A madrugada na gruta prometia ser de descanso, mas o silêncio foi estilhaçado de forma abrupta. Um grito rasgado de pura agonia ecoou pelas pedras. Inome se contorcia violentamente sobre os colchões improvisados, berrando enquanto uma dor insuportável e incontrolável tomava conta de seu corpo. O desespero no som foi o suficiente para fazer Sephiroth e Angeal despertarem de solavanco, já com os sentidos em estado de alerta máximo.
O que se seguiu desafiou qualquer limite da natureza. Conforme a mulher se debatia e gritava, o trabalho de parto prematuro se desenrolou em uma velocidade sobrenatural. A criança — uma menina — escorregou de dentro dela, mas não tocou os cobertores ou o chão de pedra. Sustentada por uma anomalia invisível, a recém-nascida parou no ar, flutuando no centro da gruta enquanto abria os pequenos pulmões em um choro alto e estridente.
Atraídos pelo pânico, Vincent e Lucrecia abandonaram a vigília na entrada e correram para o interior do acampamento. Os dois travaram os passos por uma fração de segundo, atônitos com a visão da bebê chorando e levitando no vazio.
— Mãe, segure a Inome! — Sephiroth ordenou, a voz grave cortando o caos com uma urgência desesperada.
Lucrecia correu imediatamente para amparar a nora, caindo de joelhos ao lado dela. Angeal seguiu o mesmo movimento, posicionando-se firme ao lado de Inome para tentar estabilizá-la e conter as contorções de dor.
Com os olhos cravados na recém-nascida, Sephiroth foi movido por um instinto paterno avassalador. Ele flexionou os joelhos e deu um salto formidável em direção ao centro da gruta, esticando os braços para alcançar a filha antes que qualquer coisa pudesse acontecer com ela.
Mas antes que seus dedos pudessem roçar a criança, o espaço entre eles distorceu. Surgindo do absoluto nada, Hojo materializou-se no ar — vestindo seu jaleco habitual e em sua exata forma humana, sem nenhuma mutação aparente. Com um movimento brusco e uma força cinética inexplicável para aquele corpo decrépito, o cientista espalmou a mão contra o peito de Sephiroth em pleno voo.
O impacto foi brutal. A força da repulsão empurrou o platinado para trás com violência, arremessando o guerreiro como um projétil contra uma das paredes maciças de pedra da gruta, que tremeu e estalou com o estrondo da colisão.
O caos acordou o restante do acampamento de imediato. Cloud e Barret saíram às pressas de dentro das barracas, armas em punho e prontos para o combate. Ao focar os olhos na figura do cientista flutuando no centro da gruta, Barret rugiu de ódio e ergueu o braço-metralhadora, os canos já começando a girar.
— Eu vou encher esse desgraçado de chumbo! — Barret gritou, prestes a apertar o gatilho.
Vincent foi mais rápido. O atirador avançou e segurou firmemente o braço armado de Barret, forçando o cano para baixo com uma força letal.
— Não atire. — Vincent cravou, a voz rouca falhando pela tensão do momento. — A bebê está nos braços dele.
Hojo abriu um sorriso doentio e desdenhoso. Com uma crueldade calculada, ele ergueu a recém-nascida no ar, posicionando o corpo minúsculo e frágil exatamente na linha de fogo da Avalanche, usando-a como um escudo humano perfeito.
— Vamos, atirem! — Hojo zombou, os olhos brilhando com uma insanidade sádica por trás dos óculos. — Vão atirar nela?
Apoiada entre Lucrecia e Angeal, Inome ofegava pesadamente. A visão embaçada pela dor e pelo esforço repentino finalmente começou a clarear. Quando seus olhos varreram a gruta e absorveram a realidade, o pesadelo a atingiu com força total. Ela viu Sephiroth caído no chão junto à rocha esmagada e, no segundo seguinte, viu Kether chorando nas mãos do homem que havia destruído suas vidas. Um grito estridente, visceral e carregado do mais puro terror rasgou a garganta de Inome, ecoando pelas paredes de pedra de forma ensurdecedora.
Do outro lado, Aerith não hesitou. O cajado da florista brilhou intensamente em um tom verde-esmeralda. Focando toda a sua energia Cetra de uma só vez, ela conjurou sua magia, criando um campo de força invisível ao redor da bebê, tentando puxá-la com força para fazê-la escorregar dos braços do cientista.
Hojo sentiu o repuxo imediato. O cientista arregalou levemente os olhos, percebendo a força magnética e ancestral da magia de Aerith tentando arrancar a criança de seu aperto.
Antes que a florista pudesse completar a tração e resgatar a recém-nascida, Hojo apertou os braços ao redor de Kether e começou a distorcer o espaço ao seu redor mais uma vez. A matéria ao redor do cientista começou a se dobrar e encolher.
— O meu novo espécime já está em minhas mãos... — a voz de Hojo ecoou de forma fantasmagórica e distorcida por toda a extensão da gruta, enquanto sua forma começava a desaparecer no ar denso. — Vejo todos vocês na Cratera do Norte.
O espaço onde Hojo flutuava colapsou em um estalo surdo, deixando para trás apenas o eco de sua voz distorcida e o vazio absoluto.
No mesmo instante, Inome perdeu qualquer resquício de sanidade e controle. Ela começou a gritar, um som tão agudo, rasgado e visceral que sua garganta arranhou na mesma hora, trazendo o gosto metálico de sangue para os lábios.
— Seu desgraçado! Maldito! Verme doente! — Inome berrava, debatendo-se freneticamente contra as mãos que a seguravam, os olhos arregalados em puro terror e ódio. — Monstro filho da puta! Devolve ela! Devolve a minha filha!
Lucrecia, com o rosto pálido e os olhos arregalados, lutava para manter a mente de cientista no controle sobre o pânico de mãe e avó. Ela lançou um olhar desesperado por cima do ombro, encontrando a florista do outro lado do acampamento.
— Por favor, veja o Sephiroth, por favor! — Lucrecia implorou, a voz embargada e lutando para conter o pânico evidente.
Assim que Aerith correu, a cientista voltou toda a sua atenção para Inome. Com as mãos trêmulas, mas firmes, Lucrecia segurou o rosto da garota, forçando-a a focar em seus olhos em meio ao caos.
— Inome, olhe para mim! Você precisa tentar se acalmar! — Lucrecia exigiu, o tom tentando ser brando, mas carregado de urgência médica. — Você acabou de passar por um parto prematuro, forçado e violento. O seu corpo está em estado de choque severo. Se você continuar forçando os músculos e se debatendo desse jeito, vai sofrer uma hemorragia letal! Respire, por favor, ou nós vamos perder você também!
Enquanto Angeal ajudava a imobilizar a garota com o máximo de cuidado possível para que ela não rasgasse os próprios tecidos, Aerith deslizou de joelhos até a base da parede de pedra onde Sephiroth havia sido arremessado. O guerreiro estava inerte, o corpo imenso e pesado caído sobre os escombros da colisão bruta.
Sem perder um segundo, a florista ergueu o cajado. Um brilho verde, quente e restaurador emanou da Materia, fluindo diretamente de Aerith para o peito do platinado, forçando o fluxo de energia vital do guerreiro a dissipar a paralisia do impacto.
O feitiço fez efeito de imediato. Com um grunhido áspero, Sephiroth puxou o ar com força e abriu os olhos felinos de supetão. A aura assassina, fria e absolutamente devastadora inundou a gruta enquanto ele cravava as garras na pedra e erguia o próprio corpo, ignorando qualquer dor ou poeira acumulada na armadura.
O olhar dele varreu o ar vazio onde Hojo estava segundos atrás, até parar no centro da gruta.
— Ele roubou... — a voz de Sephiroth saiu não como uma fala, mas como um rosnado letal, baixo e rasgado pelo desespero cru de um pai. — O desgraçado roubou a minha filha.
O som do aço deslizando da bainha cortou o ar pesado da gruta. Sephiroth puxou a Masamune, os nós dos dedos brancos pela força com que apertava o cabo da lâmina. Seus olhos felinos, agora reduzidos a fendas de puro ódio, não viam mais nada além do rastro invisível deixado por Hojo.
— Lucrecia. Aerith. — A voz dele saiu num timbre perigoso, vibrando com o mais absoluto e primitivo instinto paterno. — Cuidem da Inome. Eu estou indo para a Cratera do Norte.
Ele deu o primeiro passo em direção à saída, movendo-se como um predador focado apenas no abate de sua presa, mas não foi longe.
Barret plantou-se no meio do caminho, o braço-metralhadora erguido e o peito estufado, formando uma barricada de músculos. Logo ao seu lado, com a garra metálica tensa e o manto carmesim balançando com o vento noturno, Vincent fechou o bloqueio.
— Saiam da minha frente — Sephiroth rosnou, o punho cerrando com mais força em volta da espada.
Vincent não vacilou. O atirador manteve o olhar rubro cravado nos olhos do platinado, assumindo o peso bruto da autoridade que a situação exigia para puxar o filho de volta à realidade.
— É exatamente isso que Hojo quer, Sephiroth — Vincent retrucou, a voz rouca e implacável cortando a cegueira da fúria do guerreiro. — Ele arquitetou essa emboscada para te desestabilizar. Ele quer que você vá atrás dele cego, irracional e sozinho. Se formos um por um, faremos exatamente o que ele planejou e perderemos a bebê.
Enquanto a tensão fervia na entrada da gruta sob o impasse letal, o foco de sobrevivência tomava conta do centro do acampamento. Aerith deslizou de joelhos para perto de Lucrecia, o rosto iluminado por uma preocupação profunda ao olhar para a garota que ofegava entre elas, os olhos pesados e perdidos pelo choque.
— Ela vai ficar bem, Lucrecia? — Aerith perguntou, o tom urgente.
A cientista já havia deixado o pânico de lado, assumindo total controle clínico. Com movimentos ágeis e calculados, Lucrecia rasgou um pedaço largo de tecido limpo dos cobertores, aplicando compressão imediata no ventre de Inome para estancar a perda de sangue enquanto verificava as pupilas e a pulsação fraca dela.
— Estou estabilizando a temperatura corporal e contendo a hemorragia primária, mas o trauma sistêmico foi brutal — Lucrecia avaliou, a voz firme de quem entendia a gravidade do quadro, mantendo o sangue-frio para manter a nora viva. — O corpo dela foi forçado a um limite extremo de dilatação em questão de segundos. A dor que ela está suportando agora é imensurável.
Sem hesitar, Aerith posicionou-se ao lado da mulher mais velha. Ela imitou o gesto da cientista, espalmando as mãos com extrema delicadeza logo acima das mãos de Lucrecia sobre o abdômen de Inome. Fechando os olhos, a florista mergulhou em sua herança Cetra. Um brilho verde, morno e espesso emanou de suas palmas, fluindo como um rio de energia diretamente para os tecidos lesionados da garota. A magia não apenas estabilizou a pulsação, mas agiu como um anestésico imediato e poderoso, dissipando os espasmos violentos e drenando a dor física lancinante do corpo de Inome.
Tifa e Cloud se aproximaram do impasse tenso na entrada da gruta, sentindo a fúria congelante de Sephiroth bater de frente com a barreira inflexível formada por Vincent e Barret.
— Qual é o plano? — Tifa perguntou, a voz firme buscando quebrar a imobilidade e trazer o grupo para o foco tático.
Vincent manteve os olhos rubros fixos no platinado, mas respondeu com a frieza calculista de um atirador experiente.
— Avançamos juntos. Hojo usou um transporte de dobra, mas isso deixa um rastro residual de Mako corrompido que podemos seguir até a Cratera do Norte. O terreno lá é um labirinto de gelo e energia densa. A infiltração tática e em grupo é a nossa única vantagem real. Se formos espalhados, seremos abatidos.
Barret ergueu o braço-metralhadora, concordando com um aceno pesado.
— É isso aí. E quando chegarmos na base do desgraçado, a gente não bate na porta. A Avalanche e a Vanguarda entram como um paredão só. Nós varremos os monstros e cobrimos os flancos para garantir que nada atrapalhe o alvo principal.
A fúria de Sephiroth ainda fervia sob a pele, mas a estratégia violenta encontrou eco em sua mente. Ele apertou o cabo da Masamune até os nós dos dedos estalarem, finalizando o raciocínio com uma promessa letal.
— Nós invadimos a Cratera. Vocês destroem a linha de frente... e eu corto Hojo em pedaços lentos até ter a minha filha de volta.
Cloud, no entanto, franziu o cenho, a mente analítica processando as variáveis do pesadelo que haviam acabado de testemunhar.
— Mas e se for uma armadilha fechada? E se ele usar a bebê como escudo de novo quando invadirmos a câmara dele?
Vincent ajustou a gola do manto carmesim, o olhar brilhando com uma precisão sombria ao dar a palavra final sobre o assunto.
— Se ele cometer o erro de erguer a criança no meu campo de visão, eu decepo a mão dele com um tiro antes que ele consiga piscar. Nós marchamos ao amanhecer. Até lá, ninguém sai dessa gruta.
No centro do acampamento, o clima era de uma exaustão devastadora. Angeal observou a resolução na entrada e logo voltou sua atenção para o colchão no chão. Ele alternou o olhar preocupado entre a porta da caverna, onde Sephiroth estava, e a mulher deitada, abaixando-se um pouco mais perto.
— Você está melhor, Inome? — o veterano perguntou, a voz grave soando mansa e protetora.
Com a respiração finalmente estabilizada pelo calor do feitiço de cura de Aerith, Inome olhou para Angeal, Lucrecia e para a florista. Ela assentiu devagar, o rosto pálido ainda marcado pelas lágrimas secas.
— Sim... — ela sussurrou, a voz fraca. — A dor parou.
Mesmo com o alívio dos sintomas agudos, Lucrecia não abaixou a guarda médica. Por pura precaução, a cientista preparou uma bandagem limpa embebida em uma poção cicatrizante concentrada e envolveu o abdômen da nora, garantindo que os tecidos internos danificados ficassem completamente protegidos contra qualquer risco de hemorragia tardia ou infecção.
No entanto, com o fim da agonia física, o véu da adrenalina caiu. O silêncio na gruta permitiu que o cérebro de Inome processasse a realidade: o peso familiar em seu ventre havia sumido e seus braços estavam vazios. A falta da criança atingiu seu peito como um abismo profundo. Inome encolheu-se sobre os cobertores, levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Não era mais o grito de um corpo rasgando, mas o pranto convulsivo, sufocado e desesperado de uma mãe que acabara de perder a filha.
O som agudo e doloroso dos soluços dela ecoou pela pedra fria da caverna.
Aquele som atingiu Sephiroth de forma fulminante. A armadura de ódio, a postura de guerreiro implacável e o foco letal racharam e desmoronaram no mesmo milésimo de segundo. Ele soltou o cabo da espada, deu as costas para Vincent e Barret, abandonando a vigília, e correu cruzando a gruta.
O platinado caiu de joelhos pesadamente ao lado de Inome, os braços imensos envolvendo-a com uma urgência desesperada. Ele a puxou para o colo, escondendo o rosto na curva do ombro dela enquanto a abraçava contra o peito com toda a força e proteção que havia falhado em dar minutos antes.
— Me perdoe... — Sephiroth murmurou, a voz sempre imponente e controlada agora quebrando e falhando de forma irreconhecível, carregada por uma culpa que o consumia vivo. — Me perdoe, Inome.
Inome, com o rosto afundado no peito de Sephiroth, soluçou descontroladamente. Suas mãos agarraram a roupa dele, apertando com a pouca força que lhe restava após o trauma.
— A culpa não é sua... — ela engasgou entre as lágrimas, a voz embargada e trêmula. — Não é sua culpa, Seph. Mas nós precisamos alcançar o Hojo logo... precisamos ir atrás dele para recuperar a nossa filha.
O aperto de Sephiroth em torno dela se tornou ainda mais firme, como se tentasse blindá-la do próprio desespero que os engolia. Ele escondeu o rosto nos cabelos de Inome, a voz grave falhando de forma irreconhecível.
— Por culpa de milésimos... — o guerreiro murmurou, o peso daquela constatação esmagando sua mente. — Milésimos de segundo, e nós perdemos o nosso bem mais precioso.
A atmosfera fúnebre foi cortada pela voz densa de Angeal. O veterano se abaixou, apoiando uma mão pesada e reconfortante no ombro de Sephiroth.
— É só por enquanto. — Angeal cravou, o olhar severo brilhando com uma promessa inegociável de retaliação. — Hojo vai cobrar muito caro por tudo o que ele fez esta noite, eu garanto a vocês.
Atrás deles, Lucrecia permaneceu em silêncio. Sem encontrar qualquer palavra no mundo que pudesse curar uma ferida tão profunda, a cientista apenas levou as mãos trêmulas às costas de Inome e Sephiroth, acariciando os dois com uma delicadeza maternal e compassiva. Ela não proferiu um único som, mas seu peito ardia em uma dor excruciante, revivendo o próprio passado cruel na tragédia do filho e da nora.
Enquanto o luto consumia o centro do acampamento, Aerith se levantou devagar. Ela caminhou silenciosamente até a entrada da gruta, juntando-se à roda formada por Barret, Vincent, Cloud e Tifa, que ainda digeriam as consequências do ataque.
Ao se aproximar, a florista interveio para complementar a estratégia de Vincent, compartilhando informações cruciais sobre a estrutura do destino deles. Ela alertou sobre as anomalias brutais nas correntes do Lifestream, a queda drástica de temperatura e a densidade sufocante da energia estagnada que protegia o núcleo do abismo.
— O descanso esta noite é essencial, especialmente para a Inome e para que possamos suportar o ambiente lá dentro — Aerith explicou, o tom suave contrastando com a urgência do alerta. — Mas nós não podemos demorar muito.
A florista uniu as duas mãos sobre o próprio peito, fechando os olhos por um breve instante ao sentir as vibrações profundas da terra sob seus pés. Quando voltou a olhar para o grupo, sua expressão carregava toda a melancolia e o peso de sua ancestralidade Cetra.
— O planeta anseia por paz.
O silêncio denso e sufocante que se instalou na gruta foi quebrado pela voz áspera de Vincent. O atirador deu um passo à frente, assumindo o controle pragmático que a situação exigia.
— Escutem com atenção. — Vincent começou, o tom rouco ecoando pelas paredes de pedra, frio e inegociável. — O que nos espera na Cratera do Norte amanhã não é apenas Hojo. É um labirinto de Mako corrompido, frio extremo e abominações. Quem não descansar agora será um peso morto amanhã, e um erro custará a vida de Kether. O luto e a raiva ficam para depois. Agora, durmam. Isso é uma ordem tática de sobrevivência.
Tifa respirou fundo, os ombros tensos cedendo um pouco. Ela concordou com um aceno silencioso e chamou Angeal e Cloud com o olhar, caminhando junto com os dois em direção às cabanas e colchões improvisados. Barret, com a mandíbula travada, apenas deu um grunhido de concordância e voltou a caminhar lentamente pela entrada, retomando sua patrulha de guarda ininterrupta.
Lucrecia, no entanto, não seguiu para o acampamento. A cientista puxou o xale ao redor dos ombros e se aproximou de Vincent. Com a voz trêmula e os olhos marcados pelo pânico recente, ela sussurrou que simplesmente não conseguiria fechar os olhos e dormir. Vincent não a forçou; apenas assentiu em silêncio, permitindo que ela ficasse sentada ao seu lado na vigília.
Mais afastados do centro, em um canto escuro e isolado da gruta, sentados, Inome e Sephiroth permaneciam em seu próprio mundo despedaçado. Não havia palavras sendo trocadas entre eles, pois nenhuma seria suficiente. Era um momento estritamente silencioso e doloroso, onde Sephiroth a mantinha apertada em seus braços, o rosto escondido nos cabelos dela, enquanto Inome se agarrava à sua roupa. Eles se consolavam na escuridão, dividindo o vazio insuportável deixado pela ausência.
Já dentro de uma das cabanas, o clima era de pura frustração. Cloud estava sentado na beirada de seu colchonete, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos puxando os próprios cabelos loiros com força.
— Eu fui devagar demais... — Cloud murmurou, a voz carregada de culpa e raiva de si mesmo. — Eu devia ter saído mais rápido da barraca. Se eu tivesse reagido no primeiro grito, eu poderia ter dado suporte ao Sephiroth. Nós poderíamos ter cercado ele e pego o bebê antes que sumisse.
Angeal, sentado logo à frente do garoto, soltou um suspiro pesado. O veterano esticou o braço e deu um tapinha firme no ombro de Cloud, forçando-o a erguer a cabeça e sair daquela espiral.
— Não se culpe pelo que fugiu do nosso controle, Cloud. — Angeal repreendeu, o tom sério, mas compreensivo. — Hojo usou dobra espacial e jogou o jogo mais sujo possível. Ele fez a criança de escudo. Se você ou qualquer um de nós tivesse avançado de forma imprudente naquele momento, a recém-nascida teria recebido o impacto. Você hesitou porque não havia uma janela limpa para agir. Mantenha a cabeça no lugar, todos nós vamos precisar de você inteiro amanhã.
Enquanto a exaustão começava a derrubar o restante do acampamento, Aerith percebeu que o sono também não a alcançaria. A florista levantou-se em silêncio e caminhou furtivamente até o fundo da gruta, encontrando um canto onde a rocha bruta revelava pequenos veios de Mako cristalizado, um espaço que ressoava como um santuário natural e intocado.
Aerith ajoelhou-se sobre a pedra fria. Ela uniu as mãos na altura do peito, fechou os olhos e abaixou a cabeça.
— Eu não sou muito boa com palavras formais... e confesso que não sei rezar direito — ela sussurrou para o vazio, a voz doce tremendo de leve, buscando uma conexão direta com o Planeta. — Mas, por favor... eu peço força para suportarmos o que nos aguarda. Peço segurança e proteção para a pequena Kether, onde quer que ela esteja agora naquele frio. E peço foco... para mim e para todos os meus amigos. Não deixem que a escuridão nos desvie do nosso caminho.
A manhã seguinte despontou sem qualquer vestígio de calor. A luz cinzenta e pálida que invadiu a gruta encontrou o grupo já de pé, imerso em um silêncio denso e cortante. O clima era de uma marcha fúnebre e implacável. Ninguém trocava "bons dias" ou tentava amenizar o peso do que havia acontecido; cada movimento era estritamente mecânico e focado na retaliação.
O som metálico de pentes de munição sendo travados ecoava perto da saída. Vincent e Barret estavam lado a lado, verificando minuciosamente cada bala e mecanismo de suas armas, garantindo que o poder de fogo estivesse perfeito para o abate.
Um pouco mais ao centro, Cloud passava um pano grosso pela lâmina colossal da Espada Buster, checando o fio e o peso da arma. Angeal observava o garoto de perto, assumindo a postura de mentor com uma calma cirúrgica. Em voz baixa, o veterano explicava alguns segredos fundamentais sobre o manuseio da lâmina, corrigindo a empunhadura de Cloud e detalhando como usar a parte chata da espada para absorver impactos brutais sem quebrar os próprios pulsos, maximizando a eficiência dos golpes contra as abominações que enfrentariam.
Tifa terminava de ajustar as tiras de couro de suas luvas, puxando o tecido com força e testando a flexibilidade dos dedos, com o olhar endurecido e focado no chão de pedra.
Perto dali, Aerith parecia alheia ao metal e ao couro. A florista mantinha o olhar perdido na escuridão da montanha, a expressão aérea e distante, como se escutasse vozes que ninguém mais conseguia ouvir. Percebendo a ausência da garota, Lucrecia se aproximou em silêncio e tocou levemente no braço dela, chamando-a para o fundo da gruta para conversarem a sós.
A cientista hesitou por um segundo, levando a mão ao próprio peito antes de confessar sua aflição.
— Aerith... — Lucrecia murmurou, a voz carregada de uma ansiedade sombria. — Você já sentiu esse aperto no peito? Como se uma sombra estivesse esmagando os seus pulmões, avisando que algo muito ruim está prestes a acontecer?
Aerith piscou, voltando a focar os olhos verdes no rosto pálido da mulher mais velha. Ela deu um sorriso melancólico e compreensivo, apoiando a própria mão sobre a de Lucrecia.
— O tempo todo, Lucrecia. — Aerith respondeu com um suspiro suave e resignado. — A minha condição como Cetra me liga diretamente ao fluxo do Planeta. Quando a terra sofre ou quando o Mako é corrompido, o meu peito sempre responde com esses apertos. É o Planeta chorando... e nos avisando do perigo.
O diálogo foi interrompido pelo som de passos pesados ecoando pelas pedras.
Sephiroth caminhou até o centro do acampamento. Vestindo suas roupas comuns e pesadas para suportar o clima da montanha, ele carregava Inome firmemente em seus braços, recusando-se a deixá-la dar um único passo após o trauma biológico da madrugada. Encolhida e pálida, Inome mantinha o rosto escondido na curva do pescoço dele, agarrada ao tecido do casaco com uma força desesperada, buscando o único refúgio seguro que lhe restava.
O guerreiro parou, a Masamune perfeitamente presa às costas e os olhos felinos brilhando com uma letalidade gélida. Ele varreu o olhar pelo grupo, avaliando o estado de cada um ali presente.
— Todos prontos? — Sephiroth perguntou, a voz grave e inegociável, soando como a sentença de morte para o que quer que cruzasse o caminho deles a partir daquele momento.
Lucrecia se aproximou do filho. Mesmo com o cansaço e a dor da noite anterior marcando seu rosto, ela forçou um sorriso contido e reconfortante na direção dele e de Inome, que continuava encolhida em seu peito.
— Todos prontos — ela confirmou, a voz mansa, porém decidida.
Sem perder um único segundo, Vincent assumiu a liderança da marcha. O atirador tomou a frente, o manto carmesim esvoaçando contra o vento cortante da saída da gruta. Barret, Tifa e Cloud seguiram logo atrás dele em uma formação apertada e tática, prontos para disparar contra qualquer ameaça que surgisse na trilha.
Antes de se alinhar ao restante do grupo, Aerith parou por um momento ao lado de Lucrecia. A florista sustentou o olhar da cientista com uma intensidade profunda e serena.
— Lucrecia... — Aerith disse, a voz soando quase como um sussurro reconfortante. — Se você precisar de algo, pode contar comigo e com o Planeta. Mas você precisa pedir... do fundo do seu coração.
Enquanto o grupo começava a avançar, deixando a gruta para trás e entrando de vez nos caminhos cinzentos e congelantes do Monte Corel, Angeal reduziu um pouco o passo até se emparelhar com Sephiroth. Com a espada colossal firme nas costas e o olhar vigilante varrendo as laterais da montanha, o veterano assumiu sua posição.
— Eu serei a retaguarda de vocês dois — Angeal declarou, a voz grave acompanhando o ritmo constante da marcha. — Ninguém chega perto sem passar por mim primeiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário ajuda muito com a continuação da história!! Não deixe de comentar :)