segunda-feira, 22 de junho de 2026

Final Fantasy VII: Beyond Crisis - Capítulo 9

 


Assim que desceram a montanha toda e a inclinação íngreme finalmente cedeu lugar a um terreno mais plano, Sephiroth pegou Inome no colo mais uma vez. Ela parecia exausta, o corpo relaxando quase imediatamente contra o dele. Ele soltou um suspiro baixo, uma preocupação silenciosa vincando levemente sua testa, mas não se deixou abalar. Firmou os braços ao redor dela e continuou a caminhada com passos largos e implacáveis contra a neve.

Andando mais alguns bons minutos sob a escuridão fria, as luzes amareladas de uma pequena vila da Região de Icicle finalmente despontaram no horizonte. Sephiroth diminuiu o ritmo ao se aproximar das construções rústicas, ajeitando Inome nos braços, e a cutucou suavemente com os dedões.

— Inome, achei um restaurante... — ele disse baixo, a voz vibrando perto do ouvido dela enquanto se aproximava de uma fachada acolhedora que exalava o cheiro reconfortante de lenha queimada e comida caseira.

Com uma das mãos, ele empurrou a pesada porta de carvalho. O contraste térmico foi imediato. O interior do estabelecimento era rústico e envolvente, com paredes inteiras feitas de toras de madeira polida e lareiras de pedra espalhadas pelos cantos, irradiando um calor que derretia o gelo das roupas de viagem. O chão de tábua corrida era forrado por um enorme e felpudo tapete de pele de um Lobo das Neves, uma caça típica daquela região congelada, dando ao local um ar de refúgio isolado do resto de Gaia.

Inome apenas murmurou algo incompreensível contra o peito dele, rendida ao sono. Com extremo cuidado, Sephiroth caminhou até uma mesa mais afastada e discreta num dos cantos do salão. Ele a acomodou na cadeira de madeira, encostando-a de forma segura, e depositou as duas pesadas mochilas de suprimentos ao lado antes de se dirigir até a bancada principal.

— Boa noite. Gostaria de uma porção generosa, suficiente para saciar duas pessoas. Truta grelhada, acompanhada de arroz e batatas assadas, se possível. E duas canecas de chocolate quente, por favor — ele pediu calmamente, a cadência da voz mantendo a polidez e a precisão de sempre, mas desprovida da rigidez militar de outrora. Seus longos cabelos prateados estavam presos e parcialmente escondidos pelo capuz grosso e pelas camadas da roupa de trilha, camuflando perfeitamente a identidade do homem que a Shinra procurava.

A mulher do outro lado do balcão, que enxugava uma caneca com um pano de prato, ergueu os olhos e o analisou brevemente. O porte físico imponente dele era intimidador, mas naquelas terras de fronteira, moradores faziam poucas perguntas para viajantes cansados, desde que tivessem como pagar.

— Pra já, senhor — ela disse, terminando de anotar o pedido em um bloco de papel antes de virar-se para a cozinha. — Tudo ficará em 1.200 Gil.

— Sem problemas. — Ele retirou o pequeno saco de couro do bolso interno do casaco e contou as moedas, depositando os Gils sobre a madeira gasta do balcão.

— Levo na mesa quando ficar pronto.

— Agradeço.

Com a transação encerrada, Sephiroth caminhou de volta para o canto escuro do restaurante e sentou-se ao lado de Inome, que dormia pesadamente, alheia ao burburinho suave dos outros poucos clientes no salão. Ele a observou em silêncio por um momento. Com um gesto lento e instintivo, estendeu a mão, passando o dedo indicador pela pele dela, sentindo o contorno do rosto macio que agora ganhava um pouco de cor graças ao calor da lareira.

— Inome... — ele chamou num sussurro grave.

Ela franziu o nariz, abrindo um pouco os olhos pesados e soltando um bocejo longo enquanto se espreguiçava minimamente na cadeira de madeira.

— Hmm... Os peixes estão prontos?

Sephiroth deu um sorriso de canto, bem discreto, quase imperceptível para qualquer um que não o conhecesse tão a fundo. Retirando a luva escura para não incomodá-la com o tecido áspero, ele levou a mão inteira ao rosto dela. O contraste da palma naturalmente quente dele contra a pele gelada de Inome a fez suspirar. Ele acariciou a bochecha dela com o dedão, os olhos felinos analisando silenciosamente cada traço de exaustão estampado em suas feições.

— Está a caminho. — Ele respondeu com a voz mansa. Então, após um breve instante de silêncio, ele ponderou, mantendo os olhos verdes fixos e investigativos sobre os dela. A mente dele juntava as peças rapidamente: o sono repentino, a fadiga nas trilhas e o episódio de náusea na encosta. — Você tem andado excessivamente cansada. Tem certeza de que não está sofrendo de alguma deficiência nutricional ou falta de vitaminas? Nossas provisões de viagem podem não estar sendo adequadas para o seu metabolismo.

Inome negou com a cabeça, os cabelos balançando levemente enquanto ela se encolhia um pouco mais na cadeira, ainda tremendo. As paredes grossas do restaurante ajudavam, mas a friagem implacável da Região de Icicle parecia penetrar até os ossos.

— Não... É só o frio mesmo — ela murmurou, esfregando as palmas e tentando buscar algum conforto. — Meus dedos estão congelando.

Sem hesitar, Sephiroth abriu o compartimento de uma das pesadas mochilas encostadas na base da mesa. De prontidão, ele puxou uma manta pequena e grossa de lã térmica. Inclinando-se levemente para a frente, ele cobriu as mãos dela com o tecido, envolvendo-as logo em seguida com as suas próprias mãos grandes para transferir seu calor.

Quando voltou a olhá-la, a postura protetora e relaxada ganhou um contorno mais tático. Ele varreu o salão rústico com a visão periférica, garantindo que os poucos moradores locais nas outras mesas estavam ocupados demais com suas próprias bebidas quentes para notar o casal recém-chegado. Ele se aproximou um pouco mais por cima da mesa, abaixando o tom de voz até virar um sussurro restrito apenas à audição dela.

— Precisamos nos alimentar e sair logo — ele avisou, a voz grave e perfeitamente controlada. — A Shinra ainda mantém bases de observação e escavação próximas ao Glaciar. Temos que ser rápidos e retomar a trilha para as cavernas... antes que alguém repare muito em nós e desconfie.

Depois de alguns minutos, a mulher se aproximou até os dois com uma bandeja de madeira pesada. Ela colocou o prato gigantesco de porcelana rústica no centro da mesa — a truta recém-grelhada ainda estalava, exalando um aroma forte de temperos caseiros, cercada por batatas assadas douradas e arroz fumegante. Em seguida, desceu as duas canecas de barro grosso com os chocolates quentes e o par de talheres limpos.

— Bom apetite. — Ela disse já se afastando, limpando as mãos no avental para atender aos outros poucos clientes que conversavam perto da lareira.

— Obrigado. — Sephiroth disse, agradecendo com um aceno contido e educado de cabeça.

— Obrigada... — Inome murmurou. Sem nem pensar duas vezes, ela abraçou a caneca com as duas mãos e bebeu o chocolate quente de prontidão. O calor desceu por sua garganta, derretendo instantaneamente o gelo que parecia cravejado em seus ossos. Ela fez um som satisfeito, fechando os olhos enquanto a tensão de seus ombros finalmente cedia. — Quentinho...

Sephiroth puxou os talheres e começou a comer parte da comida calmamente. Seus movimentos eram práticos, porém mantinham aquela elegância e precisão inatas, até mesmo ao separar as espinhas do peixe de forma metódica. Enquanto dividia a porção para facilitar para Inome, ele elaborou o próximo passo da viagem, mantendo a voz num murmúrio que não ultrapassava a mesa deles.

— Daqui, iremos ver uma carona para a costa ao sul, perto da Vila dos Ossos, para podermos ir de barco. — Ele explicou de forma estratégica, mas relaxada. — Tem uns barqueiros por lá que, com bons Gils, não falam nada e não registram passageiros. E assim chegaremos ao litoral do continente ocidental, que nos levará direto para as fronteiras de Nibelheim.

Inome o ouvia, mas a voz grave dele soava meio distante. O choque térmico do restaurante quente somado ao conforto da bebida fez o sono despencar sobre ela como uma âncora de navio. Ela pegou o garfo com certa preguiça, começando a comer um pedaço do peixe com arroz enquanto processava a rota na cabeça.

— Será que... terá trilhas na floresta? — ela pensou em voz alta, mastigando devagar, com a voz um pouco arrastada e as pálpebras pesadas. — Podemos cortar caminho por dentro da mata, também. A floresta perto do Monte Nibel é densa... assim a gente evita as estradas principais da Shinra.

— Podemos... — Sephiroth disse, pesando as variáveis em silêncio por um instante. — Mas no último jornal que vimos antes de chegarmos aqui no Vale de Icicle, a Shinra estava implantando drones de rastreamento térmico nas áreas de mata fechada. Temos que estar prontos para um engajamento imediato caso nosso perímetro seja violado. — Ele a fitou, a frieza analítica cedendo lugar a uma preocupação genuína e quase paternal. — Posso te levar nas costas também, junto com as mochilas. Dou conta do peso sozinho, se ocorrer algum imprevisto.

Inome soltou um suspiro longo. Ela odiava profundamente quando ele a diminuía ao papel de donzela indefesa. Apesar de todo o companheirismo e do inferno que já tinham sobrevivido juntos, aquele instinto superprotetor e sufocante dele ainda era um dos maiores ranços da morena.

— Seph. Querido. — Inome o fitou seriamente, com aquele olhar pesado de cansaço, a cabeça quase tombando para o lado pelo sono. — Eu vou conseguir lutar. Eu só preciso de uma boa noite de sono.

Sephiroth soltou um suspiro contido, desviando o olhar para o prato de porcelana assim que ouviu a firmeza na voz dela. Ele cortou um pedaço da truta com precisão, ajeitando a porção para ela.

— Eu só quero ter a absoluta certeza de que estará segura.

Inome fez bico, mastigando o peixe que ele cortava para ela com uma nítida raivinha adorável.

— Lembra quando eu atirei no meio da testa daquele cara que ia te matar? — ela pontuou baixinho, inclinando-se um pouco sobre a mesa para que ninguém mais ouvisse. — Quando o esquadrão de Ciência da Shinra ativou aquele Supressor de Pulso de Mako no acampamento e anulou suas células? Eles quase te encurralaram contra o desfiladeiro com aquela maldita máquina de campo eletromagnético drenando toda a sua força física até você mal conseguir erguer a espada. Fui eu quem matou o soldado de elite antes que ele puxasse o gatilho, lembra? — Ela cruzou os braços, emburrada, exalando um suspiro exasperado. — Donzelo.

Sephiroth sorriu de canto. Um sorriso genuíno e desarmado que quebrava completamente a máscara de frieza que o mundo estava acostumado a ver.

— Obrigado por me salvar, mais uma vez. — Ele estendeu a mão livre, acariciando os cabelos castanhos dela com uma ternura rara. — Estou tentando duvidar menos de você. Juro.

Na manhã seguinte, a luz fraca e amarelada típica da poluição do Setor 7 filtrava-se pelas frestas da janela, batendo diretamente no rosto de Cloud. Ele acordou de supetão, com a respiração curta e o peito arfando, puxando o ar seco como se estivesse emergindo de um afogamento. O loiro estava sozinho no quarto modesto, porém organizado, que Angeal ocupava no andar de cima.

De começo, sua mente estilhaçada não conseguiu separar o que era real do que era trauma. O zumbido persistente em seus ouvidos misturava-se ao barulho abafado que vinha do andar de baixo — o tilintar de canecas de vidro batendo, o arrastar de cadeiras no assoalho e a voz estrondosa e inconfundível de Barret ressoando pela taverna Sétimo Céu.

Um flash de memória violento o atingiu de repente, fazendo-o levar a mão à cabeça: o cheiro de ferrugem e sangue, o sorriso grotesco no rosto derretido de Hojo, e a imagem cravada a fogo em sua mente do corpo de Zack no chão. Ele ainda se lembrava de relances turvos de seu próprio calvário, de vagamente conseguir abrir os olhos pesados e enxergar a luz esverdeada e enjoativa enquanto estava preso dentro da cápsula de imersão de Mako nos subsolos sombrios da mansão.

Onde ele estava agora? O teto rústico de madeira definitivamente não era o laboratório subterrâneo, tampouco a imensidão escaldante do deserto por onde vagava. Ele olhou em volta, com os olhos brilhando num tom forte de azul devido ao envenenamento celular, completamente desorientado e perdido. O cheiro de ensopado e cerveja que subia pelas frestas do assoalho contrastava absurdamente com o horror esterilizado de suas últimas memórias.

Movido por um instinto puramente defensivo de soldado, ele jogou as cobertas pesadas para o lado e tentou sair da cama o mais rápido que conseguiu. Mas seu corpo, debilitado por quatro anos de estase, agulhas e tortura contínua, simplesmente não obedeceu ao comando da mente.

Assim que tentou firmar o peso nos calcanhares, suas pernas falharam miseravelmente. Cloud despencou em um baque surdo, trombando desajeitadamente de ombro contra um pufe de couro desgastado que estava encostado bem próximo à cama. O impacto o fez escorregar até o chão de tábua corrida, soltando um gemido abafado de dor enquanto tentava, em vão, encontrar forças nos braços trêmulos para se reerguer.


— Aerith! — Ele gritou desesperado, a voz saindo rouca e falha, arranhando a garganta seca enquanto saía cambaleando de dentro do quarto.

Cloud chocou-se contra o batente e escancarou a porta que dava para o corredor estreito do segundo andar da taverna. O ambiente rústico de madeira exibia várias portas enfileiradas. A visão turva e letárgica dele focou, por um breve instante, nas pequenas plaquinhas artesanais penduradas em cada uma: Angeal, o quarto de onde ele acabara de fugir; Barret & Marlene; e, no fim do corredor, Tifa.

O cérebro dele processou os nomes de forma arrastada, mas o instinto o empurrou para a frente. Ele desceu os degraus de madeira quase tropeçando nos próprios pés descalços, escorregando e se segurando no corrimão com as mãos trêmulas e machucadas, ainda chamando pelo nome da florista a plenos pulmões.

Era uma sensação sufocante e dolorosamente contraditória. O peito dele ardia com uma saudade esquisita, uma necessidade física e urgente de encontrá-la, de saber se ela estava a salvo. A mente fragmentada de Cloud operava em um limiar torturante: ele quase conseguia visualizar o rosto dela, o brilho dos olhos, quase podia sentir o cheiro doce e inconfundível dela... mas, no mesmo segundo, um vazio nauseante o engolia, lembrando-o de que ele não fazia a menor ideia de quem ela era de verdade.

Lá embaixo, o barulho rotineiro da manhã no Sétimo Céu cessou de forma abrupta. Perto de uma das mesas, Barret virou-se com os olhos arregalados. O grandalhão paralisou, segurando firme a pequena Marlene, que estava sentada no alto de seu ombro. A garotinha agarrou o colete do pai com força, encolhendo-se visivelmente assustada com os gritos e o estado deplorável do rapaz esguio, pálido e com o olhar perdido que praticamente desabava escada abaixo.

Encostado perto do balcão principal, Angeal apenas soltou um suspiro longo e pesado, mantendo a postura firme enquanto cruzava os braços. A expressão do veterano não carregava sobressalto, mas sim uma sombra de compaixão e tristeza resignada. Depois de todos os anos atuando como um SOLDIER de linha de frente, lidando com os danos psicológicos irreparáveis que a Shinra causava em suas próprias tropas, ele já esperava por uma reação daquelas. Ele conhecia perfeitamente os sinais de um soldado cujo corpo havia voltado do inferno, mas cuja mente havia ficado presa lá.

Angeal se aproximou com passos calmos e medidos, evitando qualquer movimento brusco que pudesse reativar o estado de alerta do rapaz. Ele estendeu a mão grande e segurou Cloud pelo antebraço com extrema gentileza, erguendo-o do chão sem o menor esforço para ajudá-lo a estabilizar as pernas bambas no assoalho de madeira.

— E aí, garoto. Tudo bem? — Ele falou calmamente, a voz grave e protetora funcionando como uma âncora no meio daquele turbilhão mental. — Você dormiu o dia inteiro, de ontem pra hoje.

Cloud ainda olhava em volta com os olhos azuis excessivamente brilhantes e arregalados, a respiração curta enquanto sua mente estilhaçada tentava processar a estrutura rústica do bar. Ver Angeal lhe trazia um conforto imenso, uma das poucas peças do passado que não parecia manchada de sangue, mas o mesmo não podia ser dito sobre a figura do outro lado do balcão. Ele encolhia-se sutilmente sempre que o olhar cruzava com Barret, genuinamente intimidado pela montanha de músculos e pela carranca pesada do homem.

Sentindo uma onda de ansiedade esmagadora ameaçando tomar conta de seus pulmões, Cloud se deixou ser guiado até uma das banquetas. Ele se sentou no balcão, os ombros completamente encolhidos, tentando diminuir o próprio tamanho no ambiente.

— Eh... tô melhor, Angeal. — Ele respondeu, e de repente, o rosto exausto se iluminou com um sorriso de canto. Era um sorriso absurdamente descontraído e deslocado para a situação, um reflexo puro e automático da personalidade de Zack tentando mascarar a dor. — Só com umas dores na costela...

A menção das "dores" era um eufemismo brando. As costelas de Cloud ainda latejavam violentamente por causa das sequelas do laboratório de Hojo e da fuga exaustiva pelo deserto, fazendo-o travar a respiração de forma quase imperceptível a cada movimento.

Barret observou a cena inteira e soltou uma risada ríspida, um som grave e abafado que misturava a desconfiança natural de quem vive sob a opressão da Shinra com uma pitada inevitável de preocupação ao ver a fragilidade do moleque. Ele pegou o bule de metal amassado e despejou o líquido escuro e fumegante até a borda.

— Toma isso aqui, vai te acordar, moleque. — Barret disse, empurrando a grandiosa caneca de café pela superfície do balcão de madeira até ela parar bem na frente de Cloud.

Cloud piscou devagar. Suas mãos subiram de forma letárgica, os dedos cheios de cicatrizes recentes e marcas de agulhas se fechando ao redor da cerâmica quente com um atraso de reação nítido. Ele não bebeu de imediato; ficou apenas segurando a caneca com frouxidão, sentindo o calor irradiar para as palmas trêmulas enquanto encarava o líquido escuro, com a mente ainda lutando bravamente para manter-se ancorada ali, no presente.

— Aerith, né? — Angeal comentou, quebrando o breve silêncio que havia se instalado no bar. O veterano inclinou levemente a cabeça, os olhos escuros estudando o garoto com uma cautela tática e protetora. Ele puxou pela memória, mas sequer tinha ouvido esse nome sair da boca de Zack durante todo o tempo em que estiveram juntos na Shinra. Ponderou em silêncio quem seria aquela garota e qual seria a importância real dela dentro daquela confusão que havia se tornado a mente dele.

Cloud levou a caneca fumegante aos lábios com as mãos trêmulas e tomou um pequeno gole do café forte. O amargor quente pareceu ajudar a ancorar um pouco de sua consciência no presente, mas ele ainda piscava de forma letárgica, processando tudo ao seu redor com uma lentidão dolorosa. O olhar vagou pela madeira do balcão antes de ele dar um sorriso fraco e mecânico.

— É... — ele murmurou, a voz saindo com uma leveza que imitava perfeitamente o tom de Zack, embora contrasta brutalmente com a exaustão de seu próprio corpo. — Uma velha amiga.

Barret bufou, soltando outro riso ríspido que ecoou alto pelas paredes de madeira do Sétimo Céu. Ele cruzou os braços imensos, a expressão desconfiada ganhando um ar de incredulidade genuína enquanto olhava o rapaz de cima a baixo.

— Velha amiga? Mais velha que a Tifa?! — o grandalhão ironizou, sabendo muito bem, pelas histórias da própria Tifa, que ela era a única amiga de infância que aquele moleque esquisito de Nibelheim tinha.

Por outro lado, todo aquele barulho e a presença perturbadora do recruta eram demais para Marlene. A garotinha se manteve escondida atrás do pai, usando o colete de couro de Barret como um escudo impenetrável. Ela espiou o estranho no balcão apenas com um dos olhos, em completo terror. E não era para menos: a aparência de Cloud era assustadora para uma criança. A pele pálida e translúcida pela falta de sol, os curativos cobrindo ferimentos severos, a magreza doentia de quem passou quatro anos preso em um tubo e, acima de tudo, aqueles olhos azuis luminescentes e vazios que não pareciam pertencer a um ser humano normal. Tremendo de leve, ela enterrou o rosto nas costas de Barret, agarrando o tecido com força e recusando-se a dar sequer um passo na direção de Cloud.

Marlene apertou o tecido do colete de Barret e murmurou para o pai, a voz miúda tremendo de puro medo:

— Papai... ele é um fantasma?

Barret suavizou a carranca instantaneamente. Ele levou a mão enorme até a cabeça da menina e acariciou os cabelos dela, soltando uma risada mais contida e paternal desta vez.

— Nah, filha. É só um moleque desnutrido. Ele vai melhorar logo, não esquenta a cabecinha.

Cloud piscou devagar e olhou para Marlene, ou pelo menos para a pequena parte do rosto dela que se arriscava a espiar por trás da montanha de músculos que era Barret. A rejeição e o pavor da criança o atingiram em cheio. Ele se encolheu ainda mais na banqueta, os ombros quase tocando as orelhas, sentindo um constrangimento sufocante por causar tanto terror com a própria aparência.

Notando o desconforto evidente do garoto e a forma como ele parecia querer sumir dentro das próprias roupas, Angeal aproximou-se um pouco mais. Ele acariciou as costas de Cloud com a mão pesada em um gesto breve, mas que servia como uma âncora firme para lembrá-lo de que estava seguro ali.

— A gente pode sair procurando ela depois... Quando você estiver conseguindo andar direito de novo e recuperar um pouco do seu peso — Angeal sugeriu com uma calma reconfortante. Então, indagou com uma curiosidade genuína, mas ainda carregada de preocupação com o estado mental fragmentado do rapaz: — Ou você sabe onde ela mora?

Cloud ergueu a caneca com as duas mãos trêmulas e tomou mais um gole do café, engolindo o amargor junto com o nó apertado que se formava em sua garganta. Sua mente vasculhou memórias que não lhe pertenciam, trazendo flashes luminosos de flores amarelas crescendo em meio a tábuas de madeira gastas.

— Ela mora nas favelas do Setor 5... nos arredores daquela velha igreja abandonada — ele respondeu, com a precisão da lembrança ecoando em sua voz.

Mas assim que terminou de dar a localização, ele voltou a fitar Angeal. Os olhos de repente se encheram de lágrimas que ele lutava bravamente para não deixar cair. O conflito interno entre a sua própria mente quebrada e os sentimentos de Zack o estava esmagando.

— Eu... não sei, Angeal. Eu só sinto uma saudade esquisita... Aerith. — ele disse de forma arrastada e desconexa, como se o simples fato de pronunciar o nome dela doesse fisicamente.

Derrotado pela exaustão e pela confusão profunda que massacrava sua identidade, Cloud apenas abaixou a cabeça, escondendo o rosto envergonhado enquanto encarava o fundo escuro da caneca de café.

Angeal puxou um prato farto com ovos mexidos bem quentes, fatias grossas de pão rústico e um pedaço generoso de carne defumada de Garula, deslizando-o com cuidado pela madeira do balcão até parar na frente de Cloud. O veterano não disse uma única palavra; apenas recuou um passo e cruzou os braços, mantendo um silêncio protetor para deixar que Cloud tivesse seu próprio espaço para respirar e tentar colocar a cabeça no lugar.

Já Barret, sem muita estribeira e com aquela sua franqueza impaciente de sempre, não compartilhou da mesma sutileza tática.

— E de onde vocês se conhecem, rapaz? — indagou o grandalhão, já se virando de costas para o balcão. Ele abriu a torneira e começou a esfregar algumas canecas de vidro na pia. Marlene, agora mais calma por não ter que olhar diretamente para Cloud, estava de pé em um banquinho de madeira ao lado do pai, ajudando a enxaguar as colheres com suas mãozinhas pequenas e se distraindo do clima tenso.

Cloud fechou os olhos. A pergunta simples de Barret foi o gatilho para um turbilhão de memórias desconexas que o atingiu como um trem desgovernado. Imagens nítidas e ensolaradas piscaram na escuridão de sua mente: a sensação de queda livre, o estrondo ensurdecedor da madeira velha cedendo, e o impacto sendo incrivelmente amortecido por um canteiro de flores amarelas. E então, ele lembrava de abrir os olhos e dar de cara com o rosto dela, iluminado por um raio de sol que entrava pelo teto quebrado da igreja. Ela estava sorrindo, perguntando se ele estava bem. Ele lembrou da sensação de caminhar com ela pelas ruas caóticas do Setor 5, das risadas trocadas, da textura de um laço rosa que ele havia comprado para ela usar no cabelo...

De repente, uma pontada imensa, aguda como uma lâmina quente, cravou-se diretamente na base do seu crânio.

Era como se a sua própria mente desse um glitch violento — um ruído de estática ensurdecedor e doentio que ecoou dentro de sua cabeça, causado pela rejeição celular de fundir uma vida que não era dele ao seu próprio passado despedaçado. Cloud gemeu alto, um som gutural e carregado de dor, curvando-se bruscamente sobre o balcão. Ele agarrou os próprios cabelos com força, os nós dos dedos ficando brancos enquanto o corpo inteiro quase se contorcia em um espasmo incontrolável.

Angeal deu um passo à frente de imediato, mas parou no meio do caminho ao ver o garoto inspirar profundamente, forçando o ar para dentro dos pulmões e lutando para subjugar a crise sozinho.

O pico de dor diminuiu lentamente, deixando Cloud ofegante e com a testa coberta por um suor frio. Ele soltou os cabelos devagar e ergueu o rosto pálido. Com os olhos fixos nas costas largas de Barret, que havia parado de lavar a louça para escutar, o rapaz contou tudo o que a mente fragmentada lhe entregava como verdade absoluta.

— Eu... caí do teto da igreja dela. — Cloud disse, a voz saindo arrastada no início, mas ganhando a convicção estranha e confiante daquelas memórias emprestadas. — Eu desabei lá do alto do Setor 5, quebrei a estrutura toda e caí bem em cima do canteiro de flores que ela cuidava. Quando eu abri os olhos... ela tava lá. Sorrindo pra mim. A gente andou pelo mercado das favelas naquele dia... eu lembro que até comprei um laço rosa pra ela. Ela tava com o laço da última vez que a vi...

Depois de dizer aquilo com uma convicção inabalável, Cloud levou a mão à cabeça de novo, apertando as têmporas com força. Era uma sensação bizarra e perturbadora. Aquelas memórias nítidas e ensolaradas não pareciam vir apenas do seu amigo, mas ecoavam de um lugar distante e inexplicável. Pertenciam a um Zack que ele sequer chegou a conhecer, como se as próprias linhas do destino tivessem sido rasgadas, derramando fragmentos de uma vida paralela diretamente em sua mente. O rapaz não tinha consciência desse embaraço, mas aquelas lembranças simplesmente existiam ali, fundido à sua identidade como verdades absolutas que não lhe pertenciam.

Angeal ficou literalmente boquiaberto. O veterano permaneceu em silêncio, processando a estranheza daquela certeza na voz do garoto. Mas o nível de detalhe daquela história e a convicção no olhar do rapaz deixavam o homem apenas confuso. Angeal franziu o cenho, forçando a memória para tentar lembrar em qual maldita missão de patrulha nos arredores do Setor 5 o garoto teria caído pelo teto de uma igreja. Na cabeça dele, Cloud estava apenas misturando fragmentos de operações antigas com os delírios severos causados pelo envenenamento de Mako. Angeal apenas suspirou pesado, preocupado com o estrago que a Shinra tinha feito na sanidade do moleque.

Barret, por outro lado, mantinha-se muito mais focado no lado prático da situação, absorvendo a história com uma boa dose de ceticismo.

— E ela era amiga da Tifa também? — Barret perguntou, a voz grave soando de forma pragmática enquanto ele terminava de esfregar um prato grosso de cerâmica. Ele o enxaguou sob a torneira e o entregou para Marlene secar com um pano quase maior que ela. O grandalhão sequer tirou os olhos da pia, apenas resmungando mais para si mesmo do que para o rapaz: — Depois eu tenho que perguntar pra Tifa, ver se elas se conhecem mesmo...

Cloud piscou. Ele se lembrava de Tifa. A guia de Nibelheim, aquela que ele deixou para trás quando partiu em busca de uma vida melhor em Midgar, na esperança de um dia se tornar um herói. O rapaz balançou a cabeça, tentando afastar a vertigem que insistia em nublar seus pensamentos.

— Ela deve conhecer, eu acho... — Cloud tentou puxar de sua mente alguma imagem dos três juntos, um registro de qualquer interação que unisse Tifa, a florista e ele mesmo, mas não havia nada. Apenas um vazio doloroso e uma confusão que o fazia sentir como se estivesse tentando segurar fumaça entre os dedos.

Angeal suspirou, o olhar pesado de preocupação pousado sobre o rapaz. Havia um zelo ali, uma necessidade de cuidar dele que quase lembrava a dinâmica de um irmão mais velho tentando amparar alguém que não sabia mais como ficar de pé sozinho.

— Vai tomar um banho, garoto. — Angeal instruiu com firmeza, mas mantendo a voz baixa e acolhedora. — Depois você tem que trocar esses curativos. Não podemos deixar que as feridas inflamem agora.

Cloud concordou com a cabeça, um movimento lento, ainda mastigando a carne de Garula com esforço. O café e a comida pareciam estar começando a aquecer o corpo dele, mas o olhar permanecia vidrado, focado em um ponto invisível no horizonte da própria mente.

— Tenho que... tenho que... melhorar... — ele murmurou, a voz falhando enquanto o garfo tremia na sua mão. Ele forçou um pouco mais de comida para dentro, quase por obrigação, como se a sobrevivência física fosse apenas um degrau necessário para um objetivo maior que martelava sua consciência. — Eu preciso ver a Aerith...

A determinação na frase soou estranhamente deslocada, como se aquela urgência fosse a única coisa que ainda impedia o restante de sua mente de colapsar por completo.

Angeal, percebendo que aquela obsessão era, por ora, o único motivo que mantinha Cloud ancorado à realidade — o único ponto de sanidade que impedia o rapaz de se perder de vez naqueles delírios — apenas suspirou. Ele decidiu "jogar o jogo", escolhendo o caminho da paciência em vez da confrontação direta que só assustaria o garoto.

— Isso, Cloud. É exatamente esse o foco — Angeal afirmou, mantendo o tom firme e encorajador. — Quanto mais rápido você se recuperar e estiver em condições de falar com ela, melhor para todos.

Por outro lado, a reação de Barret foi imediata. O grandalhão parou de lavar a louça e virou a cabeça bruscamente na direção de Angeal, com os olhos estreitados e uma expressão que gritava claramente: Ficou doido também, porra?!

Angeal apenas deu de ombros, mantendo o semblante sereno, e lançou um olhar discreto para o amigo, pedindo silêncio e um pouco de bom senso. Ele não precisava explicar que, para Cloud, a alternativa àquela "missão" era a desintegração mental completa.

Na manhã seguinte, a névoa densa da Região de Icicle ainda persistia quando Sephiroth e Inome garantiram o transporte em um caminhão de carga adaptado. O motorista era um senhor de pele curtida pelo frio, chamado Elias, que aceitou o monte de Gils extras, entendendo perfeitamente que o acordo incluía silêncio absoluto sobre a presença dos dois passageiros.

O caminho todo foi silencioso. Inome não acordou nem com os solavancos brutais do veículo sobre a estrada de terra congelada, um sono profundo que fazia Sephiroth, sentado ao lado dela, sentir um aperto constante no peito. Ele a mantinha firme contra si, preocupado com a letargia da companheira.

O silêncio, porém, foi quebrado por um zumbido metálico acima deles. Um drone de reconhecimento da Shinra, em missão de averiguação da área, pairou subitamente sobre o caminhão. Sephiroth agiu no reflexo: puxou o cachecol grosso até a ponte do nariz e cobriu a cabeça de Inome com um cobertor, tentando ocultar os traços dela. Mas não foi o suficiente. Seus olhos encontraram a lente da câmera do drone. O aparelho disparou um alarme estrondoso, tingindo a cabine de um vermelho de alerta.

— Eu sabiaaa! Eu sabiaaa que ia dar merda! — Elias resmungou, socando o acelerador e fazendo o motor velho rugir em protesto.

— Você não terá um arranhão — Sephiroth garantiu, a voz perfeitamente calma. Ele ajustou o rabo de cavalo, prendendo-o com um movimento rápido e firme. Sua mão esquerda deslizou até a Masamune, oculta sob as camadas de suas vestes de viagem.

Dois veículos militares da Shinra surgiram na curva à frente, fechando o caminho e abrindo fogo imediatamente.

— Acelera! — Sephiroth ordenou, saltando para fora do caminhão ainda em movimento. O vento cortante da montanha atingiu seu rosto, fazendo as camadas sobrepostas de seu casaco térmico pesado balançarem levemente enquanto ele aterrissou com a elegância de um predador, os pés cravando-se com firmeza na neve compactada.

Ele sacou a Masamune em um arco prateado que brilhou. Com a precisão de um cirurgião, ele interceptou a chuva de balas: o metal da lâmina cantava enquanto cortava os projéteis ao meio ou os ricocheteava de volta para as rodas dos jipes, explodindo os pneus.

Do carro principal, um Gorila-de-Combate Bio-Modificado foi solto. O monstro, uma besta de pelagem escura e placas de metal fundidas diretamente na pele pelas experiências da Shinra, saltou sobre Sephiroth com um rugido que fez a terra tremer.

O monstro avançou com um rugido gutural, as placas de metal em seu peito rangeando a cada passo. Ele era rápido demais para seu tamanho, e o solo coberto de neve gelada tornava a tração um desafio constante. Sephiroth sentiu o impacto do primeiro golpe da criatura rasgar o ar a milímetros de seu ombro; o deslocamento de ar foi violento o suficiente para fazer sua jaqueta térmica de neve estalar.

A besta não deu trégua, investindo novamente com braços musculosos que agiam como pistões. Sephiroth girou o corpo, usando o peso do próprio inimigo contra ele mesmo. O gorila tentou agarrá-lo, o abraço esmagador prometendo triturar ossos, mas Sephiroth baixou o centro de gravidade em um reflexo instantâneo. Ele deslizou por baixo do alcance do monstro, a bota afundando um palmo na neve. No momento em que as mãos da besta fecharam o vazio onde ele estivera, Sephiroth desferiu um golpe preciso com a adaga oculta, cravando-a profundamente na articulação do ombro blindado do gorila.

O sangue escuro jorrou, fumegando no ar gélido, e a criatura soltou um grito de dor ensurdecedor. Antes que ela pudesse se recuperar do choque, Sephiroth já havia girado sobre o próprio eixo, o movimento servindo como alavanca. A Masamune descreveu um semicírculo prateado, o aço da lâmina cortando o ar com um chiado sibilante. O golpe foi cirúrgico: a lâmina encontrou a junção das placas metálicas na base do pescoço da besta, atravessando carne, músculo e metal com a mesma facilidade. O gorila tombou de joelhos, a inércia do golpe derrubando o peso colossal do animal de cara na neve. Sephiroth, com a respiração mantida sob controle absoluto, sacou a espada com um movimento seco e girou nos calcanhares, já voltando sua atenção para os soldados que ainda restavam nos jipes.

Os soldados restantes, acuados e frenéticos ao verem o monstro tombar, concentraram todo o poder de fogo dos jipes em Sephiroth. O ar ao redor dele tornou-se uma sinfonia metálica de balas zunindo e perfurando a neve, levantando cortinas de gelo pulverizado. Sephiroth, no entanto, não se tornou um alvo; ele se tornou uma sombra imprevisível em meio à tempestade de projéteis.

Com o corpo inclinado, ele avançou contra o fogo inimigo, usando as irregularidades do terreno e os restos da carcaça do gorila como cobertura temporária. Quando um dos soldados tentou ajustar a metralhadora montada no veículo, Sephiroth desferiu um corte horizontal de longo alcance, a ponta da Masamune cortando o cano da arma antes mesmo que o homem pudesse disparar. Sem hesitar, ele fechou a distância em um piscar de olhos, desarmando os ocupantes com golpes secos no punho e no peito que os jogaram para fora dos veículos, antes que a lâmina prateada finalizasse o combate com precisão letal. Em segundos, o silêncio voltou a dominar a estrada, quebrado apenas pelo som do motor do caminhão de Elias.

O velho motorista, que havia reduzido a velocidade para um ritmo de tartaruga a poucos metros de distância, mantinha as mãos trêmulas sobre o volante, os olhos arregalados observando pelo retrovisor o desfecho sangrento na neve. Assim que Sephiroth limpou o sangue da lâmina em um movimento fluido e a embainhou, o caminhão passou devagar por ele, rangendo as marchas.

Sephiroth não perdeu sequer um segundo. Ele caminhou com passos firmes até a lateral do veículo, agarrou a carroceria e saltou para dentro com uma facilidade que parecia ignorar completamente o esforço da batalha. Ao fechar a porta da cabine atrás de si, o frio cortante do lado de fora foi substituído pelo calor abafado e o cheiro de combustível do caminhão. Ele se sentou imediatamente ao lado de Inome, verificando se o cobertor não havia saído do lugar. A morena sequer se mexeu, o sono profundo parecendo alheio a todo o caos que acabara de ser resolvido em poucos minutos.

Elias manteve o olhar fixo na estrada, as mãos calejadas apertando o volante com força excessiva. Ele lançou um olhar enviesado pelo retrovisor para Inome, que ainda dormia, e soltou um suspiro de desdém, carregado de um desprezo seco.

— Então é você o tal Sephiroth que a Shinra quer riscar do mapa... — Ele resmungou, num tom de quem achava toda aquela confusão um desperdício de tempo. — E essa mulherzinha aí, só fica a tiracolo? Deve ser um peso morto ter que arrastar alguém nessas condições, não é?

A mandíbula de Sephiroth travou instantaneamente. Aquele tom de escárnio, tratando Inome como um acessório descartável e fraqueza, atingiu em cheio o orgulho dele. O ar dentro da cabine ficou subitamente pesado, denso com uma intenção assassina que Sephiroth continha apenas pelo contrato que haviam firmado.

— Somos nós dois que somos procurados, senhor Elias. — A voz de Sephiroth veio baixa, gélida e cortante como o aço da sua espada. Ele virou o rosto na direção do motorista, com um olhar que prometia que, se a palavra "peso" ou qualquer outra ofensa fosse dirigida a ela novamente, o velho não chegaria a lugar nenhum.

O motorista sentiu o sangue gelar. Ele engoliu em seco, percebendo o erro fatal na escolha das palavras e a reação instintiva do rapaz. Procurando desesperadamente por um desvio para a tensão, ele pigarreou, os olhos saltando de medo e as mãos tremendo um pouco mais no volante.

— Eu, ah... não leve a mal, rapaz. É só... — Ele tentou rir, um som rouco e nervoso. — É que eu andei ouvindo por ai... hehe. Dizem que a Shinra não quer só você, eles estão obcecados em fabricar cópias suas, clones. Mas a conversa por lá é que a maioria não aguenta, vira só uma aberração de carne, um bicho que nem pensa... não sei por que perdem tempo com isso. — Ele deu uma risada sibilante e trêmula, olhando de relance para Sephiroth, com medo de ter dito demais. — Fica de olho. Tem coisa muito pior que drones patrulhando essa região agora.

Sephiroth ignorou completamente o alerta sobre os clones, como se a existência de cópias deformadas de si mesmo fosse um assunto irrelevante para o momento. Com um movimento preciso e cuidadoso, ele puxou Inome de onde estava encostada no banco, ajeitando-a em seu colo. Ele a segurou com firmeza, protegendo-a do balanço do caminhão.

Ele lançou um olhar gélido para Elias, ignorando o tremor das mãos do velho.

— Tem alguma farmácia aqui perto, antes de chegarmos no posto de controle? Ou alguma curandeira que saiba o que faz? Preciso de suplementos, vitaminas.

Elias engoliu a seco, o pomo de adão do velho subindo e descendo com dificuldade. O clima na cabine era de uma tensão que ele jamais imaginou passar. Ele soltou uma risada nervosa, aguda, tentando recuperar o controle da voz.

— Tem, uh... tem um entreposto de suprimentos em North Corel, um pouco mais adiante na rota de fuga. Eles vendem o que precisam, mas cobram o olho da cara de qualquer um que pareça um desertor — Ele pigarreou, os olhos voltando rapidamente para a estrada. — Mas, se quer discrição e algo mais forte, posso te indicar um contato que vive nos arredores do acampamento de refugiados, perto do desfiladeiro. É gente que trafica medicamentos de fora por uma merreca de gil, sem fazer pergunta. É muito mais seguro para alguém como vocês do que tentar a sorte nas lojas principais.

Sephiroth apenas concordou com a cabeça, um movimento curto que selou o trato com o motorista. Enquanto o caminhão vencia a última subida antes da descida para o desfiladeiro, Inome começou a se mexer, soltando um suspiro longo antes de abrir os olhos. O semblante, que antes era de uma palidez preocupante, parecia finalmente ter recuperado um pouco de cor após o repouso.

— Já... chegamos...? — ela murmurou, a voz ainda rouca pelo sono, os olhos focados vagamente no painel sujo do veículo.

Sephiroth, que a segurava com uma proteção possessiva, suavizou a expressão. O rigor gélido que ele direcionava a Elias desapareceu completamente, substituído por um sorriso sutil e genuíno, algo que o motorista jamais esperaria ver na face do homem que acabara de retalhar uma criatura da Shinra a sangue frio.

— Estamos quase lá — ele respondeu, com uma doçura rara em seu tom, ajeitando uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela com a ponta dos dedos.

No instante em que ouviu a voz de Inome, Elias calou-se de vez. Ele manteve os olhos fixos na estrada, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. O velho não ousou respirar mais alto, com medo de que qualquer comentário — ou até mesmo um suspiro mais longo — fosse interpretado como uma ofensa à mulher. O silêncio na cabine tornou-se absoluto, interrompido apenas pelo ronco constante do motor e o barulho do vento batendo na lataria.

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