quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Além do final feliz - A Feira

 


O sol da manhã em Costa del Sol já aquecia as ruas de pedra quando a pequena família iniciou a caminhada rumo ao mercado da vila. O som dos passos de Sephiroth e Inome misturava-se ao bater ritmado das garras largas do Chocobo de carga, uma ave robusta de plumagem amarela vibrante que eles haviam alugado para carregar o peso das compras do mês.
Com uma das mãos, Sephiroth segurava a rédea de couro, guiando o imenso pássaro com uma tranquilidade absoluta. Na outra mão, ele mantinha o pergaminho com a lista de mantimentos, os olhos correndo pelas anotações com atenção meticulosa.
— Eu sabia que estava esquecendo alguma coisa... — Inome murmurou, estalando os dedos ao se lembrar repentinamente. Ela caminhava ao lado do marido, de olho nas barracas coloridas que já começavam a surgir no horizonte. — Esqueci de colocar na lista os temperos secos e aquele sabão em barra de coco que a gente usa para lavar as roupinhas da Kether.
Sephiroth não tirou os olhos do papel, mas assentiu devagar.
— É verdade. O sabão está no fim. Vou memorizar os dois itens antes que cheguemos aos mercadores — ele respondeu com a voz calma, dobrando a lista e guardando-a no bolso de forma prática.
Lá no alto, muito acima das preocupações com sabão e feira, Kether vivia o auge de sua manhã. Acomodada na sela espaçosa, a garotinha estava totalmente debruçada para a frente, abraçando o pescoço felpudo do Chocobo com os dois bracinhos apertados, o rosto encostado nas penas macias. Ela balançava as pernas curtas e cantava uma cantiga inventada na hora, a vozinha doce ecoando pela rua pacata:
Meu chocobo fofinhooo... todo amarelinho... ele é bonitinhooo e muito grandão...
Como se entendesse perfeitamente a serenata dedicada a ele e gostasse do ritmo, o imenso pássaro balançou a cabeça de forma animada, soltando um som longo e alegre.
Kweeeh!
— Viu, mamãe? Ele disse que adorou! — Kether exclamou, levantando a cabeça com um sorriso radiante, antes de voltar a encostar no bicho. — Chocobo bonitinhooo... anda rapidinhooo...
Sephiroth ergueu o olhar, observando a filha cantarolar enquanto o Chocobo caminhava mansamente. Aproveitando a proximidade de quem segurava a rédea, a imensa ave abaixou um pouco o pescoço e esfregou a lateral do bico no ombro de Sephiroth, pedindo carinho de forma descarada.
O platinado tentou manter a postura no meio da rua, focando o olhar no caminho à frente, mas acabou cedendo. De forma muito discreta, ele usou a mão que segurava a rédea para fazer um carinho suave no pescoço do bicho, coçando por baixo das penas grossas. Inome pegou o gesto no mesmo instante e precisou morder o lábio inferior para não rir em voz alta do marido derretido, enquanto os três seguiam para o burburinho da feira.
Assim que pisaram no centro comercial da vila, o burburinho de vozes, o cheiro de peixe fresco e o colorido das tendas os envolveram. Inome e Sephiroth se entreolharam, avaliando a disposição das barracas.
— Vamos começar pelas sacas de farinha e grãos — Sephiroth sugeriu, segurando a rédea do Chocobo com firmeza enquanto desviava de um carrinho de mão. — Assim, já acomodamos o peso maior no fundo dos cestos da sela, e o Chocobo se acostuma com a carga.
— Perfeito. E a barraca de temperos da dona Marta fica bem de frente. Faço isso enquanto você lida com os grãos — Inome concordou, acariciando o bico do Chocobo antes de se afastar alguns passos.
Eles pararam no corredor principal. Sephiroth guiou a ave até a barraca de cereais e parou diante do balcão de madeira. O vendedor, um homem baixinho que espanava as sacas de juta, ergueu o rosto. Seus olhos se arregalaram ao dar de cara com o homem de dois metros de altura, cabelos prateados imensos e postura impecavelmente reta, ladeado por um pássaro que bufava alto.
— Bom dia — Sephiroth cumprimentou, a voz grave, educada e polida. — Gostaria de duas sacas de farinha de trigo e uma de feijões vermelhos, por favor.
O vendedor engoliu em seco, os olhos saltando do rosto sereno de Sephiroth para o tamanho de seus ombros. Ele começou a suar frio instantaneamente.
— B-bom dia, senhor! É p-pra já! — o homem gaguejou, apressando-se em arrastar as sacas pesadas com um desespero cômico. — Com o desconto especial para... clientes novos, tudo fica pela metade do preço!
— Eu não solicitei nenhum desconto — Sephiroth respondeu, arqueando levemente uma sobrancelha, confuso com a generosidade repentina.
— Eu insisto! Considere um presente para... para o seu Chocobo! — o mercador forçou um sorriso nervoso, empurrando as sacas para frente do balcão como se sua vida dependesse daquela venda rápida.
Enquanto isso, a poucos metros dali, Inome conversava animadamente com a senhora da barraca vizinha.
— Dona Marta, bom dia! A senhora ainda tem aquele sabão de coco em barra? A Kether andou sujando as roupas de terra no quintal, e o meu acabou.
— Tenho sim, querida Inome! Acabou de chegar — a senhora respondeu com um sorriso largo, embrulhando o sabão em um papel pardo. — E vou te dar um punhado de alecrim de brinde, as folhas estão lindas hoje.
Lá do alto, ignorada pelas negociações dos pais, Kether balançava as perninhas na sela do Chocobo. Seus olhos verdes curiosos passearam pelo ambiente até fixarem-se na barraca lateral, logo ao lado de onde Sephiroth estava. Havia ali uma pirâmide perfeita de frutas maduras e vibrantes, reluzindo sob o sol. Sem pensar duas vezes, a garotinha inclinou o corpo para o lado e esticou o bracinho, puxando uma fruta vermelha e suculenta bem da base da pilha.
A pirâmide não desabou, mas o movimento chamou a atenção do dono da barraca.
— Ei! O que pensa que está fazendo, moleca?! — o homem esbravejou, batendo a mão no balcão com força. — Solta isso agora! Não é de graça para sair pegando!
O grito áspero fez Kether dar um pulo na sela, encolhendo os ombros e abraçando a fruta contra o peito, com os olhos arregalados de susto. Inome virou o rosto na mesma hora, mas antes que pudesse intervir, Sephiroth já havia se movido.
Com uma tranquilidade assustadora, ele terminou de acomodar a última saca de farinha no cesto do Chocobo e virou-se devagar para a barraca de frutas. Sephiroth caminhou até o homem que havia gritado, sua figura alta projetando uma sombra imensa sobre o balcão.
O mercador, que esbravejava até um segundo atrás, perdeu a voz ao perceber de quem era a filha que ele acabara de repreender. Ele recuou um passo, a cor sumindo de seu rosto ao encarar os olhos felinos de Sephiroth.
Sem alterar o tom de voz, mantendo uma calma cortês, o platinado tirou algumas moedas de Gil do bolso e as colocou delicadamente sobre o balcão.
— Peço desculpas pelo inconveniente — Sephiroth disse mansamente, olhando nos olhos do homem. — Minha filha é pequena e apenas se encantou pelas cores. Nós ficaremos com a fruta.
Ele empurrou as moedas para mais perto das mãos trêmulas do vendedor.
— Pode ficar com o troco pelo susto que ela lhe causou. Tenha um excelente dia.
O vendedor apenas assentiu freneticamente, sem conseguir emitir um único som, enquanto Sephiroth dava as costas e voltava para o lado de Kether, acariciando o joelho da filha para mostrar que estava tudo bem.
Inome se aproximou logo em seguida, observando a situação já contornada pelo marido. Ela ergueu a mão para ajeitar uma mecha de cabelo que havia caído sobre os olhos de Kether, o rosto suavizado por um sorriso maternal que dissipou qualquer resquício de medo no semblante da pequena.
— Você não pode simplesmente pegar as coisas das barracas, mocinha — Inome explicou, a voz mansa, enquanto acariciava a bochecha da filha. — Tudo aqui tem um dono. Quando quiser algo, você precisa pedir para a mamãe ou para o papai primeiro, está bem? Mas preste atenção: não tem nada de errado em querer as coisas ou achar uma fruta bonita. O único problema foi não ter avisado.
Sephiroth assentiu, apoiando a mão grande na lateral da sela do Chocobo, bem ao lado da perninha de Kether, reforçando a segurança e o conforto do momento.
— Sua mãe está certa. A comunicação é a ferramenta mais valiosa que você possui — o platinado aconselhou, o tom grave carregado daquela serenidade didática que ele reservava apenas para ela. — Não há necessidade de esconder seus desejos ou agir às pressas. Basta usar suas palavras e nos dizer o que quer. Nós sempre vamos ouvir você.
Kether piscou os olhos grandes, absorvendo a lição com atenção, e balançou a cabeça afirmativamente. Logo em seguida, cravou os dentinhos na fruta vermelha que ainda segurava contra o peito, sujando o queixo de suco doce quase instantaneamente.
Com o pequeno incidente resolvido, a família retomou seu trajeto por entre os corredores de lona colorida da feira. A manhã avançava, espantando a brisa inicial e trazendo o calor luminoso característico do litoral de Costa del Sol. O imenso Chocobo amarelo seguia com passos firmes e compassados, balançando as penas em um ritmo preguiçoso, perfeitamente habituado ao peso da carga e aos afagos esporádicos que Sephiroth lhe dava.
Os cestos laterais de couro iam enchendo gradativamente. Eles passaram pela seção de raízes, escolhendo cenouras e batatas frescas, compraram uma peça inteira de queijo curado, feixes de ervas aromáticas e até algumas ferramentas novas de jardinagem. A cada nova parada, Sephiroth mantinha sua habitual polidez, ainda completamente alheio ao fato de que sua presença colossal continuava a render os maiores e mais rápidos descontos de todo o mercado. Inome, por sua vez, apenas ria baixinho da dinâmica, carregando os itens mais leves e limpando o rosto melado de Kether com um pano, enquanto os três aproveitavam a tranquilidade rotineira daquele dia ensolarado.
Inome tocou de leve no antebraço de Sephiroth, apontando com a cabeça para o setor de pescados no final do corredor de pedras.
— Quase me esqueci do mais importante, Seph — ela comentou com um sorriso cúmplice. — Ainda temos que entregar a remessa de hoje na peixaria antes que o gelo comece a derreter com esse calor.
Sephiroth parou o Chocobo próximo à barraca de madeira e peixes frescos. Com a facilidade de quem mal sentia o peso do esforço, ele desamarrou as cordas que prendiam a carga lateral e ergueu o pesado barril de carvalho com as duas mãos, pousando-o com cuidado sobre a bancada. Dentro dele, brilhando sobre uma camada espessa de gelo triturado, repousava a pescaria impecável daquela alvorada.
— Bom dia, Boris — Sephiroth cumprimentou com sua habitual reverência calma. — Trouxemos os robalos e os pargos que combinamos. Todos retirados das águas profundas do canal logo no início da manhã.
O velho Boris, um senhor de pele curtida pelo salitre que já negociava com eles ao longo dos três anos em que a família residia em Costa del Sol, ajeitou os óculos na ponta do nariz e inclinou-se sobre o barril. Ele assobiou baixo, admirado com o brilho límpido das escamas e a firmeza dos peixes.
— Céus, rapaz... — o velho elogiou, balançando a cabeça em pura aprovação enquanto examinava os olhos reluzentes dos robalos. — Não sei qual é o seu segredo nesse mar, mas você traz os melhores exemplares de toda a baía. A carne está perfeita. Dá gosto de comprar de vocês.
Kether, ainda empoleirada no alto da sela do Chocobo e com o queixo ligeiramente avermelhado do suco da fruta, debruçou-se sobre o pescoço da ave e encarou o comerciante com a mais pura e límpida sinceridade infantil:
— É que o papai falou hoje cedo que os seus peixes normais têm cara de quem morreu de velhice e cansaço! — ela disparou alegremente, gesticulando com as mãozinhas curtas. — Aí ele pescou esses bem cedinho pro senhor não passar vergonha com os outros vizinhos!
O silêncio caiu como uma âncora pesada sobre a barraca.
O velho peixeiro congelou com um pargo suspenso a meio caminho da tábua, os olhos arregalados, sem saber se ficava ofendido ou se ria da audácia da menina. Inome arregalou os olhos, levando a mão à boca surpresa e sem saber o que falar naquele momento, por conta da audácia da filha. Sua mente pensou em maneiras de dar um sermão nela, mas que não a desrespeitasse lá na hora.

Sephiroth travou. Uma leve quebra em sua postura revelou o embaraço imediato. Ele pigarreou, desviando o olhar para a lona do teto por uma fração de segundo antes de tentar contornar a situação com a maior dignidade que conseguiu reunir:
— Eu... me expressei de forma puramente técnica durante a nossa conversa matinal — o platinado murmurou, a voz grave saindo ligeiramente sem jeito. — Estava apenas ressaltando a importância do frescor imediato na conservação dos tecidos branquiais... Não houve a intenção de desmerecer o seu estoque habitual.
O velho Boris piscou algumas vezes, olhou para a seriedade desconcertada de Sephiroth, depois para a carinha angelical de Kether, e explodiu em uma gargalhada rouca e estrondosa que chamou a atenção de quem passava perto.
— Crianças... elas não deixam escapar absolutamente nada! — o senhor riu, limpando uma lágrima no canto do olho enquanto pegava uma bolsinha de veludo cheia de moedas debaixo do balcão. — Pela sinceridade e pela qualidade indiscutível do peixe, vocês merecem cada Gil.
Ele estendeu o saquinho tilintante. Inome deu um passo à frente e recebeu os Gils nas mãos, sentindo o peso reconfortante das economias crescendo para o sonho da fazenda. Ela abriu um sorriso largo e radiante, agradecendo ao velho comerciante enquanto Sephiroth, ainda discretamente encabulado, conferia as amarras vazias do Chocobo para disfarçar o momento. 
Kether encostou o queixo nas penas macias do Chocobo e soltou um suspiro longo, acompanhado pelo ronco perfeitamente audível de seu pequeno estômago.
— Mamãe... Papai... eu tô com muita fome — a garotinha anunciou, esfregando a barriga com uma das mãos enquanto a outra ainda segurava a rédea da sela. — A gente pode almoçar lá na barraca da Tia Lani? Eu quero comer aquele espetinho de lula grelhada com queijo e os bolinhos doces de coco!
A Tia Lani era uma senhora risonha de Wutai que havia se estabelecido em Costa del Sol há muitos anos. Sua barraca era famosa por misturar os temperos orientais com os frutos do mar frescos da costa, e ela nutria um carinho especial por Kether, sempre guardando os maiores bolinhos de coco para a menina.
Inome terminou de amarrar a bolsinha de veludo com os Gils no cinto e sorriu para a filha, achando a sugestão maravilhosa. Ela se virou para o peixeiro, que ainda guardava o sorriso no rosto.
— Foi um prazer fazer negócios com você hoje, Boris. Até a próxima remessa! — Inome se despediu de forma calorosa.
— E tentaremos não trazer peixes com "cara de cansaço" da próxima vez — Sephiroth acrescentou, com um discreto repuxar no canto dos lábios, fazendo um aceno polido de cabeça.
Boris soltou mais uma risada rouca, acenando de volta.
— Estarei esperando, meus amigos! Vão com a deusa e alimentem bem essa pequena sincerona!
Com a despedida feita, Sephiroth voltou a assumir a rédea principal do Chocobo. Ele olhou para a filha no alto da sela e depois para Inome.
— Acho que é uma excelente ideia almoçarmos por aqui — Concordou, a voz mansa enquanto guiava a ave de volta para o fluxo da feira. — Já resolvemos a venda dos pescados e acomodamos quase todo o peso das compras. O dia está agradável e a comida da senhora Lani é realmente muito boa.
— Sem falar que acabamos de receber, então podemos nos dar a esse luxo hoje! — Inome completou, animada, caminhando lado a lado com o marido. — Espetinhos e bolinhos de coco para o almoço parece o encerramento perfeito para a nossa manhã. Vamos lá visitar a Tia Lani, Kether!
A garotinha deu um gritinho de alegria, batendo palmas no alto do Chocobo, enquanto o imenso pássaro balançava a cabeça e soltava um "Kweeeh!" animado, como se também aprovasse o cardápio.
A barraca da Tia Lani ficava estrategicamente posicionada no final do calçadão de pedra, exatamente onde a feira terminava e a faixa de areia branca da praia começava, permitindo que a brisa constante do mar refrescasse o calor do meio-dia. O toldo de lona listrada era abrigado pela sombra de dois grandes coqueiros, e o cheiro inconfundível de lula grelhada na brasa com as especiarias marcantes de Wutai já dominava o ar muito antes de a família se aproximar.
Assim que o Chocobo estancou o passo perto das mesas rústicas de madeira, Kether não pensou duas vezes. Movida pela fome e pela alegria de ver a senhora risonha de avental colorido acenando por trás do balcão, a garotinha simplesmente se jogou da sela alta da ave, ignorando completamente a altura considerável até o chão.
— Kether, espera! — Inome arregalou os olhos, o instinto materno disparando em puro pânico. Ela correu com os braços esticados, o coração dando um solavanco violento no peito pelo medo terrível de ver a filha dar de cara nas pedras.
Mas Tia Lani já estava mais do que acostumada com o furacão que era Kether. Com uma agilidade invejável, a cozinheira contornou o balcão em um piscar de olhos e aparou a menina no ar com precisão, prendendo-a em um abraço apertado e rodopiando a garotinha enquanto as duas riam alto. Inome parou bruscamente, soltando um suspiro trêmulo de alívio e apoiando a mão no peito para tentar acalmar os próprios batimentos cardíacos antes de se aproximar para dar uma bronca carinhosa na filha.
Enquanto a esposa lidava com o susto e os abraços na entrada da barraca, Sephiroth guiou o Chocobo para a sombra fresca de um dos coqueiros. Com gestos práticos e eficientes, ele desatou as fivelas grossas de couro e retirou os cestos pesados das costas da ave, acomodando a carga com cuidado no chão para que o animal pudesse descansar sem aquele peso absurdo.
Para recompensar o bom comportamento do bicho de aluguel durante a manhã, Sephiroth puxou um maço fresco e vistoso de folhas de Gysahl de dentro de seu alforje. Ele estendeu a palma da mão grande e calosa, observando com um semblante suave o imenso pássaro amarelo bicar a folhagem com entusiasmo, soltando pequenos ruídos satisfeitos de gratidão enquanto o barulho das ondas do mar se misturava com as risadas altas de Kether e Tia Lani logo ao lado.
Tia Lani finalmente colocou Kether no chão, arrumando o vestidinho da menina com um sorriso largo e carinhoso no rosto marcado pelo tempo.
— E então, minha pequena fera das areias? — a senhora perguntou, apoiando as mãos nos joelhos para ficar na altura da garotinha. — Como estão as coisas naquela casa grande? Está lendo bastante os livros de histórias? E escrevendo as letrinhas na areia? Brincando muito?
Kether assentiu freneticamente, os olhos verdes brilhando de empolgação.
— Sim, sim e sim! O papai me ensina as letras e o tio Genesis lê poemas difíceis pra mim às vezes, até eu dormir!
Inome, que finalmente havia recuperado o fôlego após o susto do pulo, aproximou-se e colocou as mãos orgulhosas nos ombros da filha.
— Ela está crescendo muito rápido, Lani — Inome comentou, o peito estufando de orgulho maternal. — Nós até matriculamos a Kether na escolhinha da vila nesta última semana. Ela é a menorzinha da turma, mas tem nos dito que está gostando bastante das aulas.
Kether piscou, olhando para a mãe, e depois voltou a atenção para a cozinheira. Com um ar de extrema confidência, a garotinha se inclinou para frente e colocou as duas mãozinhas em formato de concha ao redor da boca, aproximando-se do ouvido de Tia Lani para contar um segredo de estado. O único problema era que Kether ainda não dominava a arte de sussurrar, e sua voz infantil saiu perfeitamente alta e clara para toda a barraca ouvir:
Tia Lani... é mentira. Eu choro todo dia no banheiro. — ela confessou, com uma expressão de puro sofrimento dramático. — Eu não gosto de lá. Eu só falo que gosto pra mamãe não ficar triste, mas eu queria mesmo era ficar em casa pescando e andando de Chocobo com o papai.
O sorriso de Inome congelou instantaneamente. Uma vermelhidão intensa subiu por suas bochechas enquanto ela arregalava os olhos, completamente sem jeito, olhando em volta para ver quem mais havia escutado aquela confissão trágica que desmoronava toda a sua pose de mãe bem-sucedida na adaptação escolar.
Tia Lani piscou algumas vezes, processando a honestidade brutal da menina, e então soltou uma risada gostosa, daquelas que fazem a barriga balançar. Ela deu um tapinha reconfortante na mão de Inome, que queria enfiar o rosto na areia de tanta vergonha, e voltou-se para Kether com um olhar sábio e acolhedor.
— Ah, meu passarinho... — Lani murmurou, apertando a bochecha de Kether com carinho. — Sair de perto do ninho pela primeira vez é sempre assustador. Quando eu cheguei de Wutai, também chorava escondida querendo voltar. Mas sabe de uma coisa? A escolhinha é como uma grande aventura nova. No começo parece difícil, mas logo você vai encontrar outras crianças que também querem brincar de Chocobo e pescar. E quando você fizer o seu primeiro grande amigo lá, vai ver que a escolhinha pode ser tão divertida quanto a praia.
A senhora deu uma piscadela para a menina e se levantou, limpando as mãos no avental.
— Mas enquanto esse amigo não chega, eu acho que uma garotinha corajosa que protege os sentimentos da mamãe merece o maior espetinho de lula e uma porção extra de bolinhos de coco! O que acha?
Os olhos de Kether se iluminaram como duas Materias brilhantes, e ela concordou com a cabeça repetidas vezes, a tristeza da escolhinha magicamente esquecida diante da promessa do banquete. Inome soltou um suspiro derrotado, mas sorriu, agradecendo mentalmente a Tia Lani por salvar a pátria e a sua sanidade.
Sephiroth terminou de acomodar o Chocobo sob a sombra fresca do coqueiro e se aproximou com seus passos longos e silenciosos. Percebendo o leve constrangimento que ainda mantinha os ombros da esposa tensos pela confissão da filha, ele segurou a mão de Inome com delicadeza, oferecendo um aperto mudo e reconfortante. Ela suspirou, relaxando ao toque dele, e os dois se sentaram nos banquinhos rústicos de madeira alinhados em frente ao balcão.
Kether parou ao lado do banco alto que sobrava, mediu a distância até o assento com os olhos e, percebendo que suas pernas curtas não dariam conta do recado, esticou os dois braços para cima na direção da cozinheira.
— Me coloca lá, Tia Lani? — a garotinha pediu, dando pulinhos insistentes na areia.
Com a facilidade e o carinho de uma avó postiça, Lani contornou o balcão novamente, segurou Kether por baixo dos braços e a ergueu no ar, depositando-a com segurança no banquinho entre os pais.
Enquanto a senhora voltava para trás da grelha, acendendo o fogo para preparar os espetinhos, Inome apoiou os cotovelos no balcão de madeira desgastada pelo salitre, puxando assunto com a familiaridade de anos de convivência.
— E como está o movimento essa semana, Lani? — Inome perguntou, o tom suave e interessado. — Aproveitando, como está a sua filha? Faz um tempo que não a vejo por aqui visitando a barraca.
Lani jogou um punhado de especiarias sobre a chapa quente, enchendo o ar com um aroma delicioso, e deu um sorriso saudoso enquanto ajeitava as lulas nos espetos.
— O movimento tem sido bom, graças à deusa. A temporada de calor sempre traz muitos viajantes para a costa — a senhora respondeu, virando o rosto um pouco para olhá-los. — Já a minha menina... ah, ela está voando alto. Ela se mudou definitivamente para Junon mês passado.
Lani apontou vagamente com a espátula na direção do oceano imenso atrás deles.
— Ela conseguiu uma vaga excelente trabalhando na administração do porto na Cidade Alta. É uma vida muito mais agitada do que o nosso calçadão de areia, mas ela me escreveu dizendo que está muito feliz com a oportunidade e com a independência. O coração de mãe aperta de saudade com ela lá do outro lado do mar, mas a gente cria os filhos para o mundo, não é mesmo?
Lani piscou para Inome e olhou de soslaio para Kether, que batucava alegremente no balcão esperando a comida, antes de soltar um riso baixo.
— Aproveitem bastante essa fase de levá-los para a escolhinha, porque quando a gente pisca, eles já estão atravessando o oceano sozinhos.
Sephiroth ouviu o relato da senhora em silêncio e assentiu devagar. Seus olhos felinos recaíram sobre a figura miúda de Kether, que batucava as mãozinhas no balcão esperando a comida, e sua expressão assumiu uma suavidade profunda.
— É uma forma sábia de enxergar as coisas, Lani — o platinado comentou, a voz grave soando mansa e reflexiva. — O nosso maior desejo é exatamente esse. Queremos ver Kether vencendo na vida, trilhando o próprio caminho e alcançando tudo o que ela almejar, sem amarras.
Inome sorriu, entrelaçando os dedos aos do marido sobre o balcão.
— Com certeza. Queremos que ela voe alto e tenha a liberdade para ser o que quiser — Inome concordou, o olhar transbordando aquele afeto protetor.
Kether, ouvindo a conversa, parou de batucar imediatamente. Ela ergueu o queixo com uma expressão de absoluta seriedade e convicção, os olhinhos verdes brilhando com a certeza inabalável que só uma criança de três anos consegue ter.
— Quando eu crescer, eu vou ser uma princesa pirata que caça tesouros mágicos montada num Chocobo amarelo que voa! — ela decretou em alto e bom som, como se já tivesse todo o seu plano de carreira perfeitamente estruturado.
Inome precisou cobrir a boca com a mão livre para abafar uma risada, enquanto Tia Lani soltava um murmúrio de aprovação lá do fundo da chapa. Sephiroth, por sua vez, não riu. Em vez disso, ele abriu um daquelas pequenos e raros sorrisos que desarmavam qualquer um, esticando a mão para ajeitar uma mecha de cabelo que caía no rosto da filha.
— Uma ambição formidável — Sephiroth pontuou, entrando na lógica dela com o tom de quem analisa uma grande estratégia. — E eu tenho certeza absoluta de que você será a maior princesa pirata de todo o oceano. Mas... você só vai conseguir alcançar isso se for direitinho para a escolhinha todos os dias, sem chorar escondida no banheiro.
Kether franziu a testa, imediatamente desconfiada daquela condição.
— Por quê? Princesas piratas não precisam ir pra escolhinha, papai! Elas ficam no mar!
— Precisam, sim — o platinado rebateu, a calma irrefutável e didática transbordando em cada palavra. — Como você espera conseguir ler os mapas antigos do tesouro ou contar todas as suas moedas de ouro se não aprender as letras e os números primeiro? Um capitão pirata precisa ser muito inteligente para não se perder.
Kether abriu a boquinha para argumentar, mas parou no meio do caminho. Ela olhou para cima, pensou por um instante, e percebeu que a lógica do pai era absolutamente impossível de ser rebatida. Derrotada pelos fatos, a garotinha soltou um suspiro longo, cruzou os bracinhos sobre a mesa e assentiu, aceitando que o sacrifício de ir para a escolhinha seria o preço a pagar pelo seu futuro glorioso nos mares.
O aroma delicioso que subia da chapa finalmente se transformou em realidade quando Tia Lani se aproximou do balcão, equilibrando pratos fartos nas mãos. Ela serviu a todos com generosidade, colocando diante de Inome e Sephiroth porções suculentas de lula grelhada, perfeitamente temperada e acompanhada de legumes dourados. Para Kether, a senhora reservou o prato principal, transbordando com os prometidos espetinhos e uma montanha generosa de bolinhos doces de coco.
— Obrigada, Tia Lani! — Kether exclamou, os olhinhos brilhando de pura empolgação. Sem perder um único segundo, a garotinha avançou sobre a comida, devorando o primeiro bolinho com uma vontade impressionante que fez a cozinheira rir de satisfação.
Sephiroth pegou um dos espetinhos, provando o prato com sua habitual elegância e calma. O contraste do tempero marcante com o frescor do mar era impecável. Ele abaixou a mão, dirigindo um olhar de sincero reconhecimento à senhora.
— Você prepara esse tipo de prato com uma maestria rara, Lani — Elogiou, o tom grave carregado de respeito e polidez. — O equilíbrio das especiarias é absoluto.
Inome concordou prontamente, saboreando a sua própria porção com um suspiro de puro contentamento.
— Ele tem toda a razão. Mesmo quando passamos por Wutai no passado, nós nunca experimentamos nada com um sabor tão incrível assim — Inome comentou, apontando levemente para o prato. — A comida de lá é maravilhosa, mas o seu tempero é simplesmente imbatível. Não chega nem perto.
Lani abriu um sorriso largo e radiante, apoiando as mãos na cintura enquanto observava a família aproveitar a refeição com gosto.
— Ah, mas isso vocês nunca encontrariam nas ruas de Wutai mesmo! — a senhora riu de forma gostosa, com um brilho de puro orgulho nos olhos. — O que vocês estão comendo é uma receita milenar da minha família. Um segredo guardado a sete chaves e passado de mãe para filha há incontáveis gerações, muito antes daquelas barracas de comércio existirem. É a mais pura tradição misturada com a brisa de Costa del Sol!
Lani apoiou os cotovelos no balcão, observando o movimento tranquilo da praia por um momento antes de voltar a atenção para o casal, com os olhos brilhando de curiosidade.
— E por falar em conhecidos que voam alto... no que deu aquele casalzinho que vocês trouxeram para comer aqui um tempo atrás? O rapaz loiro de poucas palavras e a moça bonita dos punhos fortes? — a senhora perguntou, erguendo as sobrancelhas. — Lembro bem dos dois.
Sephiroth não se moveu para responder. Ele apenas deu mais uma mordida perfeitamente polida e calma em seu espetinho de lula, mastigando em silêncio enquanto transferia o olhar felino para Inome, deixando confortavelmente que a esposa assumisse as rédeas daquela atualização.
Inome deu uma risadinha antes de beber um gole de suco.
— Ah, a Tifa e o Cloud! Eles finalmente noivaram — ela explicou, o tom alegre. — Mas estão completamente enrolados com os preparativos do casamento. Não conseguem chegar a um acordo sobre onde vai ser a cerimônia de jeito nenhum. Uma hora a ideia é fazer algo lá em Midgar, depois mudam para Kalm, e outro dia cogitaram até vir casar na praia aqui em Costa del Sol. Estão nesse impasse.
Lani balançou a cabeça de um lado para o outro, estalando a língua no céu da boca com uma desaprovação imediata e típica de avó.
— Ah, mas quanta frescura! Se demorarem muito escolhendo a areia ou a pedra, o fogo apaga e a vontade esfria! — a senhora disparou, com aquela sinceridade cortante e sem filtros. — Jovens de hoje em dia perdem tempo demais pensando em festa. Têm que casar logo! Amarra o laço debaixo de qualquer árvore bonita e pronto, antes que o tempo passe e a paciência de um dos dois acabe primeiro!
Sephiroth parou o espetinho a meio caminho da boca, uma sobrancelha se erguendo diante da franqueza brutal da senhora. Ele soltou um riso baixo e contido, quase imperceptível, enquanto Inome ria de forma visivelmente nervosa e constrangida, esfregando a nuca sem saber exatamente como defender a indecisão dos amigos diante de um conselho tão direto e inquestionável.
Antes que Inome pudesse tentar formular qualquer resposta em defesa de Cloud e Tifa, Kether empurrou o pratinho de madeira sobre o balcão. Interrompendo a conversa dos adultos, a garotinha exibiu a boca toda suja de açúcar e farelo.
— Tia Lani, os bolinhos acabaram! — Kether anunciou em alto e bom som, balançando as perninhas curtas no ar, completamente alheia a qualquer casamento. — Eu quero mais!
Tia Lani soltou uma risada farta diante da exigência imediata da menina, esquecendo completamente os conselhos matrimoniais.
— Para já, minha pequena pirata gulosa! — a senhora respondeu, pegando a escumadeira e depositando mais três bolinhos de coco quentinhos e polvilhados de açúcar diretamente no prato de madeira de Kether.
Enquanto a filha voltava a devorar o doce com entusiasmo, Sephiroth continuava a comer em silêncio e sem pressa. Seus olhos analisaram o espetinho em sua mão, parando em um pedaço de lula perfeitamente grelhado, com as bordas levemente tostadas e concentrando uma quantidade generosa do tempero escuro de Wutai — exatamente o ponto e a proporção de especiarias que ele sabia que Inome adorava.
Sem dizer uma palavra para interromper o momento, ele separou o pedaço na ponta da haste de madeira. Sephiroth inclinou o corpo levemente na direção da esposa, ergueu a mão e ofereceu o bocado diretamente aos lábios dela.
Inome piscou, surpresa por um breve instante com o gesto repentino, antes de abrir um sorriso afetuoso. Ela aceitou a oferta, inclinando-se para comer o pedaço diretamente da mão do marido. O sabor marcante e defumado confirmou o que ele já havia calculado, e ela mastigou com uma expressão de puro deleite, encostando o ombro no braço de Sephiroth em um agradecimento silencioso e carregado de cumplicidade no meio daquele almoço ensolarado.
Lani apoiou a escumadeira na borda da chapa quente e abriu um sorriso largo e aprovador ao presenciar a cena silenciosa entre o casal.
— Estão vendo só? É exatamente disso que eu estou falando — a senhora apontou levemente com a espátula, os olhos brilhando com a sabedoria de quem já viveu muito. — O cuidado diário. Conhecer as manhas e os gostos de quem dorme ao seu lado. É isso que sustenta uma vida a dois, e não a cor das flores no altar da festa.
Ela deu um tapinha no próprio balcão para dar ênfase ao sermão, voltando o alvo de sua franqueza para os amigos ausentes.
— Se a sua amiga de punhos fortes e o rapaz loiro entendessem que o que importa de verdade é ter alguém que separe o melhor pedaço da comida para você sem precisar pedir, já tinham amarrado esse laço e estariam vivendo em paz! Ficam perdendo tempo com besteira!
Enquanto Inome concordava balançando a cabeça, achando graça da sabedoria implacável e direta da cozinheira, Kether engoliu o último bolinho de coco e entrou na conversa. Ela começou com um resmunga-resmunga baixinho e irritado, balançando as pernas curtas e batendo os calcanhares no banco de madeira.
Logo, o murmúrio virou um bico enorme e as mãozinhas sujas de açúcar se cruzaram sobre o peito em um gesto de pura impaciência.
— Eu acho que eles têm que casar logo de uma vez também! — Kether protestou em voz alta, franzindo as sobrancelhas com uma indignação adorável e cheia de razão. — Se eles casarem logo, eles fazem um bebezinho e me dão um priminho da minha idade pra eu brincar! Eu preciso de um pirata ajudante que não tenha tamanho de adulto, e ter que esperar os dois decidirem a festa tá demorando muito!
Inome não aguentou e soltou uma gargalhada cristalina, cobrindo o rosto com as mãos enquanto os ombros sacudiam. O riso de Sephiroth foi mais contido, um som grave e aveludado que escapou de forma genuína, iluminando suas feições.
Ele se inclinou na direção da filha, usando o polegar para limpar um farelo teimoso de açúcar que havia sobrado na bochecha dela, e assumiu um tom manso, entregando o seu melhor olhar de repreensão carinhosa.
— Você está sendo um pouco injusta com seus aliados, pequena corsária — Sephiroth pontuou com uma calma didática, ajeitando a postura da menina no banco. — Esqueceu-se de que você já tem a Marlene? Ela sempre a acompanha nas suas expedições pelo quintal quando vamos a Kalm.
Kether afundou o queixo nas mãos apoiadas no balcão, o bico crescendo ainda mais enquanto ela soltava um longo e dramático suspiro de frustração infantil.
— A Marlene brinca muito pouco comigo! — ela resmungou, balançando as perninhas de forma impaciente. — Ela mora longe, e toda vez ela tem que parar a brincadeira pra ajudar o Tio Barret e a Vó Elmyra com as coisas da casa. Eu queria um ajudante de pirata que morasse mais perto.
Tia Lani riu baixo, apoiando os cotovelos no balcão de madeira para ficar um pouco mais perto da altura da garotinha, os olhos sábios e gentis se fixando no rostinho emburrado de Kether.
— Escute bem uma coisa, passarinho — a senhora começou, a voz carregada daquela paciência acolhedora que só as avós possuem. — Ter alguém que goste de você, mesmo que brinque só um pouquinho de vez em quando, já é um tesouro muito maior do que navegar por esse mar inteiro sozinha. O mundo é grande demais para não ter com quem dividir o peso da âncora. Agradeça sempre por ter a Marlene, porque ter um amigo de verdade, mesmo longe, é mil vezes melhor do que não ter ninguém ao seu lado quando a tempestade aperta.
Kether piscou os olhos grandes, absorvendo as palavras da cozinheira em um silêncio pensativo. O bico indignado diminuiu gradativamente até sumir por completo. Ela olhou para as próprias mãos sujas de açúcar e, no fim, assentiu devagar, percebendo que a sabedoria de Tia Lani, assim como seus bolinhos de coco, era impossível de ser refutada.
Lani apoiou o queixo em uma das mãos, observando a expressão pensativa de Kether antes de desviar o olhar para o casal com uma curiosidade genuína.
— E quantos anos essa Marlene tem agora? — a senhora perguntou, tentando puxar na memória a imagem da menininha que Tifa costumava carregar.
— Ela completou oito anos recentemente — Sephiroth respondeu de forma pontual, a voz calma enquanto terminava seu almoço.
Inome assentiu, sorrindo ao lembrar das últimas visitas que haviam feito à cidade vizinha.
— Oito anos, e já entrou com tudo naquela fase de querer ser mocinha — Inome comentou, rindo de forma suave. — A última vez que fomos a Kalm, ela e a Tifa passaram a tarde toda falando sobre maquiagem, testando brilho labial, arrumando o cabelo uma da outra... estão adorando essas coisas de garotas.
Kether, que ouvia tudo com um bico teimoso, balançou as perninhas e cruzou os braços novamente, expressando seu total descontentamento com a mudança de interesses da amiga.
— Mas brincar de maquiagem é muito chato! — a garotinha decretou, torcendo o nariz com indignação. — Elas só ficam lá sentadas passando coisas coloridas no rosto. A Marlene devia tá caçando tesouro na lama comigo!
— Ei, não fale assim, a Tifa é uma tia maravilhosa e sempre tenta incluir você nessas brincadeiras quando vamos para lá — Inome ponderou, afagando os cabelos da filha para tentar amenizar a frustração.
Kether apenas resmungou algo ininteligível sobre piratas não precisarem de brilho labial, e sim de espadas, afundando o queixo nas próprias mãos sujas de açúcar.
Sephiroth trocou um olhar divertido com Lani e, com sua habitual serenidade, defendeu a escolha de influências da filha de Barret.
— É natural que os interesses dela mudem com o tempo — o platinado argumentou mansamente, olhando para Inome e Kether. — E, francamente, ter Tifa como principal influência durante o crescimento é um privilégio. Ela é disciplinada, forte e tem um caráter inabalável. Marlene está em excelentes mãos aprendendo com ela.
— Nisso o seu pai tem toda a razão, passarinho — Lani concordou, apontando a escumadeira na direção de Kether com um sorriso sábio. — A moça dos punhos fortes é um exemplo e tanto de mulher. Se a sua amiguinha crescer com metade da fibra da Tifa, ela vai poder caçar qualquer tesouro que quiser no futuro, com ou sem maquiagem!
O olhar de Lani ganhou um brilho nostálgico enquanto ela limpava as mãos no avental colorido, apoiando-se no balcão de madeira.
— Oito anos é uma fase maravilhosa — a senhora comentou, a voz carregada de um carinho distante. — Lembro como se fosse ontem de quando a minha menina completou essa idade. Ela passava a tarde inteira desfilando pela barraca com os meus tamancos grandes demais para os pés dela, roubava o meu pó de arroz e tentava ajudar a virar os peixes na grelha, crente de que já era uma mulher feita. É a época em que elas começam a querer desbravar o próprio mundo.
Kether, que até então estava imersa em seu descontentamento com as brincadeiras de maquiagem, parou de balançar as pernas. Ela olhou para as próprias mãozinhas, soltou o rosto sujo de açúcar e ergueu a mão direita na direção de Lani, esticando o polegar, o indicador e o dedo médio.

— E três anos, Tia Lani? — a garotinha perguntou, mostrando os três dedinhos melados com uma expressão de pura curiosidade. — Três anos também é uma fase legal pra desbravar o mundo?
Tia Lani soltou uma risada tão gostosa que seus ombros sacudiram. Ela se inclinou sobre o balcão e tocou a ponta do nariz de Kether com o dedo indicador.
— Três anos? Ah, minha pequena, três anos é a idade mais fantástica e perigosa de todas! — a senhora exclamou com entusiasmo. — É a idade dos furacões, das perguntas que deixam os pais de cabelo em pé e das princesas piratas que devoram todos os bolinhos de coco da ilha! Com três anos, o mundo inteiro é um mapa do tesouro esperando para ser descoberto!
A resposta acendeu os olhinhos verdes de Kether, que abriu o maior sorriso do dia, sentindo-se perfeitamente validada em sua vocação corsária.
Observando a cena em silêncio, Inome e Sephiroth trocaram um olhar cúmplice. Inome encostou a cabeça de leve no braço do marido, os olhos brilhando de puro derretimento diante da fofura da filha exibindo os três dedinhos sujos. Sephiroth, com sua postura, apenas retribuiu o olhar da esposa com um sorriso sutil e terno, o peito aquecido pela certeza de que, de todas as fases da vida, aquela pequena pirata de três anos era, sem dúvida, o maior tesouro que já haviam conquistado.
O almoço chegou ao fim com os pratos de madeira completamente limpos e Kether ostentando um sorriso satisfeito, com o rosto e as mãos devidamente limpos por Inome. Sephiroth deixou os Gils do pagamento sobre o balcão junto com uma gorjeta generosa, fazendo um leve aceno com a cabeça para agradecer a Lani pela refeição impecável. Inome abraçou a senhora com carinho, prometendo voltar em breve com mais histórias da adaptação da filha. Com Kether novamente empoleirada e segura na sela do Chocobo, a família se despediu da brisa do mar e seguiu o caminho de pedras de volta para casa, sob o sol agradável do início da tarde.
Assim que cruzaram o portão de casa, a rotina prática tomou conta. Sephiroth guiou a imensa ave amarela até a sombra fresca do quintal e começou a desatar as grossas fivelas de couro, retirando os pesados cestos de carga abarrotados de grãos, farinha e raízes com a facilidade de sempre. Inome logo se juntou a ele, recolhendo os pacotes menores, o sabão e as ervas frescas para organizar diretamente na despensa. Os dois trabalhavam em uma sintonia silenciosa e ágil, cruzando o quintal até a cozinha para esvaziar tudo o que haviam comprado na feira.
Enquanto os pais se ocupavam com o trabalho braçal da despensa, lá no fundo do quintal, uma importante reunião de tripulação acontecia.
Kether havia escalado a grande mesa rústica de madeira e estava sentada de pernas cruzadas, exatamente na altura dos olhos do Chocobo. O pássaro, agora livre do peso das compras e visivelmente relaxado, descansava com a cabeça abaixada bem perto da garotinha, prestando uma atenção quase humana a ela.
— Então o plano é o seguinte... — Kether sussurrava com a maior seriedade do mundo, franzindo a testa e desenhando coisas imaginárias na madeira da mesa com o dedo indicador. — Primeiro a gente vai cavar um buraco bem fundo lá na areia. Depois, a gente pega os mapas da escolhinha e esconde as moedas de ouro. E se alguém tentar roubar o nosso tesouro, você faz cara de mau e bica o bumbum deles. Entendido?
O imenso pássaro amarelo piscou os olhos escuros, balançou a cabeça de cima para baixo de forma perfeitamente sincronizada e soltou um murmúrio grave e cúmplice:
Kweeeh.
— Isso mesmo, marujo. Perfeito — a garotinha assentiu, esticando a mãozinha para dar um tapinha de aprovação nas penas do bico dele. — A gente vai ser os piratas mais perigosos de Costa del Sol, só não conta pra mamãe senão ela não deixa a gente ir.
Apoiados na bancada da cozinha, Sephiroth e Inome observavam a cena através da janela aberta, aproveitando o momento de tranquilidade para fazer uma breve pausa e beber um copo de água fresca.
Sephiroth acompanhava com os olhos a gesticulação animada da filha, que continuava discursando seus planos de dominação marítima para o pássaro atento. Ele deu um gole lento na água, abaixou o copo e soltou um suspiro brando, o tom grave carregado de um fascínio genuíno e afetuoso.
— A energia dela beira o inesgotável — Sephiroth comentou, encostando o quadril na bancada. — É impressionante. Essa pequena consegue me deixar fisicamente mais exausto em uma única manhã do que qualquer treinamento de resistência rigoroso que eu já tenha enfrentado na vida.
Inome não aguentou e soltou uma risada cristalina, encostando a cabeça no ombro largo do marido enquanto assistia à reunião de tripulação no quintal.
— E olhe que o dia ainda está só na metade, querido — ela brincou, acariciando o braço dele com um sorriso divertido. — Para conseguirmos fazer ela gastar o resto dessa bateria e finalmente tirar o sono da tarde, nós ainda temos que ajudá-la a cavar o fosso do forte de areia na praia, apostar uma corrida até a beira d'água fugindo de caranguejos imaginários e, claro, ler pelo menos três capítulos daquele livro de monstros marinhos. Boa sorte, marujo.



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