O vento gélido do deserto varria as carcaças de metal da Gold Saucer, produzindo um assobio fantasmagórico entre as ferragens. No acampamento montado no nível superior, o silêncio do descanso dominava, com exceção de Vincent. O atirador mantinha-se imóvel na beirada da plataforma, com os olhos escarlates vigiando a escuridão.
De repente, uma pontada aguda e violenta cravou-se na base de seu crânio. O impacto invisível foi tão forte que Vincent cambaleou para trás, levando a mão humana à cabeça com um rosnado contido. Simultaneamente, um estrondo metálico absurdo ecoou pelas fundações do parque abandonado. A estrutura colossal gemeu e tremeu sob os pés dele, deslocando camadas de poeira e ferrugem.
Dentro de uma das tendas, Lucrecia despertou sobressaltada com o solavanco. O instinto maternal e médico falou mais alto; ignorando o próprio sobressalto com o tremor, ela abriu o zíper da barraca e correu direto para o alojamento de Sephiroth e Inome, com a mente focada exclusivamente na segurança da nora.
Ao abrir a lona, a cena a paralisou. Inome estava sentada no colchonete, abraçada ao torso de Sephiroth com desespero. O platinado, no entanto, não reagia. Ele estava rígido, as pupilas verticais escancaradas e brilhando com uma intensidade Mako doentia, completamente paralisado em um transe.
A compreensão atingiu Lucrecia instantaneamente. Não era apenas o parque desabando; a mente dele estava sendo invadida. Lembrando-se de imediato que Vincent compartilhava a mesma biologia, ela virou as costas e saiu correndo de volta para a penumbra da plataforma.
— Vincent! — ela gritou, encontrando o atirador de joelhos, lutando contra o mesmo domínio invisível. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, chacoalhando-o e tentando puxá-lo de volta para a realidade.
Nas mentes de Sephiroth e Vincent, a escuridão cedeu lugar à voz distorcida e arrastada de Hojo, que reverberava como ácido escorrendo por suas sinapses:
“O tempo de brincar de esconde-esconde entre as sucatas acabou, meus espécimes falhos... A crosta do Planeta já está cedendo ao meu comando e a estrutura do refúgio inútil de vocês vai desmoronar. A Reunião não aguarda. Tragam as células que me pertencem até a Cratera Norte de uma vez... ou pereçam esmagados sob o próprio teto.”
O transe quebrou tão abruptamente quanto começou. Sephiroth puxou o ar com força, os músculos retesados do peito relaxando de uma só vez enquanto a consciência voltava ao ambiente gélido da barraca. Do lado de fora, Vincent também ofegou, apoiando a garra metálica no chão com a respiração pesada e descompassada.
Antes que qualquer um deles pudesse sequer se recuperar da invasão, um segundo estrondo, muito mais alto e violento, rasgou o ar noturno. A plataforma inteira cedeu alguns graus para a esquerda, os pilares de sustentação estalando com o som inconfundível de aço maciço se rompendo. A estrutura iria cair.
Inome apertou os braços ao redor do torso de Sephiroth com ainda mais força, escondendo o rosto contra o peitoral dele enquanto o chão rangia ameaçadoramente.
— Graças aos deuses você voltou... — ela sussurrou, a voz embargada e trêmula. — Eu fiquei com tanto medo de te perder lá dentro, Seph.
Sephiroth envolveu o corpo dela imediatamente. O aperto foi firme, possessivo e inabalável, servindo como uma âncora absoluta contra o caos que engolia o parque. A expressão dele, no entanto, endureceu, os olhos felinos transbordando uma fúria gélida e assassina.
— Você não vai me perder. — Ele ditou, a voz grave e implacável vibrando contra o peito dela, destituída de qualquer hesitação. — Hojo vai pagar com a própria vida por todo esse tormento.
O instinto de sobrevivência e proteção assumiu o controle absoluto. Sephiroth entrou em alerta máximo, movendo-se com uma rapidez cirúrgica. Em um único movimento fluido, ele pegou Inome no colo, garantindo que ela estivesse completamente protegida e firme contra o seu peito.
— Onde estão a minha mãe e o Vincent? — ele perguntou, a voz grave cortando o rangido ensurdecedor do metal que começava a ceder ao redor deles.
— Eles estão lá fora! — Inome respondeu depressa, agarrando-se com força aos ombros dele enquanto o chão inclinava.
Sephiroth avançou, saindo da barraca em uma fração de segundo. Deparando-se com a plataforma em colapso e as figuras de Vincent e Lucrecia a poucos metros, ele não perdeu tempo.
— Vincent, vamos. — a ordem de Sephiroth foi seca e direta sobre o caos do desabamento.
Vincent concordou de imediato. O atirador passou o braço ao redor de Lucrecia, segurando-a com firmeza contra o próprio corpo, ignorando o susto dela para focar totalmente na fuga.
A estrutura colossal da Gold Saucer soltou um estrondo final, desmoronando sob o próprio peso. Exatamente nesse instante, Sephiroth e Vincent flexionaram os joelhos e se impulsionaram para fora da plataforma. Com saltos sobre-humanos, longos e precisos, os dois homens abandonaram a carcaça de metal que despencava no vazio, rasgando a escuridão da noite para levar Inome e Lucrecia em segurança para longe da zona de colapso.
Os saltos os levavam cada vez mais longe do cemitério de metal, cruzando o ar com uma velocidade que deixava a nuvem de poeira e o som do desabamento para trás. Enquanto aterrissavam em um dos desfiladeiros rochosos que demarcavam o início da cordilheira, Sephiroth manteve o olhar fixo no trajeto, mas dirigiu a voz ao atirador que pousava logo ao lado.
— Vincent. Você foi submetido ao mesmo transe? — ele questionou, a voz grave e gélida, sem perder o ritmo do avanço.
Vincent aterrissou com leveza, o impacto das armaduras das botas sendo absorvido pela terra seca antes de se impulsionar novamente. O brilho carmesim de seus olhos rasgou a escuridão noturna, carregado de uma fúria letal e sombria.
— Fui — a voz rouca do atirador soou como um rosnado áspero contra o vento do deserto. — E eu mal vejo a hora de estourar um tiro no meio da cabeça de Hojo.
Nos braços de Sephiroth, Inome apertou o tecido da roupa dele. Ela engoliu em seco, cerrando os lábios e lutando com todas as forças para segurar o choro que apertava sua garganta. Negando devagar com a cabeça, a voz dela saiu trêmula, tomada por uma angústia pura.
— Eu tenho tanto medo, Seph... — ela confessou, encolhendo-se ainda mais contra o peito dele. — Medo de que ele tente fazer a mesma coisa com o nosso bebê. De que ele tente invadir e controlar a mente dele também.
Lucrecia, ouvindo o desespero na voz da nora mesmo em meio à fuga, tentou projetar as palavras para alcançá-la, trazendo um tom brando e apaziguador para tentar dissipar aquele pânico.
— Tente se acalmar, Inome — a cientista pediu, com doçura. — Se formos analisar a ausência de ataques recentes direcionados especificamente ao seu ventre... talvez Hojo tenha perdido o interesse na criança. O foco de toda a obsessão dele agora parece estar inteiramente orquestrado para essa Reunião.
O trajeto seguiu intenso até que as ruínas da Gold Saucer ficassem definitivamente para trás, dando lugar às trilhas de pedra maciça e aos antigos trilhos de mineração das montanhas de Corel. Com o solo agora finalmente firme, regular e longe da zona de colapso, Vincent pousou e colocou Lucrecia no chão com cuidado.
A cientista ajeitou as próprias roupas e passou a caminhar lado a lado com eles, mantendo um fôlego resistente para acompanhar o ritmo constante da marcha dos dois homens pelos dormentes de madeira dos trilhos. Sephiroth, no entanto, sequer fez menção de afrouxar os braços. Ignorando completamente a inclinação do terreno que agora começavam a subir, ele continuou caminhando a passos imponentes com Inome firmemente acomodada em seu colo, mantendo a sua promessa inegociável e recusando-se a deixá-la fazer qualquer esforço.
Após deixarem a Costa del Sol e iniciarem a travessia rumo ao interior do continente, a Avalanche precisava de uma rota direta que seguisse os rastros de Mako corrompido deixados pelo chamado de Hojo. A única passagem que oferecia uma travessia contínua e longe da visão imediata dos grandes cruzadores aéreos da corporação cortava exatamente pelas ruínas industriais das montanhas.
O Monte Corel era um labirinto implacável de pedra e ferrugem. Os trilhos abandonados das antigas minas de carvão serpenteavam pelas bordas de abismos vertiginosos, perigosamente estreitos e desgastados pelas décadas. Pontes pênseis, sustentadas por cabos de aço rangentes e pranchas de madeira podre, balançavam violentamente sob os ventos castigadores da cordilheira, conectando túneis escuros cravados na rocha bruta. O cenário era um funil natural e cruel, onde qualquer movimento mal calculado significava uma queda fatal para as profundezas do desfiladeiro.
Para atravessar a infraestrutura precária, o grupo avançava em uma fila indiana tática e cuidadosa. Barret tomava a dianteira absoluta, o braço-metralhadora erguido, os olhos vasculhando cada fresta da escuridão adiante. Cloud vinha logo em seguida, a Espada Buster em riste, os reflexos afiados para reagir a qualquer movimento brusco. Tifa seguia seus passos, os punhos cerrados e a guarda alta, cobrindo os flancos para proteger o centro da formação, onde Aerith caminhava segura, empunhando seu cajado e sensível a qualquer anomalia no fluxo de energia do local. Angeal fechava a fila de forma imponente, a espada pesada em punho servindo como uma verdadeira muralha na retaguarda, garantindo que absolutamente nada os pegasse pelas costas.
O ataque eclodiu no ponto mais estreito da montanha, no meio de um túnel rochoso que desaguava diretamente em uma passarela de metal suspensa. Dezenas de criaturas deformadas — monstros mutados pela ressonância de Hojo, exibindo escamas grossas e garras alongadas — despencaram do teto de pedra e rastejaram pelas laterais do abismo, bloqueando completamente a passagem em um bote coordenado.
— Fogo à vontade! — rugiu Barret, plantando os pés no chão de ferro. A metralhadora girou em alta velocidade, cuspindo chumbo e iluminando a escuridão do túnel com os clarões dos disparos.
A luta em um espaço tão claustrofóbico era sufocante. Cloud usou os ombros largos de Barret como apoio, saltando sobre a linha de tiro para desferir golpes horizontais devastadores com a Espada Buster, esmagando as couraças monstruosas antes que elas pudessem revidar. Tifa movimentava-se com uma fluidez letal, utilizando as vigas do túnel e os dormentes de madeira para se impulsionar e desferir chutes em sequência que atiravam os monstros direto para o abismo. Atrás dela, Aerith conjurava rapidamente barreiras de energia luminosa, repelindo estilhaços e investidas laterais para manter o perímetro do grupo intacto, enquanto Angeal esmagava brutalmente qualquer aberração que tentasse escalar os cabos para atacá-los pelas costas.
A sinergia da Avalanche era impecável e destrutiva, mas a horda parecia interminável, jorrando das sombras do túnel como uma maré de pura agressividade. No auge do caos, quando os monstros começaram a pressionar as laterais da ponte pênsil, o eco estrondoso de três tiros perfeitamente cadenciados veio do lado oposto do gargalo de pedra.
Os disparos pesados da Cerberus estilhaçaram os crânios das feras que vinham pela frente do túnel. No milésimo de segundo seguinte, um arco prateado cruzou o ar frio da montanha. A Masamune fatiou a escuridão, desmembrando as criaturas com uma precisão cirúrgica, fria e absolutamente letal. A Vanguarda havia acabado de chegar ao mesmo trilho.
Sem fazerem a menor ideia de quem estava do outro lado do amontoado de criaturas lutando para sobreviver, Sephiroth e Vincent engajaram no combate apenas para limpar a própria rota. Sephiroth movia-se como uma força da natureza, os golpes implacáveis abrindo caminho através da carne monstruosa sem desperdiçar um único centímetro de movimento. Vincent cobria suas laterais, os olhos escarlates brilhando sob a penumbra enquanto os tiros da arma de cano triplo não erravam um único alvo.
Mais ao fundo da formação recém-chegada, Inome mantinha a postura firme. Empunhando sua arma com as duas mãos, ela mirava de forma estratégica, puxando o gatilho para finalizar com tiros na cabeça qualquer monstro ferido que ousasse tentar se arrastar em direção a Sephiroth. Atrás dela, em total segurança e seguindo o protocolo de proteção à risca, Lucrecia permanecia abaixada e oculta atrás de um imenso vagão de carvão enferrujado.
Presos entre a barragem de fogo da Avalanche de um lado e o corte impiedoso da Vanguarda do outro, a horda de Hojo colapsou em segundos. A magia estalava, a metralhadora rugia e o aço cantava até que a última aberração despencou sem vida sobre os trilhos.
O silêncio caiu pesadamente sobre o Monte Corel. A fumaça dos disparos e a poeira de pedra levantada pelo confronto começaram a baixar lentamente, desfazendo a cortina visual que separava a passarela.
A poeira densa e a fumaça de Mako finalmente se dissiparam, desfazendo a cortina visual que separava a passarela. De um lado, Barret, Tifa, Aerith, Cloud e Angeal; do outro, Sephiroth, Vincent, Inome e Lucrecia. O som da respiração ofegante e pesada de ambos os lados ecoava pelo desfiladeiro.
Quando os rostos ficaram nítidos sob a luz fraca da montanha, a tensão de combate esvaiu-se de uma só vez. Angeal e Cloud arregalaram levemente os olhos antes de abrirem sorrisos largos e genuínos. Ignorando a dor e o cansaço acumulado da viagem, Cloud guardou a Espada Buster nas costas e apressou o passo pela passarela de metal, jogando-se em um abraço apertado em Inome, tendo o cuidado natural para não pressionar a barriga dela.
— Meu Deus, Inome! Você tá viva! — Cloud exclamou, a voz falhando em um alívio puro, soltando um riso incrédulo enquanto a abraçava. — Eu achei que nunca mais ia ver vocês...
Inome retribuiu o abraço com a mesma intensidade, os olhos marejados de alívio e saudade.
— E eu estou tão feliz que você não morreu, Cloud! — ela respondeu, rindo e limpando uma lágrima teimosa que escapou pelo canto do olho. — Senti tanta, mas tanta falta da nossa Vanguarda...
A poucos passos dali, Sephiroth e Angeal caminharam até pararem frente a frente. Os dois guerreiros imponentes se observaram por um instante, o peso dos anos e das perdas pairando entre eles, mas a hostilidade do mundo não tinha espaço ali. Angeal estendeu a mão, agarrando o antebraço de Sephiroth num cumprimento firme de soldado, o sorriso largo não deixando seu rosto.
— É bom ver que você continua inteiro, meu amigo. Estou feliz e aliviado de te ver vivo, Sephiroth.
Sephiroth retribuiu o aperto com a mesma firmeza, a expressão endurecida cedendo espaço a um sorriso contido, mas profundamente sincero.
— Digo o mesmo a você, Angeal. — A voz grave do platinado soou mansa. Ele soltou o braço do amigo, o olhar expressando uma curiosidade genuína. — Por onde vocês andaram durante todo esse tempo?
Antes que Angeal pudesse começar a explicar a longa jornada desde a fuga de Midgar, a voz estrondosa de Barret cortou o reencontro. O líder da Avalanche recarregava a metralhadora do braço com um estalo metálico pesado, apontando com a cabeça para a continuação dos trilhos.
— Ei, eu odeio estragar a festa de família, mas a gente ainda tá no meio de um corredor da morte! — Barret rosnou, o olhar vigilante varrendo as sombras do monte, não dando margem para distrações. — Dá a liga e vamos continuar seguindo. A gente põe a fofoca em dia quando o terreno for seguro para montar acampamento.
Comandados pelo aviso, os dois grupos se uniram. A formação se alargou, misturando a Avalanche e a Família Crescent enquanto caminhavam lado a lado pelas estruturas enferrujadas do Monte Corel. A tensão do ambiente hostil ainda existia, mas o peso da jornada parecia infinitamente mais leve agora que a antiga Vanguarda marchava junta novamente. O som de conversas baixas, a troca de olhares entre os membros que ainda não se conheciam e a presença imponente de Sephiroth e Angeal garantindo a segurança geral davam um novo ritmo à viagem.
Eles seguiram subindo a montanha até que a geografia implacável cedeu lugar a um antigo entreposto de mineração encravado na rocha. A área era uma gruta ampla, com teto de pedra maciça, totalmente protegida dos ventos cortantes e com apenas uma entrada estreita, fácil de defender.
— Aqui serve — Angeal declarou, avaliando o perímetro em conjunto com Sephiroth e Vincent.
Rapidamente, o cansaço deu lugar à organização. Barret e Vincent assumiram instintivamente posições estratégicas perto da entrada para a primeira vigília, em um acordo silencioso de atiradores. Tifa e Aerith ajudaram Lucrecia e Inome a se acomodarem na parte mais seca e protegida da gruta, estendendo sacos de dormir e acendendo uma pequena fogueira contida no centro com os restos de madeira dos dormentes dos trilhos. O calor das chamas iluminou o pequeno acampamento, refletindo nos rostos exaustos, porém finalmente inteiros e aliviados, do grupo reunido.
O acampamento dividiu-se de forma orgânica, ditada pelo cansaço e pelas afinidades.
De um lado das chamas, Lucrecia, Tifa e Aerith formaram um círculo inesperadamente acolhedor. Elas falavam sobre banalidades que pareciam pertencer a um mundo que já não existia, trocando impressões desde as mutações bizarras das criaturas que haviam enfrentado nas montanhas até a saudade de fragrâncias de perfumes antigos de Midgar, criando uma bolha de normalidade e conforto no meio do caos.
Do outro lado, a dinâmica carregava o peso de velhos laços. Angeal, Sephiroth, Cloud e Inome acomodaram-se mais próximos, o brilho do fogo desenhando sombras sobre os rostos marcados pela jornada. Angeal, relaxando a postura imponente, virou o rosto na direção de Inome. Um sorriso largo e genuinamente caloroso quebrou a seriedade do veterano.
— E você grávida, hein? — Angeal comentou, o tom carregado de um afeto quase paternal.
Sentado ao lado dela, Sephiroth não disse nada, mas permitiu que um sorriso sutil e orgulhoso suavizasse os traços de seu rosto. Inome, aconchegando-se no calor do companheiro, soltou uma risada leve, balançando a cabeça.
— Pois é... — Inome respondeu em tom brincalhão, esfregando as mãos perto do fogo para se aquecer. — Quem diria que eu vou ter um filho no fim do mundo.
Antes que Angeal pudesse responder, Cloud se inclinou para frente. A postura retraída e traumatizada que o garoto exibia evaporou de repente, dando lugar a uma energia expansiva. Ele abriu um sorriso largo, descontraído e cheio de confiança, gesticulando de uma forma que não combinava em nada com seu estado debilitado.
— Hah! Eu sempre soube que vocês dois tinham alguma coisa juntos! — Cloud disparou, a cadência, a entonação e a vivacidade soando exatamente como as de Zack.
A frase caiu como uma pedra fria no meio do pequeno grupo. Inome piscou, o sorriso morrendo lentamente nos lábios enquanto olhava para Cloud com pura estranheza. Aquela não era a atitude do recruta tímido; era o fantasma perfeito de Zack ecoando através dele.
Sephiroth percebeu a anomalia no mesmo milésimo de segundo. Os olhos felinos do platinado estreitaram-se, abandonando a tranquilidade para adotar um foco analítico e repentinamente tenso. Ele trocou um olhar rápido e pesado com Inome. A percepção atingiu os dois simultaneamente. Eles varreram as sombras da gruta com os olhos, passando por Barret e Vincent na vigília, buscando instintivamente a figura barulhenta do moreno, esperando que ele saltasse de trás de alguma rocha com uma piada. Mas não havia Zack ali.
Inome abriu a boca, a respiração travada na garganta, pronta para questionar o óbvio que começava a esmagar seu peito.
Antes que a primeira sílaba pudesse sair, Angeal interveio. O veterano inclinou o corpo para a frente, interceptando o olhar de Sephiroth e Inome com uma expressão densa, profundamente enlutada e carregada de avisos silenciosos.
— É uma longa história... — Angeal cortou, a voz grave, arrastada e pesada encerrando a pergunta antes mesmo que ela tomasse forma no ar.
A densidade do silêncio que se formou fez Cloud recuar. O garoto encolheu levemente os ombros, sentindo-se acuado sob os olhares perplexos e pesados de Sephiroth e Inome. Ele alternou a visão entre os dois, o sorriso largo e confiante sumindo de seu rosto.
— Eu... fiz alguma coisa errada? — ele perguntou, a voz vacilando em uma insegurança genuína.
Angeal moveu-se rapidamente para dissipar a tensão. O veterano estendeu a mão pesada e deu alguns tapinhas gentis e reconfortantes no ombro do garoto.
— Não é nada, Cloud — Angeal garantiu, o tom brando e protetor. — Eles só estão surpresos e felizes de ver você.
Inome engoliu o nó que havia se formado em sua garganta e forçou os músculos do rosto a relaxarem. Ela abriu um sorriso doce, tentando trazer a normalidade de volta à fogueira.
— É verdade... — ela concordou, inclinando-se um pouco mais para frente. — Onde vocês estiveram durante todo esse tempo?
Cloud suspirou, o brilho Mako em seus olhos oscilando com as lembranças pesadas.
— Eu consegui fugir do laboratório do Hojo... — ele contou, a voz um pouco mais arrastada pelo peso do trauma. — Depois disso, encontrei o Angeal e acabei ficando com ele e o pessoal da Avalanche até agora.
Sephiroth, que ouvia cada palavra com atenção, manteve a postura impecável enquanto a luz das chamas refletia em seus cabelos prateados.
— Nós passamos todos esses anos vivendo como foragidos — o platinado compartilhou, a voz grave e calma cruzando o crepitar do fogo. — Dormindo expostos à natureza, no meio da neve e no topo de montanhas isoladas.
Angeal arqueou uma sobrancelha, abrindo um sorriso zombeteiro enquanto olhava de Sephiroth para Inome.
— Você judiou bastante dela com essa rotina, hein? — o veterano brincou, o tom descontraído quebrando a melancolia do assunto.
Inome soltou uma risada genuína e gostosa, encostando a cabeça no ombro de Sephiroth com total naturalidade.
— Ah, eu sou dura na queda, Angeal — ela respondeu com um sorriso radiante, apertando levemente a mão do platinado. — E, sinceramente, qualquer coisa, desde que eu esteja junto com o Seph, vale a pena.
Angeal riu da resposta, o olhar descendo com uma curiosidade amigável e genuína para o ventre da garota.
— E já sabem quando essa criança vai nascer? — ele perguntou, apontando de leve para a barriga dela.
Inome e Sephiroth trocaram um olhar cúmplice e silencioso, compartilhando aquela conexão íntima forjada por anos de isolamento. Ela voltou os olhos para o veterano, ajeitando-se de forma mais confortável contra o corpo do companheiro.
— Bom, a Lucrecia me avaliou e comentou que eu já estou de sete meses — ela explicou, a mão descendo instintivamente para alisar o tecido sobre o ventre.
Angeal ergueu as sobrancelhas, visivelmente impressionado, e soltou um assobio baixo enquanto avaliava o volume evidente sob as roupas de frio de Inome.
— Sete meses? Pelo tamanho dessa barriga, vai ser uma criança grandinha, Inome. Prepare-se — o veterano brincou, o sorriso largo marcando o rosto.
Sephiroth, que acompanhava a conversa em silêncio, não conseguiu conter a reação. Um sorriso sutil, mas profundamente orgulhoso, desenhou-se nos lábios do guerreiro. Ele repousou a mão grande com absoluta delicadeza sobre o ventre dela, os olhos felinos brilhando com a perspectiva daquele legado.
— Considerando a minha própria estrutura biológica e a resiliência inegável da mãe... — Sephiroth comentou, a cadência grave da voz carregada de uma satisfação palpável. — Eu não esperava absolutamente nada menos do que um desenvolvimento formidável.
Cloud soltou um riso surpreso com o tamanho da barriga, mas a curiosidade falou mais alto. Inclinando-se um pouco mais para perto da fogueira, ele perguntou com aquele tom leve:
— E o que você mais sentiu vontade de comer durante a gravidez toda? Teve algum desejo muito bizarro?
Inome deu um sorriso frouxo, lembrando-se dos perrengues pelo continente gelado de Icicle.
— Olha, durante muito tempo eu não sentia vontade de quase nada. A verdade é que tudo me dava uma ânsia terrível nos primeiros meses... — ela confessou, balançando a cabeça. — Mas, de umas semanas para cá, eu tenho sentido uma vontade absurda de comer carne defumada de Garula mergulhada em calda doce de Verduras Gysahl... com muito chantilly por cima.
A revelação fez o clima pesar na mesma hora, mas por um motivo totalmente gastronômico. Angeal e Sephiroth torceram a cara quase em sincronia. O veterano franziu o nariz e o cenho, visivelmente enjoado só de imaginar a mistura da carne salgada com a verdura de Chocobo e o creme doce. Ao lado dele, os olhos felinos de Sephiroth expressavam uma repulsa silenciosa, quase processando a falta de lógica culinária daquela exigência biológica.
Apesar da careta instintiva, Sephiroth soltou um suspiro brando e conformado. O platinado continuou o carinho suave e contínuo no ventre dela, a expressão endurecida suavizando-se novamente sob o brilho da fogueira.
— Considerando as circunstâncias... se você está conseguindo se alimentar e reter os nutrientes, é o que realmente importa — ele concluiu, a voz grave carregando um misto de alívio e resignação, preferindo ignorar a combinação duvidosa em prol da saúde da mulher e do filho.
Inome deu uma risada leve, divertindo-se genuinamente com a expressão de repulsa dos dois guerreiros mais velhos.
— Eu sei que parece nojento... — ela admitiu, dando de ombros com um sorriso satisfeito enquanto se ajeitava no colo de Sephiroth. — Mas, no fim das contas, sacia a minha fome e a dele, e isso é o que importa agora.
Angeal balançou a cabeça, rindo baixo da praticidade absurda da mulher. O clima estava confortável, e a curiosidade do veterano parecia ter despertado de vez. Ele apoiou os antebraços nos joelhos, olhando para o casal com um interesse fraternal.
— E vocês já sabem como vão chamá-lo? — Angeal perguntou, o olhar intercalando entre Inome e Sephiroth. — Já tiveram tempo de pensar em alguma ideia de nome durante esses meses todos nas montanhas?
Inome e Sephiroth trocaram um olhar rápido e silencioso. Um sorriso sutil, carregado de uma cumplicidade inabalável, despontou no rosto de ambos. Sem hesitar e sem precisarem combinar, os dois viraram o rosto de volta para Angeal e responderam em uníssono, a voz mansa da mulher misturando-se com perfeição à cadência grave do platinado:
— Kether.
Cloud inclinou a cabeça levemente para o lado, repetindo o nome mentalmente. Ele franziu o cenho de forma sutil, a curiosidade de Zack brilhando nitidamente em seus olhos infundidos de Mako.
— Kether? — o garoto questionou, coçando a nuca de forma desajeitada, tentando adivinhar a sonoridade. — Soa um pouco diferente... É um nome feminino?
Sephiroth voltou o olhar para Cloud. A expressão do guerreiro mantinha-se polida e a postura relaxada, trazendo uma paciência quase didática em seu tom ao sanar a dúvida do rapaz.
— É um nome unissex. — Sephiroth esclareceu de forma direta, a voz calma ecoando sobre o crepitar da pequena fogueira.
Do outro lado da fogueira, a dinâmica seguia em um tom mais brando. Tifa, que acompanhava a conversa do outro grupo com o canto do olho, desviou o olhar de Sephiroth, ao fundo, para focar em Lucrecia, e logo em seguida para Vincent, que mantinha sua vigília silenciosa ali perto.
A lutadora estreitou levemente os olhos, genuinamente impressionada com o que via, e não conseguiu conter a observação.
— É incrível como o Sephiroth é parecido com vocês dois — Tifa comentou, a voz carregada de surpresa enquanto avaliava os traços marcantes dos três. — A semelhança é muito forte.
Lucrecia soltou uma risada tímida. Com as bochechas ganhando um leve tom avermelhado, tanto pelo calor das chamas quanto pelo elogio indireto, ela abanou a mão no ar, dispensando a constatação com modéstia.
— Ah, imagina. Isso é um exagero seu, Tifa — a cientista respondeu, ajeitando uma mecha dos longos cabelos escuros atrás da orelha.
Aerith, que acompanhava a troca com aquele seu semblante sereno e iluminado de sempre, abriu um sorriso doce e concordou prontamente com a amiga.
— Não é exagero nenhum — Aerith disse, a voz suave e sincera cruzando o crepitar da fogueira. — A Tifa tem toda a razão, e você é realmente bem linda, Lucrecia.
Lucrecia soltou mais uma risada tímida, as bochechas ganhando um tom ainda mais avermelhado diante dos elogios. Ela alternou o olhar entre a lutadora e a florista, com um sorriso gentil e sincero iluminando suas feições cansadas.
— Vocês são gentis demais... — Lucrecia disse, a voz suave e acolhedora. — Mas, convenhamos, vocês duas também são mulheres lindíssimas.
Tifa soltou uma risada descontraída, cruzando as pernas e apoiando o queixo em uma das mãos, entrando de vez no clima leve da conversa.
— Ah, obrigada, Lucrecia! — a lutadora respondeu, piscando um olho de forma divertida. — Mas confesso que ainda não tive a mesma sorte que a senhora de esbarrar com um parceiro tão lindo e... exótico por aí. — Ela completou a brincadeira, lançando um olhar rápido e sutil na direção de Vincent, que continuava impassível na vigília.
Aerith, ouvindo a brincadeira da amiga, abriu um sorriso travesso. Sem perder tempo, ela ergueu a mão e deu alguns tapinhas leves e brincalhões no braço de Tifa.
— Ah, não seja boba, Tifa! Você não pode reclamar! — Aerith comentou, com os olhos verdes brilhando de forma cúmplice e divertida. — Você e o Cloud formam um casal lindo juntos, isso sim!
Tifa arregalou levemente os olhos, pega de surpresa pela franqueza repentina da florista. O rosto da lutadora esquentou por um milésimo de segundo. Ela soltou uma risada um tanto sem graça, desviando o olhar para as chamas dançantes da fogueira enquanto passava a mão pelos próprios cabelos escuros, tentando disfarçar o nervosismo.
— Sinceramente, Aerith? — Tifa murmurou, com um sorriso contido e um tom que misturava carinho e uma incerteza profunda. — Eu tenho sérias dúvidas quanto a isso...
O comentário de Tifa fez Aerith piscar, genuinamente surpresa com aquela insegurança repentina. A florista inclinou a cabeça levemente para o lado, os olhos verdes buscando os da amiga.
— Por que diz isso, Tifa? — Aerith perguntou, a voz mansa, mas cheia de curiosidade.
Tifa soltou um suspiro, desviando o olhar momentaneamente para as chamas da fogueira antes de voltar a encarar a florista. Não havia hostilidade em seu rosto, apenas uma vulnerabilidade sincera e um cansaço emocional de quem estava pisando em ovos há tempo demais.
— Eu noto a forma como ele olha para você, Aerith. O jeito que ele muda e fica todo atento quando você está por perto... — Tifa explicou, a voz soando calma e completamente desprovida de amargura. — Eu não sinto inveja, de verdade. Só fico realmente em dúvida sobre o que o Cloud quer para ele, sabe? Fico sem saber onde eu me encaixo dentro dessa confusão toda que está a cabeça dele.
Aerith abriu um sorriso imensamente doce e compreensivo. Sem hesitar, ela levou as mãos até o colo da lutadora, segurando as mãos calejadas de Tifa com um carinho que parecia ter o poder de dissipar qualquer tensão.
— Tifa, eu não sinto nada pelo Cloud. O que eu enxergo quando olho para ele... é apenas a lembrança vívida do Zack — Aerith revelou, a sinceridade transbordando em cada sílaba. Ela então olhou de Tifa para Lucrecia, o semblante ganhando uma aura de sabedoria ancestral que contrastava com sua juventude. — Quando o Zack morreu... algo dentro de mim despertou por completo. Meus instintos como Cetra ganharam uma clareza absoluta. Eu finalmente entendi quem eu era de verdade, o peso do meu destino e, principalmente, entendi o porquê o Cloud precisava tanto de mim naquele momento. Ele estava quebrado, e a minha herança pedia para que eu o guiasse de volta à luz.
Aerith apertou as mãos de Tifa com um pouco mais de firmeza, transmitindo uma certeza inabalável e cristalina.
— Vocês dois precisam um do outro, Tifa. Vocês são o porto seguro um do outro — a florista continuou, o sorriso ganhando um contorno quase etéreo e confortador. — Eu não estou aqui para dividir vocês ou tomar o seu lugar. Eu sou só como um anjo nesse grupo... cuidando para que todos encontrem o seu próprio caminho.
Lucrecia, que escutava a conversa em um silêncio reflexivo, sentiu o coração aquecer diante da maturidade daquelas palavras. A cientista sorriu, um sorriso marcado pela experiência de uma vida inteira de arrependimentos e segundas chances. Com delicadeza, ela apoiou a mão sobre as de Aerith e Tifa.
— A Aerith tem toda a razão, querida — Lucrecia aconselhou, a voz ganhando a suavidade de uma mãe que aprendeu as lições da vida da pior maneira possível. — O amor não é sobre quem brilha mais ou quem chama mais atenção aos olhos confusos de alguém durante uma tempestade. O amor verdadeiro é a constância. É sobre quem escolhe ficar ao seu lado quando o mundo inteiro está desmoronando. Eu permiti que a minha própria culpa e a dúvida me cegassem no passado, e Hojo usou isso para me afastar da única pessoa que me amava de verdade. Quase perdi a chance de viver a minha história com o Vincent por não acreditar que eu merecia.
Lucrecia fez uma pausa, o olhar escuro e sereno focado intensamente em Tifa.
— Não deixe que a incerteza roube o tempo de vocês, Tifa. A mente do Cloud pode estar uma bagunça agora por conta de tudo que a Shinra fez com ele, mas no fundo, a alma dele sabe onde é o lar. Tenha paciência, mas nunca duvide do seu próprio valor na vida dele.
As palavras de Lucrecia e Aerith romperam a última barreira que Tifa tentava manter erguida. A lutadora abaixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos calejadas, os ombros tremendo enquanto ela finalmente começava a chorar. Era um choro contido, mas que transbordava toda a exaustão emocional acumulada naqueles meses.
— É tão difícil... — Tifa desabafou, a voz embargada e abafada pelas mãos, lutando para colocar a dor em palavras. — Tem horas em que eu sinto que estamos próximos de novo, que ele é o meu Cloud... e, no momento seguinte, o olhar dele simplesmente muda. Ele fica distante, falando e agindo como se fosse... outra pessoa. Eu sei de tudo o que aconteceu no laboratório. Eu entendo os motivos e a confusão dele, mas... dói. Dói demais ver quem você ama perdido daquele jeito.
Sem hesitar, Aerith e Lucrecia se moveram ao mesmo tempo. A cientista envolveu a lutadora em um abraço maternal, apertando-a com uma compreensão profunda de quem também havia sido vítima das atrocidades da corporação.
— Vai passar, minha querida. Mantenha a força — Lucrecia murmurou de forma acolhedora, fazendo um carinho suave nas costas de Tifa. — Com a queda de Hojo e a destruição da origem de todo esse mal, as coisas possivelmente podem melhorar. Sem a influência e a ressonância dele, a mente do Cloud finalmente terá espaço e paz para se curar.
Aerith, sentada do outro lado, apenas se inclinou e envolveu a amiga em seus braços. A florista não disse mais nenhuma palavra; ela apenas apertou o abraço, encostando o rosto contra o ombro de Tifa, oferecendo seu próprio calor e presença como o conforto silencioso que a lutadora tanto precisava naquele momento.
Longe do calor da fogueira, a dupla responsável pelo primeiro turno de vigília caminhava pelo perímetro escuro e irregular da gruta. Barret mantinha a metralhadora a postos, os olhos varrendo as sombras do Monte Corel, mas o silêncio da madrugada parecia incomodá-lo. Ele olhou de esguelha para o atirador de manto carmesim ao seu lado e quebrou o gelo.
— Uma mulher e um filho, hein? — Barret questionou, a voz grave e retumbante ecoando baixo pelas pedras.
Vincent não parou de andar. Ele soltou um riso seco e áspero, arrumando a gola do manto enquanto a luz fraca da lua refletia na garra metálica.
— O destino tem um senso de humor impiedoso — o ex-Turk comentou, a voz rouca carregada de uma ironia sombria. — Acordar depois de décadas trancado em um caixão e descobrir que a maior arma que a Shinra já produziu é o garoto que eu não consegui proteger... é um choque de realidade que a minha mente ainda está tentando processar.
Barret assentiu devagar, a expressão dura do líder da Avalanche suavizando-se por um instante ao lembrar da própria trajetória.
— Eu entendo o baque, parceiro. Quando a minha mulher era viva... a gente imaginava um futuro bem diferente lá na nossa vila. Mas a Shinra tirou tudo, e a vida veio e deu um soco na nossa cara — Barret desabafou, o olhar se perdendo momentaneamente na escuridão da montanha antes de voltar ao presente. — Hoje eu luto para garantir um futuro para a Marlene. A gente faz o que pode com os pedaços que sobraram.
Vincent ouviu em silêncio, respeitando a confissão do grandalhão. O atirador parou perto da entrada da gruta, encostando o ombro na rocha fria enquanto olhava para a fogueira distante, onde a silhueta de Lucrecia se destacava em meio ao grupo.
— Eu e a Lucrecia não temos nada definido — Vincent revelou, o tom descendo para uma honestidade crua e resignada. — O tempo que passamos consumidos pelos nossos próprios pesadelos deixou cicatrizes profundas demais para promessas fáceis. Mas... eu gosto de estar por perto dela, mesmo assim. Só de tê-la por perto, já me basta.
Barret soltou uma risada grave, balançando a cabeça diante da sinceridade melancólica do outro. O clima pesado se dissipou rapidamente, dando espaço para o humor brusco e direto do grandalhão. Ele apontou com a cabeça na direção de Sephiroth, que conversava com Inome do outro lado do acampamento.
— É, parceiro, mas me diz uma coisa... — Barret começou, abrindo um sorriso largo e provocador. — Você já faz aquelas coisas de pai com o seu molecão? Tipo ensinar a pescar, jogar uma bola ou dar um belo de um cascudo quando ele faz alguma besteira? Porque, olha o tamanho do bicho!
Vincent piscou, pego de surpresa pela imagem mental absurda. Pela primeira vez na noite, ele soltou um riso genuíno, embora ainda contido e rouco, devolvendo a brincadeira no mesmo tom seco.
— Levando em consideração que ele é bem maior que eu... acho estrategicamente mais prudente eu pular a fase do cascudo — Vincent retrucou, o olhar rubro brilhando com uma diversão rara. — Mas se ele algum dia precisar de conselhos táticos de sobrevivência ou de ajuda para limpar o cano de uma arma, eu farei o possível para ser um pai exemplar.
Barret soltou uma gargalhada rouca e abafada, balançando a cabeça.
— É, parceiro, esse é o verdadeiro espírito paterno! — Ele disse, mas o sorriso logo deu lugar a uma expressão mais pesada e reflexiva. O grandalhão apoiou o braço-metralhadora na lateral do corpo e olhou para a escuridão do monte. — Falando sério agora... eu quero ensinar a Marlene a lutar. Quero que ela saiba atirar e se defender de qualquer desgraçado que tentar fazer mal a ela. Mas... eu não queria essa vida pra ela, sabe? O que eu queria mesmo era que ela pudesse só se preocupar em brincar e ser criança, bem longe dessa sujeira toda.
Vincent assentiu lentamente em silêncio, compreendendo o fardo daquela proteção. Antes que pudesse responder, um chiado agudo de estática quebrou o silêncio da vigília. O som metálico vinha do interior de seu manto carmesim.
O atirador enfiou a mão no bolso e puxou seu antigo PHS. O aparelho captava uma frequência de rádio de emergência aberta. Vincent ajustou o sintonizador com o polegar até que a estática cedesse espaço para uma voz ofegante, transmitindo uma urgência caótica:
“...Atenção a todos os postos de escuta e sobreviventes. A sede da Shinra em Midgar colapsou por completo. Repito, a corporação caiu. O Professor Hojo libertou suas abominações e instaurou o caos absoluto nos setores. O Alto Comando e os diretores morreram. O Departamento de Investigação Geral, os Turks, abandonaram suas posições e fugiram do epicentro. O exército regular está sem ordens e a estrutura de poder da Shinra deixou de existir. Aqui é Thomas, da Rede de Notícias Independentes de Kalm... que os deuses nos protejam.”
A transmissão foi engolida novamente pela estática antes de o sinal morrer de vez.
Barret arregalou os olhos por um segundo, processando a queda do império contra o qual lutou a vida inteira. Logo em seguida, ele bufou, um misto de alívio torto e indignação tomando conta de suas feições.
— Turks... — Barret resmungou, cruzando o braço bom sobre o peito com puro desdém. — Qual é a utilidade desses caras, afinal? Passam a vida inteira vendendo essa pose de cães de guarda intocáveis da corporação, mas na primeira vez que o perigo bate na porta de verdade, eles correm com o rabo entre as pernas!
Vincent abaixou a tela do PHS e o guardou de volta sob o manto. O atirador olhou para o grandalhão, os olhos rubros brilhando na penumbra com uma ironia cínica e sombria, soltando mais um riso seco e arrastado.
— É um fato incontroverso, Barret. Eles correm — Vincent respondeu, a voz mantendo a polidez habitual, mas carregada de uma autodepreciação afiada. — Afinal de contas, eu sou um ex-Turk... e também corri do perigo ao me trancar dentro de um caixão por trinta anos.
Com o avanço da madrugada, o cansaço finalmente cobrou o seu preço e o acampamento cedeu ao silêncio absoluto. Cada um buscou o seu próprio espaço para descansar dentro da gruta; a equipe da Avalanche se acomodou em pequenas barracas improvisadas com o que restava dos suprimentos da viagem, enquanto Angeal, Sephiroth e Inome deitaram-se mais ao fundo, acomodados diretamente no chão de pedra, protegidos apenas por colchões e cobertores grossos para isolar o frio da montanha.
Na entrada da gruta, o vento noturno uivava de forma implacável. Vincent mantinha sua vigília, imóvel e escorado na rocha fria, quando o som de passos muito leves e cautelosos chamou sua atenção.
Ele virou o rosto e viu Lucrecia se aproximando pelas sombras. A cientista puxou o xale com mais força sobre os ombros e, em silêncio, sentou-se na pedra logo ao lado do atirador, encolhendo-se um pouco para se proteger da friagem.
Vincent piscou, os olhos escarlates revelando uma surpresa genuína ao vê-la fora do acampamento seguro àquela hora. Ele descruzou os braços e ajeitou a postura, inclinando-se levemente na direção dela.
— Aconteceu alguma coisa, Lucrecia? — ele perguntou, a voz rouca soando baixa e cuidadosa para não acordar o restante do grupo, mas carregada de uma preocupação imediata.
Lucrecia olhou para a vastidão escura e perigosa do Monte Corel lá fora. Ela soltou um suspiro trêmulo e longo antes de voltar o olhar escuro para o atirador.
— Não aconteceu nada lá dentro, Vincent... — ela murmurou, a voz mansa, porém marcada por uma angústia densa e melancólica. Ela levou a mão ao próprio peito, apertando o tecido da roupa bem sobre o coração. — É só que... há algo afligindo o meu coração esta noite, e eu simplesmente não consigo fechar os olhos para dormir.

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