A escuridão dentro da barraca foi a primeira coisa que os olhos felinos de Sephiroth registraram ao se abrirem subitamente. O transe foi quebrado de uma só vez, deixando um zumbido metálico e hostil no fundo de sua mente. Ele se sentou devagar no colchonete, movimentando o corpo com cuidado para não fazer o menor ruído e preservar o descanso dela.
A respiração dele estava densa. Ele virou o rosto levemente, e a tensão rígida de seus ombros cedeu uma fração de centímetro ao ver Inome deitada ali. Um alívio silencioso tomou conta dele apenas por constatar a presença dela, segura e ressonando baixinho ao seu lado.
Sephiroth apoiou os cotovelos nos joelhos, esfregando o rosto com as mãos.
— Hojo... — ele murmurou, a voz grave saindo como um rosnado quase inaudível.
A mensagem distorcida do cientista ainda ecoava, alinhando-se com a bússola biológica que agora queimava em suas veias, apontando para uma localização exata: a Cratera Norte. Ele processava cada fragmento do chamado, calculando o peso daquela convocação e o que isso significava para a segurança deles.
Um leve farfalhar no tecido interrompeu a espiral de pensamentos. Inome se moveu devagar, soltando um bocejo arrastado que denunciava o cansaço do sétimo mês. Ainda com os olhos semicerrados, ela esticou a mão no escuro e segurou o pulso de Sephiroth com firmeza.
— O que tá acontecendo? — ela perguntou, a voz rouca de sono, mas atenta o suficiente para ler a tensão no corpo dele
Sephiroth entrelaçou os dedos nos dela, sem tentar esconder a gravidade do que tinha acabado de processar.
— Hojo — ele respondeu, mantendo o tom de voz baixo e controlado. — Ele invadiu a minha mente. Tive uma visão... Angeal e Cloud estavam nela. Não sei dizer se eles estão realmente vivos ou se foi apenas mais uma manipulação doentia para me desestabilizar. — Ele fez uma breve pausa, os olhos focados no vazio escuro da barraca. — E a localização... a mente aponta para a Cratera Norte.
Inome não hesitou. Ela se inclinou para frente e passou os braços ao redor dele, puxando-o para um abraço apertado, oferecendo a âncora de que ele precisava.
— O que ele quer, Seph? — ela perguntou, com o rosto encostado no peito dele.
Sephiroth retribuiu o abraço com cuidado devido à barriga dela, respirando fundo antes de responder.
— A Reunião.
Antes que Inome pudesse falar mais alguma coisa, o som ríspido do zíper da barraca cortou o silêncio. A lona foi puxada o suficiente para revelar a silhueta de Vincent do lado de fora.
— Com licença — a voz rouca e pausada do atirador soou pela fresta. — Eu também estava acordado. E eu vi você na visão, Sephiroth. Se nós dois compartilhamos a mesma imagem, não foi delírio. Foi real.
Sephiroth olhou para a silhueta do atirador através da fresta da barraca. A hesitação pesou em sua língua por um breve instante; a palavra "pai" ainda era uma barreira que ele não estava pronto para cruzar em voz alta.
— Vincent — Sephiroth chamou, mantendo o tom pragmático. — Se a visão foi real e a intenção dele é a destruição... você acha que ele realmente vai conseguir criar aquela esfera enorme e jogá-la contra o mundo?
O olhar carmesim de Vincent endureceu na penumbra.
— Tratando-se de Hojo, não duvido de nada — a voz rouca do atirador carregava um ódio frio e contido. — Mas eu prefiro acabar com ele com as minhas próprias mãos antes de descobrirmos se ele é capaz ou não.
O murmúrio das vozes quebrou de vez o silêncio do acampamento. De seu próprio colchonete próximo dali, Lucrecia se moveu, sentando-se e esfregando os olhos.
— O que está acontecendo? — ela perguntou, a voz sonolenta e confusa. — Por que estão acordados?
Inome olhou para a sogra, respondendo com um tom brando para não alarmá-la de imediato.
— O Seph e o Vincent tiveram uma visão agora, Lucrecia. Um chamado do Hojo sobre uma Reunião.
Sephiroth e Vincent tomaram a frente, detalhando tudo o que viram e ouviram na mente: a localização da Cratera Norte, as presenças de Angeal e Cloud, e a ameaça absurda do meteoro. Lucrecia absorveu cada palavra em silêncio. Quando a explicação terminou, ela soltou um suspiro longo e tenso, cruzando os braços enquanto uma dúvida incômoda se formava.
— Se ele puxou vocês através das células e dos laços para orquestrar essa Reunião... — Lucrecia murmurou, visivelmente intrigada. — Por que Hojo não me colocou nessa visão também?
Vincent ajustou a postura na entrada da barraca, a expressão impassível sob a penumbra.
— Hojo precisa de uma conexão biológica direta para orquestrar essa invasão — Vincent explicou, a voz rouca cortando a noite. — A rede de comunicação dele funciona através das células de Jenova. Você não foi exposta a elas como nós, ou no máximo, teve uma quantidade ínfima no seu organismo. Ele não tem como te alcançar.
Sephiroth soltou a respiração pesada, os ombros relaxando minimamente ao ouvir aquilo.
— É melhor assim — o platinado afirmou, o olhar endurecendo. — Que ele fique o mais longe possível de você, mãe. Você não precisaria passar pela sujeira e pela invasão que nós acabamos de passar.
Inome deslizou a mão pela lateral do corpo de Sephiroth, fazendo um carinho leve e contínuo para ancorá-lo no presente, quebrando a aura ameaçadora que começava a emanar dele.
— Ele não vai sair impune, Seph — ela disse com firmeza. — Todos nós aqui temos o potencial para acabar com o Hojo de uma vez por todas.
O silêncio concordante preencheu a tenda por um instante, até Vincent quebrar a quietude para voltar ao lado pragmático da situação.
— Nosso próximo trajeto será até a Gold Saucer — o atirador pontuou. — Vamos usar a estrutura abandonada de lá para ganhar vantagem tática. Depois, definiremos o resto do caminho pelas montanhas até a Cratera.
Lucrecia assentiu lentamente, mas o olhar dela desceu imediatamente para a barriga de Inome. A preocupação de sogra e médica tomou conta de suas feições.
— A rota faz sentido, mas me preocupa a Inome andar tanto por um terreno tão acidentado com essa barriga. É muito chão e muito esforço para o sétimo mês de gestação.
Sephiroth olhou para a esposa, a decisão já cravada e inegociável em seus olhos de Mako.
— Eu vou levá-la nos braços o caminho todo.
Inome franziu o cenho, ajeitando a postura no colchonete, o orgulho falando um pouco mais alto.
— Seph, eu não sou um estorvo. Eu ainda tenho pernas, posso muito bem andar sozinha.
Antes que Sephiroth pudesse rebater a teimosia dela, Vincent interveio. A voz do atirador soou calma, mas carregada de uma autoridade serena que exigia respeito.
— Apenas confie no seu marido, Inome — disse Vincent, encarando-a com aquele brilho carmesim lúcido. — Não é uma questão de ser um peso. Você não deve se esforçar desnecessariamente agora.
Inome cruzou os braços de leve acima da barriga, sentindo-se visivelmente contrariada por ter sido voto vencido por todos ali. O orgulho arranhou a garganta, mas ela engoliu a teimosia e se manteve quieta, deixando um bico sutil de frustração escapar.
Lucrecia, percebendo de imediato a expressão emburrada da nora, abriu um sorriso brando e acolhedor.
— A gravidez traz muito disso, Inome — a cientista murmurou, o tom carregado de uma doçura empática que só outra mãe poderia oferecer. — Traz esse tom de coragem absurda, essa necessidade que a gente sente de querer se provar o tempo todo, de mostrar que não estamos fracas. Mas acredite em mim... o que você mais precisa agora é descansar e se permitir ser cuidada.
As palavras de Lucrecia amoleceram a postura defensiva da mulher, que soltou um suspiro rendido e encostou a cabeça no ombro de Sephiroth.
Satisfeito com o acordo silencioso, Vincent não prolongou o debate. O atirador se levantou com a fluidez silenciosa de sempre, ajeitando a gola do manto vermelho.
— Vou começar a desmontar as outras barracas e arrumar o equipamento — ele anunciou, a voz rouca cortando a penumbra enquanto já se afastava em direção ao próprio acampamento.
Sephiroth acompanhou a saída do atirador com o olhar, antes de se virar para a esposa e apoiar a mão com cuidado nas costas dela.
— Nós dois vamos comer alguma coisa primeiro — Sephiroth avisou, sem pressa, estabelecendo as prioridades. — Depois eu desmonto a nossa e começamos a viagem.
O deserto escaldante de Corel já ficava para trás, substituído pela sombra imensa e decadente da Gold Saucer. A estrutura colossal, que antes sustentava o maior parque de diversões do mundo, agora era apenas uma carcaça de metal enferrujado erguendo-se agressivamente contra o céu.
Ignorando as escadarias deterioradas, Sephiroth usava a força sobre-humana para escalar o complexo. Com Inome segura em seus braços, ele flexionou os joelhos e impulsionava o corpo em saltos precisos e potentes, cruzando dezenas de metros a cada investida para aterrissar em vigas e plataformas mais firmes. Em seus braços, Inome permanecia em absoluto silêncio. Ela mantinha os braços cruzados até onde o volume da barriga permitia, com um bico emburrado e o cenho franzido, visivelmente contrariada por estar sendo transportada o trajeto inteiro sem poder usar as próprias pernas.
Logo atrás, Vincent escalava as ferragens com saltos ágeis, a capa vermelha rasgando o vento. Ele acompanhava de perto o avanço de Lucrecia, que mantinha um ritmo surpreendentemente resistente pelos atalhos estruturais que a sustentavam.
Ao atingirem um dos níveis superiores, onde as cúpulas rachadas de um antigo setor de jogos ofereciam sombra e paredes reforçadas, Vincent pousou suavemente sobre uma passarela.
— Aqui — o atirador anunciou, a voz rouca ecoando no salão abandonado. — Temos cobertura total, estrutura sólida e visão estratégica de todo o perímetro. É um bom lugar para ficarmos.
Sephiroth aterrissou logo em seguida, o pouso pesado fazendo a poeira subir. Ele finalmente colocou Inome no chão com o máximo de cuidado. Lucrecia subiu no nível da plataforma logo depois, parando ofegante.
A cientista deu alguns passos à frente, os olhos varrendo os letreiros apagados, os brinquedos estilhaçados e o abandono absoluto que cobria o salão. A expressão dela foi tomada por um choque melancólico.
— Pelos deuses... — Lucrecia murmurou, a voz carregada de incredulidade enquanto olhava ao redor. — Não sobrou nada. Não existe mais absolutamente nada da Gold Saucer que eu me lembrava da minha juventude. É só um cemitério de metal.
Vincent caminhou alguns passos pelo piso empoeirado, o olhar carmesim suavizando levemente ao varrer os destroços de uma das avenidas principais do parque.
— Lembro do dia em que você me disse que precisávamos vir até aqui para uma "missão de reconhecimento" do Departamento Científico — Vincent comentou, um traço quase imperceptível de humor saudoso quebrando a aspereza habitual de sua voz. — Nós nem chegamos a inspecionar nada. Acabamos sentados em um dos bancos da Round Square, tomando sorvete a tarde inteira enquanto olhávamos a roda-gigante girar.
O comentário trouxe um sorriso nostálgico e iluminado ao rosto de Lucrecia, afastando por um instante o peso daquele cenário de destruição.
Observando a interação espontânea dos pais, Sephiroth permitiu que um sorriso sutil e genuíno, carregado de uma felicidade silenciosa, tocasse o canto de seus lábios. Ele se aproximou de Inome e segurou a mão dela com uma gentileza cuidadosa, entrelaçando os dedos aos dela em um gesto de pura conexão.
A mulher, esquecendo a frustração de ter sido carregada o caminho todo, abriu um sorriso divertido e encostou o ombro no braço do platinado.
— Então quer dizer que os dois furavam muito o serviço na Shinra só para curtir? — Inome brincou, arqueando uma sobrancelha para a sogra com um tom de cumplicidade.
Lucrecia riu baixo, uma risada leve e cristalina que ecoou de forma reconfortante na melancolia daquele salão em ruínas.
— O que posso dizer? Amor jovem é assim mesmo — ela respondeu, lançando um olhar carinhoso e profundo na direção de Vincent.
Sephiroth entrou na brincadeira, o sorriso sutil ainda marcando suas feições enquanto olhava para a esposa.
— É um hábito difícil de evitar — ele pontuou, a voz grave ganhando uma leveza rara. — Me lembro muito bem do dia em que nós dois também ignoramos completamente as ordens da corporação só para passar a tarde colhendo flores no quintal da casa dela.
Inome soltou uma gargalhada alta, virando o rosto para mostrar a língua para ele em um gesto perfeitamente infantil e descontraído.
— Ei! Não é pra você dedurar a gente, Seph! — ela reclamou, fingindo indignação em um tom brincalhão enquanto apertava os dedos ao redor da mão dele. — Desse jeito sua mãe vai achar que eu sou uma péssima influência.
Lucrecia não se conteve e riu abertamente da dinâmica dos dois, acompanhada por um riso baixo e gutural que escapou da garganta de Vincent. O atirador ajeitou a postura, cruzando os braços sobre o peito. Seus olhos escarlates varreram Sephiroth de cima a baixo, carregando uma ironia seca e calculada.
— Vejo que furar o trabalho é um traço genético na família — Vincent comentou, o canto da boca erguendo-se em um meio sorriso raro que suavizou suas feições duras.
A noite caiu rapidamente sobre o deserto de Corel, engolindo o cemitério de metal da Gold Saucer em uma escuridão fria e silenciosa. No nível estrutural que escolheram, o acampamento já estava perfeitamente erguido e protegido das correntes de vento.
Perto do calor reconfortante de uma pequena fogueira contida, Inome dormia profundamente. Ela estava encolhida sob uma manta grossa, com a cabeça repousando confortavelmente no colo de Sephiroth. Com uma das mãos, o platinado fazia um cafuné lento e protetor nos cabelos da esposa, enquanto a outra girava devagar um espeto sobre as brasas, aquecendo nacos suculentos de carne de caça — uma das poucas refeições simples, diretas e ricas em proteína que ele genuinamente apreciava desde seus primeiros anos de missões de sobrevivência na Shinra. O brilho das chamas refletia em seus olhos felinos, revelando uma feição focada, porém tranquila.
A alguns metros dali, longe do alcance da luz da fogueira e fazendo a vigilância do perímetro ampliado, Lucrecia e Vincent caminhavam lado a lado pelas passarelas metálicas deterioradas da Round Square. Os passos do atirador não faziam som, enquanto as botas de Lucrecia ecoavam baixinho a cada pisada.
Vincent parou de repente. Ele ergueu a manopla dourada, apontando para um banco de praça enferrujado e com a pintura totalmente descascada, estrategicamente posicionado de frente para a carcaça colossal e paralisada da roda-gigante.
— Então foi aqui que tudo começou — Vincent declarou, a voz rouca soando baixa na vastidão abandonada.
Lucrecia olhou para o banco, um riso tímido e suave escapando de seus lábios enquanto as lembranças daquela tarde invadiam sua mente. Ela cruzou os braços em frente ao corpo para se aquecer do frio cortante do deserto, virando o rosto devagar para encará-lo.
— Vincent... — ela chamou, o tom ganhando uma nota curiosa e inevitavelmente melancólica. — Como você acha que teria sido a nossa vida... se nós dois tivéssemos fugido de Midgar no dia em que eu descobri a gravidez?
Vincent manteve o olhar fixo no banco por um longo momento, o carmesim de seus olhos brilhando na penumbra. Ele ajeitou a gola do manto vermelho antes de virar o rosto para ela.
— Analisando as circunstâncias? — ele respondeu de forma pontual. — Talvez fosse exatamente como a vida de Sephiroth e Inome é agora.
Lucrecia franziu as sobrancelhas, surpresa com a comparação direta.
— Por quê?
— Os paralelos são claros — Vincent explicou, a voz calma desenhando o cenário. — Nós seríamos um ex-Turk desertor e uma cientista renegada. Teríamos todo o peso bélico da Shinra e a obsessão caótica de Hojo nos caçando incansavelmente pelo mundo. Viveríamos em constante movimento, dormindo em ruínas e montando acampamentos isolados para garantir a sua segurança a qualquer custo. Eu passaria os dias caçando, vigiando o perímetro e eliminando ameaças antes que chegassem a você. E você... — ele estreitou levemente os olhos, um traço de humor fantasma marcando suas palavras — ...você provavelmente seria tão teimosa quanto a Inome, exigindo andar sozinha e bater de frente com o perigo no sétimo mês de gestação, enquanto eu tentaria te obrigar a descansar no meu colo.
Ele deu um passo na direção dela, o olhar duro suavizando-se com um afeto contido e poderoso.
— Teríamos sido exatamente como eles, Lucrecia. Lutando contra o mundo inteiro e enfrentando qualquer inferno apenas para garantir que a nossa família sobrevivesse.
Lucrecia, pensativa, caminhou devagar até o banco enferrujado e sentou-se. O olhar dela se perdeu na imensidão apagada e silenciosa da Round Square, onde as sombras engoliam o que antes fora um símbolo de alegria.
Ela soltou um suspiro longo, carregado pelo peso dos anos roubados e das memórias que nunca puderam ser criadas.
— Eu queria tanto ter ensinado ele a andar... — a voz dela soou baixa, embargada pela tristeza contida. — Queria ter ensinado a falar. Ter ensinado a ele tantas coisas.
Vincent parou ao lado do banco, como uma sentinela imóvel. A brisa gélida do deserto balançou levemente o tecido do manto vermelho.
— Eu também quis isso — o atirador respondeu, a rouquidão marcando a franqueza impiedosa de suas palavras. — Mas a vida é injusta, Lucrecia. E sempre será.
Ela abaixou a cabeça, os dedos apertando o tecido das próprias roupas enquanto ponderava sobre o vazio e a frieza daquela afirmação.
— O que é justiça, no fim das contas? — ela questionou, o tom melancólico ecoando pela carcaça metálica do parque abandonado.
O olhar escarlate de Vincent endureceu sob a penumbra. Ele cruzou os braços sobre o peito, a expressão esculpida por décadas de escuridão e traições.
— A justiça — ele decretou, a voz fria e absoluta — só existe para quem é corrupto.
Vincent finalmente cedeu e se acomodou no banco de metal ao lado dela, o som das armaduras de suas botas ecoando de forma abafada. Ele apoiou os braços relaxados e manteve o olhar fixo na carcaça inerte da roda-gigante.
— Essa é a minha memória favorita — ele confessou, a rouquidão de sua voz perdendo um pouco da aspereza habitual. — Porque foi um dos poucos momentos em que estávamos realmente longe da Shinra. Fora do alcance e da sombra daquela corporação.
Lucrecia abriu um sorriso doce, que logo se transformou em uma risada tímida e baixa, quebrando o peso do silêncio do deserto. Ela olhou para as próprias mãos descansando no colo, deixando a nostalgia tomar conta.
— E pensar que o nosso primeiro beijo foi nos fundos do arquivo morto do Departamento Científico... — ela comentou, a voz carregada de uma leveza juvenil. — Espremidos no escuro, entre aquelas prateleiras de aço e caixas cheias de relatórios antigos, morrendo de medo de alguém entrar.
Vincent soltou um som de concordância que beirava uma risada seca, encostando as costas no banco enferrujado enquanto a memória daquele dia voltava com clareza.
— Os Turks estavam sempre em cima de tudo e de todos naquele prédio. Havia patrulhas em cada corredor do setor — ele pontuou, virando o rosto levemente na direção dela com o canto dos lábios sutilmente erguido. — Foi um beijo complicado. Tivemos que ficar completamente em silêncio para não chamar a atenção das rondas.
O sorriso de Lucrecia suavizou lentamente, dando lugar a uma expressão cheia de esperança e vulnerabilidade. Ela virou o rosto para Vincent, os olhos escuros brilhando na penumbra do deserto.
— Vincent... quando tudo isso acabar — ela começou, a voz caindo quase para um sussurro —, você acha que nós seremos bons avós para esse bebê?
Ela voltou o olhar para as próprias mãos, apertando os dedos com força, o peso dos anos perdidos ressurgindo na garganta.
— Eu quero ser para esse neto tudo o que eu não pude ser para o Sephiroth. Quero estar lá em cada fase, ensinar, proteger... dar a essa criança todo o amor e o cuidado que ficaram guardados e sufocados por todos esses anos.
Vincent a observou em silêncio por um momento. Sua feição permaneceu inabalável, mas os olhos escarlates transbordavam uma compreensão profunda. Ele moveu a mão com lentidão e repousou os dedos sobre o ombro dela, um toque sutil e reconfortante.
— Nós seremos bons avós, Lucrecia — ele afirmou, a rouquidão da voz transmitindo uma certeza sólida, sem espaço para dúvidas. — Mas você terá que se policiar e manter o controle. A vontade de compensar o passado é uma armadilha perigosa. Você precisa lembrar que a Inome é a mãe. Aquele é o filho deles, o momento deles. Tome cuidado para não acabar sufocando a garota ou tentando tomar o lugar dela por causa da sua própria culpa.
Lucrecia piscou, absorvendo o conselho pragmático e direto do atirador. Aos poucos, a tensão acumulada em seus ombros se desfez, e ela soltou uma risada genuína, leve e cheia de calor que contrastou com o aço frio do parque.
— Eu sei, eu sei. Tem razão... Prometo que vou me comportar e respeitar as fronteiras dela — Lucrecia respondeu, um brilho travesso e maternal surgindo em seu olhar. — Eu só vou "tomar o lugar dela" quando aqueles dois precisarem desesperadamente de um momento de casal sozinhos. Afinal, furar o trabalho para namorar é quase uma tradição na nossa família. Eles vão precisar de uma babá de confiança para cobrir a fuga.
Vincent soltou um som baixo, algo entre um suspiro resignado e uma risada contida, balançando a cabeça de forma quase imperceptível.
— Você não muda, Lucrecia — ele murmurou, a aspereza da voz dando espaço a um tom carregado de admiração genuína. — E eu gosto de você exatamente assim.
O silêncio confortável pairou entre os dois por alguns instantes, mas o peso da realidade não permitiu que ficassem alheios ao perigo por muito tempo. O olhar escarlate de Vincent endureceu, focando novamente na escuridão do deserto, a mente tática calculando os próximos movimentos até a Cratera Norte.
— Quando o momento chegar... — Vincent retomou, a postura voltando a ser a do atirador letal e pragmático. — Quando finalmente enfrentarmos Hojo e essa Reunião acontecer, o campo de batalha será o puro caos. Posso te ensinar a lutar até lá. Posso te mostrar o básico para manusear uma arma, mirar e se defender.
Lucrecia virou o rosto para ele. O sorriso suave havia desaparecido, dando lugar a uma expressão de determinação profunda e silenciosa. Ela negou devagar com a cabeça.
— Não precisa, Vincent. Eu tenho a minha própria carta na manga para lidar com o Hojo. Algo que eu sinto forte bem aqui — ela disse, tocando o próprio peito, exatamente sobre o coração.
Vincent franziu levemente a sobrancelha, os olhos carmesins estudando as feições dela com curiosidade.
— E que carta é essa? — ele questionou, a voz grave em um tom analítico.
Lucrecia voltou a olhar para a carcaça inerte da roda-gigante, a luz pálida da noite refletindo em seus olhos escuros, que agora carregavam um brilho afiado e perigoso, muito distante da cientista assustada do passado.
— Eu nem sei ao certo o que é ou como vai ser — ela confessou, a voz soando incrivelmente calma, porém letal. — Mas eu tenho certeza de uma coisa, Vincent... Quando alguém mexe com os nossos filhos, as mães se tornam indomáveis.
Vincent se levantou devagar, o som metálico de suas botas quebrando a quietude do nível abandonado. Ele ajeitou a gola do manto escarlate para se proteger do vento gélido e ergueu o olhar para o céu noturno e limpo do deserto, onde a vastidão negra era pontilhada por um brilho pálido e distante.
— Vou observar as estrelas e vigiar o perímetro até a hora de dormir — ele anunciou, a voz rouca soando mansa e sem pressa. — Boa noite, Lucrecia.
Quando ele fez menção de se virar para iniciar a ronda, Lucrecia também se levantou. Sem hesitar, ela encurtou os poucos passos que os separavam e envolveu o torso de Vincent em um abraço apertado. Ela encostou o rosto contra o peito dele, ignorando a frieza das fivelas e do couro escuro, buscando apenas a presença sólida e protetora que ele sempre foi.
— Obrigada, Vincent — ela sussurrou, a voz embargada e cheia de um calor sincero. — Obrigada pela vida. Por nos manter seguros... e por ter dado mais uma chance a nós dois.
Vincent enrijeceu por uma fração de segundo, pego de surpresa pelo gesto repentino e pela quebra de suas próprias defesas. Mas, logo em seguida, a postura rígida cedeu. Ele ergueu a mão desprotegida de armadura e pousou-a suavemente sobre as costas dela, fazendo um carinho lento, quase reverente.
O olhar carmesim do atirador se perdeu no mar de estrelas acima da Gold Saucer, enquanto o peso de décadas de arrependimento e solidão parecia finalmente se dissipar na brisa do deserto.
— As engrenagens do destino têm uma ironia peculiar, Lucrecia — ele murmurou, a voz grave vibrando contra o peito onde ela se apoiava, misturando melancolia e conforto. — Ele tira tudo o que temos da forma mais cruel... apenas para devolver quando menos esperamos.

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