O sol da tarde aquecia a areia de Costa del Sol, trazendo uma brisa confortável. Mais próximos à água, Sephiroth e Cloud estavam sentados na areia, aproveitando a calmaria enquanto tomavam copos de suco gelado. A poucos passos dos dois, Kether brincava entretida, cavando buracos e correndo de um lado para o outro sob o olhar atento do pai.
Um pouco mais recuadas, sentadas na areia bem mais perto da casa, Inome e Tifa observavam a cena de longe. O clima era tranquilo, até Inome virar o rosto para a amiga e quebrar o silêncio.
— E então? Você e o Cloud finalmente decidiram em que cidade vão casar? — Inome perguntou, tentando manter o tom casual.
Tifa abriu um sorriso largo e soltou uma risada leve, balançando a cabeça.
— Ainda não. Toda vez que a gente senta para tentar escolher e planejar alguma coisa, acabamos mudando de ideia de novo.
Inome forçou uma risadinha curta, o som saindo um pouco mais tenso do que ela planejava. O sorriso não alcançou os olhos. Ela desviou o rosto de Tifa, fixando o olhar no horizonte azul onde o mar encontrava o céu, e deixou um suspiro longo e pesado escapar.
Tifa franziu o cenho, percebendo na hora a mudança brusca de humor. Ela inclinou o corpo na direção da amiga, a preocupação substituindo o sorriso.
— Inome, você está bem? Aconteceu alguma coisa? Ou... tem algo rolando aqui por Costa del Sol?
Inome negou devagar com a cabeça, os olhos ainda fixos no mar.
— Não... — ela murmurou, engolindo em seco. — Não é nada. Eu não quero te atrapalhar com os meus problemas, Tifa.
A lutadora não aceitou a desculpa. Ela se aproximou um pouco mais e levou a mão até o ombro de Inome, fazendo um carinho suave e reconfortante ali.
— Você nunca atrapalha, Inome. Sabe disso — Tifa disse com doçura, insistindo com firmeza. — Me conta, o que está acontecendo?
Ao sentir o toque acolhedor da amiga, a barreira de Inome cedeu. Os olhos escuros marejaram e as primeiras lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela sem controle.
— Faz alguns meses que a minha menstruação não desce, Tifa... — Inome confessou em meio ao choro, a voz embargada e trêmula. — Mas eu não senti enjoo nenhum. Eu não tive tontura, não tive vontade de vomitar, nada do que eu senti da outra vez... Achei que fosse só o cansaço do dia a dia, alguma desregulação boba do corpo, sei lá. Eu simplesmente não desconfiei de nada até fazer o teste.
Tifa arregalou os olhos levemente, a mão parando no ombro da amiga por uma fração de segundo antes de voltar a acariciá-la com ainda mais cuidado. A compreensão atingiu a lutadora de imediato.
— Inome... você está grávida? — Tifa perguntou, a voz saindo num sussurro suave e protetor.
Inome assentiu devagar, fechando os olhos enquanto as lágrimas escorriam sem freio pelo rosto.
— Eu já sei faz dois dias — ela confessou, a voz embargada e dolorida. — Mas eu não contei pro Seph ainda. Eu não contei porque... porque eu nem sei o que eu mesma vou fazer com essa gravidez, Tifa. Eu tenho muito medo. O parto da Kether, o sangue, a dor, o pânico absoluto de perder ela ou de morrer ali mesmo... eu tenho trauma. Só de pensar em passar por tudo aquilo de novo, meu peito esmaga.
Tifa suspirou baixinho, o olhar transbordando empatia ao ver o desespero cru da amiga. Ela continuou acariciando o ombro de Inome, puxando-a gentilmente para encostar a cabeça em seu ombro.
— É completamente normal você estar apavorada, Inome. O que você passou foi um pesadelo real — Tifa começou, o tom firme, mas extremamente acolhedor. — Mas você precisa lembrar que o cenário agora é outro. Vocês não estão mais no meio de uma guerra, fugindo na neve ou sendo caçados. Vocês estão seguros aqui. E por mais que o trauma e o corpo sejam seus, você sabe que o Seph te ama mais que tudo no mundo. Ele não vai te julgar e não vai te forçar a nada, mas ele precisa saber para poder segurar a sua mão. Não carrega esse medo sozinha, deixa ele te ajudar a passar por isso.
Inome fungou, enxugando o rosto com as costas da mão, e desceu a palma lentamente até repousar sobre o próprio ventre, ainda sem volume algum.
— Ele vai saber, Tifa. Eu vou contar pra ele, claro que vou — ela murmurou, a voz cansada. — A questão é que eu não sei o que fazer. A minha cabeça não sabe como lidar com isso agora.
Tifa manteve o abraço, acariciando o braço da amiga com um ritmo constante e reconfortante. Ela olhou para as pequenas ondas que quebravam na praia antes de voltar a sorrir com doçura.
— Eu entendo o seu medo. Mas tenta focar no agora — Tifa ponderou, a voz serena. — Lá em Kalm, uma colega que trabalha perto de nós acabou de ter o segundo bebê no mês passado. Foi em um quarto de hospital quentinho, numa cama super confortável, com curandeiras excelentes acompanhando cada segundo. O marido ficou do lado dela o tempo todo, só segurando a mão e conversando. Foi tranquilo, limpo e seguro. Muito diferente de entrar em trabalho de parto prematuro no meio de uma nevasca, fugindo de monstros. Você vai ter toda a estrutura e segurança do mundo dessa vez.
Inome balançou a cabeça devagar, aceitando as palavras da amiga. Ela soltou um riso fraco e anasalado, que ainda carregava um resquício de choro.
— A minha cabeça sabe disso, Tifa. Racionalmente, eu sei que nada de ruim vai acontecer com a gente agora. Mas o meu corpo não entende... ele entra em pânico automático só de lembrar do frio e da dor — Inome desabafou, tombando a cabeça no ombro da lutadora. Ela suspirou, deixando a tensão escorrer. — E, poxa... eu tava tão feliz de finalmente conseguir dormir mais de seis horas por noite! A gente tinha acabado de sair da fase crítica.
Tifa soltou uma risada baixa, acompanhando o desabafo da amiga.
— As fraldas, as cólicas, o choro de madrugada... a gente tava livre disso! — Inome continuou, gesticulando levemente enquanto olhava para Kether brincando lá na frente. O olhar dela, no entanto, foi amolecendo ao observar a filha e o marido. — Eu amo tanto ver a Kether crescer, sabe? Ver ela correndo, aprendendo a falar, a brincar com ele. Eu sou feliz demais com a família que a gente construiu, e eu não trocaria o Seph por absolutamente nada nesse mundo, ele é o melhor parceiro que eu poderia ter... Mas a ideia de ter que recomeçar todo aquele ciclo de exaustão me assusta muito.
Tifa desfez o abraço lateral devagar, afastando-se apenas o suficiente para segurar as duas mãos de Inome e olhar bem fundo nos olhos dela. O sorriso da lutadora era carregado de uma sabedoria prática e gentil.
— O cansaço assusta mesmo, Inome, não vou mentir. Mas olha o quanto vocês já evoluíram — Tifa aconselhou, a voz mansa. — O Seph já tem experiência agora. Você não vai precisar ensinar a ele como segurar um recém-nascido, ou como dar banho. Vocês já são uma equipe afiada. E, se precisar, eu e o Cloud estaremos aqui para revezar, preparar comida, ou só distrair a Kether para você poder dormir.
Inome enxugou o restante das lágrimas com as costas da mão, soltando um suspiro trêmulo enquanto voltava o olhar para a filha. Na areia, Kether agora tentava empilhar algumas pedras, completamente alheia ao turbilhão da mãe.
— O pior, Tifa... é que a Kether vem pedindo um irmãozinho já tem um tempo — Inome confessou, um sorriso culpado e fraco surgindo nos lábios dela. — Toda vez que ela vê alguma criança brincando pela vila, ela aponta e fica pedindo. Eu fico pensando que seria incrível para ela ter companhia, crescer com alguém, mas aí o medo bate de novo e esmaga tudo. Será que eu dou conta de cuidar de duas crianças? Será que eu vou conseguir dividir a atenção direito sem deixar a Kether de lado? É tanta incerteza...
Tifa apertou as mãos da amiga com firmeza, transmitindo toda a segurança que conseguia.
— Você dá conta, Inome. E o amor não se divide, ele se multiplica — Tifa confortou, o olhar brilhando com uma certeza inabalável. — Você não precisa ter todas as respostas hoje, nem amanhã. Dá um passo de cada vez. Sente o que tiver que sentir agora com o susto, mas não deixa o trauma do passado roubar a alegria do que vem pela frente. Quando você vir os dois brincando juntos nessa mesma areia... você vai ter a certeza de que todo esse pânico inicial valeu a pena.
Lá ao fundo, perto de onde as pequenas ondas quebravam, a calmaria havia dado lugar a uma correria animada. Kether disparou em direção à água, rindo alto enquanto a espuma do mar molhava seus pés. Cloud vinha logo atrás, correndo com os braços meio erguidos e a atenção redobrada, cuidando de perto para garantir que a garotinha não avançasse para o fundo.
Alheio à brincadeira na água, Sephiroth retornava da casa trazendo mais suco. No entanto, no meio do trajeto, seus olhos felinos captaram a cena na esteira. O passo do guerreiro estancou no exato milésimo de segundo em que ele viu as lágrimas brilharem no rosto de Inome.
Sem pensar duas vezes, ele caminhou até a pequena mesa da varanda, apoiou os copos ali de qualquer jeito e desceu para a areia em passos largos e apressados. Ele se ajoelhou ao lado de Inome e a envolveu em um abraço incrivelmente apertado e protetor, puxando-a contra o próprio peito com firmeza antes mesmo de fazer qualquer pergunta.
— O que aconteceu? — ele murmurou perto do ouvido dela, a voz grave carregada de uma preocupação imediata e palpável.
Inome afundou o rosto no ombro dele, os dedos agarrando o tecido da roupa de Sephiroth com força enquanto as lágrimas molhavam a pele dele.
— Seph... — ela soluçou baixinho, a voz abafada pelo choro. — Eu tô grávida.
O corpo de Sephiroth paralisou por uma fração de segundo, absorvendo o impacto absoluto daquelas palavras. Sem soltar Inome do abraço, ele ergueu o olhar lentamente. Seus olhos verdes cruzaram com os de Tifa, buscando uma confirmação silenciosa por cima dos ombros da esposa. A lutadora apenas acenou com a cabeça, sustentando um sorriso encorajador e sereno que dissipou qualquer dúvida.
Sephiroth soltou o ar devagar, e a tensão de seus ombros derreteu por completo, dando lugar a uma devoção mansa. Ele afastou Inome apenas o suficiente para poder segurar o rosto dela com as duas mãos, usando os polegares para enxugar as lágrimas que continuavam caindo, com uma delicadeza que reservava unicamente a ela.
—Inome... olhe para mim — ele pediu, o tom de voz baixo, suave e transbordando uma segurança inabalável. Quando Inome ergueu os olhos marejados e assustados para ele, Sephiroth depositou um beijo terno em sua testa. — Não há motivo para medo. Nós não estamos mais foragidos. Ninguém vai nos caçar desta vez. Você e o nosso filho estão seguros, e eu estarei ao seu lado em cada segundo, cuidando de vocês dois para que não passem por nenhum sofrimento.
Inome soluçou, fechando os olhos sob o toque quente das mãos dele. O nó em sua garganta parecia doer fisicamente, mas a presença inabalável do marido lhe deu a coragem que faltava para confessar o que realmente a assombrava.
— Seph... eu não sei se consigo — ela murmurou, a voz falhando. — O medo é tão grande que... que eu cheguei a pensar em não continuar com essa gravidez. Mas a culpa me esmaga logo em seguida. A Kether pede um irmãozinho há tanto tempo... e eu me sinto terrível e egoísta por hesitar.
Sephiroth não recuou, e nenhuma sombra de decepção cruzou seu rosto. Pelo contrário, a expressão do platinado tornou-se ainda mais compreensiva e branda. Ele usou os polegares para afastar as últimas lágrimas das bochechas dela.
— A escolha será sempre sua, Inome, e eu estarei ao seu lado, apoiando absolutamente qualquer caminho que você decidir seguir — ele afirmou com uma mansidão reconfortante, os olhos verdes brilhando com profunda empatia. — Eu conheço você. Toda vez que a Kether cita a vontade de ter um irmão, eu vejo exatamente como você fica. Eu percebo o conflito, a apreensão e o peso que isso traz aos seus olhos. Você não precisa carregar nenhuma culpa pelas marcas que o passado deixou em você.
Sentada logo ao lado, Tifa acompanhou a troca com um sorriso gentil e cheio de carinho, admirando a forma como os dois se cuidavam. A lutadora esticou a mão, apertando de leve o ombro da amiga mais uma vez.
— E com um irmãozinho ou não, a Kether já é a criança mais amada e sortuda de Gaia por ter vocês dois — Tifa comentou, o tom leve e amigável quebrando a densidade do momento. — O que você decidir vai ser o certo, Inome. Não se pressione tanto.
Ouvir aquelas palavras fez a tempestade no peito de Inome começar a ceder. Ela respirou fundo, o ar finalmente enchendo os pulmões sem o peso do desespero. Ela inclinou a cabeça para frente, encostando a testa na de Sephiroth, absorvendo a paz e a segurança que irradiava dele.
— Obrigada... — Inome sussurrou, a voz agora muito mais calma e aliviada. Ela abriu um sorriso pequeno, ainda exausto, mas sincero. — Eu vou pensar mais um pouco. Vou processar tudo isso com calma e dar um tempo para a minha cabeça antes de tomar a decisão definitiva.
O silêncio acolhedor que havia se formado entre os três foi subitamente rasgado por um sobressalto cômico e um grito engasgado vindo da beira da água.
Lá ao fundo, Cloud estava estatelado na areia de costas. Com a energia inesgotável de um pequeno furacão e a precisão de um mini-míssil, Kether havia disparado em direção a ele e se jogado com tudo contra as pernas do loiro. Agarrada com força aos joelhos dele, a garotinha ria alto e vitoriosa por ter conseguido desequilibrar e derrubar o formidável espadachim no chão.
Ao ver a cena, Tifa não aguentou. A lutadora tombou a cabeça para trás e caiu em uma gargalhada alta e incontrolável, rindo tanto da expressão de total rendição do noivo que chegou a apoiar a mão na barriga. Ainda rindo, ela limpou a areia das pernas e se levantou da esteira em um pulo, apressando-se para ir até lá.
O som da risada contagiou o casal. O clima denso finalmente se dissipou, e Inome não conseguiu evitar um sorriso verdadeiro e divertido diante do absurdo da situação. Sephiroth se ergueu com sua fluidez de sempre e estendeu a mão para ajudar a esposa a se levantar. De mãos dadas, os dois caminharam juntos, logo atrás de Tifa, indo resgatar o coitado do Cloud do ataque impiedoso da pequena.
Cloud continuava esparramado de costas, piscando meio desorientado, enquanto Kether mantinha o abraço de ferro ao redor das pernas dele, rindo como se tivesse acabado de abater um monstro colossal.
Ainda gargalhando, Tifa chegou primeiro e estendeu a mão para ajudar o noivo. Cloud segurou a mão dela e fez menção de se erguer, mas a areia fofa sob as botas e o peso da garotinha servindo de âncora o fizeram escorregar de forma patética. Ele cambaleou para o lado, subindo com zero equilíbrio e balançando os braços no ar numa dança desajeitada para não dar de cara na praia de novo.
Quando finalmente conseguiu firmar as pernas, ele sacudiu a areia dos cabelos loiros e olhou para Inome e Sephiroth, que acabavam de chegar, ostentando uma expressão de puro choque.
— Pelos deuses... — Cloud arfou, apontando para a pequena que ainda ria aos seus pés. — O que vocês dão pra essa criança comer? Ela tem três anos e me derrubou como se eu fosse de papel! A força dela é um absurdo!
Kether soltou as pernas de Cloud e estufou o peitinho, cruzando os bracinhos curtos com uma expressão de puro orgulho infantil.
— Eu sou muito forte! — ela anunciou, a voz aguda soando cheia de si, como se tivesse acabado de vencer uma grande batalha.
Sephiroth aproximou-se em passos lentos. Ele parou diante da filha, abaixando-se levemente para ficar mais próximo da altura dela, e levou a mão grande até a cabeça da menina. Enquanto acariciava os fios brancos e esvoaçantes com uma suavidade paternal, o olhar verde e vertical do platinado assumiu aquela seriedade mansa de quem estava prestes a dar uma lição.
— Você é muito forte, Kether — Sephiroth concordou, o tom de voz calmo e didático ecoando sobre o barulho do mar. — Mas ter força exige controle e, acima de tudo, respeito. Nós não saímos derrubando os mais velhos no chão desse jeito, mesmo que seja apenas uma brincadeira. O que nós já conversamos sobre os bons modos?
A garotinha piscou, perdendo um pouco da pose vitoriosa. Ela abaixou a cabeça, fazendo um biquinho enquanto remexia a areia com a ponta do pé, processando a pequena bronca.
Cloud, vendo a reação dela, rapidamente balançou as mãos, rindo de forma descontraída enquanto terminava de sacudir a areia da própria calça.
— Tá tudo bem, Sephiroth, relaxa — o loiro interveio, abrindo um sorriso compreensivo para a menina. — A gente só estava brincando. Não me machucou em nada.
Tifa, que ainda tentava recuperar o fôlego depois de rir tanto, não perdeu a oportunidade. Ela deu um empurrãozinho de brincadeira no ombro de Cloud, com os olhos castanhos brilhando de pura provocação.
— Ah, assume logo o vexame, Cloud! Você que tá ficando fraquinho mesmo — Tifa provocou, soltando mais uma risada ao ver a expressão imediatamente indignada que tomou conta do rosto dele. — Foi nocauteado no primeiro golpe por uma criança de três anos! Acho que alguém vai ter que voltar para os treinos básicos de resistência.
Enquanto Cloud resmungava uma defesa esfarrapada, tentando argumentar que a areia fofa tinha sido a verdadeira culpada por sua falta de equilíbrio, Inome permaneceu alguns passos atrás. Ela não disse nada, mas um sorriso leve, genuíno e profundamente feliz desenhou-se em seus lábios.
Apenas observando a cena de fora — o marido educando a filha com tanto cuidado, a garotinha teimosa e cheia de energia, e os amigos rindo juntos em uma tarde comum —, o peito de Inome se encheu de uma paz imensa. Naquele instante simples sob o sol quente da praia, o pânico de voltar a trocar fraldas e perder noites de sono pareceu muito menor, abafado pela certeza de que, com a família que eles construíram, ela daria conta de qualquer recado.
Kether desviou a atenção de Cloud e cravou os olhos na lutadora. Colocando as duas mãozinhas na cintura, a garotinha ergueu o queixo, cheia de confiança.
— Você topa uma lutinha? — Kether perguntou, o tom infantil carregado de desafio.
Tifa riu, balançando as mãos em um gesto amigável de rendição.
— Ah, não. Eu não brigo com crianças — ela respondeu com um sorriso divertido.
Frustrada por ter seu desafio negado, Kether fechou a cara na mesma hora. A menina bateu os pezinhos na areia com força, levantando uma pequena nuvem de poeira dourada enquanto fazia um bico emburrado.
Antes que a frustração infantil escalasse para uma birra, Sephiroth interveio. Ele apoiou as mãos grandes nos ombros da filha, mantendo-se na altura dela, e usou aquele tom manso e seguro para acalmá-la, dissipando a agitação da pequena com a facilidade de quem já conhecia perfeitamente cada manha dela.
Aproveitando a deixa e vendo a filha se acalmar sob o toque do pai, Inome finalmente deu alguns passos à frente, quebrando a situação com um sorriso animado.
— Sabe do que a gente pode brincar para gastar essa força toda? — Inome sugeriu, chamando a atenção de Kether e dos amigos. — De bola. Os cinco juntos. Que tal?
Kether ouviu a sugestão da mãe e seus olhos brilharam. Mas, em vez de correr direto para buscar o brinquedo, a garotinha parou. Ela tombou a cabeça para o lado, cravou os olhos curiosos bem no centro da barriga de Inome e ergueu um dedinho.
— Seis, mamãe! — Kether anunciou com a maior naturalidade do mundo.
Inome murchou na mesma hora. A cor pareceu sumir de seu rosto e ela trocou um olhar rápido e levemente apavorado com Tifa. Tentando disfarçar o choque na frente de Cloud, a morena forçou um sorriso tenso e balançou a cabeça rapidamente.
— Não, filha... somos só cinco — Inome corrigiu, a voz saindo um pouco mais aguda que o normal enquanto ela apontava para cada um ali. — Olha só: um, dois, três, quatro, cinco.
Kether piscou e deu de ombros, como se a matemática dos adultos não importasse muito, e disparou pela areia para pegar a bola colorida que estava jogada perto das esteiras.
Enquanto Cloud e Tifa caminhavam um pouco mais para perto da água, chutando a areia fofa para delimitar o espaço onde iriam jogar, Sephiroth se aproximou de Inome. Aproveitando que os amigos estavam distraídos se ajeitando para a brincadeira, ele inclinou o corpo, parando ao lado da esposa.
— Ela sentiu — ele comentou num sussurro grave e calmo, com um sorriso muito sutil desenhando-se em seus lábios.
Inome virou o rosto para ele, ainda tentando recuperar a postura.
— Sentiu o quê? — ela murmurou de volta.
— O Mako — Sephiroth explicou de forma serena, os olhos verdes acompanhando a filha, que agora jogava a bola na direção de Cloud. — A sensibilidade dela para as correntes de energia é muito aguçada. Assim como eu, ela provavelmente já consegue perceber o novo fluxo de vida pulsando em você
Inome piscou, a surpresa inicial dando lugar a uma curiosidade branda. Ela olhou para o marido, baixando ainda mais o tom de voz para que apenas ele ouvisse.
— Você sente? — ela perguntou, estudando o rosto dele. — Desde quando eu estava grávida da Kether?
Sephiroth assentiu devagar. O olhar dele não carregava nenhuma cobrança, apenas a mesma devoção paciente e protetora de sempre.
— Sim — ele respondeu com tranquilidade. — Mas eu jamais tomaria a frente para revelar algo que é o seu direito de contar. Essa escolha e o tempo certo para falar sobre isso sempre foram seus.
O coração de Inome apertou levemente diante daquele cuidado inabalável que ele tinha com os limites e os sentimentos dela. Aos poucos, a tensão da descoberta indesejada cedia espaço para o conforto de saber quem estava ao seu lado.
Com um sorriso pequeno e um pouco tristinho, ela se inclinou, encostando a cabeça no braço dele, e deixou um beijo demorado e carinhoso no ombro do marido.
— Obrigada... — ela murmurou, a voz carregada de uma gratidão silenciosa e sincera, pronta para finalmente se juntar aos amigos na brincadeira de bola.
A brincadeira começou animada, com a bola colorida quicando de um lado para o outro na areia fofa. Cloud e Tifa trocavam passes leves com Inome e Sephiroth, sempre facilitando para deixar a bola sobrar para Kether. O clima era de pura descontração, até que o brinquedo rolou perfeitamente para os pés da garotinha.
Ainda empolgada com o sucesso da investida anterior, Kether não teve dúvidas de quem seria seu alvo favorito. Ela tomou uma pequena distância, mirou em Cloud e chutou com uma força absurda e desproporcional para o seu tamanho. A bola cruzou a distância como um canhão e acertou em cheio o estômago do loiro com um estalo alto. Cloud soltou um grunhido surpreso, curvando o corpo para frente e precisando dar dois passos para trás para não cair enquanto agarrava a bola contra o peito.
Tifa, que estava logo ao lado esperando um passe, dobrou os joelhos e começou a rir sem emitir som, os olhos lacrimejando de tanto achar graça ao ver o noivo virar saco de pancadas da garotinha de novo.
Apesar da cena cômica, os pais intervieram no mesmo instante. Inome caminhou até Kether, segurando gentilmente a mão da filha com uma expressão firme, mas carinhosa.
— Kether, o que a gente acabou de falar sobre usar essa força toda? — Inome repreendeu, balançando a cabeça. — Não pode chutar a bola machucando. É só uma brincadeira.
Sephiroth parou logo atrás da esposa, cruzando os braços. O olhar verde recaiu sobre a filha com aquela mesma mansidão didática de antes.
— A força é para proteger, não para ser usada contra os amigos em um jogo — ele reforçou, o tom grave ditando o ritmo da correção. — Peça desculpas ao Cloud.
Kether fez um biquinho contrariado, afundando o queixo no peito por alguns segundos antes de olhar para o loiro e murmurar um pedido de desculpas. Cloud, ainda recuperando o fôlego sob as gargalhadas contínuas de Tifa, apenas sorriu e ergueu um polegar trêmulo no ar para sinalizar que estava tudo bem, pronto para recomeçar o jogo.
O jogo de bola continuou pela tarde afora, agora com Kether um pouco mais contida nos chutes, mas sem perder um pingo da energia. A bola voava de um lado para o outro na areia. Cloud passou a desviar dos passes da garotinha com saltos curtos, enquanto Sephiroth e Inome mantinham o ritmo leve da brincadeira, garantindo que o jogo não saísse do controle novamente. O som das risadas e o barulho das ondas preencheram o ambiente até o sol começar a baixar, tingindo o céu de Costa del Sol com tons de laranja e rosa.
Quando o fim de tarde se firmou, Sephiroth e Cloud ficaram encarregados de cuidar de Kether e preparar algo na casa. Inome e Tifa aproveitaram a deixa para escapar até a área comercial da cidade, com uma missão muito específica: olhar as opções de vestidos de noiva nas vitrines.
Enquanto caminhavam pelas ruas de paralelepípedo, aproveitando a brisa fresca, Inome soltou um suspiro, relembrando a cena na praia.
— Eu fiquei brava com a Kether hoje — Inome comentou, balançando a cabeça de forma reprovadora. — Tirando a paz do Cloud daquele jeito, derrubando ele no chão, usando de alvo pra chutar a bola...
Tifa riu alto, parando em frente à vitrine de uma boutique bem iluminada para observar a renda de um vestido branco.
— Inome, relaxa. Ela só tira a paz dele porque o Cloud não fala "não" pra ela nunca. Ele deixa ela fazer absolutamente o que quiser.
— Mas é nossa obrigação dar a bronca — Inome retrucou com firmeza, parando ao lado da amiga e cruzando os braços, a expressão ainda carregando um resquício de seriedade materna. — Se ele não impõe limite, eu e o Seph temos que impor na hora. Senão ela monta em cima mesmo. A gente tem que educar.
Tifa soltou mais uma risada gostosa, os olhos castanhos brilhando de diversão enquanto olhava os detalhes do vestido no manequim.
— Eu sei, eu sei. E vocês estão certíssimos em corrigir ela sempre — Tifa concordou, sorrindo largo. — Mas é que o Cloud é bonzinho demais, Inome. Ele não tem coragem nenhuma de dar uma bronca nela. É por isso que eu dou risada... ele fica com cara de bobo, completamente rendido.
O sino da porta de vidro tilintou suavemente quando as duas entraram na loja. O ambiente era fresco e bem iluminado, preenchido por araras repletas de tecidos brancos, sedas e bordados delicados.
Enquanto caminhavam pelo corredor principal, deslizando as mãos pelos cabides para analisar as opções de vestidos, Inome retomou o assunto, ainda soando um pouco intrigada.
— Eu só não entendo por que ela cismou de brincar de forma mais bruta justo com o Cloud. Ela não tenta fazer isso com mais ninguém.
Tifa puxou um cabide com um vestido tomara que caia, admirando os detalhes da renda na saia antes de olhar para a amiga com um sorriso perfeitamente compreensivo.
— É exatamente porque ele deixa, Inome — Tifa reforçou, voltando a guardar o vestido na arara. Ela se virou de frente para a morena, abaixando um pouco o tom de voz como se estivesse compartilhando um segredo engraçado. — Ele mesmo já me confessou isso. O Cloud me disse com todas as letras que não tem coragem nenhuma de ser bravo com a Kether. Ele não consegue dar um pio de bronca nela. A menina faz o que quer e ele simplesmente amolece.
Inome negou com a cabeça, soltando um suspiro enquanto deslizava a mão pelo tecido de um vestido com pedrarias.
— Você tem que tomar cuidado se vocês dois tiverem filhos um dia, Tifa — Inome pontuou, olhando para a amiga. — Com esse jeito mole dele de não conseguir dizer não, você vai acabar tendo que ser a durona o tempo todo.
Tifa abriu um sorriso tranquilo e deu de ombros levemente.
— Sabe que eu nunca tinha pensado nessa possibilidade? — a lutadora confessou, com um tom leve e descontraído. — Mas pode ficar tranquila. Nós dois temos bastante cuidado com isso para não ter surpresas.
O rosto de Inome esquentou levemente, pega de surpresa pela naturalidade e pelo planejamento da amiga. A lembrança do teste de gravidez positivo pesou na mente na mesma hora. Ela desviou o olhar para os cabides e murmurou bem baixinho, quase para si mesma, soltando um suspiro longo:
— É... eu e o Seph não tomamos muito cuidado mesmo.
Tifa soltou uma risada gostosa e compreensiva, dando um leve empurrãozinho de ombro na amiga.
— Bom, acho que a essa altura a gente já percebeu isso, né? — Tifa brincou com carinho, piscando para Inome, sem nenhum tom de julgamento.
A lutadora então voltou a atenção para as araras e, depois de correr os dedos por algumas opções, parou diante de um modelo que chamou sua atenção instantaneamente. Era um vestido branco de seda lisa, com um caimento elegante e fluido, fugindo completamente das armações exageradas e do tule volumoso. O modelo tinha um decote discreto na frente, mas o grande destaque ficava por conta das costas nuas desenhadas por alças finas e cruzadas, além de uma fenda lateral na saia que permitia total liberdade de movimento. Era uma peça madura, limpa e que combinava perfeitamente com a personalidade prática e forte dela.
— Achei — Tifa sorriu, tirando o cabide da arara com os olhos brilhando. Ela virou para Inome, animada. — Eu vou experimentar esse aqui. Me espera aí.
Alguns minutos depois, a cortina do provador foi puxada para o lado. Tifa saiu com passos lentos, ajeitando o caimento da seda na cintura. O vestido abraçava o corpo dela com perfeição; o tecido fluido e a fenda lateral traziam a leveza exata que ela gostava, e as costas nuas destacavam sua postura forte e confiante.
Assim que a amiga apareceu, Inome abriu um sorriso radiante. Ela deu alguns pulinhos no lugar e bateu palminhas curtas e animadas, com os olhos brilhando de encanto genuíno.
— Tifa! Pelos deuses, você está maravilhosa! — Inome exclamou, caminhando ao redor da lutadora para admirar o modelo de todos os ângulos. — Ficou simplesmente perfeito. Sério, parece que foi desenhado e costurado no seu corpo. Você está deslumbrante demais!
Tifa riu, as bochechas corando de leve com a chuva de elogios. Ela caminhou até o grande espelho da loja e parou, alisando o tecido branco sobre o quadril. O reflexo devolvia a imagem de uma mulher forte, elegante e visivelmente emocionada. O olhar dela amoleceu enquanto a mente já viajava para o dia da cerimônia.
— Dá até um frio na barriga me ver assim, de verdade... — Tifa murmurou, o sorriso se alargando e ganhando um tom sonhador. — Eu já consigo até ver o Cloud esquecendo como se respira ou tropeçando nas próprias palavras quando me vir caminhando até ele vestida assim.
Inome parou ao lado dela, olhando também para o espelho, e assentiu com absoluta convicção.
— Tropeçando, perdendo a fala e esquecendo até o próprio nome — Inome concordou com veemência, rindo e apoiando a mão carinhosamente no ombro da amiga. — Ele vai cair duro de tanto amor, Tifa. Pode ter certeza absoluta de que você vai ser a noiva mais linda de toda Gaia. Não precisa nem provar outro, pode levar esse agora mesmo!
Tifa sorriu para o próprio reflexo, alisando a seda fluida da saia mais uma vez, e suspirou, convencida.
— Você tem toda a razão, Inome — a lutadora concordou, sem conseguir desviar o olhar do espelho. — E quer saber de uma coisa? Dizem que quando o primeiro vestido que a gente prova já fica lindo e perfeito logo de cara assim, não é coincidência, é coisa do destino. É como se o vestido tivesse escolhido a noiva.
Inome assentiu repetidas vezes, os olhos ainda brilhando enquanto admirava o caimento da peça na amiga.
— Com certeza absoluta. Quando é pra ser, simplesmente encaixa — Inome concordou, sorrindo largo. — Nem adianta gastar tempo procurando ou provando outro
Tifa voltou para o provador, tirou a peça de seda com todo o cuidado do mundo e vestiu suas roupas de sempre. Quando se aproximou do balcão do caixa, ela carregava o vestido dobrado com uma delicadeza quase reverente.
A moça que estava no atendimento abriu um sorriso gentil ao ver a escolha.
— Esse modelo é um dos mais elogiados da nossa coleção — a atendente comentou, puxando uma capa protetora elegante. — Deu tudo certo no provador?
— Deu sim, ficou absolutamente perfeito — Tifa respondeu, o sorriso não saindo do rosto enquanto abria a bolsinha para pegar a carteira. — Eu vou levar.
— Fez uma escolha maravilhosa. Certeza de que será uma noiva inesquecível.
Após entregar os Gils da compra e pegar a sacola cuidadosamente embalada, Tifa e Inome saíram da boutique. A brisa de fim de tarde em Costa del Sol estava ainda mais agradável, misturando o cheiro do mar com a tranquilidade da rua de paralelepípedos.
Tifa caminhava abraçada à sacola, com uma expressão de pura missão cumprida, até que parou de supetão e olhou para a amiga.
— Certo, vestido escolhido e comprado! E pra comemorar o sucesso da missão... eu quero tomar sorvete. Me deu uma vontade absurda de algo bem gelado agora.
Inome deu uma risadinha, acompanhando os passos da amiga de volta em direção à orla.
— Eu vou só te acompanhar dessa vez, Tifa. Eu não tô com vontade nenhuma de doce agora.
Tifa ajeitou a sacola no ombro, aceitando a resposta com naturalidade, mas já olhando em volta, analisando as fachadas das lojas pela calçada.
— A companhia já tá valendo! Mas e aí, você lembra se a gente passou por alguma sorveteria boa no caminho pra cá ou vamos ter que caçar alguma barraca lá perto da praia?
Inome apontou com a cabeça na direção da orla, lembrando-se de um detalhe enquanto caminhavam.
— Tem uma barraca na feirinha logo ali perto da praia que faz um sorvete especial — Inome sugeriu, guiando o caminho. — Eles batem a fruta na hora, numa chapa bem gelada, e misturam com um creme fresco. O Seph comprou pra Kether na semana passada e ela adorou. Fica logo depois da área de comida.
Tifa animou-se com a ideia e as duas seguiram em direção ao burburinho da feira local. O fim de tarde havia atraído muita gente, e o corredor de lonas coloridas estava lotado.
No entanto, assim que cruzaram a entrada da seção principal, uma nuvem densa de odores tomou conta do ar: peixe grelhado, fritura pesada, queijo derretido e fumaça de carvão. O impacto foi imediato. Inome travou no meio do passo, o rosto perdendo a cor rapidamente enquanto o estômago dava um solavanco violento. Ela levou a mão à boca e ao nariz, apertando os olhos e engolindo em seco, lutando com todas as forças contra a náusea avassaladora que a gravidez acabara de jogar em seu colo.
Tifa percebeu a palidez da amiga no mesmo milésimo de segundo. Sem fazer alarde ou perder tempo com perguntas, a lutadora passou a sacola do vestido para a outra mão, segurou Inome firmemente pelo braço e a puxou para perto.
— Prende a respiração e olha pro chão, a gente vai passar voando por aqui — Tifa instruiu, a voz baixa e decidida.
Acelerando o passo, Tifa praticamente serviu de escudo, cortando caminho habilmente por entre os turistas e puxando Inome a tiracolo. Ela não diminuiu o ritmo nem por um segundo, guiando a amiga rapidamente para fora do nevoeiro de temperos e só parando quando finalmente alcançaram o ar fresco, de frente para a bancada doce e inofensiva da barraca de sorvetes.
Inome puxou o ar puro com força, sentindo o estômago finalmente se acalmar assim que o cheiro doce e fresco de frutas, leite e baunilha substituiu a fumaça pesada das frituras.
Atrás da chapa fria onde os sorvetes eram preparados, uma senhora de rosto simpático, cabelos grisalhos presos e avental colorido abriu um sorriso largo e acolhedor assim que reconheceu a freguesa se aproximando.
— Boa tarde, querida! Sobreviveram ao corredor da feira, pelo visto — a dona da barraca brincou, limpando as mãos em um paninho de prato limpo.
Inome abriu um sorriso aliviado, a cor voltando aos poucos para suas bochechas, e fez um gesto indicando a lutadora ao seu lado.
— Boa tarde, dona Marta. Sobrevivemos por pouco, graças a ela — Inome brincou de volta, apontando. — Essa aqui é a Tifa, uma das minhas melhores amigas. Ela veio de Kalm para passar uns dias com a gente.
— Muito prazer, senhora — Tifa cumprimentou com seu jeito naturalmente caloroso, apoiando-se no balcão de vidro.
— O prazer é todo meu, menina bonita! — a senhora respondeu com simpatia, mas logo semicerrou os olhos e esticou o pescoço, procurando além das duas. — Mas me diga, Inome... cadê aquele seu marido grandão e a pequena Kether? A menininha gostou do sorvete de morango que ele levou na semana passada?
Inome riu baixinho, a tensão do enjoo já completamente esquecida.
— Ela amou, dona Marta, devorou tudo em minutos. Mas hoje os dois ficaram em casa cuidando do noivo da Tifa — Inome explicou, trocando um olhar divertido com a amiga. — Nós viemos resolver uns assuntos importantes pela cidade e precisávamos de um tempo só das meninas. Como a Tifa estava louca por um doce, eu disse que ela precisava provar o seu sorvete.
Tifa observou as frutas frescas dispostas no vidro do balcão e não demorou muito para se decidir.
— Eu vou querer o de frutas vermelhas com creme, por favor — Tifa pediu, animada.
Dona Marta assentiu com um sorriso e pegou as espátulas, já separando as frutas, e voltou-se rapidamente para a morena.
— E para você, querida? Certeza absoluta que não vai querer nem provar um pouquinho?
— Certeza, dona Marta. Hoje eu vou só fazer companhia mesmo — Inome recusou educadamente, apoiando as mãos no balcão.
A senhora despejou a base do creme na chapa fria, mas parou por um segundo. Ela ergueu o olhar para Inome com um brilho astuto e acolhedor, soltando a pergunta com a maior naturalidade do mundo:
— Tem certeza? E o neném, não vai querer um docinho?
Inome gelou na mesma hora. O sangue pareceu fugir do seu rosto mais uma vez, mas agora por um motivo completamente diferente. Ela arregalou os olhos, o corpo inteiro ficando tenso enquanto trocava um olhar rápido e alarmado com Tifa, antes de voltar a encarar a vendedora, gaguejando.
— O-o quê? Do que a senhora tá falando?
Dona Marta soltou uma gargalhada gostosa e calorosa, voltando a bater as frutas na chapa gelada com as espátulas, fazendo um barulho ritmado e alegre.
— Ah, minha filha, não precisa fazer essa carinha de assustada! — a senhora riu, balançando a cabeça com sabedoria. — Eu já tive seis filhos na minha vida, criei todos eles correndo por essas ruas. Você acha que eu não conheço? Essa palidez de quem acabou de cruzar a barraca de fritura segurando a respiração, o jeito que a sua amiga te puxou correndo para te salvar do cheiro... e, principalmente, esse brilho diferente no olhar. Eu sei muito bem reconhecer uma grávida quando vejo uma!
Inome abaixou a cabeça, escondendo o rosto com uma das mãos enquanto soltava um suspiro longo e pesado, finalmente se dando por vencida. Quando ergueu o olhar de novo, exibia um sorriso envergonhado, porém relaxado.
— Tá bom, a senhora venceu — Inome admitiu, gesticulando em direção à chapa gelada. — Já que fui descoberta e a senhora entende do assunto... faz um pra mim também. Mas eu quero de limão bem azedo, misturado com doce de leite e amendoim salgado por cima.
Dona Marta soltou uma gargalhada tão alta e gostosa que chamou a atenção de quem passava perto da barraca.
— Ah, eu sabia! Mistura esquisita, não tem erro! E desejo de grávida não se nega de jeito nenhum! — a senhora riu, já pegando as frutas, o doce e o amendoim, jogando tudo na chapa gelada com uma agilidade impressionante. — Já vou fazer o seu, vai sair no capricho!
Aproveitando o clima descontraído e a experiência da vendedora, Tifa se aproximou um pouco mais do vidro do balcão.
— Dona Marta, já que a senhora conhece Costa del Sol de ponta a ponta, tem dicas de lugares para casamento por aqui? — Tifa perguntou, cheia de interesse. — Eu acabei de comprar o meu vestido, mas ainda estou completamente perdida sobre onde fazer a cerimônia.
A senhora abriu um sorriso ainda mais largo, fazendo as espátulas dançarem sobre o sorvete enquanto falava, visivelmente empolgada com o assunto.
— Menina, você veio perguntar para a pessoa certa! Opção linda é o que não falta aqui — ela começou a listar, gesticulando no ar com uma das espátulas. — Se você quiser o clássico, tem a Praia do Cais Sul, que tem o pôr do sol mais dourado da cidade. Se quiser algo com mais luxo e privacidade, os Jardins do Hotel Villa Sol são um espetáculo. Para as noivas mais tradicionais, tem o Mirante da Capela Velha, lá no alto da colina, com a vista inteira para o oceano. Mas, se você quer casar com o pé na areia, ouvindo o mar e longe dos turistas da cidade, a Enseada das Conchas, logo depois do farol, é o cantinho mais romântico e reservado daqui.
Dona Marta finalizou os sorvetes, enrolando a mistura em tubinhos perfeitos e entregando os potes para Tifa e Inome. Ela secou as mãos no avental e se debruçou no balcão, olhando curiosa para a lutadora.
— Com tantos lugares diferentes assim, qual é exatamente o estilo de cerimônia que você e o seu noivo estão imaginando?
Tifa pegou o pote de sorvete de frutas vermelhas, agradecendo com um sorriso antes de provar a primeira colherada.
— Sendo bem sincera, dona Marta, nós estamos completamente confusos ainda — Tifa confessou, saboreando o doce gelado. — A gente pensou em fazer lá por perto de casa mesmo. Cogitamos Midgar ou Kalm, mas não conseguimos bater o martelo em nada.
Dona Marta parou de limpar a chapa na mesma hora, abanando as duas mãos no ar em um gesto de negação.
— Midgar? Ah, não, minha filha! Eu sei que a cidade está toda sustentável, ecológica e cheia de verde agora, mas não me desce! — a senhora descartou, fazendo uma careta engraçada. — No fundo, por baixo de toda aquela grama, a base ainda é metal e aço. Casamento pede natureza de verdade, não um projeto de paisagismo em cima de placa de ferro!
Inome deu uma risadinha ao lado, afundando a colher na sua mistura esquisita de limão, doce de leite e amendoim, achando graça da indignação da vendedora.
— Mas Kalm... ah, Kalm é outra história! — Dona Marta continuou, o sorriso caloroso voltando ao rosto enquanto se apoiava no balcão de vidro. — É uma cidadezinha cheia de charme rústico genuíno. Vocês poderiam montar a cerimônia ali na praça central, com aquela torre de pedra ao fundo, ou naqueles campos abertos maravilhosos que ficam logo na entrada. Tem uma energia muito mais pura e acolhedora para um casamento do que qualquer estrutura lá de Midgar.
Tifa deu de ombros, pegando mais uma colherada do sorvete de frutas vermelhas.
— O problema é que o Cloud não sabe muito bem onde quer casar. Ele fica completamente em cima do muro quando eu pergunto.
Dona Marta arregalou os olhos, soltando um estalo com a língua e sacudindo a espátula no ar, visivelmente indignada com a afirmação.
— E desde quando homem tem que decidir casamento, minha filha? Onde já se viu! — a senhora esbravejou, gesticulando com fervor. — A festa é da noiva! O noivo só tem a obrigação de aparecer lá no dia, de terno limpo, banho tomado e falar o "sim" na hora certa. Não é verdade?
A senhora virou o rosto afiado para Inome, esperando que ela validasse a regra de ouro. Inome parou com a colher cheia de sorvete de limão com amendoim no meio do caminho, sorrindo meio sem graça por ter que quebrar a expectativa da vendedora.
— Ah, dona Marta... pior que não — Inome admitiu, a contragosto da senhora. — Eu e o Seph decidimos tudo juntos, do início ao fim. Mas confesso que, no final das contas, ele fez questão de priorizar o meu gosto para as coisas.
A vendedora revirou os olhos com um muxoxo divertido, resmungando algo baixinho sobre os maridos estarem modernos demais hoje em dia. Tifa soltou uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— As duas têm razão — a lutadora concordou, os olhos castanhos brilhando enquanto observava o movimento tranquilo da rua de paralelepípedos e a brisa do mar logo à frente. — O Cloud com certeza vai fazer a mesma coisa e priorizar o que eu escolher. E quer saber de uma coisa? Pensando bem com tudo o que a senhora falou... eu quero me casar aqui. Em Costa del Sol mesmo.
Dona Marta apontou a espátula na direção de Tifa, os olhos brilhando de aprovação.
— É assim que se fala! Tem que ser dura na queda, minha filha — a senhora aconselhou com firmeza, batendo no balcão para dar ênfase. — Bate o pé, escolhe o seu lugar debaixo desse sol e não abaixa o seu gosto por causa de vontade de homem não.
Inome apenas sorriu, achando graça da veemência da vendedora. Sem dizer nada para não contrariar a senhora de novo, ela enfiou mais uma colherada daquela mistura azeda e salgada na boca, completamente concentrada no seu sorvete.
O fim do dia trouxe uma brisa mais fresca para a casa em Costa del Sol. Na cozinha, Inome e Sephiroth dividiam o espaço preparando o jantar. Enquanto ela arrumava a mesa, distribuindo os pratos e talheres, o platinado finalizava o prato principal na bancada.
— O segredo do robalo assado não está no fogo, mas no tempo exato da marinada — Sephiroth comentou, a voz grave e calma de sempre, enquanto ajeitava a travessa fumegante com cuidado. — O limão e as ervas precisam de pelo menos duas horas para penetrar na carne sem desfazer a textura.
Inome sorriu, parando por um instante com os guardanapos na mão para observá-lo.
— É muito bom mesmo. Ninguém faz esse peixe igual a você.
Na sala de estar, a poucos metros dali, Kether estava esparramada no tapete ao redor da mesinha de centro. Tifa e Cloud estavam sentados no chão com a garotinha, os três debruçados sobre as folhas de papel. No meio deles, uma carta de um baralho infantil exibia o desenho simpático de um Moogle gordinho.
— O meu ficou muito mais bonito que o de vocês! — Kether anunciou, erguendo a folha com as duas mãos, toda orgulhosa do bicho tortinho e colorido que tinha feito.
Cloud apertou os olhos para o desenho da menina, depois olhou para a própria folha, onde os traços estavam um pouco duros e rígidos demais.
— Ficou legal, Kether. Mas o meu está mais parecido com o da carta — ele argumentou, girando o lápis de cor entre os dedos.
Tifa deu uma risada gostosa, espiando a arte do noivo.
— Ah, Cloud, fala sério... o da Kether tem muito mais vida! O seu parece que o bicho tá tenso prestando continência.
Antes que Cloud pudesse se defender, o aroma forte e temperado do robalo saindo do forno espalhou-se pela casa, dominando o ambiente. O loiro parou de desenhar, levantando o rosto e farejando o ar na direção da cozinha.
— Esse cheiro de peixe está bom demais... — ele murmurou, largando o lápis de vez sobre a mesa. — Já tá pronto?
Tifa concordou na mesma hora, começando a juntar os lápis esparramados e apoiando as mãos nos joelhos para se levantar.
— Nossa, sim! — a lutadora completou em voz alta para que ouvissem da cozinha. — Eu já estava com fome, mas com esse cheiro agora, estou ansiosa para comer logo. Vamos, Kether, hora de lavar as mãos!
Inome secou as mãos no pano de prato e caminhou até a sala. Ela se abaixou levemente, esticando os braços para pegar Kether no colo e levá-la ao banheiro. No entanto, antes que a garotinha pulasse, Tifa se adiantou e interceptou o movimento, pegando a mão da pequena.
— Ei, deixa comigo, Inome. Não precisa se preocupar em ficar pegando ela no colo agora — Tifa disse com um sorriso protetor. — Eu vou com a Kether. Vem, mocinha, vamos tirar esse giz de cera das mãos.
— Obrigada, Tifa — Inome agradeceu com um sorriso aliviado, endireitando a postura e voltando para perto da mesa de jantar.
Enquanto as duas sumiam pelo corredor em direção ao banheiro, Cloud já havia se acomodado na cadeira. Ele pegou a jarra suada que estava na mesa e serviu o próprio copo com o suco gelado. O loiro deu um gole, avaliando o gosto com aprovação.
— Esse suco de caju está muito bom — Cloud comentou, pegando em seguida o copo vazio de Tifa e enchendo-o também, deixando a bebida pronta no lugar da noiva.
Sephiroth terminou de ajeitar a travessa do robalo no centro da mesa e ocupou a cadeira de frente para o loiro. Aproveitando o breve momento de silêncio na sala, o platinado cruzou os braços sobre a mesa e fixou seu olhar calmo em Cloud.
— Cloud — Sephiroth chamou, a voz grave assumindo um tom mais reflexivo. — Um conselho antes de você subir no altar. O casamento não é sobre tentar resolver os problemas dela como se fossem missões ou batalhas. Muitas vezes, a Tifa não vai querer que você conserte a situação. Ela vai precisar apenas que você escute, compreenda e fique do lado dela. A presença e a paciência resolvem muito mais do que qualquer solução rápida.
Cloud parou com o copo no ar, processando as palavras com atenção. Ele assentiu devagar, absorvendo a seriedade e a experiência no conselho do mais velho.
— Vou me lembrar disso. Obrigado, Sephiroth — o loiro respondeu de forma sincera, acatando a orientação justo no momento em que o som dos passos rápidos de Kether ecoou de volta pelo corredor, anunciando o retorno dela e de Tifa para o jantar.
Tifa e Kether voltaram do banheiro com as mãos limpas, e logo todos se ajeitaram ao redor da mesa. O clima era de puro aconchego familiar. Inome serviu as porções de arroz e salada, enquanto a travessa de robalo assado circulava.
Sephiroth puxou o prato de Kether para perto de si antes de deixá-la começar. Com movimentos precisos e cuidadosos, ele usou o garfo e a faca para desfiar a posta de peixe da garotinha, verificando meticulosamente se não havia sobrado nenhuma espinha escondida na carne branca.
— Coma devagar, Kether. E mastigue bem — Sephiroth instruiu com sua voz grave, devolvendo o prato para a frente da menina, que já atacou a comida com vontade.
Tifa deu a primeira garfada no robalo e fechou os olhos, soltando um murmúrio de aprovação.
— Sephiroth, isso está absurdamente incrível — a lutadora elogiou, pegando mais um pedaço. — A Inome tem razão, ninguém tempera peixe igual a você.
Cloud assentiu silenciosamente, já na metade da sua própria porção, focado no prato. Ele limpou a boca com o guardanapo e virou levemente o rosto para a noiva.
— Aproveitando o clima... você conseguiu pensar em alguma coisa sobre Kalm hoje à tarde? Nós íamos ver os orçamentos lá na semana que vem.
Tifa deu um sorriso misterioso, espetando um pedaço de batata com o garfo antes de responder.
— Na verdade, eu mudei de ideia — ela revelou, os olhos brilhando de empolgação. — Eu não quero mais Kalm. Eu quero casar com o pé na areia, Cloud. Aqui em Costa del Sol mesmo. Lá na Enseada das Conchas.
O loiro ergueu as sobrancelhas, pego de surpresa pela mudança repentina de rota, mas o sorriso de canto entregou que a ideia o agradava.
— Costa del Sol? Por mim está ótimo. Só precisamos fechar a lista de convidados e ver como vamos descer com todo o pessoal de Kalm até aqui para a festa.
— Vai dar tudo certo. A gente ajuda vocês com a logística da viagem do pessoal — Inome garantiu, bebendo um gole de suco.
Tifa apoiou o queixo na mão, observando Kether comer animada e sujar a pontinha do nariz com o molho do peixe. O olhar da lutadora amoleceu, e ela aproveitou a deixa para puxar o assunto geral que haviam comentado mais cedo.
— Sabe de uma coisa? Observando você brincar mais cedo... eu cheguei a uma conclusão. Se a gente tiver filhos um dia, eu definitivamente vou ter que ser a "policial má" da casa.
Cloud quase engasgou com o suco, arregalando os olhos azuis enquanto Tifa ria da reação dele.
— Eu? Por que eu? — ele perguntou, limpando a garganta e ajeitando a postura.
— Ah, Cloud... — Inome entrou na conversa, dando uma risadinha e medindo as palavras para não dar ideias à filha que estava logo ali. — Você claramente não sabe dizer "não". Vai acabar mimando demais.
Sephiroth bebeu um gole de água, a expressão impassível, mas os olhos claramente divertidos enquanto concordava com a esposa.
— Ela tem razão. A sua inclinação natural é ceder. A disciplina ficará a cargo da Tifa, sem a menor dúvida.
Cloud abriu a boca para se defender, olhou para Kether — que parou de mastigar e deu um sorriso inocente para ele com o nariz sujo de molho — e apenas suspirou, voltando a comer em silêncio enquanto Tifa e Inome riam da cara de derrota dele.

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