sábado, 27 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis: Capitulo 13

 


O ar do Setor 7 estava denso, carregado com a névoa metálica que subia das favelas, mas o movimento ali era atípico. Angeal estava parado na saída, segurando Marlene com uma firmeza protetora; a menina, com os braços enrolados no pescoço do veterano, parecia alheia ao peso daquela manhã.

Eles acenavam para o time que se afastava. O movimento de Angeal era contido, quase solene, como se estivesse entregando uma parte de si para uma tempestade que ele sabia que não poderia deter.

— Se cuidem! Tome cuidado, Cloud! — Angeal falou mais alto, a voz grave cortando o ruído de fundo das máquinas das favelas.

— Até depois, papai! — Marlene gritou, aninhando-se ainda mais contra o peito de Angeal, equanto acena.

O grupo seguiu em frente. Tifa caminhava um pouco atrás, observando a reação dos companheiros, enquanto Barret, com os punhos cerrados e o olhar cravado no horizonte industrial de Midgar, fazia uma vista grossa, como se a cena de despedida fosse um detalhe irrelevante diante da escala da missão que tinham pela frente.

Após alguns metros de caminhada, Barret estancou o passo, forçando o grupo a se alinhar. O líder da Avalanche virou-se, seus olhos carregados de uma determinação bruta e focada.

— Todos estão lembrados? — Barret olhou de relance para Tifa, Cloud e Aerith, pesando cada um com um olhar que exigia obediência cega. — Vamos seguir o plano: infiltração silenciosa até o núcleo. O explosivo vai ser colocado no ponto zero do reator para garantir o colapso total da estrutura. Nada de heróis, nada de brincadeiras. — Ele voltou a andar, com passos pesados que ecoavam pelo chão de metal. — Antes da bomba estourar o reator, temos que fugir. Se não, iremos virar escombros.

Eles continuaram andando, contornando os limites do Setor 1 até chegar na entrada principal do Reator de Mako 1, uma estrutura colossal de metal que perfurava o solo da cidade, com tubulações gigantescas que pareciam veias expostas de um organismo gigante. O lugar era vigiado por holofotes rotativos e o som constante da maquinaria pesada da Shinra ecoava pelo ar carregado de ozônio.

Barret parou diante de uma das entradas laterais de segurança, onde um terminal eletrônico piscava em um vermelho estático, indicando o bloqueio do acesso. Ele olhou o grupo, um pouco impaciente, com os dedos da mão mecânica batendo ritmicamente contra a carcaça da arma.

— Quem sabe abrir uma porta dessas? — Barret perguntou, o tom impaciente denunciando que qualquer segundo perdido ali era uma oportunidade para a segurança da empresa detectar a invasão.

Cloud não hesitou e caminhou até o terminal.

— Meus anos de Shinra não foram à toa... — Cloud complementou, aproximando-se da porta e começando a digitar com uma velocidade que parecia técnica demais para um simples recruta. — Eu abri tantas portas dentro do edifício.

Seus dedos deslizavam pelo painel com uma familiaridade gélida. Ele não apenas digitava, ele reescrevia a sequência lógica de segurança, contornando o firewall da Shinra como se estivesse apenas lendo um relatório de rotina. Em poucos segundos, o painel brilhou em um verde nítido e um estalo hidráulico pesado anunciou que as travas magnéticas haviam cedido.

Tifa ficou estática, observando o perfil de Cloud de lado. Ela olhou de Barret para Aerith, buscando algum sinal de espanto, tentando encontrar o Cloud que ela conhecia naqueles movimentos precisos e frios, mas encontrava apenas um soldado que agia com uma competência que a deixava confusa.

A única que parecia não ligar para a estranheza da situação era Aerith. Ela sorriu abertamente, sem qualquer sinal de preocupação com a segurança daquele acesso, e bateu palmas com um entusiasmo genuíno.

— Uau! Que guarda-costas excelente. — Aerith comentou, observando as portas deslizarem para o lado, revelando o corredor metálico iluminado por luzes de emergência pulsantes.

Barret apenas bufou, empurrando a porta com força para terminar de abri-la e dando o primeiro passo para dentro do reduto da Shinra.

— Guarda-costas ou não, ele que se vire quando a tralha começar a voar! — Barret resmungou, com a mão já posicionada no gatilho da sua arma de braço. — Vamos, não temos o dia todo!

O grupo avançou pelo interior do reator. O caminho era um labirinto de passarelas de metal galvanizado e dutos de ventilação que soltavam um vapor quente e acre. A cada nível que desciam, o som metálico das botas ecoava contra o aço, abafado apenas pelo zumbido grave e constante do núcleo de Mako que pulsava lá no fundo.

Barret liderava com a guarda alta, a metralhadora mecânica ajustada no braço esquerdo, girando o tronco a cada esquina.

— Fiquem espertos! — Barret rosnou para o grupo, parando subitamente quando um sensor de movimento vermelho passou por eles. — A segurança desses corredores é uma piada, mas a Shinra não costuma deixar a porta da frente aberta sem uma recepção calorosa lá embaixo.

Cloud, mantendo um ritmo constante logo atrás, observava as câmeras de segurança com um desprezo técnico. Ele não parecia um rapaz que mal sabia lidar com a própria vida, mas alguém que conhecia cada ponto cego daquele projeto.

— Não perca seu tempo com o que não atira, Barret — Cloud comentou, com a voz gélida e direta, ignorando completamente a impaciência do homem. — A recepção deles não é humana, são máquinas de protocolo. Eu cuido das travas de energia, vocês focam na força bruta.

Tifa, caminhando ao lado de Aerith, lançou um olhar tenso para Cloud. Ela não conseguia engolir aquela mudança de postura.

— Cloud, você está estranho desde que saímos do Setor 7 — ela disse em voz baixa, tentando não atrair a atenção de Barret. — Essa frieza... você nunca foi assim.

O rapaz parou de caminhar por um segundo e olhou para Tifa, o brilho azul intenso em suas íris saltando sob as luzes de emergência.

— Eu só estou fazendo o que precisa ser feito para ninguém morrer — ele respondeu, voltando a caminhar sem dar chance para que ela continuasse a reflexão.

Barret, ouvindo o burburinho, soltou uma risada ríspida, sem se virar.

— Deixa o moleque, Tifa! Pelo menos agora ele parou de agir como se estivesse perdido no próprio quintal! — Barret gritou, sua voz grossa ressoando pelas paredes de metal. — Se ele quer ser o líder da bagaça, que prove o valor na hora do aperto!

Aerith, que até então seguia com os olhos atentos à energia do reator, tocou levemente o ombro de Cloud, sentindo a vibração de algo que não era apenas aço e eletricidade.

— Você está carregando um peso grande demais para alguém tão jovem — ela sussurrou, apenas para ele ouvir.

Cloud sentiu um calafrio percorrer sua coluna, aquele ruído de estática invadindo seus pensamentos novamente, mas ele apenas apertou o cabo da Espada Buster e seguiu em frente. Eles dobraram a última passarela larga, o corredor se abrindo em uma vasta área industrial antes da última câmara de acesso.

Barret parou o grupo com um gesto brusco, levantando o braço metálico.

— Esperem! — ele comandou, o olhar cravado no final do corredor, onde a luz verde esmeralda do núcleo já começava a tingir o ar com uma radiação densa.

Ali, bloqueando o acesso final, dois andróides de segurança da Shinra, equipados com canhões laser, giraram as cabeças metálicas na direção deles, emitindo um som de carregamento eletrônico agudo e estridente.

— Aí está a "recepção" — Barret rosnou, ajustando a mira. — Escondam-se atrás das caixas! Cloud, Tifa, mostrem o que sabem fazer!

Cloud não se escondeu. Ele deu um passo à frente, os ombros relaxados, encarando a máquina como se ela fosse um brinquedo quebrado. Ele esperou o laser travar em seu peito e, no instante em que o disparo de energia foi emitido, girou o corpo com uma elegância sobrenatural, usando a parte plana da Espada Buster para ricochetear o disparo de volta para o próprio sensor do robô.

A máquina explodiu em uma chuva de faíscas e óleo queimado antes que Barret pudesse sequer apertar o gatilho. O silêncio voltou ao corredor, quebrado apenas pelo chiado dos fios elétricos expostos.

— Tá vendo, Barret? — Cloud disse, guardando a arma com um movimento seco e passando pelo robô destruído. — Agora, vamos logo para o núcleo. Se não estivermos lá em cinco minutos, esse lugar inteiro vai virar um forno.

Assim que a porta deslizou e o grupo adentrou a antecâmara do reator, o mundo de Cloud oscilou. Uma estática ensurdecedora preencheu seus ouvidos, transformando o zumbido das máquinas em um grito agudo. O ambiente ao redor perdeu a cor, desbotando para tons de cinza hospitalar, e no centro daquele vazio, a figura de Hojo surgiu.

O cientista não tinha a carcaça de quitina negra daquela vez; ele caminhava em sua forma humana, o jaleco manchado de reagentes químicos e aquele sorriso clínico e desprovido de alma. Ele andava na direção de Cloud, e a cada passo, seus braços começavam a se contorcer, a carne rasgando-se para revelar a musculatura pulsante e as placas negras que se projetavam para fora, projetando uma imponência distorcida e predatória.

— Meu espécime que fugiu... hehehehe... — Hojo sibilou, a voz ecoando como se viesse de dentro do crânio do rapaz. — Por que você não aceita sua nova natureza?

O medo subiu pela espinha de Cloud como um choque térmico. Era o homem que o havia mantido em cativeiro por quatro anos, o arquiteto de sua ruína biológica. O rapaz soltou um grito rouco, os joelhos cedendo, e se encolheu no chão de metal, as mãos pressionando as têmporas como se quisesse impedir o próprio cérebro de explodir.

— SEU MONSTRO! Saia daqui! — Cloud berrou para o vazio, as lágrimas descendo pelo rosto enquanto a figura de Hojo se aproximava, cada vez mais grotesca.

Barret, Aerith e Tifa se aproximaram de Cloud em um salto. Barret vasculhava cada canto da sala com a arma em riste, frustrado por não conseguir identificar a ameaça que levava o rapaz ao desespero. Tifa e Aerith, instintivamente, pousaram as mãos nos ombros de Cloud, tentando oferecer um ponto de apoio firme no meio daquela crise.

— Cloud?! — Tifa questionou, o tom urgente, tentando ancorá-lo de volta à realidade enquanto ele tremia convulsivamente sob seu toque.

O que, ironicamente, Tifa e Barret não viam, Aerith enxergava com uma clareza perturbadora. Ela não olhava para o chão em pânico; ela fitava a silhueta de Hojo com um sorriso desconcertante, um desdém que não condizia com a garota das flores. Ela negou com a cabeça, como se aquele espectro fosse apenas uma peça patética em um teatro que ela conhecia muito bem.

— Uuuuuuh, eu me lembro de você... — Hojo sibilou para o vazio, sua voz ganhando uma cadência antiga e sombria enquanto ele parecia confrontar a própria presença ali, antes de começar a se dissipar.

A estrutura de seu corpo dissolveu-se em jorros de uma fumaça densa, escura e purpurada, que subiu em espirais rápidas pelo teto. Em segundos, a névoa dissipou-se por completo nas sombras das tubulações, sem deixar um único vestígio físico ou rastro de energia no ar, exatamente como havia ocorrido com sua projeção no laboratório

Tifa sentiu o ar estagnar em seus pulmões. Ela ainda mantinha uma das mãos nas costas de Cloud, sentindo os tremores residuais que percorriam o corpo dele como espasmos elétricos. Seus olhos, inquietos e carregados de suspeita, dispararam na direção da florista, tentando esquadrinhar qualquer sinal de que aquela doçura não passava de uma máscara.

— Aerith! Você viu o que ele viu? — Tifa perguntou, a voz saindo um pouco mais alta do que o necessário, quase como uma demanda por uma verdade que ela sentia estar sendo ocultada ali mesmo, entre a fumaça de Mako.

Cloud, sob o toque de Tifa, ia retomando a postura aos poucos, embora seus olhos azuis ainda estivessem fixos em um ponto inerte no piso de metal, como se a imagem daquele monstro de jaleco estivesse queimada em sua retina.

Aerith, por sua vez, deu seu sorriso gentil e inocente, uma expressão que parecia banhar o ambiente metálico com uma leveza desproporcional. Ela negou com a cabeça lentamente, mantendo a serenidade.

— Não sei... eu só vi uma sombra imponente. — Ela olhou em volta, percorrendo o corredor com um olhar vago, como se buscasse algo nas próprias sombras que agora pareciam inofensivas. — Vocês não viram?

Tifa negou com a cabeça, soltando um suspiro longo que carregava toda a frustração daquela missão desastrosa. Ela sentiu uma pontada de desamparo; nada fazia sentido ali. A fragilidade de Cloud, a estranheza daquela mulher que agia como se estivesse em um passeio de domingo, e o silêncio opressor do reator formavam um quebra-cabeça que ela não conseguia montar.

Barret, do outro lado da sala, não tinha paciência para rodeios ou mistérios. Ele deu um chute furioso em um resto de painel eletrônico que faíscava no chão, fazendo o metal ressoar pelas paredes como um sino de guerra.

— Esse moleque está ficando maluco! — Barret grunhiu, a frustração transbordando em cada sílaba. Ele apontou o canhão do braço para a porta do núcleo, ignorando a fragilidade de Cloud e a aura enigmática de Aerith. — Se ele não consegue manter a cabeça no lugar, não vai servir pra porra nenhuma quando a gente tiver que fugir daqui! Cloud, levanta dessa porcaria de chão agora! A gente tem um reator pra explodir, ou você prefere que a Shinra venha aqui te buscar pelo pescoço?!

Cloud levantou-se com uma rapidez mecânica. Não havia mais vestígios do tremor ou do grito desesperado de segundos atrás, embora seus olhos estivessem opacos, focados apenas na tarefa adiante. Ele ajeitou a alça da Espada Buster no ombro, o couro rangendo contra a sua roupa, e deu as costas para o ponto onde a sombra de Hojo havia se dissipado.

— Vamos — ele disse, com a voz desprovida de qualquer emoção.

— O reator está aqui! — Tifa complementou, já caminhando em direção à plataforma de acesso principal. Ela lançou um último olhar preocupado para o rapaz, mas seguiu em frente, tentando ignorar o nó que se formava em seu estômago.

Barret seguiu logo atrás, seus passos pesados ecoando como marteladas no chão de grelha. Ele observava Aerith de lado, a testa franzida em um vinco profundo. A garota seguia o grupo com um passo saltitante, quase leve demais para um ambiente tão hostil e carregado de Mako. A calma dela não parecia natural; era como se ela estivesse caminhando por um campo de flores e não por uma zona de guerra pronta para explodir. Barret abriu a boca para resmungar algo, mas o zumbido do núcleo — um som profundo e vibrante que parecia reverberar dentro dos ossos — o fez fechar a cara e focar na missão.

Ao chegarem na plataforma central, a visão era colossal. O imenso cilindro de energia Mako pulsava como o coração de uma fera adormecida, vertendo uma luz esmeralda que pintava seus rostos com um brilho espectral.

— Tifa, agora! — Barret ordenou, apontando para o console central.

A jovem se operou os controles para abrir a câmara do núcleo. Enquanto ela trabalhava, Cloud permanecia de guarda, a postura rígida como uma estátua de mármore. Ele não olhava para o painel; seu olhar varria as passarelas superiores, esperando a reação inevitável das defesas da Shinra.

Tifa posicionou o artefato explosivo com precisão cirúrgica, os olhos concentrados no temporizador. O dispositivo emitiu um sinal sonoro seco ao ser acionado.

— Bomba plantada! — ela exclamou, a respiração acelerada. — Temos que sair daqui, agora!

— Finalmente! — Barret rugiu, dando meia volta. — Se esse lugar não virar cinzas em dez minutos, eu mesmo volto aqui e empurro o resto!

Eles correram. O caminho de volta, que antes parecia um corredor industrial, agora parecia um túnel sem fim. O som das sirenes começou a uivar pelo reator, um alarme ensurdecedor que rompeu o silêncio metálico. O ar, antes parado, começou a ser chicoteado pelas ventoinhas de exaustão que giravam em velocidade máxima.

Enquanto corriam, Cloud parou bruscamente por um milésimo de segundo, sua mão subindo instintivamente para o peito. O batimento cardíaco acelerava em uma frequência incômoda, um lembrete da essência estranha que corria em suas veias e que pulsava em sincronia com o reator que deixavam para trás. Era uma sensação de alerta, como se o seu próprio corpo estivesse reagindo à instabilidade da energia Mako que começava a vazar das tubulações rompidas pela explosão.

— Não pare, moleque! — Barret gritou, sem olhar para trás, enquanto a primeira explosão distante abalou a estrutura sob seus pés.

— Estou logo atrás! — Cloud respondeu, o olhar voltando ao normal. Ele correu atrás deles, garantindo que Aerith estivesse protegida, com a certeza sombria de que aquele não era apenas um ato de rebeldia, mas o primeiro passo para o fim da Shinra.

A fuga foi um inferno de concreto estilhaçado e chamas esmeraldas. Para alcançar a plataforma de desembarque, o grupo precisou abrir caminho através de pelotões de segurança da Shinra, com Cloud mantendo a Espada Buster em mãos o tempo todo, girando-a com uma precisão cirúrgica para desviar rajadas de laser e retalhar as carcaças mecânicas que tentavam encurralá-los nos corredores de acesso. Quando finalmente alcançaram o exterior, o impacto da detonação principal atingiu a estrutura, lançando-os para fora da plataforma pouco antes de o túnel interno colapsar em uma torrente de fogo e Mako derretido. O estrondo foi ensurdecedor, e a luz esmeralda que explodiu do núcleo iluminou o céu de Midgar como um sol tóxico e doentio.

Barret, ofegante e com o braço mecânico ainda soltando fumaça devido ao uso intenso no combate final, bateu no próprio metal em um gesto de triunfo bruto, embora seus olhos estivessem arregalados com a proporção da destruição que haviam causado.

— É isso! — ele rugiu, o suor escorrendo pelo rosto. — A Shinra vai sentir cada gota dessa energia desperdiçada. Agora eles sabem que a Avalanche não é brincadeira.

Cloud estava parado na beirada da plataforma, a Espada Buster ainda firme em suas mãos, observando o caos. Sua respiração estava controlada, mas seus olhos, movidos por uma percepção aguçada, captaram um detalhe nos dados que ainda piscavam em um terminal de segurança daquela área externa.

— Esperem — ele disse, com a voz cortante.

Tifa, ainda buscando o ar, aproximou-se ao ver a expressão do rapaz. Ao olhar para o terminal, seu sangue congelou. Não era apenas um registro de segurança; era um log de acesso remoto com uma assinatura digital que ela reconheceu de imediato.

— O que é isso? — Tifa sussurrou, a mão cobrindo a boca.

Cloud ignorou o ambiente em colapso e tocou a tela, seus olhos correndo pelas linhas de código. O formato do arquivo era o padrão de acesso restrito de Hojo: um log de diretório com cabeçalhos de Protocolo de Sincronia Biológica.

[LOG_ID: 99-DELTA-HOJO] STATUS: ATIVO
OBJETIVO: Extração e Refino de Fluxo Mako Puro via Sobrecarga de Reator.
PARAMETROS: Detonação de núcleo necessária para ignição de campo de absorção.
FINALIDADE: Ascensão metabólica e integração celular do espécime (Hojo).
OBSERVAÇÃO: A instabilidade da resistência (Avalanche) servirá como catalisador térmico para a ignição do núcleo de absorção.

Ao ler aquilo, o estômago de Cloud revirou. Aquilo significava; as memórias dos quatro anos que passou confinado naquelas instalações, vendo Hojo realizar procedimentos indescritíveis em si mesmo e nos outros, voltaram como um flash. Ele viu, em sua mente, as seringas e as câmaras de transferência de energia que o cientista usava para tentar elevar sua própria biologia a um nível sobre-humano.

— Ele forçou a explosão... — Cloud disse, a voz subindo um tom, fria como uma lâmina. — Não foi para nos parar. O log de acesso confirma: a detonação do reator não é um dano colateral, é o requisito técnico para que ele absorva esse fluxo de Mako. Ele configurou a explosão para que o reator funcionasse como uma fonte de energia concentrada, direto para o laboratório dele.

Aerith se aproximou, observando os dados com uma seriedade que fez Barret recuar um passo.

— Ele não está destruindo o reator — Aerith disse, sua voz tranquila, porém carregada de um peso sombrio. — Ele está usando a explosão como uma fornalha para alimentar a si mesmo.

Cloud fitou a fumaça esmeralda subindo pelos prédios de Midgar, a compreensão do horror sendo muito mais pessoal.

— Hojo está usando esse experimento em si mesmo. O reator não era apenas energia; era o transmissor para a ascensão dele. Ele está saturando a si mesmo com essa carga para testar a integração celular que ele perseguiu durante anos. Ele quer provar que pode alcançar o auge evolutivo através dessa energia concentrada.

Barret aproximou-se, o canhão em seu braço abaixado. A raiva em seu rosto foi substituída por uma náusea genuína ao entender a dimensão daquela atrocidade egoísta.

— Esse desgraçado está usando a destruição de um setor inteiro só para se tornar um deus? — Barret grunhiu, a veia em seu pescoço saltando. — Isso é sobre a sede de poder dele!

— Exatamente — Cloud completou, fechando o punho com tanta força que o metal de sua luva rangeu. — Nós achamos que estávamos atacando a Shinra, mas ele nos usou como o gatilho. A explosão era o requisito necessário para a ignição que vai alimentar o experimento dele.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo estalar dos escombros. Cloud finalmente guardou a espada nas costas com um estalo seco. O objetivo da missão tinha mudado radicalmente. O alvo não era mais a infraestrutura, era o próprio Hojo.

A estrutura do reator soltou um gemido metálico final, uma torção de vigas de aço que anunciava o desmoronamento iminente das galerias inferiores. O chão sob os pés deles tremia com a frequência da sobrecarga, uma vibração que parecia querer romper os ossos de quem estivesse por perto.

— Vamos embora! — Tifa gritou, a voz mal audível sobre o rugido das chamas e o silvo do Mako escapando pelos dutos rompidos. Ela lançou um olhar nervoso ao redor, vendo os pilares de suporte se inclinarem perigosamente sob o peso do colapso.

Barret deu um último olhar furioso para o terminal, como se quisesse pulverizá-lo com um tiro à queima-roupa, mas a urgência da sobrevivência falou mais alto. Ele cravou o braço mecânico contra a coxa, o metal retinindo, e virou as costas para o rastro de destruição que haviam deixado.

— É, está na hora de ir — Barret concordou, a mandíbula travada em uma raiva contida. — Não dá pra resolver isso no meio desse inferno. Depois nós pensamos num meio de parar esse maluco!

Aerith, que até então parecia flutuar entre a calma e a vigilância, apenas concordou com a cabeça. Seus olhos não estavam fixos no perigo imediato, mas no céu de Midgar; o Mako esmeralda que subia em colunas densas parecia um espectro distorcido, e a visão daquela energia sendo consumida de forma tão profana causava um incômodo físico na moça, uma angústia silenciosa que a fazia apertar as mãos contra o corpo.

Sem esperar por mais comandos, o grupo disparou para fora da plataforma, atravessando a névoa tóxica e o fuligem que já cobria o ar. Correram pelos corredores labirínticos, saltando sobre escombros e cabos elétricos que chicoteavam o ar com descargas violentas. A fuga era um borrão de concreto, metal e o brilho esmeralda que os perseguia como uma sombra persistente.

Eles não pararam nem por um segundo até estarem longe o suficiente da zona de impacto, embrenhando-se na rede de túneis e passagens que levavam de volta às entranhas do Setor 7. O destino era o Sétimo Céu, o único refúgio onde poderiam finalmente baixar a guarda e processar a escala do que acabara de ser descoberto. O ar ali embaixo era mais frio, saturado pelo cheiro de óleo e suor das favelas, uma realidade que parecia quase pacífica comparada ao que haviam acabado de testemunhar no coração da Shinra.

Longe dali, escondido nas profundezas dos subníveis clausurados do laboratório da Sede da Shinra em Midgar — um bunker blindado onde a luz do sol nunca alcançava — Hojo observava o vazio, mas seus olhos viam muito além daquelas paredes. Ele deu um riso alto e sádico, um som que reverberava pelas superfícies metálicas enquanto a energia Mako, saturada pela explosão no Setor 1, era drenada e canalizada diretamente para o seu receptáculo, entrando por cada poro de sua pele como uma injeção de éter puro. A essência de Jenova em seu sangue pulsava, uma extensão orgânica de sua própria vontade que lhe permitia navegar pelas mentes que carregavam seu legado.

— Até que esses espécimes fazem um bom trabalho... — ele sibilou de olhos fechados. A distância era irrelevante; ele sentiu o rastro de adrenalina de Cloud na fuga, a vigilância de Angeal sobre Marlene e, por fim, fixou-se na rotina de Sephiroth e Vincent em Nibelheim. Ao tocar a consciência deles, um brilho diferente capturou sua atenção, uma ressonância sutil e inesperada que emanava do ambiente, algo que não pertencia apenas aos dois.

— Tenho tantas cabeças para tomar o controle para mim... ah... — ele moveu a mão, fascinado pelos arcos de luz Mako que saltavam de seus dedos. Ele voltou o olhar para o centro de sua câmara, onde a redoma de contenção pulsava em um ritmo doentio. — E minha mais nova criação, dentro da nova incubadora, finalmente começa a reagir à frequência.

Um sorriso de escárnio curvou seus lábios. O sinal que ele detectara ao longe era a peça final que ele precisava para validar o seu próximo passo. O jogo estava apenas começando.

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