Semana 2, Dia 3.
O zumbido dos reatores subterrâneos do laboratório clandestino parecia martelar direto nas têmporas de Genesis. Diante deles, as telas médicas de Hollander piscavam em um verde doentio, exibindo os gráficos oscilantes de uma degradação celular que o cientista tentava mascarar com bajulações baratas.
— O seu material genético é perfeito, Genesis... uma obra-prima divina que o Hojo jamais terá a capacidade de compreender — balbuciava Hollander, com os dedos trêmulos ajustando as válvulas dos tanques de incubação.
Dentro do líquido espesso, as primeiras silhuetas esguias dos clones flutuavam — cópias geradas a partir do seu próprio sangue. Genesis ajeitou o casaco vermelho, sentindo uma queimação incômoda e profunda no ombro esquerdo, bem onde a musculatura parecia sofrer sob a pressão interna daquela mutação silenciosa. Era a maldita prova física de que o relógio estava correndo e que o Projeto G cobrava seu preço. Sem dignar o cientista com um olhar, manteve os olhos fixos nos reflexos do vidro.
— Eles não são apenas cópias — Genesis ditou, a voz ecoando com aquela imponência teatral que mal conseguia sufocar o desespero crescente em seu peito. — São a extensão da minha vontade. Enquanto o grande herói da Shinra se amolece, eu garantirei o ápice. O poder não nos será dado, Hollander. Nós o tomaremos, e o mundo finalmente entenderá quem é a verdadeira lenda de LOVELESS.
Genesis começa a caminhar de um lado pro outro pela sala, encostando a mão no vidro onde estão seus clones. Ele sorri olhando para Hollander. Um sorriso perturbador.
— Quando eles estarão prontos?
Hollander pisca, sem saber o que falar. Ele desvia o olhar para os monitores, limpando o suor da testa com o jaleco, visivelmente tenso.
— O processo exige precisão, Genesis... — Hollander gagueja, mexendo nos comandos de mako. — Isolar as suas células sem transferir a degradação de imediato é um trabalho cirúrgico. Preciso de mais algumas semanas para estabilizar essa primeira leva.
Genesis solta uma risada curta e seca, que corta o som das máquinas. Ele para de caminhar e se aproxima devagar, encurtando a distância até o cientista.
— Semanas? — Genesis fala baixo, arrumando a gola do casaco com uma calma afetada. — Você fala como se o tempo fosse nosso aliado, Hollander. Não seja medíocre. Melhore o ritmo dessas incubadoras. Eu não vou ficar sentado esperando meu corpo falhar enquanto assisto ao Sephiroth ignorar o próprio posto lá em cima.
Hollander engole em seco e volta a digitar rápido no terminal, tentando parecer ocupado para encerrar o assunto. Genesis dá as costas e sai do laboratório sem dizer mais nada, deixando o cientista sozinho com os tanques.
Semana 3, Dia 6.
O simulador de combate da Shinra estava configurado no nível máximo, mas para Genesis, os hologramas de monstros de mako pareciam apenas alvos estáticos para sua frustração. A lâmina rúnica cortava o ar com violência, desintegrando projeção após projeção em explosões de luz digital. Ele recitava as estrofes do Banquete com os dentes trincados, usando o ritmo dos versos para ditar os golpes — “Meu amigo, você voa para longe agora? Para um mundo que abomina a você e a mim? Tudo o que te espera é um amanhã sombrio, não importa para onde os ventos soprem...” —, mas a precisão não era a mesma. No meio de um movimento de rotação, o joelho esquerdo falhou por uma fração de segundo — um reflexo tardio, um aviso silencioso da degradação cobrando seu preço.
Genesis recuou, fincando a espada no chão de metal para se apoiar enquanto o cenário virtual se desfazia ao seu redor, revelando as paredes frias e cenográficas da sala vazia. Ele olhou para a própria mão enluvada, que tremia levemente.
Antes que pudesse respirar fundo para se recompor, as portas automáticas se abriram com um silvo hidráulico. Angeal entrou na sala, cruzando os braços enquanto olhava para os painéis que ainda piscavam com o aviso de Sobrecarga do simulador, sem entender direito a necessidade de todo aquele alvoroço e destruição.
— Treinando duro logo cedo, Genesis? — Angeal perguntou com aquele tom firme e amigável de sempre, mas com um brilho de preocupação no olhar. — Desse jeito vai acabar se desgastando antes mesmo da próxima missão.
Genesis trincou os dentes e forçou o corpo para cima, levantando-se devagar enquanto ainda se apoiava no cabo da lâmina rúnica para esconder o fato de que seu joelho esquerdo estava falhando. Ele ajeitou o casaco vermelho com uma calma afetada, empinando o queixo.
— E o cansaço por acaso importa, Angeal? — a voz de Genesis saiu com aquela altivez dramática, tentando de tudo para mascarar o próprio desespero. — O preço do esforço é irrelevante quando o objetivo é se tornar invencível. Inalcançável.
Sem dar espaço para contestação, ele embainhou a espada com um estalo seco e caminhou em direção à saída. Ao passar por Angeal, bateu o ombro firmemente contra o dele, um impacto ríspido e deliberado para cortar qualquer tentativa de sermão.
— Você deveria se preocupar em buscar o seu próprio ápice, Angeal — Genesis soltou, sem desacelerar o passo. — Contentar-se com o que tem vai apenas fazer você ficar para trás.
Ele cruzou as portas automáticas e sumiu pelo corredor, sem olhar para trás sequer uma vez.
Angeal se virou devagar, observando o vão da porta aberta com uma mistura de curiosidade e preocupação genuína. Aquela rispidez toda não parecia a arrogância de costume; tinha algo diferente ali, como se Genesis estivesse escondendo algo. Por que ele estaria agindo assim? O que estava motivando aquela fixação repentina? Mas antes que pudesse ir atrás ou cobrar uma resposta real, Genesis já não se encontrava mais lá.
Semana 5, Dia 2.
Naquele dia, os dois simplesmente deixaram o edifício da Shinra e todas as responsabilidades para trás. Inome estava ansiosa para mostrar a ele o seu verdadeiro lar — a casa onde nasceu, cresceu e viveu antes de entrar para a empresa. O lugar era acolhedor e aconchegante, embora estivesse silencioso por conta de seu pai ainda estar internado no hospital.
Inome segurou a mão de Sephiroth, guiando-o até o sofá, no qual ele se sentou. Ironicamente, ele parecia animado, curioso. Emoções que ele definitivamente não tinha o costume de expor para o resto do mundo.
— Estenda as mãos, Seph! — Inome disse feliz, pegando um pacote de trás do sofá.
Assim o homem fez. Ao estender as palmas, Inome colocou o embrulho sobre elas. Ele baixou os olhos, encarando o pacote com atenção e depois fitando Inome. Não entendeu. Ele nunca recebeu um presente em toda a sua vida.
— Poderia me explicar o propósito disso? — ele perguntou com sua calma polida de sempre, apoiando o embrulho no colo.
Inome se sentou ao lado dele, sorrindo. Ela encostou a cabeça em seu ombro, brincando com a fita do laço.
— Um presente, Seph. Nós costumamos presentear as pessoas que amamos. Sabia? Eu comprei algo especial para você.
Sephiroth deu um sorriso sutil, quase imperceptível. Um presente? Ela o amava? A afirmação disparou um misto estranho de sensações em sua mente rígida, fazendo seu coração acelerar. Ele abriu o embrulho com cuidado e notou o conjunto dobrado: uma calça jeans preta e uma blusa simples, também preta. Ele olhou para Inome, genuinamente confuso com a lógica daquela escolha.
— Eu já possuo vestes, Inome.
Inome riu, abraçando o torso dele. Era engraçado: ao mesmo tempo em que ele era um gênio militar, mantinha uma inocência quase intocada para as coisas mais básicas da vida cotidiana.
— É uma roupa casual, mais confortável! Você vai ficar lindo nela
— E qual seria a necessidade dessa mudança? Meu traje atual é perfeitamente adequado e confortável. — Ele olhou para o tecido por mais um momento, tentando decifrar o sentido prático daquilo tudo.
Inome sorriu com carinho, ajeitando-se no sofá para encará-lo de frente.
— Seph... como eu vou te abraçar direito? Como você vai se agachar no jardim para colher flores comigo usando toda essa armadura e metal? Eu quero poder sentir você mais perto, e essa sua roupa toda simplesmente não deixa.
Sephiroth piscou algumas vezes, processando o argumento dela com uma seriedade absoluta que quase beirando o cômico. Ele a encarou fixamente, com os olhos intensos e compenetrados.
— Eu supunha que a ausência de vestimentas servia justamente para essa finalidade — ele pontuou, com uma honestidade tão genuína e despida de malícia que desarmou qualquer resposta puramente lógica.
Inome sentiu as bochechas esquentarem, corando de imediato com a franqueza direta dele. Ela soltou uma risada meio sem jeito, cobrindo o rosto por um breve segundo.
— Sim e não! Por isso a roupa nova! — ela disse, tentando recuperar a postura enquanto sorria. — Ficar sem roupa é só... uh... no quarto! Nos outros lugares, a gente usa algo confortável.
Sephiroth passou os dedos longos pelo tecido da blusa preta, sentindo a textura macia do algodão — algo completamente diferente do couro rígido, das fivelas e das placas de metal que costumava vestir. Ele ainda não compreendia totalmente a lógica humana por trás daquela troca de trajes, mas o brilho de expectativa nos olhos de Inome era um argumento que ele não pretendia refutar.
Com um movimento comedido, ele se levantou do sofá, segurando o conjunto com uma precisão quase solene.
— Tudo bem. Sendo um presente seu, irei vesti-lo — cedeu ele, mantendo a voz no tom baixo e aveludado de sempre. — Espero que me dê sua avaliação sincera assim que eu retornar.
Inome soltou o ar que nem percebeu que segurava, abrindo um sorriso radiante de puro alívio. Ela se inclinou para frente no estofado, balançando as mãos no ar para apressá-lo, os olhos brilhando de empolgação.
— Vai lá! E não demora, hein? Quero ver como fica!
Ele assentiu sutilmente com a cabeça, um gesto automático de consentimento, e se virou. O contraste daquelas roupas simples contra a imensidão de seus cabelos prateados chamava a atenção enquanto caminhava a passos lentos e silenciosos em direção ao corredor dos quartos, deixando Inome sozinha com a expectativa na sala.
Depois de alguns minutos, os passos leves de Sephiroth anunciaram seu retorno. Ele cruzou o batente da porta parecendo visivelmente incerto, os ombros largos despidos das pesadas ombreiras de metal e o longo cabelo prateado caindo livre sobre o tecido macio da blusa preta. A calça jeans escura moldava suas pernas longas de forma anatômica, sem a rigidez do couro militar. Ele moveu os braços de leve, erguendo um pouco as mãos para inspecionar os próprios punhos, estranhando a ausência completa de peso e a sensação quase vulnerável. .
Inome se levantou do sofá num salto e correu na direção dele, jogando-se em um abraço apertado.
— Que lindoooooooooooo.....! — ela exclamou com os olhos brilhando, afundando o rosto contra o torso dele, sentindo diretamente o calor do seu corpo através do algodão.
Sephiroth envolveu a cintura dela com um dos braços, mantendo-a firme contra si, enquanto a outra mão subiu devagar, os dedos compridos acariciando os cabelos de Inome com uma ternura contida. A satisfação dela causou um reflexo imediato em seu peito, trazendo uma sensação genuína de tranquilidade que ele raramente experimentava.
— Devo presumir, então, que o resultado foi do seu agrado? — ele indagou, a voz mansa e o tom caracteristicamente polido, observando o topo da cabeça dela com um vestígio de sorriso nos lábios.
— CLARO que sim! — ela exclamou com um sorriso no rosto, erguendo-se na ponta dos pés para encher o rosto dele de beijos estalados, bochecha por bochecha, quebrando com facilidade aquela postura sempre tão imperturbável do General. — Vamos colher as flores?
Sephiroth inclinou a cabeça de leve, sentindo o calor dos lábios dela ainda presente em sua pele. A empolgação de Inome exercia um magnetismo genuíno sobre ele.
— Certamente. Se colher flores é o que deseja fazer agora, estou à sua disposição — ele respondeu, a voz mantendo aquela cadência mansa e aristocrática.
Sem esperar que ela tomasse a iniciativa, ele envolveu a mão menor de Inome com seus dedos longos, segurando-a com firmeza, mas com cuidado. Com um movimento sutil, ele a conduziu em direção à porta que dava para os fundos da casa.
No jardim, sob a luz da tarde, os dois começaram a colher as flores. Inome entregou uma cesta de vime para Sephiroth e pegou outra para si, orientando-o com um sorriso a selecionar as mais bonitas e vibrantes, já que a intenção era montar buquês quando terminassem.O homem, observava as pétalas com a mesma atenção minuciosa que dedicava aos seus relatórios táticos, colhendo cada botão com uma delicadeza inesperada para suas mãos tão habituadas ao cabo de uma espada.
Quando a colheita terminou, ambos se acomodaram ao redor da mesa de madeira na cozinha. Entre caules verdes, fitas e o aroma fresco das flores espalhadas, eles começaram a organizar os arranjos. Sephiroth observou o buquê que tomava forma em suas mãos por um longo momento, antes de quebrar o silêncio de maneira totalmente espontânea.
— Admito que... aprecio genuinamente este momento — ele disse, com a voz mansa e pausada. — Há uma quietude nesta atividade que me traz uma serenidade incomum. Creio que seja o que vocês costumam chamar de felicidade.
Ele ergueu os olhos intensos para ela, deixando escapar um suspiro sutil. Não era um suspiro de cansaço, mas sim um sopro de alívio, como se um peso invisível estivesse sendo drenado de seus ombros.
Inome sorriu, sentindo um calor confortável inundar seu peito. De certa forma, ela sentia que estava vencendo uma batalha silenciosa. Aquele homem à sua frente, que o mundo inteiro conhecia apenas como um herói,, uma máquina de guerra imperturbável que nunca demonstrava vulnerabilidade alguma, agora se desarmava completamente diante dela.
— E eu gosto muito de estar aqui com você, Seph — ela disse com doçura.
Ainda sentada, Inome inclinou o torso por cima da mesa, aproximando-se do espaço dele, e depositou um beijo carinhoso na bochecha do homem.
Semana 5, Dia 3.
Os aposentos privados dos Primeira Classe no alto do edifício da Shinra funcionavam como uma extensão de seus próprios escritórios. O quarto-escritório de Angeal refletia exatamente a sua personalidade: organizado, sóbrio, com relatórios táticos perfeitamente alinhados sobre a mesa de madeira escura e pouquíssimos ornamentos.
Angeal havia convocado Genesis até ali com um propósito bem direto: precisavam discutir o remanejamento das tropas de segurança para o Setor 8 e, secretamente, ele queria uma brecha para sondar o comportamento arredio do amigo. Porém, o planejamento de Angeal ruiu no instante em que Genesis cruzou o batente da porta.
Antes mesmo que o dono da sala pudesse puxar a cadeira ou abrir a primeira pasta de documentos, Genesis tomou o espaço. Ele ignoru completamente a recepção de Angeal,, caminhando até a janela que dava para a imensidade de Midgar, com os braços cruzados e uma expressão afiada.
— Genesis, que bom que veio. Chamei você para organizarmos as patrulhas do próximo mês, a diretoria está cobrando os prazos e... — Angeal começou, mantendo o tom profissional.
— Você tem falado com o Sephiroth ultimamente, Angeal? — Genesis o cortou abruptamente, sem sequer olhar para trás, jogando o assunto na mesa com uma rispidez que pegou o outro de surpresa.
Angeal piscou, segurando a caneta no ar, processando a mudança drástica de foco.
— ... Como? — Angeal franziu o cenho, largando o papel de lado. — O assunto aqui são as diretrizes do Setor 8, Genesis. O Sephiroth está cuidando da ala administrativa hoje.
— Cuidando da ala administrativa? — Genesis soltou uma risada curta, seca, finalmente se virando para encarar Angeal com um olhar semicerrado e carregado de desconfiança. — Não seja ingênuo. Ele mal pisa naqueles escritórios há dias. O herói da Shinra está sumindo, Angeal. Deixando as responsabilidades de lado como se fossem futilidades. E o que me impressiona é ver você, o homem da honra e do dever, agindo como se estivesse tudo normal.
Angeal ouviu o desabafo sem se alterar. Ele simplesmente deu de ombros, recostando-se na cadeira enquanto mantinha os olhos fixos em Genesis, tentando decifrar a origem daquela hostilidade gratuita.
— Sephiroth continua atendendo perfeitamente a todas as exigências que a diretoria lhe impõe — Angeal pontuou, a voz grave e ponderada, com a calma típica de quem se recusa a entrar em paranoia. — Se as obrigações dele estão em dia, por que a conduta dele causa tanto desconforto a você?
— Desconforto? — Genesis soltou uma risada irônica, enquanto ele gesticulava com desdém. — Ele simplesmente negligenciou a escolta tática do alto escalão para Junon e ignorou o plano de supressão das células rebeldes na periferia! Operações que exigem a presença do General, Angeal, mas que ele simplesmente descartou, deixando toda a carga operacional nas mãos daquele garoto insignificante, o Zack... — Ele esticou o braço, apontando o dedo indicador diretamente para o peito de Angeal. — ... e nas suas mãos, também. E você aceita esse fardo sorrindo, como um bom soldado.
Angeal não desviou o olhar. Ele sustentou o dedo apontado contra si, a expressão endurecendo conforme a seriedade tomava conta de seu rosto. Ele se inclinou um pouco para a frente, apoiando os antebraços na mesa.
— Você ainda não respondeu à minha pergunta, Genesis. Por que isso te incomoda tanto?
Genesis não respondeu de imediato. Ele começou a andar de um lado para o outro pela sala, os passos rápidos e pesados quebrando o silêncio do escritório. A mão enluvada tateava o queixo enquanto a mente trabalhava a mil por hora, alimentando um cenário que só ele conseguia enxergar. Ele parou abruptamente, virando-se para o amigo com os olhos semicerrados.
— Não passa pela sua mente, nem por um segundo, que ele possa estar tramando... algo? Que essa súbita apatia dele seja apenas uma fachada para algo muito pior?
Angeal deu um sorriso de canto, achando quase inacreditável o nível daquelas especulações. Ele negou com a cabeça lentamente, empurrando os relatórios para o lado na mesa.
— Na verdade, me parece que Sephiroth finalmente aprendeu a descansar no tempo certo — falou firme, encarando Genesis nos olhos. — Diferente de você, que está deliberadamente caçando problemas onde não existem.
Genesis estancou os passos no meio do escritório. Um sorriso ríspido e puramente teatral cortou seus lábios enquanto ele começava a bater palmas de forma lenta e cadenciada, voltando a caminhar pelo ambiente de maneira dramática.
— Ah, bravo... — o som seco das luvas colidindo ecoava com deboche pelas paredes. — Bravo, Angeal. Agora o problema sou eu? Agora você direciona sua desconfiança contra mim?
Angeal ergueu uma das sobrancelhas, achando curiosa aquela habilidade quase natural que o amigo tinha de inverter os papéis da discussão. Ele cruzou os braços, mantendo a postura centrada.
— Só acho que você deveria aprender a se acalmar. Descansar um pouco... e quem sabe ler outros livros.
Genesis parou diante da janela, observando o reflexo dos próprios olhos contra o vidro escurecido. Ele respirou fundo, e quando voltou a falar, sua voz abandonou a agressividade para adotar o tom solene e declamatório que guardava apenas para a sua obra favorita.
— “Infinita em mistérios é a dádiva da Deusa... Nós a buscamos, e assim alçamos voo ao céu. Ondulações na superfície da água... A alma errante não conhece o descanso.”
Ele se virou devagar, fixando um olhar febril e obstinado em Angeal.
— O Prólogo de LOVELESS deixa claro, meu amigo. O descanso é uma ilusão para aqueles que ignoram o rumo do destino. E eu garanto a você... não há nada de pacífico na quietude que o Sephiroth está cultivando.
Angeal apenas suspirou, dando aquela discussão por encerrada ao perceber que não adiantaria nada tentar debater com a paranoia crescente do amigo. Ele juntou as folhas de relatórios sobre a mesa — as diretrizes de patrulha do Setor 8 que Genesis tinha ignorado sumariamente logo ao entrar — e as estendeu de forma impositiva.
— Apenas leia as diretrizes do Setor 8 — Angeal ordenou, com o tom firme e profissional de quem não aceitaria mais desvios de assunto. — Envie-me um e-mail com as suas considerações pelo terminal assim que terminar e eu reviso mais tarde. Está dispensado.
Genesis segurou o maço de papéis com uma força contida, os dedos enluvados amassando levemente as bordas das folhas sob o peso de um ódio silencioso e orgulhoso. Ele sequer se deu ao trabalho de responder Angeal com algum deboche ou nova estrofe; apenas deu meia-volta e deixou a sala a passos largos e apressados, cruzando as portas automáticas que se fecharam logo em seguida.
Depois de arremessar as folhas de qualquer jeito sobre a escrivaninha de seu quarto, Genesis deu início a uma nova caçada pelos corredores do complexo da Shinra. Ele precisava de respostas e sabia exatamente quem andava cobrindo as ausências frequentes do General. Não demorou para encontrar Zack e Cloud sentados juntos em um dos cantos do refeitório. Genesis marchou com passos pesados e deliberados na direção da dupla, interrompendo abruptamente a refeição deles ao bater as duas palmas abertas contra a superfície da mesa com um estrondo seco.
— Que relatos vocês, criaturas ordinárias, teriam a me oferecer sobre a súbita e questionável reclusão do nosso ilustre herói? — ele disparou, estreitando os olhos enquanto alternava o olhar entre os dois, sem demonstrar o menor vestígio de respeito.
Zack mal se abalou com a abordagem teatral. Ele simplesmente deu uma mordida generosa em seu sanduíche de carne e continuou mastigando sem pressa, engolindo o pedaço antes de responder com sua típica descontração:
— O cara parece feliz — Zack soltou, dando uma mordida generosa em seu sanduíche de carne e continuando a mastigar sem pressa, engolindo o pedaço antes de dar de ombros
Ao lado dele, Cloud encolheu os ombros dentro do uniforme azul da infantaria. Ele recolheu os braços perto do corpo e manteve-se em completo silêncio, fixando os olhos na própria bandeja para evitar qualquer contato visual direto, desejando apenas se tornar invisível diante da presença intimidadora do Primeira Classe.
— Contente com o que exatamente, criatura insolente? — as palmas enluvadas de Genesis colidiram contra o metal da mesa mais uma vez, fazendo os talheres e as bandejas tremerem com o impacto. — Que espécie de futilidade mundana seria capaz de despertar tamanho sentimento no General? Desembuchem.
— Uh... sei lááá... — Zack murmurou, sem se abalar com o segundo estalo na mesa. Ele aproveitou para dar mais uma bela mordida em seu lanche e continuou mastigando de forma bem audível antes de gesticular com as mãos livres. — Ele só parece... bem. Acho que finalmente aprendeu a dormir, sabe? Oito horas de sono redondinho. O cara acorda até de bom humor agora!
Genesis, irritando-se profundamente com aquela superficialidade absurda, ergueu o torso e ajeitou a postura. Ele desfiou um olhar de absoluto desprezo sobre a comida de Zack antes de murmurar para si mesmo, com a voz carregada de uma solenidade sombria:
— Resta-me, portanto, confrontar pessoalmente a suposta origem deste desvario.
Sem dar mais nenhuma palavra, ele deu as costas à dupla e saiu do refeitório a passos rápidos e impositivos, marchando diretamente em direção ao Departamento de Engenharia e Manutenção da Shinra.
Zack acompanhou o veterano com o olhar até ele sumir pelo corredor. Assim que a porta se fechou, ele cutucou o braço de Cloud com o cotovelo, soltando uma risada abafada:
— O cara alucinou de vez... Eu sempre soube que ficar recitando aquele LOVELESS o dia inteiro fritava o cérebro de qualquer um.
Zack balançou a cabeça, voltando a focar no resto do seu almoço. Cloud, no entanto, permaneceu em silêncio. Ele encarou a mesa por alguns instantes, ponderando a atitude paranoica do Primeira Classe com uma seriedade velada, pressentindo que aquilo não terminaria bem.
Ao cruzar o limiar da oficina mecânica, Genesis não hesitou. Ele localizou Inome imediatamente entre as ferramentas e maquinários. Sem pronunciar uma única palavra de aviso, ele avançou como uma sombra sobre ela, segurando-a firmemente pelo braço. Antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, Genesis a impulsionou para trás, pressionando-a contra a parede fria do setor e encurralando-a com seu porte intimidador, fixando os olhos febris diretamente nos dela.
— Acaso seria você, criatura insolente, a responsável por desviar o foco de Sephiroth de seu verdadeiro propósito? Responda de imediato! — ele sibilou, a voz cortante como uma lâmina, enquanto seus dedos enluvados apertavam o antebraço dela com uma força desmedida, deixando uma marca evidente sob a pele.
Inome o encarou de perto, sentindo a intensidade febril daqueles olhos. O susto repentino fez seu coração acelerar de forma violenta, golpeando suas costelas enquanto uma onda de pânico subia por sua garganta. A vontade de chorar pressionou seus olhos, mas ela se recusou a demonstrar fraqueza diante dele; em vez disso, franziu as sobrancelhas, misturando o medo à pura indignação.
— E eu sei lá?! Genesis, me solta! — ela protestou, a voz oscilando entre o tremor e a revolta. Inome começou a balançar as pernas freneticamente no ar, os pés agitando-se em vão, distantes do chão devido à força avassaladora com que ele a mantinha erguida. — Me solta agora!
A resistência da garota apenas ultrajou o orgulho do Primeira Classe. Em uma reação brusca, Genesis bateu o corpo dela contra a parede com ainda mais força, fazendo um estrondo ecoar pela estrutura da oficina. O movimento foi puramente deliberado, uma tentativa de sufocar qualquer vestígio de rebeldia, encurralando-a sob sua sombra intimidadora para deixá-la completamente acuada.
— Não ouse mascarar a verdade com tamanha leviandade! — ele sibilou, o rosto perigosamente próximo ao dela, os olhos faiscando em uma fúria teatral e implacável. — Responda-me sem subterfúgios: é você a fraqueza que ousa desvirtuar o herói de seu verdadeiro legado?! Confesse!
Inome protestou, agitando as pernas no ar com ainda mais desespero, recusando-se a ceder ao tom autoritário dele.
— Pela sua completa falta de respeito, você não merece informação nenhuma! — ela rebateu, a voz ríspida mesmo sob a pressão do aperto dele.
O comentário só serviu para inflamar o desdém do Primeira Classe. Com um estalo de impaciência, Genesis impulsionou o corpo dela contra a estrutura de metal mais uma vez, ignorando completamente a fragilidade dela frente à força de um SOLDIER.
— Cesse esse silêncio insolente e desembuche a verdade de uma vez por todas! — ele sibilou, a voz ecoando de forma teatral e perigosa pelo ambiente.
O impacto brusco fez Inome soltar um grunhido sôfrego de dor. A força do golpe reverberou por suas costas, fazendo-a abaixar a cabeça momentaneamente enquanto tentava recuperar o fôlego, a vista oscilando por um segundo sob a opressão daquela brutalidade.
— Você simplesmente não consegue aceitar a mudança dele?! Você é maluco! — Inome exclamou revoltada, erguendo o olhar com esforço, lutando para se manter firme contra os impactos e a força esmagadora que a prendia ali. — O meu braço está machucando, Genesis! Me solta!
Tomado por uma revolta absoluta diante da insubordinação dela, Genesis a arremessou contra o chão da oficina com violência, sem qualquer pingo de remorso ou hesitação. O impacto do corpo de Inome contra o piso de metal ecoou de forma seca e dolorosa, mas ele sequer olhou para trás para constatar os danos, ignorando completamente a fragilidade dela.
Ele se virou abruptamente, resmungando em seu tom dramaticamente teatral e sombrio:
— Mais uma alma insolente a ignorar a reverência devida... Outra mente profana que ousa conspirar nas sombras contra o verdadeiro legado!
Ele deixou a oficina mecânica batendo a porta com violência. Seus passos pesados, movidos por um orgulho profundamente ferido e cheios de paranoias, ecoavam por todo o corredor do edificio. Com a mente totalmente cega pelas próprias convicções, ele iniciou uma marcha obstinada, determinado a rastrear e confrontar o próprio Sephiroth.
Inome soltou um grunhido agudo de dor que morreu engasgado em sua garganta. O impacto violento contra o piso rígido de metal fez sua visão escurecer por completo por alguns segundos longos e assustadores, enquanto uma onda de náusea e tontura vinha logo em seguida, ameaçando puxá-la diretamente para a inconsciência.
Encolhida ali mesmo na sala, no meio da poeira e das ferramentas, ela abraçou o próprio torso, trêmula e arquejando para recuperar o ar que havia sido arrancado de seus pulmões pelo baque. Sabendo que não podia se dar ao luxo de apagar, ela arrastou a mão com um esforço tremendo até o coldre tático em sua cintura. Seus dedos desajeitados e trêmulos tatearam o couro até finalmente se fecharem ao redor do gargalo de vidro de uma Potion comum.
— Maluco... — ela conseguiu expelir, a voz fraca, rouca e quase imperceptível, os dentes cerrados contra a dor lancinante que subia por suas costas e pelo antebraço marcado.
Com as forças que lhe restavam, Inome destravou a tampa do frasco e bebeu o líquido de uma vez. O gosto familiar e a energia curativa começaram a descer por sua garganta, espalhando um calor imediato pelo corpo que passou a lutar contra o apagão iminente, estabilizando seus sentidos e começando, muito lentamente, a aliviar os estragos deixados pela brutalidade do Primeira Classe.
Genesis chegou escancarando as portas duplas do escritório de Sephiroth, fazendo o mecanismo hidráulico chiar com a brutalidade do impacto. Ele deu um sorriso torto, aristocrático e transbordando um senso de poder puramente teatral, caminhando a passos firmes até a imponente mesa de madeira escura.
— Sephiroth! Eis o mais novo herói em pleno declínio! — Genesis disparou, a voz ecoando dramática pelo ambiente enquanto ele batia as duas mãos espalmadas contra a escrivaninha do General. — Que futilidades mundanas têm apartado os olhos do grande herói de suas legítimas obrigações?
Sephiroth sequer piscou com a entrada violenta ou com o estalo na sua mesa. Ele manteve a postura impecável, totalmente imperturbável diante da fúria do companheiro. Apenas ergueu o olhar na direção de Genesis, segurando a caneta com calma.
— Como pode constatar, estou meramente revisando os relatórios de logística e orçamento técnico para os reatores periféricos — Sephiroth respondeu, a voz mansa, pausada e revestida de uma autoridade cirúrgica. — Se a sua intrusão não for motivada por um assunto de extrema relevância institucional, peço que me dê licença. Tenho prazos a cumprir.
A frieza do General agiu como combustível na paranoia de Genesis. Ele inclinou o torso para a frente sobre a mesa, os olhos faiscando em uma obstinação quase febril.
— Você se mostra fraco, Sephiroth! Sucumbindo a uma negligência indigna, obcecado por algo que em nada condiz com a glória de sua jornada e de seu legado! — Genesis sibilou, os dentes cerrados. — Exijo que desfaça esse enigma e confesse a verdade de imediato!
— Estou apenas aprendendo a viver, Genesis. Inclusive fora dos limites desta corporação — Sephiroth comentou de forma extremamente calma, focado apenas na papelada sob sua mesa, sem dar a mínima importância à presença ultrajada do outro. — Já experimentou a paciência da pesca? É perfeitamente possível fritá-los depois. Compreender a arte culinária tem se provado um estudo curioso... Hm.
Genesis soltou um riso histérico, irônico e carregado de deboche, o som ecoando pelas paredes limpas do escritório.
— Como? O herói supremo cogita renunciar ao combate por causa de tamanha mediocridade? — ele disparou, a voz transbordando desprezo teatral. — Tem o menor vislumbre do que a Diretoria e o Alto Comando pensariam se soubessem dessa sua degradação? Eu mesmo deveria reportar essa sua fraqueza diretamente ao Presidente Shinra para que confisquem a sua patente de uma vez por todas. Você não é mais digno de ostentar esse posto!
Sephiroth finalmente se levantou, sua presença imponente dominando o espaço atrás da escrivaninha. Sem demonstrar qualquer perda de controle externo, mas movido por uma total falta de paciência, ele segurou Genesis firmemente pelo antebraço.
— Eu já solicitei uma vez que se retirasse da minha sala, e tenho plena ciência de que um segundo apelo verbal seria inútil — Sephiroth declarou, a voz fria, pausada e revestida de uma autoridade institucional inabalável. — Está dispensado, Genesis.
Com um movimento contínuo e firme, o General o conduziu até a saída, empurrando-o para fora do limite de seu escritório.
Genesis não reagiu e conteve o ímpeto de revidar. Sua passividade, não era de um respeito genuíno pela liderança ou pela força de Sephiroth, mas sim de um cálculo puramente orgulhoso: o temor prático de sofrer sanções severas do Alto Comando. Ele sabia que iniciar uma briga física dentro do gabinete do General seria o pretexto perfeito para que a diretoria confiscasse seu prestígio e o destituísse de seu cobiçado posto de Primeira Classe.
Genesis afastou-se dali com passos pesados, deixando o edifício da Shinra para trás. Ele desceu até a área periférica do Setor 5 para se encontrar novamente com Hollander, longe dos olhos da empresa. O que o cientista havia lhe prometido precisava ser entregue logo; ele não tinha intenção de tolerar mais nenhum atraso.
Parado diante do esconderijo desgastado onde o homem se escondia, Genesis olhou para a estrutura velha antes de entrar e recitou o trecho:
— “Mesmo que o amanhã seja estéril de promessas, nada impedirá o meu retorno... Para saltar sobre as águas que nos separam, e enfim testemunhar o destino.”

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