Já se passara um mês. O acampamento agora estava montado nas terras baixas do Vale de Nibel, um local onde a névoa matinal era persistente e a vegetação era densa o suficiente para abafar qualquer som vindo das trilhas principais. A região, que a Shinra parecia ter abandonado às próprias sombras por razões inexplicáveis, mantinha um silêncio cortante que contrastava com o zumbido industrial que costumava permear a vida deles; aquele vácuo de autoridade — a ausência súbita de patrulhas de infantaria — tinha um cheiro de mau agouro. O desligamento do reator local não passara de um prelúdio, uma peça removida de um tabuleiro maior que eles ainda não compreendiam.
Na área de serviço improvisada, entre o cheiro da terra úmida e o vapor da panela, a dinâmica entre as duas era silenciosa e funcional.
— Você sabia que o Seph gosta de sopa de abóbora? — Inome comentou, o sorriso suavizando a tensão que carregava nos ombros ao mexer o conteúdo da panela.
Lucrecia parou o corte dos legumes, erguendo o olhar com uma centelha de interesse que rompeu sua habitual reserva. — Oh! Que bela surpresa, Inome... devo aprender.
Enquanto isso, a poucos metros dali, a conversa tinha um tom mais técnico e desencantado. Vincent mantinha o transceptor portátil de ondas curtas (modelo PHS-M1) apoiado sobre o tronco, girando o dial enquanto a estática cortava o ar.
— Será que essa lataria ainda se conecta com os canais de Shinra? Eu costumava ouvir por lá... — ele resmungou, a voz áspera soando como atrito de rocha.
Sephiroth inclinou a cabeça, observando o equipamento desgastado com uma ponta de diversão contida no olhar felino. — Esse rádio é da década de 80, Vincent. Eu lembro que só vi um desses uma vez, em um dos depósitos de descarte de hardware do Quartel-General. É uma relíquia, mesmo para os padrões da Shinra.
Quando a sintonia do rádio finalmente estabilizou, o chiado deu lugar a uma transmissão de alta prioridade, codificada, mas audível o suficiente para identificar a voz tensa do Presidente Shinra em contato direto com Reno, da divisão de Assuntos Administrativos (Turks).
[Mensagem de rádio]: — Reno, escute bem. O Hojo perdeu o controle. Aquele insano está usando o Reator 1 em Midgar para mascarar uma busca por poder que a diretoria não autorizou. O sinal de "S-01" e suas derivações estão causando instabilidade na malha urbana. O reator já foi isolado, mas a propagação Mako persiste. Quero contenção total. Destruam o experimento e neutralizem o Hojo. Não me importa quem esteja no caminho. Se não puderem conter a fonte, destruam o quadrante. A Shinra não pode ser responsabilizada por um desvario desta escala.
Vincent desligou o rádio com um movimento seco, o silêncio que seguia sendo mais perturbador que a estática.
— Bom, pelo visto, o Hojo começou a dar as caras... — Vincent resmungou, o olhar rubro fixo no horizonte das terras baixas do Vale de Nibel. — Se a gente quiser parar ele, temos que pensar em algo.
Lucrecia, que mantinha uma postura calculada enquanto distribuía a sopa, parou por um instante, a concha suspensa sobre a tigela.
— Considerando que foram eles mesmos que desligaram o reator aqui em Nibelheim para travar o avanço do Hojo... — ela coçou o queixo, pensativa — dá para considerar que essa é a estratégia deles. Deveríamos seguir esse plano e fazer o mesmo também.
Sephiroth, que observava a troca de informações entre os pais com o foco de quem avaliava uma ameaça real, finalmente interveio, sua voz mantendo um equilíbrio entre a seriedade de sempre e a suavidade que guardava apenas para aqueles momentos.Ele se aproximou de Inome, a abraçando de forma possessiva como sempre.
— É uma excelente ideia. Só precisamos nos posicionar, contabilizar quantos outros reatores têm na região e desligar...
Inome soltou um comentário de mau gosto, a frustração transparecendo em sua voz enquanto ela se aconchegou mais perto dele:
— Teremos que lutar a favor da Shinra dessa vez... e depois contra eles...
Ela falou se aninhando em Sephiroth. O homem, com um movimento instintivo e protetor, envolveu-a, sua mão repousando sobre a barriga dela de forma possessiva e firme. O olhar de Sephiroth tornou-se sombrio; ele ponderava sobre a atitude repentina de Hojo.Aquele reator não era apenas infraestrutura, era o laboratório onde ele planejava dar o próximo passo em sua busca desenfreada por poder, e o Presidente, aparentemente, decidira que era hora de cortar as asas dele.
Vincent sorriu de canto, um vislumbre fugaz de ironia atravessando seu rosto enquanto seus olhos pousavam em Inome.
— O inimigo do meu inimigo é meu amigo... Por enquanto — ele murmurou, a voz carregada de um cinismo amargo, antes de se servir com a sopa, o movimento da concha sendo o único som no acampamento além do vento nas árvores.
Sephiroth, que acompanhava o desenrolar da conversa com a precisão de quem mapeava um campo de batalha, virou-se para Lucrecia. Embora sua voz mantivesse a autoridade habitual, havia uma nota menos rígida, mais contida, ao tratar do assunto com ela.
— Mãe... analisando a distribuição topográfica da malha, você se recorda da localização de outros núcleos de extração Mako na região? Precisamos mapear a infraestrutura periférica que ele pode estar usando como suporte.
Inome saiu de onde estava aninhada, abandonando o calor do momento para organizar o jantar. Pegou duas tigelas, servindo com cuidado a sopa de abóbora e entregando a primeira a Sephiroth, seus dedos roçando levemente os dele com uma delicadeza que contrastava com a tensão do que planejavam.
Lucrecia, porém, tomou a palavra, esforçando-se para acessar memórias que pareciam ter se tornado distantes diante de tanta confusão.
— Bom... pelo menos da minha época — Lucrecia começou, com o olhar perdido em algum ponto além das árvores — além do reator principal de Nibelheim que já desativaram, tem aquele posto de coleta secundário no Passo da Montanha, e se a memória não me falha, a Shinra mantinha dois núcleos de conversão menores, um próximo às ruínas do vilarejo antigo e outro escondido na encosta leste do Vale. Se eles estão mesmo seguindo esse padrão de desligamento, devem ser esses os próximos alvos.
Sephiroth tomou uma colherada de sopa, o gesto preciso e contido, enquanto processava as coordenadas mentalmente. Ele concordou com a cabeça, um movimento curto que selava a decisão tática, o olhar fixo no fogo que estalava à frente deles.
— Certo. Nossa próxima parada deverá ser na encosta leste do Vale. É o ponto com maior capacidade de processamento de carga dentre os locais que a mãe citou; se ele estiver tentando drenar algo, será por lá.
Vincent riu, um som seco que não chegava aos olhos, enquanto apoiava a tigela de madeira no colo, os dedos enluvados tamborilando levemente na borda do recipiente. Ele lançou um olhar enviesado para o horizonte, onde as sombras da noite começavam a engolir a paisagem.
— Que pena... queria tanto brigar com a Shinra. Achei que teríamos uma oportunidade melhor de causar um estrago por aqui, de mostrar a eles que não estamos mortos.
Lucrecia soltou uma risada baixa e contida, negando com a cabeça enquanto observava a ironia do parceiro. Ela ajeitou uma mecha de cabelo que caíra sobre o rosto, o olhar suavizando-se ao encarar Vincent com uma mistura de cumplicidade e a saudade de anos de convivência.
— Você saiu do seu caixão não faz nem um mês, Vincent. Vamos tentar não nos enterrar de novo antes mesmo de terminar o jantar.
Sephiroth riu, um som que, embora ainda carregasse a marca de sua natureza reservada, já não era mais a raridade que costumava ser; havia uma leveza que surgia com naturalidade na presença deles. Ele encarou o homem à sua frente, o olhar cravado no semblante de Vincent.
— Está com saudades de batalhar, Vincent? — perguntou, o tom relaxado enquanto voltava a tomar sua sopa. Por baixo daquela fachada de tranquilidade, ainda havia um resquício de hesitação, um aperto sutil no peito que o impedia de articular a palavra "pai", embora a presença dos pais, ali ao redor daquela fogueira, trouxesse um conforto que ele ainda estava aprendendo a processar.
Vincent deu de ombros, sem se abalar com a provocação.
— Claro. Quero ver se a Cerberus ainda está afiada. O tempo passa, mas a vontade de testar o calibre não. — Ele respondeu, levando a colher à boca e comendo com uma cadência metódica, mas relaxada o suficiente..
— Ai, ai... esses homens... — Inome comentou, deixando escapar um riso breve e brincalhão. Ela observava a interação com um brilho divertido nos olhos, sentindo-se parte daquele círculo que, embora improvisado no meio do nada, parecia mais real do que qualquer coisa que já tinham vivido antes.
Lucrecia, que também acompanhava a dinâmica com um sorriso discreto no rosto, inclinou a cabeça, entrando na brincadeira.
— Um assunto acalourado para um acampamento tão frio, não acha, Inome?
Ela riu também, o som ecoando suavemente contra o silêncio da mata, enquanto a fumaça da sopa subia, misturando-se à neblina que começava a cercar o local.
Sephiroth desviou o olhar de Vincent para as duas mulheres, o canto dos lábios subindo em um sorrisinho de lado.
— A Inome também atira, mãe. Acha que não? — Ele comentou, mantendo o tom casual enquanto voltava a se concentrar na tigela, a postura relaxada sobre o tronco onde estava sentado.
Inome sorriu, sentindo uma satisfação genuína aquecer o peito. Ela sentiu-se feliz por ele ter feito questão de dar esse reconhecimento, escolhendo valorizar sua competência em vez de diminuí-la como costumava fazer. Para ela, aquele era um marco importante; a sensação de que ele finalmente estava aprendendo a enxergar suas capacidades era muito mais gratificante do que qualquer tentativa anterior de controle.
— Sempre que posso, mostro minhas habilidades, sim — ela respondeu, com a voz firme, sentindo-se validada pelo momento.
Lucrecia, tendo finalizado a última colherada de sopa, pousou a tigela de madeira ao lado, sobre uma pedra plana que servia de mesa improvisada. Ela observou a troca entre o filho e a companheira com um brilho de aprovação nos olhos, percebendo o quanto a dinâmica entre eles andava evoluindo.
— Se defender nestes tempos é essencial — Lucrecia afirmou, mudando o foco para algo mais pragmático, como se quisesse consolidar a importância daquela evolução. — Saber manejar uma arma pode ser a diferença entre ser apenas uma testemunha da história e ser quem a escreve.
Vincent, enquanto rapava o fundo da tigela com a colher, levantou o olhar. Havia uma faísca de interesse clínico em seus olhos rubros, a postura relaxada de quem via uma oportunidade de transmitir algo que, por muito tempo, guardou apenas para si.
— Se atira, pode ser minha pupila — ele disse, a voz rouca cortando o silêncio do acampamento. — Aprender habilidades além das comuns. Precisão, antecipação, controle de gatilho... sabe do que estou falando, hm?
Ele a fitou com uma curiosidade genuína, analisando como ela reagiria ao convite de alguém tão habituado às sombras quanto ele.
— Eu aceito — Inome respondeu de imediato, a animação transparecendo em sua voz e na forma como ela se endireitou, saindo da posição relaxada. — Eu sei bem o básico... mas sinto que é hora de ir além.
Sephiroth ouvia cada palavra, mantendo o olhar baixo, fixo na sopa de abóbora que ela havia preparado com tanto esmero. Ele sentia uma felicidade genuína borbulhando no peito, uma sensação que aquecia mais do que a refeição quente. Um sorriso discreto, quase imperceptível, começou a se formar em seus lábios, e ele baixou ainda mais a cabeça, focando na tigela apenas para disfarçar a expressão de contentamento que, por puro hábito, ainda tentava esconder de todos ali.
Naquela noite, o silêncio do acampamento foi estilhaçado. Inome acordou aos berros, sentindo uma pressão avassaladora que não emanava de dentro, mas sim de uma força externa, algo que parecia querer empurrar a criança para fora de seu ventre. Ela se contorcia, gritando de dor, arrastando-se para fora da cabana em busca de ar.
Sephiroth acordou num sobressalto, o corpo reagindo por instinto. Ele a alcançou quase imediatamente, envolvendo-a por trás com firmeza para que ela não se ferisse durante as convulsões. Ambos caíram de joelhos na terra fria.
— Inome?! O que está acontecendo?! — Ele gritava, o desespero subindo pela garganta, um aperto lancinante em seu peito que ele nunca tinha sentido antes. — Inome, olha pra mim!
— O bebê...! — ela berrou, o corpo arqueando em um espasmo violento, os dedos cravando na terra enquanto a força invisível a torturava.
Vincent e Lucrecia foram despertados pelo caos. Vincent saiu da cabana com os olhos faiscando, varrendo a escuridão do local com um olhar predatório, a mão empunhando a arma, procurando qualquer sinal de intruso, de inimigo, de qualquer coisa que estivesse atacando seu círculo. Lucrecia, por sua vez, correu em direção à nora, o horror estampado em seu rosto ao ver o estado dela.
— Meu bebê!!! — Inome gritou novamente, com o desespero de quem sentia a criança lutar desesperadamente contra aquela pressão maligna.
O horror atingiu o auge quando a força invisível finalmente cedeu. O corpo de Inome relaxou por um segundo, e o sangue começou a escorrer, manchando sua roupa e gotejando na grama. Sephiroth, vendo o rastro vermelho sob a luz fraca da noite, ficou atônito. Seus olhos se arregalaram, o peito subindo e descendo em uma respiração quebrada, o ar faltando em seus pulmões.
— Eu... Eu vou checar... — a voz de Lucrecia saiu firme, apesar do choque. Ela não perguntou, não houve tempo para surpresas sobre a gravidez; ela apenas agiu.
Lucrecia mergulhou em sua bolsa, suas mãos ágeis e treinadas encontrando um frasco de essência de ervas de Mako purificada e compressas de algodão esterilizado. Ela posicionou as mãos com precisão cirúrgica sobre o ventre de Inome, canalizando uma energia suave, porém densa, para conter o sangramento que ainda pulsava. Ela começou a aplicar as compressas, movendo-se com a rapidez de quem já enfrentou a morte várias vezes no laboratório.
— Sephiroth, não solte ela! — Lucrecia ordenou, a voz cortando o desespero dele. — Foi um estresse traumático, uma descarga externa que causou uma contração brutal, não um aborto! O bebê ainda está aí, mas ele está sob um ataque de pressão psíquica!
Enquanto Sephiroth tentava, com as mãos trêmulas, manter Inome imóvel e protegida, ele via o sangue continuar a manchar o chão, sentindo a impotência mais corrosiva de sua vida. Cada segundo era uma eternidade de terror, e o medo de perder o que estava sendo criado ali era uma dor mais real do que qualquer ferida de batalha.
— Respira e inspira... — Lucrecia comandou, a voz técnica e urgente enquanto suas mãos, banhadas por um brilho esverdeado de Mako, percorriam o baixo-ventre de Inome em movimentos circulares e firmes. Ela estava injetando uma dosagem controlada de energia regenerativa diretamente na parede uterina, um procedimento arriscado que exigia concentração total para não acelerar o sangramento, apenas selar os capilares que se romperam com a violência da contração.
— Meu bebê... — Inome balbuciou, o corpo arqueado contra o peito de Sephiroth, suas pernas ainda tremendo involuntariamente pelo choque sistêmico. As lágrimas escorriam, misturando-se à neblina fria da noite.
— Inome... — Sephiroth tentou buscar palavras, mas a voz morreu na garganta. Ele a envolvia com uma proteção visceral, seus olhos acompanhando cada movimento das mãos da mãe, com o coração ainda batendo num ritmo frenético e descompassado. Ele nunca tinha se sentido tão vulnerável, tão incapaz de conter uma ameaça.
Lucrecia finalizou o tratamento com um último gesto, pressionando um ponto de acupuntura específico na base da espinha de Inome para bloquear a dor residual e estabilizar a frequência cardíaca do feto. Ela retirou as compressas agora manchadas de sangue, substituindo-as por um curativo de malha compressiva impregnado com ervas calmantes. Ela respirou fundo, limpando o suor da testa com as costas da mão, mas não tirou os olhos do ventre da nora, mantendo o monitoramento ativo.
— O que aconteceu? — Lucrecia perguntou, a voz baixa, focada em diagnosticar a origem daquele surto.
Inome soluçou, o trauma da experiência ainda fresco e avassalador.
— Eu... eu senti como se algo tentasse empurrar meu filho para fora de mim... — Ela disse, os olhos perdidos no vazio enquanto voltava a chorar copiosamente, o pavor da sensação de uma mão invisível agindo dentro de seu próprio corpo sendo algo que ela jamais esqueceria.
Lucrecia buscou na mente tudo o que poderia ter desencadeado aquilo. A fisiologia da criança, carregando as mesmas células e a mesma carga de Mako que Sephiroth, criava uma ressonância perigosa; algo estava tentando expulsar aquele "corpo estranho" do organismo de Inome, ou talvez, atraí-lo para fora. O peso da revelação pairou sobre o grupo.
— Eu... Compreendo. — Lucrecia disse, a voz baixa, carregada de uma gravidade que ela tentou disfarçar. Ela segurou a mão de Inome, apertando-a com uma mistura de carinho e uma preocupação profunda. — Vou te dar um remédio, um sedativo que preparei com ervas da região. Seu corpo irá relaxar e você irá dormir. É necessário que seu útero retorne ao estado de repouso absoluto para estabilizar a placenta e permitir que o bebê se recupere do choque neurológico causado pelo estresse traumático. Seu organismo precisa desse tempo para absorver o impacto.
— Eu vou com ela. — Sephiroth disse firmemente, ainda mantendo-a presa em seus braços, ambos ajoelhados na grama úmida. O toque dele era de quem segurava algo que, a qualquer momento, poderia se desfazer em cinzas. Ele sentia medo — um medo real, cortante, de perder uma vida que ele ainda nem tinha tido a chance de pegar nos braços, uma existência que, de alguma forma, era a extensão mais pura de si mesmo.
Vincent aproximou-se, o olhar cauteloso e os movimentos silenciosos como os de um predador. A Cerberus pendia de seu coldre, inútil contra uma ameaça que não podia ser alvejada.
— Não era nada nas redondezas. Andei tudo aqui em volta — ele reportou, a voz rouca cortando a atmosfera pesada. Ele parou ao lado de Sephiroth, focando seu olhar na face mortalmente pálida de Inome. Ao notar a fragilidade dela e a marca indelével do terror em seus olhos, Vincent franziu a testa, estranhando profundamente o que vira; ele sabia que algo muito mais antigo e insidioso do que uma emboscada da Shinra havia acabado de ocorrer ali.
Assim que a porta da cabana de Sephiroth se fechou, trancando o casal em um casulo de proteção, Lucrecia entrou em sua própria habitação, sentindo as pernas pesarem sob o impacto do que acabara de presenciar. Vincent a seguiu, sua sombra projetando-se contra as paredes de madeira tosca antes mesmo que ele terminasse de cruzar o umbral. Ele não precisava perguntar; a postura dela dizia tudo.
— Sabe o que aconteceu? — Vincent perguntou, a seriedade em sua voz sendo um prenúncio do perigo real que agora os cercava. Ele não buscava suposições, buscava a verdade que só ela, com seu passado ligado àquelas mãos, poderia discernir.
Lucrecia levou a mão ao peito, o toque quase doloroso sobre o coração. Seus dedos tremiam levemente, não apenas pelo cansaço, mas pelo horror da constatação que lhe subia à mente.
— Eu... acho que foi o Hojo. — Ela confessou, a voz quase um sussurro, mas carregada de uma certeza sombria. — Foi um ataque físico, Vincent... brutal e direto, mas vindo de uma fonte que a gente nem consegue ver. A Inome descreveu exatamente o que sentiu: uma força tentando arrancar o bebê de dentro dela. Ele não está apenas nos monitorando... ele sabe dessa criança. Aquele "puxão"... ele está tratando a Inome como um laboratório, tentando extrair o feto à distância com uma violência que feriu o corpo dela. Ele não aceitaria que o legado do projeto continuasse fora do alcance dele; ele quer essa criança, seja para tê-la como seu próximo espécime, ou para garantir que ela não exista.
Vincent suspirou profundamente, um som que parecia vir do fundo de décadas de tormento.
— É... — Vincent soltou o ar, os punhos cerrados ao lado do corpo enquanto seus olhos brilhavam com um fulgor ameaçador sob a penumbra. — Se ele está tentando roubar ou destruir o que está ali através dessa ressonância, ele não vai parar só com aquele susto. Ele vai continuar tentando até conseguir o que quer. Sephiroth ainda não percebeu a magnitude da audácia de Hojo, mas ele vai. E quando ele perceber... essa floresta não vai ser grande o suficiente para conter o que virá.
— É pior que isso, Vincent... — Lucrecia se virou, os olhos encontrando os dele com uma urgência que ela mal conseguia conter. Ela se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Vincent, buscando naquele rosto marcado pelas sombras a mesma determinação que a mantinha viva. — Se ele tem o poder de manipular a carga de Jenova no bebê... como ouvimos no rádio sobre o plano dele... ele não está parado em Midgar. Se ele consegue exercer essa força sobre o feto, o que impede de ele tentar manipular minha própria essência? Ou você? Ou o Sephiroth?
Ela fez uma pausa, a voz baixando para um sussurro tenso, quase cortante.
— A biologia de vocês não é apenas Mako, Vincent, é a carga de Jenova que corre em cada célula. Ele conhece cada ponto fraco dessa linhagem porque foi ele quem a desenhou como uma arma. Temos que ter uma maneira de identificar essa "sintonia" antes que o fluxo comece, e, mais importante, achar uma maneira de cessar isso no instante em que ocorrer. Não podemos permitir que ele brinque com as nossas mentes e corpos como se fôssemos marionetes de laboratório de novo.
Aquilo pairou na mente de Vincent. Ele ficou em silêncio, o peso das palavras dela ecoando mais alto que o barulho da mata lá fora. A ideia de que ele poderia ser usado para ferir as únicas pessoas que ainda lhe importavam era uma afronta que ele não toleraria.
— Identificar a sintonização... — Vincent repetiu, a voz rouca, quase num rosnado baixo. Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o ambiente ao redor, procurando por aquela mesma assinatura predatória que ele sentira no campo antes. — Se ele está usando a malha de Mako do planeta para forçar a carga de Jenova, a gente vai sentir o ambiente "distorcer" antes de ele conseguir atingir o alvo. O problema, Lucrecia, é que se a gente interferir nessa conexão sem cuidado, a pessoa que está sendo drenada é a que mais sofre o impacto.
Ele abriu os olhos, o rubro intenso brilhando na penumbra da cabana.
— Mas se você conhece o protocolo dele, se você sabe como ele ancora essa frequência... a gente consegue virar o jogo contra ele. Você sabe que consegue.
— Fazem tantos anos, Vincent... — Lucrecia respondeu, os olhos perdidos em algum ponto distante do passado, a voz carregada de um cansaço amargo. — Mas o que sei, com absoluta certeza, é que o Hojo não desiste de seus objetivos. Para ele, nós somos apenas variáveis em uma equação que ele insiste em resolver, e ele sempre tira tudo do caminho, sem piedade, quando se sente desafiado.
Vincent suspirou, o peito subindo e descendo com o peso daquela constatação. Ele manteve o olhar fixo nela, lendo a culpa e a determinação que ainda lutavam dentro daquela mulher que ele tanto protegeria. Ele concordou lentamente com a cabeça, um gesto seco, mas de total entendimento.
— Amanhã cedo, perguntamos a eles dois — Vincent disse, a voz ganhando um tom mais firme, decidido a agir. — Vamos ver se eles sabem mais alguma coisa sobre a ressonância de Jenova e se possuem qualquer percepção de como manipular isso... ou como interromper o sinal que ele está usando para caçá-los. Se o Sephiroth e a Inome sentiram a pressão, eles podem ter a chave para entender como o Hojo está ancorando essa frequência.
— Eu... tentarei dormir agora. — Lucrecia disse, a voz soando exausta, como se cada sílaba carregasse o peso de tudo o que fora revelado. Ela caminhou até a porta, guiando Vincent para o lado de fora.
Vincent acompanhou o movimento dela em silêncio. Ele saiu para o ar frio e cortante da noite, parando apenas um instante no degrau. Ele ainda a fitava, os olhos rubros observando cada traço do rosto dela, buscando ali qualquer vestígio de que ela precisasse de companhia.
— Precisou, só chamar — Vincent disse, a voz baixa, um comando áspero que servia tanto como um aviso quanto como um juramento. Ele fez um aceno curto e firme com a cabeça, selando a promessa.
Sem esperar por uma resposta, ele se virou, deixando Lucrecia para trás no refúgio de sua cabana. O som de seus passos na grama úmida era quase inaudível, mas sua postura era a de um predador em alerta máximo. Ele caminhou atravessando o silêncio tenso do acampamento, a mão direita repousada sobre o coldre da Cerberus, vigiando cada vibração na pressão do ar, até alcançar sua própria cabana. Ele entrou, mas não se recolheu; permaneceu parado no interior, com os olhos fixos na entrada e no brilho fraco do luar, seus sentidos cravados em qualquer variação que indicasse que a "sintonia" de Hojo estava tentando se estabelecer novamente.

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