Inome se levantou muito cedo, antes mesmo que o sol tocasse o topo dos edifícios de Midgar. A rotina foi rápida: banho, higiene pessoal e o uniforme impecável. Antes de sair, ela carregou sua maleta de campo com kits de ferramentas de precisão, solventes de limpeza industrial e cartuchos de munição de emergência. Tudo o que um técnico de campo poderia precisar em um terreno hostil.
Ela caminhou apressada em direção ao Hangar de Decolagem do Setor 8, o ponto de partida para as missões de transporte para Wutai. Como chegara com folga, o ritmo acelerou para passos curtos e curiosos. O hangar era vasto, um contraste gritante com o confinamento da oficina. O som das turbinas dos cargueiros sendo testadas e a correria dos soldados criavam uma energia que ela nunca tinha experimentado.
Distraída com a magnitude do local, Inome não viu o movimento à frente e acabou trombando com Zack, que gesticulava enquanto conversava com um rapaz de cabelos espetados e uniforme básico de soldado.
– Eita, Inome!!! Bom diaaaa! – Zack exclamou, rindo da situação e a segurando pelo braço para que ela não tropeçasse. Ele fez um sinal para o outro rapaz, que também a cumprimentou.
– Bom dia, senhorita – respondeu o rapaz, com uma postura um pouco mais contida que a de Zack.
– Ah, vocês já estão aí! – Inome disse, recuperando o equilíbrio e encostando sua maleta contra a parede, sentindo um alívio por não ser a única "adiantada". – Bom dia, Zack e…
– Cloud! Cloud Strife, Soldado de 3ª Classe – ele respondeu com um sorriso contido, mas que não escondia o orgulho do título.
– Muito bom conhecer vocês! É ótimo ver rostos diferentes fora daquela oficina – Inome disse, a empolgação voltando a aparecer, ignorando o nervosismo que sentia por causa do que aconteceria assim que Sephiroth chegasse.
– Cê viu, Cloud?! – Zack falou, visivelmente empolgado. – Teremos uma mecânica com a gente. Agora dá para gastar bala à vontade sem medo de ficar na mão!
Inome riu, balançando a mão e a cabeça em negação. – Que exagero, Zack! Eu só sei fazer o meu trabalho.
Cloud deu um sorriso de canto, sem tirar as mãos dos bolsos. – Se o General aprovou você, é porque ele viu potencial. Ele não perde tempo com quem não entrega resultado.
– Simmmm! Esse é o espírito! – Zack deu tapinhas entusiasmadas nos ombros de ambos, quase fazendo Inome perder o equilíbrio. – Você tem que ser mais como o Cloud, Inome. Mais animada.
Inome sorriu, sentindo-se um pouco mais à vontade com o jeito direto deles. – Ahmm… acho que sim. Vou tentar acompanhar o ritmo de vocês.
A conversa fluiu misturando tudo. Inome, como Técnica de Campo, explicava a manutenção que tinha feito nos rifles de precisão e no sistema de resfriamento das espadas dos SOLDIER; Zack, como SOLDIER de 1ª Classe, falava sobre suas patrulhas, enquanto Cloud, Soldado de 3ª Classe, compartilhava o peso de sua rotina. Quando o assunto mudou para interesses fora da Shinra, Inome comentou sobre os livros que estava lendo, Cloud confessou que a pescaria era seu refúgio, e Zack não parava de falar sobre o novo restaurante no Setor 5 e suas tentativas de treinar chocobos. Dois pares de passos ritmados ecoaram pelo hangar, cortando o assunto no meio. Angeal e Sephiroth se aproximavam. .
Angeal bagunçou o cabelo de Zack com uma mão pesada, mas carinhosa. – Bom dia, rapaz. – Ele então desviou o olhar para os outros dois. – Bom dia, Inome. Cloud.
Cloud, mantendo uma postura rígida, bateu a continência para os dois superiores. Inome imitou o gesto o mais rápido que conseguiu, sentindo o coração saltar uma batida ao ver Sephiroth ali, logo à sua frente. Angeal notou a tensão dela e sorriu de forma encorajadora, trocando um olhar rápido e enigmático com o General.
– O General já mencionou você, mecânica – Angeal disse, com uma voz que misturava autoridade e apoio. – Wutai não é um ambiente para distrações. Hoje é o seu teste final; não há margem para erros se você pretende manter essa posição.
Inome respirou fundo, sentindo o peso daquelas palavras, e fez uma reverência respeitosa, encarando o rosto de Angeal antes de desviar o olhar para Sephiroth por um breve segundo. O frio na barriga era quase insuportável.
– Vou dar o meu melhor, senhores. Não haverá falhas sob minha responsabilidade.
Sephiroth, a poucos passos de distância, permanecia imóvel. Ele não disse uma palavra, apenas observava a cena com os braços cruzados sobre o peito. O olhar dele estava fixo em Inome, com aquela frieza típica, como se estivesse apenas constatando se ela seria capaz de cumprir o que prometeu ou se seria apenas mais um estorvo em Wutai.
– Vamos. – Sephiroth demandou no seu tom de voz natural.
Todos concordaram e entraram no cargueiro militar de transporte, que logo levantou voo deixando Midgar para trás e seguindo em direção a Wutai.
Durante a viagem, com o som constante dos motores ao fundo, Sephiroth e Angeal repassaram tudo o que deveria ser feito. O objetivo era claro e direto: eles iriam focar no Forte Tamblin, o principal reduto da resistência inimiga. A missão do grupo era se infiltrar na base, desarmar as defesas principais e neutralizar o exército de Wutai de uma vez por todas, forçando a rendição deles para que a Shinra pudesse finalmente encerrar a guerra e tomar o controle da região.
Ao chegarem nos arredores do Forte Tamblin, o silêncio da viagem sumiu de uma vez. O cargueiro nem tinha tocado o chão direito quando o alarme de invasão de Wutai começou a ecoar, agudo e ensurdecedor.
A rampa de carga desceu com um estrondo metálico, e o vento forte trouxe o cheiro de pólvora e fumaça. O caos lá fora era imediato: dava para ouvir o som seco dos primeiros disparos batendo contra a blindagem da nave.
– É agora! Vamos, vamos! – Zack gritou, já puxando a espada e saltando da rampa sem a menor hesitação. Cloud foi logo atrás, de rifle em punho.
Inome sentiu o estômago dar um nó. O barulho era ensurdecedor. Ela agarrou a alça da sua maleta de ferramentas com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Sephiroth passou por ela a passos firmes, sem pressa, a bota pesada estalando na rampa enquanto ele sacava a Masamune com um movimento fluido. A presença dele impunha um foco frio no meio daquela bagunça.
– Mantenha-se atrás de nós e procure cobertura – Angeal avisou Inome, tocando de leve no ombro dela antes de avançar para o combate.
Respirando fundo para não travar nas pernas, Inome engoliu o medo e correu para fora da aeronave, os olhos buscando imediatamente a primeira parede de pedra ou caixote militar para se proteger do fogo cruzado.
Inome se encolheu atrás de uma pilha de caixotes de metal, tentando diminuir o próprio tamanho enquanto os tiros zuniam alto. Ela abriu a maleta depressa, analisando o campo de batalha por um segundo para entender o que ia precisar. Conforme se movia com agilidade, ignorou as ferramentas mais pesadas e pegou só o essencial: os alicates de precisão, o soldador portátil e alguns cartuchos reserva. Enfiou tudo com firmeza no coldre da cintura, garantindo que teria os braços livres para correr e se mover rápido se precisasse.
Lá na frente, Sephiroth e Angeal simplesmente limpavam o caminho, fazendo a defesa de Wutai parecer de papel. Sephiroth avançava com uma calma bizarra no meio do tiroteio, e cada movimento longo e preciso da Masamune cortava as linhas inimigas antes mesmo que os soldados conseguissem mirar. Logo atrás, Angeal usava sua força bruta para derrubar as barricadas de metal e arremessar os oponentes para longe, abrindo caminho como se aquilo não passasse de um treino.
Zack e Cloud vinham na sequência, progredindo rápido pelo terreno, mas quase sem ter o que fazer. Zack erguia a espada pronto para o confronto, mas frustrava-se ao ver que os dois já tinham derrubado todo mundo antes dele chegar perto. Cloud mantinha a guarda alta com o rifle, cobrindo os flancos e acompanhando o ritmo sem precisar gastar munição. Sob a liderança implacável dos superiores, o esquadrão avançava sem pausas em direção à entrada principal do forte, deixando apenas poeira e destruição para trás.
Assim que cruzaram os portões de pedra e entraram na área interna do Forte Tamblin, Sephiroth parou por um breve segundo, avaliando a divisão dos corredores antes de se voltar para o grupo.
– Eu e Angeal vamos para o pátio central e vocês três busquem uma forma de chegar na torre. Temos que cercá-los. – ditou com seu tom de voz natural, firme e direto.
Zack abriu um sorriso largo na hora, ajeitando a espada nos ombros com total empolgação. – Pode deixar, General! Vamos tomar aquela torre num piscar de olhos!
Cloud concordou logo em seguida, ajeitando a postura com um aceno firme de cabeça, compenetrado na missão. – Entendido.
Inome, por outro lado, sentiu o estômago dar um nó. Olhando para Sephiroth, ela se sentiu exatamente como um cachorrinho abandonado na mudança; a vontade real era continuar seguindo os passos dele, onde se sentia estranhamente mais segura, apesar de toda a imponência do General. Ver que ele iria para o lado oposto a deixou completamente deslocada com os dois mais novos. Ainda assim, ela engoliu em seco, reprimindo o desânimo, e apenas assentiu, focando em seguir a ordem sem deixar transparecer.
– Certo, General! – Inome assentiu com a cabeça, apressando o passo para seguir os rapazes.
Atrás deles, Sephiroth e Angeal deram as costas e avançaram com determinação pelo corredor oposto, sumindo rapidamente em direção ao pátio central.
O pátio central do Forte Tamblin parecia um formigueiro enfurecido, mas a entrada de Sephiroth e Angeal mudou o ritmo do lugar instantaneamente. Era um combate sem esforços. Sephiroth avançava em linha reta, desferindo golpes horizontais e precisos. A Masamune passava pelas defesas de Wutai fatiando escudos e armaduras de metal sem encontrar resistência, derrubando fileiras de soldados antes mesmo que pudessem reagir.
Ao lado dele, Angeal garantia que ninguém se aproximasse pelos flancos. Com impactos pesados e brutais, ele usava a força para arremessar os inimigos contra as paredes de pedra, quebrando as formações de defesa como se fossem feitas de vidro. A resistência ali simplesmente evaporou à medida que os dois avançavam, limpando o pátio de forma rápida e efetiva.
No outro extremo do forte, a dinâmica era bem diferente. Zack liderava a subida pelas escadarias de pedra escuras que levavam à torre, com a espada pronta, mas os ombros relaxados. – Fiquem de olho nos cantos! – ele avisou, os passos ecoando alto na estrutura.
Cloud vinha logo atrás, mantendo o rifle em riste e inspecionando cada sombra ou fresta nas paredes com uma seriedade rígida. Inome corria para acompanhar o ritmo dos dois, sentindo o peso do coldre ajustado na cintura e a adrenalina estalar no peito.
Eles viraram o corredor e deram de cara com um portão de ferro maciço trancado por dentro, bloqueando totalmente o acesso à base da torre de vigia. Zack deu dois tapinhas na estrutura de metal, fazendo um som oco ressoar, e olhou para trás com um sorriso empolgado.
– Acho que é sua deixa, mecânica. Consegue abrir essa belezinha rápido antes que o comitê de boas-vindas apareça?
Inome deu um passo à frente, respirando fundo e já puxando as ferramentas do coldre. Ela pegou uma chave de fenda eletrônica e um alicate de bico fino, indo direto mexer no painel numérico de segurança instalado ao lado do portão. Usando a chave, ela desmantelou a carcaça de metal do teclado, expondo a placa de circuito interna. Com movimentos rápidos e precisos, usou o alicate para cortar e ligar os fios certos, forçando um curto-circuito no sistema de tranca. A pesada porta de ferro se abriu rapidamente com um estalo hidráulico.
Mas o alívio durou pouco: eles estavam encurralados. À frente, já dentro da base da torre, um esquadrão da Infantaria de Wutai os esperava de rifles empunhados. Atrás, pelo corredor de onde tinham acabado de vir, o eco de passos rápidos e gritos de comando anunciava que outra linha de soldados inimigos chegava para fechar o cerco.
Inome reagiu por instinto, abaixando-se para puxar uma pequena pistola automática que guardava escondida sob a calça, presa em um coldre elástico de tornozelo.
Zack e Cloud avançaram com agilidade para partir para o confronto. Zack saltou direto para o interior da torre, usando a largura de sua espada para rebater os primeiros disparos e desferir cortes rápidos que jogavam os soldados de Wutai contra as paredes, desestabilizando a linha de frente deles. Na retaguarda, Cloud girou o corpo instantaneamente para cobrir o corredor; ele se abrigou parcialmente atrás do batente da porta e disparou rajadas curtas e certeiras com seu rifle, derrubando os inimigos mais próximos e impedindo que o grupo de trás avançasse sobre eles.
Inome abatia aqueles que ainda não estavam mortos, dando um tiro de misericórdia naqueles que Cloud ou Zack deixavam para trás para garantir que a retaguarda ficasse limpa.
O que ela não esperava era ser pega por trás. Um braço forte envolveu seu pescoço em um puxão brusco, sufocando-a. Zack e Cloud giraram os corpos na hora, já a postos para ajudá-la, mas ela gritou com o resto de ar que tinha nos pulmões:
– VÃO SEM MIM! Eu tenho meus...
Ela não terminou a frase. Movendo a mão livre com desespero até o coldre, ela puxou uma chave de fenda longa e fina, cravando-a com força no estômago do homem, bem na fresta que não estava 100% protegida pelo colete tático de Wutai.
Quase perdendo o ar, ela sentiu o soldado dar um grito agudo de dor e afrouxar o aperto de uma vez, cambaleando para trás. Ao recuperar o fôlego, Inome se virou rapidamente e o finalizou com um disparo certeiro. Sem olhar para trás, ela guardou a pistola e saiu correndo atrás de Zack e Cloud, que já ganhavam o topo da escadaria.
Os três subiram os últimos degraus correndo e desembocaram direto na plataforma aberta no topo da torre de vigia. O vento ali em cima era forte, trazendo o som distante das explosões que Sephiroth e Angeal causavam no pátio abaixo.
Zack correu até o parapeito e olhou para baixo, vendo a fumaça subir.
– Cara, eles já limparam quase tudo lá embaixo! – Zack falou, apontando com a ponta da espada para o maquinário pesado no centro da plataforma. – Se a gente desativar o holofote principal e o sistema de comunicação deles agora, o forte perde o contato com o resto do exército. Cloud, fica de olho na escada. Inome, destrói esse painel!
Inome, mais uma vez, puxou do coldre os alicates de corte e a sonda lógica, fazendo o possível para desativar o terminal. Porém, era um sistema muito diferente do habitual da Shinra; a interface usava uma codificação nativa de Wutai que ela não dominava, acabando por deixar as luzes do painel piscando em um tom vermelho de alerta.
Na retaguarda, Cloud continuou ajudando, mantendo a posição na escada e atirando de rifle naqueles soldados que ainda tentavam subir para retomar a torre.
O que ninguém esperava era que um Vajradhara — um colosso monstruoso e couraçado, armado com um porrete gigante — apareceria quebrando as estruturas abaixo deles. Era um plano de Wutai para usar a criatura como uma armadilha de último recurso contra os invasores dentro do forte. Quando Inome começou a mexer no sistema de comunicação, o curto-circuito acabou desativando as travas eletrônicas das comportas subterrâneas onde a criatura estava trancada.
Com o chão tremendo e o rugido ecoando por todo o complexo, o pânico bateu.
– Aaaah! Eu sinto muito! – Inome dizia em desespero, as mãos tremendo enquanto tentava reconectar os fios arrancados para refazer a tranca, mas já era tarde demais. O monstro tinha destruído o portão inferior e invadido o pátio central.
Lá embaixo, Sephiroth e Angeal já mudavam de postura, encarando a monstruosidade que avançava na direção deles. Zack olhou para Cloud, ajustando a pegada na espada com os olhos brilhando pelo desafio.
– Hora de acabar com isso! – Zack disse, descendo a toda velocidade pelas rampas em direção ao pátio, com Cloud saltando logo atrás para dar cobertura.
Inome desceu correndo logo em seguida para não ficar para trás. No centro do pátio, os quatro homens se posicionavam lado a lado, empunhando suas armas e se preparando para o combate contra o gigante.
O Vajradhara rugiu, erguendo o porrete colossal e desabando-o contra o chão do pátio, estilhaçando a pedra. Sephiroth se moveu um segundo antes do impacto; um deslocamento lateral limpo, deixando a arma do monstro atingir apenas o vento. No mesmo instante, a Masamune brilhou em uma sequência de cortes rápidos, fatiando as pernas couraçadas da criatura e forçando-a a recuar cambaleando.
Aproveitando a brecha aberta pelo General, Angeal e Zack saltaram juntos das ruínas laterais. Zack desceu desferindo uma espadada vertical com toda a força, enquanto Angeal canalizou o peso do seu ataque logo em seguida, atingindo o peito do colosso. O impacto duplo das espadas fez o Vajradhara urrar de dor, balançando a cabeça zonzo.
Pelos flancos, Cloud corria em arco pelo terreno para não se tornar um alvo estático. Mantendo o passo rápido, ele disparava rajadas curtas e contínuas com o rifle, mirando diretamente nas articulações expostas do monstro para mantê-lo sob pressão e sem chance de contra-atacar.
Enquanto o quebra-pau acontecia, Inome correu em direção ao recuo de uma pilastra destruída, escorando as costas na pedra para se proteger dos destroços que voavam por todo o pátio. Tremendo da cabeça aos pés pela imponência e pelo barulho do bicho, ela segurou a pistola automática com as duas mãos para tentar firmar o pulso. Respirando fundo no meio daquela confusão, ela fechou um dos olhos e mirou fixamente nas brechas da armadura do gigante, esperando o segundo exato para disparar.
Zack e Angeal se preparavam para mais um avanço coordenado, flexionando os joelhos para saltar, quando a silhueta de Sephiroth passou direto entre os dois. Bastou um movimento firme do General para que ambos interrompessem o ataque no mesmo instante, baixando as espadas e recuando um passo em um sinal claro de respeito absoluto. Eles sabiam que, quando ele assumia a linha de frente, o combate mudava de patamar.
O Vajradhara ergueu o braço ferido para tentar um último golpe esmagador, mas Sephiroth simplesmente eliminou a distância entre eles em um único avanço. A Masamune reluziu em um corte diagonal perfeito, desferido com uma velocidade e força que sequer deram chance de reação ao colosso. O monstro travou no lugar por um segundo antes de desabar pesado no chão do pátio, derrotado de forma definitiva.
Atrás da pilastra, Inome piscou algumas vezes, com o dedo ainda travado no gatilho da pistola. Ela nem tinha conseguido disparar; a ação dele foi tão rápida que o bicho já estava morto antes de ela conseguir processar o movimento. Baixando a arma devagar, ela sentiu o coração errar uma batida. Seus olhos se fixaram no General ali em pé, com aquela postura impecável no centro do pátio enquanto o vento acalmava seus cabelos prateados. Ela engoliu em seco, sentindo o rosto esquentar e um frio na barriga que subiu de repente, prendendo sua atenção nele de um jeito que ela mal conseguia disfarçar.
Com a queda do colosso, o silêncio finalmente se instalou sobre o pátio do Forte Tamblin, quebrando o último foco de resistência de Wutai ali dentro. Para finalizar a missão de vez, Sephiroth avançou com passos firmes em direção à sala de comando principal do forte para destruir os terminais restantes e consolidar oficialmente a tomada da base pela Shinra, forçando a rendição total das tropas locais.
Logo atrás, a atmosfera mudou completamente.
– Conseguimos, caramba! – Zack exclamou, estendendo a mão para Cloud em um high five estalado, emendando logo em seguida em um abraço de lado entusiasmado que quase tirou o garoto do chão. Cloud, embora um pouco sem jeito com a efusividade, deu um leve sorriso de canto, compartilhando do alívio de terem sobrevivido inteiros àquela loucura.
Angeal guardou a espada nas costas e puxou o rádio de comunicação tática para coordenar o retorno deles. – Aqui é Angeal. O Forte Tamblin foi neutralizado e está sob total controle. Mandem o cargueiro militar de transporte de volta para o ponto de extração. Estamos prontos para partir.
Enquanto os rapazes comemoravam e organizavam a volta, Inome continuava encostada na pilastra, com a mente completamente distante. Ela permanecia ali com a pistola frouxa entre os dedos, perdida em seus próprios pensamentos. Seus olhos não saíam de Sephiroth, acompanhando cada movimento dele enquanto ele guardava a Masamune e dava as ordens finais. Ela não ouvia o rádio de Angeal e muito menos a algazarra de Zack; toda a sua atenção estava presa na imagem imponente do General, o coração ainda num ritmo compassado e bobo que ela apenas torcia para que ninguém notasse.
Zack se aproximou de Inome a passos largos, pegando-a de surpresa e a colocando por cima do ombro como se fosse um saco de batatas.
– Uhuuuuuuuuu! Cê mandou bem demais!
– A-aaah! – ela reagiu de imediato, sendo arrancada abruptamente de seus pensamentos. O rosto, que já estava quente, ganhou um tom ainda mais forte com o susto. – Ei, Zack! Me coloca no chão!
Ele riu alto e a colocou de volta nos próprios pés poucos segundos depois, estendendo a mão empolgado. Inome, ainda tentando reorganizar as ideias e se recuperar do choque, correspondeu dando um high five estalado na mão dele.
Angeal então se aproximou a passos calmos, guardando o comunicador e sorrindo diante da agitação dos mais novos.
– Prontos para voltarem? Missão cumprida.
O cargueiro militar da Shinra logo pousou no ponto de extração, levantando poeira com a força de suas turbinas. O grupo subiu a rampa novamente, deixando para trás os destroços do Forte Tamblin.
Sentada perto de uma das pequenas janelas da aeronave, Inome parecia finalmente digerir tudo o que havia acontecido: sua primeira missão real em campo, a confiança que havia surgido tão rápido com os garotos, Cloud e Zack, e aquela sensação intensa que ainda reverbera em seu peito...
Enquanto ela olhava fixamente para a paisagem de Wutai diminuindo lá fora, Sephiroth travou os olhos nela. Ele estava encostado contra a parede metálica da cabine, com os braços cruzados e uma das pernas levemente flexionada, mantendo sua habitual postura imponente e centrada.
– Seu desempenho foi satisfatório, mecânica. No entanto, a hesitação no campo de batalha é uma falha que você não pode se permitir. Garanta que isso não se repita. – a voz dele ecoou firme pelo compartimento de carga, fria e analítica.
– Ah, pra uma primeira missão, você foi ótima! – Angeal complementou com um sorriso reconfortante, quebrando o tom mais rígido do General.
Com o dever cumprido e o cansaço finalmente batendo, o silêncio se estabeleceu na cabine enquanto a aeronave seguia seu curso pelos céus, levando o grupo de volta para a sede no Edifício Shinra, em Midgar.
Já em seu próprio quarto, vestindo seus pijamas mais confortáveis, Inome finalmente se deitou e desabou na cama, abraçando o travesseiro com força contra o peito. O silêncio do aposento contrastava absurdamente com o caos barulhento de poucas horas atrás.
No entanto, o descanso parecia distante. Toda vez que ela fechava os olhos, a escuridão da mente era imediatamente preenchida por aquele olhar verde-turquesa, penetrante e gélido de Sephiroth. Uma onda de calor repentina começou nas bochechas, mas logo se espalhou por todo o corpo, descendo pelo pescoço e deixando um arrepio nítido correr por sua espinha só de lembrar daquela voz grave ecoando tão perto dela na cabine.
Sentindo o coração martelar descompassado contra as costelas e uma sensação estranha e intensa revirar o estômago, Inome se encolheu por inteiro sob os lençóis. Ela apertou o travesseiro contra o peito com ainda mais força, tentando conter o ritmo da própria respiração. Puxando o cobertor até o nariz para se esconder de seus próprios pensamentos, ela rezou mentalmente para a deusa Minerva fazer aquela agitação interna acalmar para que pudesse pegar no sono logo, antes que passasse a noite inteira em claro.

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