terça-feira, 18 de agosto de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capitulo 23

 


O vento uivava de forma ensurdecedora quando o grupo finalmente alcançou a entrada da Cratera do Norte. O ar era cortante e sufocante, impregnado com um brilho esverdeado e doentio do Mako estagnado que emanava das profundezas do abismo. A estrutura colossal de gelo e rocha escura parecia uma ferida aberta e purulenta na superfície do planeta.
Não demorou para que a recepção de Hojo se revelasse. Surgindo das fendas congeladas e das sombras densas, aberrações retorcidas avançaram contra eles. Eram bestas disformes, com músculos latejantes expostos e garras de obsidiana, babando uma energia tóxica que corroía o gelo.
Sem hesitar, a vanguarda entrou em ação. O estrondo da metralhadora de Barret rompeu o silêncio fúnebre, rasgando a linha de frente das criaturas com uma tempestade implacável de chumbo. Cloud avançou em um borrão veloz, a Espada Buster cortando as abominações ao meio com golpes limpos, pesados e devastadores. Tifa esmagava carapaças e crânios a cada soco concentrado, esquivando-se com uma agilidade letal, enquanto os disparos precisos e trovejantes da Cerberus de Vincent abatiam instantaneamente qualquer monstro que tentasse flanquear o grupo.
Logo atrás da linha de frente implacável, Aerith e Lucrecia caminhavam lado a lado a passos rápidos, mantendo-se seguras no centro da formação enquanto a carnificina abria caminho pela neve manchada.
Assim que a última aberração daquela horda caiu, desfazendo-se em uma fumaça de Mako condensado, Vincent abaixou a arma e estreitou os olhos rubros, analisando criticamente os restos da criatura mais próxima antes que ela se dissolvesse por completo.
— Essas coisas não estão atacando por instinto de sobrevivência... — Vincent cravou, a voz rouca ecoando por cima do vento cortante. — A estrutura celular delas é artificial. Estão em modo de defesa coordenada. Hojo está usando uma ressonância de controle direto sobre elas. Nós já estamos andando dentro do território da mente dele.
A constatação pesada fez a retaguarda entrar em alerta máximo imediato. Caminhando logo atrás, Angeal travou a mandíbula e ergueu a lâmina colossal, os músculos retesados para qualquer emboscada. Sephiroth, que seguia protegendo o centro, parou de supetão. Os olhos felinos do guerreiro brilharam com uma letalidade gélida, varrendo cada sombra daquele labirinto de gelo.
Ainda nos braços do platinado, suportando a dor e a exaustão física do parto prematuro, Inome recusou-se a ser apenas uma espectadora. Com um movimento rápido e impulsionada por um ódio maternal inesgotável, ela sacou a própria arma. O estalo metálico da trava de segurança ecoou nítido. Mesmo ferida e debilitada, ela apertou o cabo da arma com firmeza, os olhos cravados na escuridão da Cratera, pronta para atirar em qualquer coisa que tentasse se colocar entre ela e sua filha.
A descida até o núcleo da Cratera foi brutal. Hordas infindáveis de mutações tentavam soterrá-los, mas a fúria do grupo não deixava brechas. Angeal e Cloud atuavam como moedores de carne, as espadas colossais destroçando carapaças e membros com ataques giratórios sincronizados. Tifa deslizava por baixo das guardas inimigas, esmagando costelas artificiais com socos revestidos de energia, enquanto Vincent e Barret cobriam os flancos, transformando qualquer aberração voadora em uma nuvem de sangue e Mako antes mesmo que pudessem ameaçar Aerith. Sephiroth avançava como um ceifeiro implacável, a Masamune traçando arcos prateados que fatiam dezenas de monstros em um piscar de olhos, enquanto seu outro braço mantinha Inome segura contra o peito.
Quando as paredes de gelo finalmente se abriram, revelando o vasto e cintilante epicentro da Cratera, o ar tornou-se denso a ponto de esmagar os pulmões.
Lá estava Hojo, ou o que restara dele. O jaleco branco fora rasgado e absorvido por uma massa grotesca de carne pálida, tubos de Mako e aço. A metade inferior de seu corpo havia se fundido ao próprio núcleo da Cratera, transformando-se em um aglomerado aracnídeo de garras ósseas e tentáculos mecânicos. O tronco era desproporcional, o rosto do cientista esticado em uma máscara de insanidade por trás dos óculos trincados. E logo acima de sua cabeça, flutuando como uma coroa macabra, havia uma bolha translúcida de energia pura.
Dentro dela, Kether chorava desesperadamente, o som estridente e doloroso ecoando pelo abismo. Filamentos luminosos se conectavam do interior da bolha diretamente à medula exposta de Hojo, sugando a força vital e a energia dormente da recém-nascida a cada batida do coração.
— Contemplem o ápice da evolução! — a voz de Hojo reverberou distorcida, multiplicando-se por dezenas de ecos guturais. — A Reunião não é mais apenas sobre o retorno a Jenova. É sobre a convergência absoluta! As células da calamidade fundidas à herança pura e imaculada dessa nova vida! Ela é o combustível perfeito e inesgotável para a minha divindade!
O choro agoniado da filha foi o gatilho final. A paciência de Sephiroth, já no limite, estilhaçou-se por completo.
Com um movimento ágil e protetor, o guerreiro abaixou-se ao lado de uma rocha maciça e entregou Inome com extremo cuidado aos braços de Lucrecia, que já a aguardava. Sephiroth se endireitou, a aura assassina irradiando de seu corpo de forma tão densa que o chão de gelo ao seu redor começou a rachar. Ele tomou a linha de frente, emparelhando-se com Angeal, Cloud, Tifa, Barret e Vincent, e cravou o olhar no monstro.
— A palhaçada acaba aqui, Hojo. — Sephiroth rosnou, erguendo a Masamune.
Hojo soltou uma gargalhada metálica e ergueu quatro braços colossais. A batalha explodiu.
Sephiroth e Angeal dispararam na frente, as lâminas se chocando contra as garras ósseas do cientista em uma chuva de faíscas e estrondos supersônicos. Cloud aproveitou a abertura, saltando sobre os tentáculos inferiores com a Espada Buster brilhando em um corte vertical avassalador que decepou um dos apêndices mecânicos. Hojo urrou, varrendo o campo de batalha com um feixe de Mako disparado de seu peito.
Tifa desviou do feixe com uma cambalhota perfeita, impulsionou-se em uma coluna de gelo e acertou um chute em queda livre direto no maxilar de Hojo, desestabilizando a criatura. Aerith, com o cajado em punho, conjurava barreiras de luz esmeralda que absorviam os ataques em área do monstro, mantendo a vanguarda protegida, ao mesmo tempo em que lançava estacas de magia purificadora contra a carne exposta do cientista. Vincent rodopiava pelo ar, os tiros da Cerberus explodindo nas articulações mais frágeis da aberração, cobrindo as investidas de Barret, que despejava rajadas incessantes de metralhadora no tronco de Hojo. Era um massacre equilibrado, a precisão e a fúria da Avalanche e da Vanguarda batendo de frente contra o poder divino e distorcido do cientista.
Ao longe, protegida pela rocha e amparada por Lucrecia, Inome apertava os dentes. O corpo ainda ardia e latejava de dor, mas o ódio e o choro incessante da filha a mantinham alerta. Ela firmou a respiração, ignorou o tremor nas mãos e alinhou a mira da arma, observando a movimentação caótica da luta.
Quando a aberração ergueu um braço massivo para esmagar Cloud pelas costas, o som seco do disparo de Inome ecoou. A bala perfurou em cheio um dos múltiplos olhos secundários espalhados pelo ombro mutante de Hojo, jorrando um líquido negro e viscoso. O monstro recuou o braço instintivamente em um grunhido de dor, dando a Cloud o milésimo de segundo necessário para esquivar da retaliação, enquanto Sephiroth aproveitava o ponto cego criado pelo tiro de Inome para enterrar a Masamune profundamente na base do pescoço do cientista.
Mas antes que a lâmina prateada de Sephiroth pudesse afundar na carne do cientista, o tempo pareceu congelar. O impacto não veio.
A Masamune parou a centímetros do pescoço de Hojo, tremendo no ar. Sephiroth travou, os músculos imensos de seus braços tensionados até o limite, enquanto os olhos felinos perdiam o foco. Ao redor dele, Cloud, Angeal e Vincent também paralisaram brutalmente, as armas caindo ou sendo abaixadas enquanto um zumbido estridente e enlouquecedor invadia a mente dos quatro guerreiros. A herança celular que carregavam — o legado maldito de Jenova e dos experimentos do passado — vibrou em uníssono, respondendo à frequência de controle absoluto que emanava do monstro à frente deles. O esforço titânico de resistência não valeu de nada; o poder mental de Hojo era implacável.
Hojo soltou uma gargalhada ensurdecedora, o som reverberando pelas paredes de gelo, misturando-se ao choro desesperado de Kether na bolha acima dele.
— Vocês realmente acharam que poderiam levantar armas contra o seu criador? — o cientista zombou, os múltiplos olhos brilhando com puro sadismo. — A carne de vocês me pertence! Cada célula, cada instinto... tudo responde ao meu comando. A verdadeira Reunião exige sacrifício. Que o show comece!
No instante seguinte, as expressões dos quatro homens se esvaziaram por completo, substituídas por uma submissão letal e vazia.
Com um movimento sincronizado e assustador, Sephiroth e Vincent deram as costas para Hojo. Num salto desumano, cobrindo a distância do campo de batalha em uma fração de segundo, os dois avançaram como meteoros em direção à rocha onde as mulheres se escondiam.
Lucrecia arregalou os olhos. Num instinto desesperado de sobrevivência, ela agarrou Inome pelos braços, puxando o corpo debilitado da nora com toda a força que tinha. O movimento foi desengonçado e pesado; Lucrecia lutava para sustentar o próprio peso e o de Inome, que ainda arfava de dor. A garra metálica de Vincent rasgou o gelo exatamente onde as duas estavam milésimos de segundo antes, enquanto a Masamune de Sephiroth desceu em um corte vertical que partiu a rocha ao meio.
— Vincent! Sephiroth! Pelo amor de Gaia, acordem! — Lucrecia berrou, a voz rasgando a garganta enquanto puxava Inome para trás, desviando por um triz de um novo disparo da Cerberus. — Vocês são mais fortes do que ele! Vincent, você me prometeu! Prometeu que estaríamos juntos! Sephiroth, olhe para mim! Olhe para a Inome! A sua filha está ali em cima chorando por você! Você é o meu filho, não um fantoche desse monstro! Por favor, lutem!
Mas os dois não emitiam um único som. Seus rostos eram máscaras de pedra, os ataques sendo desferidos com uma frieza mecânica e assassina. Com o coração acelerado quase rasgando o peito, Inome ignorava a dor latejante no ventre, firmando as pernas trêmulas no chão de gelo para ajudar a sogra a puxar o peso do corpo e esquivar dos golpes que não paravam de chegar.
Do outro lado do epicentro, o caos era o mesmo. Cloud girou a Espada Buster em um arco devastador, forçando Tifa a dar um salto mortal para trás para não ser cortada ao meio. A lutadora aterrissou deslizando pelo gelo, os olhos marejados ao encarar o vazio no olhar de Mako do rapaz.
— Cloud, para com isso! Sou eu! — Tifa gritou, desviando de uma estocada pesada que estilhaçou o chão ao seu lado. — Lembra de nós! Lembra do Seventh Heaven, da promessa que você me fez no poço sob as estrelas em Nibelheim! Você prometeu que me protegeria, Cloud! Você não é a marionete dele, você é o Cloud! Volta pra mim!
Perto dali, Barret rolava pesadamente pela neve, escapando por milímetros de um corte brutal da espada de Angeal, que avançava com a precisão letal de um general implacável. O grandalhão ergueu o braço-metralhadora, mas recusou-se a apertar o gatilho contra o aliado.
— Qual é, Angeal! Cadê aquela honra que você tanto prega, hein?! — Barret vociferou, ofegante, esquivando-se de mais um golpe pesado que fez o ar zumbir. — Vai deixar esse cientista de merda te usar como um cão de guarda?! Pensa na Marlene! A garotinha te adora, cara! Você acha que ela ia gostar de ver o 'tio Angeal' agindo como um soldadinho pau-mandado da Shinra?! Luta contra essa merda!
O riso de Hojo engoliu o som das lâminas se chocando. O cientista ergueu a carcaça grotesca, absorvendo a essência que fluía da bolha acima dele, deliciando-se com a submissão dos guerreiros mais letais do Planeta.
— Contemplem o alvorecer da verdadeira perfeição! — Hojo vociferou, a voz mecânica e disforme ecoando como um trovão pela Cratera. — Gaia agora pertence a mim e a Jenova! O velho mundo apodrecerá para que um novo império seja construído, erguido pela energia pura e inesgotável desta criança! A força de Kether é magnífica... Tão forte e avassaladora quanto a do meu espécime falho, Sephiroth, mas destituída de rebeldia! Ela é o sacrifício supremo que me elevará à divindade!
Enquanto a insanidade de Hojo atraía todas as atenções, Aerith cravou a base do seu cajado no chão de gelo. Ignorando a ameaça iminente e o frio mortal, ela fechou os olhos e uniu as mãos no peito. A florista não clamou com palavras, mas com a própria alma. Ela afundou sua consciência nas raízes cristalizadas da Cratera, conectando-se diretamente ao Lifestream. O Planeta reconheceu o apelo desesperado da última Cetra e respondeu.
Um brilho verde-esmeralda, ofuscante e colossal, irrompeu do corpo de Aerith. A magia primordial varreu a escuridão do abismo como uma onda de choque. Com o máximo de seu poder ancestral canalizado, Aerith moldou a luz em torno da bolha suspensa. Em um puxão magnético e implacável, a energia Cetra cortou os filamentos de Mako que conectavam Hojo à criança, arrancando Kether do domínio da aberração e puxando a recém-nascida pelo ar.
A ruptura abrupta da conexão vital fez a criatura cambalear. O transe mental que dominava os quatro guerreiros estilhaçou-se no mesmo instante em que a concentração de Hojo foi quebrada.
Sephiroth parou no meio do golpe. Os músculos tensionados e trêmulos de seus braços forçaram a Masamune a desviar seu curso letal a centímetros do rosto de Lucrecia. Ofegante, ele piscou repetidas vezes, a letalidade vívida e consciente retornando aos olhos felinos.
— Me perdoem... — Sephiroth sussurrou entre dentes para a esposa e a mãe, o rosto contorcido pela culpa e pelo alívio imediato de não ter derramado o sangue delas. Sem perder outro milésimo de segundo, o guerreiro girou o corpo com uma fúria brutal e cravou os olhos em Hojo.
— Você vai pagar com cada pedaço desse seu corpo imundo, Hojo — Vincent rosnou, o olhar escarlate incendiado de ódio enquanto recarregava a Cerberus com movimentos rápidos e precisos.
Cloud sacudiu a cabeça, expulsando os últimos resquícios da névoa em sua mente. Ele firmou a bota no gelo, empunhando a Espada Buster com as duas mãos, enquanto Angeal se posicionava ao seu lado, a lâmina colossal erguida e o semblante endurecido pela indignação.
— A sua hora chegou, Hojo! — Cloud gritou, avançando ao lado de Angeal.
Os quatro explodiram em um contra-ataque avassalador. O ar da Cratera zumbiu sob a pressão de lâminas colossais, disparos estrondosos e a lâmina prateada da Masamune fatiando a carne e o aço do cientista. Eles lutavam como um só furacão de pura vingança, cada golpe desestabilizando ainda mais a estrutura mastodôntica do monstro e forçando Hojo a recuar.
Aproveitando o caos da batalha, Aerith amparou Kether suavemente nos braços após a queda mágica e correu pelo campo de gelo. Ela alcançou Inome e Lucrecia, guiando-as rapidamente para um novo esconderijo blindado atrás de uma muralha espessa de rocha congelada, longe da zona de impacto.
Ofegante, mas com um sorriso doce e carregado do mais puro alívio iluminando seu rosto, Aerith se abaixou ao lado de Inome e estendeu o pequeno pacote embrulhado.
— Aqui está o seu bem mais precioso... — a florista sussurrou, a voz soando como um bálsamo.
Inome sentiu o mundo parar. Ela soluçou alto, o coração quase saltando do peito. Com as mãos ainda trêmulas pela exaustão e pela adrenalina, a garota pegou Kether, puxando a filha contra o próprio rosto. A bebê, sentindo o calor e o cheiro da mãe, começou a acalmar o choro aos poucos.
— Obrigada... Obrigada, Aerith... — Inome chorou copiosamente, as lágrimas lavando seu rosto machucado enquanto ela enterrava o rosto nos cobertores da recém-nascida, abraçando a filha com a certeza absoluta de que nunca mais a soltaria.
O urro enfurecido de Hojo ecoou pelo núcleo da Cratera, e a trégua durou apenas os segundos em que Aerith esteve distante. Assim que a atenção do cientista se voltou novamente para a ameaça à sua frente, a ressonância celular atacou com o dobro de violência.
Os quatro guerreiros travaram no lugar simultaneamente. Sephiroth cravou os dedos no próprio rosto, um rosnado gutural rasgando sua garganta enquanto ele tentava, com cada fibra do seu ser, lutar contra a invasão. Vincent caiu de joelhos, a mão metálica tremendo violentamente enquanto segurava a própria cabeça. Cloud e Angeal fincaram suas espadas no gelo, tentando ancorar as próprias mentes. Mas o poder da aberração alimentada por Mako estagnado era esmagador. O brilho letal apagou-se de seus olhos mais uma vez, substituído pela escuridão da submissão absoluta.
Eles se ergueram, erguendo suas armas não mais contra o criador, mas contra seus aliados.
Percebendo o perigo iminente, Aerith deixou o esconderijo às pressas, correndo de volta para o epicentro do campo de batalha. A florista girou o cajado no ar, conjurando uma abóbada de luz esmeralda no exato milésimo de segundo em que Sephiroth e Vincent dispararam contra Tifa e Barret.
A colisão foi estrondosa. Aerith mantinha as duas mãos firmes no cajado, os dentes trincados enquanto canalizava sua energia para fortalecer as barreiras mágicas. Tifa lutava com uma agilidade desesperada, deslizando por baixo dos arcos mortais da Espada Buster de Cloud, usando as luvas reforçadas para desviar a lâmina pesada pelo lado cego, enquanto desferia chutes no ar para manter Angeal afastado. Barret rugia, girando o corpo e usando a couraça de sua arma para aparar os golpes brutais do veterano de honra, enquanto a metralhadora cuspia fogo em rajadas curtas para interceptar os disparos incessantes de Vincent, que ricocheteavam nas pedras de gelo.
Aerith dançava no meio do caos. Ela deslizava entre os ataques, invocando correntes de vento para empurrar Cloud e Angeal, ao mesmo tempo em que reerguia os escudos de Reflect toda vez que a Masamune de Sephiroth ameaçava fatiar Tifa. Era uma defesa angustiante, exaustiva, uma luta contra guerreiros que possuíam o poder de rasgar o próprio planeta, e que agora atacavam sem freios ou piedade.
Atrás da rocha de gelo, Lucrecia assistia ao massacre. Ela via o filho sendo usado como uma ferramenta sem alma. Via o homem que amava sendo forçado a apertar o gatilho contra seus amigos. A dor, a culpa e a submissão que a acorrentaram por trinta anos dentro daquela caverna de cristal finalmente entraram em ebulição. O medo derreteu, dando lugar ao ódio em estado bruto.
Num momento de pura e incontrolável fúria, Lucrecia saiu do esconderijo.
Ela caminhou a passos duros até a beirada do campo de batalha, ignorando o perigo das lâminas voando e dos tiros que rasgavam o ar. Com os olhos escuros brilhando de forma aterrorizante, ela apontou o dedo trêmulo diretamente para a abominação no centro da Cratera.
— CHEGA! — o grito de Lucrecia ecoou com uma força que ela não sabia que ainda possuía, paralisando até o som do vento. — Acabou, Hojo! Acabou o seu show de horrores! Você passou a vida inteira fingindo ser um deus, quando não passa de um verme patético, invejoso e minúsculo! Um homem tão vazio que precisou roubar o meu corpo, o meu filho e a minha vida para tentar construir uma grandeza que você nunca teve a capacidade de alcançar sozinho!
Hojo virou o rosto grotesco na direção dela, múltiplos olhos estreitando-se em confusão e desdém, mas Lucrecia não o deixou falar. A voz dela subiu de tom, carregada com o peso de três décadas de lágrimas engolidas.
— Você destruiu o meu passado, mas você não vai tocar no futuro deles! Você não vai tirar do Sephiroth a chance de viver em paz nesta vida, com a esposa e a filha que o amam! — As lágrimas escorreram pelo rosto da cientista, mas sua postura era implacável. — E você não vai tirar a vida do homem que sempre esteve ao meu lado! Do amor da minha vida... que, por sinal, nunca foi você!
Lucrecia ergueu o rosto para o alto, abrindo os braços para a vastidão da Cratera. Com o coração rasgado e batendo a mil por hora, ela ignorou a ciência e entregou sua alma ao inexplicável.
— Gaia! Planeta, se você me escuta! — ela implorou em um grito desesperado e gutural. — Eu lhe dou tudo o que eu sou! Leve a minha vida, leve a minha culpa, mas me dê o maior dos poderes! Me dê a força para varrer esse monstro da face deste mundo para sempre!
Antes que Hojo pudesse sibilar qualquer zombaria ou ordenar que Sephiroth a executasse, o Lifestream respondeu ao clamor.
Uma luz dourada, cega e fulminante, irrompeu repentinamente do centro do peito de Lucrecia. No mesmo milésimo de segundo, no meio do campo de batalha, o peito de Aerith entrou em ressonância absoluta, explodindo em um clarão verde e prateado idêntico.
O tempo parou. Os ataques dos guerreiros controlados congelaram no ar, rechaçados pela densidade esmagadora do Mako em seu estado mais puro.
A luz ergueu Lucrecia e Aerith do chão. As duas flutuaram em direção ao centro do abismo, levitadas por correntes de vento cálido que derreteram o gelo ao redor. Os corpos das duas mulheres tornaram-se silhuetas de energia pura, etéreas e brilhantes. Laços de fitas translúcidas de luz giraram ao redor de ambas em um vórtice magnífico, como se o próprio Planeta estivesse tecendo vestes divinas ao redor delas. Os ventos uivaram uma melodia ancestral. As silhuetas se tocaram, as mãos de energia se entrelaçaram, e, em um clarão ofuscante que baniu toda a escuridão do abismo, elas se fundiram em um só ser.
Uma explosão de penas douradas e cristalinas varreu a Cratera.
Quando a luz abaixou o suficiente para que olhos mortais pudessem ver, não havia mais Lucrecia e não havia mais Aerith. Pairando no ar, banhada por uma aura celestial inabalável e trajando uma armadura de prata e ouro reluzentes, com asas imensas e divinas abertas às suas costas, estava a manifestação física da vontade do Planeta.
A Deusa Minerva havia despertado.
A voz que ecoou pelo núcleo da Cratera não pertencia apenas a Lucrecia ou a Aerith. Era um timbre dual, celestial e absoluto, ressoando com a autoridade inquestionável de quem carrega a vontade e a ira do próprio Planeta.
— Você vai pagar por todos os seus pecados, Hojo. — Minerva ordenou.
Com um bater colossal de suas asas de luz, a Deusa disparou. A força de sua propulsão estilhaçou o gelo endurecido sob ela, criando uma cratera instantânea.
Hojo urrou, uma mistura de fúria cega e incredulidade diante do poder divino que agora o enfrentava. O cientista deformado ergueu seus quatro braços colossais e disparou uma chuva ininterrupta de estacas de osso farpado e rajadas de Mako corrompido, tentando empalá-la no ar. Minerva rodopiou pelo espaço com uma fluidez etérea, a armadura reluzindo enquanto ela desviava de cada projétil com milímetros de folga. Um rastro de luz dourada acompanhava seus movimentos, desintegrando o Mako tóxico apenas com o calor de sua presença.
Mas o cientista não estava sozinho na defesa. Telepaticamente, Hojo ordenou que suas marionetes a destruíssem.
Sephiroth foi o primeiro a interceptá-la. O platinado surgiu em um salto vertiginoso, a Masamune traçando um arco prateado e letal que mirava diretamente o pescoço da Deusa. Minerva não ergueu sua arma contra ele. Com uma graça sobrenatural e absoluta precisão, ela curvou o corpo para trás no ar em pleno voo; a lâmina de dois metros cortou apenas o vazio e alguns feixes de sua aura. Em um movimento rápido e contido, Minerva espalmou a mão contra o peitoral do guerreiro e liberou uma rajada de vento denso e macio, empurrando Sephiroth para trás, fazendo-o aterrissar ileso no solo de gelo, distante o suficiente para não atacar de imediato.
No milésimo de segundo seguinte, Cloud e Angeal flanquearam a Deusa. A Espada Buster e a lâmina colossal do veterano desceram simultaneamente como guilhotinas titânicas. Minerva simplesmente abriu suas asas. Uma barreira de chamas brancas e frias se ergueu ao redor dela — chamas que não queimavam, mas que possuíam densidade física. As duas espadas massivas colidiram contra a luz, o impacto fazendo o chão tremer, mas a barreira absorveu 100% da força cinética. A repulsão elástica da magia fez Cloud e Angeal perderem a empunhadura e escorregarem pesadamente para trás, caindo na neve sem qualquer arranhão.
O som estrondoso de disparos cortou o ar. Vincent, frio e letal sob o transe, atirava incessantemente com a Cerberus, buscando pontos vitais. Minerva girou sua lança divina com uma velocidade absurda, criando um escudo espelhado. O som do aço mágico rebatendo o chumbo ecoou em alta frequência. Ela defletiu cada bala para o teto da caverna, tomando o cuidado extremo de não ricochetear nenhum projétil na direção do atirador carmesim.
A recusa de Minerva em machucar as marionetes e a facilidade com que as neutralizava fez a mente corrompida de Hojo ferver de frustração.
— Morra, sua anomalia patética! — Hojo rugiu.
O monstro aranha ergueu a carcaça. De seu peito aberto, um vórtice de energia negra, vermelha e pútrida começou a girar, condensando a energia dos lamentos do abismo. Ele disparou um feixe devastador, largo como um pilar, que rasgava a própria realidade em direção à Deusa.
Minerva não recuou. Ela segurou a lança com as duas mãos e cravou a base da arma no próprio ar, como se houvesse chão firme. Um glifo imenso e dourado com o formato de uma flor de lótus desabrochou na frente dela. Quando o feixe de aniquilação de Hojo colidiu com o escudo de luz pura, a onda de choque varreu a Cratera. As paredes de gelo racharam, estalactites desabaram e o som da colisão foi ensurdecedor, mas a luz de Minerva não cedeu um único centímetro para as trevas do cientista.
Enquanto a batalha de proporções divinas estilhaçava o núcleo da Cratera, cegando o ambiente com explosões de luz e trevas, Tifa e Barret aproveitaram a abertura. Com o controle de Hojo focado inteiramente em fazer os quatro guerreiros caçarem Minerva, o caminho até Inome estava livre.
Tifa e Barret correram desesperadamente, deslizando pelo gelo e desviando dos blocos de pedra que desabavam do teto, até alcançarem a formação rochosa onde as mulheres haviam se abrigado.
Lá atrás, alheia à magnitude da Deusa no ar, Inome continuava no mesmo lugar. Ela estava encolhida no chão frio, os joelhos recolhidos contra o peito e o corpo inteiro curvado para frente. Ferida, exausta e em choque, ela formava uma concha humana e impenetrável, abraçando Kether contra o próprio coração. A bebê choramingava baixinho, protegida do frio e do barulho apocalíptico pelo calor do corpo da mãe.
Tifa deslizou de joelhos até Inome, ofegante, esticando as mãos para tocar os ombros da garota e mostrar que eles estavam ali. Barret nem sequer se abaixou; o grandalhão parou firme logo à frente das duas, plantando os pés no gelo rachado. Ele ergueu o braço-metralhadora e flexionou o braço bom, transformando seu próprio corpo imenso em um muro inabalável, disposto a interceptar qualquer destroço, tiro perdido ou aberração que tentasse chegar perto de Inome e da recém-nascida.
O núcleo da Cratera tremia sob o impacto da divindade. Hojo, percebendo que seus feixes de energia pútrida e suas marionetes não eram capazes de arranhar a armadura da Deusa, entrou em um estado de puro desespero. O monstro fundiu todos os seus tentáculos mecânicos e garras de osso em um único canhão grotesco no centro de seu peito, sugando o restante da energia corrompida do abismo para um disparo final e apocalíptico.
Minerva não hesitou. Com um bater majestoso e ensurdecedor de suas asas de luz, ela ascendeu até o teto da caverna. O ar ao seu redor cintilou quando ela canalizou a força vital do próprio Planeta na ponta de sua lança dourada. Quando Hojo disparou o pilar de trevas absolutas, Minerva mergulhou.
Ela desceu como uma estrela cadente, cortando o feixe de aniquilação ao meio com a facilidade de uma lâmina rasgando seda. A lança divina atingiu o núcleo do peito de Hojo com uma precisão cirúrgica e devastadora.
Não houve explosão de fogo ou sangue. Apenas o clarão purificador do Lifestream. A luz sagrada inundou as veias artificiais da abominação, queimando a corrupção de Jenova de dentro para fora. Hojo abriu a boca para um último urro de agonia, mas o som foi engolido pela pureza da luz. Seu corpo grotesco, a base de Mako estagnado e suas ambições doentias racharam como vidro e desintegraram-se instantaneamente em cinzas brancas, sendo varridas pelo vento celestial.
Com a morte definitiva do cientista, a frequência letal que controlava as células dos guerreiros foi obliterada. O fio invisível que os prendia partiu-se de uma só vez.
Sephiroth, Vincent, Cloud e Angeal pararam bruscamente no meio de seus ataques. As armas massivas e pesadas escorregaram de suas mãos, caindo com um baque surdo sobre o gelo. A exaustão mental e o trauma do transe cobraram o preço no mesmo milésimo de segundo. Os quatro homens fecharam os olhos e desabaram no chão da Cratera, completamente desacordados, mas, pela primeira vez, respirando livres da sombra de Hojo.
O silêncio desceu sobre o abismo, quebrado apenas pelo vento cálido que a presença de Minerva emanava.
A Deusa pousou suavemente no centro do campo de batalha. A lança em sua mão dissolveu-se em partículas cintilantes, e suas asas começaram a perder a densidade, desfazendo-se lentamente em penas de luz dourada e esmeralda. Minerva virou-se para os que ainda estavam despertos. Ela uniu as mãos à frente do peito, em um gesto que Aerith fazia tantas vezes, e sorriu. O semblante era etéreo, mas carregava a doçura e a tristeza de uma despedida iminente.
Quando ela falou, o timbre celestial não era o de uma divindade intocável. Eram duas vozes femininas perfeitamente entrelaçadas em harmonia — a sabedoria melancólica de Lucrecia e a pureza acolhedora de Aerith.
— A nossa jornada e a nossa dor terminam aqui. — A voz dupla ecoou, mansa e reconfortante, aquecendo o ar congelante. — Não há palavras no mundo que sejam suficientes para expressar o quanto somos gratas a todos vocês. Vocês nos deram mais uma chance. Uma chance de consertar os nossos erros, de lutar por quem amamos e de ver que o futuro que tanto sonhamos... finalmente está a salvo.
Minerva voltou o olhar para o corpo de Cloud, caído no gelo, e a doçura de Aerith pareceu transbordar através da luz.
— Cloud... obrigada pela sua paciência infinita. Obrigada por ter sido o meu guarda-costas e, acima de tudo, o meu amigo. Você não falhou comigo. Você me trouxe até aqui, até o meu verdadeiro destino. Não carregue mais nenhuma culpa em seu coração. Viva a sua vida, seja feliz... e cuide bem do que está bem na sua frente.
A Deusa então virou o rosto para onde Vincent descansava, inerte na neve, e o tom ganhou o peso e a devoção rasgada de Lucrecia.
— E Vincent... meu amado Vincent. Obrigada. Obrigada por ter me amado além do tempo, além da monstruosidade, além de todos os meus medos e erros. Obrigada por nunca ter me abandonado, mesmo quando eu mesma fechei a porta para a nossa felicidade. Você foi a minha âncora e a minha salvação. Por favor, perdoe-se. Acorde e permita-se viver o amanhã. O meu coração sempre pertenceu, e sempre pertencerá, apenas a você.
Ouvindo aquelas palavras, Tifa não conseguiu mais segurar as lágrimas. A lutadora levou as mãos ao rosto, chorando em silêncio diante do sacrifício belo e trágico das duas mulheres que haviam salvado todos eles. Ao seu lado, Barret engoliu em seco. O líder durão da Avalanche apertou os olhos e fungou, profundamente emocionado, abaixando o braço-metralhadora em um sinal de absoluto respeito.
Na retaguarda, Inome ouvia o discurso com o coração apertado. Ao captar o timbre inconfundível, a cadência materna e o amor absoluto de Lucrecia na voz da Deusa, as lágrimas lavaram seu rosto ferido. Ela puxou Kether ainda mais para perto de si, abraçando a filha com um cuidado protetor e reverente, chorando por saber que a sogra havia entregado a própria vida para garantir que aquela criança tivesse um pai e um futuro.
As pernas e a armadura de Minerva começaram a se transformar em uma névoa luminosa e quente. O tempo delas neste plano havia acabado. O sorriso da Deusa se alargou, radiante e em paz.
— Obrigada por tudo... Por tudo...
Ao pronunciar a última sílaba, o corpo de Minerva não apenas desapareceu; ele explodiu em um clarão monumental.
A luz branca, espessa e acolhedora não queimou a visão, mas engoliu o mundo inteiro. O frio cortante da Cratera do Norte, as paredes de gelo escuro e o brilho doentio do Mako sumiram instantaneamente, varridos pela energia do Lifestream. Durante o que pareceu ser apenas um suspiro prolongado, o grupo sentiu uma brisa morna e o cheiro nostálgico de grama verde e terra úmida.
Quando a luz cegante finalmente se dissipou, a neve havia desaparecido. O chão duro de pedra e gelo deu lugar aos paralelepípedos familiares e ao som da água corrente. Sob o céu azul e claro da manhã, com o calor do sol beijando seus rostos, Tifa, Barret e Inome, com Kether em seus braços e os quatro guerreiros ainda desacordados a seus pés, abriram os olhos e perceberam que estavam no centro da praça de Nibelheim.
O ar morno de Nibelheim era um contraste gritante com o frio sepulcral da Cratera do Norte. O som da água corrente da praça preenchia o silêncio, mas o corpo de Inome já não suportava mais o próprio peso. O trauma do parto prematuro, a dor física latejante e a exaustão emocional drenavam suas últimas reservas de força.
Cambaleando, ela arrastou os pés sobre os paralelepípedos, segurando a pequena Kether firme e protegida contra o próprio peito com um dos braços. Inome deixou-se cair de joelhos ao lado do corpo inerte de Sephiroth. Sem forças para sacudi-lo ou chamá-lo em voz alta, ela apenas curvou-se para frente. Apoiando a testa exausta contra o ombro do guerreiro, Inome fechou os olhos, as lágrimas silenciosas molhando o tecido da roupa dele.
— Acorde... — ela sussurrou, a voz quebrando em um sopro fraco e embargado. — Seph, por favor... acorde.
A poucos passos dali, Tifa e Barret trocaram um olhar pesado. O sacrifício monumental de Minerva ainda esmagava o coração de ambos, mas a urgência da situação os forçou a agir. Eles se aproximaram rapidamente dos quatro guerreiros desacordados no centro da vila.
Tifa parou os olhos na figura devastada de Inome e da recém-nascida. O instinto protetor da lutadora assumiu o controle. Ela se inclinou, a voz soando incrivelmente mansa, tentando transmitir toda a segurança que lhe restava.
— Vou pedir ajuda aos curandeiros locais, Inome... — Tifa garantiu, os olhos marejados, mas firmes. — Vai ficar tudo bem. Nós estamos em casa.
Enquanto Tifa dava as costas para correr em direção às casas e buscar socorro imediato, Barret ajoelhou-se com um baque surdo sobre as pedras. O grandalhão usou a mão boa para checar rapidamente o pulso e a respiração de Angeal, movendo-se em seguida para Cloud e terminando em Vincent. Um suspiro de alívio genuíno escapou dos lábios de Barret, suavizando sua expressão endurecida.
— O coração desses idiotas tá batendo forte. Estão respirando direito — Barret confirmou em um tom grave, mas reconfortante, sentando-se no chão para montar guarda ao redor deles. — O corpo deles só apagou pra valer. Foi muito veneno na cabeça deles de uma vez só, a exaustão cobrou a conta. Fica tranquila, Inome. Pode soltar o ar. Eu vigio esses folgados aqui até a ajuda chegar...







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