A praga não fazia distinção entre a carne frágil dos mortais e a resiliência ancestral dos dragões. Nos vilarejos humanos, começara como uma febre fria, uma prostração que escurecia as veias sob a pele e consumia os corpos até transformá-los em cascas débeis. Contudo, entre a linhagem dracônica, os efeitos eram ainda mais nefastos: a aflição atacava diretamente o fogo interno, sufocando a chama elemental e mergulhando guerreiros em uma letargia profunda ou em surtos de fúria descontrolada. Onde a doença se instalava, o próprio ar parecia perder o vigor, e a Consciência de Veridios — a teia invisível que sustentava a ordem e a vitalidade do mundo — começara a enfraquecer gradativamente.
A casinha em Narrow Groove já não abrigava filhotes indefesos. Aos duzentos anos, Walmmore acompanhava de longe os caminhos maduros de sua prole. Khalistro, prestes a completar um século, atuava diretamente no Cânion Solar como um Feiticeiro experiente e braço direito sob os olhos de Solon. Izumi seguia sua vocação como clériga em um santuário distante, dedicando a magia dos ventos ao amparo e à cura dos enfermos, enquanto Noxx, o feiticeiro-bardo de cinquenta anos, percorria tavernas e entrepostos comerciais, usando sua música e feitiços para se sustentar nas estradas. Saphira mantinha sua presença cautelosa, dividindo-se entre a quietude dos charcos e a proteção da casa da família.
Foi na quietude de Narrow Groove que Walmmore recebeu o chamado urgente de Solon. O selo real impresso na cera indicava que a contaminação cruzara a fronteira dos territórios nobres e ameaçava a estabilidade do cânion.
Ao cruzar a garganta de basalto em direção à Tribo Solar, Walmmore notou a anomalia imediatamente: os braseiros ancestrais do cânion, que sempre emanavam um calor sufocante e acolhedor, queimavam com chamas pálidas e fracas. O ar trazia um tom gélido e denso.
Ela encontrou Solon em seu salão privado, de pé diante da grande patera de pedra. O rei manteve a postura ereta, mas os traços de seu rosto carregavam uma severidade incomum.
— O calor deste lugar está morrendo, Solon — disse Walmmore, a voz grave ecoando pelas paredes de pedra enquanto se aproximava, ajustando as correias de couro do sobretudo.
— Não é apenas o calor do cânion — respondeu Solon, virando-se para encará-la. — A vitalidade de nossas terras está sendo drenada. Mortais caem aos dezenas nas vilas baixas, e meus guerreiros começam a perder a chama interna. O fluxo de Veridios está falhando, Walmmore. Se essa aflição continuar a sufocar a Consciência, a estrutura de nossas tribos desmoronará em questão de meses.
— Uma doença que ataca o sangue dracônico e desestabiliza a energia ancestral ao mesmo tempo não é fruto do acaso — pontuou ela, fria e pragmática. — Trata-se de uma corrupção deliberada.
— É o que temo — admitiu o rei. — E é por isso que chamei você. Meus Feiticeiros Solares e guardas estão presos às obrigações dos limites da tribo, e Khalistro precisa permanecer aqui para ajudar a conter o caos interno. Mas você transita onde a nobreza não alcança. Você conhece as rotas do submundo, sabe rastrear sem erguer estandartes e domina a Consciência de forma crua e direta.
Walmmore manteve o olhar fixo no dragão solar. Lembrou-se de Izumi em seu santuário exposto, de Noxx circulando por tavernas lotadas e de Saphira e Khalistro sob a mesma sombra.
— Eu não investigarei isso por coroas, decretos ou pela honra do seu trono, Solon — declarou ela, com firmeza. — Se essa praga ameaça o futuro dos meus filhos e sufoca o sangue do nosso povo, eu encontrarei a raiz e a arrancarei.
Solon observou a determinação na atitude dela por alguns instantes, absorvendo o peso de suas palavras.
— Suas motivações são louváveis, Walmmore — comentou ele, com a voz sóbria e um tom de respeito velado. — Raras são as criaturas que agem com tamanha clareza de propósito diante de uma sombra como esta.
Khalistro aproximou-se dos dois. O semblante do jovem transparecia uma inquietação contida, e seus olhos amarelos buscaram a atenção dos pais antes de quebrar o silêncio.
— Eu tentei me conectar à Consciência de Veridios mais cedo — disse ele, a voz baixa carregada pelo peso de sua constatação. — Rezei e busquei por orientação no pátio do cânion, mas não houve sinal algum. É como se a presença dele estivesse ausente... ou em silêncio absoluto.
Walmmore ajustou a capa sobre os ombros, o olhar fixo nos braseiros pálidos do salão.
— Se Veridios se calou, o vácuo está sendo preenchido — disse ela. — Os cultos a Khaelora ficaram significativamente mais fortes entre as bruxas de Giant Turtle nos últimos meses.
Giant Turtle fora, nos tempos antigos, um Anferiano colossal com traços de tartaruga — o primeiro de sua espécie a dominar as artes místicas regido pela orientação de um dragão, tornando-se o patrono histórico das bruxas. Naquela região, suas seguidoras devotavam fé e rituais a Khaelora, a Deusa do Caos, buscando na entropia e no desequilíbrio a fonte de seu poder.
— Um enfraquecimento na ordem ancestral é o terreno perfeito para o transbordamento de Khaelora — continuou Walmmore, encarando Solon e o filho. — Se o culto no território do antigo patrono está se fortalecendo ao mesmo tempo em que o vírus se espalha, a origem dessa contaminação pode estar vindo diretamente de lá.
— Caos nunca foi e jamais será a solução — declarou Solon, o tom de voz carregado de repúdio enquanto encarava as chamas pálidas do braseiro. — O impulso desordenado de Khaelora apenas consome e corrompe o que levou eras para ser erguido. A neutralidade absoluta de Veridios é, e sempre será, a única resposta para todas as dúvidas e o único pilar capaz de sustentar o equilíbrio do mundo.
Khalistro deu um passo à frente, ajustando a postura com a gravidade de quem trazia notícias urgentes.
— A influência dela já cruzou as fronteiras, pai — interveio o jovem. — Um informante vindo de Parallel Woodlands chegou há pouco aos limites do cânion. Ele relatou que a situação por lá está completamente descontrolada. Como aquela região é regida pela força de Khaelora, a falta de contenção fez com que os surtos e o contágio se espalhassem sem qualquer barreira entre os habitantes e as tribos locais.
Walmmore ouviu a informação em silêncio, ajeitando as correias do sobretudo sobre os ombros e fixando o olhar na saída do salão.
— Eu não esperarei o caos bater à porta do cânion para agir — afirmou ela, firme e decidida. — Volto para Narrow Groove agora mesmo. Aquele cruzamento é ponto de passagem obrigatório para os viajantes, mercadores e refugiados de todas as direções. Se Parallel Woodlands está caindo e a contaminação avança, é entre os relatos daqueles que vêm das estradas que encontrarei os detalhes necessários antes de dar meu próximo passo.
— Tenha cuidado, mãe — pediu Khalistro, a voz carregada de uma preocupação genuína ao se aproximar.
Ele segurou o ornamento de metal trabalhado que trazia pendurado no peito. Aquele colar, uma peça encantada compartilhada entre os membros da família, funcionava como um receptor direto de informações. Impregnado por magias ancestrais de transmissão, permitia que qualquer mensagem dita à sua estrutura alcançasse o destinatário, não importava a distância em que estivessem no continente.
Walmmore encarou o artefato por um breve segundo antes de focar seus olhos cinzas no rosto do filho.
— Você vai avisar o Noxx?
— Vou — assentiu Khalistro com firmeza. — Entrarei em contato com ele imediatamente para que fique alerta onde quer que esteja fazendo suas apresentações.
Solon deu um passo à frente, cruzando os braços com sua habitual postura nobre e serena.
— Ela sabe se virar, Khalistro — afirmou o Rei Solar, voltando o olhar para a guerreira. — Boa viagem, Walmmore.
— Obrigada, Solon — respondeu ela, ajeitando a bainha da espada e as correias do sobretudo. Antes de dar as costas, encarou o rei uma última vez: — Mas você sabe que o mundo só alcança o verdadeiro balanço quando as três divindades são intensamente cultuadas. Ignorar o peso de cada uma é construir a própria ruína.
Solon fez um gesto displicente com a mão, descartando a afirmação com uma paciência superior.
— Você simplesmente não entende a plenitude do poder de Veridios.
Walmmore deu de ombros, sem qualquer paciência para discussões teológicas. Despediu-se dos dois com um aceno silencioso e iniciou a descida pelas rampas de pedra do cânion rumo a Narrow Groove.
Para cruzar os trechos mais acidentados em direção às vilas periféricas de Narrow Groove, Walmmore utilizou sua montaria de viagem: um besouro-de-casca, uma criatura pesada de seis patas e carapaça gasta pela poeira, cuja marcha ritmada e firme ignorava o terreno rochoso. O som estalado das patas do inseto contra a terra batida era o único ruído a romper o silêncio denso que se instalara na região.
Ao aproximar-se de um pequeno assentamento tribal na divisa do vale, a ausência de movimento denunciou a anomalia. Não havia fumaça saindo das chaminés, nem o falatório habitual dos moradores. As portas de madeira das choupanas estavam escancaradas ou arrombadas para fora.
Antes que pudesse desmontar, o rangido de garras na pedra ecoou à esquerda. Duas feras locais, quadrúpedes com pelagem eriçada e veias escuras e salientes sob a pele, saltaram do mato alto em um surto descontrolado de fúria. Walmmore reagiu e deslizou para fora do besouro, desembainhou a lâmina em um movimento fluido e usou a força de suas escamas de obsidiana para amortecer o impacto do primeiro bote.
A lâmina cortou o ar em um arco limpo, aparando o ataque e lançando a primeira criatura contra o solo rochoso. A segunda avançou cega, sem qualquer instinto de preservação, e Walmmore finalizou o confronto com um golpe certeiro no peito da besta, interrompendo o frenesi. O sangue que manchou a lâmina era denso e de uma tonalidade opaca e escura.
Limpando a espada na vegetação seca, ela caminhou em direção à choupana mais preservada do centro do vilarejo. A porta rangeu ao ser empurrada pela ponta de sua bota.
— Tem alguém aí? — perguntou Walmmore, a voz firme e grave ressoando no espaço escuro.
No canto mais distante da sala, encolhida entre caixotes velhos e panos rasgados, uma figura tremia. Era um morador local, com o rosto pálido e a respiração entrecortada por arquejos pesados.
Walmmore guardou a arma e deu dois passos lentos na direção do indivíduo. Ajoelhou-se e estendeu a mão aberta, sem tocá-lo diretamente, ativando sua percepção através da Consciência de Veridios para rastrear a natureza do mal que o acometia.
Em vez de identificar uma enfermidade comum da carne, a mente de Walmmore captou o fluxo vital do indivíduo. A sensação era nítida e perturbadora: a chama interna que sustentava a vida daquele corpo estava sendo sufocada de dentro para fora, como se uma camada espessa de cinza fria e densa estivesse esmagando o fogo ancestral até apagá-lo por completo.
A reação do homem foi imediata ao sentir a proximidade da energia pura da guerreira. Ele se encolheu ainda mais contra a parede, cobrindo o rosto com os braços trêmulos e gritando em desespero:
— Afaste-se! Não chegue perto... afaste-se de mim!
Walmmore concentrou-se, fechando os olhos por um segundo para invocar a Misericórdia de Veridios — uma técnica de harmonização e alívio vital que aprendera durante seus anos no cânion com a Tribo Solar. Ela buscou o fluxo neutro e constante da divindade, projetando sua intenção para restaurar a chama corrompida do homem. Contudo, a energia simplesmente não respondeu. Havia uma parede gélida, um vácuo denso que a separava de Veridios, como se a teia que conectava seu ser ao deus da ordem estivesse cortada.
Sem hesitar, ela recorreu ao conhecimento alternativo que acumulara ao longo das décadas em Narrow Groove. Walmmore tentou canalizar a Misericórdia de Khaelora, cujos ensinamentos sobre adaptação e alívio através da transmutação suave aprendera com as clérigas locais. Procurou a vertente compassiva da deusa, mas não encontrou qualquer misericórdia.
Em vez de cura, o que a alcançou foi a natureza pura e desgovernada da divindade. O caos de Khaelora roçou o próprio ser de Walmmore — uma força crua, imprevisível e avassaladora que fez um arrepio violento subir por sua espinha. A sensação de ter a mente e a alma tocadas por aquela entropia sem rédeas fez com que ela recolhesse as mãos no mesmo instante, interrompendo o contato antes que a força a tragasse.
A tentativa, porém, desencadeou a ruína final do morador.
O homem soltou um grito estridente, um urro de dor e desespero que ecoou pelas paredes de madeira da choupana. Ele se contorceu no chão enquanto suas articulações estalavam com violência seco. A estrutura óssea partiu-se e remodelou-se de maneira grotesca sob a pele, que rasgava para dar lugar a projeções rígidas e irregulares. Os músculos expandiram-se em pontas disformes, e a voz humana extinguiu-se completamente, substituída pelo rugido gutural de uma besta irracional.
Ali, no espaço reduzido da sala, o homem deixara de existir, dando lugar a um monstruoso Aberramorfo.
Mesmo com a carne deformada e a estrutura óssea retorcida na figura grotesca do Aberramorfo, o olhar da criatura ainda preservava um resto agoniante de consciência humana. Lágrimas espessas misturavam-se ao fluido escuro que escorria por seu rosto mutante, e sua voz, rouca e sufocada pela transformação, rompeu a penumbra em um súplice desespero:
— Saia... por favor... saia daqui...
O monstro agarrou a própria cabeça com as garras disformes, contorcendo-se em agonia enquanto lutava contra o frenesi que tentava tomar o controle total de seu corpo. Não havia cura nem retrocesso; a alma do homem estava sendo esmagada e consumida pela mutação desordenada.
Walmmore observou a cena com seus olhos cinzas fixos na dor do indivíduo. Ela compreendeu que a verdadeira crueldade seria deixá-lo encarcerado naquela existência atormentada.
Dando um passo firme à frente, Walmmore esquivou-se do espasmo descontrolado da besta e desferiu um único golpe de misericórdia. A lâmina cortou o ar e atravessou o ponto vital com precisão, encerrando o sofrimento e a transformação de uma só vez.
O Aberramorfo tombou pesado contra o chão de madeira da choupana, o choro cessando imediatamente no silêncio da sala. Walmmore limpou o sangue denso da espada no pano seco de sua vestimenta, encarando o corpo imóvel por alguns instantes antes de guardar a arma. A urgência de encontrar a raiz daquela contaminação tornara-se, de fato, uma questão de sobrevivência.
Saindo da choupana em silêncio, Walmmore caminhou até o besouro-de-casca, que a aguardava pacientemente na entrada da vila abandonada. Ela subiu na alça de montaria e segurou a estrutura de metal do seu colar de comunicação — idêntico ao de Khalistro —, focando sua intenção e chamando por Izumi.
A magia de transmissão vibrou sutilmente no artefato, e a voz suave da filha ecoou no amuleto, entrecortada pelo som distante do vento forte.
— Mãe? — atendeu Izumi.
— Izumi, onde você está? — perguntou Walmmore, ajustando as rédeas do besouro. — Presenciou algum sinal dessa contaminação nos picos de Osnain?
— Estou no santuário gélido de Osnain, mãe — respondeu Izumi. — Mas não ficaremos aqui por muito tempo. Os relatos que chegam do vale são alarmantes. Eu e as outras clérigas estamos organizando uma peregrinação rumo às vilas na divisa de Giant Turtle. As pessoas estão caindo doentes a cada dia, e pretendemos canalizar a misericórdia de Khaelora para aliviar a dor dos infectados e purificar o ar.
Walmmore fechou os olhos por um segundo, recordando o rosto deformado e o olhar desesperado do morador que acabara de executar.
— Não vá, Izumi — declarou Walmmore, a voz grave e categórica. — E não tente canalizar a misericórdia de Khaelora. Não há cura para isso.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha mágica antes de Izumi responder, surpresa, mas sem alterar o tom respeitoso.
— Como não há cura, mãe? Nós fomos treinadas para tratar o fluxo vital das pessoas. Se o mal se espalha, o dever das clérigas é intervir e oferecer alívio através da fé e do ensino das divindades.
— Acabei de presenciar a aflição com meus próprios olhos em uma choupana — explicou Walmmore, direta. — Não se trata de uma febre ou de uma praga comum da carne. A energia de Veridios foi bloqueada, e o que sobrou da influência de Khaelora nessa doença não carrega qualquer traço de compaixão. Tentei usar a misericórdia das clérigas e a força não respondeu como deveria. O contato desencadeou uma mutação irreversível. O indivíduo perdeu a razão e se transformou em um Aberramorfo. Eu tive que matá-lo, Izumi.
O vento soprou mais forte do lado de Izumi antes que a jovem voltasse a falar. A constatação da mãe trazia um peso impossível de ignorar.
— Entendo o que você viu, mãe, e não duvido da sua experiência — disse Izumi, ponderada. — Mas se nós nos recusarmos a ajudar e simplesmente virarmos as costas por medo da mutação, estaremos abandonando centenas de Anferianos à própria sorte. Se a misericórdia tradicional falhar, precisamos ao menos conter os afetados e proteger os que ainda não foram tocados.
— Conter não é o mesmo que tentar curar o incurável — pontuou Walmmore. — Não estou pedindo para você fechar os olhos para o dever, mas para entender com o que está lidando. Se você tentar forçar um fluxo vital corrompido achando que a deusa vai operar um milagre, só vai acelerar a transformação e colocar sua própria vida em risco.
— Eu serei cautelosa — assegurou Izumi, compreendendo o aviso sem rebeldia. — Manteremos distância física dos doentes e usaremos barreiras de proteção antes de qualquer diagnóstico. Mas não posso interromper a viagem.
— Apenas garanta que suas clérigas estejam armadas e prontas para o pior — concluiu Walmmore. — Estou a caminho de Narrow Groove para levantar mais informações. Mantenha o colar por perto.
— Você avisou o Senhor do Sol sobre a extensão disso? — perguntou Izumi, antes que a comunicação fosse interrompida.
— Falei com ele no cânion antes de vir para cá — respondeu Walmmore. — Mas só enviarei novos relatos a ele depois de falar com todos os seus irmãos e entender o cenário completo.
— Compreendo — disse Izumi. — Vou mandar uma mensagem para Khalistro assim que organizarmos a comitiva no santuário. Mantenha-se em segurança, mãe.
A transmissão silenciou. Walmmore guardou o colar no sobretudo e incitou o besouro-de-casca a apertar o passo pelas trilhas acidentadas. Seu destino era Vila de Vale Raso, o assentamento mais próximo dos limites de Narrow Groove, conhecido por ser um ponto de parada frequente para caravanas e viajantes que cruzavam a região.
Enquanto a montaria mantinha o galope pesado e ritmado, Walmmore segurou o amuleto de transmissão mais uma vez para contatar Saphira. A filha mais nova permanecia reclusa na quietude úmida dos Charcos, dividindo seu tempo entre a vegetação densa da subtribo e a manutenção da casinha da família.
O colar vibrou em suas mãos antes que a voz contida e calma de Saphira soasse.
— Mãe?
— Saphira — chamou Walmmore, os olhos cinzas atentos à poeira da estrada. — Como estão as coisas pelos Charcos? Você notou qualquer alteração na água, na vegetação ou nos moradores locais?
— Nada além da névoa de sempre — respondeu Saphira, surpresa com o tom direto da mãe. — Os juncos estão secando pela estação, mas tudo continua quieto. O que está acontecendo?
— Uma contaminação está se alastrando pelas vilas vizinhas e enfraquecendo o sangue dos dragões — explicou Walmmore, sem amenizar os fatos. — Ela corrompe a energia vital de Veridios e transforma os doentes em criaturas sem razão.
— Eu nem sabia que algo assim estava acontecendo... — confessou Saphira, a voz transparecendo hesitação. — Aqui nos Charcos o ar está parado, mas não vi ninguém doente ou agir de forma estranha.
— Fique alerta — instruiu Walmmore. — A água e o solo dos Charcos retêm energia com facilidade. Se você perceber a névoa esfriar demais ou qualquer morador demonstrar febre e fraqueza, não tente investigar sozinha. Procure abrigo na casa da família, feche as trancas e mantenha-se escondida até eu chegar.
— Entendido — disse Saphira. — Vou recolher os mantimentos e me trancar. Tome cuidado na estrada, mãe.
Walmmore encerrou o contato e guardou o colar, acelerando o besouro rumo às luzes distantes de Vale Raso.
Walmmore prendeu as rédeas do besouro-de-casca em um mourão de pedra nos fundos da estalagem, garantindo que o animal ficasse protegido da poeira e do trânsito da estrada. Ajustou o fecho do sobretudo de couro e caminhou em direção à taverna central de Vale Raso, o estabelecimento mais frequentado da região por contrabandistas e espadas de aluguel.
Ao empurrar a porta dupla de madeira pesada, foi atingida pelo ar denso impregnado de fumaça de cachimbo, gordura assada e cerveja barata. A taverna era ampla, erguida com vigas grossas de carvalho e teto baixo. O que chamou a atenção de Walmmore, contudo, foi a diversidade incomum que se amontoava sobre os bancos e mesas: em vez do público habitual da vila, o salão abrigava uma multidão heterogênea de mercenários. Havia elfos de traços refinados, guardiões Petrianos conversando sobre mecanismos, orgulhosos Orcs Karkans de pele terrosa e ágeis Guaias conferindo equipamentos de caravana.
Ignorando os olhares curiosos que acompanharam sua entrada, Walmmore caminhou até o balcão principal e apoiou as duas mãos espalmadas sobre a madeira gasta. Seus olhos cinzas varreram o recinto com atenção antes de soltar a informação sem qualquer preâmbulo.
— A contaminação no vale não é uma febre comum — declarou ela, a voz grave ressoando com firmeza suficiente para silenciar as conversas mais próximas. — Ela sufoca o fluxo vital de Veridios e transforma a carne dos doentes. O contato com a energia sem controle de Khaelora acelera o processo, e os afetados perdem a razão até se tornarem Aberramorfos. Acabei de matar um deles em uma choupana a poucos quilômetros daqui.
Um silêncio tenso instalou-se no balcão. Um mercenário Guaia precisou subir no degrau do banco para encarar a guerreira na altura dos olhos. De estatura pequena, feições ágeis e vestes leves de couro poeirento, típicas dos exploradores de caravanas, o pequenino apoiou os braços no balcão e quebrou a hesitação do salão.
— O que você viu no vale não é um caso isolado, guerreira — disse o Guaia, a voz firme de quem viveu cruzando rotas comerciais. — Venho das rotas de exploração do sul. Vi três entrepostos caírem na mesma prostração na semana passada. Os infectados perdem o vigor, entram em colapso e, quando a fúria toma conta, atacam até os próprios companheiros.
Logo ao lado, um guerreiro Karkan — um Orc de grande porte, pele acinzentada e ombros largos marcados por cicatrizes de caça — bateu a caneca de metal na madeira e completou:
— Nas terras de cultivo do oeste a situação é a mesma. Trens de suprimentos foram abandonados porque as escoltas começaram a sangrar por veias escurecidas antes de enlouquecerem. As vilas daquela região fecharam as paliçadas e estão queimando tudo o que se move.
O taverneiro, um homem forte de braços calejados que limpava um caneco com um pano encardido, parou o movimento das mãos. Ele olhou do Guaia para o Orc, e por fim fixou o olhar cansado na postura ereta de Walmmore.
— Se os relatos cruzam as rotas do sul, as terras do oeste e chegam até o nosso vale de forma simultânea — declarou o taverneiro, a voz grave cortando o murmúrio de fundo —, não estamos lidando com um surto de fronteira. Essa praga tornou-se um problema global.
Do canto mais escuro do salão, onde a luz das tochas mal alcançava, uma mulher se projetou ligeiramente para a frente. Trata-se de uma Maculada de feições marcantes, trajando vestidos negros de tecidos sobrepostos que farfalhavam suavemente a cada movimento. Seus cabelos negros caíam lisos sobre os ombros, emoldurando um rosto pálido com maquiagem pesada e escura ao redor dos olhos, o que destacava os pequenos estigmas planos em sua pele.
— Se querem respostas frescas e sem a distorção do pânico, o lugar para onde devem olhar é Parallel Woodlands — disse ela, com a voz pausada e aveludada que fez os sussurros da taverna cessarem. — As informações estão borbulhando lá neste exato momento.
Um dos mercenários no balcão soltou um rabo de escarro no chão de madeira e balançou a cabeça com repulsa.
— Pôr os pés em Parallel Woodlands? Nem por todo o ouro de Aclus — resmungou o homem. — Aquele lugar é o berço das bruxas e da entropia. Se a praga já tomou conta da região, pisar lá é pedir para ser consumido antes mesmo de sacar a espada.
Outros ao redor assentiram em murmúrios concordantes, recuando diante da simples menção do território regido por Khaelora.
Walmmore, por outro lado, nem piscou. Virou seu corpo na direção da mulher de preto, fixando seus olhos cinzas na figura misteriosa.
— Qual é a rota mais direta? — perguntou Walmmore, sem qualquer vestígio de hesitação.
A Maculada esboçou um sorriso discreto, inclinando a cabeça com aprovação diante da firmeza da guerreira.
— Saia de Vale Raso e siga pela estrada das pedras até Vila dos Ecos. De lá, atravesse o trecho acidentado de Ponte Velha e desça em direção ao litoral até alcançar Porto de Névoa — explicou a mulher, traçando o percurso no ar com os dedos longos e finos. — Quando chegar à costa, procure o barqueiro do litoral para cruzar o canal marítimo. Ao desembarcar no estuário que dá acesso aos canais de Parallel Woodlands, busque por Joram, o barqueiro da travessia interna.
Ela fez uma breve pausa, encarando Walmmore com atenção antes de concluir:
— Apenas diga a Joram que foi Vespera quem enviou a mercenária. Ele não fará perguntas e colocará você no caminho certo rio adentro.
Walmmore concordou com a cabeça, gravando a rota e os nomes indicados em sua mente, mas não se moveu imediatamente para sair. Em vez disso, estendeu a mão aberta na direção da mulher.
— Informações desse nível raramente vêm de graça — disse Walmmore, com o tom direto e profissional. — Cadê o contrato?
Vespera soltou um riso seco, a voz ressoando com um leve divertimento. Com movimentos concisos e fluidos dos dedos, ela traçou um contorno invisível no ar. Uma névoa mágica e escura condensou-se entre suas mãos, dando forma a um pergaminho fino que se desdobrou com um estalo suave.
A Maculada segurou o papel e, no local destinado à assinatura, inclinou-se levemente e pressionou os lábios contra a fibra do pergaminho. A marca de seu batom preto fixou-se na superfície, brilhando por um segundo com uma aura contida antes de selar o documento.
— O pagamento será o relatório do que você encontrar na origem do contágio — explicou Vespera, entregando a folha selada à guerreira. — Siga para o litoral e não se desvie da rota. Mas esteja avisada: nem todas as bruxas de Parallel Woodlands são legais assim. A maioria vai preferir testar a resistência do seu corpo antes de ouvir qualquer palavra.
O movimento no balcão travou por completo. Vários mercenários ao redor arregalaram os olhos e recuaram um passo, chocados ao testemunharem a execução explícita de um contrato mágico por uma bruxa em pleno salão.
Walmmore recolheu o pergaminho e o guardou no interior do sobretudo de couro, mantendo os olhos cinzas fixos na mulher.
— Eu não tenho medo.
Vespera deu um passo à frente, cobrindo a distância entre elas com extrema leveza. Inclinou-se e tocou a bochecha de Walmmore com um beijo suave, deixando uma sensação gélida e breve contra a pele da guerreira.
— Boa sorte — disse Vespera, recuando devagar para a penumbra da taverna.
Os murmúrios romperam o silêncio do salão quase imediatamente. Na mesa ao lado, alguns mercenários trocavam risos contidos e comentários baixos, lamentando não terem recebido o toque da Maculada, enquanto outros expressavam repúdio aberto, cuspindo no chão de madeira e praguejando contra a exibição de feitiçaria e contratos obscuros.
Alheia ao alvoroço e ao descontentamento ao seu redor, Walmmore inclinou o tronco em uma reverência sóbria. Posicionou a mão direita espalmada sobre o peito, tocando o centro do peitoral de couro antes de fechar os dedos em um punho firme contra o coração — o gesto cerimonial de respeito praticado pelos devotos de Veridios.
— Obrigada, Vespera — declarou, com a voz serena direcionada à penumbra onde a mulher se recolhera.
Sem prolongar a permanência no local ou encarar as provocações dos homens no balcão, Walmmore girou sobre os calcanhares. A passos secos e ritmados, o impacto de suas botas pesadas contra o assoalho de madeira cortou o murmúrio da multidão até que ela empurrasse a porta dupla e saísse de volta para o ar frio da noite em Vale Raso.
De volta ao canto sombrio da taverna, Vespera recostou-se contra a parede de madeira, observando a porta por onde a guerreira acabara de sair. Ao seu lado, um subordinado Petriano de fisionomia severa, vestindo armadura pesada de liga escura, ajustou as braçadeiras de couro antes de encarar a mestra.
— Olhe para eles... — comentou Vespera em tom baixo, inclinando a cabeça na direção do balcão. — Um salão inteiro cheio de lâminas e machados, mas a coragem dessa gente foi derramada no chão junto com a cerveja barata.
Alguns mercenários mais próximos escutaram o comentário e soltaram rosnados de descontentamento, praguejando contra a mulher e batendo as canecas com força nas mesas. Vespera apenas soltou uma risada curta e debochada, apreciando a irritação impotente dos homens antes de ignorá-los por completo.
Do lado de fora, no ar gelado da noite, Walmmore soltou as amarras de sua montaria. Ela subiu na cela de couro do besouro-de-casca e ajustou as rédeas. Com um estalo grave, a criatura abriu as pesadas placas de sua carapaça, revelando as asas rígidas e escuras por baixo. O bater violento das asas ergueu uma nuvem de poeira do chão, e a montaria ganhou altitude em um voo pesado e constante, cortando o céu noturno em direção à Vila dos Ecos.
Já nas alturas, com o vento frio do vale açoitando seu rosto e as luzes distantes das vilas minguando abaixo, Walmmore levou a mão ao pescoço e segurou o colar de comunicação. Canalizou a magia de transmissão ainda durante o voo para contatar Solon sem perder tempo.
A voz do Rei Solar ressoou firme através do amuleto, sobreposta pelo sibilar da rajada de ar.
— Walmmore? Já tem novidades de Narrow Groove?
— A situação é pior do que imaginávamos, Solon — relatou ela, a voz grave cortando o barulho do vento. — A contaminação não está restrita ao vale. Mercenários de todas as direções confirmam que a praga é global. Consegui a rota exata para a origem em Parallel Woodlands através de uma bruxa de lá, uma Maculada chamada Vespera.
Houve um segundo de silêncio do outro lado, seguido pelo tom nitidamente perplexo e indignado do rei.
— Uma bruxa de Parallel? — questionou Solon, incrédulo. — Você se colocou em contato direto e aceitou orientações de uma serva do caos? Ficou louca, Walmmore?
— Eu farei absolutamente qualquer coisa para garantir que essa doença não chegue aos meus filhos — respondeu ela, mantendo firme o rumo da montaria nos céus. — Não me importo com os seus dogmas ou com quem preciso negociar. Khalistro, Izumi, Noxx e Saphira trazem o sangue dos dragões puros nas veias, assim como você. Eu não vou assistir a linhagem deles ser destruída por esse mal.
O tom de Solon vacilou do outro lado do colar, a indignação cedendo lugar a uma pausa pesada. A ferocidade com que Walmmore defendia a prole — e o sangue de dragão que todos carregavam — sempre fora uma força contra a qual nem mesmo o orgulho do Rei Solar podia erguer barreiras, ainda que apenas Khalistro fosse de sua própria linhagem direta.
— Sua devoção aos seus filhos continua inabalável... — admitiu Solon, a voz baixando de tom antes de recuperar a gravidade rígida. — Mas não subestime aquelas terras, Walmmore. As bruxas de Parallel Woodlands são traiçoeiras por natureza. Lembre-se do que aconteceu no Vale das Sombras Brancas, no coração de Narrow Groove. Uma única feiticeira de Khaelora se infiltrou entre os regentes, espalhou sementes de desconfiança e manchou a reputação de toda a região por gerações. Aquele lugar virou ruína e motivo de vergonha para os Anferianos que lá viviam.
Walmmore ajustou a postura sobre a cela do besouro, sentindo as vibrações das asas da montaria ecoarem pelo seu corpo. Ela soltou um sopro de ar frio pelo nariz.
— Por que você se importa tanto com a reputação de humanos e mortais comuns, Solon? — questionou ela, sem rodeios. — A dignidade das vilas é irrelevante quando o que está em jogo é a vida de quem eu amo.
Um rosnado baixo e gutural — a vibração inconfundível de um dragão contendo a própria irritação — ressoou através do colar de transmissão. Houve um breve silêncio, seguido por um suspiro pesado de Solon.
— Você está certa... — cedeu ele, ríspido, porém honesto. — A verdade é que estou apenas tentando discordar de você por impulso. A ideia de você se aproximar daquele culto me perturba.
— Então guarde o seu orgulho e cuide de si mesmo no cânion — avisou Walmmore, a voz abrandando ligeiramente. — Essa contaminação enfraquece a chama interna dos dragões. Nem você está imune, Solon. Tenha cuidado.
— Você também, Walmmore — respondeu o Rei Solar, e o peso da história que compartilhavam transpareceu no tom suave com que se despediu. — Não se arrisque além do necessário. Retorne para mim, para Khalistro e para os seus outros filhos em segurança.
— Eu voltarei — disse ela.
Walmmore encerrou a magia de transmissão, e a vibração do amuleto cessou contra o seu peito.
O besouro-de-casca manteve o bater ritmado e potente de suas asas, cortando a escuridão acima de Narrow Groove em direção à Vila dos Ecos. Lá em cima, o clima da região parecia cada vez mais denso — não de uma forma física, como uma tempestade ou neblina espessa, mas espiritual. Era como se o próprio ar estivesse impregnado por uma pressão invisível, uma estagnação no fluxo da terra que fazia o ambiente parecer carregado e sufocado, prenunciando a sombra do que a aguardava no litoral.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário ajuda muito com a continuação da história!! Não deixe de comentar :)