O sol da tarde começava a dourar as areias de Costa del Sol. Na beira da água, Kether segurava um pedaço de madeira reto, trazido pela maré. Com as perninhas afastadas e o rosto franzido em uma expressão de concentração, ela tentava imitar os movimentos do pai.
Sephiroth, vestindo uma camisa leve de linho, estava agachado atrás dela. Sua atenção estava inteiramente voltada para ajustar os dedinhos da filha no graveto.
— Mantenha a base firme, Kether — ele orientou, a voz grave soando mansa e didática. — A força não vem dos braços, vem do seu centro. Respire.
A garotinha respirou fundo e deu um golpe no ar. O movimento a desequilibrou para trás, mas Sephiroth já tinha a mão posicionada nas costas dela, estabilizando-a instantaneamente com um sorriso sutil.
Na varanda da casa, Inome observava a cena, rindo baixinho da seriedade do treinamento. Atrás dela, a mesa de madeira já estava farta, coberta com pães frescos, bolo e café recém-coado.
— A espada de madeira já pode descansar um pouco! — Inome gritou da varanda. — O café da tarde tá na mesa!
Kether largou a arma improvisada na areia e correu na direção da casa. Sephiroth a seguiu a passos tranquilos.
Quando entraram na varanda, a mesa já tinha um terceiro ocupante. Genesis estava sentado em uma das cadeiras de vime, usando roupas civis e segurando uma xícara de chá. Ele agora era uma visita frequente, tendo encontrado seu espaço naquela calmaria.
Sephiroth sentou-se ao lado de Inome, deixando um beijo carinhoso no topo da cabeça da esposa antes de puxar uma fatia de bolo para Kether. Inome servia o café, Genesis divagava sobre a temperatura da água para infusão, e Sephiroth apenas ouvia, desfrutando da presença de sua família.
Foi então que Kether, com as bochechas sujas de glacê, olhou para a mãe.
— Mamãe... o menino lá da vila tava brincando com o irmãozinho dele na praia.
A mão de Inome parou no meio do caminho até a xícara. O sorriso sumiu.
— É mesmo, filha? — ela respondeu devagar.
Kether engoliu o bolo e continuou:
— Eu também quero um irmãozinho. Pra treinar espada de pau comigo. A gente pode ter um?
O silêncio caiu pesado sobre a mesa.
Para Kether, era só um pedido por um companheiro de brincadeiras. Mas, na mente de Inome, a palavra acionou um botão de pânico adormecido. Um frio fantasma subiu pela espinha. Por um milésimo de segundo, a imagem da caverna gélida, o parto forçado e o terror absoluto de quase perder a filha passaram como um relâmpago. Inome engoliu em seco, piscando rápido para espantar a sombra, e forçou a expressão a suavizar.
— Meu amor... — Inome começou, a voz mansa, esticando a mão por cima da mesa para acariciar os fios brancos da garotinha. — A mamãe já tem tudo o que precisa no mundo só com você. Por que você quer tanto um irmãozinho agora? Logo mais o tio Angeal te traz um primo, o tio Genesis também pode ter um filho um dia... E a Marlene já vem brincar com você no fim de semana, esqueceu?
Kether franziu o narizinho, balançando as pernas sob a cadeira.
— Mas a Marlene não mora aqui todo dia. E ela prefere brincar de casinha. Eu quero alguém pra lutar na areia comigo de pijama!
Sephiroth, que conhecia cada sombra do coração da esposa e lembrava com exatidão do horror daquele dia, escorregou a mão por baixo da mesa, entrelaçando os dedos nos de Inome para ancorá-la. Ele se inclinou levemente para frente, olhando para a filha com uma doçura que desarmaria qualquer um.
— Kether — ele a chamou, a voz grave, porém transbordando uma ternura e paciência infinitas. — O dia em que você nasceu foi o dia mais feliz das nossas vidas, mas a sua mãe precisou ser muito valente. Ela se machucou de verdade para que você pudesse estar aqui conosco hoje, em segurança. Nós a amamos demais para deixar que ela sinta aquela dor de novo, entende? Você sozinha já preenche toda a nossa casa e o nosso coração.
A garotinha piscou os grandes olhos verdes, absorvendo a explicação cuidadosa do pai. Ela suspirou, meio conformada, mas ainda frustrada com a falta de um parceiro de treino. Cruzou os bracinhos, fez um bico adorável e olhou ao redor da mesa.
Os olhos dela pararam em Genesis.
Ele estava com a xícara a milímetros dos lábios, assistindo à cena com um leve sorriso de diversão.
— Tio Genesis... — Kether chamou, a vozinha manhosa.
— Diga, pequena.
— Se o papai e a mamãe não podem me dar um irmãozinho... você não pode arrumar um priminho logo pra mim? Assim a gente brinca na areia.
Genesis engasgou.
Ele inalou o chá quente no susto, largando a xícara no pires com um estalo alto enquanto tossia descontroladamente. O homem estava vermelho, com os olhos lacrimejando, tentando recuperar o fôlego sob o olhar pidão da criança.
Inome caiu na gargalhada. A tensão sumiu de seu corpo em um segundo, substituída por lágrimas de tanto rir da cara de choque do amigo. Sephiroth soltou um riso baixo, apoiando o queixo na mão enquanto observava Genesis lutar pela própria dignidade.
— Um... priminho? — Genesis conseguiu balbuciar, limpando a boca com o guardanapo de forma frenética. — Minha jovem, a poesia do meu destino não contempla absolutamente nenhum capítulo envolvendo fraldas!
Kether tombou a cabecinha para o lado, sem entender o pânico dele.
— Você não sabe brincar de espada de pau, tio Genesis? Eu posso te ensinar.
Inome riu ainda mais alto, encostando a cabeça no ombro de Sephiroth, que a abraçou de lado com um sorriso tranquilo.
Genesis limpou a garganta, ajeitando a gola da camisa com a dignidade que lhe restava após a crise de tosse. Ele encostou as costas na cadeira de vime e cruzou as pernas, adotando aquela sua clássica postura nobre.
— Eu já fui um dos maiores lutadores que este mundo já viu, pequena Kether. Um verdadeiro mestre com a lâmina — ele explicou, gesticulando com a mão livre com sua teatralidade de sempre. — Mas até os maiores guerreiros precisam saber a hora exata de pendurar a espada e simplesmente descansar. O campo de batalha já não é mais o meu palco.
Kether franziu o narizinho, claramente pouco impressionada com a desculpa.
— Descansar é chato — ela retrucou, apoiando as mãozinhas na mesa e inclinando o corpo para a frente. — Se você não luta mais, o que você faz o dia todo, além de tomar chá?
Inome teve que morder o lábio inferior para não soltar outra gargalhada, enquanto Sephiroth apenas ergueu uma sobrancelha, esperando pacientemente para ver como o amigo sairia daquela emboscada infantil.
— Há muitas formas de se divertir que não envolvem me encher de hematomas com um pedaço de pau — Genesis sugeriu, abrindo um sorriso charmoso e persuasivo. — Nós podemos jogar bola na areia... ou eu posso lhe apresentar o vasto mundo da literatura. Que tal lermos juntos? Eu conheço histórias incríveis.
Kether tombou a cabeça, ainda desconfiada.
— Livro não tem graça. Não dá pra correr.
— Ah, é aí que você se engana — Genesis retrucou, inclinando-se na direção dela, diminuindo o tom de voz como se fosse contar um grande segredo. — E se eu lhe contar a lenda do Rei dos Moogles que vivia na floresta escondida? Ou melhor... a história do gigantesco Chocobo Dourado que era tão rápido, mas tão rápido, que conseguia correr por cima das águas do oceano sem afundar?
Os grandes olhos verdes de Kether brilharam na mesma hora. A menção aos chocobos sempre funcionava.
— O Chocobo Dourado? Ele corre na água de verdade?
— Mais rápido que o vento — Genesis confirmou, satisfeito por ter reconquistado a atenção dela sem precisar entrar em um combate corpo a corpo. — Se você terminar o seu bolo, eu mesmo busco o livro na estante e leio a história toda para você lá na areia, usando as minhas melhores vozes teatrais. O que me diz?
Kether não pensou duas vezes. Ela pegou o garfo e voltou a devorar a fatia de bolo com uma pressa adorável, balançando as perninhas de empolgação.
Arrancando sorrisos aliviados dos adultos, Genesis trocou um olhar cúmplice com Sephiroth e Inome. Ele ergueu a xícara de chá em um brinde silencioso à sua própria diplomacia e à calmaria daquela tarde. A paz, afinal, exigia suas próprias táticas de sobrevivência.
Sephiroth observou a interação com um aceno contido, apoiando os antebraços sobre a mesa.
— A leitura é, de fato, fundamental — Pontuou, a voz tranquila e didática. — O conhecimento molda e afia a mente de forma muito mais profunda do que qualquer combate físico.
Inome concordou prontamente, balançando a cabeça de forma afirmativa enquanto dava uma mordida generosa em sua fatia de bolo, murmurando um som de aprovação com a boca levemente cheia.
Assim que Kether engoliu a última migalha do prato, ela simplesmente pulou da cadeira. Ignorando por completo a promessa de Genesis de que ele mesmo buscaria o exemplar com suas "vozes teatrais", a garotinha saiu correndo em disparada para o interior da casa, os pezinhos descalços batendo contra o assoalho de madeira rumo à estante da sala.
Aproveitando a ausência repentina da pequena, Genesis relaxou a postura. Ele abaixou o tom de voz, inclinando-se levemente sobre a mesa com um olhar de curiosidade genuína, despido de qualquer cobrança.
— Falando com seriedade agora... — o poeta começou, mexendo a colher em sua xícara. — Eu não pretendo ser indelicado, Inome, perdoe-me a curiosidade. Vocês são pais excepcionais... o trauma de tudo o que aconteceu foi tão irreversível a ponto de descartarem a ideia de vez?
Inome abaixou o garfo. Ela soltou um suspiro longo, a leveza da brincadeira anterior cedendo espaço a uma honestidade crua e vulnerável.
— Só de cogitar a possibilidade, Genesis... eu sinto meu peito fechar e começo a entrar em pânico — ela confessou, a voz caindo para um sussurro tenso. — Não é falta de amor ou falta vontade de ter uma casa cheia, é medo puro. A lembrança da caverna, da dor, de não saber se ela ia sobreviver depois que aquele monstro a levou... eu travo. Eu simplesmente não consigo.
Sephiroth, que acompanhava cada oscilação emocional da esposa, escorregou a mão pelas costas dela, fazendo um carinho firme e reconfortante para dissipar o fantasma do pânico que começava a rondá-la.
— Eu não me importaria de ter mais filhos — ele comentou com sua franqueza habitual, o olhar brilhante e sereno focando no rosto de Inome com uma compreensão absoluta. — Mas eu entendo perfeitamente a Inome. E a paz e a segurança dela sempre estarão acima de qualquer outro desejo.
Genesis suavizou a postura, o tom teatral dando lugar a uma sinceridade genuína enquanto olhava para Inome.
Genesis suavizou a postura, o tom teatral dando lugar a uma sinceridade genuína enquanto olhava para Inome.
— Você não precisa carregar esse medo sozinha, Inome — Genesis disse baixinho, ajeitando o guardanapo sobre a mesa. — E Sephiroth, se um dia vocês decidirem que o coração abriu espaço para mais alguém... conte comigo. Eu ajudo a cuidar de vocês e do bebê, sem hesitar.
Inome deu uma risadinha leve, o pânico que há pouco oprimia seu peito dissipando-se com o carinho do amigo. Ela negou com a cabeça de forma suave, brincando com a borda de seu prato.
— Não precisa se preocupar tanto, Genesis... — Inome comentou, abrindo um sorriso terno. — Eu não descarto a ideia de ter outro filho no futuro, sabe? Mas acho que, se acontecer, eu prefiro adotar. Não gerar de novo.
Sephiroth assentiu em silêncio, compreendendo perfeitamente o limite e a escolha da esposa, quando o som de passos apressados e tropeços no assoalho cortou a conversa. Kether disparou de volta para a varanda, segurando um livro de capa grossa e estampada com ilustrações antigas. Ela ignorou as cadeiras e subiu direto, ajeitando-se com tudo no colo de Genesis, abrindo o livro pesado bem no meio do peito dele.
Sephiroth ergueu uma sobrancelha, observando a cena com um misto de diversão e firmeza paternal, antes de direcionar o olhar para a filha.
— Preste muita atenção nas palavras e na leitura, Kether — Instruiu, a voz grave e calma. — Aprender a ler com atenção é o primeiro passo para dominar qualquer caminho que você escolher trilhar.
Genesis ajeitou o livro sobre os joelhos, pigarreou para limpar a garganta e assumiu o tom mais imponente e teatral que conseguiu conjurar, embora o brilho divertido em seus olhos traísse a pose.
— "E então," — ele começou, arrastando as sílabas para dar ênfase — "o majestoso Rei dos Moogles ergueu seu pequeno cetro de luz..."
Ele pausou, deslizando o dedo indicador sobre as letras cursivas na página amarelada, parando exatamente sob uma palavra um pouco maior.
— Tente ler esta aqui, pequena guerreira. Junte as letras com calma.
Kether franziu o nariz, debruçando-se sobre o peito de Genesis para enxergar melhor, e acompanhou a ponta do dedo dele com atenção.
— M-mo... Moogle! — ela exclamou, vitoriosa, balançando as pernas de empolgação.
— Brilhante! Absolutamente brilhante! — Genesis sorriu largo, virando a página com uma dramaticidade calculada antes de retomar a epopeia com ainda mais entusiasmo.
Enquanto a voz aveludada do poeta preenchia a varanda com contos de florestas escondidas e criaturas mágicas, Inome e Sephiroth levantaram-se em um acordo silencioso. Sem pressa, os dois começaram a recolher as xícaras vazias e os pratos esquecidos sobre a mesa de madeira. Quando Inome esticou o braço para pegar a travessa de bolo, Sephiroth segurou a borda da louça ao mesmo tempo, fazendo com que os dedos dos dois se tocassem.
O platinado ergueu o olhar para a esposa, os olhos refletindo os tons quentes de laranja e violeta que agora tomavam conta do céu. Ele recolheu os pratos com uma das mãos e, com a outra, puxou Inome delicadamente pela cintura, deixando um beijo demorado e carinhoso em sua têmpora.
Ao fundo, o som manso das ondas quebrando na areia misturava-se perfeitamente com a risada encantada de Kether e a narração empolgada de Genesis. Apoiados um no outro, Inome e Sephiroth apenas observaram o sol mergulhar devagar no oceano, selando com tranquilidade mais um dia de paz.
A noite finalmente caiu, trazendo um frescor agradável para a casa e substituindo a brisa quente do oceano. No quarto da pequena, Genesis ajeitou o lençol macio sobre os ombros de Kether. A garotinha havia adormecido antes mesmo que o Rei dos Moogles chegasse ao meio de sua jornada na floresta. Com um cuidado silencioso que contrastava com sua habitual postura teatral, o poeta depositou um beijo leve na testa da criança e fechou a porta do quarto sem fazer o menor ruído.
A noite finalmente caiu, trazendo um frescor agradável para a casa e substituindo a brisa quente do oceano. No quarto da pequena, Genesis ajeitou o lençol macio sobre os ombros de Kether. A garotinha havia adormecido antes mesmo que o Rei dos Moogles chegasse ao meio de sua jornada na floresta. Com um cuidado silencioso que contrastava com sua habitual postura teatral, o poeta depositou um beijo leve na testa da criança e fechou a porta do quarto sem fazer o menor ruído.
Ao caminhar pelo corredor até a sala de estar, ele encontrou Sephiroth e Inome sentados confortavelmente no tapete felpudo, recostados no sofá. Sobre a mesinha de centro de madeira, uma caixa de papelão exalava o cheiro inconfundível de queijo derretido e molho de tomate. Pizza — uma das poucas heranças culinárias de Midgar que realmente valia a pena ser preservada no resto do mundo.
— A pequena fera foi domada pelo sono — Genesis anunciou baixinho, puxando uma almofada para se sentar no chão junto a eles. Ele alcançou uma fatia, servindo-se sem qualquer cerimônia.
Sephiroth olhou para o amigo. A luz fraca do abajur desenhava contornos suaves no rosto do platinado, destacando a tranquilidade absoluta em seus traços.
— Estou feliz que tenha voltado, Genesis — Sephiroth comentou, a voz grave carregando uma honestidade simples e direta, livre do peso das antigas armaduras. — Ter você por perto faz bem para nós.
Genesis parou a fatia de pizza a centímetros da boca, os olhos fixos no platinado por um instante. Um sorriso genuíno, despido de ironias, surgiu em seus lábios antes que ele desse uma mordida.
— Eu também estou feliz por estar aqui. A calmaria tem os seus encantos — ele admitiu após engolir, apoiando o braço no joelho flexionado. — Antes de descer para Costa del Sol,. conversei bastante com o Angeal... e acabei conhecendo a pequena Marlene.
Ele balançou a cabeça devagar, fechando os olhos como se estivesse processando um grande cansaço existencial, e soltou um suspiro dramático.
— Tantas crianças... — Genesis murmurou, esfregando as têmporas com a ponta dos dedos. — Pela deusa. É como se a Vanguarda inteira tivesse se transformado em um berçário.
Inome não conseguiu se conter. Ela jogou a cabeça para trás, soltando uma risada gostosa que ecoou pela sala, quase engasgando com o próprio pedaço de pizza.
— Pode ir se acostumando com a ideia. — Inome provocou, encostando a cabeça no ombro de Sephiroth com um sorriso largo. — Você fugiu da guerra, sobreviveu à degradação e encontrou a paz... só para descobrir que o seu verdadeiro destino e o seu maior legado na terra sempre foi ser o titio oficial da turma.
Genesis revirou os olhos com falsa indignação, mas o sorriso de canto o traiu instantaneamente. Naquela sala iluminada a meia-luz, dividindo uma pizza e cercado por aqueles que amava, ele soube que, no fundo, não trocaria aquele destino por epopeia nenhuma.
Mastigou o último pedaço de sua fatia de pizza e encostou as costas no sofá, cruzando os braços de forma contemplativa. O tom teatral não havia sumido, mas agora carregava uma melancolia leve e pacífica.
— Se o meu destino agora é conviver com seres que representam a mais pura inocência deste mundo... que assim seja — o poeta murmurou, o olhar perdido no reflexo morno do abajur. — Há uma certa beleza inegável em observar a vida desabrochar do zero, sem as antigas guerras. Talvez seja exatamente essa a poesia que me faltava.
Sephiroth assentiu devagar. Ele apoiou os antebraços nos joelhos, a expressão serena demonstrando o quanto ele mesmo vinha refletindo sobre aquilo desde que Kether havia nascido.
— Eu tenho me surpreendido constantemente — o platinado confessou, a voz grave e mansa preenchendo a sala. — Nós passamos a vida acreditando que tínhamos o controle sobre tudo, mas essas crianças têm tanto a nos ensinar. Observar a Kether descobrir o mundo todos os dias me faz perceber que a infância é, sem dúvida, a época mais valiosa e insubstituível na vida de uma pessoa.
Ele falava com a propriedade silenciosa de alguém que teve essa mesma fase roubada por laboratórios e treinamentos, valorizando cada segundo que podia garantir para a filha.
Inome sorriu com a confissão, o peito aquecido pela sensibilidade do marido. Inclinando-se no tapete, ela deixou um beijinho estalado e carinhoso na bochecha de Sephiroth, encostando a cabeça no ombro dele logo em seguida antes de dar mais uma mordida em sua pizza.
— É a fase mais mágica mesmo — Inome concordou, mastigando devagar enquanto uma lembrança antiga iluminava seu rosto. — Antes do meu pai sofrer aquele acidente com o Behemoth e eu ter que assumir a vaga dele na Shinra... eu trabalhei um bom tempo como babá lá nas áreas residenciais do Setor 5.
Ela olhou para os dois, o sorriso transbordando uma nostalgia boa.
— Meu coração simplesmente se enchia de alegria todos os dias. Ver aqueles bebês tão pequenos e curiosos, tropeçando, aprendendo a falar, tentando entender tudo o que existia ao redor deles... É uma energia que renova a gente. Acho que foi por isso que eu sempre quis ter a nossa.
Sephiroth pegou mais uma fatia da caixa, balançando a cabeça de forma quase imperceptível.
— A curiosidade dela parece não ter limites — o platinado comentou, voltando o olhar para Genesis. — Kether pergunta sobre absolutamente tudo que vê. Desde o porquê do oceano fazer barulho até a anatomia de um grão de areia.
Genesis soltou uma risada polida, apoiando o cotovelo no braço do sofá enquanto observava o amigo.
— E me diga, o grande Sephiroth, detentor de tanto conhecimento e estratégia, sabe a resposta para todas essas indagações filosóficas de uma criança de três anos?
Inome negou com a cabeça antes mesmo que o marido pudesse responder. Ela limpou o canto da boca com um guardanapo e encostou-se um pouco mais nele, os olhos brilhando de diversão.
— Para ser bem sincera, na maior parte do tempo eu só fico olhando e deixo ele se virar sozinho com as respostas — ela confessou, com um sorriso travesso. — É muito fofo ver ele tentando explicar a física do mundo para ela com aquela seriedade toda. Eu simplesmente não consigo interromper.
Sephiroth riu. Foi um som baixo, genuíno e descontraído, enquanto olhava para a esposa com uma falsa indignação.
— Eu não esperava que você fizesse isso de propósito, Inome. Eu realmente acreditava que você estava ocupada com outras tarefas nessas horas.
Genesis ergueu sua fatia de pizza no ar, como se fizesse um brinde improvisado àquela dinâmica.
— A verdadeira tática de guerrilha, meu amigo — o poeta comentou, o sorriso de canto denunciando o quanto estava se divertindo com a cena. — Ela joga você direto na linha de frente das perguntas impossíveis enquanto assiste tudo do conforto do camarote. Uma estratégia brilhante da parte dela.
Inome deu mais uma risadinha, acomodando-se melhor contra o marido antes de voltar o olhar para o amigo.
— E falando nisso... — Inome perguntou, com um brilho curioso e divertido nos olhos. — Ela já te fez alguma daquelas perguntas difíceis enquanto nós dois não estávamos olhando?
Genesis suspirou de forma arrastada, balançando a cabeça em uma encenação de derrota.
— Apenas hoje, no exato milésimo de segundo em que a coloquei no berço — ele respondeu, erguendo levemente as sobrancelhas. — Ela me olhou por baixo das cobertas e insistiu, mais uma vez, para que eu movesse os meus contatos e pedisse um irmãozinho para ela. A persistência daquela menina é algo formidável.
Inome e Sephiroth riram abertamente. A teimosia de Kether parecia inesgotável quando ela colocava uma ideia na cabeça. Mas, à medida que a risada ia diminuindo, a expressão de Inome suavizou, tornando-se mais reflexiva. Ela virou o rosto para Sephiroth, o sorriso calmo ainda nos lábios, mas o olhar carregando uma certeza morna e profunda.
— Falando sério, Seph... — Inome murmurou, a voz mansa, deslizando a mão para tocar o braço dele. — Talvez seja a hora de começarmos a visitar alguns orfanatos.
O olhar de Sephiroth se iluminou. Antes que ele pudesse dizer qualquer palavra, Genesis endireitou a postura no tapete, visivelmente entusiasmado com o rumo da conversa.
— É uma decisão esplêndida! — o poeta declarou, o sorriso largo e sincero quebrando qualquer resquício de sua habitual pose aristocrática. — Vocês certamente encontrarão uma criança maravilhosa, uma companheira perfeita para dividir as brincadeiras de espada e as histórias na areia com ela.
Sephiroth cobriu a mão de Inome com a sua, acariciando os nós dos dedos dela com aquela segurança e devoção de sempre. Ele conhecia melhor do que ninguém o que significava crescer no vazio de um laboratório, sem o calor de um lar. Ele olhou para Genesis, e depois para a esposa, a paz absoluta refletida em suas pupilas.
— Qualquer criança que precise de uma família... e que demonstre isso para nós, será acolhida — o platinado afirmou, a voz grave transbordando uma convicção inabalável e paternal. — Eu a adotarei sem pensar duas vezes.
Genesis correu os olhos pela sala aconchegante, observando os detalhes simples da casa de praia antes de voltar sua atenção para o casal no tapete. Ele apoiou o cotovelo no joelho, um sorriso nostálgico curvando seus lábios.
— E aquele velho sonho da fazenda de chocobos? — o poeta questionou, erguendo levemente a sobrancelha. — Com o crescimento da família e esses novos planos de adoção, acredito que já passou da hora de vocês comprarem uma, não acham?
Sephiroth soltou uma risada leve e descontraída, balançando a cabeça devagar.
— É exatamente por isso que ainda moramos aqui na praia, Genesis. Uma fazenda de chocobos custa uma quantidade exorbitante de Gils — o platinado explicou, o tom sereno, mas carregado de uma convicção absoluta. — E eu me recuso a trabalhar como mercenário para juntar esse dinheiro mais rápido. Acordar cedo, pescar e vender peixes na vila está ótimo para mim. Eu jamais empunharei a Masamune para matar de novo.
Inome sorriu, os olhos brilhando de orgulho e amor pela escolha do marido. Ela deslizou os dedos sobre a mão de Sephiroth, acariciando a pele dele de forma terna antes de se voltar para o amigo, com uma expressão animada e convidativa.
— E você não quer entrar nessa empreitada com a gente, Genesis? — Inome propôs, acomodando-se melhor no tapete. — Nós podemos juntar Gils juntos. Se conseguirmos o suficiente para a fazenda, você pode ter um quarto só seu lá. Espaço não vai faltar.
Genesis piscou, visivelmente tocado pelo convite, mas logo abriu um sorriso elegante e polido, balançando a mão de forma sutil.
— Eu vou pensar com muito carinho na sua generosa proposta, Inome, mas não quero atrapalhar a dinâmica e a privacidade da família de vocês — ele respondeu, ajeitando a postura. — Além do mais, eu acabei de encontrar um quartinho muito agradável para alugar em Kalm. Fica bem no centro, em cima de uma velha livraria de pedras. O cheiro de papel antigo e a arquitetura clássica daquela cidade me parecem um excelente refúgio para um poeta aposentado no momento.
Sephiroth soltou um riso curto, balançando a cabeça diante da recusa polida do amigo.
— Você nunca incomodaria, Genesis — o platinado rebateu, a voz mansa, mas firme na sinceridade. — Quando comprarmos a fazenda, faremos questão de construir o seu quarto na outra ponta da casa. Assim, garantimos a sua privacidade e o silêncio necessário para as suas leituras.
Genesis riu, um som leve e genuinamente divertido, erguendo a fatia de pizza como se fizesse um brinde àquela teimosia acolhedora do casal.
— Uma ala inteira isolada apenas para o meu repouso e para os meus amados livros? — o poeta ponderou, abrindo aquele sorriso charmoso e teatral. — Vocês jogam baixo, meus amigos. Se me garantirem que estarei a salvo dos gritos matinais e das emboscadas com espadas de madeira antes das nove da manhã, serei obrigado a aceitar. Mas até lá, o exílio poético em Kalm terá que bastar.
Inome esticou o braço por cima da mesinha de centro e deu uma cutucada direta na mão de Genesis com a ponta do dedo. Ela franziu as sobrancelhas, assumindo uma expressão de cobrança bem-humorada, recusando-se a deixá-lo escapar pela tangente literária.
— Você desviou do assunto principal, poeta — Inome insistiu, estreitando os olhos de forma divertida. — Vai pescar junto com a gente de manhã para ajudar a juntar os Gils da fazenda ou não?
Genesis olhou para o dedo dela, depois para o rosto da amiga, e soltou um suspiro longo e dramático. Ele cedeu, ajeitando a postura no tapete com um sorriso resignado.
— Possivelmente... — o poeta admitiu, erguendo levemente a mão em rendição. — Considerando que, no momento, me encontro na mais absoluta falta de emprego.
Ele ajeitou o guardanapo no colo, balançando a cabeça com uma careta de desdém aristocrático ao se lembrar de suas outras opções no continente.
— Decidi que não quero trabalhar com o Angeal e o Barret de jeito nenhum — Genesis explicou, revirando os olhos. — Aquele excesso de gritaria constante do Barret e a completa ausência de refinamento estético daquela dupla... seria um atentado diário à minha paz de espírito. Jogar uma rede no silêncio do oceano me parece uma opção muito mais civilizada.
Sephiroth riu, um som genuíno e descontraído que quebrou a pose tranquila que ele mantinha recostado no sofá.
— O Angeal ficou tão pior assim? — o platinado perguntou, claramente divertido com o drama do amigo. — Já faz quase um ano que não vamos até Kalm visitar o pessoal.
Genesis bufou de leve, balançando a mão no ar com uma expressão de quase sofrimento estético.
— O Angeal continua sendo o Angeal de sempre, meu amigo. Apenas... consideravelmente mais bruto — o poeta explicou, revirando os olhos. — A convivência constante com o Barret parece ter desgastado qualquer resquício de polidez que ele ainda tentava manter. A falta de modos daquela dupla chega a ser contagiante.
Ele ajeitou a postura no tapete, lançando um olhar de puro alívio para o teto da sala.
— Demos graças à deusa pelas visitas frequentes da Elmyra por lá. Se não fosse por aquela mulher aparecendo de tempos em tempos para impor limites e trazer um pingo de civilidade para o ambiente, os dois já teriam transformado tudo em um verdadeiro acampamento de guerra.
Inome soltou uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— Eu ainda tenho memórias tão vivas do Angeal na época da Shinra — ela comentou, os olhos brilhando com a lembrança. — Da forma certinha, séria e contida que ele era. É até difícil imaginar ele perdendo a pose e ficando chucro desse jeito.
O sorriso de Genesis diminuiu um pouco, suavizando os traços do rosto. Ele olhou para o nada por um breve segundo e, em uma quebra repentina daquele tom descontraído, mudou de assunto.
— Eu sonhei com o Zack esses dias — o poeta soltou, a voz baixa e serena.
A menção do nome fez a atenção de Sephiroth e Inome se fixar imediatamente nele. O clima na sala tornou-se subitamente reverente e morno.
— E como foi? O que aconteceu no sonho? — Inome perguntou, a curiosidade transbordando em um sussurro, enquanto Sephiroth o observava em silêncio absoluto, esperando a resposta.
Genesis deu um pequeno sorriso nostálgico, suspirando de forma tranquila.
— Foi um sonho muito rápido, quase um relance — ele explicou, a melancolia em sua voz soando leve, sem dor. — Ele não disse muita coisa. Apenas sorriu daquele jeito inconfundível e disse que estava feliz.
A noite se aprofundou e a caixa de pizza logo ficou vazia. O silêncio deixado pela lembrança de Zack deu lugar a uma leveza reconfortante, e as horas seguintes se desenrolaram com os três jogados na sala, conversando sobre absolutamente tudo e mais um pouco. O papo fluiu solto: debateram sobre qual seria a melhor isca para garantir uma boa pescaria no píer de Costa del Sol na manhã seguinte, reclamaram dos preços absurdos que os mercadores andavam cobrando pelos legumes na vila, riram de algumas fofocas inofensivas dos vizinhos e passaram um bom tempo especulando sobre as novas histórias que Kether exigiria que Genesis lesse.
Quando o relógio de parede avisou que a madrugada já se aproximava, Genesis finalmente se levantou, ajeitando as roupas com sua costumeira elegância. Inome e Sephiroth insistiram, quase em um coro, para que ele dormisse por lá. Ofereceram o sofá, prometeram que Kether não o acordaria com a espada de pau e garantiram que o café da manhã seria farto.
Mas o poeta negou com um sorriso educado e um aceno teatral. Ele argumentou que precisava voltar para o seu quartinho alugado em Kalm, alegando que já sentia falta do cheiro de papel velho da livraria e que a caminhada noturna faria bem para a sua inspiração. Após uma despedida calorosa e a promessa de que tentaria estar no píer logo cedo para a pescaria, Genesis partiu, sumindo na brisa fresca da noite.
Sozinhos, Inome e Sephiroth trancaram a porta da frente e caminharam devagar pelo corredor pouco iluminado da casa. Pararam por um instante na porta do quarto de Kether, apenas para confirmar que a pequena continuava esparramada no berço, ressonando tranquila em um sono profundo e seguro.
Ao entrarem no quarto do casal, o cansaço bom do dia finalmente pesou. Sephiroth se deitou e puxou a coberta, e Inome se aninhou instintivamente contra o peito dele, fechando os olhos enquanto o braço do marido a envolvia. No silêncio do quarto, embalados apenas pelo som distante e ritmado do mar quebrando na praia, os dois adormeceram com os corações repletos, felizes e imensamente gratos por terem o privilégio de viver mais um dia daquela vida pacata e simples.

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