No dia seguinte, já mais descansados, a pequena comitiva deixou o abrigo provisório de Vincent. O ex-Turk tomou a frente, guiando-os por uma trilha estreita, íngreme e úmida que serpenteava pela face oculta e traiçoeira do Monte Nibel. O som de água corrente ecoava ao longe, indicando o longo caminho que ainda precisavam percorrer.
Durante o trajeto todo, Inome segurava a mão de Sephiroth. O platinado caminhava ao lado dela com sua habitual postura impecável, mantendo o rosto esculpido em uma máscara de pura serenidade. Ele não demonstrava absolutamente nada por fora, mas Inome sentia a verdade na palma de sua mão: o aperto dele estava tenso, rígido, entregando um nervosismo silencioso e crescente a cada passo que davam em direção ao desconhecido.
Nas costas, Sephiroth carregava uma mochila mediana — haviam deixado as bagagens maiores na caverna de Vincent para terem o máximo de mobilidade nas pedras. Dentro dela, repousava todo o maquinário pesado que Inome costumava usar nas emboscadas em que se metiam: o extrator pneumático, cilindros de pressão, sondas lógicas e a furadeira térmica.
Vincent, que ia um pouco mais à frente abrindo caminho, comentou, virando-se brevemente para encará-los com o manto carmesim balançando ao vento frio: — Eu tive umas ideias de como abrir aquilo lá, mas todas eram violentas o suficiente. Nunca eu machucaria a Lucrecia.
— Hm... Especificamente, a que nível de força letal você se refere? — Sephiroth questionou. A voz soou grave, fria e compassada, mas carregava nas entrelinhas uma preocupação genuína de que algo pudesse dar errado.
— Aahhh.... Bom... — Vincent desviou o olhar rubro por um instante, passando a mão humana pelos cabelos negros e suspirando de forma cansada. — Envolvia colar cargas de explosivos plásticos diretamente nas fissuras do gelo, descarregar os três canos da Cerberus à queima-roupa no núcleo ou, na pior das hipóteses... deixar a mutação da besta assumir o controle e tentar esmagar o cristal na base da força bruta. Nenhuma das opções trazia a menor garantia de que a caverna não iria pelos ares, e ela junto
Sephiroth soltou um suspiro audível, o ar saindo num golpe só dos pulmões enquanto a tensão nos ombros finalmente cedia. Ele fixou o olhar em Vincent, o alívio batendo forte, ainda que seu cenho permanecesse levemente franzido pela natureza daquela revelação.
— Agradeço que tenha descartado essa estratégia, Vincent. A integridade dela é uma variável que não estou disposto a sacrificar.
Vincent deu um meio sorriso, o tom contido, mas carregado de uma ironia seca e cansada:
— Por isso eu dormi décadas também. Precisava que alguém tivesse um pouco mais de bom senso que eu.
Inome apenas ouvia, com um sorriso brando nos lábios. Ela continuou acariciando a mão de Sephiroth com o dedão, um toque firme para mantê-lo ancorado enquanto caminhavam. A trilha terminou na base de uma cachoeira colossal; atravessando o véu de água congelante, o cenário mudou. A caverna secreta revelou-se imensa, com paredes de pedra escura cravadas de veios de Mako cristalizado que pulsavam, lançando um reflexo luminescente azulado pelo ambiente. Bem no centro, erguia-se uma estrutura maciça: um gigantesco cristal.
Lá dentro, suspensa no tempo, estava Lucrecia Crescent. Ela dormia em paz, com as mãos dadas e os longos cabelos escuros flutuando na densidade do Mako.
Quando os olhos de Sephiroth bateram na figura de Lucrecia, a última barreira que o mantinha de pé sumiu. A postura imposta caiu. Ele começou a chorar, as lágrimas quentes descendo pelo rosto marcado pelo frio da montanha. Soltando a mão de Inome de uma vez, deu passos trôpegos até o centro da caverna e se jogou, abraçando a estrutura de cristal com força.
— Mãe... — ele disse. A voz saiu embargada, despida de qualquer filtro, misturando o alívio de finalmente estar ali com o aperto brutal no peito pelas décadas que haviam sido roubadas de ambos.
Vincent parou logo atrás, os olhos rubros observando a cena entre o choque e o desconforto. O ex-Turk olhou para Inome, com uma expressão confusa, como se não soubesse onde enfiar o rosto diante daquela vulnerabilidade extrema do filho adulto.
Inome sorriu, os olhos transbordando de emoção. Ela olhou para o atirador e disse com uma ternura inabalável:
Inome sorriu, os olhos transbordando de emoção. Ela olhou para o atirador e disse com uma ternura inabalável:
— Deixa ele desabar... ele merece...
Vincent deu de ombros, as mãos enterradas nos bolsos do manto carmesim. O olhar dele alternava entre o cristal e a silhueta de Sephiroth, e ele sentia um aperto familiar no peito. Lembrar daquele garoto — que ele via apenas através de vidro ou em pastas de relatórios frios de laboratório, sempre sozinho e condicionado a responder apenas a estímulos de combate — era uma tortura silenciosa. A Shinra o tinha criado como uma peça de xadrez, uma ferramenta para ser usada e descartada, e Vincent se sentia culpado por ter se escondido enquanto a infância de Sephiroth era consumida por aquela instituição.
Inome assistia à cena com carinho contido. Ela não tirava o foco do Sephiroth, mas, de vez em quando, desviava um olhar rápido para Vincent, sentindo a inquietação dele.
Vincent pigarreou, quebrando o silêncio da caverna, e apontou o dedão na direção de Sephiroth, que continuava abraçado ao cristal.
— Como... você conseguiu tirar essa guarda dele? — Vincent perguntou, a voz saindo baixa e áspera. Ele hesitou, buscando as palavras certas. — Nos registros da Mansão... ele era um garoto que não sabia o que era ser nada além de uma propriedade. Fechado, analítico ao extremo, quase como se a única forma de sobrevivência fosse se tornar o que eles queriam. Era impressionante....
Inome sorriu levemente, um sorriso que não carregava julgamento, apenas a verdade da convivência. Ela se aproximou um pouco mais de Vincent, mantendo a voz calma.
— Eu não precisei fazer muito, Vincent. Só parei de tratar ele como um herói. Quando você tira o peso de ser a "peça perfeita" que esperam dele, o que sobra é só o Sephiroth. E, acredite, ele é bem mais teimoso e sentimental do que os registros da Mansão davam a entender.
Sephiroth afastou-se ligeiramente da estrutura, a respiração ainda irregular. Ele pousou a mão espalmada sobre a superfície fria do cristal, exatamente onde o rosto de Lucrecia estava posicionado do outro lado da barreira, tentando encontrar qualquer resquício de calor através daquela barreira insensível.
— Mãe... como é bom te conhecer... — ele murmurou, a voz rouca, quase num sussurro reverente.
Ele observava os traços dela com uma intensidade faminta. A imagem que ele carregara por anos, aquela fotografia desbotada e guardada como um segredo inconfessável, ganhava vida agora, tridimensional e real.
— Você... é igual na foto que eu tinha... — ele deu um sorriso fraco, o rosto molhado, uma expressão que carregava uma mistura genuína de dor e fascínio. Ele soltou uma risada curta e sem fôlego, um som que jamais permitiria que qualquer outra pessoa ouvisse. — Mãe... é.... tão estranho te ver aqui... por todos esses anos... eu achei que nunca te veria....
Ele pausou, os olhos percorrendo cada detalhe do rosto dela com uma análise silenciosa, como se estivesse catalogando cada traço para confrontar a memória com a realidade.
— A discrepância entre a expectativa e a realidade é... desconcertante. Passar décadas projetando este encontro e, finalmente, encontrar-te imersa nesta estase... é uma ironia…
Ele inclinou a cabeça, mantendo a mão encostada no cristal. A postura do homem deu lugar à de um filho que finalmente encontrara uma peça ausente em sua própria genética.
Ele inclinou a cabeça, mantendo a mão encostada no cristal. A postura do homem deu lugar à de um filho que finalmente encontrara uma peça ausente em sua própria genética.
— Eu passei muito tempo esperando por uma resposta que não sabia se viria, ou se você, ao menos, ainda era capaz de formular uma. Mas agora... apenas a sua existência física aqui já valida todas as dúvidas que me foram impostas.
Inome por fim acenou, caminhando em direção a Sephiroth, acompanhada por Vincent. A tensão emocional na caverna ainda era palpável, mas o ambiente precisava de uma solução técnica, e não apenas de luto.
— E aí, como pretendem tirar ela daí? — Vincent perguntou, cruzando os braços sobre o peito e observando a estrutura cristalina com um ceticismo analítico.
— Bom... — Inome coçou o queixo, avaliando a base do cristal. — Como você me disse que sua própria maldição consegue absorver toxinas e dissipar energias corrompidas, dá para você fazer isso aqui. Seph até poderia tentar controlar o fluxo de Mako, mas não quero colocá-lo em risco enquanto ele estiver lidando com isso.
Sephiroth olhou para Inome, claramente contrariado. A ideia de ficar à margem enquanto ela ou Vincent manuseavam a liberdade da mãe não o agradava nem um pouco, mas ele não contestou — o pedido dela era uma ordem que ele aceitava, ainda que a contragosto. Ele suspirou, abaixou-se e colocou a mochila no chão de pedra, abrindo-a com movimentos precisos.
— Eu tenho essa materia... desde aquela missão do Behemoth — ele disse, estendendo a mão. Na palma, a pedra roxa pulsava com uma vibração pesada, quase gravitacional, que parecia distorcer o ar ao redor. — Eu suspeitava que sua utilidade fosse maior do que uma simples fonte de energia, mas a sua estrutura é... peculiar. Veja por si mesmo.
Vincent deu um passo à frente. Os olhos rubros se fixaram na pedra com uma intensidade que transparecia a memória, a postura soturna vacilando por um instante diante da raridade do que via.
— Isso... — Vincent soltou, a voz baixa, carregada de uma aspereza contida. — É uma Singularidade de Mako. Veio de Spira, não foi? Dos estudos dos fundadores sobre o Farplane. Hojo mantinha várias dessas trancadas nos níveis inferiores, tratando como se fossem chaves mestras para a própria vida. Fazia décadas que eu não via uma dessas... pensei que tivessem sido destruídas ou perdidas no tempo.
— E como manuseio isso? — Sephiroth questionou, observando a matéria com um olhar analítico que mal conseguia esconder a urgência por trás. A firmeza em seus dedos era absoluta, mas havia uma nuance de cautela que destoava de sua eficiência habitual. — A estrutura deste artefato é densa. Se houver uma falha na condução, o colapso do núcleo é garantido. Como devo proceder para evitar uma instabilidade?
Vincent descruzou os braços, aproximando-se o suficiente para que a luz avermelhada de seus olhos iluminasse a pedra.
— Não se manipula essa singularidade como uma matéria comum, Sephiroth — Vincent explicou, a voz grave e pausada, o peso de quem já viu experimentos darem terrivelmente errado. — Você não precisa canalizar sua vontade nela; você a alimenta com uma corrente constante. Ela funciona como um dreno de pressão. Se você mantiver a mão em contato direto e aplicar uma carga controlada, ela vai começar a absorver a estagnação do cristal e converter a energia em algo que possa ser dissipado. Só... tenha cuidado. Se perder o foco, a singularidade vai drenar você junto com o Mako.
Sephiroth assentiu, uma expressão de compreensão silenciosa tomando conta de seu rosto. Ele se posicionou diante da base do cristal, a postura firme, mas os músculos dos ombros visivelmente menos rígidos do que o habitual.
— Preparados? — Inome complementou, já agachada no chão de pedra enquanto retirava os itens de dentro da mochila com eficiência e rapidez.
Ela alinhou suas ferramentas sobre um pano tático que estendeu no solo úmido: o extrator pneumático de alta vazão, um par de sondas lógicas de interface para monitorar a pureza do fluxo, dois cilindros de hidrogênio para resfriar a superfície do cristal durante o corte e a furadeira térmica de ponta de diamante, que ela segurava com a confiança de quem sabia exatamente onde a estrutura estava mais fragilizada.
— No momento em que a matéria começar a drenar, a pressão dentro do núcleo vai oscilar violentamente — Inome avisou, prendendo o cabelo para trás e colocando as luvas de proteção. — Eu preciso que vocês dois mantenham essa corrente estável. Se o cristal começar a rachar antes da hora, nós vamos ter um desastre. Vincent, na cobertura. Seph... não deixa sua mente flutuar. Foca no que está na sua mão.
Ambos concordaram, assumindo suas posições. Vincent afastou-se alguns passos para o flanco, os olhos rubros vasculhando as sombras da caverna enquanto preparava a garra metálica para interceptar qualquer desequilíbrio energético ou intrusão que a reação do cristal pudesse provocar. Sephiroth, por sua vez, fechou os olhos por um breve instante, ignorando o resto do mundo. Canalizou uma intenção límpida, uma vontade quase infantil de proteger a integridade daquele núcleo, como se estivesse tentando envolver a própria essência de Lucrecia em um abraço invisível e reconfortante para que ela não sofresse o choque da libertação.
— Atenção — Inome comandou, a voz firme e cortante.
Ela posicionou a furadeira térmica de ponta de diamante sobre a base do cristal. O motor pneumático emitiu um zumbido agudo e constante. Assim que a ponta tocou a superfície escura, lascas de Mako cristalizado voaram como poeira estelar, e ela começou a traçar o padrão geométrico de perfuração com precisão cirúrgica.
O ambiente reagiu instantaneamente. O zumbido da furadeira foi abafado pelo som grave da energia estagnada começando a despertar. Sephiroth, com a Singularidade de Mako firmemente pressionada contra o cristal, sentiu o dreno começar; a pedra roxa em sua mão emitiu um brilho ofuscante, puxando a carga corrompida. Ele mantinha a mandíbula travada, suor escorrendo pela têmpora, concentrado apenas em manter o fluxo estável, harmonizando sua própria essência com a dela para que o Mako não se tornasse volátil.
Vincent, observando o tremor que começava a subir pela estrutura, interveio sem hesitar. Ele posicionou a garra metálica próxima a um dos pontos de drenagem de Inome, calibrando a densidade da barreira. Com uma precisão que só décadas de combate podiam proporcionar, ele começou a absorver o excesso de pressão que vazava das fissuras, dissipando a radiação nociva antes que ela pudesse atingir Sephiroth.
— Furos principais atravessados! — Inome exclamou, mudando a ferramenta para o extrator pneumático.
Ela inseriu as sondas lógicas, conectando-as à estrutura para estabilizar o vácuo. Sephiroth soltou um grunhido de esforço, a determinação em seus olhos sendo algo que jamais fora visto em um campo de batalha: era a entrega absoluta de quem está salvando a vida da mãe que ele jamais conheceu. O cristal começou a emitir um estalo profundo, as rachaduras se espalhando como uma teia de luz sobre a superfície antes inabalável. O Mako, agora purificado, começava a girar em torno do corpo de Lucrecia, revelando, pela primeira vez em décadas, que ela estava despertando.
O escoamento do Mako finalmente cessou, deixando o cristal oco e inerte, como uma concha vazia. Assim que a estrutura perdeu o suporte de energia, o corpo de Lucrecia inclinou-se para frente. Antes que ela pudesse atingir o solo úmido da caverna, Sephiroth já havia se desvencilhado da Singularidade — passando-a rapidamente para a mão de Vincent — e a aparado com uma destreza quase sobrenatural.
Ele a segurou contra o peito, o peso dela sendo a coisa mais real que ele já sentira em toda a sua existência. O silêncio na caverna era absoluto, quebrado apenas pela respiração trêmula de ambos.
Lentamente, as pálpebras de Lucrecia tremeram. Quando ela finalmente abriu os olhos, a luz azulada do Mako ainda residia neles, mas o foco — a centelha de consciência que retornava — estava cravado no rosto de Sephiroth. Ela levou a mão, ainda pesada pelo longo sono, até o rosto dele. A semelhança era inegável; os traços, a íris, a forma como ele a observava. Era a resposta biológica e o reconhecimento instintivo de uma mãe para com o seu filho.
— Filho... — ela sussurrou, a voz soando como um vidro quebrado após décadas de silêncio. Ela o puxou para perto, fechando o abraço com uma força que ela mesma não sabia que possuía.
— Mãe... — Sephiroth arfou, a voz perdendo qualquer vestígio de controle. Ele não se importou com a postura, escondendo o rosto no pescoço dela enquanto as lágrimas molhavam o tecido que a envolvia. Ele a apertou contra si, como se tivesse medo de que, ao soltá-la, ela evaporasse como o Mako que acabaram de drenar.
A poucos metros dali, Inome aproximou-se de Vincent, enxugando as lágrimas que escorriam por seu rosto com as costas da mão. O ar na caverna parecia mais leve, menos carregado pela estagnação.
Vincent, mantendo a Singularidade de Mako segura e estável em sua garra, observava a cena de esguelha. Ele mantinha a expressão impassível de sempre, ele olhou para Inome, o olhar rubro fixo nela por um momento prolongado, surpreso — e, de certa forma, impressionado — com a facilidade com que aquela mulher conseguia navegar por águas tão profundas de dor e carregar a empatia que, para muitos naquele mundo, já havia sido extinta. Ele não disse nada, mas bastou para selar o respeito que ele estava desenvolvendo por ela.
Sephiroth soltou um suspiro entrecortado, o rosto ainda enterrado no ombro dela enquanto a tensão de toda uma vida parecia se dissolver.
— Mãe... — ele balbuciou, a voz falhando, despida daquela impostação rígida de antes. — Eu... eu te perdoo. O Hojo foi um ser vil comigo também... da mesma forma que foi com a senhora... com o... — ele hesitou, engolindo a seco enquanto tentava articular o peso daquela revelação, ainda processando a nova dimensão da sua própria origem. — Com o meu pai.
— Mãe... — ele balbuciou, a voz falhando, despida daquela impostação rígida de antes. — Eu... eu te perdoo. O Hojo foi um ser vil comigo também... da mesma forma que foi com a senhora... com o... — ele hesitou, engolindo a seco enquanto tentava articular o peso daquela revelação, ainda processando a nova dimensão da sua própria origem. — Com o meu pai.
Lucrecia começou a chorar, um choro desajeitado e profundo, abraçando-o com a avidez de quem tentava recuperar décadas perdidas em um único instante.
— E eu te peço desculpas, mesmo assim... — ela soluçou, sentindo as lágrimas dele encharcarem seu ombro. — Eu fui imprudente... antes dele me afastar de você... eu deveria ter lutado mais, eu poderia ter te roubado de volta para mim... fugido com você.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar o rosto dele, seus dedos trêmulos subindo para acariciar os longos cabelos platinados com uma delicadeza quase reverente, como se estivesse tentando compensar em segundos todos os anos de carinho que a Shinra lhe roubara.
— Você não deveria ter carregado essa responsabilidade sozinho — ela disse, a voz embargada por uma dor que transcendia a estase. — Você sempre foi o meu maior milagre, não uma ferramenta para o ódio deles.
— Está tudo bem, Mãe... — Sephiroth voltou a abraçá-la, sentindo-se, pela primeira vez em décadas, como se a armadura que vestia tivesse finalmente se quebrado. O tom era suave, desprovido de qualquer autoridade. — Você está aqui... eu... eu estou bem...
Ele suspirou profundamente, o peito subindo e descendo com dificuldade enquanto as lágrimas continuavam a cair.
— Você é real... você não está morta... isso é o que importa.
— E você é tão real quanto eu... — Lucrecia disse, apertando o abraço com uma força surpreendente, como se precisasse de confirmação física de que aquele homem à sua frente era, de fato, o filho que ela deixara para trás. — Por um momento naquele lugar, eu pude jurar que havia te perdido e que o Hojo estava apenas brincando com a minha sanidade.
Lá do outro lado da caverna, a uma distância respeitável para permitir aquele reencontro familiar, Inome observava os dois. Ela limpou o rosto, o nariz levemente avermelhado pelo choro, e lançou um olhar para Vincent.
— Que jeito diferente de conhecer meus sogros... — ela comentou, soltando uma risada fraca e um tanto nervosa, tentando quebrar a tensão do ambiente.
Vincent, ainda segurando a Singularidade que agora brilhava com uma intensidade muito mais tênue, deu um meio sorriso. Ele parecia menos rígido do que há poucos minutos, embora sua postura ainda mantivesse aquela cautela silenciosa de um observador.
— Pois é, Inome — Vincent complementou, o olhar rubro voltando-se por um breve instante para a cena do reencontro antes de se fixar nela. — Veremos como a sogra te aceitará.
Ao ouvir as vozes próximas, Lucrecia, ainda fragilizada pelo longo período em estase, moveu-se lentamente para sentar-se no chão, encostando o ombro no de Sephiroth como se precisasse daquele contato para ancorar-se à realidade. Seus olhos, ainda nublados pela emoção, focaram nos dois recém-chegados.
— Oh... Vincent. — Ela deu um sorriso saudoso, uma expressão que carregava décadas de lembranças amargas e preciosas. Ela então desviou o olhar, fixando-o na jovem que acompanhava o homem de capa carmesim. — E você é...?
— Inome. — Ela respondeu prontamente, inclinando o corpo em uma reverência respeitosa, o olhar carregado de uma admiração genuína por estar diante da figura que ela passara tanto tempo tentando resgatar. — Um prazer conhecer a senhora.
Sephiroth, que a observava com uma atenção que ele raramente dedicava a qualquer pessoa, sentiu um impulso súbito. Ele buscou as palavras, travando uma batalha interna rápida entre o que ele era para o mundo e o que ele era ao lado dela. Ele e Inome compartilhavam um vínculo que transcendia nomes, mas, diante da mãe, a necessidade de definir o indefinível falou mais alto.
— Ela é minha... — Sephiroth hesitou apenas por um milésimo de segundo, sua voz soando mais firme do que o habitual, carregada de uma convicção rara. — Esposa.
Ele soltou a palavra como se estivesse selando um pacto que ele mesmo acabara de compreender. O sorriso se formou em seu rosto era o de um homem que finalmente encontrava estabilidade. Ele alternou o olhar entre Inome, que parecia levemente surpresa, mas profundamente tocada, e Lucrecia, cuja expressão de choque rapidamente se transformou em uma alegria serena ao ver o filho, finalmente, escolhendo alguém para trilhar o caminho ao seu lado.
— Você sabia dessa, Vincent? — ela brincou, com um sorriso de canto que iluminava seu rosto cansado. — Casados...
Inome riu, balançando as mãos num gesto de modéstia, sentindo o rosto esquentar com a surpresa do título que Sephiroth acabara de lhe dar.
Inome riu, balançando as mãos num gesto de modéstia, sentindo o rosto esquentar com a surpresa do título que Sephiroth acabara de lhe dar.
— Não ligue para ele, é um exagero típico — ela disse, tentando desviar o foco antes que a preocupação com a saúde da mulher tomasse conta novamente. — Mas a senhora... está bem? Sente-se muito fraca?
Junto de Sephiroth, ambos estenderam as mãos para ajudar. Sephiroth foi o primeiro a segurá-la pelos braços, com uma cautela que parecia dedicada a um cristal extremamente frágil, levantando-a com uma facilidade que beirava a reverência.
— Fiquei sabendo agora também — Vincent respondeu à provocação de Lucrecia, guardando a Singularidade de Mako com um movimento seco. Ele estreitou os olhos, lançando um olhar clínico e cúmplice para o casal. — Mas, honestamente? Eu já sabia que era "alguma coisa" entre os dois.
Sephiroth, ainda sustentando o peso da mãe, fitou Vincent. Apenas um sorriso discreto e quase imperceptível, um reconhecimento entre dois homens que, por caminhos tortuosos, tinham encontrado um propósito.
Sephiroth, ainda sustentando o peso da mãe, fitou Vincent. Apenas um sorriso discreto e quase imperceptível, um reconhecimento entre dois homens que, por caminhos tortuosos, tinham encontrado um propósito.
Lucrecia se aproximou de Vincent, segurando a mão dele — aquela que não era ocupada pela garra metálica — num gesto singelo e carregado de uma culpa que o tempo não conseguiu dissipar.
— Me perdoe... — ela murmurou, sustentando o olhar dele com uma vulnerabilidade que raramente permitia transparecer. — Todos esses anos que se passaram, Vincent... eu também fui irresponsável com seus sentimentos.
Inome, observando a cena de uma distância respeitosa, sentiu o peso do momento. Ela se aproximou de Sephiroth e entrelaçou seus dedos aos dele, apertando-os com carinho. Era uma conexão silenciosa, um suporte mútuo enquanto ambos testemunharam a resolução de um capítulo que, para aqueles dois, parecia ter durado uma eternidade.
Vincent permaneceu imóvel por um instante, o olhar rubro fixo no rosto dela, processando o pedido de desculpas. A dureza que sempre habitou suas feições suavizou-se, dando lugar a uma resignação calma.
— Ah, fique tranquila — ele respondeu, com a voz baixa e um tom que dispensava qualquer rancor. Ele a fitou, os olhos estreitados enquanto o real motivo da situação o atingia. — Todos nós aqui sabemos quem é o verdadeiro culpado. O Hojo foi o arquiteto de tudo isso. Só levou tempo demais... para que a gente finalmente percebesse a extensão do que ele fez.
— Vamos? — Inome sorriu, olhando para todos enquanto o ar gélido da caverna começava a parecer menos opressor. Ela voltou sua atenção para a mulher que ainda se recuperava do choque da estase. — A senhora consegue andar?
— Eu ajudo. — Sephiroth disse de prontidão, soltando a mão de Inome e já se posicionando ao lado da mãe, com a determinação de quem não permitiria que ela tropeçasse sequer um centímetro.
No entanto, antes que ele pudesse tomar o peso dela para si, Vincent deu um passo à frente, posicionando-se de forma a oferecer o suporte necessário para que Lucrecia se firmasse.
— Fique em paz — Vincent disse, interrompendo o movimento de Sephiroth com uma brevidade característica. Ele não precisava de muitas palavras para estabelecer o comando. — Cuide da sua esposa. Eu a levo.
Sephiroth parou por um segundo, olhando para as próprias mãos vazias e depois para o gesto de Vincent, reconhecendo a autoridade tranquila com que o homem tomara a dianteira. Ele, então, virou-se e buscou a mão de Inome novamente, entrelaçando os dedos nos dela.
Sephiroth parou por um segundo, olhando para as próprias mãos vazias e depois para o gesto de Vincent, reconhecendo a autoridade tranquila com que o homem tomara a dianteira. Ele, então, virou-se e buscou a mão de Inome novamente, entrelaçando os dedos nos dela.
— Agradeço, Vincent — Lucrecia respondeu, genuinamente surpresa com a prontidão dele. Ela aceitou o braço que ele oferecia, movendo-se com cautela, enquanto Vincent a guiava com a mesma estabilidade que demonstrava ao carregar seu fardo de décadas.
Assim, o quarteto iniciou a caminhada em direção ao abrigo de Vincent. O caminho, antes percorrido sob uma tensão sufocante, agora trazia consigo o peso de tudo o que fora revelado e de tudo o que ainda precisava ser dito. Vincent liderava o passo, servindo de apoio constante para Lucrecia, enquanto Sephiroth e Inome seguiam logo atrás, mantendo-se unidos em uma sincronia silenciosa.
Cada um ali carregava uma parcela da história que a Shinra tentara apagar, e o silêncio que se formava entre eles não era mais de vazio, mas de uma expectativa contida. A caverna de Vincent, um refúgio solitário por tantos anos, estava prestes a se tornar o cenário onde os fragmentos daquelas vidas finalmente começariam a se reorganizar. Tinham muito, muito para conversar.

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