sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capitulo 19

 



O peso não era físico. Era uma fisgada nauseante, como se anzóis invisíveis estivessem cravados diretamente em seu DNA, repuxando suas células de dentro para fora. Cloud abriu os olhos com um sobressalto, arfando em busca de ar, mas o teto de madeira do Sétimo Céu havia sumido.
No lugar de seu quarto, ele estava de pé em uma rua. Era um beco escuro, distorcido, banhado por uma névoa esverdeada e doentia. O ar fedia a ozônio e a Mako estagnado. Ao seu redor, dezenas de silhuetas encapuzadas se arrastavam pelo asfalto como zumbis, os rostos ocultos nas sombras enquanto um murmúrio uníssono, rastejante e contínuo ecoava pelas paredes invisíveis:
— Reunion... todos devem se reunir... A Reunion...
Cloud cambaleou, levando a mão à cabeça que latejava violentamente. Ele deu alguns passos trôpegos pela névoa, tentando focar a visão no meio daquele delírio tátil, até que esbarrou em uma estrutura sólida. Não era uma parede.
Angeal virou-se bruscamente, a mão gigantesca já instintivamente posicionada às costas, tateando o vazio onde o cabo de sua espada deveria estar. O veterano estava com a respiração curta, os olhos escuros vasculhando o ambiente caótico até travarem no rosto do recruta.
— Cloud? — Angeal franziu o cenho, a confusão mesclando-se à tensão tática imediata. Ele estendeu a mão, segurando o ombro do garoto com firmeza para se certificar de que ele não era apenas fumaça. — Você é real? Está sentindo essa queimação nas veias?
— Tô... Parece que meu sangue tá fervendo. Onde a gente tá, Angeal? — Cloud arfou, engolindo a seco enquanto olhava aterrorizado para as figuras murmurantes que passavam por eles sem vê-los.
Angeal estreitou os olhos, observando como as silhuetas encapuzadas não tinham massa física e a névoa não se comportava como um gás normal. Sem sua antiga lâmina para empunhar, ele cerrou os punhos gigantescos e flexionou os joelhos, assumindo uma base pesada de combate corpo a corpo por puro instinto de sobrevivência.
— Isso não é o mundo real. O terreno não tem consistência e esses espectros não nos veem. — O veterano ordenou, a voz grave assumindo a liderança tática de imediato. — É algum tipo de ilusão de Mako ou ataque psíquico. Mantenha a guarda alta e fique perto.
Os dois avançaram lado a lado pelo cenário que parecia derreter nas bordas. Dobraram uma esquina distorcida da ilusão e pararam de súbito. A poucos metros, uma figura alta, vestindo trajes civis de trilha escuros e com longos cabelos prateados que flutuavam levemente na névoa, analisava o perímetro com uma frieza cortante.
— Sephiroth... — A voz de Angeal saiu embargada. A postura imponente do mentor vacilou de imediato. O alívio genuíno, bruto e pesado de ver o velho amigo vivo atropelou qualquer protocolo militar ou cautela.
Sephiroth virou-se num solavanco rápido. A frieza cirúrgica em suas pupilas verticais quebrou no exato segundo em que ele reconheceu os rostos familiares. Ele deu um passo na direção deles, a expressão suavizando em um misto de alívio puro e choque absoluto.
— Angeal. Cloud. — Sephiroth estreitou os olhos, a mente analítica processando a anomalia enquanto a preocupação transbordava. — O que estão fazendo aqui? Como foram arrastados para esta projeção?
Cloud soltou o ar que prendia nos pulmões, um sorriso frouxo e quase exausto escapando pelo rosto tenso.
— Cara... que alívio. Achei que você tivesse morrido lá no reator.
— Minha morte não é um evento tão fácil de se concretizar. — Sephiroth respondeu, recuperando parte de sua altivez, embora o aperto tenso na mandíbula revelasse o profundo desconforto com aquela invasão psíquica.
Antes que pudessem trocar qualquer outra informação sobre seus paradeiros físicos, passos lentos e metálicos soaram pela rua ilusória. Das sombras densas da névoa esverdeada, a figura pálida envolta em um pesado manto carmesim emergiu. Vincent Valentine estancou diante do grupo. Seus olhos rubros e intensos ignoraram o restante do cenário, cravando-se diretamente em Sephiroth.
O atirador soltou um suspiro longo, a tensão escorrendo de seus ombros sob a capa.
— Filho... — Vincent murmurou, a voz rouca e arrastada carregando o peso de uma angústia recém-curada. — Que bom que você está inteiro.
Sephiroth sustentou o olhar de Vincent, um lampejo raro de vulnerabilidade cruzando suas feições ao ouvir a palavra, antes de acenar lentamente com a cabeça, retribuindo a sensação de paz daquele reencontro.
Mas a trégua durou apenas um milésimo de segundo.
O chão de asfalto sob as botas dos quatro homens emitiu um estalo ensurdecedor. A rua estilhaçou-se como um espelho atingido por uma marreta. A gravidade sumiu, e o mundo ilusório ao redor deles desmoronou em uma escuridão veloz e absoluta.
Eles despencaram. O ar zumbia em seus ouvidos com violência até aterrissarem, com um baque surdo que não causou dano físico, sobre um piso de rocha gélida e morta.
A névoa dissipou-se bruscamente, revelando a imensidão colossal e aterrorizante da Cratera Norte. O abismo descomunal rasgava a terra ao redor deles, latejando com rios de Mako purpurado — um poço de radiação densa, violenta e corrompida. E bem no epicentro daquela ferida planetária, a silhueta da calamidade os aguardava.
Hojo não guardava mais quase nenhum traço humano. Seu torso estava absurdamente inchado e distorcido, recoberto por uma couraça assimétrica de placas de quitina negras e brilhantes que remetiam ao casco de uma criatura abissal. O rosto do cientista estava parcialmente derretido, e no lado esquerdo, múltiplos olhos avermelhados e insectoides piscavam de forma repulsiva e desalinhada. O braço direito, transformado em uma gigantesca lâmina cinzenta e serrilhada, gotejava um ácido purpurado que sibilava e corroía a rocha nua onde caía.
O monstro abriu as mandíbulas desfiguradas e soltou uma gargalhada aguda, estridente e carregada de estática que arranhou os tímpanos dos guerreiros.
— Heh heh heh... Que reunião esplêndida. — A voz de Hojo ecoou pela cratera, úmida e gutural, amplificada pela ressonância do Mako. O olho humano que lhe restava brilhava com um sadismo doentio enquanto ele analisava suas âncoras biológicas. — Vocês brincam de desertores. Brincam de heróis justiceiros, forjam laços familiares patéticos e acreditam piamente que possuem as rédeas dos próprios destinos...
A abominação arrastou a lâmina serrilhada pelo chão de pedra, rasgando o solo em um arco lento e ameaçador.
— Mas vocês se esquecem de quem os moldou! — Hojo sibilou, erguendo o braço monstruoso para abranger a vastidão da cratera. — O livre-arbítrio de vocês é uma ilusão patética. Uma piada biológica! As rebeliões que acham que lideram são apenas os espasmos de ratos no meu labirinto. Cada célula que queima em seus corpos agora, o sangue que corre em suas veias... pertence a mim. E quando a Reunion clamar em definitivo, todos os meus fantoches marcharão obedientes para o centro do palco!
A bocarra desfigurada de Hojo se abriu em uma risada estridente que fez a própria rocha da cratera tremer. A energia do Mako purpurado começou a ser sugada violentamente para a ponta de sua garra monstruosa, condensando-se rapidamente em uma esfera densa, instável e cegante. O zumbido elétrico daquela anomalia era insuportável. Com um movimento brusco e impiedoso, a abominação arremessou a esfera de luz corrompida diretamente contra eles.
A explosão engoliu tudo. O impacto não trouxe dor física, apenas um clarão sensorial que estilhaçou a realidade.
O mundo ilusório quebrou.
Cloud abriu os olhos no Sétimo Céu, os pulmões puxando o ar com tanta força que seu peito ardeu. Ele soltou um grito rouco e desesperado, agarrando os lençóis com violência enquanto o suor frio ensopava seu rosto. O coração batia de forma tão acelerada contra as costelas que parecia querer rasgar a pele. A penumbra do quarto girava vertiginosamente, e a risada aguda de Hojo ainda ecoava no fundo de sua mente.
No quarto ao lado, Tifa e Aerith estavam de frente para um pequeno espelho. Tifa segurava uma escova, terminando de alinhar os longos fios castanhos, enquanto Aerith ajeitava a fita rosa no próprio cabelo. O grito gutural que atravessou a parede de madeira fez as duas congelarem no mesmo instante.
Elas se olharam pelo reflexo do espelho, a preocupação substituindo o clima tranquilo de imediato.
— Foi o Cloud — Tifa disse, a voz tensa, já largando a escova sobre a penteadeira. — Ele não parece nada bem. Vamos rápido! — Aerith concordou prontamente, levantando-se de supetão. As duas deixaram o quarto às pressas, correndo pelo corredor estreito para acudir o rapaz.
Lá embaixo, na área principal do bar, a situação era igualmente atípica.
A taverna estava fechada e silenciosa. Angeal encontrava-se de pé perto do balcão, debruçado sobre algumas anotações, segurando uma caneta com firmeza. Mas ele não se movia. O veterano estava completamente paralisado, os olhos vidrados em um ponto cego na madeira, o corpo tenso e estático como uma rocha.
Barret, que organizava algumas garrafas do outro lado da bancada, franziu o cenho ao notar a postura rígida e estranha do grandalhão.
— Angeal? — Barret chamou, a voz grave soando no ambiente vazio. Nenhuma resposta. — Ei, Angeal! O que deu em você?
O silêncio do ex-Primeira Classe era absoluto, apenas a sua respiração parecia anormalmente curta. Barret largou o que estava fazendo e deu a volta no balcão, a impaciência logo cedendo lugar à tensão.
— Angeal! Eu tô falando com você, porra! — Barret engrossou o tom, parando bem de frente para ele, mas os olhos escuros do veterano continuavam opacos, completamente perdidos.
Sem hesitar, Barret ergueu a mão pesada e desferiu um tapa forte no braço do guerreiro.
O impacto físico rompeu o transe no mesmo milésimo de segundo. Angeal soltou o ar de uma vez só, como se estivesse emergindo de um afogamento, e a estrutura imponente de seu corpo cedeu levemente. A caneta escorregou de seus dedos dormentes, caindo com um estalo oco sobre a mesa.
O veterano apoiou as duas mãos na madeira, arfando pesado, limpando o suor frio que escorria pela sua testa.
— Que merda foi essa?! Você apagou de olho aberto! — Barret exclamou, cruzando os braços, a carranca pesada evidenciando o sobressalto.
Angeal piscou algumas vezes, forçando a visão a focar no interior rústico do Sétimo Céu e lutando para afastar a imagem nauseante da Cratera Norte de sua mente. Ele engoliu em seco, a expressão endurecendo ao processar a gravidade do que acabara de vivenciar.
— Não foi um apagão, Barret... — Angeal começou, a voz ainda áspera pelo choque. Ele olhou diretamente para o líder da Avalanche, a seriedade em seus olhos beirando o absoluto. — Foi um ataque psíquico. Uma convocação. Eu estava dentro da minha própria cabeça... mas não estava sozinho lá.
Barret franziu a testa, instintivamente em alerta. — Como assim não tava sozinho? Quem mais tava lá?
— O Cloud. Ele estava lá, na mesma ilusão que eu. Fomos puxados juntos. — Angeal apertou os punhos sobre o balcão, a memória do reencontro batendo forte em seu peito. — E eu vi meu velho amigo. Eu vi o Sephiroth, Barret. Ele está vivo. Fomos todos arrastados por essa convocação orquestrada por Hojo
Barret olhou para Angeal completamente incrédulo, os punhos imensos cerrando-se ao lado do corpo.
— Aquele cientista desgraçado... O que mais aquele doente falou?! — o grandalhão rosnou, a raiva fervendo só de ouvir o nome de Hojo.
Angeal esfregou o rosto, a lembrança do Mako purpurado e da risada estridente ainda vívida e nauseante em sua mente.
— Ele disse que somos marionetes, Barret. Que o nosso livre-arbítrio é apenas uma ilusão biológica e que o sangue em nossas veias pertence a ele. E que, agora que a Reunion começou...
Nesse momento, o rangido pesado da escada de madeira chamou a atenção dos dois. Tifa e Aerith desciam os degraus amparando Cloud. O recruta caminhava curvado, pálido como um fantasma e com uma das mãos apertando violentamente a própria cabeça, parecendo carregar o peso do mundo inteiro.
O loiro ergueu os olhos vidrados para o andar de baixo. Sem perceber que estava interrompendo o raciocínio do veterano, Cloud balbuciou o final da frase que ainda ecoava e queimava em sua mente estilhaçada:
— "...todos marcharão obedientes para o centro do palco."
A voz arrastada de Cloud sobrepôs-se com uma exatidão assustadora à voz de Angeal. O veterano proferiu as mesmíssimas palavras no exato mesmo milésimo de segundo.
O silêncio engoliu o Sétimo Céu. Tifa travou no último degrau, os olhos arregalados, o choque estampado em seu rosto ao testemunhar a sincronia impossível. Barret olhou de um para o outro, o estômago revirando diante daquela bizarra confirmação telepática.
Cloud piscou, a respiração entrecortada. A realização o atingiu como um soco. Ele se soltou levemente do apoio das meninas, os olhos verder cravados no rosto do ex-Primeira Classe.
— Foi real, então... — Cloud sussurrou, aterrorizado com a constatação de que a invasão não era mais um delírio ou uma falha de sua própria mente doente. Hojo realmente esteve lá.
— Foi. — Angeal confirmou com um aceno lento, a voz grave e pesada, sem tentar suavizar a verdade de que não havia escapatória. — Ele usou as células compartilhadas como uma rede. Acessou nossas mentes simultaneamente.
Cloud engoliu em seco, sentindo o suor frio escorrer pela nuca.
— Onde a gente tava, Angeal? Que buraco era aquele cheio de Mako?
— A Cratera Norte. — Angeal declarou, o tom desprovido de qualquer dúvida.
A menção do local fez Aerith prender a respiração. A expressão sempre serena da florista foi imediatamente substituída por um lampejo de compreensão ancestral e sombria. Como a última Cetra viva, ela conhecia aquele nome; sentia o eco da dor do Lifestream só de ouvir a menção ao local. A Cratera Norte não era apenas um abismo qualquer, era a ferida mais profunda e incurável que o Planeta carregava.
— A Cratera... — Aerith repetiu em um sopro, soltando o braço de Cloud e descendo rapidamente o restante da escada. — Eu conheço. Fica no Continente Gélido. É o ponto de convergência de energia, onde o planeta tenta cicatrizar e se concentrar.
Angeal acenou com a cabeça, já virando as costas e marchando em direção ao balcão principal, onde os mapas topográficos e as cartas de navegação da Avalanche estavam parcialmente abertos.
— Exatamente. Venham ver isso aqui. — O veterano chamou, afastando as canecas e abrindo espaço na madeira.
Aerith contornou o balcão e parou ao lado de Angeal, debruçando-se sobre o grande pergaminho cartográfico. O dedo enluvado do veterano desceu com firmeza sobre o mapa, traçando uma linha rápida que saía de Midgar, cortava o oceano inteiro e parava diretamente no topo do mundo, sobre uma enorme fenda circular desenhada no meio do gelo eterno.
— A bússola celular na nossa cabeça está apontando diretamente para esse epicentro. É para lá que Hojo quer nos atrair.
— Mas o que o Hojo realmente quer com isso? — Tifa perguntou, quebrando o silêncio pesado. Seus olhos castanhos alternavam entre Angeal e Cloud, carregados de uma aflição palpável. — Por que atrair vocês para o outro lado do planeta? O que tem lá?
Cloud apertou a borda de madeira do balcão, a lembrança da voz úmida e distorcida ainda arranhando sua mente. Ele olhou para o mapa, a voz saindo baixa, mas firme:
— Ele nos chamou de marionetes... Disse que o livre-arbítrio não existe e que o sangue que corre nas nossas veias pertence a ele.
— ...E que quando a Reunion clamar em definitivo, todos os seus fantoches marcharão obedientes para o centro do palco — Angeal completou, o tom grave selando a sentença que ambos haviam escutado simultaneamente no pesadelo.
O veterano soltou um suspiro longo, apoiando as duas mãos na mesa. Ele sabia que não dava mais para esconder a verdade daqueles que lutavam ao seu lado.
— A Shinra escondeu muito mais do que a drenagem do Planeta, Barret. Hojo orquestrou experimentos biológicos há décadas — Angeal começou, erguendo o rosto para encarar os companheiros de frente. — Eu não sou apenas um ex-SOLDIER que desertou por discordar das ordens. Eu sou um produto deles. Fui gerado no Projeto G, uma iniciativa para fundir DNA humano com as células de uma criatura chamada Jenova. O mesmo vale para o Sephiroth. Somos as âncoras biológicas que ele está usando para essa convocação.
Barret arregalou os olhos, o queixo caindo enquanto processava a monstruosidade daquela confissão. Tifa levou as mãos à boca, chocada, olhando para o mentor do grupo e depois para Cloud, finalmente entendendo a raiz de todo o sofrimento físico e mental que o garoto carregava.
No meio daquele choque absoluto, Aerith não disse uma única palavra. A florista apenas continuou ao lado de Cloud e abriu um sorriso brando e acolhedor na direção de Angeal. Um sorriso que não carregava pena ou repulsa, mas a compreensão profunda, ela sabia pelos que eles passaram, sem necessariamente saber.
Angeal retribuiu o olhar da florista com um aceno quase imperceptível de gratidão, antes de bater o dedo indicador no mapa, puxando o foco de volta para a tática.
— A situação aqui já está por um fio. Os níveis de Mako circulando pelas tubulações de Midgar estão flutuando de forma perigosa e instável nas últimas semanas — Angeal apontou, a intuição de anos de Shinra falando mais alto, mesmo antes do colapso real da cidade começar. — Ficar aqui e esperar Hojo bater na nossa porta é suicídio. Se sairmos agora e traçarmos a rota certinha pelo continente, podemos ir desligando os reatores periféricos pelo caminho até chegarmos à Cratera Norte. Matar as criações dele de fome, cortando a energia na fonte.
— Exatamente — Aerith concordou de imediato, a voz cristalina soando com uma convicção inabalável. — O Planeta já está gritando. Se cortarmos o suprimento de Mako, Hojo perde a força.
Barret, no entanto, deu um soco surdo no balcão, a frustração pura estampada no rosto do grandalhão.
— Droga! O plano é sólido, Angeal, mas eu não posso ir! — Barret rosnou, a voz falhando enquanto ele olhava de relance para o andar de cima, onde Marlene dormia. — Se essa cidade já está virando um barril de pólvora com o Mako instável, eu não posso deixar a Marlene aqui! E levar uma criança de quatro anos pro campo de batalha, cruzando o oceano pra caçar um cientista mutante, é pura loucura! Eu tô de mãos atadas!
Aerith percebeu a angústia dilacerante do pai. Ela contornou a ponta do balcão e tocou suavemente no braço gigante de Barret, chamando a atenção dele com aquele mesmo sorriso sereno.
— Kalm — Aerith disse, a solução soando simples e perfeita. — A minha mãe, Elmyra, mora lá. É uma cidade pacata, rústica e completamente fora do radar bélico da Shinra. É o esconderijo ideal. Nós passamos lá, deixamos a Marlene segura e protegida com ela, e depois seguimos viagem para a Costa del Sol.
Ouvir o nome da cidade fez Tifa piscar, a tensão pesada em seus ombros finalmente cedendo lugar a um brilho repentino de animação.
— Kalm?! É sério? — Tifa exclamou, as mãos apoiadas na mesa e um sorriso empolgado quebrando o clima fúnebre do bar. — Eu sempre quis conhecer Kalm! Dizem que a arquitetura de lá é linda. E vai ser incrível finalmente conhecer a sua mãe, Aerith!
A espontaneidade da lutadora arrancou um sorriso frouxo de Cloud. O loiro ajeitou a postura, sentindo a energia curativa que Aerith havia lhe passado minutos antes firmar seus músculos, e olhou para Angeal. A rota estava traçada. A caçada havia começado.
Aerith abriu um sorriso largo, os olhos verdes brilhando com a empolgação genuína da lutadora.
— Você vai amar a cidade, Tifa! — Aerith disse, a voz ganhando um tom nostálgico e doce. — Quando eu era pequena, eu adorava fugir de fininho da minha mãe para subir na torre do velho relógio da praça central. Eu ficava lá no alto olhando as luzes da cidade acenderem à noite, comendo os pães doces de maçã que vendiam na padaria da esquina. Eu quero muito te levar lá, a gente pode sentar na beira da fonte e comer até não aguentar mais!
Barret cruzou os braços, a carranca pesada e a preocupação de pai ainda sobrepondo qualquer clima de turismo que as duas tentassem criar.
— E a sua mãe... ela leva jeito com criança? — ele perguntou, a voz rouca e visivelmente hesitante, olhando de relance para o andar de cima. — A Marlene é quieta, mas...
Aerith deu uma risadinha leve, balançando a mão no ar para espantar a preocupação dele.
— Barret, ela me criou. E acredite, eu não era exatamente a criança mais fácil do mundo de se lidar, vivia falando com as paredes e fugindo para brincar na terra. Se ela sobreviveu cuidando de mim, a Marlene ela vai tirar de letra! Pode ficar em paz.
Angeal interveio, a postura rígida de comando trazendo o grupo de volta à urgência da realidade.
— Nós partimos à meia-noite em ponto. — Ele ditou, ajeitando a luva e batendo o dedo no mapa mais uma vez. — Quero todo mundo subindo agora e arrumando as malas. Peguem apenas o essencial para combate e sobrevivência.
A tensão da urgência voltou a pesar no ambiente, mas a determinação do grupo era unânime. Barret soltou um suspiro longo, concordando com um aceno seco de cabeça antes de se virar para ir arrumar as poucas coisas dele e organizar a saída de Marlene. Aerith e Tifa trocaram um último sorriso cúmplice sobre a viagem a Kalm, encerrando o assunto de forma leve para quebrar a pressão que pairava no ar. Aos poucos, a roda ao redor do balcão se desfez. Cada um seguiu para seus respectivos quartos, o barulho das botas ecoando pelas escadas de madeira do Sétimo Céu enquanto a taverna mergulhava novamente naquele silêncio pesado de pré-batalha.
No andar de cima, o silêncio no quarto era quebrado apenas pelo som do zíper das mochilas e dos fechos de metal dos equipamentos sendo ajustados. Cloud estava sentado na beira da cama, encarando as próprias mãos enluvadas com uma expressão distante e pesada. Tifa dobrava algumas ataduras e itens de primeiros socorros do outro lado do cômodo, quando a voz baixa do loiro cortou a quietude.
— Tifa... — ele murmurou, sem erguer o olhar. — Você confia em mim?
A lutadora parou o que estava fazendo de imediato. Ela olhou para ele, o coração apertando ao ver a postura tão encolhida e derrotada do amigo. Ela deixou a mochila de lado, caminhou até a cama e sentou-se bem ao lado dele, respondendo com uma certeza inabalável.
— É claro que sim, Cloud. Sempre confiei.
Ela abriu um sorriso afetuoso, deixando as memórias do interior aquecerem a voz.
— Você é o herói que eu pedi quando éramos crianças. Lembra? Lá no poço, na praça de Nibelheim, sob as estrelas... você me prometeu que, se eu algum dia estivesse em apuros, você viria correndo me salvar. E você veio.
Cloud abaixou ainda mais a cabeça, os dedos apertando o tecido das calças. O peso das memórias enxertadas, o trauma dos laboratórios e a radiação do Mako faziam sua própria identidade parecer uma farsa, um mosaico quebrado.
— Mas eu me sinto fraco demais, Tifa. — A voz dele falhou, carregada de uma vulnerabilidade crua, as inseguranças de sua verdadeira essência vazando por entre a máscara de autoconfiança de Zack. — Eu olho para o Angeal, com toda aquela experiência... para o Barret... e então eu olho para mim. Eu não acho que sou isso tudo que você vê. Não acho que sou esse herói de verdade.
Tifa franziu o cenho, recusando-se a deixá-lo afundar naquela escuridão que Hojo tentara plantar em sua mente. Ela levou a mão até o ombro dele, apertando com firmeza.
— Cloud, olha para mim. — Ela exigiu, esperando que ele erguesse os olhos azuis brilhantes e cansados para encará-la. — Pensa em tudo o que você fez nos últimos dias com a Avalanche. Você invadiu aqueles Reatores de Mako com a gente! Você estava lá, na linha de frente, lutando contra o maquinário pesado da Shinra e garantindo a nossa cobertura para que a gente conseguisse invadir os sistemas, desligar os reatores e cortar a drenagem do nosso Setor.
Ela escorregou a mão do ombro para o braço dele, transmitindo segurança.
— Mesmo com o corpo debilitado, mesmo com a sua mente tão confusa e exausta ultimamente... você nunca recuou. Você se jogou na frente dos tiros e das espadas para nos proteger lá embaixo. Ser herói não é não ter medo ou não ter fraquezas, Cloud. É continuar lutando apesar de tudo estar desabando. E é exatamente isso que você faz. Você é o meu herói.
Ouvir as palavras de Tifa fez o peso nos ombros de Cloud aliviar, dissipando um pouco daquela névoa de insegurança. Ele finalmente ergueu o olhar, encontrando os olhos castanhos e atentos dela.
— Sou muito feliz por ter você ao meu lado, Tifa... — ele murmurou, a voz soando mais suave e sincera. — Obrigado. Por toda a sua doçura, e por não desistir de mim. O meu maior objetivo nessa jornada vai ser proteger você. Com a minha própria vida, se precisar.
Tifa soltou uma risada leve, balançando a cabeça para afastar a dramaticidade daquela promessa extrema.
— Para com isso, Cloud. Você não vai precisar fazer isso porque você jamais vai morrer — ela rebateu, com um sorriso teimoso e confiante. — Nós vamos voltar dessa juntos. Inteiros.
O loiro a observou por um instante, a feição relaxando em uma melancolia serena.
— Você é a única que sobrou na minha vida, Tifa. A minha única âncora de verdade.
Os dois sorriram fraco, compartilhando silenciosamente o conforto e o peso que aquela constatação trazia. O silêncio do quarto tornou-se íntimo, e Cloud inclinou o corpo devagar, encurtando a pouca distância que restava entre eles na cama. Tifa fechou os olhos, cedendo ao momento, enquanto ele levou a mão direita com cuidado até o rosto dela. Os lábios se encontraram em um beijo romântico, calmo e carregado de todo o afeto que as palavras não davam mais conta de expressar.
Tifa deu um riso breve e suave assim que o beijo terminou, afastando-se apenas o suficiente para encará-lo de perto.
— Viu só? — ela murmurou, fazendo um carinho leve no rosto dele. — Ainda tem muito do verdadeiro Cloud aí dentro. Não ouse esquecer disso.
Cloud sorriu, um sorriso genuíno que há tempos não aparecia, e acomodou as mãos na cintura dela. O cansaço físico e mental ainda pesava, mas a proximidade trazia o alívio de que ele precisava para suportar as próximas horas.
— Você vai tentar dormir no seu quarto no tempo que resta até a meia-noite... ou vai ficar aqui comigo? — ele perguntou, a voz baixa e tranquila.
Tifa não hesitou. Ela se ajeitou na cama, apoiando a cabeça no travesseiro ao lado dele e puxando a coberta para cobrir os dois.
— Vou dormir aqui. — Ela respondeu, aninhando-se confortavelmente no abraço dele. — Midgar tem ficado muito mais gelada que o normal ultimamente.
A luz da manhã seguinte já banhava o horizonte cinzento quando a picape utilitária militar rasgava a rodovia de terra, deixando a poluição densa de Midgar definitivamente para trás. O ar dentro da cabine dupla era uma mistura de exaustão e alívio. Barret havia assumido o volante para o primeiro turno do dia, dirigindo com o braço bom apoiado na janela enquanto cantarolava uma música qualquer que tocava baixo no rádio velho do veículo.
A paisagem do lado de fora mudava gradativamente a cada quilômetro percorrido. As montanhas de sucata e os desertos áridos que cercavam os setores industriais foram cedendo espaço a planícies rochosas extensas. Aos poucos, a terra seca começou a ganhar manchas de um verde ralo e teimoso, anunciando que a vida ainda tentava resistir longe da drenagem dos reatores principais.
No banco do carona, Angeal tentava manter sua habitual postura de meditação com os olhos fechados, mas a tarefa se provou impossível. Debruçada sobre o console central, a pequena Marlene havia decidido que o braço largo do ex-Primeira Classe era o melhor encosto da viagem. Ela estava aninhada contra ele, perfeitamente à vontade, brincando distraidamente com as fivelas grossas do suspensório do veterano.
— Angeal, conta de novo aquela história do monstro de gelo gigante? — ela pediu, a voz miúda soando manhosa enquanto puxava levemente a manga do guerreiro.
O veterano abriu um dos olhos, a expressão severa derretendo instantaneamente. Ele soltou um suspiro longo, ajeitando a postura cuidadosamente apenas para que a menina ficasse mais confortável e segura contra o seu lado. Com um zelo que contrastava totalmente com sua armadura e tamanho, ele começou a narrar a história com aquela voz grave e pausada, fazendo Barret soltar uma risada grossa no volante ao vê-lo totalmente rendido às vontades de uma garotinha de quatro anos.

No banco de trás, o clima era de pura descontração. Quando a estação de rádio começou a tocar uma batida pop animada de uma rádio livre, Aerith não se conteve. Ela aumentou o volume esticando o braço e começou a cantar em voz alta, balançando a cabeça no ritmo. Em segundos, ela puxou Tifa pelo braço, insistindo para que a lutadora a acompanhasse. Tifa hesitou rindo, as bochechas coradas, mas logo se rendeu, soltando a voz no refrão junto com a florista. As duas cantavam a plenos pulmões, rindo das próprias falhas na letra enquanto o vento frio entrava pela fresta da janela, bagunçando os cabelos delas. Cloud, espremido no canto perto da outra porta, apenas observava a cena com os braços cruzados, um sorriso genuíno e relaxado brincando no canto dos lábios enquanto via Tifa tão solta e feliz.
Quando a música acabou, Marlene pulou para o banco de trás, aterrissando direto no colo de Aerith. A florista a recebeu de braços abertos, iniciando uma sessão de brincadeiras. Em um momento de pura magia, Aerith concentra uma quantidade minúscula de energia nas pontas dos dedos, criando pequenas luzes esverdeadas que dançavam como vaga-lumes pelo teto da picape. Marlene arregalava os olhinhos, tentando capturar as luzinhas com as mãos, completamente maravilhada.
A viagem seguiu nesse ritmo leve por mais algumas horas. As planícies ganharam um verde muito mais denso e vivo, e o clima árido foi substituído por uma brisa fresca. No horizonte, construções charmosas com telhados de pedra, chaminés de tijolos e imensos moinhos de vento começaram a despontar.
Barret reduziu a marcha da picape, o som dos pneus trocando a terra batida pelo paralelepípedo rústico das ruas. Eles haviam chegado a Kalm.
Ele continuou ao volante, reduzindo ainda mais a velocidade enquanto os pneus largos da picape rolavam suavemente sobre o paralelepípedo. No banco de trás, Aerith se debruçou entre os assentos dianteiros, apontando as direções.
— Vira à esquerda na praça do relógio, Barret... isso. Agora segue direto por essa rua de pedras até a última casa de esquina, a que tem floreiras de madeira na janela.
A picape estacionou com um leve solavanco em frente a uma casa de dois andares, com arquitetura rústica e acolhedora. O grupo desceu do veículo, as botas quebrando o silêncio tranquilo da rua matinal.
Aerith tomou a frente, caminhando até a porta com um sorriso ansioso. Logo atrás dela, formou-se a comitiva: Barret trazendo a pequena Marlene no colo, Tifa, Cloud e, fechando o grupo, Angeal.
A florista deu três batidas rápidas na madeira. Alguns segundos depois, o trinco girou e a porta se abriu.
Elmyra apareceu no batente, com um sorriso já pronto no rosto.
— Aerith, querida, você chegou ce... — A mulher parou no meio da frase, os olhos arregalando levemente ao focar além da filha e se deparar com a muralha de pessoas paradas na sua varanda. O choque durou apenas dois segundos antes da hospitalidade falar mais alto. — Pelos Deuses... você trouxe companhia.
— Oi, mãe! — Aerith riu, dando um abraço apertado nela.
Elmyra retribuiu o abraço, olhando por cima do ombro da filha para os visitantes.
— Bom dia a todos. Por favor, não fiquem aí fora no frio, entrem! A casa não é enorme, mas tem espaço para todo mundo.
Conforme o grupo passava pela porta e começava a se acomodar na sala de estar rústica e quentinha, Aerith tomou a frente para fazer as honras. Ela puxou a lutadora pelo braço primeiro, com um sorriso orgulhoso.
— Mãe, essa é a Tifa, minha melhor amiga. — Tifa abriu um sorriso gentil, acenando de forma educada para a dona da casa.
Aerith apontou para o loiro ao lado dela, que mantinha as mãos nos bolsos. — Esse é o Cloud.
Depois, ela gesticulou para o grandalhão que agora colocava a garotinha no chão da sala. — Esse é o Barret, e essa princesa linda com ele é a Marlene.
Por fim, ela virou a mão na direção do homem alto e de postura firme que acabara de fechar a porta da rua. — E esse é o Angeal.
Elmyra terminou de cumprimentar a todos, o olhar curioso avaliando o grupo inusitado que agora ocupava sua sala de estar.
— E como foi que você conheceu toda essa gente, Aerith? — ela perguntou, cruzando os braços com um sorriso maternal.
— Eu conheci a Tifa primeiro — Aerith respondeu, sorrindo para a amiga. — Nós começamos a conversar e foi ela quem me recomendou ir visitar o Sétimo Céu. Depois disso, acabei frequentando o bar e conhecendo o resto do pessoal por lá.
Elmyra assentiu, virando-se para Tifa com um olhar de aprovação.
— Fico feliz que ela tenha feito boas amizades. O Sétimo Céu parece ser um lugar acolhedor.
Antes que a conversa se estendesse para detalhes que o grupo não poderia compartilhar, Barret deu um passo à frente. O grandalhão pigarreou, tentando suavizar a voz rouca para não assustar a dona da casa, mantendo o tom o mais casual possível.
— Dona Elmyra, a gente agradece muito a hospitalidade — Barret começou, lançando um olhar rápido para Marlene, que já estava distraída olhando os porta-retratos no móvel da sala. — Nós viemos até aqui porque precisamos resolver uns assuntos de trabalho. Uma pendência nossa que exige que a gente viaje por uns dias.
Ele fez uma pausa, os ombros largos encolhendo levemente em uma postura quase vulnerável.
— A questão é que a estrada não é lugar pra ela. A Aerith garantiu que não tinha lugar mais seguro e tranquilo do que aqui. A senhora... se importaria de cuidar da Marlene pra mim enquanto a gente resolve esse problema?
Elmyra olhou para Barret, depois para a garotinha, e um sorriso doce tomou conta de seu rosto.
— É claro que eu cuido dela. Mas com uma condição — ela cruzou os braços, assumindo um tom maternal irredutível. — Vocês vão jantar aqui e passar a noite. Não vou deixar ninguém voltar para a estrada com o estômago vazio e sem descansar direito.
Aerith não hesitou. Ela se adiantou e deu um abraço apertado em Elmyra.
— Pedido de mãe é uma ordem!
A noite caiu tranquila sobre Kalm. Na sala de estar aquecida pela lareira, o grupo aguardava o jantar. Enquanto arrumavam a mesa na sala de jantar integrada, Elmyra não perdeu a chance de avaliar os rapazes em voz baixa, mas não baixa o suficiente.
A mulher olhou de relance para Barret, que distraía Marlene com uma almofada. Barulhento e já tem a vidinha dele com a filha. Depois, os olhos foram para Cloud, que conversava baixo com Tifa. Muito novo e cheio de carga emocional. Por fim, o olhar de Elmyra parou em Angeal. O veterano mantinha a coluna reta, a educação impecável mesmo sentado relaxado no sofá da sala.
— Agora, um homem maduro, centrado e com boa postura... — Elmyra comentou com a filha, apontando o queixo sutilmente para Angeal. — Esse seria o tipo exato para botar o seu espírito no lugar, Aerith.
Aerith riu baixinho, carregando os últimos pratos para a mesa. Ela se aproximou de onde Cloud e Tifa estavam sentados lado a lado. Ao colocar os pratos na frente dos dois, a florista sorriu, pegou a mão do loiro e a de Tifa, juntando as duas sobre a madeira da mesa.
— Acho que você tem até razão, mãe... — Aerith concordou, abrindo um sorriso sapeca e piscando um olho para Tifa. — Loiros definitivamente não combinam comigo.
No sofá, Angeal deu um sorriso envergonhado, desviando o olhar e pigarreando, visivelmente desconcertado com a avaliação direta de Elmyra. Ao lado dele, Barret deu um tapinha pesado no ombro do veterano, soltando uma risada grossa e abafada.
— É, grandão... parece que sobrou pra ti.
Elmyra, ouvindo a brincadeira da filha com Tifa e Cloud, ergueu uma sobrancelha enquanto colocava a travessa fumegante no centro da mesa.
— Então quer dizer que você concorda comigo, mocinha? — Elmyra questionou, cruzando os braços com um sorriso desafiador e sugestivo.
Aerith deu uma risada leve, voltando para o lado da mãe para terminar de distribuir os talheres.
— Ah, mãe, eu ainda sou muito jovem para sossegar! Tenho muita coisa para ver. O Angeal precisa casar com uma mulher madura, que tenha a mesma postura e saiba acompanhar o ritmo dele de verdade. Se fosse comigo, eu ia acabar dando muito trabalho pra ele.
No sofá, Angeal apenas esfregou a nuca, abaixando a cabeça para esconder um meio sorriso resignado, enquanto Barret ainda ria baixo ao seu lado.
Elmyra suspirou, o olhar perdendo um pouco do tom de brincadeira e ganhando uma doçura nostálgica. Ela apoiou as mãos no encosto de uma das cadeiras.
— Ah, a juventude... Sabe, quando eu conheci o meu marido, eu também achava que tinha todo o tempo do mundo pela frente. Ele também era militar. — Elmyra olhou brevemente para as posturas de Angeal e Cloud, lembrando-se de um passado distante. — Nós nos apaixonamos de forma tão natural. E num piscar de olhos, já tínhamos construído uma vida juntos. Ele foi para o front na guerra e não voltou, me deixou muito cedo... mas cada segundo ao lado dele valeu a pena. A gente acha que tem muito tempo, mas quando a pessoa certa aparece, a vida acontece mais rápido do que a gente imagina.
Um silêncio respeitoso e caloroso tomou conta do ambiente. Aerith abraçou a mãe de lado, deitando a cabeça no ombro dela por um instante, transmitindo todo o afeto e conforto silencioso que só as duas dividiam.
Logo depois, o clima voltou a se aquecer com o aroma da comida servida, e todos se acomodaram ao redor da mesa farta. O peso da missão foi temporariamente deixado na soleira da porta, e o jantar transcorreu leve, preenchido apenas por assuntos triviais. Tifa elogiou incansavelmente o tempero do ensopado de Elmyra, Barret tentava convencer a todos de que o clima em Corel era mil vezes mais quente que o de Midgar, e Aerith arrancava risadinhas de Marlene fazendo caretas enquanto a menina mastigava os vegetais. Era um momento de paz absoluta e conversas mundanas, onde o grupo pôde, por algumas horas, apenas ser uma família ao redor da mesa.
Com o fim do jantar e o cansaço da viagem finalmente cobrando o preço, a casa de Elmyra precisou de algumas adaptações rápidas para acomodar todos. Barret e Marlene ficaram no pequeno quarto de hóspedes, com o grandalhão roncando baixo em uma cama que mal suportava seu tamanho, mas em paz por ter a filha segura. Angeal, mantendo seu instinto de vigilância, optou pelo sofá da sala. Cloud e Tifa improvisaram um espaço confortável com grossos cobertores e travesseiros no tapete felpudo do escritório, aproveitando o calor da lareira próxima. Aerith, naturalmente, voltou para o seu antigo quarto de infância.
A florista estava sentada na beira da cama, escovando os cabelos castanhos devagar sob a luz fraca do abajur, quando a maçaneta girou. Elmyra entrou em silêncio e encostou a porta, caminhando devagar até se sentar ao lado da filha.
O clima descontraído do jantar já havia se dissipado, dando lugar à angústia materna que Elmyra tentou esconder a noite toda.
— Você vai mesmo partir com eles amanhã, não vai? — Elmyra começou, a voz baixa e embargada.
Aerith parou de escovar o cabelo e abaixou as mãos, olhando para a mãe com uma doçura tranquila.
— Eu preciso, mãe.
Elmyra abaixou a cabeça, as mãos tremendo levemente sobre o colo.
— Sabe... todos aqueles anos atrás, quando meu marido foi para o front... eu passava os dias inteiros sentada naquela estação de trem. Todos os dias. Só esperando ele voltar para casa. Mas ele nunca voltou. Apenas recebi um papel oficial e aquele silêncio horrível. — Ela ergueu o rosto, os olhos brilhando com as lágrimas contidas. — E agora eu olho para você, seguindo esses rapazes, entrando nessa escuridão... e sinto exatamente o mesmo aperto no peito. Eu não aguentaria passar por isso de novo. Eu tenho muito medo de perder você, Aerith.
Ouvir o desabafo quebrou qualquer barreira. Aerith deixou a escova de lado e segurou as mãos da mãe, apertando os dedos dela com firmeza e carinho.
— Você não vai me perder — Aerith disse, a voz soando não como uma promessa vazia, mas com uma certeza inabalável. — Eu não sou um soldado indo para uma guerra por dinheiro ou ordens de corporações. O Planeta está me chamando, mãe, e eu sei exatamente o que eu preciso fazer.
Ela enxugou uma lágrima que escorreu pelo rosto de Elmyra, sorrindo de forma reconfortante.
— Não precisa esperar na estação de trem por mim. Eu prometo que vou voltar para casa. E, até lá... cuida bem da Marlene por nós, tá bom? Ela precisa muito de um lugar seguro agora.
Elmyra soltou um suspiro trêmulo, rendendo-se à teimosia compassiva da filha. Ela puxou Aerith para um abraço apertado e demorado, fechando os olhos com força, tentando gravar na memória o cheiro e o calor da filha, rezando para que o Planeta realmente a trouxesse de volta.



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