quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A Consciência de Veridios - Capitulo 4: A Praga

 


A ascensão de Osnain como o coração industrial e tecnológico de Veridia não apagou completamente as vertentes místicas que moldaram o continente. Muito antes das torres de liga metálica e das chaminés de vapor místico dominarem o horizonte, o culto a Khaelora fincou suas raízes na capital através de uma bruxa anciã vinda das profundezas de Parallel Woodlands. Com paciência e astúcia, a idosa praticante integrou as doutrinas da Deusa da Mente à estrutura cívica da nação, demonstrando que o intelecto refinado e a flexibilidade psíquica eram motores tão poderosos para o progresso quanto a arquitetura e a matemática.

Com o passar dos decênios, Osnain transformou-se em uma metrópole ímpar. Veículos movidos a combustão mística deslizavam por vias pavimentadas sobre superfícies polidas, enquanto autômatos engrenados e redes de transmissão energética cortavam os bairros em um zumbido constante de eficiência. Contudo, a recente e estarrecedora expansão dos Aberramorfos pelas regiões vizinhas lançou a nação em uma paranoia claustrofóbica. Para garantir a preservação de seu modelo de civilização, o governo derramou recursos colossais na construção de uma imensa redoma militar e mística. Estruturas gigantescas de aço e transmissores arcana erguiam-se nos limites do território, fechando o céu de Osnain como uma gaiola reluzente disposta a isolar o país do resto do mundo.

Foi justamente nesse cenário de ordem rígida e medo crescente que Izumi encontrou seu propósito.

Ao contrário de outros de sua linhagem que ostentavam asas pesadas de membrana ou couro, Izumi trazia uma silhueta alta, ereta e visivelmente esguia. Do topo de sua cabeça erguiam-se chifres negros e pontudos, cujas curvaturas elegantes sobressaíam entre as mechas de seus cabelos. Longas orelhas élficas estendiam-se para os lados, reagindo ao menor ruído do ambiente, enquanto escamas finas e translúcidas ornamentavam delicadamente a curva de seu pescoço e a linha de seus ombros.

Movida pela compreensão profunda dos dogmas primordiais de Khaelora, Izumi escolheu o sacerdócio para romper com os preconceitos que cercavam a divindade. Ela buscava provar ao seu pai biológico — o ancestral Dragão da Tribo dos Ventos —, a Solon, o influente Senhor Solar, e à sua mãe, Walmmore, que a essência de Khaelora não se resumia a caos cego ou loucura destruidora. Para ela, a energia da mente era uma força transformadora, um catalisador de adaptação e evolução psíquica que, quando bem canalizado, podia proteger a sanidade e expandir a consciência.

Investida na patente de Vigária da Brisa Mutável — um posto de autoridade mediana dentro da ordem, responsável por ligar os altos dogmas às necessidades do povo —, Izumi assumiu a liderança das expedições externas. Seu dever consistia em organizar e guiar caravanas missionárias para além dos muros de Osnain. Ao lado de suas irmãs de fé, ela percorria vilarejos e postos avançados, levando suprimentos, oferecendo amparo mental aos desesperançados e pregando a palavra primordial da Deusa da Mente como um escudo espiritual contra o pânico que devorava as terras de Veridia.

Os quatro besouros-de-casca da caravana avançaram em fila indiana pela rampa de pedra polida que conduzia ao portão sul da Paliçada de Voris, a última fortaleza antes do abismo rochoso de Narrow Groove. À frente do grupo, Izumi ajustou as rédeas de couro, mantendo a postura ereta e a cabeça erguida; atrás dela, Liora, Vanya e Naya seguiam em silêncio, o sibilo das asas de suas montarias ecoando contra as muralhas de liga metálica que sustentavam as primeiras vigas da futura redoma de Osnain.

Antes que a primeira montaria pudesse cruzar a linha do anel de contenção, uma lança de liga escura cruzou o caminho, caindo com um estalo seco contra o solo pavimentado.

Um oficial Petriano deu dois passos à frente, emergindo da guarita blindada. Baixo, mas de ombros largos e tórax denso, o soldado trajava a farda militar de elite de Osnain: um sobretudo de lã densa em tom azul-noturno com dragonas de latão escovado, sobreposto a uma couraça articulada de aço e runas de combustão mística que pulsavam em um azul gélido. Um elmo de viseira estreita ocultava parte de suas feições rígidas, revelando apenas a barba trançada com fios de cobre.

— Alto, caravana das clérigas — ordenou o Petriano, a voz ressoando abafada por trás da grelha de metal de seu elmo. — Vigária Izumi, se cruzar estes portões rumo a Giant Turtle, a passagem de retorno lhe será negada de forma definitiva. O protocolo de contenção decretou isolamento total. Assim que pisarem fora da paliçada, estarão abandonando o solo sagrado de Osnain.

Izumi reajustou a capa que cobria seus ombros, deixando visíveis as escamas translúcidas de seu pescoço e a curvatura elegante de seus chifres negros. Suas longas orelhas élficas inclinaram-se levemente para a frente ao encarar o oficial.

— Nenhum pedaço de terra nesta criação pertence exclusivamente a um decreto militar, soldado — respondeu Izumi, o tom suave, mas impregnado de uma autoridade natural. — Todo solo sob os céus de Veridia é sagrado. A vida que definha além destas muralhas precisa de amparo, não de portões trancados.

— Minha função não é debater teologia, Vigária — rebateu o oficial Petriano, batendo o cabo da lança contra o chão e dando um passo ameaçador à frente. — Eu sigo ordens diretas e incontestáveis. Cumpro as palavras finais e a diretriz estrita do Presidente Aurelius. Quem abandonar a capital sob este estandarte será considerado banido, desprovido da proteção de nossas máquinas e de nosso exército.

O nome do governante fez um silêncio tenso pairar sobre a ponte de saída. Aurelius, o influente Prefeito e Presidente de Osnain, era um Dragão Primordial ancestral. Para a população e para a infantaria militar, ele permanecia como a figura de um governante visionário e irretocável — o homem que erguera as indústrias, os autômatos e as redes elétricas que transformaram o país em uma potência.

Aos olhos do povo, contudo, poucos percebiam a sutil e aterradora transformação que o afetava: uma oscilação gradual em sua postura e a perda permanente de sua consciência espiritual, que a massa interpretava como mera rigidez política. Ninguém na superfície suspeitava que a frieza de Aurelius era o sintoma de sua ambição sombria, alimentada pelos testes secretos nos reatores subterrâneos para aprisionar a essência de Veridios.

— O Presidente Aurelius busca salvar o que resta da civilização trancando as portas do próprio lar — disse Izumi, fixando os olhos cinzentos na viseira do Petriano. — Mas se a ordem de Osnain exige que fechemos os olhos para os moribundos do continente, então essa ordem já perdeu a própria alma.

— Pense o que quiser, clériga — o soldado fez um sinal seco para os guardas no alto da muralha. O mecanismo hidráulico roncou alto, e a pesada grade de ferro começou a descer lentamente atrás dos besouros. — Mas quando a loucura lá fora devorar a sanidade das suas irmãs, não bata nesta porta. Para Osnain, vocês deixam de existir no segundo em que cruzarem aquela linha.

Izumi não respondeu. Com um toque leve nos flancos de sua montaria, ela guiou a caravana para a frente, atravessando a sombra da muralha antes que o portão se fechasse completamente com um estrondo metálico, selando o caminho de volta.

A poeira amarelada do caminho erguia-se em pequenas espirais à medida que as montarias deixavam a sombra das muralhas metálicas de Osnain para trás. À frente, a estrada de pedra batida serpenteva pelas encostas áridas que marcavam a transição para os desfiladeiros de Narrow Groove, exigindo um ritmo firme e ritmado dos besouros-de-casca.

Acomodadas sobre as carretas de suprimentos e selas reforçadas, as três companheiras de Izumi mantinham a vigilância dispostas ao seu redor.

Liora, a Elfa Silvana, mantinha uma postura impecável mesmo sobre o sol forte; sua pele clara e os cabelos prateados trançados em fios minuciosos contrastavam com a túnica impecável da ordem, enquanto suas orelhas longas e afiadas reaviam ao menor farfalhar da vegetação rasteira. Ao seu lado, Vanya, a Maculada de linhagem Abissal, trazia uma beleza sombria e singular: sua pele de tom oliva-escuro era cruzada por finas marcas rituais que fulguravam em um violeta suave quando a magia fluía, e dois chifres curtos de ônix curvavam-se elegantemente para trás a partir de sua testa. Mais à frente, liderando o flanco esquerdo, Naya, a Anferiana das Neves, movia-se com a graciosidade fluida de uma felina; a pelagem densa e alva de suas orelhas e cauda reagia ao vento gélido das montanhas, enquanto seus olhos amarelados e atentos varriam as rochas em busca de qualquer movimento suspeito.

Vanya reajustou o capuz sobre os chifres, encarando o horizonte poeirento com o cenho levemente franzido.

— O soldado falava com a arrogância dos militares da capital, mas... será que é mesmo seguro prosseguirmos assim, Izumi? — questionou a Maculada, a voz suave carregada de um receio contido. — Rompemos com a proteção de Osnain e nos lançamos rumo a um continente em colapso, sem a garantia de que as vilas à frente ainda mantêm a sanidade.

— A segurança que Osnain oferece é uma ilusão mantida por paredes de aço — respondeu Naya, sem desacelerar sua montaria. A Anferiana girou a cabeça, encarando a irmã de fé com o olhar afiado. — Eu ouvi o chamado. Nas últimas orações, a voz de Khaelora não ecoou como um sussurro distante na mente, mas como um eco vindo diretamente das terras de Giant Turtle. Algo na essência daquele lugar está clamando por nossa presença.

— Naya está certa — interveio Liora, a voz firme cortando o som das asas do besouro. — O fluxo da Deusa está agitado naquela região. Durante as meditações de alinhamento, ouvi o nome das bruxas ressoar repetidamente através dos canais psíquicos. Há uma fratura ocorrendo nos santuários de Giant Turtle, e a presença de uma ordem disposta a equilibrar a mente será indispensável.

Liora inclinou a cabeça levemente na direção de Izumi, observando o perfil esguio da Vigária.

— Além disso, o cenário geopolítico da capital de Giant Turtle joga a nosso favor — continuou a elfa. — Ucros é dominada por uma teocracia rígida de bruxas da luz e nobres que prezam pela pureza da linhagem élfica. A minha fisionomia e, sobretudo, a sua, Izumi, nos darão uma passagem que poucos estrangeiros conseguem. Suas orelhas alongadas e finamente escamadas transmitem a nobreza que aquela elite respeita e teme. Passaremos pelos portões de Ucros sem levantar a suspeita das facções da escuridão.

Izumi soltou um suspiro pesado, o ar frio saindo em uma nuvem tênue de vapor de seus lábios. Ela olhou para a própria mão, onde finas escamas translúcidas reluziam sob a luz do sol, lembrando-a da Herança de Sangue que carregava.

— Minha ascendência sempre foi motivo de cobrança, julgamento ou isolamento — disse Izumi, o tom impregnado de uma sobriedade calma. — Mas se o passado e o sangue que me moldaram nos derem uma vantagem para o futuro... para proteger as minhas irmãs e salvar a todos dessa praga, eu usarei cada traço dessa linhagem sem hesitar.

— E nós estaremos ao seu lado em cada passo, Vigária — reafirmou Vanya, tocando o amuleto em seu peito e deixando que a luz violeta de suas marcas rituais selasse a promessa.

— A caminhada será longa, irmãs — alertou Naya, apontando com a garra para a imensidão de vales e formações rochosas que se estendiam abaixo. — Atravessar os limites de Narrow Groove até o litoral levará dias de cavalgada contínua sob o céu aberto de Veridia. Precisamos economizar a energia das montarias e manter os sentidos afiados.

O diálogo cedeu espaço ao som ritmado do progresso da caravana. A paisagem ao redor começava a mudar drasticamente: as torres prateadas e o ar impregnado de fuligem mística de Osnain ficaram para trás, substituídos pelo vento seco dos cânions, pelas estradas de terra batida marcadas por rodas de carroças velhas e pela imensidão solitária dos caminhos de Narrow Groove. As quatro clérigas avançavam em ritmo constante, cortando as horas enquanto o sol começava sua lenta descida no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos sobre a vastidão do mundo.

A caminhada pela estrada poeirenta foi interrompida pelo brilho súbito e pelo zumbido magnético do colar de comunicação no peito de Izumi. A estrutura metálica canalizou a magia de transmissão, e a voz firme de seu irmão Khalistro ressoou através do amuleto, limpa e solene.

— Izumi? É Khalistro. Como está o avanço da caravana?

— Seguimos em ritmo constante pelos limites de Narrow Groove, meu irmão — respondeu Izumi, levando a mão ao amuleto. — E como estão as coisas no santuário?

— A contaminação ainda não atacou a Tribo Solar de forma direta, mas sentimos o peso no ar. A chama interna dos nossos guerreiros está enfraquecida, como se a própria chama elemental estivesse sendo sufocada. Fiquei preocupado com você... Sua conexão direta com Khaelora não a deixa mais exposta à corrupção da praga?

— Pelo contrário — reassegurou Izumi, o tom sereno trazendo alívio à transmissão. — É justamente essa devoção e o elo direto com a Deusa que têm servido como um escudo psíquico para mim e para as minhas irmãs. A energia nos mantém lúcidas contra a estagnação do ambiente.

Ao reconhecer o timbre aveludado e a presença marcante do filho do Dragão Solar, Naya ergueu as orelhas felinas imediatamente. Com um movimento ágil e gracioso, a Anferiana das Neves manobrou as rédeas de sua montaria, alinhando o besouro-de-casca lado a lado com o de Izumi. Inclinando seu corpo esguio na direção do colar, Naya projetou uma voz aveludada, carregada de um fascínio afetuoso que não fazia questão de ocultar:

— É sempre um alívio renovador ouvir a voz do guerreiro mais radiante destas terras, Khalistro... Dizem que a luz do sol torna qualquer travessia árdua em um passeio agradável.

Houve uma breve pausa do outro lado da linha mágica, seguida por um suspiro contido e diplomático do jovem dragão.

— Naya... não temos tempo para galanteios ou cortesias triviais — rebateu Khalistro, mantendo a compostura rígida. — O continente está em crise, e um convite para um jantar sob estas condições custaria um preço alto demais para a urgência do meu dever.

Naya soltou uma risada baixa e melodiosa, sem se intimidar pela postura distante do rapaz.

— E quando esta peregrinação chegar ao fim e a ordem for restaurada? Um banquete de celebração a sós não me parece um custo extravagante para o salvador do nosso povo.

— Se houver um mundo inteiro de pé ao fim de tudo isso, pensaremos em celebrações — esquivou-se Khalistro, esquivo e impessoal.

Izumi virou o rosto lentamente para a amiga, cravando em Naya um olhar profundo e expressivo — uma mistura de repreensão paciente e divertimento silencioso por sua ousadia. Sem dar margem para que a Anferiana insistisse, Izumi injetou um toque de magia no amuleto e encerrou a transmissão abruptamente, fazendo o silêncio retornar à estrada.

Liora, que observava a cena com suas longas orelhas élficas atentas, deixou escapar um riso discreto e elegante.

— A sua obstinação beira a imprudência, Naya — comentou a elfa silvana, balançando a cabeça trançada em fios de prata. — Tentar seduzir o Herdeiro Solar no meio do colapso do continente exige uma devoção quase heroica.

— Ou uma falta absoluta de juízo — acrescentou Vanya, a Maculada, ajustando o capuz sobre seus chifres de ônix com um sorriso sutil nos lábios.

Naya apenas ergueu o queixo com nobreza, mantendo a postura impecável sobre a sela enquanto o vento agitava sua pelagem alva.

— Vocês não compreendem — disse a felina, encarando o horizonte com um brilho ardente nos olhos. — Khaelora é a essência do sentimento e da mente; ela é a manifestação do próprio amor em sua forma mais pura. E o afeto de um dragão... não existe nada na criação que seja mais nobre, avassalador e verdadeiro

Izumi balançou a cabeça devagar, soltando um riso curto e contido enquanto ajustava a posição das rédeas em suas mãos.

— Eu a considero minha irmã de fé mais dedicada, Naya, mas não se precipite tentando virar minha cunhada — disse Izumi, divertindo-se com a audácia da companheira. — Você cruzou com o Khalistro uma única vez na vida, durante a assembléia dos santuários, e mal trocaram três palavras formais.

Naya ergueu a cabeça com uma afetação graciosa, ajustando a postura sobre a sela de sua montaria enquanto a pelagem de suas orelhas felinas balançava ao vento.

— Uma única vez foi mais do que o suficiente, Vigária — respondeu a Anferiana com um sorriso enigmático, mantendo o olhar fixo no horizonte. — Há presenças que não exigem anos de convivência para marcar a alma.

A conversa amena ajudou a dissipar a tensão da partida, mas a realidade da viagem logo se impôs sobre a caravana. À medida que o sol declinava no horizonte, tingindo as formações rochosas de Narrow Groove em tons de cobre e violeta, a temperatura caiu rapidamente. O vento frio do anoitecer soprava entre os desfiladeiros, erguendo poeira fina e fazendo as capas das quatro clérigas estalarem com frequência.

A caminhada arrastou-se por horas a fio. Diferente das artérias comerciais mais movimentadas de Narrow Groove — onde caravanas blindadas de mercadores e máquinas potentes cortavam os caminhos em ritmo frenético —, a rota escolhida por Naya descia por vales mais secundários e pacatos.

Já sob a escuridão da noite, iluminadas apenas pela luz prateada das luas e pelas marcas rituais que fulguravam suavemente na pele de Vanya, as clérigas avistaram os primeiros archotes do Passo das Sombras, um pequeno vilarejo incrustado na curva de um morro.

A localidade parecia curiosamente imune à paranoia que começava a tomar o restante do continente. Por não ser um entreposto ativo de comércio nem rota de passagem de tropas, Passo das Sombras mantinha uma rotina pacata e quase arcaica. Construções simples de pedra e madeira abrigavam famílias locais, sem os grandes veículos ou a movimentação intensa dos postos mercenários. Lanternas de óleo amarelado brilhavam nas fachadas, e o som de risos baixos ou conversas cotidianas ainda podia ser ouvido através das janelas.

Izumi guiou o grupo até uma estalagem de dois pavimentos na entrada da rua principal. Ao lado do edifício, um celeiro coberto oferecia abrigo para montarias.

As quatro desembarcaram com movimentos calculados e cansados, sentindo o peso da jornada nos músculos. Trabalhando em equipe, desmontaram as carretas e cuidaram dos besouros-de-casca: desataram as amarras de couro, limparam a poeira acumulada nas carapaças rígidas das criaturas e despejaram nas manjedouras a ração seca de feno enriquecido e blocos de seiva prensada que trouxeram de Osnain. As montarias emitiram estalos graves de satisfação, acomodando-se sobre a palha seca do celeiro.

Com o dever cumprido e os equipamentos ajustados, Izumi, Liora, Vanya e Naya limparam a poeira das túnicas e caminharam com passos firmes em direção à porta de madeira da estalagem, em busca de descanso antes que a marcha rumo a Giant Turtle fosse retomada na manhã seguinte

Ao empurrarem a pesada porta de madeira da estalagem, o som do rangido da dobradiça cortou o burburinho suave do salão. O ambiente interno cheirava a madeira queimada, estofado antigo e ensopado de ervas.

Atrás do balcão de carvalho polido pelo uso, rebaixado para se adequar à sua baixa estatura, uma senhora Guaia de feições rechonchudas, rugas gentis e um xale de lã trançado sobre os ombros ergueu os olhos. Ao notar o grupo que adentrava — a postura alta e esguia de Izumi com seus chifres negros, a presença elegante de Liora, as marcas violeta na pele de Vanya e a pelagem alva de Naya —, a velhinha pequenina parou imediatamente o que fazia. Suas mãos calejadas uniram-se sobre o peito em um gesto de profunda veneração.

— Que a luz da Deusa da Mente proteja vossa caminhada, irmãs... — proferiu a senhora Guaia com a voz acolhedora e trêmula de devoção, curvando o tronco diminuto em uma reverência sincera. — É uma honra incalculável abrigar as clérigas de Khaelora sob o meu teto nesta noite.

Izumi inclinou a cabeça suavemente, levando a mão ao peito em resposta, sendo acompanhada no gesto solene por suas três companheiras.

— Que a claridade da consciência ilumine esta casa e traga paz aos seus, matriarca — respondeu Izumi com sua voz serena e aveludada.

Apertando o passo até o balcão, a Vigária retirou da algibeira três reluzentes moedas de ouro e as pousou sobre a madeira polida.

— Precisamos de aposentos para passar a noite antes de seguirmos viagem.

A estalajadeira Guaia olhou para o ouro e piscou, balançando as pequenas mãos para trás em negação instantânea.

— Oh, não! Jamais cobraria de vossas graças — apressou-se a pequenina em dizer. — A bênção e a proteção da vossa presença já pagam com sobra qualquer estada!

Antes que Izumi pudesse insistir, Vanya deu um passo à frente. As marcas rituais na pele da Maculada brilharam em um tom suave de violeta enquanto ela deslizava suavemente as moedas na direção das mãos da senhora.

— Aceite, boa mulher — disse Vanya, o tom calmo e pedagogicamente firme. — Na doutrina da mente, nada neste mundo existe ou se sustenta sem a justa troca. O trabalho de suas mãos e o teto que você ergueu têm valor real. A consciência do ouro e do equilíbrio do comércio é o que mantém o mundo justo e funcional. Negar o pagamento seria desequilibrar essa ordem.

A senhora Guaia encarou a Maculada por um instante, visivelmente comovida pela sabedoria das palavras. Com um aceno humilde de cabeça, recolheu as moedas e entregou a Izumi o par de chaves de latão trabalhado.

— O segundo andar, no fim do corredor à esquerda, minhas senhoras. Que tenham um descanso reparador.

As quatro subiram a escadaria de madeira que rangia ritmadamente sob seus passos. O quarto reservado era amplo e acolhedor, iluminado por duas arandelas de metal na parede. A mobília rústica contava com um sofá de couro surrado, uma mesa de centro de madeira maciça e duas grandes camas de casal dispostas lado a lado com mantas pesadas de lã.

O cansaço da longa viagem pelas estradas de Narrow Groove finalmente se fez sentir nos corpos. Com suspiros pesados de alívio, as clérigas começaram a desatar as tiras de couro e as fivelas de suas bagagens. As mochilas pesadas de suprimentos foram deixadas sobre a mesa e ao lado do sofá, enquanto túnicas de viagem e capas de proteção eram penduradas nos cabideiros de parede.

Naya desferiu um longo espreguiçar felino, fazendo a pelagem de suas orelhas balançar antes de se jogar sem cerimônia sobre a primeira cama de casal, afundando no colchão macio.

— Eu fico com o lado da janela nesta cama — declarou a Anferiana, batendo a mão no colchão e olhando para a Vigária. — E como líder da caravana, Izumi, você tem o direito sagrado de dividir o colchão comigo para garantir que eu não tenha pesadelos com o Khalistro.

Liora soltou uma risada contida enquanto organizava seus frascos de óleos de meditação sobre a mesa.

— Deixe a Vigária descansar em paz, Naya — brincou a elfa silvana, caminhando até a segunda cama ao lado de Vanya. — Eu e Vanya ficamos com a outra cama. Assim garantimos que o quarto tenha ao menos um lado dedicado ao silêncio e à meditação antes do amanhecer.

Izumi apenas sorriu, desfazendo o nó de sua capa e acomodando seus chifres com cuidado no encosto da cama ao lado de Naya. O ambiente aquecido e a calmaria de Passo das Sombras pareciam o refúgio perfeito, alheio ao horror silencioso que se aproximava de Veridia.

O som abafado de risos e copos de madeira colidindo no interior da taverna A Harpa de Bronze ficava para trás, encoberto pela sombra do beco lateral onde Noxx pressionava uma jovem Anferiana loba contra a parede de tábuas de carvalho. O beijo era denso, quente e desprovido de qualquer pressa, ditado pelo ritmo lento com que o meio-dragão mantinha a mulher presa contra o seu corpo. Suas mãos desciam sem hesitação pelas costas da jovem, apertando a cintura firme e descendo pelas curvas de seu quadril em toques ousados e provocantes, arrancando de sua garganta um ganido abafado e involuntário de satisfação que ressoava contra o peito dele, enquanto a cauda densa e as orelhas felpudas de loba da mulher reagiam ao contato.

Noxx desfez o contato devagar, roçando os lábios no pescoço dela antes de se afastar um passo, ostentando um sorriso de canto repleto de malícia.

— O show de hoje acabou, linda. Mas amanhã à noite tem mais música na Harpa de Bronze... se você souber comportar as mãos até lá.

A Anferiana loba mordeu o lábio inferior, aveludando a voz enquanto ajeitava o decote desalinhado da túnica, a cauda prateada balançando devagar em frustração brincalhona.

— Você é um descarado, bardo. Eu não vou aguentar esperar até amanhã.

A luz fraca da lanterna de óleo pendurada na esquina revelava a imponência de sua figura. Diferente de seu irmão Khalistro, que ostentava uma estrutura alta, esguia e austera, Noxx era um meio-dragão de estatura mediana, mas dotado de um porte físico impressionante. Seus ombros eram largos e o tórax extremamente forte e torneado, esculpido por anos de viagens e apresentações. Suas escamas, herdadas diretamente de seu pai biológico, ostentavam um tom castanho-metálico denso que cobria a linha da mandíbula, o pescoço e a parte superior do peito. Seus olhos cinzentos sobressaíam em um contraste marcante contra os longos cabelos pretos que desciam até a cintura, cuidadosamente presos em um rabo de cavalo firme. Suas orelhas alongadas e pontudas eram totalmente revestidas por escamas finas que reluziam à meia-luz, perfeitamente integradas ao seu traje clássico de bardo: um colete de couro flexível ajustado ao corpo, camisa de linho levemente entreaberta no peito e calças de montaria reforçadas por fivelas de latão.

Noxx estava em um povoado minerador nos limites sul de Narrow Groove, uma região cortada por desfiladeiros secos e estradas de terra avermelhada. O ar naquelas altitudes era denso, carregado pelo cheiro de poeira e óleo de lanterna, mas coberto por uma estranha quietude que deixava os moradores em alerta constante. Nas últimas semanas, a calmaria da região fora quebrada por avistamentos perturbadores nas periferias das minas: dois ou três Aberramorfos haviam sido avistados vagando pelas gargantas rochosas — criaturas grotescas com membros desproporcionais, carcaças assimétricas e fendas sem olhos que expeliam uma névoa escura, forçando a população a se trancar em casa assim que a noite caía.

Ignorando o clima tenso do vilarejo, Noxx caminhou até a lateral da taverna onde sua montaria o aguardava. Não era um besouro-de-casca comum como os das caravanas, mas um Gafanhoto-de-Sela, uma criatura gigante de carapaça esverdeada e pernas longas e articuladas, excelente para saltar pelos terrenos acidentados dos cânions.

Noxx ajustou as tiras do peitoral do inseto e começou a amarrar a capa de couro que protegia seu violão de madeira nobre à armação da sela. No entanto, quando ergueu o instrumento para ajustar o nó final, seus movimentos congelaram.

Do outro lado da rua poeirenta, emergindo das sombras do galpão de suprimentos, uma figura caminhava em sua direção com passos lentos e deliberados.

Era Vespera. A Maculada vinda das profundezas de Parallel Woodlands avançava sob a luz da lua, envolta em suas vestes escuras de bruxa. A aura magnética, perigosa e inconfundível da mulher parecia desacelerar o próprio tempo ao seu redor, cada detalhe de sua presença exalando o poder oculto e a autoridade mística de seu povo.

Noxx estancou. O violão permaneceu suspenso em suas mãos por um segundo antes de suas forças falharem levemente. Sua boca abriu-se de par em par, o olhar cinzento fixo na bruxa com um espanto que beirava o ridículo, completamente paralisado diante da imponência da mulher.

Vespera atravessou a via sem pressa. Ao se aproximar do meio-dragão, ela parou a um palmo de distância, ergueu uma das mãos de dedos finos cobertos por luvas de pelica e segurou firmemente o queixo de Noxx. Com um movimento calmo e seco, empurrou a mandíbula dele para cima, fechando a boca do bardo com um estalo suave.

— Feche a boca, rapaz — disse Vespera, com a voz grave e aveludada reverberando no silêncio da noite. — Você vai acabar engolindo poeira.

Noxx piscou lentamente, mantendo os olhos cinzentos cravados nas feições marcantes de Vespera, incapaz de disfarçar o fascínio.

— Isso é uma visão da minha mente cansada... ou uma deusa resolveu descer sobre as pedras de Veridia só para honrar este chão poeirento? — sussurrou o bardo, a voz aveludada tentando recuperar o tom sedutor habitual.

Vespera nem sequer piscou, encarando-o com uma severidade fria e pragmática.

— A sua autoconfiança é um insulto à gravidade do que se aproxima, meio-dragão — respondeu a bruxa, soltando a mandíbula dele sem nenhum afeto. — Você canta e flerta nos becos enquanto o mundo apodrece ao seu redor. Vim garantir que você junte os poucos neurônios que lhe restam e avise os moradores deste povoado para evacuarem as minas ao amanhecer. O vírus que corrompe o sangue avança rápido demais pelas fendas dos cânions.

Noxx franziu o cenho, o sorriso de canto hesitando por um segundo.

— Como você pode ter tanta certeza sobre a velocidade da praga? Ninguém na capital ou nos entrepostos sabe ao certo de onde essa podridão vem.

— Porque eu venho das profundezas de Parallel Woodlands — declarou Vespera, a voz grave cortando o ar frio da noite. — Onde a feitiçaria antiga e as fraturas da mente são estudadas antes mesmo de suas cidades erguerem a primeira parede de pedra.

Saber que a mulher diante de si era uma genuína bruxa das terras sombrias de Woodlands não afastou o bardo; pelo contrário, o perigo iminente e a aura proibida de Vespera atiçaram ainda mais seu temperamento ousado. Ele deu um passo à frente, ajustando a postura do peitoral musculoso.

— Uma bruxa de Woodlands... — murmurou Noxx, o olhar descendo e subindo pelo corpo da mulher. — Se a situação é assim tão sombria, por que não aceita minha companhia? Eu poderia ser imensamente útil para você na estrada.

— Útil? — Vespera soltou um riso curto e amargo. — Não preciso de um bardo para me fazer escolta. Você deveria estar preocupado em reunir os seus. O sangue draconiano que corre nas suas veias está na mira dessa praga. Se continuar agindo como um tolo itinerante, a sua raça inteira entrará em extinção antes que a próxima estação chegue.

A menção à extinção dos dragões e a presença avassaladora de Vespera fizeram a mente de Noxx dar um nó. O charme habitual do bardo começou a desmoronar em uma sequência desconexa de palavras, a boca tentando acompanhar o turbilhão de pensamentos:

— Extinção? Não, veja bem, eu... quer dizer, eu posso tocar uma marcha de evacuação, guiar as pessoas, ou nós dois poderíamos... porque as florestas de Woodlands parecem o lugar perfeito para um dueto de sobrevivência, ou talvez se nós fizermos um contrato mágico, um pacto, eu posso...

— Chega — interrompeu Vespera, visivelmente irritada com o palratório inútil do rapaz. — É isso que você quer para calar a boca e entender o peso das minhas palavras?

Sendo consideravelmente mais alta que o meio-dragão, Vespera curvou o tronco esguio para a frente, segurou os ombros largos de Noxx com firmeza e cravou seus lábios nos dele em um beijo denso, violento e impregnado de magia ancestral.

A boca de Vespera tinha o gosto de terra molhada e cinzas quentes. No exato instante em que o contato se selou, a mente de Noxx foi invadida não por calor carnal, mas por uma descarga brutal de sintonias psíquicas. O ar escapou de seus pulmões enquanto visões e fragmentos de memórias alheias e próprias colidiam contra sua consciência em um turbilhão visceral:

Ele viu o semblante gélido, distante e cada vez mais desprovido de vida do Presidente Aurelius no alto trono de Osnain, a figura do Dragão Primordial envolta em uma aura de aparente apatia enquanto engrenagens e reatores profundos roncavam no escuro abaixo da cidade; viu o horror grotesco das bruxas corrompidas de Woodlands na tragédia histórica do Vale das Sombras Brancas, corpos retorcidos em agonia sob feitiços proibidos; enxergou a figura de sua mãe, Walmmore, caminhando entre as tendas poeirentas das velhas tribos de Narrow Groove sob o peso de um aviso trágico; e ouviu a voz grave de Solon, o Senhor Solar, discutindo em tom de urgência com Khalistro sobre o destino do sangue puro diante da ruína do continente.

A sobrecarga de imagens e a intensidade da magia que fluía dos lábios de Vespera fizeram o peito de Noxx oprimir. Suas pernas fraquejaram, os músculos do peito contraíram-se em busca de ar e ele quase caiu de joelhos sobre a poeira, completamente desorientado pela tempestade psíquica.

Tão subitamente quanto começou, Vespera quebrou o beijo, erguendo o corpo e dando um passo para trás.

Noxx apoiou-se com violência contra a carapaça rígida de seu Gafanhoto-de-Sela, puxando o ar com desespero para os pulmões, o coração martelando contra as costelas enquanto o suor frio escorria por sua testa.

Vespera inclinou a cabeça, encarando o bardo desfeito com um olhar penetrante e calmo.

— Entende a urgência agora, rapaz?

Noxx ergueu os olhos cinzentos, ainda trêmulo, a mente ecoando com o peso dos impérios em queda e da praga que devorava a criação.

— S... sim — balbuciou ele, a voz rouca e sem fôlego.

Com um estalo seco de seus dedos cobertos por pelica, Vespera fez o ar gelado da noite estalar. Uma fagulha de magia sombria materializou-se no espaço entre os dois, tecendo em instantes um pergaminho denso, cuidadosamente enrolado e selado por uma estampa de cera roxa.

A bruxa estendeu a mão e empurrou o documento contra o peito largo de Noxx, que o segurou de forma desajeitada, quase deixando o papel escapar.

— Entregue isto ao xerife do vilarejo — ordenou Vespera, a voz fria e cortante. — Tenho certeza de que ele terá uma utilidade consideravelmente maior do que a sua para organizar aquela gente ao amanhecer.

Noxx apertou o pergaminho contra os dedos trêmulos. Ainda sob o impacto da sobrecarga psíquica e com a mente girando em meio às visões avassaladoras, o bardo apenas concordou com a cabeça repetidas vezes, emitindo acenos frenéticos e mudos, completamente incapaz de articular qualquer palavra.

Vespera deu meio passo para trás, e a sombra do galpão ao seu lado pareceu esticar-se e envolvê-la como um manto fluído. O corpo da bruxa começou a se dissolver no ar, desfazendo-se em uma névoa escura e densa. Pouco antes de sua figura desaparecer por completo no vento da noite, sua voz ecoou uma última vez, carregada de um tom cáustico e divertido:

— E aprenda a se portar melhor perto das mulheres, rapaz. Seu charme de taverna não impressiona quem realmente importa.

A névoa dissipou-se por completo, deixando apenas a poeira da rua e o sussurro do vento entre os cânions de Narrow Groove.

Noxx permaneceu estático no mesmo lugar por longos segundos, o peito subindo e descendo em arfadas pesadas. O suor frio brotava em sua testa e escorria pela linha das escamas de sua têmpora. Sem reação, ele ergueu o braço ainda trêmulo e passou a costa da mão pela testa para limpar as gotas gotejantes, encarando o pergaminho selado em suas mãos enquanto tentava absorver o peso do aviso que acabara de receber.

Passando a mão ainda úmida pela testa, Noxx encarou o pergaminho selado com a cera roxa, deixando escapar um resmungo rouco e contrariado.

— Droga... — murmurou para si mesmo, balançando a cabeça enquanto tentava afastar o zumbido que ainda persistia em seus ouvidos. — No meio de tanta informação e daquele beijo de tirar o fôlego, eu esqueci o principal... Nem peguei a sintonização da essência dela. Como é que eu vou conectar a frequência do meu colar de transmissão agora?

Antes mesmo que o bardo pudesse terminar de lamentar a oportunidade perdida, uma voz fria, clara e inconfundível ecoou diretamente no centro de sua mente, cristalina como se Vespera estivesse colada à sua nuca:

“Não perca seu tempo se preocupando com bugigangas de pescoço, meio-dragão. Deixei um ancoradouro cravado no fundo da sua própria essência durante o beijo. Era a única garantia de que a sua consciência tonta não iria escapar do seu corpo e se fragmentar com o vírus.”

O impacto da voz intrusa ressoando dentro de seu próprio crânio fez Noxx dar um pulo desajeitado para trás.

Seus pés tropeçaram na poeira da rua, os braços agitaram-se no ar e o violão preso à sela do gafanhoto balançou com o tranco. Com os olhos cinzentos arregalados e o peito subindo e descendo em espasmos de puro susto, ele levou as duas mãos às orelhas escamosas, girando o corpo freneticamente para todos os lados na tentativa inútil de encontrar a bruxa na escuridão do beco. As escamas de seu pescoço e têmporas arrepiaram-se por completo, enquanto o coração martelava descontrolado contra as costelas — chocado ao perceber que, estivesse onde estivesse, Vespera havia deixado uma parte de sua presença cravada diretamente em sua consciência.

O sol do amanhecer surgiu entre as cristas rochosas de Narrow Groove, tingindo o céu de tons dourados e dispersando o nevoeiro frio da noite. Renovadas após o descanso na estalagem de Passo das Sombras, as quatro clérigas prepararam os equipamentos com agilidade, ajustaram os arreios dos besouros-de-casca e retomaram a marcha pela estrada de terra batida logo às primeiras luzes do dia.

O ritmo da cavalgada era firme. Izumi liderava o grupo, com os chifres negros reluzindo sob a claridade matutina e suas longas orelhas captando os ruídos sutis do vento contra os cânions. A poeira erguia-se sob as patas rígidas das montarias enquanto o caminho contornava formações rochosas cada vez mais íngremes e isoladas.

Horas mais tarde, a estrada afunilou-se ao adentrar a Garganta do Sol, um pequeno vilarejo incrustado diretamente nas paredes de um vale profundo. As casas da comunidade eram rústicas, erguidas com blocos de rocha e madeira escura, conectadas por passadiços e travessas estreitas de terra. Diferente de Passo das Sombras, o ar na Garganta do Sol parecia denso e impregnado por uma apreensão silenciosa; poucas pessoas viam-se nas ruas, e as poucas janelas abertas fechavam-se rapidamente à medida que a caravana passava.

Quando as montarias avançavam pelo centro da via principal, a porta de uma das cabanas de pedra foi aberta com violência.

Um jovem Petriano emergiu em disparada, com o tórax denso, as vestes de mineração sujas de poeira de carvão e o olhar tomado pelo pânico. Ao notar o grupo e reconhecer o padrão das túnicas sagradas e os símbolos da ordem em seus mantos, o rapaz parou por um segundo, com os olhos arregalados, antes de começar a acenar e gritar desesperadamente em direção à estrada:

— Clérigas! Por favor, pela deusa, parem! Tem um ferido grave aqui dentro! Precisamos de ajuda, ele não está nada bem!

Izumi puxou as rédeas de sua montaria, fazendo o besouro parar com um estalo de patas contra o solo. A Vigária girou o tronco esguio e trocou um olhar rápido e significativo com Liora, Vanya e Naya. As três responderam com acenos graves de cabeça, prontamente alinhando suas intenções ao dever do sacerdócio.

Sem hesitar, Izumi manobrou seu besouro para a lateral da via, sendo seguida de perto pelas companheiras, e guiou o grupo em direção à entrada da casa.

Ao cruzarem o umbral da porta, o cheiro nauseante de ferro oxidado, bile estagnada e carne necrosada atingiu as clérigas. O interior da cabana de pedra era escuro e abafado, iluminado por poucas velas dispostas pelo chão.

Sobre a cama de carvalho ao fundo, a mãe do jovem jazia em um estado grotesco de degradação física. Por ser da raça Petriana, Oda tinha a estrutura corporal baixa, robusta e atarracada característica de seu povo, com mãos largas e feições fortes, mas seu corpo estava tomado por uma deterioração vil. Feridas abertas e podres rasgavam sua pele firme, minando um sangue denso e escurecido como fuligem liquefeita. A carne de seus braços e ombros atarracados parecia estar se decompondo em vida, escurecendo até o negro puro enquanto a musculatura rígida e os ossos estalavam em espasmos doentios. Decenas de panos e trapos imundos, completamente encharcados de pus e sangue negro, rodeavam o leito em uma tentativa inútil de estancar a hemorragia contínua.

Sem perder tempo, o grupo dividiu-se com precisão sacerdotal. Vanya ajoelhou-se próximo à cabeceira, canalizando a luz violeta de suas marcas rituais para traçar símbolos de contenção psíquica no chão, enquanto Naya desdobrava frascos de óleos aromáticos e ervas, entoando orações ritmadas para purificar o ar e fechar o cerco contra o odor da podridão.

Izumi e Liora aproximaram-se de Kael, o jovem Petriano de ombros largos e peito denso, que tremia de pavor enquanto limpava o suor da testa com as mãos sujas da poeira de carvão dos cânions.

— Diga-nos o seu nome e o que aconteceu aqui — pediu Izumi, mantendo a voz serena e austera para trazer foco ao rapaz.

— Meu nome é Kael — balbuciou o jovem, as lágrimas cortando a sujeira em seu rosto atarracado. — E ela é minha mãe, Oda. Tudo começou há dois dias... Ela estava no nosso pequeno altar, fazendo suas orações diárias a Vaeloria, a Deusa da Forma, pedindo pela força da nossa gente nas minas. De repente, começou a perder a consciência, desmaiando em meio às rezas. Cada vez que despertava desses surtos, uma nova parte do corpo dela surgia assim... corroída, com a carne ficando negra e necrosada. Ela chora de dor e diz que tem um pavor terrível de apagar de vez, porque sente algo devorando quem ela é por dentro!

Liora aproximou a mão das feridas sem tocá-las diretamente, sentindo a aura gélida e doentia que emanava do corpo de Oda.

— O vírus está atacando a matriz da Forma que Vaeloria abençoou aos Petrianos, corroendo a estrutura de sua carne e ossos a partir da fratura da mente — analisou a elfa silvana, encarando a Vigária.

— Mantenha a firmeza, Kael — disse Izumi, pousando a mão sobre o ombro largo do rapaz com gravidade. — Nós estamos aqui. A mente de sua mãe não será apagada enquanto a palavra de Khaelora for entoada sob este teto.

Atrás delas, Vanya selou a última marca ritual no solo com um estalo de energia púrpura, enquanto Naya acendeu o incensário de prata, fazendo uma densa fumaça de lavanda e mirra cobrir o leito de Oda, finalizando a preparação do espaço para o ritual de purificação.

As quatro clérigas posicionaram-se ao redor do leito de madeira, formando um losango sagrado ao redor do corpo debilitado de Oda.

Izumi deu o primeiro passo, erguendo as mãos espalmadas sobre o peitoral atarracado da Petriana. Suas escamas translúcidas reluziram sob a chama das velas enquanto sua voz aveludada dava início ao cântico:

— Pela mente que concebe a luz e pela claridade da consciência... — proclamou a Vigária, alinhando o fluxo do ar.

Liora estendeu os braços em gestos fluídos, traçando linhas invisíveis de geometria sagrada no ar para canalizar os princípios da estabilidade:

— ...invocamos a ordem do espírito para reestruturar a carne e a essência... — complementou a elfa silvana, a voz firme e límpida.

Vanya deu um passo à frente, com as marcas rituais violetas em sua pele acendendo-se em uma luminescência vibrante enquanto canalizava a ressonância profunda de seu povo:

— ...expurgando as sombras da fratura e restaurando a matriz que o mal ousou macular... — bradou a Maculada, o tom grave ecoando pelas paredes de pedra.

Naya encerrou a sequência, erguendo o incensário de prata e fazendo a fumaça de lavanda e mirra ondular sobre o leito, fechando a corrente psíquica:

— ...para que a misericórdia de Khaelora traga cura e paz ao templo deste corpo! — finalizou a Anferiana em um mantra cadenciado.

Uma cúpula de luz prateada e lilás ergueu-se sobre a cama, envolvendo o corpo corroído da mulher. No entanto, no instante em que a energia sagrada tocou a carne infectada, o fluxo de cura distorceu-se de forma violenta.

A presença que desceu pelo canal psíquico não era a torrente serena da Deusa da Mente, mas um refluxo denso, colossal e descontrolado — uma força ancestral que eclipsava em dez vezes a capacidade de sustentação das clérigas. Antes que pudessem quebrar a corrente, um grito agoniado e reverberante ecoou diretamente no interior de seus crânios. Não era uma oração, mas a voz da própria Khaelora, fraturada, estrangulada e em puro desespero:

“Socorro... Parem! Por favor... parem o ritual!”

O choque psíquico atingiu o grupo como uma marretada invisível.

Izumi arqueou o tronco para trás com um fechar de olhos violento, levando as duas mãos à cabeça enquanto seus chifres negros vibravam sob uma pressão ensurdecedora; as escamas de seu pescoço escureceram sob o esforço para não perder a consciência. Liora soltou um ganido sufocado e recolheu os braços em espasmo, pressionando as palmas contra as orelhas pontudas como se seus típanos fossem explodir. Vanya cambaleou para trás até colidir contra a parede de pedra, caindo de joelhos com as marcas rituais sobre a pele faiscando em curtos-circuitos violentos de energia roxa. Naya encolheu os ombros em absoluto reflexo de dor, sibilando enquanto suas orelhas felinas se achatavam completamente contra o crânio e sua cauda arrepiava-se inteira.

— O que está acontecendo?! Pela deusa, ajudem ela! — gritou Kael, agarrando a própria cabeça em desespero ao ver o círculo de luz se romper em estilhaços escuros.

Sobre a cama, o corpo de Oda começou a se metamorfosear de forma abjeta e acelerada.

A estrutura baixa e forte da Petriana estalou com sons secos e úmidos de ossos se fraturando e se reconstruindo em ângulos impossíveis. Sua pele rasgou-se de alto a baixo ao longo da coluna, dando passagem a protuberâncias carnosas e quistos negros que brotavam como mofo acelerado. Os músculos de seus braços atarracados incharam e se esticaram, fundindo-se com o tecido mineral e muscular em uma carcaça assimétrica e reluzente. O rosto de Oda afundou-se para dentro; seus olhos derreteram em cavidades que vertiam uma bile escura e constante, enquanto sua mandíbula inferior se fendia ao meio, revelando fileiras irregularmente dispostas de ossos pontiagudos que despontavam da garganta.

A criatura que se ergueu da cama não mantinha quase nada de humano. Era um Aberramorfo deformado, uma massa de carne necrosada, espinhos calcificados e membros adicionais que gotejavam uma névoa fétida.

Kael caiu sentado no chão, petrificado pelo terror, os olhos arregalados refletindo o monstro que um dia fora sua mãe.

Antes que a besta pudesse avançar, a cabeça disforme do Aberramorfo virou-se lentamente na direção do jovem. Da fenda borbulhante que servia como boca, uma voz rasgada, dupla e grotescamente gorgolejante emergiu entre golfadas de fluido negro, tentando desesperadamente articular as poucas réstias de consciência que ainda lhe restavam:

— K-Kael... desculpa... me desculpa... me desculpa, meu filho... desculpa...

A criatura estendeu um braço atrofiado e disforme na direção do rapaz, enquanto sua garganta continuava a expelir desculpas sem parar em um lamento cavo e aterrorizante.

Antes mesmo que o aberramorfo pudesse dar outro passo cambaleante em direção ao rapaz, Vanya agiu. Tomada por uma frieza pragmática, a Maculada deu um passo rápido à frente, ergueu a mão direita impregnada de energia violeta e desferiu um golpe certeiro contra o peito deformado da criatura, perfurando a carcaça e partindo o núcleo de vida arruinado.

Enquanto a besta tombava inerte sobre o chão com um baque pesado, Vanya fechou os olhos e iniciou imediatamente o cântico fúnebre:

— Que as sombras do descanso acolham este espírito libertado da dor, que o silêncio...

— Pare, Vanya! — gritou Izumi, a voz rasgando o ar enquanto a Vigária segurava o pulso da companheira com força, interrompendo a prece no meio. — Pare a reza! Não chame por ela... Eu ouvi a Deusa! Ela estava pedindo socorro!

A revelação congelou as quatro clérigas por uma fração de segundo, mas o choque foi estraçalhado pelo urro de desespero de Kael.

O jovem Petriano arrastou-se pelo chão até o cadáver disforme da mãe, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas enquanto o choro histérico se transformava em pura fúria. Ele ergueu os olhos vermelhos e insanos na direção do grupo, os dentes trincados de horror.

— Assassinas! — berrou Kael, a voz falhando e engasgando no próprio suor. — Vocês a mataram! Vocês trouxeram essa desgraça para dentro da minha casa! Vocês são parte dessa podridão, são parte do próprio vírus!

Liora deu um passo cauteloso à frente, ergueu as mãos espalmadas em um gesto de apaziguamento, o tom de voz suave tentando conter a tempestade.

— Kael, por favor, ouça-nos... — pediu a elfa silvana. — Nós não tínhamos ciência de que a invocação provocaria isso. Jamais desejaríamos a destruição de sua mãe...

— Cale a boca! — urrou o rapaz, o rosto contorcido em uma máscara de puro desespero e ódio. — Khaelora não é uma deusa, é a maldição que está nos devorando!

Cego pela dor, Kael deu dois passos em falso para o lado e arrancou da parede o seu pesado machado de mineração. As mãos grossas do Petriano apertaram a madeira do cabo com tanta força que as articulações dos seus dedos estalaram. Sem hesitar um segundo, ele ergueu a lâmina de ferro bruto sobre a cabeça e avançou com o peso do próprio corpo em um golpe descendente, cego e brutal, mirado diretamente no peito de Izumi.

O ar da cabana foi cortado pelo assobio pesado do metal. Com um movimento ágil e calculado, a Vigária projetou o tronco esguio para trás; o ferro passou a milímetros de suas vestes e das pontas de seus chifres negros, cravando-se com um estalo seco na madeira espessa do batente da porta. A força da pancada fez estilhaços de carvalho voarem pelo ar e o chão da cabana tremer.

Antes que Izumi pudesse se distanciar completamente, Kael urrou novamente, apoiando o pé na parede para arrancar a lâmina presa com um rangido metálico. Sem dar margem para respirar, ele girou o quadril e desferiu uma varredura horizontal violenta, buscando atingir as pernas de Naya e Liora no espaço tacanho do corredor.

A lâmina veio cortando baixo, ameaçando decepar o que encontrasse pela frente.

Vanya reage no mesmo milissegundo. A Maculada deu um passo firme à frente, pisando forte no solo e cruzando os antebraços no ar. As marcas rituais em sua pele acenderam-se em um tom púrpura cegante, projetando uma placa rígida e translúcida de energia mágica a poucos centímetros das clérigas.

O impacto do machado contra a barreira soou como uma martelada em uma bigorna. A colisão de metal pesado contra a magia pura gerou um estalo surdo e um choque de faíscas violetas que iluminou o cômodo escuro. A onda de choque do impacto reverberou diretamente pelos braços robustos de Kael; o tranco violento fez os punhos do Petriano adormecerem instantaneamente, e ele cambaleou dois passos para trás, quase perdendo o controle da arma enquanto o machado ricocheteava no ar.

Aproveitando o espaço criado pela deflexão mágica e a hesitação dolorosa do rapaz, as quatro clérigas manobraram com precisão. Izumi puxou Naya pelo ombro, enquanto Liora cobria a retaguarda, cruzando rapidamente a soleira da cabana. Elas saíram em disparada para a luz da rua principal da Garganta do Sol, enquanto o som de Kael golpeando a parede de raiva e seus gritos enlouquecidos ecoavam do lado de dentro.

A soleira da porta estilhaçou-se quando Kael irrompeu pela rua principal da Garganta do Sol, cego de ódio e com o machado ensanguentado em riste.

— ASSASSINAS! — o urro do Petriano reverberou entre os paredões de pedra do vale, ecoando como um trovão. — ELAS MATARAM A MINHA MÃE! PEGUEM ELAS! ASSASSINAS!

O clamor estridente cortou a quietude do vilarejo. Portas de madeira pesada foram escancaradas com violência e janelas bateram contra as paredes de rocha. Em instantes, a rua estreita começou a ser tomada por uma multidão diversa de moradores locais. Despertados pelo pânico e pela acusação brutal, surgiam mineradores Petrianos atarracados, humanos cobertos de fuligem, Anferianos de orelhas eriçadas e trabalhadores de diferentes origens que povoavam as minas. Movidos pelo medo paralisante da infecção, armavam-se com o que tinham ao alcance: machados de corte, picaretas pesadas, estacas de ferro afiadas e martelos de mineração, com os rostos contorcidos por uma mistura de fúria e desespero.

As quatro clérigas alcançaram os besouros-de-casca amarrados junto às estacas de contenção. Os animais agitavam-se, incomodados pelo tumulto crescente e pelo cheiro de raiva e metal que impregnava o ar.

— Precisamos sair daqui agora! — gritou Liora, saltando sobre o fuste de sua montaria e puxando as rédeas com firmeza. — Batam as asas! Levantem voo antes que nos cerquem!

Izumi, Vanya e Naya montaram em ato contínuo, cortando as amarras com agilidade.

Para erguerem voo, as imponentes criaturas precisavam de arranque e espaço. As clérigas fincaram os calcanhares nos flancos dos animais, e os besouros dispararam em uma corrida pesada pela via de terra e pedregulhos. As patas rígidas estalavam contra o solo enquanto as carapaças se abriam para cima com um estalo seco, libertando as asas membranosas que começaram a zumbir em uma frequência ensurdecedora, erguendo uma espessa nuvem de poeira.

Kael e a turba encurtavam a distância a passos largos. Um garimpeiro humano de barba desgrenhada arremessou uma picareta pesada que passou raspando pela carapaça da montaria de Izumi, faiscando ao colidir contra a rocha do cânion; mais à frente, um Anferiano rosnando de pavor tentava cortar a passagem brandindo um varão de ferro. Os gritos de "Assassinas! Servas da praga!" ecoavam de todas as janelas e esquinas em diferentes sotaques, enquanto a multidão tentava cercar a trajetória do grupo.

No último segundo, quando um garimpeiro humano e dois Petrianos estendiam as mãos para agarrar os arreios de Vanya, os quatro besouros atingiram a velocidade necessária. Com um zumbido grave e potente que fez o chão tremer, as criaturas bateram as asas com força total, descolando da rua e elevando-se na vertical.

A forte rajada de ar gerada pelas asas empurrou os agressores para trás, cobrindo Kael e a multidão em uma densa cortina de terra, enquanto as clérigas ganhavam altitude rapidamente pela garganta do vale, deixando para trás os gritos histéricos e as armas erguidas em vão.

O vento frio das altitudes açoitava o rosto das quatro clérigas enquanto os besouros-de-casca ganhavam altura, estabilizando o voo acima das ravinas de Garganta do Sol. Lá embaixo, o vilarejo encolhia-se em meio às rochas, mas os gritos da multidão ainda subiam cortando o ar como lâminas:

— AS CLÉRIGAS DE KHAELORA PRECISAM SER DIZIMADAS! PEGUEM ELAS!

Engolindo em seco, cada uma absorvia o choque da fuga à sua maneira. Naya tiritava sobre o fuste de sua montaria, com as orelhas totalmente achatadas contra a cabeça e a cauda felina encolhida entre as pernas em puro sobressalto. Liora mantinha a mandíbula trancada, os olhos verdes semicerrados enquanto encarava o abismo abaixo, buscando postura na rigidez de sua espinha. Vanya, por sua vez, permanecia imóvel como uma estátua de pedra, a expressão gélida e as marcas rituais em seus braços ainda fumaçando em um roxo opaco e apagado. Izumi apertava as rédeas de couro até que as articulações de suas mãos ficassem esbranquiçadas, sentindo as escamas do pescoço arrepiarem-se com o peso do ódio que deixavam para trás.

Tentando quebrar a tensão sufocante e acalmar os ânimos, a Vigária ergueu a voz por cima do zumbido grave das asas membranosas:

— Mantenham a calma... Vamos manter o rumo. Logo chegaremos ao centro de Giant Turtle. Lá teremos espaço para nos reagruparmos e pensar com clareza.

— Não seja ingênua, Izumi — contrapôs Naya, a voz trêmula e nada confiante enquanto olhava para trás com pavor. — O pânico corre mais rápido do que o voo de qualquer montaria. Se o boato do que aconteceu naquela cabana chegar a Giant Turtle antes de nós, a população vai nos caçar assim que nossas patas tocarem o chão!

Liora ajeitou o manto ao vento, tentando trazer a perspectiva de seu povo para conter a espiral de medo:

— Sei que o pânico dos mortais é avassalador, mas não podemos nos deixar contagiar por ele. Como elfa, vi reinos e eras ruírem sob a discórdia e se reerguerem. Nossa vantagem élfica e a disciplina do nosso sacerdócio são o que nos mantém de pé. Se preservarmos a razão e a fé, encontraremos uma saída.

— Deixe a soberba de lado, Liora — cortou Vanya, a voz fria e cortante como um estilhaço de gelo. — Seja realista por um segundo. A verdade é uma só: nós não poderemos curar mais ninguém. Cada prece, cada canalização de energia só vai acelerar a podridão e transformar os infectados naquelas aberrações. A mãe de Izumi estava certa o tempo todo... Não há misericórdia.

O silêncio pesou novamente sobre o grupo, quebrado apenas pelo assobio do vento entre as gargantas de pedra. Izumi fechou os olhos por um segundo, sentindo o peito oprimido pela lembrança do grito que ainda ecoava no fundo de seu crânio.

Ela girou o tronco sobre a cela e encarou as três companheiras.

— Vocês... vocês ouviram, não ouviram? — perguntou Izumi, com a voz embargada. — A voz dentro das nossas mentes durante o ritual... Era ela, não era?

Naya baixou o olhar, assentindo devagar com um arrepio visível percorrendo suas costas. Liora fechou os olhos e soltou um suspiro pesado, confirmando em silêncio com um aceno solene de cabeça. Vanya apenas encarou o horizonte distante, mantendo os olhos roxos fixos no vazio, e articulou com firmeza brutal:

— Sim. Nós ouvimos a voz da Deusa... Khaelora estava implorando por socorro.

— Se a conexão é real e sagrada... por que a Deusa pediria socorro para nós? — indagou Naya, a voz vacilante cortando o zumbido constante das asas. Ela encolheu os ombros contra o vento, a cauda felina crispada. — Nós somos apenas suas servas, suas receptoras. Khaelora é uma força da ordem! Se nem ela consegue sustentar a própria presença, o que nos resta?

Liora manteve o olhar fixo no horizonte, onde as brumas do vale começavam a se dissipar sob a luz do sol matutino. Suas orelhas pontudas moveram-se levemente com a brisa antes de responder com solenidade:

— A Deusa está em sofrimento, Naya. A dor que sentimos em nossas mentes foi apenas uma fração do suplício que está devastando a consciência divina. Algo profanou a fonte original, tornando a canalização um suplício para ela e uma maldição para nós.

— O que significa que nem mesmo as oferendas mais simples têm utilidade agora — lamentou Vanya, com um riso amargo e sem vida. A Maculada encarou o incensário de prata pendurado em sua cela, balançando inerte ao vento. — Nenhum cântico, nenhuma fumaça de lavanda ou mirra. Qualquer gesto, qualquer prece direcionada à Deusa está corrompida. Tentar tocar a graça de Khaelora agora é o mesmo que jogar gasolina no fogo.

Izumi apertou os dedos contra os arreios de couro de sua montaria, sentindo o peso do ar em seu peito e a responsabilidade do sacerdócio ruir sobre seus ombros. Ela ergueu a cabeça, encarando as três clérigas uma a uma.

— Não é a Deusa em si que se tornou um mal — pontuou a Vigária, com o tom de voz grave e carregado de convicção. — O problema não é a essência de Khaelora, mas a energia que ela rege. A matriz da mente e da forma parece ter fugido completamente do seu controle. Algo está drenando, distorcendo e forçando essa energia para fora de seu fluxo natural... e enquanto não descobrirmos o que está corrompendo essa fonte, nossa fé continuará sendo a arma do nosso próprio algoz.

— O seu irmão bonitinho... ele não tinha mencionado algo sobre isso? — comentou Naya, virando o rosto para Izumi enquanto a brisa cortava suas orelhas felinas. A Anferiana franziu o cenho, esforçando-se para resgatar os detalhes da conversa na memória. — Ele disse que a energia de Veridios está enfraquecendo a olhos vistos. Se bem me lembro dos nossos estudos teológicos, Veridios é a divindade primordial, o pai de Khaelora e Vaeloria... Se o pai de todas as formas está ruindo, será que o enfraquecimento dele não está desestabilizando o domínio das filhas?

Liora balançou a cabeça de imediato, soltando um suspiro exasperado que fez a franja de seu cabelo élfico esvoaçar.

— Não faça viagens teológicas sem fundamento, Naya — cortou Liora, balançando a cabeça com um suspiro exasperado que fez a franja de seu cabelo élfico esvoaçar. — As forças primordiais não colapsam dessa forma de uma hora para outra. O que estamos testemunhando é a interferência direta e profana dos mortais.

— Liora tem razão — concordou Vanya, com a voz gélida e o olhar fixo nas nuvens distantes. — Isso tem a assinatura clara das bruxas corrompidas de Parallel Woodlands e das vilas menores da região para onde estamos indo, como a própria Giant Turtle. Elas estão drenando a energia de Khaelora à força, canalizando e torcendo o fluxo divino para alimentar algum ritual grotesco. A Deusa está pedindo socorro porque está sendo mantida como refém e usada como combustível para algo incomparavelmente pior.

— Eu não vou cravar nenhuma dessas teorias agora — decretou Izumi, a voz firme e cortante quebrando a discussão entre as clérigas. — Se é uma conspiração das bruxas de Parallel Woodlands, uma praga das vilas menores ou se a própria estrutura de Veridios está ruindo, nós só saberemos investigando. Eu quero ver com meus próprios olhos o que está causando essa instabilidade no planeta antes de tirarmos conclusões.

Diante da determinação da Vigária, um silêncio pesado voltou a se instalar sobre o grupo. Liora soltou um suspiro longo, ajeitando o manto ao vento enquanto balançava a cabeça em uma resignação cansada. Naya deu um suspiro audível, encolhendo a cauda felina ao ver a imensidão do território que ainda tinham pela frente. Vanya apenas soltou um sopro de ar frio pelo nariz, mantendo o olhar gélido fixo na extensão à frente.

Afinal, elas ainda estavam sobrevoando a vasta e recortada região de Narrow Groove. Giant Turtle era um destino distante, a muitos dias de viagem pela frente.

Enquanto os besouros-de-casca mantinham o ritmo constante das asas, o grupo encarou a urgência prática: precisavam pousar em algum dos diversos vilarejos e assentamentos tribais espalhados por Narrow Groove antes que as montarias se exaurissem. A apreensão pesava em cada uma delas. Diante do pavor que acabaram de deixar em Garganta do Sol e do risco iminente de a notícia se espalhar, a dúvida cruel agora era encontrar algum lugarejo na região — seja uma comunidade agrícola, um entreposto de troca ou um acampamento tribal — onde pudessem descer, se esconder e se reorganizar sem que fossem imediatamente caçadas ou tratadas como as próprias personificações da praga.




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