quinta-feira, 18 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capítulo 6

 


O sumiço repentino de Genesis após cruzar os limites do Setor 5 deixou um vácuo imediato nos corredores do edifício da Shinra. Sem deixar rastros ou justificativas oficiais para o seu paradeiro, a ausência do Primeira Classe forçou uma reestruturação abrupta na cadeia de comando dos SOLDIER. Como a diretoria precisava conter os boatos internos de insubordinação e manter a ordem na capital, Angeal Hewley assumiu a responsabilidade pesada de gerenciar toda a burocracia militar, o remanejamento das tropas e o controle de danos na ausência do amigo. Essa sobrecarga administrativa reteve Angeal no complexo principal em Midgar, deixando a supervisão direta da rotina militar e os plantões de segurança ainda mais centralizados em Sephiroth. 


Foi justamente durante uma brecha nessa nova rotina exaustiva que o General encontrou um momento de calmaria incomum em uma das salas de descanso reservadas, distante do fluxo de funcionários. Zack, que organizava seus equipamentos ali perto, notou que a atenção de Sephiroth não estava voltada para os relatórios do terminal digital, mas sim para o vazio, demonstrando uma distração raríssima para os seus padrões metódicos. Curioso e com sua habitual falta de cerimônia, o rapaz se aproximou amigavelmente.

— E aí, General, cê tá bem? Parece que perdeu algo e não achou. — ele disse, buscando quebrar o gelo.

Sephiroth o fitou com o olhar gélido de sempre, apoiando las mãos na bancada atrás de si. Ele suspirou — um suspiro longo, saudoso. Diferente.

— Há uma antecipação constante em meu peito, uma pressa que não consigo alinhar à lógica. Você compreende esse tipo de fenômeno, Zack? A respeito da Inome. — Ele fitou Zack de canto. — Toda vez que a vejo, sinto esse compasso desordenado... Tem sido assim já faz alguns meses.

Ao ouvir aquilo, Zack imediatamente se lembrou dos momentos recentes dos dois que havia presenciado. Lembrou-se de quando os flagrou andando de mãos dadas pelos corredores, ou de quando invadiu o escritório do General sem bater e encontrou Inome abraçando-o por trás enquanto ele estava sentado, acariciando os longos cabelos prateados dele. Àquela altura do campeonato, os dois nem se importavam mais se Zack os via; ele já sabia de tudo e entendia o que estava acontecendo.

— Heh, General... isso é amor. — Zack falou, sorrindo, achando incrivelmente bonito ver o amigo amando daquela forma.

O garoto piscou, pego de surpresa pela súbita quebra de formalidade, enquanto Sephiroth continuava a escolher as palavras com cuidado, quase como se estivesse decifrando um enigma científico complexo. O General explicou como seu coração  acelera de forma descompassada, sem que houvesse qualquer ameaça física por perto, toda vez que Inome entrava em seu campo de visão, e como uma ansiedade silenciosa o fazia contar as horas para o término do expediente, apenas pela expectativa de encontrá-la no dia seguinte. Zack segurou o riso, achando a cena genuinamente adorável; ver o lendário e temido herói da Shinra agindo como um jovem confuso diante do primeiro vislumbre de afeto real era algo impensável. Com um sorriso largo, o mais jovem guardou a espada e sentou-se na borda da mesa.

— Eu sei exatamente como é. Antes de eu sair de Gongaga para tentar a sorte na Shinra, tinha uma garota na vila... Sempre que ela passava perto do cercado onde eu ajudava meus pais, minhas mãos suavam e eu esquecia até o que estava falando. Essa ansiedade de esperar o dia seguinte não é bobeira ou coisa da sua cabeça, não. É só o seu coração te dizendo que aquele lugar, perto dela, é onde você realmente quer estar. Se a Inome causa isso no senhor, não lute contra. É a melhor sensação do mundo. 


Sephiroth ponderou sobre as palavras do amigo. Era, de fato, algo inteiramente novo e único em sua existência — uma vulnerabilidade que, paradoxalmente, ele estava determinado a proteger a todo custo. Ele complementou sua linha de pensamento, desviando os olhos do vazio para encarar Zack novamente.

— Contudo... minha posição nesta corporação impõe um preço alto. Estar associada a mim a coloca em um risco constante, Zack. — Ele suspirou, a expressão endurecendo sutilmente ao recordar as atitudes recentes de Genesis. — Por minha causa, Genesis quase tirou a vida dela no Departamento de Engenharia. Eu deveria estar presente naquele momento. Teria eliminado qualquer rastro dele antes que ele pudesse sequer tocá-la.

— Ah, General... — Zack disse, olhando-o de frente e gesticulando de leve para tentar conter a intensidade do mais velho. — Eu entendo o seu lado, de verdade. Mas o senhor também tem que pensar que a Inome não é uma donzela indefesa. Ela sabe se virar muito bem.

— Foi exatamente o que ela me disse. — Sephiroth esboçou um contido sorriso de canto, sutilmente irônico. — Ela acha inadmissível quando tento ditar o que é seguro para ela, mas espera que eu simplesmente engula suas decisões sem contestar. É uma lógica contraditória. Se ela se reserva o direito de protestar contra as minhas ordens, eu certamente farei o mesmo com as dela. Mas agora, vê-la com o ombro imobilizado em uma tipoia por conta daquele deslocamento... Isso me causa uma inquietação que não consigo ignorar. Não a quero em perigo. 


— Desencana, Sephiroth! — Zack disse, dando um sorriso largo e desferindo alguns tapinhas gentis no braço do General. — Vocês dois têm muito a aprender ainda. Acho que confiar na habilidade um do outro é essencial também. Sacou?

Sephiroth olhou para Zack em silêncio. Por mais compreensivo que o rapaz tentasse ser, ele ainda não conseguia compreender a real raiz daquela dinâmica: o dom de enxergar o que o resto do mundo ignorava.

— Na verdade, essa confiança mútua é algo que executamos com bastante precisão, Zack. Contudo... — Sephiroth desviou sutilmente o olhar, suavizando o tom de forma quase imperceptível ao concluir o pensamento. — Assim como ela enxerga em mim uma humanidade que ainda estou aprendendo a abraçar... eu vejo nela uma mulher que, por trás de toda a sua resiliência, apenas deseja ser cuidada.

Zack piscou várias vezes, genuinamente surpreso. Nem mesmo ele, com todo o seu otimismo, esperava uma reflexão daquela profundidade vinda do General.

— Uau... — ele soltou, buscando as palavras por alguns segundos. — Olha, ela realmente conseguiu amolecer algo em você que... bem, que já estava aí dentro de alguma forma. Às vezes você é tão chato e rígido comigo que parece aquele irmão mais velho que só está esperando eu vacilar para me puxar a orelha. — Ele riu de leve, balançando a cabeça. — São esses pequenos detalhes que mostram quem você é de verdade.

Sephiroth deu um sorriso sutil, orgulhoso com isso. Ele estava de fato conseguindo? Sua mente ainda brigava constantemente com as alegações de Genesis sobre ser um herói caído.

— Essa humanidade recém-descoberta... ironicamente, me faz questionar a própria natureza do meu papel. — Ele desviou o olhar novamente para a janela, deixando que o peso daquela indagação pessoal ganhasse espaço. — A corporação espera que eu seja apenas uma arma infalível, um ícone estático. Mas eu me pergunto, Zack... um herói deve realmente estender sua piedade a cada indivíduo deste mundo? A empatia generalizada não anula a verdadeira razão de lutar?

Zack, ainda pego de surpresa, deu um longo suspiro, como se esvaziasse a mente dos mil pensamentos que haviam se acumulado ali. Ele sorriu de canto, aproximando-se para dar mais alguns tapinhas gentis no braço de Sephiroth, tentando trazer leveza àquela atmosfera tão densa.

— Aí é que você se engana, Sephiroth. Essa empatia que você sente por mim, pelo Angeal, pelo Cloud e pela própria Inome é justamente o que dá sentido à sua luta. Quando você se permite sentir isso, começa a ver que todo mundo tem uma história, um motivo para ter uma segunda chance... e, bem, para não ser morto sem razão alguma por causa de ambições maiores e descabidas... que, err... foi o que eu vi o Genesis fazendo antes de ele sumir de vez.

Sephiroth soltou um suspiro pausado, levando a mão espalmada ao tórax, bem ao lado do coração, enquanto fechava os olhos por um breve instante. Aquela perspectiva colidia diretamente com tudo o que ele fora treinado para ser, mas trazia um eco de verdade que ele não conseguia simplesmente descartar.

— É uma possibilidade plausível... Talvez você esteja correto em sua análise, Zack. O que me falta, fundamentalmente, é compreender a extensão desse lado.

Enquanto sustentava o silêncio que se instalou na sala, a mente do General viajou involuntariamente para as lacunas mais profundas de sua própria existência. Ele pensou na mãe biológica que nunca teve a oportunidade de conhecer, no pai de quem jamais ouvira uma única menção nos registros da Shinra, e, finalmente, na presença calorosa e contestadora de Inome. Eram os únicos fragmentos estritamente humanos que ele possuía, e a única ponte que o impedia de se tornar a máquina fria que a corporação tanto desejava.


O silêncio foi quebrado abruptamente quando a porta se abriu, revelando Inome. Com um sorriso radiante que quebrou a sobriedade do ambiente, ela correu na direção dos dois e os envolveu em um abraço em grupo espontâneo e muito bem recebido. Ao se soltar de Zack, que recuou um passo rindo, ela se deixou ser erguida brevemente do chão por Sephiroth. Foi um abraço curto, mas preenchido por um calor genuíno. Quando os pés dela tocaram o solo novamente, o General a soltou devagar, mantendo os olhos fixos nela, atento a cada detalhe.

— Rapazes! — Inome exclamou, mostrando o visor do seu PHS para exibir a mensagem na tela. — O Angeal nos convocou para a sala de reuniões. Eu já estava lá e ele comentou que vocês dois não tinham dado nem sinal de vida... então eu mesma vim buscar os dois!

Sephiroth permitiu que um sorriso sutil suavizasse suas feições antes de retomar sua habitual postura impecável.

— Vamos, então.

Zack, percebendo de imediato que o General não daria qualquer abertura para explicar ou estender o assunto íntimo que acabara de conversar, apenas sustentou o sorriso e deu de ombros, agindo com sua naturalidade de sempre.

— Ah, a gente estava batendo um papo aqui, o tempo voou, nem ouvi o PHS tocar. — O rapaz tomou a dianteira, saindo da sala a passos largos e iniciando a caminhada pelo corredor.

Sephiroth e Inome vieram logo atrás, mantendo o mesmo passo. Pelo canto do olho, a mulher observava a expressão distante e profundamente reflexiva que cobria o rosto do mais velho. Ela preferiu não dizer nada ou fazer perguntas naquele momento; na cabeça dela, o semblante carregado dele ainda era puro reflexo da raiva, da preocupação e da revolta contida pelo ombro dela que recém havia sido deslocado, somado a toda a loucura recente envolvendo a deserção de Genesis.


Na sala de reuniões, Angeal os esperava em pé, de braços cruzados com sua postura imponente e serena de sempre.

— Bom dia, vanguarda. — Ele acenou com a cabeça de forma respeitável. Cloud já estava na sala, sentado quietinho em uma das cadeiras de canto, mantendo o capacete da infantaria sobre o colo e os olhos fixos na mesa. — Faremos nossa averiguação de rotina em Nibelheim. Preciso da ajuda de Sephiroth nessa, já que ele conhece bem o território. E, bom, da ajuda do resto de vocês para garantir a segurança do perímetro.

— Maravilha! — Zack falou animado, dando um passo à frente e apoiando as mãos espalmadas na mesa, com os olhos brilhando pela oportunidade de ir a campo. — Vamos verificar o Reator de Mako do Monte Nibel?

— Isso mesmo. E o cenário por lá se complicou bastante nas últimas horas — Angeal respondeu, ativando o terminal holográfico no centro da mesa. — Houve uma queda abrupta na pressão da contenção principal, seguida por um pico severo de radiação que rompeu as válvulas de refrigeração externas. Para piorar, fomos informados de que a fauna local começou a apresentar mutações extremamente agressivas e fora do padrão, isolando os caminhos de acesso ao reator. A diretoria quer uma resposta rápida antes que o vilarejo seja afetado.

Sephiroth olhou fixamente para os gráficos digitais que oscilavam em tons de vermelho na projeção, cruzando os braços de maneira rígida. A menção àquele reator específico e ao isolamento da área acendeu um alerta imediato em sua mente analítica.

— Qual a gravidade exata deste problema? Uma falha na contenção dessa magnitude não ocorre por mero desgaste natural. Se o núcleo de Mako estiver exposto, a contaminação biológica no perímetro será imediata e irreversível.

— Pelo que me foi passado... — Angeal disse, ajustando o foco do mapa interativo com um comando rápido. — Um ataque, ainda não identificado, foi direcionado ao Reator de Mako do Monte Nibel. Já temos patrulhas da infantaria se deslocando para lá e retirando os cidadãos das áreas de risco. Mas nossa verdadeira obrigação, além de dar suporte à evacuação, é manter o local completamente seguro, sem nenhum arranhão na estrutura principal e nas proximidades. É de extrema importância para a Shinra que o reator permaneça intacto.

— Fechoouuu... — Zack disse, olhando para Angeal com os olhos brilhando de pura animação e batendo o punho fechado na palma da mão esquerda.

— Zack. — Angeal mudou o tom para algo muito mais solene. Ele levou a mão às costas e desprendeu a massiva e lendária Espada Buster, segurando-a firmemente pela empunhadura antes de estendê-la na direção do pupilo. — Por hora, você assumirá oficialmente como o Primeira Classe responsável por esta linha de frente. Você tem se mostrado forte, amadureceu muito e, bem... vai precisar de um suporte extra, de uma lâmina melhor para o que vem pela frente. — O semblante de Angeal permaneceu sério, mas carregava um brilho nítido de confiança. — Já que eu ficarei preso na burocracia do edifício por alguns meses, até que toda a situação se estabilize e consigamos rastrear o paradeiro do Genesis.

Zack travou no lugar, os olhos arregalados fixos na arma que ele passou anos admirando e respeitando de longe. A animação puramente juvenil evaporou por um segundo, dando lugar a um choque de reverência e responsabilidade. Ele estendeu as mãos quase hesitante, envolvendo os dedos na empunhadura pesada e sentindo o equilíbrio perfeito daquela lâmina que era, essencialmente, a própria identidade de seu mentor.

Erguendo-a devagar com as duas mãos, ele sentiu o peso real da confiança que Angeal estava depositando nele.

— Caraca, Angeal... — Zack engoliu em seco, olhando da espada diretamente para o rosto do amigo, abrindo um sorriso que misturava um pouco de nervosismo com uma gratidão gigante. — A Espada Buster? Eu... eu juro que não vou deixar um único arranhão nela, e muito menos vacilar como o líder dessa missão. Vou trazer todo mundo de volta inteiro, pode confiar de olhos fechados!

Sephiroth e Inome assistiam à cena com pura admiração. Inome juntou as mãos próximas ao peito, com um sorriso radiante e os olhos brilhando de orgulho pela conquista tão merecida do amigo. No entanto, o vislumbre do mapa holográfico e a gravidade iminente dos relatórios rapidamente trouxeram o General de volta à sua realidade analítica, cortando o clima festivo de imediato.

— A presença de Inome nesta missão está fora de cogitação. O ombro dela sofreu uma lesão recente e permanece imobilizado; ela não terá condições de portar armamento ou de se defender caso o perímetro seja violado. — Sephiroth declarou, a voz firme e irrevogável ecoando pela sala. Ele desviou os olhos de Angeal por um breve segundo para fitá-la de canto, sustentando aquele olhar possessivo e intenso que ela já havia aprendido a decifrar muito bem.

Angeal franziu o cenho, estreitando levemente os olhos. Ele estranhou profundamente aquela súbita e atípica insistência protetora vinda do General, algo que fugia completamente do pragmatismo militar dele.

— Ela precisa ir, Sephiroth. A função dela envolve a supervisão do armamento pesado e a manutenção direta dos equipamentos que a infantaria vai utilizar em campo. Além disso, o conhecimento técnico que ela possui sobre os sistemas de contenção da Shinra é essencial para restabelecer o reator antes que a situação saia do controle — contestou Angeal, mantendo a postura firme de liderança.

Por outro lado, Inome sentiu a frustração subir quente pelo peito ao se ver tratada como um estorvo. Ela fechou os punhos com força, ignorando o incômodo sutil no ombro imobilizado, e encarou o General com seriedade absoluta, recusando-se a recuar diante da imposição dele.

— Viu, General? — ela disse com o tom firme, sustentando o olhar gélido dele sem hesitar. — Eu vou com vocês. Goste você ou não.

Sephiroth inspirou fundo, o ar ressoando de forma pesada e vibrante em seu peito. Ele não proferiu uma única palavra naquele momento; apenas fixou seus olhos em Inome por alguns segundos antes de desviar a atenção de volta para Angeal.

— Estamos dispensados para a missão? — perguntou ele, já ensaiando o movimento para se virar.

— Dispensados. — Angeal respondeu de forma direta, embora a expressão intrigada e a estranheza diante daquela atitude superprotetora do General ainda pairassem densamente sobre sua mente.

Zack e Cloud já tomavam a dianteira, saindo apressados da sala, enquanto Inome e Sephiroth vinham logo atrás, mantendo uma distância silenciosa. Quando finalmente alcançaram a Plataforma de Embarque de Transportes Militares, onde os veículos de campo já estavam alinhados para a partida, Sephiroth diminuiu o passo. Com extrema cautela, ele segurou Inome gentilmente pelo braço bom, garantindo que não exerceria nenhuma pressão que pudesse machucá-la, e a forçou a olhar diretamente em seus olhos.

Quando finalmente alcançaram a Plataforma de Embarque de Transportes Militares, onde os veículos de campo já estavam alinhados para a partida, Sephiroth diminuiu o passo. Com extrema cautela, ele segurou Inome gentilmente pelo braço bom, garantindo que não exerceria nenhuma pressão que pudesse machucá-la, e a forçou a olhar diretamente em seus olhos.

Inome... se eu a perder de alguma forma nesta missão, saiba que não haverá absolutamente nada no mundo capaz de me fazer perdoar a mim mesmo. — Disse ele de forma profundamente séria, mantendo as pupilas fixas e intensas nas dela.

Inome arregalou levemente os olhos, pega de surpresa pela crueza daquela declaração, mas não se encolheu e nem tentou desviar o olhar. Ela se manteve firme, servindo como uma âncora para a intensidade dele.

— Você não vai me perder, Sephiroth. Da mesma forma que eu conheço perfeitamente o seu potencial, por favor, confia no meu! Se o meu ombro começar a doer ou a tipoia sair do lugar, eu prometo que vou direto para um local seguro. Eu só... não quero deixar você sozinho.


Sephiroth suspirou, desfazendo o aperto em volta do braço dela com extrema lentidão, mas sem desviar o olhar por um segundo sequer.

— Você me promete isso? De forma que eu possa focar inteiramente na operação sem o peso dessa preocupação? — perguntou, com a voz grave e pausada.

— Eu prometo. Mas da mesma forma que sigo me preocupando com as minhocas que o Genesis bota na sua cabeça, você vai se preocupar comigo, é inevitável. — Inome respondeu firmemente.

Rompendo a distância protocolar entre os dois, ela se inclinou para a frente e ficou na ponta dos pés, estendendo a mão para acariciar suavemente a bochecha dele. O toque contrastava com a rigidez da armadura e a frieza que o General costumava projetar para o resto do mundo, forçando uma fração daquela tensão acumulada nos ombros dele a finalmente ceder diante do gesto.

Por discrição, ele segurou o pulso dela gentilmente, afastando a mão de seu rosto com cuidado para manter as aparências na plataforma militar. Mas antes que o dedão de Inome se descolasse completamente da pele dele, ela sentiu uma pequena lágrima quente rolar e tocar seus dedos. Para alguém cuja presença era sempre associada ao gelo e à frieza de uma máquina, o calor daquela única gota entregou toda a angústia e o medo genuíno que ele tentava processar em silêncio.

Ela não falou nada, sabendo que verbalizar aquilo quebraria o acordo silencioso de compostura que ele tanto precisava manter, mas o peso do sentimento ficou perfeitamente subentendido entre os dois. Sephiroth piscou, recompondo o olhar firme em uma fração de segundo, e os dois caminharam lado a lado em direção a Zack e Cloud, que já os aguardavam junto ao transporte.

Os quatro embarcaram no transporte militar rumo a Nibelheim. Assim que a aeronave pousou na entrada do vilarejo, a rampa de desembarque desceu e o grupo foi imediatamente recebido por Tifa, que coordenava ativamente os esforços locais.

— Olá, vanguarda! — Tifa disse, limpando o suor da testa e acenando assim que os viu desembarcar inteirados na situação. — Por favor, me sigam.

O perímetro do vilarejo exibia um cenário de caos sob relativo controle. Soldados da infantaria organizavam filas de moradores assustados, direcionando-os de forma apressada para os veículos de carga, enquanto o som de sirenes de emergência ecoava abafado pela fumaça. Havia um cheiro acre de queimado no ar, destroços de barricadas improvisadas e marcas profundas de garras nas cercas da periferia, evidenciando que as criaturas mutantes já haviam testado as defesas da cidade antes de serem repelidas pelas patrulhas.

Contudo, o verdadeiro problema se revelou quando Tifa apontou na direção das montanhas. Lá no alto, onde ficava a estrutura, a energia Mako já começava a tomar proporções alarmantes. Uma névoa densa e esverdeada, carregada de partículas fluorescentes, transbordava pela garganta do cânion e subia aos céus em pulsações lentas e colossais, distorcendo visualmente o ar ao redor e deixando claro que o vazamento aumentava a cada minuto.

Com o plano traçado, a vanguarda iniciou a subida íngreme pelas trilhas rochosas que levavam ao Monte Nibel. Antes de partirem, Zack fez questão de parar e orientar Tifa com firmeza, pedindo para que ela se abrigasse em um ponto seguro dentro do vilarejo e seguisse estritamente as ordens de evacuação dos soldados da infantaria.

Ao alcançarem o cume, a enorme silhueta industrial do reator erguia-se como uma fortaleza de metal encravada na montanha. O grupo cruzou a entrada com cautela absoluta, avançando em formação de combate. Sephiroth mantinha a mão estendida, pronta para sacar a Masamune a qualquer sinal de movimento; Inome, atenta à própria promessa de segurança, empunhava sua pistola automática firmemente com o braço bom, enquanto Zack e o jovem Cloud seguravam suas armas a postos, cobrindo as retaguardas.

Assim que os portões hidráulicos se fecharam atrás deles, o ar se mostrou sufocante. A atmosfera ali dentro estava densa, saturada por uma névoa esverdeada e brilhante de energia Mako pura que ardia nos olhos e tornava o oxigênio escasso. Sem escolha, todos contiveram a respiração por um instante até acionarem e ajustarem seus respiradores táticos de filtragem, cujo chiado mecânico passou a ditar o ritmo tenso da caminhada.

Progredindo pelos corredores metálicos e mal iluminados da estrutura, o cenário de negligência e horror científico começou a se revelar. As paredes de aço exibiam marcas profundas de corrosão e fiação exposta, mas o choque real veio ao atingirem o setor de laboratório.

Alinhadas ao longo do corredor, grandes cápsulas de contenção biológica dominavam o espaço. Algumas ainda estavam intactas, preenchidas pelo líquido viscoso e luminescente de Mako que abrigava silhuetas monstruosas, deformadas e geneticamente alteradas em estado de estase. Outras, porém, haviam explodido de dentro para fora: os grossos vidros blindados estavam estilhaçados pelo chão quadriculado, misturando-se a cabos rompidos que vertiam fluidos escuros e fumaça química, deixando claro que os experimentos que antes habitavam aqueles tanques agora vagavam livres pelo reator.

Assim que Inome localizou o ponto exato do vazamento na tubulação principal de contenção, ela abriu seu coldre utilitário com agilidade, puxando as ferramentas necessárias para conter a avaria mecânica.

Os rapazes se posicionaram em um perímetro defensivo ao redor dela, mantendo uma distância segura, mas próxima o suficiente para intervir a qualquer sinal de perigo. O vão central daquele setor do reator era imenso, repleto de sombras, passarelas metálicas suspensas e pontos cegos que exigiam atenção redobrada de Zack e do jovem recruta.

Sephiroth, no entanto, começou a sentir a densidade daquela atmosfera afetá-lo de uma maneira sutil, mas profundamente perturbadora. A altíssima concentração de Mako bruto flutuando no ar parecia pulsar em sincronia com algo latente e há muito adormecido no fundo de sua mente, desencadeando uma pressão aguda e incômoda atrás de seus olhos. Ele cerrou os dentes discretamente, forçando-se a ignorar a dor de cabeça repentina que ameaçava dispersar seu foco. Mantendo a postura impecável de sempre, ele apenas alternava o olhar severo entre a escuridão dos níveis superiores do reator e os movimentos precisos de Inome.

— Estou no processo. — ela anunciou através do modulador de voz do respirador.

O som do metal de suas ferramentas começou a ecoar de forma rítmica pelo setor conforme ela ajustava as engrenagens manuais, seguido pelo chiado agudo e pressurizado de um aplicador térmico que injetava liga selante nas rachaduras da tubulação. A cada poucos segundos, o bipe eletrônico intermitente de seu painel de diagnóstico portátil indicava que a pressão do Mako na ala começava, muito lentamente, a se estabilizar sob o comando de suas mãos.

Antes que ela pudesse finalizar o último ponto de vedação, um som pesado de passos ecoou pelas passarelas metálicas acima deles, acompanhado por um riso seco e teatral. Das sombras do teto do reator, Genesis surgiu.

A degradação física dele estava avançada e já não podia mais ser escondida. Além da icônica e massiva asa negra que se projetava de suas costas, a pele do lado esquerdo de seu pescoço e mandíbula exibia rachaduras acinzentadas e descamadas, como uma pintura antiga se desfazendo. Veias escuras e salientes pulsavam de forma doentia sob seus olhos, contrastando tragicamente com o vermelho outrora imaculado de seu sobretudo. Ele parecia uma obra de arte renascentista apodrecendo por dentro.

— "Não há glória para o herói que descobre que sua própria existência é uma mentira..." — Genesis declamou, com a voz carregada de um rancor cortante, fixando seus olhos instáveis diretamente no General. Ele pousou na passarela principal, estendendo a mão espalmada em direção às cápsulas destruídas. — Olhe ao seu redor, Sephiroth. Olhe para essas abominações criadas nos laboratórios da Shinra. Você realmente acredita que o sangue que corre em suas veias é diferente do deles? Você é apenas o espécime perfeito da mesma fábrica de monstros.

De imediato, o clima na sala congelou. Zack deu um passo à frente de forma instintiva, erguendo a pesada Espada Buster com as duas mãos e assumindo uma postura defensiva agressiva. Ao seu lado, o jovem Cloud desembainhou sua lâmina de infantaria com os nós dos dedos brancos de tanta força, os dois se colocando como uma barreira humana entre o recém-chegado e o restante do grupo.

Inome, engolindo em seco diante da presença sufocante de Genesis, ignorou o terror que subia pela espinha. Ela desviou os olhos do confronto iminente e focou toda a sua energia restante nos painéis eletrônicos, acelerando o manuseio das ferramentas e correndo contra o tempo para estabilizar os níveis de Mako antes que a pressão restante fizesse o setor inteiro ir pelos ares.

Sephiroth deu um passo firme à frente, a mão direita pairando milimetricamente sobre o cabo da Masamune. Seus olhos estreitaram-se ao analisar o antigo companheiro de armas.

— O que você quer dizer com isso? — falou ele, a voz mantendo a frieza habitual, embora a dor de cabeça provocada pelo Mako e o tom insano de Genesis fizessem uma ponta de dúvida ecoar em sua mente.

— Então é aqui que você está se escondendo? — Zack indagou, dando um passo à frente e ajustando o peso da recém-adquirida Espada Buster, segurando-a com ainda mais firmeza. — Hein?! Responde!

Um último bipe eletrônico ecoou do console de manutenção. Inome finalizou o que fazia, travando definitivamente o fluxo de Mako daquela ala. Ela subiu depressa com o corpo, ignorando a pontada de dor no ombro imobilizado, e se posicionou logo atrás de Zack, erguendo a pistola automática com a mão firme e os olhos fixos na ameaça.

Genesis ignorou a interrupção de Zack por completo. Seus olhos instáveis estavam cravados unicamente no General. Ele soltou uma risada teatral que terminou em uma tosse seca, limpando um rastro acinzentado do canto da boca com as costas da luva.

— A Shinra sempre foi excelente em criar contos de fadas para manter o seu brinquedo de estimação sob controle... — Genesis estendeu os braços, a asa negra se agitando levemente nas sombras do teto. — Eles lhe disseram que sua mãe se chamava Jenova, não foi, Sephiroth? Disseram que ela era uma mulher comum que morreu no seu nascimento. Mas a ciência por trás da sua existência é muito mais sombria. Jenova nunca foi humana. Ela é uma criatura, um monstro ancestral desenterrado de uma camada geológica de dois mil anos!

O silêncio que se instalou no reator foi quebrado apenas pelo chiado mecânico dos respiradores táticos. Cloud deu um passo para trás, chocado, enquanto Zack franziu o cenho, sem saber se aquilo era real ou apenas o delírio de um homem degradando.

— O Projeto Jenova foi um experimento cruel dividido em duas frentes — Genesis continuou, caminhando lentamente pela passarela suspensa, saboreando o impacto de suas palavras. — O Projeto G deu origem a mim. E Angeal? Angeal provou ser um fraco. Ele se recusou a enxergar a realidade, fechou os olhos para a nossa verdadeira natureza e se negou a me ajudar! Ele simplesmente não acreditou nas minhas palavras sobre sermos monstros criados em cativeiro... Por isso, só me restou você, Sephiroth. Só o seu poder e o sangue do espécime perfeito podem interromper a minha degradação e me curar.

A revelação ecoou pelas paredes metálicas do reator, pesada e ultrajante. A dor de cabeça de Sephiroth atingiu o ápice, a energia Mako ao redor parecia sussurrar em concordância com a insanidade de Genesis, tentando empurrá-lo para o mesmo abismo de dúvida e fúria.

Por um instante, o General vacilou, os olhos fixos nas cápsulas de monstros. Mas antes que a escuridão daquelas palavras dominasse sua mente, seu olhar cruzou com o de Inome, logo atrás de Zack. A lembrança do toque quente na bochecha, da promessa de proteção e da humanidade que ela insistia que já existia nele funcionou como uma âncoras absoluta. A confusão em seu rosto deu lugar a uma rigidez fria e controlada.

Sephiroth deu um passo à frente, a mão repousando firmemente sobre a empunhadura da Masamune, rejeitando a narrativa de Genesis.

— Suas palavras são movidas pelo desespero da sua própria ruína, Genesis. Angeal não foi fraco; ele escolheu manter a dignidade e a razão que você claramente perdeu. Se os cientistas da Shinra me moldaram em um laboratório ou se mentiram sobre as minhas origens, isso não muda quem eu escolhi ser, nem o que defendo hoje. Eu não sou um monstro... e não serei o remédio para a sua loucura.

Genesis soltou uma gargalhada estridente e teatral, um som que ecoou distorcido pelas paredes metálicas do reator, misturando-se ao zumbido pesado da energia Mako.

— "Quem você escolheu ser"? Não me faça rir, Sephiroth! — Genesis deu mais alguns passos pela passarela, a asa negra se agitando de forma agressiva, quase viva. — Você realmente acredita que a força que o tornou o herói lendário da Shinra vem de um coração humano? Abra os olhos! Olhe para os seus próprios olhos, para esse brilho sobrenatural que nós dois carregamos. Nós fomos projetados para o massacre. Nós somos extensões biológicas de Jenova!

Ele estendeu a mão na direção de Sephiroth, os dedos trêmulos e o rosto se contorcendo em uma mistura de puro escárnio e desespero biológico.

— Você pode tentar se apegar a essa mentira, a esse teatrinho de humanidade que inventou para si mesmo, mas a verdade está escrita na sua carne. Jenova não era uma Anciã benigna, ela era uma abominação! Uma criatura que destrói tudo o que toca. E você é o herdeiro direto dela, Sephiroth. O sangue dela dita cada batida do seu coração. Você acha mesmo que esses humanos insignificantes ao seu redor vão continuar olhando para você com admiração quando descobrirem que o grande General é, na verdade, a maior fera já gerada em laboratório? Você é um monstro! Aceite o seu papel no ato final que o destino escreveu para nós!

Zack deu mais um passo à frente, a Espada Buster cortando o ar até se fixar em uma postura de ataque totalmente agressiva, bloqueando parcialmente a linha de visão de Genesis para Inome e Cloud.

— Já chega dessa porcaria de lavagem cerebral, Genesis! — Zack rugiu, os nós dos dedos brancos na empunhadura da arma. — Ele já te deu a resposta. Dá o fora daqui antes que eu mesmo te jogue do topo dessa montanha!

As palavras de Genesis reverberaram pela mente de Sephiroth como um eco distorcido dentro de uma câmara vazia. Eram verdade e, ao mesmo tempo, uma mentira ultrajante. Onde começava o monstro e terminava o homem? Onde terminava sua humanidade e começava a criatura de laboratório? O brilho verde em seus próprios olhos parecia queimar sob a pressão daquela dúvida, mas o calor discreto que ainda restava em sua bochecha era o contrapeso que o impedia de desabar no abismo.

Genesis desviou os olhos do General, fitando Zack com um desdém poético e frio, deslizando os dedos pela lâmina de sua espada avermelhada.

— "Mesmo que o amanhã seja estéril de promessas, nada impedirá o meu retorno..." — Genesis recitou, o tom dramático e arrastado enquanto encarava o rapaz. — Você não entende nada, Zack. Você empunha a lâmina de um homem que escolheu a cegueira e finge que pode ver o mundo. Você é apenas mais uma peça descartável no tabuleiro da Shinra, um peão programado para obedecer até que seu sangue decore o chão de alguma linha de frente.

Inome deu um passo firme à frente, colocando-se ao lado de Zack. O medo que sentira antes foi completamente sufocado por uma onda de puro ódio e indignação diante do sadismo de Genesis.

— Você para com essa conversa agora, Genesis! Chega! — ela esbravejou, a voz firme cortando a imponência dele. — Você está louco, surtado! Fica se escondendo atrás de versos e teorias para justificar a sua própria ruína. E se o maior problema dos seus genes não for a Shinra, mas sim a sua total falta de capacidade de se focar na sua própria humanidade?!

Genesis travou o movimento de sua espada. Lentamente, ele inclinou a cabeça na direção de Inome, os olhos injetados e a pele acinzentada do pescoço repuxando conforme um sorriso sarcástico e sombrio subia por seus lábios. Ele soltou um riso curto, uma lufada de ar desdenhosa.

— Ah... A pequena mecânica da vanguarda. — Genesis deu dois passos lentos na passarela suspensa, apontando a ponta da arma sutilmente na direção dela. — Eu devia ter imaginado. Desde o início, você tem sido a anomalia silenciosa nessa história... a fraqueza persistente que plantou as sementes da dúvida no nosso herói impecável. É fascinante, e ao mesmo tempo patético, ver o grande General Sephiroth, o ápice da nossa espécie, reduzido a buscar âncora nos braços de uma humana tão comum e insignificante. Eu sabia que era você, Inome. Você é a verdadeira causa da queda do maior herói que a Shinra já produziu.

Provocado pelas palavras firmes de Inome, o olhar dele se tornou instantaneamente assassino. Com um movimento abrupto, ele saltou da passarela suspensa, canalizando energia em sua espada avermelhada e avançando em uma estocada rápida direto na direção dela, decidido a eliminar o que chamava de "fraqueza" de Sephiroth.

Zack, porém, reagiu por puro instinto protetor. O rapaz se jogou à frente com um rugido, erguendo a massiva Espada Buster a tempo de interceptar o ataque. O impacto brutal do metal contra metal ecoou como um trovão dentro do reator, soltando uma chuva de faíscas que iluminou momentaneamente a névoa esverdeada de Mako. Genesis pressionou a lâmina com força, o rosto distorcido em um sorriso de escárnio enquanto tentava subjugar a defesa do Primeira Classe.

Antes que o duelo escalasse ou que alguém saísse ferido, o próprio Sephiroth interveio.

Em um lampejo de prata quase invisível a olho nu, a Masamune cortou o ar. Com um único movimento preciso e dotado de uma força física avassaladora, o General golpeou o ponto de junção entre as duas espadas, forçando o afastamento violento de Zack e Genesis de uma só vez. A onda de choque do impacto deslocou o ar ao redor, obrigando Genesis a recuar vários passos, deslizando as botas pesadas pelo piso metálico do laboratório.

— Chega, Genesis. — A voz de Sephiroth ecoou grave e autoritária, a Masamune estendida perfeitamente na horizontal, criando uma barreira intransponível entre os lados.

Genesis recuperou o equilíbrio, a asa negra se agitando para estabilizar seu corpo. Ele recolheu a arma com um floreio dramático, percebendo que não conseguiria romper aquela defesa pela força bruta. Mas o veneno da dúvida já havia sido injetado com sucesso.

— Você ainda joga o jogo deles... fascinante — Genesis riu de canto, o tom voltando à sua cadência melodramática. Ele caminhou lentamente até a borda da plataforma desmoronada, olhando para o General por cima do ombro. — Se a minha voz não é suficiente para quebrar as suas correntes, Sephiroth, faça um favor a si mesmo. Vá até os subsolos da Mansão Shinra, aqui mesmo no vilarejo. Os relatórios de pesquisa originais, os dados sem a maquiagem da diretoria... tudo o que o laboratório de Hojo tentou esconder sobre o seu nascimento está trancado naquela biblioteca. Vá e comprove com seus próprios olhos quem — ou o que — você realmente é.

Com um último riso cínico que ecoou pelo ambiente, Genesis se impulsionou para trás, deixando-se cair na escuridão do poço de Mako e desaparecendo completamente em meio à névoa brilhante antes que Zack pudesse tentar segui-lo.

Inome encolheu-se, ficando de cócoras no chão úmido de Mako, e desabou em lágrimas. O sopro gélido da morte tinha passado perto demais, quebrando temporariamente a postura firme que ela vinha mantendo.

Ao ver o estado dela, Sephiroth sentiu uma urgência avassaladora de marchar direto para a biblioteca, sozinho, consumido pelo turbilhão que Genesis plantara em sua mente. No entanto, a promessa de não deixá-lo só pesou no ar. Curvando o corpo alto de forma rígida, ele segurou o pulso de Inome. Havia uma impaciência tensa e mecânica em seus movimentos; ele sequer era capaz de processar o choque dela naquele momento — ou o próprio colapso interno que ameaçava começar.

Ele ergueu os olhos frios na direção dos subordinados:

— Reportem o ocorrido a Angeal e voltem imediatamente ao edifício da Shinra. Eu vou à biblioteca.

Zack parecia completamente atônito com tudo o que tinha acabado de presenciar. Seu instinto inicial foi dar um passo à frente para amparar Inome, mas a barreira de frieza absoluta que Sephiroth projetava cortou qualquer espaço para questionamentos.

Zack cerrou os dentes, olhando fixamente para o General.

— Por favor, não tome nenhuma atitude louca! E cuida dela, com jeito! — exclamou, apontando para Inome.

Trocando um movimento rápido de cabeça com Cloud, que apenas assentiu em silêncio com os olhos arregalados por trás do capacete, os dois se retiraram do reator a passos rápidos, deixando o silêncio pesado tomar conta do laboratório.

Ainda chorando e sentindo o pulso completamente mole de medo envolvido pelos dedos fortes dele, Inome ergueu os olhos para Sephiroth, sem compreender a rigidez de suas ações.

— Vo-Você vai comprar a conversa dele? — ela perguntou, a voz trêmula ecoando sob a máscara de filtragem.

Sephiroth fixou as pupilas verticais no rosto dela, o semblante severo.

— De fato.

Ao encarar a vulnerabilidade nos olhos dela, uma pontada aguda e incômoda atingiu o que restava de seu coração humano. Ele apertou os dedos ao redor do pulso dela, não para machucar, mas como se buscasse uma última fresta de realidade.

— Mas você virá comigo, Inome. Para garantir que eu não perca o controle.

Sem dar espaço para réplicas e sem soltá-la por um único segundo, ele se virou e começou a caminhar para fora da estrutura industrial, arrastando-a em direção às trilhas sombrias que levavam à Mansão Shinra.

Os dois saíram correndo da montanha, os passos apressados e pesados ecoando pelas trilhas rochosas e íngremes do Monte Nibel enquanto desciam em direção à Plataforma de Embarque de Transportes Militares.

Durante todo o trajeto, a mente de Zack trabalhava a mil por hora. O peso da recém-entregue Espada Buster em suas costas parecia ainda maior diante da dúvida esmagadora que o consumia por dentro. Ele se questionava, com o peito apertado, se havia tomado a decisão certa ao obedecer cegamente e deixar Inome e Sephiroth sozinhos para trás naquele reator. A frieza cirúrgica nos olhos do General e o pavor estampado no rosto de Inome não saíam de sua cabeça. Zack sabia que Sephiroth era o guerreiro mais forte do mundo, mas a atmosfera ali dentro havia mudado de um jeito que ele nunca tinha visto antes.

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