terça-feira, 16 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capítulo 1

 


Inome era filha de Kayan Van’Dael, um mecânico respeitado na Shinra. O acidente aconteceu em um dia comum, na praia; Kayan e a esposa estavam curtindo a folga, quando um Behemoth surgiu do nada e atacou a área de banhistas. A mãe de Inome não sobreviveu ao ataque, e Kayan, embora tenha sido resgatado, acabou ficando paraplégico.

Para evitar um processo judicial que traria publicidade negativa para a empresa e exporia falhas de contenção, o presidente ofereceu a vaga do pai para Inome. O salário era o mesmo, o que garantia os custos hospitalares dele.

Aos 22 anos, Inome tinha 1,80 de altura, pele escura, olhos amarelos e vitiligo espalhado pelo corpo. Usava o uniforme padrão cinza da Shinra e prendia o cabelo castanho num rabo de cavalo alto.

Era o fim da primeira semana de treinamento. Ela estava na Oficina de Manutenção de Hardware, focada em cumprir suas tarefas sem erros. Naquele dia, a demanda era baixa: apenas desmontar e limpar rifles de assalto padrão Shinra e pistolas de choque M-10.

O som metálico de algo pesado sendo arremessado contra sua bancada interrompeu o serviço. Zack Fair entrou na sala com sua espada padrão de SOLDIER quebrada.

– Ehhhh! E aí! – ele acenou, jogando a espada na mesa com um estrondo. – Você é a menina nova, né? – ele esticou a mão, sorrindo.

– Mhm! Muito prazer, senhor. – Ela o cumprimentou, apertando a mão dele. – Sou a Inome. O que houve com sua espada?

– Ahhh, sabe como é, né? Tava treinando com o General e ele acabou estragando ela um pouco. – Ele apontou para a lâmina, que tinha um pedaço lascado perto do pomo e uma rachadura visível na lateral.

Inome olhou da espada para o rosto dele, notando o corte na bochecha de Zack.

– Pelo visto foi um treinamento pesado. – Ela disse, se aproximando para conferir a extensão da rachadura.

– Tá tudo bem, Inome! – Ele apontou para a espada, olhando para o relógio na parede, visivelmente com pressa. – Dá pra consertar isso aí?

– Sim, dá. – Ela pegou a espada e ajeitou sobre a mesa de trabalho. – Vou precisar lixar a área da rachadura, fazer a soldagem de preenchimento e depois dar o acabamento no rebolo para ficar nivelado.

– Demora muito?! – Disse ele, claramente impaciente.

– Apenas 40 minutos. Certo?

– Maravilhaaaaaaaa! – Ele encostou contra a mesa de trabalho dela, cruzando os braços e observando cada movimento.

Aqueles 40 minutos foram um teste de paciência para Inome. Zack não parava de falar um segundo, perguntando desde os detalhes técnicos da liga metálica que ela estava usando até histórias sobre as missões que dividia com Angeal, Genesis e o próprio General.

Antes que ela pudesse finalizar o acabamento, a porta da oficina deslizou. Sephiroth entrou, o passo firme e silencioso. Ele parou, os olhos frios varrendo a sala até travarem em Zack, e depois em Inome. Houve um silêncio pesado de alguns segundos, até que Zack finalmente o notou e deu um pulo para perto dele.

– E aí, General! Bom o treinamento hoje, hein? – Zack sorriu, ignorando o clima tenso.

Sephiroth não retribuiu o sorriso, mantendo aquela expressão impassível de sempre, embora houvesse algo quase imperceptível em seu olhar ao notar o ferimento no rosto do rapaz.

– Você precisa ser mais cauteloso, Zack. – Sephiroth disse, com a voz baixa e serena. – Desculpe por ter sido negligente com o seu rosto.

Inome virou-se para se apresentar conforme o protocolo, mas quando seus olhos encontraram aqueles olhos felinos e verticais de Sephiroth, ela simplesmente paralisou. O tempo pareceu esticar, e a espada que ela segurava foi de encontro ao chão com um estrondo metálico, interrompendo o silêncio do galpão.

– É… Hm, me perdoa! – Ela se recompôs rápido, fazendo uma reverência forçada para disfarçar o nervosismo. – General, muito prazer! Sou Inome, a nova mecânica do Departamento de Manutenção e Suporte.

Sephiroth fixou o olhar no metal caído. – Tome cuidado com o nosso armamento, Inome. – Ele apontou sutilmente para a espada no chão, sem alterar sua postura. – Sephiroth. Esse é o meu nome.

– Pode deixar, General. Isso não irá se repetir! – Ela disse, apressando-se para pegar a arma. Colocou-a na mesa de volta e retomou a solda, as mãos firmes, mas sob o peso absoluto da presença dele.

Sephiroth a analisou por um instante antes de soltar um suspiro contido. – Se continuar assim, o Departamento não terá utilidade para você. Seja mais dedicada.

Zack apenas riu, dando tapinhas desajeitados no braço de Sephiroth, tentando aliviar a tensão do ambiente. – Relaxa, General! Ela só deve estar um pouco nervosa. É desastrada igual a mim, isso é normal.

Sephiroth não demonstrou qualquer reação ao comentário de Zack, apenas suspirando. Ele passou por ele, já caminhando em direção à saída, e disse sem olhar para trás:

– Te vejo amanhã, na nossa missão em Wutai. Não se atrase.

– Pode deixar, General! – Zack respondeu prontamente. Ele fez uma continência rápida, mas com aquele meio sorriso brincalhão que era sua marca registrada, desfazendo a pose formal logo em seguida com uma piscadela.

Assim, Sephiroth deixou a sala, fechando a porta atrás de si com uma precisão absoluta. Minutos depois, o silêncio do galpão foi quebrado apenas pelo barulho das ferramentas sendo guardadas. Inome se aproximou, estendendo a arma agora impecável.

– Sua espada, Zack. – Ela disse, entregando-a com o acabamento perfeito após a soldagem e o polimento.

– Valeu, novata! – Ele sorriu, testando o peso da lâmina e admirando o reparo rápido. – Tamo junto! Te vejo depois quando eu precisar de um conserto de emergência.

Ele saiu apressado, deixando Inome sozinha. Ela suspirou, sentindo o peso do silêncio retornar ao galpão. O resto da noite seguiu em ritmo de fábrica, mas, após finalizar as ordens de serviço, a curiosidade e uma pontada de ousadia tomaram conta dela. Ela pegou uma carcaça de pistola de choque M-10 e mesclou com o mecanismo de disparo de um rifle de assalto padrão, acoplando um dissipador de calor customizado que ela mesma ajustou. Batizou o protótipo de "Fagulha-V".

Ao fim da noite, deixou a sala segurando a peça. O coração batia num ritmo acelerado, uma batida forte e persistente contra as costelas que ela não conseguia acalmar. Era um nervoso estranho, uma agitação que a fazia sentir as palmas das mãos suarem e a respiração ficar mais curta. Ela já tinha resolvido burocracias pesadas com assistentes da presidência sem sequer alterar o batimento, mas só de pensar em encarar Sephiroth de novo, suas mãos tremiam levemente. Ela ajustou o aperto na Fagulha-V, tentando focar no metal frio para ignorar o calor que subia pelo pescoço.

– Olá! – Ela abordou Lazard, o Diretor da SOLDIER, que passava pelo corredor. – Quero ir até a sala do General Sephiroth. Tenho algo para mostrar. – Ela estendeu a Fagulha-V com um pouco de hesitação, a voz saindo um pouco mais baixa do que o normal.

Lazard franziu a testa, visivelmente desconcertado com o pedido fora de hora da mecânica, mas, ao ver a qualidade técnica da modificação, assentiu.

– Siga-me, Inome.

Ela o seguiu em silêncio pelos corredores de metal escovado, passando pelos elevadores de acesso restrito da sede. O trajeto parecia longo demais e o ar ali dentro, rarefeito e carregado com o cheiro de ozônio dos sistemas da Shinra, parecia pesar sobre ela. Inome repassava mentalmente o discurso: pedir desculpas pelo acidente da espada, ser profissional, apresentar o projeto de melhoria. Ela precisava se provar competente, mas, lá no fundo, o que a mantinha com o estômago dando voltas não era apenas o medo de perder o emprego, mas a perspectiva de estar, novamente, a poucos metros de distância daquele homem.

Ao chegarem à porta da sala de Sephiroth, Lazard deu algumas batidas secas na estrutura metálica e anunciou com a formalidade de costume:

– General, a mecânica Inome solicita uma audiência breve. Ela afirma ter um ajuste técnico relevante.

– Deixe entrar. – A voz de Sephiroth ecoou de dentro, firme e autoritária.

Lazard abriu a porta e deu passagem. Inome entrou, sentindo o estômago dar voltas e um tremor involuntário nas pontas dos dedos. Ela respirou fundo, forçou um sorriso profissional e endireitou a postura, buscando um equilíbrio que parecia prestes a falhar.

– General Sephiroth. – Ela fez uma reverência precisa, mantendo o tom de voz estável. – Vim pedir desculpas pela falta de profissionalismo hoje cedo. E, aproveitando a oportunidade, gostaria que avaliasse meu projeto: a Fagulha-V.

– Na mesa. – Ele ordenou, com um gesto curto de cabeça.

Inome colocou a arma sobre a superfície de mogno e levou as mãos às costas, observando-o. O coração batia tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir. Sephiroth pegou a Fagulha-V, girou-a entre os dedos, testando o equilíbrio e o peso, e retirou o compartimento de energia para conferir a precisão da solda interna. Ele não disse uma palavra, apenas analisava cada detalhe com um olhar clínico, quase insuportável de tão intenso.

Por fim, ele se levantou, aproximou-se dela e estendeu a arma de volta, parando a poucos centímetros.

– Você é boa nisso, mecânica. – A voz dele era baixa, um timbre que pareceu vibrar diretamente no peito de Inome. – Você irá conosco para Wutai amanhã. Será nossa técnica de campo responsável pelo suporte de armamento.

A animação foi um solavanco em seu peito. Inome sentiu como se pudesse explodir; seus olhos brilharam intensamente e ela não conseguiu evitar dar um pequeno pulo de empolgação, concordando com a cabeça freneticamente.

– P-pode deixar, General! Estarei pronta e a postos amanhã, sem falta! – Ela soltou o ar de uma vez, tentando recuperar o fôlego que tinha lhe escapado.

Sephiroth a encarou, a expressão fechada e o olhar gélido ancorando a empolgação dela.

– Se comporte dentro e fora do Quartel-General da Shinra. Você é uma subordinada. Aja como tal. – O tom não permitia réplicas. – Pode ir agora.

– Certo. – Ela respondeu, a voz saindo quase num sussurro.

Ela se afastou com pressa, o rosto em brasa, e saiu da sala quase tropeçando nos próprios pés. O corredor, que antes parecia interminável, agora parecia curto demais para ela processar o que acabara de acontecer.


Ao chegar em seu pequeno quarto, Inome largou a Fagulha-V sobre a escrivaninha com cuidado, mas assim que fechou a porta, a máscara profissional caiu por completo. Ela se jogou de costas na cama, agarrando o travesseiro e apertando-o contra o peito. Soltou gritinhos abafados, abafando o entusiasmo contra o tecido enquanto balançava as pernas freneticamente no ar.

Era um turbilhão. A ficha da missão em Wutai começava a cair, mas o que realmente acelerava sua pulsação não era o risco do campo de batalha ou a chance de brilhar na Shinra. Era a memória da autoridade gélida de Sephiroth. A forma como ele a observou, aquele olhar clínico e imperturbável, como se estivesse decidindo se ela era digna ou não de estar ali, fazia seu mundo girar. Ele era alguém tão distante, tão intocável, que a mera lembrança de estar a poucos centímetros dele causava uma eletricidade que ela nunca sentira antes.

Ela rolou para o lado, olhando para o teto do quarto, e o sorriso aos poucos deu lugar a uma expressão de confusão. A mente não parava: era medo da autoridade dele? Era a sombra da responsabilidade de substituir o pai, que agora parecia um fardo menor diante do desafio de servir diretamente ao General? Ou seria aquele clichê que ela sempre jurou que nunca a pegaria: estar completamente, absurdamente fascinada pelo homem que a Shinra tratava como uma divindade?

As questões se misturavam na cabeça, pesadas demais para serem resolvidas ali, no escuro. Entre a ansiedade pela viagem de amanhã e a imagem daquele olhar fixo, o cansaço do dia finalmente venceu. A respiração de Inome foi ficando lenta e, em meio aos pensamentos que ainda giravam em torno daquele encontro, ela caiu em um sono profundo.

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