos comandos que agora pareciam não ter qualquer efeito. — Eu perdi o controle! As comportas desceram, mas as travas de segurança estão... estão se fundindo umas nas outras! O sistema não obedece!
Tseng deu um passo rápido para perto das telas, apoiando as mãos na borda fria da mesa de controle. Seus olhos escuros se estreitaram ao observar as imagens transmitidas pelas câmeras internas do edifício.
Nos andares executivos, refeitórios e laboratórios menores, os funcionários da Shinra corriam em puro pânico em direção às rotas de evacuação, apenas para colidirem contra as pesadas portas de aço que haviam se trancado definitivamente. Homens e mulheres esmurravam o metal, mas não havia como abri-las. Contudo, o verdadeiro horror não era o confinamento em si; era o que começou a vazar do teto.
Em vez de selar a ventilação e bloquear a ameaça externa como ordenado, o sistema corrompido havia revertido os enormes exaustores. As largas grades metálicas nos tetos dos escritórios começaram a vomitar a neblina espessa, ácida e purpurada de Mako diretamente para dentro das áreas recém-isoladas.
O gás tóxico inundava os ambientes trancados com uma velocidade assustadora, encurralando centenas de engravatados e pesquisadores que batiam em desespero contra os vidros blindados das janelas, sufocando lentamente na mesma armadilha de aço que deveria tê-los protegido.
A substância que inundava os dutos não se comportava como um vapor químico comum. Ela rastejava. Infiltrava-se pelas fiações elétricas e conduítes de ar como uma rede de nervos parasitas, pulsando com uma vontade própria, sombria e irracional, que sobrepunha e neutralizava qualquer comando digital. A torre não havia acionado os bloqueios para manter o horror do lado de fora. O Edifício Shinra inteiro havia se voltado contra si mesmo, trancando as próprias saídas e convertendo cada andar hermético em uma colossal e silenciosa câmara de extermínio.
Tseng assistia aos monitores com uma imobilidade gélida. O silêncio na sala de comando era quebrado apenas pelo chiado dos painéis corrompidos enquanto, nas telas, as sombras engoliam os corredores e os corpos começavam a tombar no chão dos escritórios trancados.
O silêncio sepulcral da sala de comando foi rompido não pelos monitores mortos, mas por um baque úmido e brutal vindo diretamente das imensas janelas panorâmicas.
Tseng ergueu o olhar. Do lado de fora, o céu poluído de Midgar havia simplesmente desaparecido. Uma massa escura, espessa e contorcida de fumaça negra serpenteava pelos ares, convergindo para o topo da torre como se o edifício fosse um colossal ímã magnético.
Espectros disformes chocavam-se contra a proteção balística do prédio. As sombras rastejavam pela superfície lisa do vidro temperado, pressionando rostos alongados em expressões de pura agonia. Mandíbulas vazias escancaravam-se em gritos silenciosos do lado de fora, arranhando a blindagem em um frenesi irracional e desesperado que cobriu toda a visão panorâmica com uma escuridão rastejante.
Um estalo agudo ecoou, frio e definitivo. Finas teias de aranha brancas começaram a se espalhar pela janela projetada para resistir a artilharia pesada. A pressão sobrenatural daquele enxame estava esmagando a estrutura de fora para dentro.
Elena paralisou, o fôlego preso na garganta diante daquela visão profana. Tseng, no entanto, não recuou um milímetro. Com um movimento mecânico e fluido, ele sacou a arma de serviço de seu coldre, o rosto mantendo a mesma frieza escultural.
— Fogo livre, Elena — Tseng ordenou, a voz grave cortando o pânico da sala. — Derrube o que conseguir.
A ordem arrancou a Turk mais jovem do transe. Elena puxou sua pistola e, sem hesitar, descarregou o pente diretamente contra o ponto de ruptura do vidro. Os tiros romperam a blindagem já estilhaçada. O impacto das balas, somado ao peso esmagador da massa lá fora, fez a janela panorâmica explodir em uma chuva de cacos laminados que varreu o interior da sala de comando.
Mas a munição física era inútil. As sombras não sangravam; elas simplesmente fluíam através dos buracos e da moldura estilhaçada como uma tempestade de gafanhotos famintos. O enxame invadiu o ambiente, reconstituindo-se no ar e derrubando a temperatura da sala para um frio sepulcral que congelava a umidade do fôlego.
— Recue! — Tseng comandou, já girando nos calcanhares. Ele disparou três vezes contra a massa disforme mais próxima apenas para abrir uma brecha visual. — A sala está perdida. Temos que alcançar o Presidente e a diretoria imediatamente.
Eles abandonaram o centro de controle e invadiram os corredores dos andares superiores, apenas para dar de cara com o absoluto inferno corporativo.
O ar ali fora era denso e quase irrespirável. O cheiro de ozônio e carpete caro havia sido engolido pelo odor enjoativo, metálico e podre de Mako purpurado. O gás tóxico rastejava pelo chão como uma neblina rasteira e letal. Corpos de executivos de alto escalão, secretárias e pesquisadores forravam os corredores. Não havia cortes ou poças de sangue neles; a violência era silenciosa e interna. A pele dos mortos exibia uma rede de veias escuras e arroxeadas que subiam até o pescoço. Seus olhos estavam estourados e vidrados em um terror profundo, os rostos contorcidos na agonia de quem havia sufocado lentamente no próprio veneno enquanto as portas de segurança permaneciam trancadas.
Tseng e Elena avançavam aos saltos sobre os cadáveres, cobrindo a boca e o nariz com os antebraços para filtrar a fumaça ácida que já fazia os pulmões arderem como brasa.
Ao alcançarem o saguão central, Elena esmurrou o botão do elevador principal. O painel apenas piscou em um vermelho inerte e zombeteiro. O poço estava travado.
— Chefe! Os acessos centrais estão mortos! — ela gritou, tossindo e sentindo os olhos lacrimejarem sob a toxicidade do ambiente. O barulho das sombras deslizando pelo teto dos corredores atrás deles acelerou os batimentos de seu coração. Ela forçou a memória, buscando os mapas de segurança que havia decorado no treinamento. Uma epifania cortou o desespero. — O elevador de emergência executiva! Fica na ala de manutenção norte! É um poço analógico com motor independente, projetado para evacuação crítica. Leva direto para a antessala da sala de reuniões no andar setenta!
— Mostre o caminho. Rápido — Tseng determinou, recarregando a arma sem diminuir o passo, os olhos escuros fixos no corredor enevoado. O som sibilante das almas negras inundando o andar que haviam acabado de deixar para trás era o único incentivo necessário para correrem contra o tempo.
O trajeto até a ala de manutenção norte transformou-se em uma marcha sufocante pelas entranhas de um pesadelo. A neblina tóxica corroía a visibilidade a poucos metros, forçando Tseng e Elena a navegarem pelos corredores guiados quase exclusivamente pela memória tática e pelo instinto de sobrevivência. O cheiro adocicado de carne em decomposição misturava-se ao ozônio e ao Mako purpurado, embrulhando o estômago e fazendo a garganta arder a cada respiração superficial.
Ao cruzarem as pesadas portas duplas que separavam a área executiva da ala de engenharia, a temperatura despencou violentamente. O chão de metal quadriculado estava coberto por uma fina camada de gelo e lama esverdeada.
Foi então que a névoa à frente deles começou a se solidificar.
Das poças condensadas no piso e dos dutos de ar estourados no teto, formas pálidas começaram a emergir, arrastando-se de forma errática. Eram abominações menores, mas igualmente profanas. Possuíam rostos andróginos de uma beleza melancólica e simétrica, com olhos fundos e vazios que não refletiam a luz. Contudo, seus corpos eram paródias grotescas da forma humana: cinturas atrozmente finas que se ramificavam em múltiplos braços esqueléticos, terminando em garras de cartilagem afiada, enquanto suas pernas se arrastavam como raízes mortas, produzindo um som úmido e repulsivo contra o metal.
Elas não guincharam. O silêncio absoluto com que aquelas figuras pálidas avançaram tornava tudo infinitamente mais aterrorizante.
— Fogo focado. Não deixe que fechem o cerco! — Tseng ordenou, a voz gélida e pragmática, erguendo a pistola com ambas as mãos.
Ele não desperdiçou munição. Com uma precisão cirúrgica, Tseng disparou três vezes seguidas. As balas perfuraram o centro das testas de porcelana das duas criaturas mais próximas. Elas tombaram para trás, as cabeças estilhaçando-se em uma poeira prateada antes que a fumaça negra começasse a vazar de seus pescoços dilacerados.
Mas a horda era implacável. Do teto, uma das anomalias despencou diretamente sobre Elena. A Turk mais jovem mergulhou para o lado em uma cambalhota rápida, sacando a faca tática de seu cinto enquanto ainda se erguia. A criatura cravou as garras de cartilagem onde Elena estava um milésimo de segundo antes, rasgando o aço do piso. Sem hesitar, Elena descarregou sua arma à queima-roupa no peito translúcido da besta, chutando-a para trás com a sola da bota antes de degolar outra que tentava flanqueá-la, o sangue frio e escuro espirrando em seu uniforme.
— Chefe, elas não param de subir! — Elena gritou, ofegante.
O horror real, contudo, não vinha apenas das criaturas abatidas. Das carcaças despedaçadas que forravam o corredor, a mesma fumaça oleosa e gritante começava a escapar. Os espectros disformes se libertavam, subindo em espirais agressivas e aglomerando-se no teto do corredor. O enxame de almas negras engrossava, unindo-se às que entravam pelas rachaduras das janelas, formando uma massa caótica que bloqueava a luz e uivava em uma cacofonia de agonia pura. As almas se fundiam, criando um vórtice de energia escura que ameaçava engolir o ar e a própria gravidade do local.
— Corra para as portas! Eu dou cobertura! — Tseng comandou, trocando o pente da arma em uma fração de segundo.
A disciplina dos Turks falou mais alto que o terror. Elena disparou em um sprint desesperado pelos últimos vinte metros, os pulmões queimando enquanto desviava das garras pálidas que tentavam puxar seus calcanhares. Tseng recuava com passos táticos, disparando metodicamente nos joelhos e crânios das abominações que tentavam persegui-la, esmagando o rosto de uma delas com um chute frontal devastador antes de girar e correr logo atrás da parceira.
Elena alcançou o final do corredor escuro. Diante dela, as portas reforçadas de ferro do elevador analógico de emergência pareciam um santuário. Ela arrancou a placa de proteção do terminal a socos, expondo os botões de controle direto, e começou a esmurrar o acionador freneticamente.
— Abre, abre, abre! — ela repetia, o pânico vazando pela voz enquanto as luzes amarelas da cabine finalmente brilharam nas frestas da porta.
As engrenagens mecânicas rangeram alto e a pesada estrutura de metal se abriu. Elena saltou para dentro, seguida quase imediatamente por Tseng. O enxame de almas convergiu, uivando em um uníssono ensurdecedor, enquanto as criaturas pálidas sobreviventes rastejavam velozmente pelo piso ensanguentado, esticando seus membros desproporcionais para alcançar o elevador.
— Fechando! — Elena bateu o punho no botão de segurança.
A porta começou a deslizar. Uma das criaturas lançou-se em um bote cego, enfiando o rosto celestial e três braços ósseos na fresta. Tseng ergueu a arma e desferiu um tiro à queima-roupa no espaço entre os olhos da anomalia. O monstro recuou em espasmos e a porta de aço blindado esmagou os braços restantes com um som úmido e repugnante de ossos sendo triturados.
O trinco travou com um clique definitivo.
O som do inferno do lado de fora foi instantaneamente abafado, substituído pelo ranger reconfortante dos grossos cabos de aço içando a cabine analógica. A luz amarela de emergência banhava o interior quadrado. Elena escorregou pelas paredes de metal até sentar no chão, os joelhos encolhidos, o peito subindo e descendo em uma hiperventilação pesada enquanto limpava o suor frio e a sujeira prateada do rosto.
Tseng permaneceu de pé, a postura impecavelmente reta, embora seu terno escuro estivesse manchado e coberto pela fuligem tóxica do edifício. Ele guardou a pistola no coldre, tirou o PHS do bolso com calma calculada e discou o número direto de sua equipe de campo. O aparelho chiou com a interferência estática do Mako antes que a linha se firmasse.
— Reno. Rude. Qual é o status do vetor de extração? — Tseng perguntou, a voz perfeitamente neutra e gélida, como se não estivesse dentro de um caixão de metal fugindo de uma catástrofe genética. — O helicóptero já está no ponto de encontro?
Do outro lado, a respiração de Rude era audível sobre o som de rotores batendo forte contra o ar noturno.
— Estamos a caminho do telhado do Setor 4, chefe. O pássaro já está no ar. — A voz grave do grandalhão soou tensa pela primeira vez em anos. Houve uma pausa, e o som do vento cortando o microfone aumentou. — Mas, sendo honesto... a visão daqui de fora é um desastre. A fumaça está vazando por quase todos os andares superiores do prédio. Parece um vulcão tóxico prestes a explodir. Não acho que vai sobrar pedra sobre pedra por muito tempo.
Tseng olhou para as portas de aço do elevador, sentindo a vibração constante da torre de Mako que morria ao redor deles. Os olhos escuros do líder dos Turks refletiram a luz amarela, carregando o peso frio de quem sabia que uma era inteira havia chegado ao fim.
— A sua avaliação visual está correta, Rude — Tseng confirmou, em um tom desprovido de qualquer ilusão. — A Shinra, como a conhecíamos, acabou. Apenas nos tirem daqui.
O elevador analógico solavancou com um estrondo metálico, travando bruscamente no andar setenta. As portas de ferro se abriram com um chiado arrastado, revelando o saguão da presidência mergulhado em uma névoa densa e esverdeada. O silêncio que deveria imperar no ápice do poder mundial havia sido substituído por um som úmido e repugnante de carne se rasgando e ossos estalando.
Tseng e Elena avançaram com as armas em punho, chutando as pesadas portas duplas de mogno da sala de reuniões da diretoria.
O cenário no interior era a própria definição de um pesadelo corporativo. O gás purpurado de Mako saturava o ar, denso o suficiente para queimar os olhos. Espalhados pela mesa de vidro, os líderes absolutos da Shinra agonizavam, mas não estavam morrendo. O corpo de Heidegger convulsionava no chão, seu terno sob medida rasgando pelas costuras à medida que uma massa muscular grotesca e pálida inchava descontroladamente, enquanto ossos negros rasgavam a pele de suas costas. Perto da janela estilhaçada, Scarlet soltava uma risada que não soava mais humana, um som sobreposto por dezenas de vozes enquanto a lateral de seu rosto derretia, fundindo-se a chicotes de cartilagem viva.
Elena paralisou. A arma em suas mãos tremia violentamente. O choque de testemunhar as figuras mais intocáveis e autoritárias do planeta serem reduzidas a bestas rastejantes travou seus dedos. O pânico primitivo roubou o ar de seus pulmões; ela tentava engatilhar a pistola, mas o corpo se recusava a obedecer.
Na cabeceira da mesa, de costas para a porta, uma silhueta ainda vestia o paletó risca de giz do Presidente Shinra.
— Presidente. — Tseng chamou, a voz grave e perfeitamente controlada, mantendo o cano de sua pistola nivelado.
A figura girou lentamente. O rosto do homem mais poderoso de Midgar havia sumido. No lugar de suas feições, havia uma bocarra desarticulada, com dentes pontiagudos e fileiras de olhos vazios e purpurados que brilhavam com a toxicidade pura do Mako. A abominação emitiu um guincho gutural, reconhecendo o intruso, e impulsionou o corpo deformado para a frente, saltando sobre a mesa de vidro em uma investida predatória e brutal contra o líder dos Turks.
— Elena! — Tseng gritou, empurrando a parceira para trás com um solavanco forte o suficiente para tirá-la da linha de ataque. — Encontre Reno e Rude no heliponto. Agora!
Elena piscou, despertando do transe, e assentiu freneticamente. Ela deu as costas e disparou saguão afora, os sapatos ecoando em uma corrida desesperada em direção às escadas de acesso ao telhado, enquanto o som de tiros secos começou a ressoar dentro da sala de reuniões.
Tseng não recuou. Quando o que um dia foi o Presidente Shinra caiu sobre ele, o Turk esquivou-se com um giro fluído, a garra de osso rasgando apenas o tecido de seu ombro. Com uma frieza clínica e absoluta, Tseng descarregou três tiros no crânio da aberração de Scarlet que tentava flanqueá-lo, estilhaçando-lhe a porcelana corrompida. Heidegger ergueu-se como uma massa disforme, mas o líder dos Turks rolou pelo carpete felpudo, cravando a faca tática diretamente na articulação exposta do monstro antes de finalizar com um disparo à queima-roupa.
A fera de terno risca de giz urrou, jogando-se em um bote final. Tseng cravou as botas no chão, esticou o braço e desferiu dois tiros perfeitos, atravessando os olhos purpurados da criatura. O monstro desabou inerte aos seus pés, o sangue negro e fumegante manchando o tapete luxuoso da diretoria.
Tseng abaixou a arma fumegante, a respiração pesada, mas controlada. Ele olhou para o corpo morto e retorcido do Presidente. Ajoelhando-se lentamente, ele puxou a gola do paletó desfigurado, os olhos escuros fitando a ruína da corporação a qual havia dedicado sua vida inteira.
— O seu contrato com os Turks expirou, Presidente. O expediente acabou. — Tseng declarou, a voz gélida e desprovida de qualquer pesar. Ele largou o corpo na poça tóxica, girou nos calcanhares e deixou a sala para trás, não olhando para trás uma única vez.
No heliponto, os rotores do helicóptero da Shinra giravam ensurdecedores, lutando contra o vento carregado de fumaça. Reno e Rude aguardavam dentro da cabine, os rostos sujos de fuligem. Elena já estava a bordo, pálida e agarrada ao cinto de segurança. Tseng surgiu na pista de pouso instantes depois, o terno escuro finalmente rasgado e manchado, os passos firmes ignorando o caos.
Ele embarcou e fechou a porta com força. O piloto não esperou outra ordem, puxando o manche e fazendo a aeronave ganhar altitude bruscamente.
— Qual é a situação lá embaixo, chefe?! — Reno gritou por cima do barulho do motor, os olhos arregalados, esperando alguma faísca de controle.
— A diretoria caiu. O Presidente e os executivos estão mortos — Tseng reportou, ajustando a gravata arruinada com uma naturalidade assustadora. — O prédio agora é uma incubadora gigante sob o controle absoluto de Hojo.
Reno arregalou os olhos, levando as mãos aos cabelos ruivos, o desespero finalmente quebrando sua pose irônica.
— Tá de brincadeira! Todos eles?! E o que a gente faz agora, chefe? A gente não dá conta de matar o Hojo! O cara engoliu a cidade inteira, ele virou um maldito deus da radiação! A gente não tem poder de fogo pra peitar isso!
Tseng acomodou-se no banco, cruzando os braços. Seu olhar desviou-se para a janela da aeronave, refletindo uma resignação tática de quem sabia exatamente quando sair da mesa de apostas.
— Vocês se lembram daqueles dois grupos que a diretoria insistiu tanto em perseguir e extinguir durante todo esse tempo? — Tseng perguntou, a voz calma cortando o desespero do ruivo. Reno e Rude se entreolharam, compreendendo instantaneamente a referência. — A Avalanche e a família Crescent provaram ser forças da natureza que a corporação jamais conseguiu subjugar. Não é mais um problema nosso. Deixem o Hojo com eles.
O helicóptero inclinou-se, ganhando distância e rompendo as nuvens escuras de poluição.
Lá embaixo, Midgar agonizava. A outrora imponente metrópole de aço parecia estar sendo digerida viva. O Mako transbordava como um rio luminoso e doentio pelos oitos pratos superiores da cidade, derramando-se pelas bordas metálicas como cachoeiras radioativas rumo às favelas. O próprio Edifício Shinra, o marco central da ambição humana, estava completamente envolto em um turbilhão denso de fumaça negra. Espectros disformes e uivantes circulavam a estrutura como corvos famintos ao redor de uma carcaça, engolindo os andares enquanto a energia purpurada pulsava de dentro para fora, devorando lentamente tudo o que restava da capital do mundo.

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