quinta-feira, 18 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capítulo 7

 


A porta do escritório de Angeal abriu-se de forma abrupta, cortando o silêncio da sala de comando. Zack entrou primeiro, com a respiração ainda descompassada e o semblante completamente transtornado pelo peso dos acontecimentos no reator. Logo atrás, Cloud mantinha a postura rígida da infantaria, mas os olhos arregalados por trás do capacete denunciavam o choque mecânico da missão. Angeal ergueu os olhos dos relatórios táticos imediatamente, e sua expressão endureceu ao notar a ausência óbvia e alarmante de Sephiroth e Inome. Antes mesmo que o mentor pudesse formular a primeira pergunta, Zack deu um passo à frente, apoiando os punhos fechados sobre a mesa com urgência.

— Angeal, a situação no reator saiu completamente dos trilhos — Zack disparou, a voz tensa oscilando entre a incredulidade e o cansaço físico. — O Genesis... ele apareceu lá dentro. Ele está vivo, mas o corpo dele está se desfazendo, sofrendo uma degradação severa. Mas ele não foi até lá para nos atacar, Angeal. Ele foi para mexer com a mente do General.

Angeal levantou-se lentamente, a imponência de sua postura vacilando por uma fração de segundo conforme processava o impacto do nome de seu antigo companheiro de armas. Na retaguarda, Cloud permaneceu em silêncio, fixando o olhar no chão enquanto Zack despejava o resto do relatório sem pausas: as acusações cruéis de Genesis sobre o Projeto Jenova, as verdades biológicas distorcidas jogadas na cara de Sephiroth e, por fim, a decisão do General de marchar direto para o isolamento nos subsolos da Mansão Shinra, arrastando Inome consigo pelo pulso para que ela servisse como sua única trava de sanidade.

Ele suspirou profundamente, os ombros desabando enquanto um sorriso fraco e sem humor surgia em seus lábios. Ele caminhou a passos lentos até a entrada do escritório, verificou o corredor externo por pura precaução e encerrou a total abertura da porta, isolando o som da sala.

Ao se virar de volta para os rapazes, ele aproximou-se da mesa de comando e inclinou o corpo, baixando o tom de voz a um quase sussurro, claramente consciente de que os microfones da diretoria ou os espiões dos setores superiores podiam estar interceptando o perímetro.

— De fato... ele está certo, Zack. — Angeal admitiu, a revelação caindo com um peso esmagador na sala. — Somos fruto das células de Jenova.

Zack travou a respiração, os olhos arregalados ao ouvir a confirmação vinda diretamente de seu próprio mentor. Cloud, na retaguarda, manteve-se imóvel, absorvendo a gravidade daquela quebra de sigilo militar.

— Mas... isso me fez perceber uma perspectiva diferente de Genesis — Angeal continuou, o olhar firme focado em Zack. — Nós controlamos o monstro dentro de nós. Não o contrário. O fato de carregarmos essa herança genética não anula quem decidimos ser. O problema é que o Genesis cedeu ao desespero da degradação, e o Sephiroth... o Sephiroth nunca teve ninguém que pudesse falar sobre isso com ele em igualdade de condições.

A ficha caiu instantaneamente para Zack. Se Sephiroth estivesse trancado na biblioteca digerindo os relatórios frios, a única esperança que ele tinha era que Inome iria interromper aquela linha de pensamentos dele, ou achar uma maneira de parar aquela busca pela tal verdade. Ela era a única pessoa que o General mantivera por perto naquele momento de colapso, a única âncora capaz de lembrá-lo de que ele não era apenas um experimento de laboratório. 

No mesmo dia em que Zack e Cloud pegaram o transporte de volta para Midgar, Sephiroth e Inome cruzaram os portões pesados e silenciosos da Mansão Shinra, descendo até as profundezas escuras do subsolo onde a biblioteca oculta se escondia.

Assim que os olhos dele cruzaram o imenso arquivo de documentos empoeirados, a corda que mantinha sua postura rigidamente sob controle durante todo o trajeto finalmente arrebentou. Ele soltou o pulso de Inome com lentidão, deixando o braço dela cair, enquanto toda a fachada de General indestrutível ruía de uma vez só, expondo uma fraqueza que ele nunca havia se permitido sentir. Sephiroth curvou o corpo alto, os ombros pesados cedendo ao impacto invisível daquelas dúvidas, e começou a chorar. Pela primeira vez na vida, chorando de verdade.

Levando a mão trêmula ao peito, apertando o tecido do uniforme como se tentasse conter a dor física que rasgava seus pulmões, ele olhou para ela através das lágrimas que começavam a descer sem controle por seu rosto.

— E se minha mera existência foi criada para ser uma máquina de matar, verdadeiramente, Inome? — a voz dele saiu embargada, despida de qualquer pose militar, em um desespero genuíno.

Inome sentiu a garganta dar um nó imediato, engolindo o próprio choro à força porque sabia que ele precisava de um porto seguro, não de mais desespero. Sem hesitar, ela encurtou a distância entre os dois e o envolveu em um abraço apertado, oferecendo todo o carinho, o calor e o aconchego que seu corpo conseguia transmitir para protegê-lo daquela escuridão.

— Seph, não, não! — ela disse, aninhando-se contra ele com firmeza. — Você está chorando! Só humanos choram! Não máquinas de matar!


Sephiroth deixou-se vencer pelo abraço, permitindo que a rigidez de sua estrutura física desabasse contra ela. Seus braços longos a envolveram com uma possessividade nascida do desespero, e ele repousou a mão espalmada nas costas de Inome, acariciando-a com uma lentidão melancólica, como se aquele contato humano fosse a única coisa real segurando sua sanidade no lugar.

— Inome... o que ele disse... sobre a minha mãe... — falou seriamente, a voz ainda trêmula, enquanto seus olhos marejados se desviavam dela para varrer as prateleiras imensas, encarando os títulos dos livros e relatórios acumulados naquele espaço sombrio. — E se ela for o que ele diz? Um monstro... O que isso faz de mim?

— Sephiroth! — Inome contestou imediatamente, a voz subindo um tom enquanto ela apertava o abraço com ainda mais força, enterrando o rosto contra o peito dele e recusando-se a deixá-lo aceitar aquele veredito cruel. — Não! Não repita isso! Dentro desta sala, nós vamos achar a verdade real. Não a versão distorcida do Genesis, mas o que realmente aconteceu. Nós vamos revirar cada papel desse lugar juntos, ouviu?

Sentindo sua cabeça latejar de forma violenta, quase como um comando externo pulsando diretamente em sua mente, Sephiroth soltou-se abruptamente do abraço de Inome. Seus olhos, ainda marejados, fixaram-se na escuridão dos arquivos, completamente tragado pela presença opressiva e magnética daquelas prateleiras. Ele caminhou a passos rígidos, como se estivesse em transe, e estendeu a mão enluvada para puxar um calhamaço de papéis com capas de couro desgastadas, intitulado "Dossiê Científico: Projeto Jenova — Relatório S-01". Sem dizer mais nenhuma palavra, ele abriu o documento e começou a ler, o brilho Mako em suas pupilas verticais oscilando de forma instável sob a luz fraca do subsolo.

Inome, tomada pelo desespero ao ver o General se isolar daquela forma tão repentina, inspirou fundo para oxigenar o cérebro e conter o pânico que ameaçava paralisá-la. Sabendo que o tempo estava correndo contra a sanidade dele, ela limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão boa e começou a se mover rapidamente pelas seções da biblioteca. Com as mãos trêmulas, ela saiu vasculhando gavetas de arquivos mortos, prateleiras inferiores e caixas de correspondência antigas, buscando por todo e qualquer documento que contivesse o nome "Sephiroth", obstinada a encontrar a contraprova que pudesse salvá-lo daquele abismo.

Dois dias haviam se passado de forma torturante. Em Midgar, Zack e Angeal ligavam constantemente, revezando-se nos terminais de comunicação da Shinra na esperança de obter qualquer atualização, mas as chamadas caíam direto no vazio. Do outro lado da linha, no subsolo da Mansão Shinra, os celulares permaneciam completamente desligados sobre uma mesa lateral, com as telas pretas e inertes sob a poeira que começava a se assentar.

Na escuridão da biblioteca, a atmosfera estava pesada. A voz de Sephiroth ecoava baixa, mas terrivelmente nítida, recitando as linhas do relatório com uma cadência quase hipnótica, os olhos fixos nas páginas como se estivesse decifrando sua própria sentença:

"...O organismo de Jenova, extraído com sucesso da camada geológica de dois mil anos, demonstrou capacidade de transmissão genética sem precedentes. O Projeto S provou-se um êxito absoluto ao fundir tais propriedades ao código biológico do espécime..." — ele fez uma pausa, o brilho Mako em suas pupilas verticais oscilando de forma instável. — Eles a trancaram em uma cápsula, Inome. Chamaram-na de Antiga... e me moldaram a partir dela. Eu não tenho um pai, não tenho um lar. Eu sou o herdeiro legítimo desse planeta, nascido daquela criatura.

Em contrapartida, do outro lado do salão de pedra, a determinação de Inome era a única barreira contra aquela loucura. Com os dedos trêmulos e o coração apertado pela dor insuportável de ver o homem que ela amava se entregando voluntariamente a uma narrativa monstruosa, ela ergueu uma caixa de ferro velha do fundo de um armário, coberta por teias de aranha e uma camada espessa de pó.

Ignorando a sujeira e a exaustão, ela folheou as pastas com uma atenção febril. Até que seus olhos travaram em uma folha amarelada, datada de vinte e sete anos atrás, carregando o timbre médico pessoal que Hojo tentara apagar dos arquivos principais. Suas mãos tremeram ainda mais ao ler o conteúdo:

[REGISTRO MÉDICO CONFIDENCIAL - PROJETO S] Mãe Hospedeira: Dra. Lucrecia Crescent.

Período: Terceiro trimestre de gestação intrauterina (Nono mês).

Observações Clínicas: O feto apresenta desenvolvimento cardíaco e cerebral perfeitamente compatíveis com a anatomia humana, apesar da introdução precoce das células de Jenova no ventre de Lucrecia. O parto cirúrgico está agendado.

Designação do Recém-Nascido: Sephiroth.

O choque elétrico daquela verdade correu pelo corpo de Inome, trazendo um sopro de esperança em meio ao caos. Ela agarrou o papel com força, levantou-se com as pernas bambas e marchou direto até a mesa onde o General estava afundado em sua paranoia.

— SEPHIROTH! — ela gritou com todas as forças que restavam em seus pulmões, a voz ecoando pelas paredes da biblioteca e quebrando instantaneamente o deslize hipnótico dele.

Com um movimento brusco e desesperado, ela jogou o documento amarelado diretamente em cima das páginas que ele lia, cobrindo o relatório de Jenova com a prova viva de sua humanidade.

— LEIA!

Sephiroth piscou, as pupilas verticais dilatando-se conforme o transe hipnótico que o prendia ao relatório de Hojo era abruptamente quebrado. Seus dedos longos e enluvados hesitaram por um segundo antes de puxar a folha amarelada que Inome jogara sobre a mesa.

Ele leu o documento de forma deliberada, os olhos correndo pelas linhas com uma clareza cortante que há dias lhe faltava. Leu uma vez. Depois outra, absorvendo cada termo técnico, cada data, a caligrafia da equipe médica. Lentamente, ele ergueu o rosto na direção de Inome, o brilho Mako em seu olhar vacilando entre o choque e a incompreensão.

— Lucrecia... — ele murmurou, o nome soando estranho e pesado em seus lábios.

Seus olhos desceram novamente para o papel, relendo as mesmas palavras de forma febril e histérica. Um riso soprado, quase sem ar, escapou de sua garganta enquanto seus dedos apertavam as bordas do documento amarelado, quase rasgando a folha diante do impacto avassalador daquela revelação. A farsa da incubadora mecânica e do monstro ancestral desmoronava sob o peso daquele registro uterino.

— Minha mãe. — ele repetiu, a voz quebrando sutilmente na última sílaba, os nós dos dedos brancos de tanta força.

Inome soltou o ar que parecia prender nos pulmões há dois dias inteiros. Toda a tensão acumulada que esmagava seu corpo finalmente cedeu, fazendo com que a rigidez de seus ombros desaparecesse de uma vez só. Ela encolheu os ombros levemente, o corpo exausto e trêmulo, mas com o olhar fixo no General, questionando-o e afirmando com toda a certeza que carregava na alma:

— Você não é um monstro!

Inome ergueu as mãos, que estavam visivelmente geladas pelo frio do subsolo e pela descarga de adrenalina, e envolveu o rosto de Sephiroth. Ela apertou os dedões firmemente contra as bochechas dele, forçando-o a ancorar-se no presente, recusando-se a deixá-lo escapar para longe dela outra vez.

— Você entende agora?! Você tem as células da Jenova! Mas você tem mãe! — a morena disse, tentando manter o tom calmo, mas era evidente como seu fôlego parecia ser atropelado pela velocidade e pelo alívio das próprias palavras.

O choque térmico daquelas mãos frias contra a pele dele pareceu dissipar a última fumaça da ilusão que o cercava. Sephiroth sustentou o olhar dela por alguns instantes, absorvendo o calor e o desespero legítimo que vinham de Inome.

— Eu... entendo... — ele murmurou, a voz pausada e calculista retornando aos poucos, embora o impacto interno ainda fosse visível no tremor sutil de suas mãos.

Lentamente, ele desviou as pupilas verticais do rosto dela, fixando-as novamente no cabeçalho do documento amarelado, onde o nome de Lucrecia Crescent estava timbrado. Os dedos enluvados contornaram o papel com uma rigidez analítica.

— Eu preciso de mais provas, Inome. Onde você achou isso?

Ele ergueu o corpo, a postura voltando a se alinhar conforme a mente metodica de General assumia o controle do caos. O foco de Sephiroth havia mudado drasticamente: ele já não olhava mais para as prateleiras em busca da criatura ancestral, mas sim em busca de qualquer rastro que confirmasse a existência da cientista que o carregara no ventre.

— Sephiroth! Me espera! — ela disse, levantando-se apressada atrás dele. Inome usou as duas mãos para erguer a caixa de metal pesada do armário e a entregou diretamente nos braços dele, o metal frio batendo contra as luvas do General. — Tá tudo aqui!

Sephiroth segurou a estrutura metálica com firmeza. Sentindo o peso daquela caixa como o peso da sua própria história real, ele recuou alguns passos e voltou a se sentar na cadeira de madeira maciça. Com os olhos fixos e as sobrancelhas levemente franzidas, ele abriu a tampa rangente e começou a folhear cada documento com pressa, procurando por mais respostas.

Seus olhos pararam primeiro em um prontuário médico com bordas desgastadas:

[ATA DE PROCEDIMENTO CIRÚRGICO: EXTRAÇÃO S-01] Procedimento: Parto cesárea realizado sob sedação total da paciente L.C.

Resultados: O espécime S-01 nasceu apresentando batimentos cardíacos estáveis e ausência de deformidades físicas aparentes. A fusão celular em nível embrionário foi declarada um sucesso absoluto.

Diretriz Imediata: Conforme o protocolo do Departamento de Desenvolvimento Científico, o recém-nascido foi imediatamente isolado da mãe biológica e transferido para a câmara de contenção Alfa para evitar contaminação afetiva ou interferência imunológica.

Sephiroth passou os dedos pela folha, engolindo em seco ao ver a frieza com que sua chegada ao mundo havia sido tratada, mas a confirmação cirúrgica estava ali. Logo abaixo, ele encontrou uma folha datografada com anotações de margem feitas a caneta, com a caligrafia inconfundível e negligente de Hojo:

[NOTAS DE OBSERVAÇÃO INTERNA - DR. HOJO] Assunto: Comportamento da Assistente Lucrecia Crescent.

Nota: A Dra. Lucrecia vem demonstrando uma instabilidade emocional severa e irracional desde o término do procedimento. Ela insiste, de forma repetitiva e histérica, em ter acesso ao espécime S-01, alegando "direitos maternos" e manifestando o desejo absurdo de segurar e criar o indivíduo fora das instalações de teste.

Conclusão: Tal comportamento é altamente prejudicial ao desenvolvimento da arma perfeita e compromete o sigilo do projeto. Diante de sua recusa em cooperar com o isolamento do bebê, ordenei o desligamento imediato de Lucrecia de todas as fases ativas do Projeto S. A paciente será transferida para a ala de isolamento sob vigilância médica contínua.

O silêncio na biblioteca tornou-se absoluto, quebrado apenas pelo som da respiração cansada de Inome. Sephiroth pousou os relatórios sobre a mesa, as mãos espalmadas sobre os papéis. A verdade crua da Shinra estava exposta: ele não era um monstro gerado por uma máquina, mas o filho de uma mulher que havia sido silenciada e afastada dele à força.

O homem abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos enluvadas, e começou a chorar. Um choro pesado, doloroso, que logo se transformou em soluços profundos que quebravam a imponência de sua voz e ecoavam pelo silêncio de pedra da biblioteca.

Era uma informação difícil demais de engolir, um soco de realidade que desestruturava tudo o que ele conhecia sobre si mesmo. Para onde a mãe dele tinha ido? O que Hojo tinha feito com ela depois daquele isolamento? A dor de descobrir que tinha uma mãe biológica vinha acompanhada pelo peso cruel de entender que a Shinra o havia privado propositalmente de ter qualquer resquício de amor materno, tratando-o desde o primeiro segundo de vida como patrimônio militar.

Inome engoliu em seco, sentindo o próprio peito apertar ao ver o homem mais forte do mundo reduzir-se à fragilidade de uma criança que acabara de descobrir que foi roubada. Sem dizer uma palavra de julgamento, ela se aproximou e o abraçou com toda a força que tinha, envolvendo os ombros largos dele e deixando que ele apoiasse o peso da cabeça contra ela.

— Tá tudo bem, Seph... — ela sussurrou, a voz embargada enquanto acariciava os longos cabelos prateados dele, tentando ser a proteção que ele nunca teve. — Você pode chorar.... Pode soltar tudo.

Sephiroth travou os dentes, a fúria gélida e o luto misturando-se em seu peito, comprimindo sua voz em um tom baixo, cortante e perigosamente instável. Toda a sua postura aristocrática e polida foi sufocada por um rancor puro e direcionado.

— O que eles fizeram com a minha mãe...? Até onde se estende a depravação da Shinra... o que aquela organização fez com ela? — as palavras saíram pausadas, a elegância habitual do General fragmentada pelo peso dos soluços que ele tentava, a todo custo, conter na garganta.

Com as mãos ainda trêmulas, ele recolheu as folhas amareladas com um cuidado quase cirúrgico. Dobrou os documentos metodicamente e os guardou sob o casaco do uniforme, pressionando a mão espalmada contra o tecido por cima do peito. Aquelas páginas eram a única prova real de sua humanidade, e ele jamais permitiria que a Shinra as confiscasse ou destruísse.

Inome manteve-se firme ao lado dele, recusando-se a soltá-lo. Suas mãos continuaram o movimento suave, acariciando as bochechas úmidas e os longos fios prateados do General com uma ternura profunda, transmitindo todo o carinho e a proteção que ele tanto precisava naquele instante de ruína.

— Nós podemos descobrir onde ela está, Seph... Eu e você... — ela disse, a voz mansa, mas carregada de uma promessa inabalável. — A Shinra tentou apagar o passado, mas eles sempre deixam rastros. Nós vamos achar a Lucrecia. Juntos.

O General fechou os olhos por um momento, absorvendo o toque dela e deixando que a respiração se acalmasse aos poucos. A dor de cabeça provocada pelo Mako ainda pulsava, mas o alvo de sua indignação havia mudado completamente: ele já não era uma fera sem rumo, e sim um homem com um alvo claro.

Sephiroth sentiu uma pontada imensa e violenta na cabeça, como se algo profundamente enraizado em sua mente estivesse protestando contra aquela clareza repentina que ele acabara de alcançar. O brilho Mako em suas pupilas oscilou de forma caótica. Ele gemeu de dor, um som abafado e tenso, apoiando a palma da mão contra a têmpora enquanto cerrava os dentes com força.

A narrativa que Genesis tentara plantar havia sido estraçalhada, mas a resistência interna que subia por seus genes parecia quase física, uma rejeição violenta àquela verdade humana. Ele respirou fundo, tentando subjugar o espasmo de dor com sua força de vontade habitual, e fixou o olhar em Inome.

— Inome... este lugar. Vamos embora, agora. — a voz dele saiu baixa, arrastada pelo esforço, mas recuperando a cadência calculada de sempre. — Localizar minha mãe passou a ser o meu único objetivo.

Sem dar margem para hesitação e impulsionado por uma urgência instintiva de se afastar do epicentro daquelas mentiras, ele segurou o pulso livre dela com firmeza. Sephiroth deu as costas às prateleiras empoeiradas e se apressou para cruzar o salão subterrâneo, conduzindo-a rapidamente em direção às escadarias que levavam para a saída da mansão, determinado a deixar aquela escuridão para trás.

O homem, tomado por uma indignação gélida e avassaladora, olhou de relance para Inome enquanto os dois continuavam a avançar a passos rápidos pelos corredores escuros da mansão.

— O seu PHS, Inome. Entregue-o. — ele ordenou, a voz baixa e cortante.

Notando que ela só tinha uma das mãos livres enquanto ele a conduzia pelo pulso, Sephiroth desceu a mão livre até o bolso dela e retirou o aparelho de comunicação. Sem hesitar, ele puxou o seu próprio terminal militar e jogou ambos no chão de pedra. Com um movimento violento, sua bota pesada desceu sobre os aparelhos, esmagando o plástico e os circuitos em uma chuva de faíscas estáticas, destruindo qualquer possibilidade de serem rastreados pela Shinra.

— A partir deste momento, nossos vínculos com esta organização decrépita estão permanentemente cortados. — Sephiroth declarou, os olhos verdes brilhando com uma motivação sombria e focada enquanto encarava Inome. — Traremos cada segredo podre deles à luz. Se para isso for necessário arrancar a vida de Hojo com minhas próprias mãos, assim será. Eu mesmo farei questão de expor os restos daquele homem diante da sede da Shinra em Midgar.

Inome engoliu em seco, o coração disparando contra o peito. Ela continuava a segui-lo, mas a fúria implacável e assassina nas palavras do General fez o medo rastejar por sua espinha. Sabendo o quão perigoso ele poderia ser se cedesse inteiramente àquele ódio, ela tentou puxá-lo de volta para a razão.

— Primeiro, vamos achar a sua mãe... — Inome contestou, firmando os pés e tentando desacelerar o ritmo dele, embora sua voz vacilasse ligeiramente pelo temor daquela reação. — Nós precisamos saber a versão dela antes de qualquer coisa, Seph!

Sephiroth absorveu as palavras de Inome. A menção de focar primeiro na busca pela mãe biológica funcionou como um freio estratégico para a fúria cega que ameaçava assumir o controle de suas ações. Ele a encarou, o semblante ainda rígido, mas agora dotado de uma determinação fria e calculada.

Sem aviso prévio, ele curvou-se e a pegou no colo com extrema facilidade, acomodando-a firmemente contra o peito. Antes que ela pudesse esboçar qualquer reação de surpresa, o General impulsionou-se para cima. Em um movimento poderoso que desafiou completamente as leis da gravidade, eles romperam a saída da Mansão Shinra, alçando voo em uma velocidade avassaladora que os elevou rapidamente acima dos telhados de Nibelheim, cortando o vento gélido da montanha.

Lá de cima, com os longos fios prateados flutuando e as luzes do vilarejo tornando-se apenas pequenos pontos distantes na escuridão abaixo, ele varreu o horizonte com suas pupilas verticais, mapeando mentalmente os laboratórios periféricos e os postos avançados da corporação que estivessem fora do radar principal de Midgar.

— Vamos atrás de informações. Agora. — declarou, a voz impositiva e firme sobressaindo-se ao som do vento, sem espaço para contestações.

Inome apenas concordou com a cabeça, engolindo em seco diante da altitude e da força descomunal daquele deslocamento. Ela apertou os dedos ao redor do pescoço dele com firmeza, segurando-se à sua única âncora de sanidade enquanto os dois desapareciam na imensidão da noite, deixando a Shinra completamente às escuras.

De volta a Midgar, o bipe monótono e repetitivo do terminal de comunicação ecoava pela sala de Angeal pela centésima vez. O sinal simplesmente morria antes de completar a chamada, indicando que os aparelhos do outro lado haviam deixado de existir na rede.

Zack afastou o aparelho do ouvido, o maxilar trancado em uma mistura de frustração e ansiedade que já não conseguia mais conter. Ele olhou de relance para Cloud, que aguardava em silêncio perto da entrada, e depois fixou os olhos diretamente em Angeal, cuja expressão severa carregava uma sombra pesada de preocupação.

— Eu vou atrás dos dois. Algo deu muito errado. — Zack declarou com a voz firme, guardando o PHS no cinto e ajustando a alça da Espada Buster em suas costas. Ele não ia mais esperar por autorizações da Shinra enquanto seus amigos corriam perigo.

A viagem de retorno a Nibelheim foi movida pela urgência. Subindo as trilhas íngremes e rochosas do Monte Nibel sob um céu carregado e tempestuoso, Zack e Cloud avançaram em ritmo acelerado em direção ao reator de Mako. O ar ao redor da montanha parecia bizarramente mais denso, impregnado com um odor pungente de decomposição e energia purificada instável.

Ao cruzarem o perímetro da instalação e avançarem pelas passarelas de metal que levavam ao núcleo, os dois guerreiros travaram o passo imediatamente, sacando suas armas. A silhueta que os aguardava na penumbra não era a do General, e muito menos a do soldado elegante que costumava recitar versos de teatro.

Era Genesis. Mas o homem que eles conheciam havia desaparecido por completo, restando apenas um vislumbre grotesco de destruição biológica.

A degradação que antes consumia seu corpo havia avançado a um nível terminal e avassalador, transformando-o em uma criatura monstruosa e distorcida. Sua pele estava completamente acinzentada e escamosa, rasgada por veias negras salientes que pulsava visivelmente com uma energia Mako doentia e incandescente. Da lateral de suas costas, a asa negra outrora imponente agora erguia-se gigantesca e deformada, com penas rígidas que pareciam feitas de cinzas e lâminas de metal retorcidas, gotejando um fluido escuro no chão de ferro.

Os olhos de Genesis haviam perdido qualquer resquício de consciência humana, intelecto ou da antiga arrogância literária; eram duas órbitas completamente tomadas por um brilho escarlate e injetadas de sangue, focadas nos recém-chegados com um instinto puramente selvagem. Ele não passava de uma casca corrompida e sem mente, uma besta heráldica cuja única vontade restante era a de dilacerar e matar tudo o que estivesse em seu raio de alcance.

Zack firmou a pegada no cabo de sua espada, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço, enquanto o monstro diante deles abria as mandíbulas desalinhadas e soltava um rugido gutural e ensurdecedor, fazendo as paredes do reator tremerem.




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