domingo, 28 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Cap[itulo 15

 

A névoa espessa e metálica de Midgar ainda bloqueava qualquer resquício do sol matinal quando a Avalanche cruzou a fronteira do Setor 5. Sair cedo não era uma simples precaução, mas uma manobra agressiva e necessária. O objetivo era antecipar qualquer movimentação da corporação e cortar o suprimento pela raiz: paralisar o Reator 5 sabotaria o fluxo de energia que alimentava os experimentos de Hojo, além de desferir um golpe severo na infraestrutura da própria Shinra.
Mais cedo, Aerith havia definido o alvo com clareza. Ela caminhava junto ao grupo com o olhar fixo na imensidão industrial, afirmando que sentia uma energia densa de Mako concentrada no Reator 5.
Aproveitando o trajeto irregular pelos escombros antes de alcançarem o perímetro de segurança, Angeal reuniu a atenção da equipe para fechar a estratégia.
— Nós entraremos pelas tubulações de resfriamento inativas na fundação da estrutura. Os radares da Shinra negligenciam áreas com acúmulo de ferrugem e água estagnada — o veterano ditou, a voz grave estabelecendo o ritmo da operação. — Cloud, Barret e Aerith formam a linha de contenção na retaguarda. Eu e Tifa vamos invadir a câmara do núcleo e forçar o desligamento mecânico das válvulas.
Tifa assentiu, apertando as tiras das luvas de combate com firmeza, antes de direcionar a atenção para a dupla que cuidaria da escolta.
— Mas o caminho não vai ser nada fácil. Você comentou que a parte de baixo tá infestada de robôs de segurança da Shinra esperando a gente, né, Angeal?
— Correto. — O homem voltou os olhos escuros para Cloud e Barret, medindo a prontidão de ambos para a destruição iminente. — O trabalho de vocês é transformar em sucata qualquer máquina que aparecer e manter o corredor totalmente limpo. Deixem a sabotagem física do painel nas nossas mãos.
Aerith caminhava logo atrás, absorvendo as instruções em absoluto silêncio. Suas mãos repousavam relaxadas, mas seus olhos não desviavam da colossal fortaleza de aço que se agigantava à frente.
O eco oco do metal enferrujado ficou para trás assim que a velha grade de resfriamento cedeu sob um chute de Barret. O grupo aterrissou na penumbra do nível inferior do Reator 5, um labirinto de passarelas industriais banhadas pelo brilho esverdeado e doentio do Mako bombeado nas tubulações colossais. Não demorou nem dez segundos para os sensores de movimento capturarem a intrusão. O zumbido de ativação soou em uníssono quando uma dezena de drones sentinelas e Monodrives despontou das sombras do teto, acompanhados pelo rastejar pesado e barulhento de dois Sweepers articulados que bloquearam a rota principal.
— Mandem chumbo! — Barret berrou, firmando a base das pernas no chão de grade antes de descarregar uma tempestade contínua de balas da sua metralhadora contra a linha de frente inimiga, espalhando óleo, faíscas e estilhaços de lataria por todos os lados.
Cloud não aguardou por cobertura. Empunhando a Espada Buster, o loiro avançou com um ímpeto que beirava a selvageria. Ele não estava apenas focado em abrir caminho; havia uma agressividade desmedida, instável e excessivamente violenta em cada um de seus ataques. Rebatendo os disparos de plasma com a largura da lâmina, ele encurtou a distância em um piscar de olhos. Com um urro gutural, cravou a arma massiva no chassi do primeiro Sweeper, rasgando a blindagem de aço de cima a baixo em um frenesi brutal. As memórias fragmentadas de Zack latejavam no fundo de sua consciência, colidindo com sua própria desorientação e o transformando em um redemoinho de força implacável, destroçando as máquinas e esmagando os núcleos dos drones antes que pudessem sequer travar a mira.
Aerith permaneceu na retaguarda, protegida pelo fogo de supressão de Barret. Ela recuou um passo curto, assistindo àquela carnificina metálica com o peito apertado. O olhar da florista fixou-se em Cloud, sentindo a confusão caótica e o descontrole emocional que emanava dos golpes desproporcionais do rapaz.
Aproveitando a distração completa e a destruição que a escolta instaurou no centro da passarela, Angeal fez um sinal de comando rápido.
— Tifa, pelo flanco. Agora! — o veterano ordenou, já tomando a dianteira.
A lutadora assentiu e os dois dispararam pelas beiradas da estrutura, ignorando as explosões periféricas e o fogo cruzado. Usando a brecha limpa pela fúria do loiro, eles mergulharam pelas escadarias de manutenção isoladas, focados inteiramente em alcançar a câmara central para fechar as válvulas hidráulicas.
Na câmara principal do núcleo, o calor era quase tangível, uma massa espessa que cheirava a ozônio e metal superaquecido. Longe dos painéis digitais, Angeal e Tifa trabalhavam no esqueleto analógico da estrutura. O veterano cravou as mãos nas pesadas travas hidráulicas da válvula central, os músculos dos braços retesando sob o esforço extremo enquanto ele forçava a roda de aço a girar contra a pressão colossal do Mako. Tifa estava ao lado dele, usando o peso do próprio corpo e a força das pernas para empurrar as alavancas auxiliares de contenção.
— Mais um pouco... — Angeal rosnou entredentes, o suor escorrendo pelo rosto tenso, concentrando toda a sua força física para fechar o dreno.
Do lado de fora, na passarela superior, a contenção era um espetáculo de destruição. Barret rugia, mantendo o dedo travado no gatilho de sua arma mecânica. A tempestade de balas estilhaçou as carcaças dos drones que tentavam cercá-los por cima, espalhando cápsulas deflagradas e faíscas pelo chão.
No centro do fogo cruzado, Cloud era uma força da natureza em total descontrole. Movido pela urgência e pela confusão em sua mente, ele girava a imensa Espada Buster com uma facilidade assustadora. A cada golpe vertical, o aço maciço partia a blindagem dos Sweepers robóticos ao meio, espalhando óleo quente e cabos em curto-circuito pelo piso de grade. Aerith mantinha-se recuada, os olhos verdes arregalados acompanhando a fúria do rapaz, sentindo o ardor da energia que emanava tanto do Mako abaixo deles quanto da agressividade instável de Cloud.
Com um estrondo grave que reverberou desde as fundações até o teto do Setor 5, a roda hidráulica na câmara do núcleo finalmente cedeu. As travas desceram com um baque metálico violento. O zumbido ensurdecedor da drenagem de energia morreu abruptamente, substituído pelo chiado da pressão caindo. O reator estava fisicamente desarmado.
O alívio, no entanto, sequer teve tempo de ser sentido. A mudança brusca na pressão do Mako agiu como um catalisador invisível.
De repente, o ambiente ao redor de Angeal e Cloud distorceu-se. O som da batalha e da maquinaria pesada sumiu, engolido por um zumbido de estática doentio que invadiu o cérebro de ambos. O ar ficou incrivelmente gélido.
Hehehehe, quem diria, o desertor e o espécime.
A voz arrastada e sádica do Professor Hojo ecoou com uma nitidez perturbadora, projetando-se diretamente na consciência dos dois homens. Eles não o viam fisicamente na sala, mas a presença escarnecedora do cientista materializou-se como uma sombra projetada nos confins de suas mentes.
Angeal largou a válvula instantaneamente, levando as mãos à cabeça. O veterano caiu de joelhos no piso de metal, os dentes cerrados em um grunhido de pura agonia enquanto tentava erguer barreiras mentais contra a invasão. — Saia daqui! — ele berrou, a voz ecoando pela câmara, carregada de fúria cega.
Na passarela, o impacto foi devastador. Cloud parou no meio de um movimento, a Espada Buster colidindo pesadamente contra o chão. Ele levou a mão livre às têmporas, o rosto pálido se contorcendo. O loiro tentou lutar contra aquela força descomunal que esmagava seus pensamentos, mas o conflito interno o deixou completamente desorientado. Arquejante e com a visão embaçada, ele começou a andar para trás, os pés arrastando-se de forma trôpega sobre o metal danificado da plataforma.
Vocês realmente acreditaram que girar algumas engrenagens velhas os libertaria? — a risada aguda de Hojo continuou a arranhar o crânio deles, pingando veneno e deboche absoluto. — Seus corpos, sua força e até seus pequenos surtos de rebeldia nasceram nas minhas bancadas. Aonde quer que corram, o sangue que pulsa nessas veias sempre responderá ao seu criador. Vocês não passam de marionetes tentando cortar os próprios fios... fascinante, mas inútil.
Cloud soltou um gemido sufocado, balançando a cabeça em uma negação desesperada. Ele deu mais um passo para trás, completamente cego para a realidade física ao seu redor. Seu calcanhar escorregou no limite exato onde a passarela havia sido estilhaçada pela batalha. O som do metal cedendo foi o único aviso.
O chão de grade desapareceu sob os pés do rapaz, e a gravidade o puxou sem piedade para o abismo escuro do Setor 5.
Aerith, que observava a agonia de Cloud com o coração na boca, não hesitou por um milésimo de segundo. Ignorando a altura, o perigo e os gritos alarmados de Barret ao fundo, ela correu a toda velocidade até a borda rompida.
— CLOOOOUD! — Aerith gritou a plenos pulmões.
Com os olhos fixos na silhueta dele sendo engolida pela escuridão, ela se jogou no ar, mergulhando no abismo de sucata e sombras logo atrás dele.
O som metálico das travas do reator ainda ecoava pela câmara quando Tifa percebeu a queda de Angeal. A vitória de ter fechado o dreno de energia foi engolida pelo pânico ao ver o veterano — sempre uma muralha inabalável de controle — desabar de joelhos daquela forma. Ela correu até ele, os olhos arregalados capturando cada detalhe da agonia estampada no rosto do homem. A postura encolhida, as mãos apertando as têmporas com desespero... era um reflexo assustadoramente idêntico aos surtos que ela já havia presenciado Cloud sofrer tantas vezes. O mesmo padrão, a mesma dor invisível atacando de dentro para fora.
— Angeal...! — Tifa exclamou, a voz carregada de uma urgência genuína. Ela se abaixou rapidamente ao lado dele, ignorando o calor do metal sob seus joelhos, e segurou um dos braços do homem com firmeza, tentando ancorá-lo na realidade. — O que está acontecendo com você?
Desnorteado pelo turbilhão em sua mente e sem o menor instinto de mascarar a vulnerabilidade, Angeal respondeu em um sobressalto, a voz rasgando a garganta.
— O Hojo! Agh!
Ele se encolheu ainda mais contra o piso de grade, os músculos largos retesados sob uma dor latejante que parecia querer partir seu crânio ao meio. Lentamente, porém, a pressão nauseante daquela intrusão começou a retroceder. A presença esmagadora do cientista se dissipava como uma fumaça tóxica, deixando para trás apenas o eco de uma risada sádica e distante que fez o estômago de Angeal revirar de nojo.
— Ele... ele tá brincando com a minha mente. — O veterano balbuciou, arfando pesadamente enquanto apoiava uma das mãos no chão para não desabar de bruços.
Tifa parou, processando a informação com uma mistura de choque e confusão. O nome do cientista da Shinra sendo cuspido daquela forma, ligado a um ataque invisível, não fazia sentido imediato para a lutadora, mas ligava pontos aterrorizantes sobre o estado fragmentado de Cloud. Ela soltou um suspiro longo, tentando manter a calma diante do absurdo da situação.
— Ele... aparece para você? — ela perguntou, a voz saindo num sussurro tenso, temendo a dimensão real do poder que a corporação exercia sobre aqueles homens.
Angeal fechou os olhos com força, puxando o ar denso da câmara para tentar estabilizar a própria respiração. O suor frio escorria por sua têmpora enquanto ele forçava o pescoço a se erguer.
— É... apareceu agora. — Ele confirmou, a voz ainda rouca, carregada de uma indignação profunda pela violação mental que acabara de sofrer. — Isso nunca tinha acontecido, agh...
Ele apertou os olhos mais uma vez, lutando para afastar o zumbido estático que ainda ressoava em seus ouvidos, percebendo com terror que a barreira entre a sua própria vontade e a biologia manipulada pela Shinra era infinitamente mais frágil do que ele ousava imaginar.
Tifa segurou o braço de Angeal com firmeza, passando-o por cima de seus ombros para dar o suporte necessário enquanto a respiração do veterano ainda falhava.
— Vamos encontrar os outros — Tifa disse, ajudando-o a se levantar com um impulso cuidadoso.
Ao redor deles, a atmosfera do reator havia mudado drasticamente. Com as válvulas seladas, o brilho verde e doentio do Mako que banhava a câmara desapareceu, sugado de volta para as profundezas da terra. O zumbido grave e ininterrupto, que antes fazia a estrutura de metal tremer de forma contínua, morreu por completo, deixando em seu lugar um silêncio oco e perturbador. O ar, outrora denso, quente e saturado com o cheiro de ozônio, tornou-se subitamente gelado. Sem a energia bruta pulsando pelos conduítes, a instalação perdeu sua imponência, reduzindo-se a uma carcaça mecânica fria e escura, iluminada apenas pelo piscar fraco e rítmico das luzes vermelhas de emergência.
Angeal balançou a cabeça, forçando a visão turva a se acostumar com a penumbra.
— É... — ele murmurou, a voz raspando na garganta. — Vamos logo antes que tenhamos mais encrenca.
Ele a acompanhou pelos corredores suspensos, os primeiros passos saindo irregulares. A mente dele ainda estava meio zonza e o corpo desnorteado pelo impacto direto da intrusão de Hojo, mas o foco em tirar o esquadrão dali o mantinha em movimento.
No caminho em direção ao centro da estrutura, o som de botas batendo agressivamente contra a grade metálica cortou o silêncio. Ambos se encontraram com Barret, que também ia de encontro até eles, caminhando a passos largos e com a metralhadora do braço ainda fumegando.
— Dois malucos! Essa Aerith e esse Cloud! — ele rangeu os dentes, a voz estrondosa transbordando de revolta e exasperação.
O alerta interno de Angeal disparou na hora. A menção aos dois membros que estavam sob a responsabilidade de Barret fez o veterano ignorar a tontura, endireitando a postura imediatamente.
— O que aconteceu? — Angeal perguntou de imediato, com o olhar endurecendo e a mente já prevendo o pior.
Barret parou de andar, apontando com a mão livre de forma frenética para a escuridão do fosso que haviam deixado para trás.
— Cloud escorregou e a Aerith pulou logo atrás dele!
Tifa soltou o braço de Angeal devagar, percebendo que o veterano já conseguia firmar os calcanhares no chão de grade por conta própria, recuperando a compostura e a postura ereta de líder. O rosto da lutadora estava tomado pela apreensão.
— E onde dá esse buraco que abriu na plataforma de contenção? — Tifa perguntou, a voz tensa, apontando com a cabeça para o corredor escuro de onde Barret acabara de surgir.
Barret coçou a barba grossa, a mente trabalhando rápido para mapear a geografia vertical caótica da cidade que ele conhecia tão bem.
— Acho que direto na igrejinha velha. Aquela que fica isolada bem no meio das favelas do Setor 5, na base do pilar — ele respondeu, batendo a mão boa contra a própria coxa, exasperado. — É o único lugar diretamente debaixo desse emaranhado de sucata. Se os dois tiverem o mínimo de sorte, aterrissaram no telhado podre de lá.
Angeal soltou um suspiro profundo, enchendo os pulmões com o ar gelado e rarefeito do reator para expulsar qualquer resquício da tontura causada por Hojo. Sem perder mais nenhum segundo, ele passou pelos dois, assumindo a dianteira do grupo com passos rápidos e impositivos.
— Vamos logo atrás deles dois! — Angeal declarou, a urgência moldando o tom grave de sua voz enquanto ele já começava a marchar em direção às escadarias de manutenção que levavam para as camadas inferiores da cidade.
O vento cortava o rosto de Aerith e Cloud em uma descida aterrorizante. A queda livre pelo abismo escuro do Setor 5 era acompanhada pelos gritos instintivos de ambos, ecoando no vazio entre as placas de metal colossais. No desespero do arremesso, a florista não hesitou: ela esticou os braços contra a forte corrente de ar e envolveu o corpo de Cloud em um abraço firme e protetor. Segundos depois, a estrutura apodrecida do telhado da velha igreja cedeu com um estrondo ensurdecedor. Em vez do choque fatal contra a pedra, os dois mergulharam no canteiro dourado no centro da ruína. As flores amarelas e a terra macia absorveram milagrosamente a violência do impacto.
O corpo de Cloud afundou na terra fofa, mas o verdadeiro baque aconteceu dentro da sua cabeça. O choque físico serviu como o gatilho perfeito para um glitch devastador. Ele grunhiu de forma sôfrega, a visão escurecendo enquanto uma lembrança invasiva atropelava sua sanidade. Naquela fração de segundo, a mente dele o transportou para aquele exato mesmo lugar, olhando para cima, enquanto a imagem da própria Aerith se inclinava sobre ele dizendo: "Olá? Olá?!".
O conflito interno era nauseante e violento. A memória enxertada por suas células ditava que ele havia caído sozinho e a conhecido ali, debaixo daquele teto quebrado, mas a realidade gritava que ela estava agarrada a ele durante a queda inteira. O curto-circuito o paralisou. Sem forças para processar o paradoxo de duas verdades existindo ao mesmo tempo, Cloud afrouxou os braços que ainda envolviam a florista, deixando seu corpo tombar inerte sobre as pétalas amassadas.
Sentindo a respiração do rapaz e o cheiro doce da terra revolvida, Aerith percebeu que haviam sobrevivido. Ela puxou o ar com força, espantando a tontura da queda, e rapidamente saiu de cima dele, acomodando-se de joelhos no canteiro.
— Cloud! Você está bem?! — ela chamou, a voz transbordando uma urgência carinhosa e afetuosa. Ela estendeu as mãos, balançando o ombro do loiro com delicadeza para tentar arrancá-lo daquele transe. — Cloud?!
O rapaz não emitiu nenhuma resposta. Ele continuou estirado na mesma posição, os olhos arregalados, mas completamente opacos e distantes, fitando o buraco no teto da igreja. A voz da florista soava abafada, engolida pelo zumbido estático que dominava sua audição. Preso no labirinto de suas memórias embaralhadas, Cloud apenas existia ali, lutando em silêncio contra o eco de uma vida que não lhe pertencia.
Vendo o olhar do loiro se perder no vazio e a mente dele se fragmentar diante de seus olhos, Aerith não hesitou. Ela se inclinou sobre o canteiro dourado, ignorando a poeira espessa e a madeira estilhaçada ao redor, e o envolveu em um novo abraço. Suas mãos agarraram o tecido do uniforme dele com firmeza, puxando o corpo inerte de encontro ao seu.
— Cloud! Volta para mim! — a voz dela ecoou límpida, cortando o ruído estático que ensurdecia o rapaz. Ela apertou o abraço, ancorando-o na textura macia das pétalas esmagadas e no calor de sua própria pele, e sussurrou com uma serenidade inabalável: — Nós vivemos...
O rapaz não correspondeu ao toque. Seus braços permaneciam largados sobre a terra úmida, completamente destituídos de força. O conflito brutal em suas sinapses o esgotava por inteiro, drenando sua noção básica de espaço e identidade. Ele puxou o ar em um suspiro fundo, longo e arrastado, como se tentasse puxar o próprio espírito de volta para dentro da carne.
— E... eu... sou real...? — Cloud balbuciou pausadamente. A voz saiu frágil e turva, carregada de uma hesitação sombria, como se ele duvidasse da própria existência e das memórias que o atormentavam naquele exato segundo.
O coração da florista doeu ao testemunhar o fundo daquele abismo psicológico. Ela afundou o rosto na curva do pescoço dele, recusando-se a deixá-lo se perder naquela escuridão invisível, e usou a própria presença como um escudo.
— Você é! — Aerith respondeu de imediato, a convicção vibrando em cada sílaba enquanto seus dedos acariciavam os fios loiros e sujos de poeira do rapaz. — Cloud... Por favor...
Cloud apertou os olhos com força, mergulhando na neblina espessa de sua própria mente em busca de uma âncora. As memórias que envolviam o rosto e o toque de Aerith escorriam por seus pensamentos de forma embaçada, misturando-se a um zumbido de estática ensurdecedor. Em total contrapartida, as lembranças com Tifa irrompiam nítidas, quentes e inegáveis. Ele conseguia visualizar com exatidão o brilho alaranjado do sol batendo na velha caixa d'água de Nibelheim, onde trocaram aquela promessa infantil de proteção. Podia quase sentir o ardor nos joelhos ralados após tropeçar nas pedras enquanto apostavam corrida nas encostas do Monte Nibel, e o som da risada solta da menina ecoando pelo vilarejo quando ele tentava, desajeitadamente, impressioná-la balançando uma espada de madeira.
Atordoado pelo atrito violento dessas informações brigando por espaço em seu cérebro, ele encolheu os ombros em um reflexo de pura vulnerabilidade. Com movimentos letárgicos, Cloud se desvencilhou do abraço protetor, em completa confusão.
— O-Obrigado por me salvar... Como é seu nome? — ele indagou, a voz falhando em um sussurro frágil. Um sorriso trêmulo e completamente desnorteado desenhou-se em seus lábios.
Ao ouvir aquelas palavras, Aerith sentiu um eco gélido ressoar diretamente em sua essência. A percepção ancestral que pulsava em seu sangue alertou-a de imediato: a fragmentação temporal já estava criando problemas severos. As duas realidades que habitavam a cabeça do rapaz estavam colidindo e se estraçalhando entre si com uma força brutal. O curto-circuito gerado pelas linhas do tempo sobrepostas criava um ruído nauseante, embaralhando o que era real e o que era a ilusão das memórias enxertadas, resultando naquele lapso profundo e desnorteante.
Compreendendo que a mente dele estava apenas lutando para processar o paradoxo sem colapsar de vez, Aerith não deixou que a aflição tomasse conta. Com uma graça inabalável, ela estendeu as mãos, segurando os dedos trêmulos de Cloud com um calor firme e reconfortante, oferecendo-lhe um sorriso gentil banhado pelos feixes de sol que invadiam as ruínas.
— Aerith! Você não se lembra de mim, Cloud?
Cloud engoliu em seco, as pálpebras se fechando com força por um instante enquanto tentava dissipar a vertigem. A estática diminuiu apenas o suficiente para que uma nova imagem emergisse no turbilhão de sua mente: uma rua escura, os mesmos olhos verdes brilhantes e uma flor amarela sendo oferecida a ele. O alívio de encontrar um fragmento que parecia fazer sentido o fez relaxar os ombros, apagando de vez a postura defensiva.
— Você... me vendeu uma dessas flores, não foi, Aerith? — ele perguntou. Um sorriso fraco e nostálgico desenhou-se em seus lábios enquanto ele soltava mais um suspiro longo, genuinamente reconfortado por pescar aquela lembrança no meio do caos.
Aerith engoliu em seco, o coração errando uma batida. Aquele detalhe era o eco perfeito de uma realidade que não pertencia àquele mundo. A percepção da florista captou imediatamente o descompasso: a mente dele estava preenchendo as lacunas com cenas de um destino que eles nunca viveram ali. Na verdade, ela se lembrava perfeitamente do encontro que teve no beco do Setor 5: ela havia oferecido uma daquelas flores amarelas diretamente para Tifa, como um presente inesperado. E fora a lutadora quem a levara até a taverna, colocando-a nas mãos dele.
Tentando não assustá-lo com a gravidade daquela sobreposição de linhas temporais, Aerith balançou a cabeça de forma leve. Ela manteve o sorriso doce e acolhedor, determinada a ancorá-lo na verdade do agora sem quebrar a fragilidade do momento.
— Não, Cloud... — ela corrigiu com uma suavidade imensa, apertando os dedos frios dele com carinho para trazê-lo de volta ao presente. — Eu dei a flor para a Tifa. Ela quem lhe deu!
A barreira mental que Cloud tentava erguer com tanto esforço finalmente cedeu. A fachada de confiança, o orgulho blindado e a postura inabalável desmoronaram de uma só vez, varridos pelo terror genuíno de não reconhecer a própria mente. Derrotado pelo cansaço e pela dor, ele quebrou. O loiro jogou o corpo de volta contra o canteiro dourado, esmagando as pétalas macias sob suas costas enquanto um choro sôfrego e descontrolado tomava conta de sua garganta.
— Aerith... eu não sei quem eu sou... nada faz sentido. — Ele suplicou, a voz embargada e infantilizada pelo desespero, levando as duas mãos ao rosto para esconder as lágrimas grossas que escorriam sem parar. — Minhas memórias não parecem minhas... eu não sei quem eu sou...
A florista soltou um suspiro longo e dolorido, sentindo a tristeza dele ressoar diretamente em sua essência. Ela sabia o que estava acontecendo. Sabia do trauma, do Mako corrompendo as células dele e do legado daquele outro rapaz de cabelos negros que ele carregava como se fosse próprio. Mas esfregar a dura realidade na cara de um homem com a mente tão estilhaçada seria o golpe de misericórdia na sanidade dele. O que ele precisava agora não era de confrontos, mas de um chão firme para pisar.
Deslizando de joelhos sobre a terra fofa e as flores, Aerith se aproximou ainda mais. Ela inclinou o corpo e afastou gentilmente as mãos trêmulas que cobriam o rosto do rapaz, segurando-as junto ao próprio peitoral com uma ternura inabalável.
— Você é o Cloud... — ela afirmou, a voz soando como um farol no meio da tempestade, doce e repleta de convicção. — O soldado Primeira Classe, que aceitou ser meu guarda-costas, tem amigos na Avalanche...
O pranto de Cloud começou a perder a intensidade, transformando-se em soluços curtos e espaçados à medida que a voz da florista funcionava como um refúgio para sua mente à deriva. Ele piscou, as lágrimas ainda borrando sua visão, e buscou o rosto de Aerith com um olhar quase infantil, agarrando-se àquelas afirmações para não afundar no próprio vazio. O loiro franziu a testa, tentando alinhar as pontas soltas daquela cronologia confusa.
— E de onde nos conhecemos...? — ele balbuciou, a voz trêmula tateando as peças fora do lugar. Ele ergueu os olhos vermelhos para o enorme buraco no telhado e depois olhou para as pétalas amassadas ao seu redor. — Eu caí aqui... duas vezes...?
Para Aerith, a pergunta trazia uma melancolia silenciosa. Aquele teto estilhaçado e o canteiro dourado eram o cenário exato de uma memória que pertencia a outra realidade, a outra pessoa, cujas vivências agora habitavam a mente do rapaz e se fundiam à identidade dele de forma dolorosa. Cloud estava costurando a própria história com fios emprestados para dar sentido à sua existência. Mas, ciente de que arrancar aquela ilusão naquele instante seria o mesmo que destruir o último pilar de sanidade que o mantinha consciente, ela abraçou a narrativa dele com compaixão.
Aerith abriu um sorriso imenso e iluminado, dissipando qualquer sombra de hesitação que pudesse assustá-lo. Ela concordou com a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma gentileza inabalável enquanto acariciava o dorso das mãos calejadas dele.
— Isso! — ela respondeu com um entusiasmo reconfortante, a doçura de sua voz preenchendo o ar empoeirado da ruína. — A primeira e agora, essa segunda.
O momento de fragilidade e conforto entre os dois foi subitamente interrompido. O silêncio poeirento da velha igreja foi quebrado pelo barulho de destroços sendo afastados. Ao fundo, os dois ouviam passos desincronizados, apressados e ofegantes amassando a terra na entrada da ruína.
A silhueta imponente de Angeal surgiu primeiro pelas portas duplas arrebentadas, seguido logo atrás por Tifa e Barret. O veterano varreu o interior destruído com os olhos até fixar a visão na luz que entrava pelo buraco no teto e focar no canteiro dourado logo abaixo. O alívio genuíno dissipou a tensão do rosto dele.
— Pessoal! Lá estão eles! — a voz grave de Angeal ressoou pelas paredes, ecoando alto e trazendo a realidade do grupo de volta para o ambiente.

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