O ar no laboratório clandestino — cravado nas profundezas esquecidas do Setor 6, muito abaixo do apodrecimento das favelas — era uma massa espessa e sufocante. Cheirava a ozônio queimado, formol e à putrefação doce de carne exposta. O ambiente inteiro tremia sob o zumbido insuportável de maquinários roubados e interligados de forma caótica. Tubulações de vidro e aço bombeavam um líquido esverdeado, espesso e incandescente, iluminando o espaço com uma aura tóxica.
No centro daquele inferno científico, o Professor Hojo não era mais humano.
Sua espinha dorsal estalava, projetando-se contra o tecido rasgado do jaleco encardido. De suas escápulas, irrompiam duas asas repulsivas e assimetricamente deformadas. A esquerda era uma abominação de couro grosso, semelhante à de um morcego gigantesco, vertendo um fluido escuro e corrosivo; a direita era um emaranhado de penas negras manchadas de Mako e ossos pontiagudos que se moviam em espasmos doentios. Ele andava de um lado para o outro, arrastando os pés, enquanto seus múltiplos olhos avermelhados na lateral do rosto derretido piscavam de forma frenética.
— Cortem a energia... desliguem as máquinas... — Hojo sibilou, a voz distorcida, multiplicando-se em um eco metálico e gutural que parecia rasgar sua própria garganta. — Tolos! Insetos de terno sentados em suas mesas de vidro! Eles acham que podem matar um deus de fome fechando as torneiras!
Ele ergueu os braços, cujos dedos longos e cadavéricos terminavam em garras ossudas, como um maestro regendo uma sinfonia de puro horror. Ao seu redor, tanques de imersão rachados jorravam Mako no chão de cimento. Dentro deles, as silhuetas das novas criações se debatiam. Eram abominações perfeitamente desenhadas para o caos: Crimson Stalkers, bípedes grotescos com carapaças blindadas fundidas diretamente na pele esfaimada e lâminas ósseas no lugar dos braços; e Grief-Hounds, feras quadrúpedes que não tinham focinhos, mas sim mandíbulas desarticuladas que imitavam rostos humanos distorcidos em puro terror, babando um ácido esverdeado que corroía a grade de metal do piso.
— A energia não vem de cabos, seus vermes medíocres... vem DELA! — Hojo soltou uma gargalhada aguda e histérica, jogando a cabeça para trás. A ressonância das células em seu sangue vibrava em perfeita harmonia com o fluxo contínuo do planeta. — Ela canta para mim. O sangue do planeta, o fluxo vital... tudo isso converge para a perfeição celular. Eu não sou mais um cientista patético da Shinra. Eu sou o catalisador! O ápice biológico! E se a cidade se recusa a curvar-se diante da evolução, então eu farei com que Midgar engasgue na própria ignorância!
Com um movimento brusco de sua asa de couro, ele esmagou o painel de controle mestre. As válvulas principais do laboratório se romperam. O Mako concentrado não estava mais sendo refinado; ele estava sendo expurgado sob pressão máxima diretamente para a rede de esgotos da cidade, subindo para as ruas como uma praga inescapável.
O apagão atingiu o Setor 8 como um soco no escuro.
As luzes de neon dos letreiros, os painéis da Shinra e a iluminação dos postes morreram simultaneamente. O breu total durou apenas o tempo suficiente para o pânico se instalar, sendo rapidamente substituído por uma claridade espectral e nauseante. Das grades dos bueiros e das frestas do asfalto quebrado, o Mako bruto começou a transbordar, inundando as ruas não como vapor, mas como uma lama líquida, densa e brilhante que queimava as solas dos sapatos de quem pisasse nela.
O som das sirenes de evacuação uivava nos alto-falantes de emergência, misturando-se aos gritos da multidão que corria em desespero, empurrando-se contra os portões de acesso para os trens.
— Saam da frente! Liberem a porra do corredor leste! — Reno gritou, a voz rasgando a balbúrdia.
O Turk de cabelos ruivos girou o Magne-Rod, a ponta da arma crepitando com eletricidade azul. Com um movimento ágil, ele desferiu um golpe horizontal contra uma massa amorfa de carne mutante que havia acabado de rastejar para fora de um bueiro transbordando de Mako. O choque elétrico fritou a criatura, jogando-a contra a parede de concreto, enquanto Reno cuspia no chão, o suor colando os fios ruivos na testa.
— Sério, chefe... eu não sou pago o suficiente pra virar bombeiro de esgoto radioativo! — Reno esbravejou, ajeitando a jaqueta desabotoada enquanto chutava a carcaça fumegante da besta para liberar a passagem para um grupo de civis aterrorizados. — O que diabos os velhotes da diretoria estavam pensando quando deixaram aquele cientista maluco solto nas tubulações?!
Rude não respondeu de imediato. A postura do homem de terno impecável e óculos escuros contrastava com a barbárie ao redor. Quando um Grief-Hound saltou do telhado de uma loja direto em direção a uma mulher que tentava arrastar o filho pela calçada, Rude sequer sacou uma arma. O Turk plantou os pés no asfalto molhado, girou o tronco e desferiu um soco limpo e avassalador no ar.
O impacto brutal de seus nós dos dedos encontrou a mandíbula escancarada da fera. O som de osso estilhaçando foi alto e seco; a criatura foi arremessada a metros de distância, caindo morta na poça esverdeada.
Rude ajeitou a gola do terno manchado de sangue alheio e virou o rosto rígido na direção do parceiro.
— Apenas ande, Reno. A diretoria já não controla mais nada. — A voz grave de Rude cortou o barulho das sirenes. Ele olhou para o Mako que continuava a subir das ruas, inundando as botas de couro. — A cidade está afundando.
Um alarme contínuo e ensurdecedor cortou o ar, não o uivo oscilante de evacuação, mas a sirene de calamidade classe A, um som tão agudo que fazia os dentes vibrarem na mandíbula. Antes mesmo que Reno pudesse reclamar do barulho, o asfalto tremulou violentamente sob suas botas.
A ponte suspensa que ligava a avenida principal ao setor comercial simplesmente explodiu de baixo para cima.
Do meio da nuvem de concreto pulverizado e aço retorcido, ergueu-se um Goliath-Amalgam — uma aberração colossal, fruto dos delírios mais sombrios de Hojo. Era um bípede corcunda, com mais de seis metros de altura, cuja carne pálida e borbulhante havia sido fundida grotescamente à carcaça de um tanque blindado da Shinra. Tubos de ventilação cravados diretamente em sua espinha expeliam um vapor denso e altamente radioativo de Mako. O braço direito era um pilar de músculos hipertrofiados com garras de osso cru, enquanto o esquerdo era uma fusão caótica de lâminas e cabos de aço pulsantes.
Com um único movimento de varredura do braço laminado, a criatura destruiu a fachada inteira de um prédio comercial. Corpos de civis que tentavam se abrigar sob as marquises foram arremessados pelo ar como bonecos de pano, caindo inertes no asfalto inundado. Outros, gravemente feridos pela chuva de estilhaços, desabavam no chão, gritando em agonia enquanto o sangue se misturava à lama esverdeada que continuava a brotar dos bueiros.
Reno e Rude estancaram o passo por um milésimo de segundo, os olhos arregalados sob a luz tóxica. O choque inicial deu lugar ao instinto treinado por anos de carnificina, e ambos dispararam a toda velocidade em direção ao epicentro do massacre.
— Tire os sobreviventes do raio de alcance! — Rude ordenou, a voz grave não admitindo recusa enquanto ele removia os óculos escuros com uma lentidão calculada, guardando-os no bolso interno do paletó para não quebrá-los. — Eu seguro essa coisa.
Reno estalou a língua em frustração, mas não contestou a logística. Ele mergulhou no meio do caos, deslizando na lama brilhante para desviar de escombros em chamas. Agarrou uma mulher pelo colarinho do casaco, arrastando-a para trás de uma barricada de concreto tombada, e no movimento seguinte, puxou um garotinho pelo braço, arrancando-o do caminho de um bloco de pedra que desabou a centímetros de suas cabeças.
O menino, com o rosto sujo de fuligem e banhado em lágrimas, olhou boquiaberto para o terno desgrenhado de Reno e para o Magne-Rod que crepitava eletricidade em sua mão. Os olhos da criança brilharam em um misto de terror e pura idolatria.
— Você... você é um Turk! — o garoto gritou, a voz esganiçada pela emoção, apontando com o dedo trêmulo para ele. — A elite da Shinra! O senhor veio salvar a gente! Vocês são heróis!
Reno bufou, rolando os olhos com força enquanto empurrava o moleque sem a menor delicadeza para trás da parede de concreto, jogando-o no colo da mãe ferida.
— Herói é o cacete, pirralho. Eu sou só um funcionário público puto da vida fazendo hora extra não remunerada — Reno cuspiu as palavras, fazendo pouco caso da cena dramática com um aceno desdenhoso da mão livre. — Fica quietinho aí e não põe o nariz pra fora, ou vai virar geleia de Mako.
A poucos metros dali, Rude iniciava seu embate titânico. O Goliath-Amalgam urrou, erguendo o braço colossal de músculos para esmagar o Turk contra o asfalto. Rude não recuou um único milímetro. Ele flexionou os joelhos, enraizando o corpo no chão, e, no exato segundo em que o punho da criatura desceu, cruzou os braços em um bloqueio absoluto em forma de "X".
O impacto foi sísmico. A rua rachou em teias de aranha ao redor dos pés de Rude, afundando o concreto, mas a muralha humana não cedeu. Aproveitando a brecha de força do monstro, Rude usou a inércia do golpe para deslizar para a lateral da besta. Ele canalizou seu ki, os punhos envoltos em uma aura densa e esmagadora, e desferiu uma sequência de golpes implacáveis contra as articulações dos joelhos da fera. Cada soco do Turk soava como uma bomba detonando debaixo d'água, rachando a cartilagem espessa e fazendo a aberração urrar de dor, forçando-a a ajoelhar-se em uma poça do próprio ácido.
Mas a besta não havia terminado. Em um acesso de fúria cega, o monstro girou o torso inteiro, atingindo Rude com a lateral da carcaça blindada fundida em suas costas. O Turk foi arremessado brutalmente para trás, rasgando o asfalto com o próprio corpo antes de rolar, fincando as botas no chão para conseguir frear a queda. Seu terno impecável estava agora rasgado no ombro, o fôlego saindo pesado e ofegante, e um fio de sangue escorria pelo canto da boca.
A criatura ergueu-se cambaleante, o peito estufando enquanto acumulava uma carga borbulhante de energia Mako no tubo de sua garganta, pronta para desintegrar Rude de uma vez por todas. O Turk tentou firmar as pernas, os músculos gritando de exaustão pelo esforço de ter contido dezenas de toneladas na pura força braçal.
Foi quando uma sombra ruiva cruzou o ar por cima dele.
— Surpresa, feioso! — Reno berrou em pleno salto acrobático.
Ele havia sobrecarregado o núcleo de seu Magne-Rod com uma Materia de Trovão no nível máximo de conjuração. A arma zumbia violentamente, coberta por arcos de eletricidade azul e branca que cegavam os olhos. Aproveitando que o monstro estava totalmente focado no parceiro exausto, Reno aterrissou diretamente nas costas da criatura, cravando o bastão elétrico com toda a força bem no centro da válvula de ventilação de Mako exposta na nuca do gigante.
— Engole essa!
Reno girou a trava de liberação de carga de sua arma e saltou para trás no segundo seguinte. A voltagem colossal atravessou o sistema nervoso da besta, entrando em curto-circuito catastrófico com a energia Mako concentrada ali dentro. O Goliath-Amalgam travou no lugar, emitindo um guincho metálico enquanto os olhos arregalados estouravam nas órbitas, antes que o corpo inteiro detonasse de dentro para fora em uma explosão úmida e visceral, espalhando uma chuva de carne carbonizada e metal derretido por todo o quarteirão.
O ar pareceu ter ficado repentinamente rarefeito. Rude mal teve tempo de sacudir a poeira das mangas esfarrapadas de seu terno quando a vibração recomeçou. Não era o tremor residual da explosão do Goliath; era um pulso rítmico, grave e nauseante, que emanava diretamente do núcleo das poças de Mako sob suas botas, como o bater de um coração gigantesco entalhado nas tubulações da cidade.
— Merda. — Reno murmurou, girando o Magne-Rod nas mãos enquanto recuava dois passos lentos, colocando-se costas a costas com Rude.
A lama esverdeada ferveu no centro da avenida, borbulhando com uma violência rítmica, como um pulmão doente respirando sob a rua. O asfalto cedeu com um estalo surdo e três pilares de luz purpurada irromperam das fendas, rasgando a névoa metálica e banhando os destroços com um brilho espectral. A pressão no ar despencou de imediato, tornando-se tão densa e gélida que cada lufada de oxigênio parecia rasgar a garganta, trazendo um cheiro de ozônio misturado ao odor adocicado de carne antiga.
Quando a luz doentia finalmente começou a se dissipar, a silhueta do que emergiu da cratera desafiava qualquer lógica biológica, evocando um horror silencioso e instintivo que fez o sangue dos Turks gelar.
Eram três silhuetas. Do pescoço para cima, ostentavam uma beleza celestial, perturbadora e irretocável: peles de porcelana perfeitamente lisas, lábios cheios, rostos simétricos em uma expressão de serenidade blasfema, e longos cabelos prateados que flutuavam no ar desafiando a gravidade, como se estivessem submersas em um oceano invisível. No entanto, a aura divina terminava de forma abrupta e repulsiva na altura das clavículas.
A primeira criatura flutuava; não possuía braços ou pernas, seu torso nu e translúcido desfazia-se em uma saia de dezenas de tentáculos de carne viva e cordões nervosos latejantes que chicoteavam o chão. A segunda exibia quatro braços atrofiados que terminavam em gigantescas foices de osso negro, caminhando sobre pernas invertidas e retorcidas para trás, como as de um sátiro macabro. A terceira, a mais corpulenta delas, tinha o tronco de uma deusa fundido a um gigantesco abdômen aracnídeo inchado de quitina transparente, deixando à mostra dezenas de órgãos internos que brilhavam com a toxina do Mako.
As três abriram os olhos simultaneamente. Não havia íris ou pupilas, apenas um vácuo negro. Elas escancararam as mandíbulas delicadas, revelando fileiras de dentes pontiagudos, e emitiram um guincho harmonioso e estridente — um coral de agonia e fúria que estilhaçou o restante das janelas de vidro do quarteirão.
A criatura de tentáculos disparou. Os chicotes de carne rasgaram o ar com um estalo supersônico. Reno mergulhou para a esquerda, rolando pela lama brilhante no exato milésimo de segundo em que o asfalto onde ele estava foi pulverizado em crateras. Apoiando-se em um joelho, o ruivo engatilhou o Magne-Rod, disparando uma esfera de plasma azul que explodiu no peito da aberração. Ela foi empurrada para trás, mas usou os tentáculos para se cravar nas paredes dos prédios ao redor, segurando-se no ar enquanto guinchava com a voz distorcida de dezenas de vozes femininas sobrepostas.
Ao mesmo tempo, a criatura das foices avançou contra Rude. O som do osso arrastando nas pedras era horripilante. Ela saltou, os quatro braços descendo como um moedor de carne. Rude plantou os pés firmemente no chão e cruzou os antebraços pesados, bloqueando a primeira dupla de foices com a blindagem de suas luvas. O impacto espalhou faíscas. Ele tentou um gancho de direita no torso da aberração, mas ela era ágil demais; usou as outras duas lâminas para fatiar o ar em um arco perfeito, forçando o grandalhão a recuar bruscamente. Um dos golpes passou raspando por seu tórax, rasgando o colete de kevlar e desenhando uma linha fina e sangrenta em seu peito.
A besta aracnídea não ficou apenas assistindo. Apoiada nos escombros, ela ergueu o abdômen luminescente e começou a vomitar esferas de ácido de Mako concentrado, que caíam do céu como morteiros.
— Reno. Movimento! — Rude rosnou, esquivando de uma explosão esverdeada que derreteu a carcaça de um carro abandonado logo atrás dele.
— Quebrando a linha! — Reno rebateu, usando os escombros como rampa de parkour para escapar do cerco de tentáculos que brotavam de todos os lados tentando empalá-lo. Ele corria pelas paredes, desafiando a gravidade.
A criatura dos tentáculos mergulhou novamente, pronta para esmagar Reno. O ruivo deslizou sob o bote mortal, fincou a bota na lateral de um pilar tombado e usou o impulso para saltar de encontro ao rosto belo e sereno da anomalia. Com um urro, Reno cravou o bastão energizado com carga máxima bem na bochecha de porcelana da criatura. O choque de altíssima voltagem fritou o lado direito da face celestial, fazendo o monstro despencar no chão, contorcendo-se em espasmos violentos.
A pequena vitória cobrou seu preço de imediato. A criatura aracnídea interceptou o salto de Reno e disparou uma teia de tendões pegajosos que grudou na perna do Turk ainda no ar, puxando-o com uma violência descomunal de cara contra o asfalto. O ruivo engasgou, a dor cortando o fôlego, enquanto a quimera-aranha abria as mandíbulas, pronta para rasgá-lo ao meio.
— Reno! — Rude berrou.
Ignorando completamente a besta de foices que tentava decapitá-lo, o grandalhão virou as costas para o perigo, focando na salvação do parceiro. Ele canalizou cada gota de seu Ki restante nos ombros e punhos. Uma das foices cravou profundamente em sua omoplata esquerda, espirrando sangue quente, mas Rude sequer vacilou. Girando o tronco como uma rocha imparável, ele desferiu um soco titânico diretamente contra o solo de concreto.
O impacto foi devastador. A onda de choque sísmica levantou placas inteiras da rua em uma erupção de terra e aço. A vibração brutal rasgou o terreno sob as três aberrações ao mesmo tempo. A criatura das foices perdeu o centro de gravidade de suas pernas invertidas, caindo desequilibrada; a aracnídea foi arremessada contra uma vitrine blindada, soltando a teia que prendia a perna de Reno no processo.
Aproveitando a janela de um segundo de tempo que o sangue e a força de Rude haviam comprado, Reno se soltou da teia, rolando de costas e disparando para cima. Ele sacou três minas eletromagnéticas do cinto e as arremessou num triângulo perfeito ao redor da besta aracnídea e da criatura com foices.
As minas travaram no solo e ativaram-se num estrondo sonoro. A Neo-Turk Pyramid subiu, criando uma prisão de feixes de laser elétrico incandescente que trancafiou os dois monstros no centro da rua.
Rude não parou. Movendo-se como um trem desgovernado, o grandalhão marchou contra a criatura de foices que agora estava presa. A besta guinchou e tentou atacar através da parede de energia, mas Rude agarrou os braços ósseos dela com as mãos nuas. Ignorando a dor das bordas irregulares que cortavam suas palmas, ele as quebrou na base da força bruta, ouvindo o estalo alto do osso cedendo. Em seguida, puxando o corpo da criatura contra a barreira elétrica, Rude desferiu um gancho fulminante de baixo para cima. O punho colossal estourou o rosto de porcelana da criatura como vidro oco, espalhando uma poeira prateada e Mako fervente.
A aracnídea guinchou em luto e fúria, debatendo-se contra as paredes da gaiola de choque.
Reno se aproximou mancando, o peito arfando pesadamente, o terno arruinado e o rosto sujo de lama e sangue escuro. Ele engatilhou o Magne-Rod pela última vez, conectando a base da arma diretamente ao núcleo externo da pirâmide de luz.
— Cancelem a reserva... inferno lotado. — Reno arfou, abrindo um sorriso sádico e exausto.
Ele puxou a trava de sobrecarga do bastão. A pirâmide implodiu em um vórtice de relâmpagos brancos e azuis. A eletricidade desintegrou a criatura aracnídea e consumiu o que restava da aberração de tentáculos, que tentava se rastejar para salvar a companheira. O brilho da detonação iluminou as ruínas de Midgar antes de se extinguir em um estampido seco, deixando para trás apenas poças de Mako evaporando, estilhaços de osso negro e os dois Turks de pé, ofegantes, em meio à fumaça e à lama.
Da poeira prateada e dos fragmentos de porcelana estilhaçada que cobriam o asfalto, algo antinatural se recusou a morrer. A lama de Mako ferveu uma última vez, e das carcaças desintegradas, uma névoa negra, espessa e oleosa começou a vazar.
Não era apenas fumaça. A substância escura se contorceu de forma grotesca, tomando a forma de espectros disformes que rasgaram o ar denso de Midgar. Aquelas almas corrompidas subiram em espirais caóticas, emitindo gritos agoniantes e desesperados — um lamento esganiçado e ensurdecedor que não soava humano, mas sim como milhares de vozes afogadas em ácido, arranhando os tímpanos dos Turks. As sombras negras subiram freneticamente em direção ao céu poluído, contorcendo-se em pura dor até desaparecerem por completo nas nuvens carregadas e escuras da cidade.
Reno abaixou o Magne-Rod lentamente, os olhos arregalados acompanhando a trilha de fumaça negra sumir no horizonte. O zumbido perturbador daqueles gritos ainda ecoava no fundo de sua mente.
— Mas que porra foi essa...? — o ruivo arfou, limpando um filete de sangue do queixo com as costas da luva rasgada, o peito ainda subindo e descendo com força.
Rude não respondeu. A expressão do grandalhão estava ainda mais sombria do que o normal. Ignorando as dores das fraturas e os cortes que manchavam seu terno, ele enfiou a mão no bolso interno do paletó e puxou o PHS, discando uma linha criptografada de altíssima prioridade direta para a central. O aparelho chamou duas vezes antes do clique seco do outro lado.
— Chefe. — Rude foi direto ao ponto, a respiração pesada marcando o ritmo da urgência. — Limpamos a avenida principal no Setor 8. Mas as aberrações que o Hojo soltou... não são mutações comuns. Quando as quebramos, uma espécie de alma negra e gritante saiu dos destroços e subiu direto para o céu. É como se a essência daquela coisa não morresse, apenas voltasse para a fonte. A evacuação aqui embaixo está um inferno e o Mako não para de vazar das tubulações.
Do outro lado da linha, o som de explosões abafadas e o frenesi de alarmes preenchiam o fundo da transmissão na sede da corporação. A voz de Tseng soou gélida e inabalável, mas com uma urgência cortante que ele raramente deixava transparecer.
— A anomalia se repete por todos os setores inferiores, Rude. O pânico já escalou para os andares superiores. A diretoria executiva entrou em colapso completo; o Presidente exige a contenção imediata, mas eles estão paralisados, sem a menor ideia de como lidar com uma infestação biológica dessa magnitude. — Tseng fez uma breve pausa, e o som de uma porta blindada se fechando isolou o ruído de fundo da ligação. — Esqueçam as ordens de contenção da diretoria. Hojo não soltou bestas soltas, ele armou a cidade inteira para ser um matadouro. Estou isolando a rede de elevadores principais e acionando o protocolo de quarentena total nos pilares de sustentação para atrasar a subida da lama. Foquem exclusivamente em abrir rotas de fuga para os civis nas estações de trem e recuem para o ponto de extração seguro no Setor 4. Eu assumirei o controle da evacuação da torre por conta própria a partir de agora. Se a Shinra não consegue se salvar, os Turks farão o trabalho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário ajuda muito com a continuação da história!! Não deixe de comentar :)