domingo, 28 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capitulo 16

 

A brisa gélida da encosta leste do Vale de Nibelheim cortava o ar, mas o grupo avançava pelas sombras com uma precisão absoluta. A estrutura do reator de Mako se erguia à frente, patrulhada por guardas de segurança da Shinra.
O complexo industrial era uma ferida de metal e tubulações encravada na pedra da montanha. O núcleo do reator emitia um zumbido grave e ininterrupto que fazia o chão vibrar levemente sob as botas, expelindo jatos densos de vapor que tingiam a neblina noturna de um verde doentio. Refletores blindados varriam o perímetro externo em movimentos metódicos, cruzando feixes de luz sobre o pátio de acesso a cada trinta segundos.
O nível de alerta da corporação era evidente. Soldados de infantaria pesada circulavam em duplas coordenadas, cobrindo as docas e as áreas de carga com os rifles destravados. Nas passarelas superiores de metal, atiradores mantinham posição fixa, com visão privilegiada de todo o terreno inclinado. Protegendo as portas blindadas da entrada principal, a ronda era acompanhada por cães de guarda mecânicos, que varriam o ambiente em busca de assinaturas de calor, tornando qualquer tentativa de avanço frontal uma missão suicida.
Sephiroth e Vincent estavam na frente, enquanto Inome e Lucrecia estavam logo atrás. Vincent e Sephiroth analisaram o perímetro, e antes que Sephiroth pudesse falar algo, seu pai complementou: — Previsível. — ele deu um riso seco. — Eu atraio o fogo deles e você os executa.
Sephiroth concordou com a cabeça, dando um sorriso de canto de rosto. — Entendido. Quando quiser, Vincent.
Vincent não hesitou. Ele caminhou para fora do esconderijo com passos calculados, a capa vermelha rasgando a neblina densa como um alvo ambulante. Assim que os cães mecânicos detectaram sua presença e os holofotes convergiram para sua silhueta, o estrondo triplo da Cerberus ecoou pelo pátio. Vincent disparou de forma implacável, estourando os sensores das máquinas e obrigando tanto a infantaria pesada quanto os atiradores das passarelas a despejarem fogo pesado contra ele.
Foi a distração exata. Sephiroth já não estava mais ao seu lado. Movendo-se numa velocidade que os soldados rasos não conseguiam acompanhar, ele surgiu bem na retaguarda da formação da Shinra. O primeiro guarda não teve tempo de gritar antes que a Masamune o partisse ao meio. O caos se instaurou. A infantaria girou os fuzis, abrindo fogo em desespero, mas Sephiroth avançou de frente para o chumbo. Ele desviava das rajadas com giros corporais fluidos, a lâmina prateada rebatendo em faíscas os projéteis que chegavam perto demais.
Do outro lado, Vincent não parou de atirar. Quando dois soldados nas passarelas focaram a mira nas costas do platinado, a Cerberus rugiu em resposta, derrubando ambos e cobrindo o flanco do filho. A sincronia era absoluta, instintiva. Sem trocarem um único olhar, onde o chumbo de Vincent forçava a guarda a recuar ou quebrar a formação, a lâmina de Sephiroth os alcançava. Em questão de segundos, ele fatiou o restante do esquadrão em uma dança letal, cortando armaduras, canos de fuzis e ossos, reduzindo a defesa inteira a metal retorcido no chão do pátio.
Lucrecia assistia àquilo de olhos arregalados. De certa forma, ela soube lá naquela hora que Hojo tinha conseguido treinar a máquina letal que ele tanto almejou. Seu alívio era ver que todo aquele aprendizado ele estava usando para algo bom.
— O caminho está livre. — Vincent avisou, girando a Cerberus com destreza antes de guardá-la no coldre.
Já Sephiroth fez uma varredura visual rápida pela área antes de se aproximar de Lucrecia. — Está ferida? — ele perguntou em um tom baixo e atento, conferindo se a mãe estava bem e em segurança.
Inome correu até o terminal central do reator. Seu objetivo era claro: realizar o shutdown completo do núcleo e paralisar a estrutura. Os dedos dela voavam pelo teclado metálico enquanto quebrava o firewall da corporação.
Enquanto a barra de progresso do desligamento avançava na tela principal, Inome aproveitou a brecha no sistema e abriu a rede confidencial da Diretoria. Sabendo que não podiam carregar nenhum dispositivo eletrônico que os rastreasse, ela fixou os olhos nos documentos, usando toda a sua capacidade analítica para memorizar as rotas de patrulha para Gongaga e a grade atualizada de segurança.
Porém, um arquivo criptografado que piscou na tela prendeu totalmente sua atenção.
SHINRA ELECTRIC POWER COMPANY CLASSIFICAÇÃO: ULTRA SECRETO - ACESSO EXCLUSIVO DA DIRETORIA
REMETENTE: GABINETE DO PRESIDENTE
ASSUNTO: RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO DE DANOS E ANOMALIA DE CONSUMO (HOJO)
SITUAÇÃO GERAL: ESTADO CRÍTICO. Nossa infraestrutura está sob ataque simultâneo em duas frentes. Na capital (Midgar), o grupo extremista Avalanche causou danos severos à rede de energia. No continente, as ações coordenadas de sabotagem do grupo de desertores continuam resultando no desligamento sistemático de nossos reatores periféricos.
ANÁLISE DE IMPACTO NO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS: A expectativa do Alto Comando era que o corte abrupto na rede elétrica forçasse a paralisação das atividades não supervisionadas do Professor Hojo.
CONSTATAÇÃO: Os desligamentos em massa não surtiram efeito. O monitoramento térmico e genético aponta que Hojo continua suas mutações ativas e em ritmo acelerado.
DIRETRIZ FINAL: O fato de o cientista manter suas operações intocadas, mesmo com a rede corporativa em colapso, serve como prova definitiva de que Hojo localizou e está drenando uma fonte massiva e clandestina de energia Mako. A localização dessa fonte é desconhecida. Atualmente, a Shinra se encontra impotente para interromper ou rastrear seu fluxo de recursos.
O zumbido opressivo do reator finalmente cedeu, dando lugar a um silêncio sepulcral que fez os ouvidos zumbirem. As luzes de emergência banharam a plataforma metálica em um tom escarlate enfraquecido. Assim que a tela do terminal escureceu de vez, atestando a morte do núcleo, Inome girou nos calcanhares, a respiração formando pequenas nuvens no ar gelado de Nibelheim.
— Prontos para ir? — ela perguntou, a voz ecoando baixa nas paredes de aço. Ela caminhou rapidamente até Sephiroth, buscando o calor e a presença imponente dele como de costume, parando a centímetros de seu braço.
— Vamos. O perímetro não ficará vazio por muito tempo. — Vincent determinou. A capa rasgada esvoaçou com o vento frio enquanto ele já assumia a liderança, guiando-os para fora das instalações antes que as equipes de varredura chegassem.
O vento uivava pelas fendas da montanha enquanto o grupo se afastava do complexo industrial, embrenhando-se nas sombras da encosta. Foi no meio dessa caminhada áspera pela pedra que Inome quebrou o silêncio tático da fuga.
— Vocês vão adorar saber o que eu descobri... — ela comentou. Um sorriso agridoce e exausto brincou em seus lábios, contrastando fortemente com a gravidade da revelação.
— O que houve? — Lucrecia indagou, a voz soando um pouco trêmula pelo frio e pela caminhada acelerada. Ela virou o rosto pálido na direção da nora, os olhos castanhos atentos.
— O Presidente está em desespero total. Mesmo com uma tal de Avalanche desligando as coisas na capital e nós aqui no continente desligando os reatores, as atividades e mutações do Hojo não pararam. Os relatórios provam que ele encontrou uma fonte clandestina e inesgotável de Mako. Ele está drenando a energia por conta própria, e a Shinra não faz a menor ideia de onde essa fonte fica. A corporação está cega.
A menção ao nome de Hojo e à sua força irrefreável atingiu Lucrecia como um golpe físico. Os fantasmas sombrios do laboratório assombraram sua mente de imediato. Seus passos vacilaram nas pedras irregulares, as pernas perdendo a força sob o choque. Ela teria ido ao chão se não fosse o reflexo absoluto de Vincent. A mão dele a amparou com firmeza, e ela se agarrou ao antebraço do atirador, apertando o tecido escuro e respirando fundo para recuperar o fôlego e o equilíbrio.
— O que ele quer... com tanto Mako... — ela sussurrou, incrédula. O pavor de saber que o monstro de seu passado continuava evoluindo nas sombras era palpável.
— Provar sua superioridade absoluta. — Sephiroth pontuou, a voz fria cortando a neblina. Os olhos felinos brilharam na escuridão, varrendo o rosto assombrado da mãe e a postura rígida do pai. — A arrogância dele sempre foi sua bússola. Me lembro das campanhas no arquipélago de Rhadore. Enquanto nossos soldados morriam na lama, sufocando no sangue e na pólvora, Hojo ficava recluso e seguro atrás de seus monitores. Ele tratava o alto escalão militar com total desprezo. Para ele, as tropas e os comandantes no campo de batalha não passavam de carne descartável, meros ratos de laboratório cuja única utilidade era gerar dados de combate para suas pesquisas. Ele genuinamente acredita que o mundo inteiro é sua placa de Petri.
O ranger metálico da garra de Vincent ecoou baixo, os dedos dourados se fechando em punho. Seus olhos vermelhos queimavam sob a sombra dos cabelos revoltos.
— Ele é a verdadeira doença daquela corporação. — Vincent rosnou, a voz grave vibrando com um ódio antigo e visceral. — Precisamos neutralizá-lo. E logo.
Um mês se passou desde a noite gélida no Vale de Nibelheim. O grupo conseguiu cruzar a fronteira da região de Gongaga escondido na caçamba de um caminhão de carga enferrujado, cujo motorista aceitou um punhado de gil para não fazer nenhuma pergunta sobre os passageiros.
A transição de clima foi brutal. O frio deu lugar a uma selva densa, onde o calor abafado e a umidade batiam como uma parede. O terreno era um labirinto instável de lama grossa, cipós e raízes retorcidas gigantescas. Guiando-se pelas memórias de Lucrecia, eles cortaram caminho por dentro da mata fechada, apenas para encontrar um cenário de destruição: o reator local, que a cientista lembrava das antigas plantas da Shinra, havia explodido anos atrás. O que restava era uma carcaça de metal em ruínas, com o solo ao redor apodrecido e tomado por poças estagnadas de energia Mako.
A contaminação não destruiu apenas a terra, mas tornou a fauna extremamente agressiva. A emboscada aconteceu em uma fração de segundo.
Três Grand Horns — bestas maciças cobertas por carapaças rochosas e chifres frontais afiados — romperam a folhagem em um avanço cego. Vincent e Sephiroth reagiram de imediato, assumindo a frente. O estrondo triplo da Cerberus ecoou pela selva enquanto a Masamune fatiou o ar úmido, interceptando as duas maiores criaturas antes que chegassem perto.
No entanto, com a desordem do terreno, o terceiro monstro conseguiu contornar a linha de frente. Com os olhos brilhando em um verde doentio, a fera investiu com fúria brutal direto na direção de Lucrecia, que havia ficado exposta na retaguarda.
Inome agiu puramente no reflexo da adrenalina.
Ignorando a lama e os próprios limites físicos, ela correu, agarrando a sogra pelos ombros e a empurrando com força para trás de uma raiz colossal. As duas caíram no chão úmido, e antes mesmo que o monstro pudesse frear a investida para mudar a rota, Inome rolou sobre o joelho, sacou sua arma e abriu fogo. Os tiros rasgaram a selva, atingindo a carapaça e o rosto da criatura, não para matá-la, mas para atordoá-la e forçar o recuo.
A distração gerou os segundos que faltavam. Uma sombra preta e outra vermelha cortaram a umidade do ar por cima das duas mulheres. Vincent aterrissou disparando à queima-roupa no olho do monstro, estourando a defesa da fera. No mesmo instante, Sephiroth desceu como um raio de prata, cravando a Masamune de cima a baixo na espinha da criatura. A lâmina atravessou ossos e solo, finalizando a besta em um único golpe limpo. O silêncio voltou a reinar na selva, quebrado apenas pelo chiado do vapor de Mako das ruínas.
A adrenalina começou a baixar, dando lugar a uma pontada aguda e implacável na base da coluna de Inome. Ela tentou disfarçar, mas um gemido contido escapou por entre seus dentes enquanto tentava se apoiar na raiz úmida.
Ao ver a expressão de pura dor e desconforto marcando o rosto da esposa, Sephiroth guardou a Masamune em um movimento fluido e no segundo seguinte já estava ao lado dela. Ignorando a lama, ele a amparou pelos braços com extrema delicadeza e a ajudou a se levantar, abrigando-a contra o próprio corpo para aliviar a tensão que ela fazia nas pernas.
— Está ferida? — Sephiroth perguntou, a voz assumindo um tom baixo e estritamente clínico, embora o instinto protetor fosse absoluto. Seus olhos felinos varriam cada centímetro dela em alerta máximo.
Ela disse firmemente, frustrada. Odiava se sentir um alvo no campo de batalha. — Só com dores nas costas...
A poucos metros dali, Lucrecia também se reerguia, apoiando-se na garra dourada de Vincent, que a puxou com firmeza para longe do solo contaminado. A cientista espanou a sujeira das roupas, o olhar varrendo as ferragens retorcidas, o concreto despedaçado e as poças esverdeadas que tomaram conta do que um dia foi uma instalação de ponta.
— Enterrado na própria ruína... — ela murmurou, a voz sombria ao constatar o legado de destruição. — Não restou nada aqui.
Ela caminhou devagar por entre os escombros do núcleo. A memória muscular a guiou até um painel caído e, logo abaixo dele, uma caixa de metal reforçado, projetada para resistir a desastres. Com toques precisos nas travas mecânicas que a ferrugem não conseguiu selar totalmente — inserindo um velho código analógico de acesso padrão do Departamento de Ciências —, a tampa cedeu com um estalo seco.
Dentro, parcialmente protegidos da umidade, repousavam arquivos mofados e pastas de couro sintético. Eram relatórios antigos sobre os primeiros testes de saturação de Mako na fauna local e rascunhos rasurados com a letra inconfundível de Hojo sobre anomalias celulares. Era a prova de que a contaminação da selva não era apenas um acidente, mas um experimento engavetado.
Vincent não olhou para os papéis. Seus olhos vermelhos continuaram varrendo as sombras fechadas da selva ao redor, a mão direita descansando a milímetros do coldre da arma, farejando qualquer outra ameaça na mata.
— Que apodreça junto com o resto da corporação. — Vincent sentenciou, a voz grave cortando o silêncio sem desviar a atenção do perímetro. — Um reator a menos.
A marcha extenuante pela selva úmida continuou até que o terreno instável finalmente deu lugar a uma clareira plana, escondida sob a copa espessa das árvores. Todos ajudaram a montar as cabanas, esvaziando as mochilas cheias de suprimentos. Com as estruturas erguidas, o grupo se dividiu. Enquanto Lucrecia ajeitava os galhos secos para a fogueira e Vincent mantinha sua atenção redobrada aos arredores, Sephiroth e Inome já estavam sentados lado a lado no interior de uma das tendas, esticando os cobertores térmicos sobre o chão.
Inome tentava ignorar a exaustão enquanto arrumava as malhas, mas o esforço repentino fez sua lombar ceder. Ela curvou as costas num tranco.
— Aaah... Ah..... — Ela resmungou, levando as mãos na coluna.
O barulho dos tecidos parou na mesma hora. Sentado a centímetros dela, Sephiroth nem precisou se mover muito. Sua mão grande apenas deslizou, cobrindo a dela sobre a base das costas. O olhar o fitou de perto, a preocupação rompendo por uma fração de segundo antes de ele assumir sua postura protetora.
— Seu limite físico foi atingido. Você precisa descansar, Inome. — ele instruiu, a voz baixa e grave, mantendo a mão sobre a dela.
Lucrecia, que estava ajeitando a lenha logo ali fora, percebeu o que ocorria e se aproximou da entrada da cabana com um sorriso gentil.
— Meu filho... — ela chamou de forma suave. — Quando eu estava lhe esperando, as tensões no corpo eram quase insuportáveis. Eu fazia muito uma massagem de descompressão em mim mesma. Você deveria fazer na Inome...
Inome negou, suspirando de forma teimosa. — Eu estou bem, sério.
A expressão de Lucrecia assumiu uma seriedade maternal. — Querida. — ela a fitou com firmeza. — O estresse contínuo restringe a circulação. Seu corpo precisa relaxar o máximo possível agora. É para o bebê.
Sem dar margem para mais recusas, Lucrecia entrou na cabana e ajudou Inome a se deitar de barriga para cima sobre as mantas recém-esticadas, acomodando-a mesmo a contragosto da mais nova.
— Observe com atenção. Você deverá fazer assim. — Lucrecia instruiu.
Com toques suaves, ela espalmou as mãos na lateral da barriga de Inome. Lucrecia começou a fazer movimentos circulares e contínuos, traçando uma leve pressão da pelve até a base das costelas, aliviando a rigidez da musculatura esticada. Sephiroth prestava atenção em cada detalhe, compenetrado. Quase de imediato, a respiração de Inome acalmou; os ombros dela cederam contra o chão e a expressão de dor foi substituída por um alívio visível.
— Sua vez. — Lucrecia recuou, abrindo espaço no interior da tenda.
Sephiroth se acomodou ao lado de Inome, os ombros largos um pouco tensos pela hesitação. Meio desajeitado, ele apoiou as mãos exatamente onde a mãe havia tocado. Só que o nervosismo o fez colocar um pouquinho mais de força do que devia. Inome fez uma leve careta, e Sephiroth travou na mesma hora, aliviando o peso da mão num sobressalto, apavorado com a ideia de machucá-la.
— Ahm... — ele murmurou, desviando o olhar, visivelmente sem jeito com a própria falta de prática.
Lucrecia não conteve um riso baixo, encantada com a vulnerabilidade do filho. — Faça como eu fiz, só que devagar, de levinho... Como você acaricia os cabelos dela.
A observação casual da mãe atingiu Sephiroth em cheio. Ele tentou manter a compostura estóica de sempre, mas foi impossível esconder o tom avermelhado que subiu pelas pontas de suas orelhas e demarcou suas maçãs do rosto, traído pela constatação de que Lucrecia reparava em cada detalhe silencioso de sua intimidade com a esposa.
Vendo o leve tom avermelhado tomar conta do rosto do filho, Lucrecia não conseguiu conter o sorriso, deixando uma risada baixa e genuína escapar. Para uma mulher que passou décadas assombrada pelo passado, ver o homem imponente que ele havia se tornado completamente desarmado e vulnerável pela própria esposa era a cena mais preciosa que poderia presenciar.
— É adorável ver você assim. — Lucrecia comentou, a voz mansa, tombando a cabeça levemente para o lado com os olhos brilhando de afeto.
— Mãe... — Sephiroth reclamou em um murmúrio grave, pigarreando baixo e fechando os olhos por um segundo para tentar resgatar qualquer resquício de sua compostura habitual. Ele focou estritamente no que estava fazendo, voltando a atenção para o abdômen da esposa. — A pressão... está adequada agora?
Ele retomou a massagem, os ombros largos ainda rígidos pela falta de jeito. O movimento era visivelmente desengonçado. Os dedos longos e calejados por décadas empunhando a Masamune traçavam os círculos com uma lentidão quase paralisante. Ele calculava cada milímetro de pele tocada por cima da roupa dela, avaliando a própria força com um cuidado extremo, apavorado com a ideia de causar qualquer pontada de dor novamente.
— Está ótimo... — Inome disse de imediato, a voz mansa e relaxada. Ela apoiou a mão delicadamente sobre a dele, acariciando os nós dos dedos masculinos, num gesto silencioso para acalmá-lo e tirar aquele nervosismo.
— Aos poucos a hesitação passa, meu querido. Só preste atenção aos sinais dela. — Lucrecia se inclinou, a mão repousando com carinho sobre o ombro largo do filho, sentindo a textura grossa e resistente da jaqueta de lona que ele vestia para enfrentar o clima agressivo da selva. — Vou terminar de organizar a fogueira lá fora.
Lucrecia se endireitou, batendo de leve na própria calça de trilha para espanar a poeira e o barro seco, e saiu da tenda. O farfalhar do tecido na entrada foi o único som antes que o silêncio confortável tomasse conta do pequeno espaço, deixando os dois completamente a sós.
Sephiroth manteve o ritmo das mãos, os dedos calejados traçando círculos lentos e constantes, sentindo a pele dela aquecer sob o seu toque. Ele não desviava o olhar, vigiando cada mínima contração no rosto de Inome, quase como se tentasse identificar, pela tensão ou relaxamento dela, se qualquer resquício de dor ainda persistia. O interior da tenda estava iluminado pela luz clara do dia que atravessava o tecido, criando um ambiente quente e abafado, onde o som distante da selva parecia não ter alcance.
— Isto está lhe trazendo alívio? — ele perguntou, a voz grave e contida, mantendo aquela preocupação precisa que ele reservava exclusivamente para ela.
Inome concordou com a cabeça, um sorriso sereno surgindo nos lábios. — Agora você terá sua sina comigo... vou querer massagens todos os dias.
Os dois riram, um som raro que parecia deslocado dentro daquela selva úmida e hostil, mas que tornou o clima dentro da tenda muito mais leve.
— Sabe... — ele sorriu de canto, um gesto carregado de uma proximidade que ele não oferecia a mais ninguém. Ele interrompeu o movimento por um breve instante, seus olhos fixos nos dela, perdidos numa memória distante. — Quando eu era jovem... eu andava com o Glenn, o Matt e a Lucia. Eu me lembro de mencionar a eles, mais de uma vez, como eu desejava uma vida comum.
Inome o observava, o olhar carregado de um carinho profundo, esperando que ele continuasse, deixando-o abrir a guarda.
— E então... Seph?
Ele subiu o olhar, encontrando o dela, e o sorriso que se formou era um processo de descoberta que ele ainda estava vivenciando. — Eu... estou aqui, compartilhando estas trivialidades com você... com a minha mãe, com o Vincent. — ele deu uma risada baixa, incrédulo, como se o cenário fosse algo que ele ainda estivesse aprendendo a processar. — Estou aqui, cuidando de você... e você esperando nosso bebê.
A voz dele permanecia firme, mas o tom era brando, reflexivo. O modo como ele a olhava continha uma vulnerabilidade que era o seu novo normal: ele parecia estar tentando alcançar, com o pensamento, a distância entre o que ele aceitava como inevitável no passado e a realidade que ele vivia agora, sentindo a vida que crescia nela sob a ponta de seus dedos.
— Eu cheguei a acreditar que meu destino era estar, para sempre, atrelado àquela companhia sanguinária.
Inome segurou a mão dele, entrelaçando os dedos aos dele e apertando com firmeza, enquanto o polegar acariciava as costas da mão dele num gesto de apoio absoluto, ancorando-o ali, no presente.
— Que bom que você estava errado... Seph.
Sephiroth sentiu o toque dela e, por um instante, a rigidez que costumava carregar nos ombros cedeu. Ele acariciou o dorso da mão de Inome, e o calor daquele contato trouxe à tona algo que ele raramente mostrava: algumas poucas lágrimas, silenciosas e pesadas, escaparam de seus olhos, escorrendo pelo rosto enquanto o peito subia e descia em um ritmo descompassado.
— Que bom que eu estava errado... — ele confirmou, a voz rouca, concordando com um movimento lento de cabeça.
Inome, sentindo a mudança no rosto dele, sentou-se com cuidado e o envolveu em um abraço protetor. Ela encostou o rosto no ombro dele, a respiração de ambos sincronizando-se no espaço apertado da tenda.
— Que bom... que eu pude conhecer esse você... que estava adormecido... — ela murmurou, a voz suave como um sopro, sentindo a tensão nos ombros dele finalmente começar a diminuir.
Sephiroth a abraçou de volta, as mãos grandes acariciando as costas dela com um cuidado quase reverente, como se ela fosse feita de algo precioso que poderia se quebrar. Ele fechou os olhos, respirando o aroma da floresta que vinha nos cabelos dela, tentando se ancorar naquele momento de verdade absoluta.
— Você nem acreditaria, Inome. — Ele deu um riso fraco, um som carregado de uma melancolia antiga que finalmente parecia estar perdendo o peso. — Eu desejava apenas uma vida normal, todas as noites. Ser um herói... nunca foi um objetivo meu.
Ele disse as palavras com uma clareza que o surpreendeu, admitindo para ela — e para si mesmo — o desejo mais simples e reprimido que carregou durante toda a sua existência, agora substituído pela realidade daquele abraço.
— Não...? — Inome perguntou, genuinamente surpresa. O peso daquela confissão pairou entre os dois, já que nunca tinham tido tempo, ou mesmo espaço, para falar sobre o que ele realmente sentia antes de toda aquela loucura.
— Não. — Ele afirmou, a voz firme mas desprovida de qualquer frieza, apertando o abraço com cuidado, sem machucá-la. — Eu só queria ter uma vida pacata, com minha mãe... Lembro-me de sonhar com momentos simples, algo que o Glenn, o Matt e a Lucia também buscavam à sua maneira. No fundo, eu nunca quis ser o ícone que a Shinra construiu; eu só queria que houvesse um lugar onde eu pudesse existir sem ser definido por uma lâmina ou por um número de série. Era um desejo infantil, eu suponho, mas passava todas as noites imaginando que poderia ser apenas alguém comum, longe da política da companhia.
Ele suspirou, o peito vibrando contra o dela. O homem que antes parecia ser feito de aço e intenções calculadas agora permitia-se ser apenas alguém que carregava o peso de uma infância que nunca teve a chance de viver.
— Aquela vida que você vê no campo, o silêncio da manhã... era só isso que eu buscava. Nunca precisei daquela glória que eles tentaram me vender.
Inome segurou o rosto dele com as duas mãos, um gesto de urgência e ternura que o forçou a inclinar as costas, aproximando-o até que seus narizes ficassem colados. A luz que entrava pela tenda desenhava sombras suaves nas feições de ambos, criando uma bolha onde o resto do mundo, com suas guerras e segredos, parecia ter deixado de existir.
— Quando a gente der um jeito no Hojo... e isso tudo acabar, vamos criar nosso bebê numa fazenda, Seph. O que acha? — ela murmurou, roçando a ponta do nariz na dele, com um sorriso que iluminava o ambiente fechado.
Sephiroth sentiu o impacto da proposta vibrar em seu peito, um frio na barriga que ele nunca sentira diante de nenhum inimigo. Um sorriso genuíno surgiu em seus lábios. Ele soltou o ar devagar, com os olhos fixos nos dela, buscando ali a confirmação de que aquilo não era um delírio, mas um horizonte possível.
Ele levou as mãos às laterais dela, acariciando o torso com uma delicadeza extrema, quase tátil, até que seus dedos repousaram sobre a curvatura da barriga dela, onde a vida que criaram já se tornava evidente. Ele sentiu uma conexão que transcendia qualquer treinamento ou protocolo que a Shinra um dia tentou lhe incutir.
— Eu... — a voz dele falhou por um instante, tornando-se um sussurro profundo e honesto. — Não poderia pedir por algo melhor.
 

 

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