Três meses se passaram num piscar de olhos, e a rotina de Inome na Shinra ganhou um ritmo próprio. Ela finalmente tinha parado de se perder nos corredores imensos da oficina; agora, já dava conta da manutenção básica dos rifles da infantaria, organizava o estoque de peças do setor e conseguia entender os relatórios técnicos sem precisar pedir ajuda a cada cinco minutos. Ainda estava longe de ser uma especialista, mas o trabalho pesado do dia a dia já não assustava tanto.
A convivência diária no prédio também trouxe uma proximidade natural com os meninos. Zack virou aquela presença barulhenta e inevitável, sempre a arrastando para os refeitórios ou inventando que alguma peça de equipamento tinha quebrado só para passar na bancada dela e bater papo. Já com Cloud, as coisas se desenvolviam num ritmo bem mais calmo. Às vezes, os dois se encontravam em algum canto sossegado do edifício após o expediente para descansar e conversar. O garoto, que costumava ser extremamente fechado com quase todo mundo, acabou encontrando nela alguém com quem desabafar; ele falava sobre a saudade da mãe lá em Nibelheim e explicava o real motivo de ter saído de sua cidade natal para se alistar na Shinra: o desejo genuíno de se tornar forte como o General Sephiroth e conseguir uma vaga no SOLDIER. Eram conversas sinceras que criaram um companheirismo leve entre os dois.
Até com Sephiroth as coisas começaram a caminhar, mesmo que a distância continuasse bem marcada. Os encontros deixaram de ser aquele pânico absoluto e viraram conversas profissionais reais sobre o desgaste de materiais em combate e a eficiência de novas blindagens. Ele ouvia as observações dela com uma atenção séria, enquanto Inome se policiava ao máximo para manter uma postura firme e estritamente respeitosa, controlando cada palavra para não dar na cara o quanto aquela proximidade ainda fazia seu estômago dar voltas.
Mas naquele dia em específico, eles estavam de folga. Os três tinham pegado a estrada rumo à praia para tomar sorvete e esquecer um pouco o trabalho.
Inome e Cloud dividiam a sombra de um quiosque de madeira, curtindo a brisa fresca do mar. O loiro olhava para a linha do horizonte bem mais relaxado do que o normal, aproveitando o sorvete sem pressa, num silêncio que era puramente confortável para os dois.
Enquanto isso, Zack parecia ignorar completamente a ideia de descansar. Ele corria pela beira da água, apostava corrida com as ondas, mergulhava de cabeça e voltava rindo sozinho, sacudindo o cabelo molhado para todos os lados com a energia incansável de um legítimo golden retriever.
A paz não durou muito. No meio daquela correria toda na beira da água, o PHS de Zack começou a tocar alto, cortando o barulho das ondas. Ele parou, puxando o aparelho do bolso com curiosidade.
Do outro lado da linha, a voz do General soou calmamente, direta como sempre:
– Retornem imediatamente ao Edifício Shinra. Descobrimos uma caverna nas montanhas periféricas, com uma leitura alta de energia Mako. Vamos investigar o perímetro, coletar amostras e mapear o local. Estejam prontos.
Zack ouvia tudo com atenção, assumindo uma postura um pouco mais focada por um segundo antes de desligar. Ele guardou o PHS e correu de volta até o quiosque, com o sorriso animado já voltando ao rosto.
– Vambora, galera! Hora de se mexer! – falou, transbordando energia e parando na frente deles.
Cloud e Inome se entreolharam, confusos com a mudança repentina de planos. Cloud parou com a colher de sorvete no meio do caminho e indagou, franzindo o cenho:
– Não é nossa folga?
– Acabou de acabar! – Zack deu dois tapinhas descontraídos no ombro do loiro, rindo da cara dele. – O General achou uma caverna.
Inome olhou curiosa, ajeitando a postura com um sorrisinho de canto.
– Caverna do quê?
– Mako! – Ergueu o indicador, totalmente empolgado. – Vamos, vamos!
Sem dar tempo para os dois protestarem, ele puxou Inome e Cloud pelos pulsos de uma vez só, arrastando-os para longe daquela calmaria da areia de Costa del Sol. Eles cruzaram a avenida à beira-mar em direção ao carro que Zack tinha alugado para a viagem, com o moreno já tateando os bolsos atrás da chave e tagarelando sobre o início da nova missão.
Já de volta ao Edifício Shinra e devidamente uniformizados, os três aguardavam a chegada de Sephiroth e Angeal diretamente na plataforma de embarque do heliponto, no topo do prédio. O vento forte lá de cima cortava o metal da estrutura, mas Zack não parecia se importar nem um pouco. Incapaz de ficar parado por dois segundos por causa da ansiedade da missão, ele já estava fazendo sua clássica série de agachamentos rápidos, subindo e descendo com as mãos na cintura para queimar energia antes do embarque. Cloud apenas observava o amigo de braços cruzados, escorado perto de umas caixas de suprimentos, totalmente acostumado com aquela agitação.
Enquanto isso, Inome aproveitava o tempo de espera para revisar os dados do relatório inicial no terminal portátil. Nos últimos três meses, ela tinha participado de algumas missões menores de suporte e patrulha, mas aquela sensação incômoda de ter congelado no Forte Tamblin ainda voltava à sua mente de vez em quando.
Ela passava os olhos pelas linhas que detalhavam o perímetro da caverna e os níveis de radiação Mako com uma atenção redobrada, determinada a se sair muito melhor dessa vez. Inome não queria ser um peso morto e nem dar espaço para erros; sua meta para aquela investigação era ser mais ágil, garantir que as ferramentas estivessem prontas antes de qualquer imprevisto e provar para si mesma que a hesitação dos primeiros meses tinha ficado para trás.
O som das hélices da aeronave já preenchia a plataforma quando Sephiroth e Angeal finalmente surgiram no heliponto. Angeal cumprimentou o trio com um aceno firme de cabeça antes de passar direto e entrar na cabine para os preparativos finais.
Sephiroth parou logo à frente dos três, com os braços recolhidos atrás das costas. Seu olhar correu brevemente por Zack, Cloud e Inome antes de falar:
– Mantenham a atenção redobrada. Esta região jamais foi mapeada pela Shinra, o que significa que operaremos em território completamente cego. Estejam preparados para confrontar ameaças ou criaturas sem precedentes em nossos registros táticos.
Em uníssono, os três bateram a continência regulamentar da Shinra.
– Certo, General.
Eles subiram a rampa do helicóptero de transporte militar, acomodando-se nos assentos de ferro da cabine barulhenta enquanto as portas se trancavam. A aeronave decolou, deixando a silhueta de Midgar para trás e seguindo em direção a uma cadeia de montanhas isolada e cinzenta na periferia do continente.
O pouso aconteceu em uma clareira íngreme. Dali, o grupo seguiu a pé até a entrada da caverna: uma bocarra de rocha escura cravada na encosta da montanha, de onde saía um vapor sutil e esverdeado, o primeiro sinal claro da alta concentração de Mako puro ali dentro.
Assim que cruzaram o limiar da luz do dia, o grupo se posicionou. Sephiroth e Angeal seguiam à frente com passos medidos, enquanto Zack e Cloud vinham logo atrás, de armas empunhadas e olhos atentos às sombras que a iluminação das lanternas táticas criava nas paredes.
Inome fechava a formação. Dessa vez, ela estava bem mais preparada: usava um coldre utilitário na cintura que distribuía melhor o peso de seus equipamentos, incluindo um extrator pneumático de cápsulas, uma ferramenta específica para perfurar superfícies duras e coletar amostras puras do solo e das paredes de rocha sem contaminação. Segurando sua pistola com firmeza, ela olhou em volta, esperando o comando para começar a trabalhar.
Zack ativou um rastreador de frequência geológica, que começou a emitir bipes baixos enquanto mapeava a topografia dos túneis através de ondas de radar, projetando os caminhos no terminal tático. À medida que o grupo se aprofundava pelas galerias úmidas, a fauna local começou a reagir à invasão. Pequenos bandos de Hedgehog Pies e alguns Gellighs saltaram das fendas superiores, rosnando e tentando avançar. No entanto, o combate não durou quase nada; os monstros eram fracos e desorganizados. Com movimentos rápidos e precisos, Zack e Cloud limparam o caminho sem que os generais sequer precisassem sacar suas espadas, mantendo a retaguarda de Inome totalmente protegida.
Após passarem por mais um corredor estreito, o túnel finalmente se abriu em uma câmara subterrânea imensa. O bipe do rastreador de Zack ficou contínuo, indicando que haviam chegado ao ponto central. No entanto, bem no meio do caminho, bloqueando o acesso à galeria seguinte, repousava uma enorme estrutura esférica. Ela era pesada, perfeitamente simétrica e feita de um material cristalino escuro e opaco, que parecia absorver a luz das lanternas ao invés de refleti-la, destoando completamente de toda a rocha natural ao redor.
Sephiroth tomou a frente ao parar diante da estrutura esférica. Em um movimento tão rápido que os olhos mal conseguiram acompanhar, a longa lâmina da Masamune cortou o ar em três arcos prateados e precisos. Ele guardou a espada sem sequer esperar para ver o resultado do golpe. Pouco depois, linhas perfeitas cruzaram a superfície do material cristalino e a esfera se rachou inteira, desmoronando em pedaços pesados no chão.
Lá dentro, uma densa névoa de energia Mako puríssima e concentrada se espalhou pelo ambiente, iluminando toda a câmara subterrânea com um brilho esverdeado e intenso.
Zack e Cloud olharam em volta com admiração e surpresa, impressionados com a quantidade de energia viva ali dentro, enquanto o moreno rapidamente voltava a mexer no rastreador de frequência geológica para registrar o ponto exato no mapeamento. Angeal, mantendo a cautela, deu alguns passos para trás e ficou de guarda na entrada da galeria, os olhos atentos a qualquer sinal de emboscada ou criatura atraída pelo pico de energia.
Inome permaneceu focada no trabalho. Ela se ajoelhou perto da borda de onde a esfera havia se partido, posicionando o extrator pneumático para recolher as amostras do solo enriquecido daquela área.
Bem no centro da estrutura revelada, Sephiroth se deparou com algo completamente incomum para aquela caverna: uma Materia colossal e perfeitamente lapidada pela própria natureza, brilhando num tom roxo profundo e pulsando uma vibração pesada, quase gravitacional. Com um sorriso de canto egocêntrico, ciente do poder raro que tinha em mãos, ele estendeu a mão enluvada e pegou o cristal.
Assim que os dedos enluvados de Sephiroth se fecharam ao redor da Materia roxa, a estrutura da caverna respondeu de imediato. Um estalo violento ecoou pelo teto de rocha frágil acima deles, que cedeu sob o peso de uma fera imensa.
O monstro despencou no meio dos destroços, levantando uma cortina de poeira. Era um Behemoth Primal, uma criatura quadrúpede colossal, de pelagem escura e chifres longos que canalizavam a energia do ambiente. O impacto pesado de sua queda abriu rachaduras no chão e gerou uma onda de choque que jogou Sephiroth e Zack para trás, arremessados contra a parede de pedra da caverna.
Cloud reagiu rápido por puro instinto. Correndo lateralmente para pegar ângulo, ele ergueu o rifle e disparou uma rajada contínua. Os projéteis perfuraram a pele grossa do monstro, arrancando urros de dor e fúria da criatura enquanto o sangue escuro começava a manchar sua pelagem. Inome firmou os pés no chão e ergueu sua pistola, disparando com precisão nos pontos vulneráveis das articulações para tentar atrasar os movimentos da fera. Aproveitando a distração e os urros do bicho, Angeal avançou num ataque surpresa pelos flancos, cravando sua espada pesada profundamente nas costas do Behemoth. O monstro soltou um rugido ensurdecedor e girou o corpo com brutalidade, desferindo um golpe de cauda que atingiu o escudo de Angeal, arrastando o SOLDIER alguns metros para trás, embora visivelmente ferido pelo corte.
No canto da câmara, Sephiroth se recuperava do impacto. Ele deslizou a Materia rapidamente para dentro do bolso interno de seu sobretudo de couro para protegê-la. Ao se colocar de pé, levou a mão à costela por um segundo, sentindo uma pontada aguda e incômoda do baque contra a rocha, mas logo se recompôs e empunhou a Masamune com firmeza.
Perto dali, Zack levantava balançando a cabeça para espantar a tontura da queda. Ele limpou a poeira do rosto com o antebraço e segurou o cabo de sua espada com as duas mãos, alinhando-se ao General.
O Behemoth fincou as garras nas fendas do chão rochoso, soltando uma lufada de ar quente que fez a poeira subir. Mesmo sangrando pelos cortes profundos nas costas e nas articulações, a criatura apenas baixou o corpo e raspou as patas na pedra, travando os olhos no grupo antes de avançar.
Zack avançou primeiro, impulsionando-se para a frente com um corte diagonal ascendente. A lâmina de sua espada colidiu contra a pata dianteira do Behemoth, soltando faíscas antes de rasgar a carne. A fera urrou e rebateu o ataque imediatamente, arremessando-o de lado com um movimento brusco de cabeça. Zack rolou pelo chão, amortecendo a queda com o ombro, e já se ergueu usando uma Materia de fogo; uma esfera de Fira disparou de sua mão livre, explodindo diretamente no focinho do bicho e deixando-o momentaneamente cego pela fumaça.
Aproveitando a brecha, Sephiroth se moveu. Mesmo com a dor nítida na costela forçando uma respiração mais curta, seus passos continuavam rápidos. A Masamune reluziu sob a luz verde do Mako, desferindo uma sequência rápida de três estocadas profundas no peito do monstro. O sangue escuro espirrou na rocha, mas o Behemoth, enfurecido pela dor, bateu as duas patas dianteiras no chão com força total. O impacto gerou um tremor que rachou o solo da caverna, desestabilizando Sephiroth e forçando Angeal a saltar para trás para não ser engolido pela fenda que se abria.
Na retaguarda, a situação cobrava rapidez. Cloud descarregou o último cartucho de seu rifle contra o olho esquerdo da fera, forçando-a a virar a cabeça e errar um bote que ia direto em Zack.
– Recarregando! – gritou Cloud, recuando para trás de uma pilastra de pedra.
Inome deu cobertura imediata. Ela deu dois passos à frente, firmou o braço e disparou três vezes seguidas contra a base do chifre direito do Behemoth, onde a energia mágica da criatura começava a se acumular em faíscas roxas. Os impactos das balas interromperam a conjuração do monstro, espalhando estilhaços de osso pelo ar.
– Angeal, agora! – Inome avisou, percebendo que a fera tinha abaixado a guarda após o tiro.
Angeal correu em linha reta, usando a Materia Barrier para criar um escudo translúcido que barrou as garras do Behemoth por um segundo. Com o impacto, a barreira se desfez em pedaços luminosos, mas deu o tempo necessário para ele desferir um golpe pesado de duas mãos bem na junção do pescoço do animal. A espada pesada afundou na carne, travando entre os ossos da criatura.
O Behemoth Primal soltou um rugido estridente, uma mistura de agonia e fúria. Num surto de força bruta, ele girou o próprio corpo inteiro, jogando Angeal longe junto com sua arma. O impacto arremessou o moreno contra os destroços da esfera cristalina.
Em seguida, os chifres do monstro brilharam novamente. Sem a interrupção de antes, uma descarga de relâmpagos avermelhados chicoteou por toda a câmara subterrânea. Zack saltou para a frente de Inome, fincando a espada no chão para tentar canalizar parte do choque, mas a eletricidade jogou os dois contra a parede oposta. O ar cheirava a ozônio e queimado.
O Behemoth arfava, sangrando por mais de uma dezena de ferimentos graves, mas ainda mantinha o corpo arqueado, pronto para esmagar quem estivesse mais perto.
Sephiroth tomou a dianteira para puxar a atenção da fera antes que ela avançasse de vez. Ao impulsionar o corpo para a frente, ele travou o maxilar por um breve segundo; a dor o incomodava, por mais que ele tentasse ignorar, limitando seu poder de impacto. Sabendo que não dava para bloquear os golpes do bicho direto na força, ele apostou na agilidade e no estilo. Quando o monstro desferiu uma patada pesada, ele saltou alto, flutuando por cima das garras num movimento limpo e preciso. No ar, a Masamune desceu num lampejo prateado, abrindo dois rasgos profundos no focinho do bicho.
Enfurecido, o Behemoth tentava morder e golpear o General de qualquer jeito, mas ele já havia pousado leve e continuava girando ao redor da fera, usando aqueles saltos altos para frustrar os ataques do monstro e aplicando cortes rápidos de suporte apenas para manter a atenção da criatura totalmente presa nele.
Essa distração deu o tempo que a retaguarda precisava. Angeal se ergueu em meio aos destroços, recuperando o cabo de sua espada pesada. Ao mesmo tempo, Cloud contornou a pilastra lateral com o rifle totalmente recarregado, encontrando o ângulo perfeito.
Com o monstro ocupado tentando acertar Sephiroth, os dois atacaram juntos. Angeal avançou com tudo e saltou, desferindo um golpe esmagador bem na base da nuca do Behemoth. O impacto brutal fez a criatura erguer a cabeça num urro desesperado de agonia, expondo totalmente a parte inferior. Logo abaixo, Cloud firmou o corpo e descarregou uma rajada contínua direto na garganta aberta do monstro.
As pernas colossais do Behemoth fraquejaram imediatamente. O corpo imenso tombou de lado com um baque seco, estatelado no chão da caverna, deixando apenas o silêncio e o cheiro de sangue e pólvora no ar.
Inome, ainda um pouco atordoada pelo impacto do choque elétrico, firmou os passos e caminhou até a carcaça massiva do monstro. Ignorando o cansaço, ela abriu o coldre utilitário e começou a trabalhar: coletou amostras do sangue escuro que escorria das feridas, recolheu mechas da pelagem grossa e usou uma das ferramentas para extrair fragmentos do chifre fraturado, guardando tudo meticulosamente nos compartimentos selados.
Ao redor dela, o silêncio da caverna era quebrado apenas pela respiração pesada do grupo. Todos estavam visivelmente ofegantes e exaustos após o combate. Sephiroth, embora sentisse o incômodo constante na costela, manteve a postura impecável e ereta, sem transparecer o desgaste. Ele caminhou até Angeal e Zack, estendendo a mão enluvada para ajudar ambos a se levantarem do chão rochoso.
Assim que todos estavam de pé, o General guardou a Masamune e deu a ordem final, direto e sem hesitação:
– A ameaça foi neutralizada. Notifiquem o Departamento de Energia para que enviem a equipe de extração técnica para isolar a Mako. Nosso trabalho aqui está concluído; retornaremos ao edifício imediatamente.
Angeal ativou o comunicador tático, entrando em contato direto com a Divisão de Logística e Transporte da Shinra para repassar as coordenadas e solicitar o destacamento da equipe de extração. Com o chamado feito, o grupo iniciou o lento trajeto de volta em direção à saída da caverna.
O progresso pelos túneis era arrastado. Cloud passou o braço de Zack sobre os ombros, servindo de apoio firme para o amigo que ainda pisava em falso e tentava sacudir a tontura da cabeça. Logo atrás, Inome amparava Angeal. Embora ela mesma sentisse os próprios músculos protestarem pelo resquício da descarga elétrica do Behemoth, firmava o corpo como podia para ajudar o guerreiro a passar pelos trechos de rocha irregular.
À frente de todos, Sephiroth caminhava em silêncio, visivelmente perdido em seus pensamentos. Ele mantinha o ritmo dos passos perfeitamente controlado, focado em não deixar transparecer absolutamente nada do dano físico ou do que quer que estivesse processando mentalmente.
A única a notar foi Inome. Dividindo sua atenção entre o peso de Angeal e o General, ela mantinha os olhos atentos à expressão de Sephiroth, captando a tensão sutil em suas feições, o compasso mais curto de sua respiração ou o menor sinal de desconforto que ele tentava camuflar sob a habitual frieza.
Quando chegaram ao edifício Shinra, os rapazes, incluindo Angeal, foram direto para a enfermaria para tratar os cortes e queimaduras da luta. Inome também tinha ido receber atendimento, mas, assim que os médicos se afastaram por um instante, ela se aproximou das macas.
Olhando para o mais velho, ela perguntou em voz baixa: – Angeal, o Sephiroth está bem? Ele ficou quieto desde que chegamos.
Angeal deu um sorriso calmo e paciente, mantendo o tom protetor de sempre. Ele apenas ajeitou a postura na maca e respondeu: – Ele vai ficar bem, ele é mais forte do que você imagina.
Inome não comprou aquela conversa e engoliu em seco, sentindo que havia algo errado. Em total contraste com a preocupação dela, logo ao lado, Cloud e Zack, completamente enfaixados, assistiam ao Noticiário da Shinra na TV da parede, comentando sobre as propagandas da empresa enquanto ganhavam tempo fora do treino.
Assim que houve uma brecha com a saída dos enfermeiros, Inome saiu de fininho da enfermaria. Andando meio mancando pelos corredores longos do edifício, ela seguiu direto até a sala do General. Sem hesitar, ela nem sequer bateu na porta; apenas abriu de uma vez.
Lá dentro, ela encontrou Sephiroth encolhido na cadeira de sua mesa, com o corpo ligeiramente curvado para o lado e expressando uma dor nítida que ele jamais mostraria em público.
Inome arregalou os olhos e foi até ele. Ao notar a entrada repentina, Sephiroth tentou recuperar a postura imediatamente e a encarou com seriedade.
– Quem permitiu que você entrasse? – disse sério, cerrando os dentes de dor.
– Ninguém! Eu vim porque eu quis. – ela contestou, se aproximando ainda mais da mesa. – Você não está bem, Sephiroth. Deixe-me ver.
– Você também não está bem, Inome. – ele continuou com o tom defensivo, tentando afastá-la com o olhar. – Exijo que saia da minha sala e vá embora.
– Sephiroth! – ela bateu o pé bom no chão. – Eu estou preocupada com você! Ninguém precisa saber disso! Deixa eu ver!
A voz dela ecoou pela cabeça do General. Preocupada?
Aquela insistência teimosa e o tom de cobrança genuíno trouxeram um eco do passado. A última vez que ele teve pessoas agindo dessa forma com ele, importando-se de verdade com o seu bem-estar em vez de tratá-lo apenas como um herói intocável ou uma arma da Shinra, foi na sua juventude, na época de Glenn, Matt e Lucia.
Sephiroth ficou imóvel por um momento. Ele ameaçou dizer algo, mas desistiu, deixando as palavras morrerem no ar. O General a encarou com seriedade, mas a postura defensiva cedeu diante da insistência dela.
– Apenas seja breve. Faça o que for necessário e saia – disse ele, afastando o longo sobretudo de couro e abrindo a parte superior do uniforme, deixando a área da costela exposta. A pele estava marcada por um tom roxo escuro e pesado, cortada por uma ferida aberta que ainda sangrava sutilmente.
O estômago de Inome revirou ao ver a gravidade do estrago. Sem perder tempo, ela abriu a bolsa com os suprimentos que havia pegou escondido na enfermaria: antisséptico, gazes e faixas limpas. Por último, puxou um frasco de Potion padrão. Ela derramou o líquido brilhante sobre o corte; a propriedade do medicamento agiu na hora, amenizando a cor viva do hematoma e estancando o sangue, embora a fratura por baixo continuasse ali, apenas estabilizada e anestesiada.
Enquanto limpava o ferimento e começava a passar as faixas com cuidado, Inome subiu o olhar para o rosto dele. Sephiroth a encarava de volta de cima. Ele mantinha os dentes cerrados, segurando qualquer som de desconforto no fundo da garganta, recusando-se a vacilar.
A intensidade daquela troca de olhares fez o rosto de Inome arder. Ela sentiu as bochechas corarem sob a atenção fixa do General e, sem jeito, desviou os olhos rapidamente, concentrando-se em terminar de prender os nós dos curativos ao redor do tronco dele.
As mãos de Inome terminaram de ajustar a última volta da faixa de compressão ao redor do torso de Sephiroth. O silêncio na sala era denso, quebrado apenas pela proximidade da respiração de ambos.
– Você sabe o que está fazendo – Sephiroth quebrou o silêncio, a voz baixa e controlada, mantendo o olhar fixo nela, observando de perto a hesitação da garota.
A proximidade física e o peso daquela atenção fixa fizeram o coração de Inome dar um salto.
– Ahm... uh... – Ela engoliu em seco, subindo o olhar brevemente para encarar aqueles olhos enigmáticos antes de desviar a atenção de volta para o nó do curativo. – Eu... cuidei do meu pai por um tempo. Antes de ele precisar voltar para o hospital.
Sephiroth apenas concordou sutilmente com a cabeça. Seus olhos se desviaram por um instante, fixando-se em um ponto qualquer da mesa enquanto ele processava a informação em silêncio, pensativo.
Inome guardou o restante dos materiais na bolsa e se levantou, colocando-se diretamente de frente com Sephiroth. Ela sustentou o olhar, mesmo diante da imponência dele, sem recuar.
– Eu... posso cuidar sempre de você. Você não precisa esconder isso – disse ela, a voz um pouco mais firme agora.
O General a encarou fixamente. A expressão dele permanecia impecável, quase impenetrável, avaliando cada palavra com a cautela cirúrgica de quem está acostumado a lidar apenas com relatórios táticos e segundas intenções dentro da Shinra.
– Por qual razão presume que necessito de amparo? – questionou ele, mantendo o tom baixo, polido e gélido.
Inome deu um passo à frente, determinada.
– Porque você é humano, você se machuca também. Eu posso cuidar de você.
As palavras dela flutuaram no silêncio da sala, e um conflito complexo se acendeu na mente de Sephiroth.
Humano.
Aquele termo soava estranho, quase alienígena para os seus ouvidos. Desde a sua infância, a Shinra o havia moldado para ser o oposto disso: uma lenda viva, o ápice do projeto militar, uma força infalível que não pertencia ao mesmo patamar dos homens comuns. Aceitar que sangrava, que precisava de bandagens e do amparo silencioso de alguém, parecia uma rachadura inadmissível no pedestal onde o colocaram. Uma parte dele — aquela criada sob as diretrizes rígidas dos laboratórios e o peso de ser uma propriedade científica da empresa — rejeitava a ideia de vulnerabilidade com um distanciamento quase gélido. Ele fora feito para ser perfeito, para estar acima das fraquezas da carne.
Sephiroth sustentou o olhar por alguns segundos, avaliando a resolução da garota. A desconfiança ainda estava ali, mas mascarada por sua postura controlada.
– E o que lhe garante que, diante das minhas capacidades, eu venha a sofrer qualquer outra injúria física? – questionou ele, com a voz mansa, porém cortante.
– Eu não sei! – Inome desabafou por fim, deixando a preocupação transbordar sem barreiras. Ela juntou as mãos com força em frente ao corpo, apertando os dedos enquanto sustentava o peso daquele olhar frio. – Mas quando acontecer, eu quero estar aqui para cuidar. Você não precisa contar isso a ninguém! Fica só entre nós.
Sephiroth ficou em silêncio por alguns instantes. Ele olhou para as mãos de Inome antes de voltar a encarar os olhos dela.
Por dentro, ele estava avaliando a proposta. Dava para notar que a insistência dela não vinha de interesse ou ambição dentro da empresa, mas de uma lealdade pura. Aguentar a pressão dos diretores e o peso de ser o herói impecável o tempo todo era sufocante. Pela primeira vez, ter uma única pessoa que sabia que ele também se machucava — alguém longe dos holofotes e das ordens da Shinra — parecia um alívio real para aquele isolamento diário.
Ele respirou fundo, ajeitando a postura e puxando o uniforme por cima do curativo novo, sem desviar os olhos dela.
– Compreendo. Se está disposta a assumir tal responsabilidade por livre arbítrio, não irei intervir. No entanto, a discrição com a qual se comprometeu é um requisito absoluto. O que ocorre aqui permanece estritamente sob este teto.
Ele fez uma breve pausa. O rosto continuava sério, mas o tom de voz saiu um pouco menos rígido.
– Está dispensada por hoje, Inome. Cuide de seus próprios ferimentos.
Inome quase deu pulinhos de alegria ali mesmo, mas conseguiu se segurar e apenas fez uma reverência rápida. Por um segundo, as mãos dela quase se moveram para dar um abraço nele, mas ela se conteve a tempo, sentindo o estômago revirar com aquele monte de borboletas dançando de nervoso e felicidade.
Ela abriu um sorriso enorme e totalmente genuíno.
– Eu darei o meu melhor, General! – disse ela. – Pode deixar, vou voltar para a enfermaria agora.
Dito isso, ela girou e saiu da sala, quase saltitando de felicidade enquanto fechava a porta atrás de si.
Sephiroth continuou parado na cadeira, encarando a porta que havia acabado de se fechar. Sozinho no silêncio do escritório e finalmente longe de todos os olhares da Shinra, ele relaxou os ombros e deixou um sorriso raro e genuíno escapar.
Ele pensou consigo mesmo que aquela mulher realmente tinha algo de diferente. No meio de tanta gente fria e cheia de interesse na Shinra, a teimosia dela era quase estranha — mas, pela primeira vez, ele não achou isso ruim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário ajuda muito com a continuação da história!! Não deixe de comentar :)