A dupla já estava pronta para partir em direção ao Setor 5. O ar da manhã no Setor 7 ainda carregava a fuligem típica de Midgar, mas o clima entre eles era de expectativa. Tifa, observando a dificuldade clara do rapaz em firmar o peso no chão, insistiu, oferecendo o ombro com um gesto prático e cuidadoso:
— Se encosta em mim, Cloud. Você ainda está mancando.
Cloud recuou um passo curto, desviando o olhar, visivelmente envergonhado com a própria fragilidade. Ele ajeitou a roupa de forma desajeitada, resmungando baixo:
— Uhhh... não... e se a Aerith me ver assim?
Encostado na fachada do Sétimo Céu, Angeal negou com a cabeça. O veterano cruzou os braços, observando a teimosia do garoto com a paciência típica de quem já havia liderado dezenas de recrutas obstinados.
— Ela vai ver que você precisa de repouso só, Cloud. Não seja egoísta com quem está tentando te ajudar — pontuou Angeal, a voz firme e direta, sem dar margem para drama.
Antes que Cloud pudesse retrucar, o som de passos leves e rítmicos chamou a atenção dos três. Aerith caminhava tranquilamente pela calçada poeirenta, o vestido rosa trazendo um contraste vivo para o metal cinzento e pesado do setor. Ela parou em frente ao Sétimo Céu, segurando uma cesta de vime que exalava um aroma doce de biscoitos amanteigados recém-assados, cuidadosamente ajeitados ao lado de um pequeno buquê de flores amarelas e frescas.
Ela abriu um sorriso iluminado, acenando de imediato para a dupla.
— Tifa! Cloud! — cumprimentou, a voz soando clara e animada. Em seguida, seus olhos verdes se voltaram para o homem mais velho e imponente escorado na parede. Sem perder a naturalidade, ela fez uma leve reverência. — Senhor!
Aproximando-se, Aerith entregou a cestinha diretamente nas mãos de Tifa, que ainda tentava processar a coincidência providencial daquele encontro.
— Que surpresa boa, Aerith! Nós iríamos lá te ver agora mesmo — disse Tifa, sorrindo ao segurar a cesta e sentir o calor dos biscoitos através do vime.
Aerith riu de forma leve, balançando a cabeça e ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. A intuição afiada de Cetra perfeitamente mascarada sob uma curiosidade inocente.
— Ah, eu fiquei curiosa para conhecer o bar! Eu estava entregando algumas encomendas de flores ali perto da estação do trem do Setor 7 e decidi vir dar uma olhada pessoalmente!
Angeal observou a interação em silêncio. Por mais que a curiosidade e o instinto protetor formigassem em sua mente diante daquela dinâmica inexplicável, o veterano sabia ler o ambiente melhor do que ninguém; aquele assunto não era para ele. Comandando sua própria retirada de forma sutil, ele desencostou da parede.
— Se me permitem, vou lá ver como está a Marlene. Barret precisou sair cedo para resolver uns assuntos no ferro-velho. — Ele disse, dando um aceno breve e respeitoso com a mão. Os outros três acenaram de volta antes que o homem empurrasse a porta do Sétimo Céu e entrasse, deixando-os a sós na calçada.
Assim que o veterano se afastou, Cloud sentiu aquela sensação de glitch invadir sua cabeça novamente — um zumbido rápido de estática que embaralhava sua visão por um milésimo de segundo, sobrepondo o cenário do Setor 7 com lembranças ensolaradas e vívidas. Mas, dessa vez, a vertigem foi engolida por um alívio avassalador. Ignorando as costelas latejantes e a fraqueza nas pernas, ele deu passos rápidos e desajeitados, jogando-se em um abraço desesperado ao redor de Aerith.
— Eu... senti tanto sua falta. — Ele sussurrou, a voz embargada, quase chorando enquanto escondia o rosto no ombro dela, segurando o tecido do vestido como se temesse que ela fosse desaparecer caso a soltasse.
Aerith não recuou. Sem demonstrar nenhum sobressalto com o contato repentino, ela devolveu o abraço com uma naturalidade acolhedora, deslizando a mão pelas costas do rapaz em um carinho reconfortante e contínuo. Ela sorriu, os olhos verdes ganhando um brilho sereno. Lá no fundo, sua consciência ancestral de Cetra parecia reconhecer o eco familiar daquela alma fragmentada que chorava em seus braços, compreendendo as linhas invisíveis que os conectam, mesmo que, naquele exato momento, a sua percepção humana ainda estivesse apenas tateando a situação.
— Eu também senti a sua, Cloud! — ela falou de forma animada e sincera, o tom doce servindo como um bálsamo. Sem desfazer o abraço, Aerith ergueu levemente o olhar por cima do ombro dele, encontrando os olhos atentos de Tifa.
Tifa, que ainda segurava a cesta de doces perto do peito, apertou os dedos no vime. A lutadora franziu o cenho, dividida entre o alívio de ver o amigo finalmente calmo e uma confusão profunda que embaralha seus próprios pensamentos.
— Então vocês se conhecem, mesmo? — a mulher perguntou, a dúvida evidente em cada sílaba. Ela alternava o olhar entre o garoto quebrado e a florista sorridente, tentando decifrar o enigma; no fundo, não sabia se Aerith estava apenas sendo extremamente empática e comprando a loucura causada pelo envenenamento de Mako para não surtá-lo de vez, ou se, de alguma forma absurda e inexplicável, aquela conexão era realmente verdadeira.
Aerith sorriu, um sorriso brando e reconfortante, enquanto concordava com a cabeça e se soltava suavemente do abraço. Guiando a situação com uma tranquilidade ímpar, ela acompanhou ambos para o interior do Sétimo Céu. O ambiente da taverna estava silencioso, preenchido apenas pelo cheiro de madeira polida e do café que Angeal havia preparado mais cedo.
— Sim! Ele caiu do teto da igreja. Eu acordei ele — Aerith disse tranquilamente, a voz soando como uma melodia suave no bar.
Por trás daquela afirmação simples, a mente da florista operava em uma frequência que ia muito além da compreensão comum. Aquela memória, de fato, não pertencia à linha do tempo daquela realidade específica. O Cloud deste universo nunca havia despencado sobre seu canteiro de flores. No entanto, sua consciência ancestral de Cetra, profundamente conectada às correntes atemporais do Lifestream, sussurrava a verdade de outras vidas. Para Aerith, a lembrança era tão vívida e real quanto a cesta de vime que acabara de entregar.
Ouvir a confirmação em voz alta foi como tirar uma bigorna das costas de Cloud. Ele deu um sorriso genuinamente aliviado, a tensão muscular cedendo de uma vez só enquanto ele voltava a se sentar no sofá surrado do bar, os ombros finalmente relaxando. Tifa e Aerith se acomodaram logo em seguida. Prática e tentando mascarar o próprio nervosismo, Tifa pegou um pratinho na bancada próxima e começou a organizar os docinhos da cesta sobre a mesa de centro, ouvindo cada palavra com uma atenção redobrada.
— Então a época que ele trabalhou de soldado da infantaria da Shinra, lá no edifício, ele foi numa missão dessa mesmo... — Tifa murmurou, quase pensando em voz alta. Ela tentava, a todo custo, criar uma ponte lógica para entender o que estava acontecendo. Na cabeça da lutadora, ela costurava as informações pragmáticas que Angeal havia lhe passado com a convicção inabalável que Cloud demonstrava, buscando uma justificativa racional para a conexão dos dois.
No entanto, a menção da palavra "infantaria" soou como um alarme distorcido no cérebro do rapaz.
Cloud sentiu a mente travar abruptamente. Um novo glitch rasgou sua consciência — um chiado agudo de estática acompanhado de uma pontada violenta bem na base do crânio. Ele soltou um grunhido sôfrego de dor, levando as mãos trêmulas à cabeça e fechando os olhos com força enquanto as memórias enxertadas de Zack e o Mako em suas veias lutavam violentamente contra a realidade dos fatos.
— Não, Tifa... — ele disse, a voz saindo um pouco rouca e arrastada pela dor, mas carregada de um orgulho cego, quase ofendido pela suposição dela. Ele ergueu o olhar, os olhos fixando-se na lutadora com a mais absoluta e trágica certeza. — Eu era SOLDIER Primeira Classe....
Tifa engoliu a seco, forçando o sorriso a permanecer no rosto enquanto a advertência de Angeal ecoava nítida em sua mente: não bata de frente com ele, não quebre a ilusão. Graças ao veterano, ela já tinha a versão real dos fatos e sabia exatamente quem o garoto era durante aquele tempo de convivência na Shinra: Cloud havia entrado apenas para a infantaria, trabalhando ativamente no suporte das missões do prédio junto com a Vanguarda, mas nunca ostentando o cobiçado título de Primeira Classe.
— Ah, desculpa! — Tifa apressou-se em corrigir a própria "gafe", gesticulando de forma leve e descontraída para disfarçar o nervosismo. — Eu fiquei pensando na infantaria deles que passou hoje mais cedo aqui no setor e acabei confundindo as palavras. Força do hábito!
Aerith acompanhou a troca de olhares, abrindo um sorriso doce e complacente para a lutadora. Havia uma serenidade ímpar nela; ao mesmo tempo em que soava agradavelmente alheia à tensão palpável na sala, seus olhos transmitiam a certeza silenciosa de quem compreendia cada pedaço daquele trauma. Voltando sua atenção para o rapaz, ela deslizou os dedos com extrema delicadeza sobre um dos braços dele, o toque suave e compassivo percorrendo o relevo áspero das cicatrizes deixadas pelos laboratórios de Hojo.
— Cloud... você tem se sentido melhor? — ela perguntou, a voz soando como um sussurro acolhedor e seguro.
Sentindo o carinho dela afastar o que restava da estática em sua mente, Cloud abriu um sorriso sincero, concordando lentamente com a cabeça enquanto seus ombros perdiam a rigidez defensiva.
— Aos poucos... — ele respondeu, a feição exausta ganhando um ar inegavelmente mais leve. — Acho que aquele tempo todo que eu dormi me deixou meio perdido... — completou, soltando um riso descontraído e genuíno, usando o otimismo inabalável de Zack.
— Isso é bom. Você melhorará logo. — Aerith continuou com o carinho, a voz ganhando um timbre quase etéreo enquanto conjurava discretamente a magia Regen. Uma aura esverdeada e muito sutil, quase invisível sob a luz morna e amarelada da taverna, fluiu da ponta de seus dedos diretamente para a pele de Cloud. A energia vital penetrou nos tecidos machucados, acelerando a cicatrização dos cortes mais profundos e aliviando imediatamente a pressão excruciante em suas costelas.
Tifa ficou olhando para aquilo incrédula. A facilidade e a naturalidade com que a florista manipulava energia curativa, sem sequer precisar erguer uma Materia ou recitar um feitiço longo, era impressionante. Engolindo o choque e piscando algumas vezes para voltar à realidade, a lutadora pigarreou levemente e complementou, trazendo um tom mais sério e conspiratório para a conversa.
— Eu e a Avalanche teremos uma missão em breve... Vamos explodir o Reator Mako 1, lá no Setor 1. É um golpe direto contra o coração da Shinra para tentar frear a drenagem do planeta — Tifa explicou, baixando o tom de voz por puro instinto. Ela avaliou a serenidade inabalável da florista e os talentos óbvios que ela escondia, decidindo arriscar: — Acho que sua presença seria essencial, Aerith. Ter alguém com as suas habilidades curativas no suporte mudaria tudo.
Cloud deu um suspiro longo e aliviado. A dor aguda que o atormentava desde o deserto e limitava sua respiração dissipou-se sob o toque macio dela, embora sua mente letárgica e confusa não tivesse registrado o uso da magia. Sentindo o corpo subitamente mais leve e o oxigênio finalmente encher os pulmões sem dor, a autoconfiança inabalável de Zack assumiu o controle total de sua postura.
— A Tifa está certa! — ele exclamou, concordando com a cabeça enquanto um sorriso largo e determinado iluminava seu rosto pálido. — Se é uma operação contra a Shinra, nós vamos precisar de toda a ajuda e organização possível. E eu vou estar lá na linha de frente para proteger vocês duas, podem apostar!
Aerith continuou o curando em silêncio, a energia morna e vitalícia fluindo de forma tão natural que parecia apenas o calor de um toque humano e reconfortante. Quando sentiu que a respiração do rapaz havia estabilizado por completo e que as fibras musculares sob as cicatrizes não repuxavam mais a cada suspiro, ela parou sutilmente. Com a mesma graça de sempre, desfez o contato e recuou, pousando as mãos de forma delicada sobre o próprio colo e alisando o tecido do vestido rosa.
O peso de planejar um atentado direto contra a maior potência militar e corporativa do planeta contrastava absurdamente com a expressão serena da florista.
— Contra a Shinra?! Eu estou dentro. — Ela disse, o tom saindo do seu jeito gentil e inconfundível, acompanhado de uma risada leve, quase cristalina. Ela soava tão tranquila que parecia ter acabado de aceitar um convite para um passeio no parque, e não para uma missão de pura sabotagem e risco de morte.
Em seguida, ela virou o rosto e fitou Cloud. Os olhos verdes brilharam com uma mistura de doçura e uma diversão cúmplice, tateando com perfeição as bordas daquela persona heroica que o garoto tentava desesperadamente manter de pé.
— E, além disso... — ela continuou, inclinando a cabeça levemente para o lado com um sorriso meigo. — Eu adoraria um guarda-costas.
As palavras foram o gatilho perfeito para dissipar qualquer sombra de exaustão que ainda restasse no rosto do rapaz. Cloud sentiu o peito inflar. A dor nas costelas era apenas um eco quase esquecido agora, substituída por uma onda imediata de orgulho e autoconfiança que pertencia inteiramente ao espírito de Zack. Sem o menor traço da timidez comum do garoto, ele ajeitou a postura no estofado surrado do sofá e cruzou os braços, abrindo um sorriso largo e convencido.
— Pode deixar comigo! — Cloud afirmou, a voz transbordando convicção enquanto retribuía o olhar dela. — Nenhum soldado da infantaria ou lata-velha da Shinra vai encostar um dedo em você. É uma promessa de Primeira Classe.
Tifa, assistindo à troca de olhares entre os dois, permitiu-se relaxar no encosto do sofá. A dinâmica era bizarra, as peças do passado de Cloud pareciam todas fora do lugar, mas ver o amigo sorrir com tanta vivacidade — e saber que agora tinham uma curandeira genuína e poderosa do lado da Avalanche — fez com que o peso da missão iminente parecesse um pouco mais fácil de carregar.
Na manhã seguinte, já a bordo do navio estrangeiro que havia zarpado da costa de Icicle Inn rumo ao continente ocidental, o mar aberto balançava a embarcação com um ritmo constante e hipnótico. O casal permanecia recluso no pequeno quarto que haviam alugado para a viagem. Saíam pouquíssimas vezes, cientes de que a exposição nos conveses era um risco alto demais; o medo de serem reconhecidos e desencadearem uma briga generalizada no navio ditava a rotina deles. Um simples vislumbre dos cabelos prateados de Sephiroth poderia atrair a atenção de espiões da Shinra infiltrados entre os passageiros, ou atiçar a cobiça de mercenários suicidas querendo testar a sorte para cobrar a recompensa por suas cabeças.
Longe dessa ameaça, a cabine de madeira oferecia um refúgio seguro, aquecido e silencioso. Ambos estavam sentados na cama de casal, com as costas apoiadas na cabeceira e os pés esticados, confortavelmente protegidos por um cobertor de lã grossa. Inome mantinha a cabeça encostada no ombro de Sephiroth, aproveitando o calor que emanava do corpo dele. Ele, por sua vez, segurava um livro denso sobre Filosofia Natural e os Estágios do Desenvolvimento Humano — um exemplar que ele havia adquirido discretamente no vilarejo anterior, tentando usar a clareza da lógica científica para processar algo tão absurdamente instintivo e fora de seu controle.
Inome olhava para o vazio da parede à frente, a mente ainda girando devagar enquanto tentava digerir, camada por camada, a informação monumental de que seria mãe. Percebendo a quietude atípica e imersa da companheira, Sephiroth quebrou o silêncio. Ele fechou o livro com um baque suave, depositando-o sobre o cobertor ao lado de suas pernas, e virou o rosto para observá-la pelo canto do olho.
— Eu... estou ansioso com essa experiência nova... — ele murmurou, a cadência grave da voz mantendo a polidez característica, mas carregada de uma suavidade rara e vulnerável. — Admito que a perspectiva de gerar e tutelar uma nova vida representa uma variável que anseio profundamente compreender e cultivar.
Ele moveu o braço que a envolvia, os dedos longos deslizando com extrema delicadeza pelos cabelos castanhos dela em um cafuné lento, quase reverente. Ele soltou um suspiro de forma quase imperceptível antes de completar.
— Mas... eu genuinamente tenho medo.
Inome piscou, despertando de seus pensamentos longínquos. Ela ergueu um pouco o rosto para encará-lo, os olhos levemente arregalados com a surpresa de ouvi-lo admitir uma insegurança tão visceral de forma tão direta.
— Medo... por que...? — ela perguntou, a voz saindo em um sussurro brando e compreensivo.
Os olhos de Sephiroth perderam o foco por um instante, escurecidos por sombras de um passado forjado em aço cirúrgico e expectativas desumanas.
— De ser duro demais... de cobrar demais... da mesma forma punitiva e implacável como fizeram comigo desde o meu primeiro suspiro, Inome. — Ele travou o maxilar de leve, escolhendo as palavras com o peso de quem analisa a própria capacidade de destruição. — E se essa criança um dia estiver sozinha no mundo? E se ela for corrompida por más influências...? Eu tenho plena consciência da força implacável que carrego em meu sangue, e temo que, no futuro, por conta de minhas próprias falhas como guia, ele se vire contra tudo.
Inome soltou um suspiro longo, sentindo o peito apertar de forma dolorosa ao testemunhar a profundidade das cicatrizes que a Shinra e os laboratórios de Hojo haviam deixado na alma dele. Em vez de argumentar com lógica, ela apenas virou o corpo, envolvendo o tronco largo de Sephiroth em um abraço firme, apertando-o contra si.
— Eu entendo perfeitamente o seu medo, Seph... — ela murmurou contra o tecido da blusa dele, sentindo o compasso do coração de Sephiroth. Delicadamente, ela pegou a mão livre dele, escorregando os dedos do homem até pousarem suavemente sobre sua barriga, que ainda não exibia volume algum, mas que já carregava o epicentro do universo de ambos. — Mas, desde aqui, no ventre... ele vai receber amor.
Sephiroth abaixou o olhar, sentindo o peso e a textura da própria mão repousando sobre o abdômen dela. Um gesto tão silencioso e instintivo, mas que parecia carregar milagres e recomeços que ele jamais ousou sonhar em viver. Ele fez um carinho sutil com o polegar e soltou um suspiro entrecortado, subitamente pesado.
— Diferente de mim... — ele disse, o tom de voz vacilando para algo profundamente chateado e melancólico.
Sua mente, como se puxada por um ímã para as memórias mais dolorosas, buscou o vazio do próprio passado. O rosto belo e melancólico de Lucrecia Crescent invadiu seus pensamentos, materializado na memória visual daquela única e desgastada fotografia que ele vira nos arquivos secretos da Shinra — a imagem sorridente de uma mulher de cabelos escuros e olhar gentil. O único vislumbre de um abraço materno, de um colo verdadeiro e de um lar que lhe fora roubado cruelmente para que ele se tornasse apenas uma ferramenta solitária da corporação.
Percebendo a dor gélida e solitária que inundava os olhos dele, Inome esticou o pescoço. Ela depositou um beijo terno, demorado e cheio de significado na bochecha de Sephiroth, chamando-o de volta para o presente, para a segurança e o calor inabalável daquela cabine de navio.
— Mas agora, você recebe amor, Seph... — ela sussurrou pertinho do ouvido dele, acariciando o maxilar tenso de Sephiroth. — E vai saber dar desse amor.
Sephiroth ponderou sobre as palavras dela, deixando o silêncio confortável preencher o quarto do navio. Sua mente vagou pelas memórias recentes, revisitando todos os momentos em que Inome lhe mostrara a face daquele amor singelo. Ele pensou na paciência infinita com que ela o havia ensinado sobre as coisas mais simples e banais do dia a dia — conceitos como o valor de um simples momento de folga ou a tranquilidade de colher flores —, coisas que, por incrível que parecesse, o guerreiro mais letal do planeta sequer compreendia antes de conhecê-la.
A tensão nos ombros dele finalmente cedeu. Ele abriu um sorriso sutil, um curvar quase imperceptível de lábios que amenizou a feição endurecida, decidindo afastar as sombras do passado e quebrar o gelo que havia se formado no ar.
— Considerando as probabilidades biológicas... você possui alguma intuição sobre se será um menino ou uma menina? — ele perguntou. O tom de voz mantinha a estrutura ponderada e formal que lhe era natural, mas as palavras saíram permeadas por uma curiosidade inegavelmente macia e fascinada.
Enquanto falava, Sephiroth manteve a mão pousada sobre o ventre dela e fechou os olhos por um breve segundo. Com seus sentidos absurdamente aguçados, ele não sentia apenas o calor físico. A ligação umbilical que ele possuía com o Lifestream permitia que ele captasse além do tecido; ele conseguia sentir a pulsação tênue de energia vital ali dentro. Uma ressonância minúscula e embrionária de Mako, uma fagulha de espírito que pulsava em perfeita sintonia com a dele, algo que sua biologia aprimorada reconhecia e acolhia com clareza.
Fascinado com a sensação invisível sob a palma da mão, ele virou o rosto, olhando no fundo dos olhos de Inome, aguardando a resposta dela.
— Menino. — Inome riu, uma risada leve e solta, voltando a encostar a cabeça no ombro dele e se aninhando no calor do cobertor. — Eu sempre quis criar um menino, se um dia eu fosse mãe.
Sephiroth sorriu, um gesto pequeno e raro que suavizou as linhas do seu rosto. Ele chegou a se perguntar por um momento se teria alguma preferência, mas logo percebeu que isso não fazia a menor diferença. O simples fato de saber que a criança iria nascer, e que estaria ali, segura com eles, já preenchia um espaço que ele nem sabia que estava vazio.
— Então... eu espero que tenhamos um menino. — Ele disse, concordando com Inome, enquanto seu olhar descia com uma delicadeza silenciosa para a barriga dela. O som do mar batendo no casco do navio preencheu o quarto por mais alguns segundos antes dele completar, a voz soando com uma curiosidade genuína e quase inocente: — É... difícil dar banho?
Inome não aguentou e abriu um sorriso largo. Era adorável e quase cômico ver o homem mais forte e temido do mundo completamente intimidado com a simples ideia de segurar um recém-nascido na água.
— Bom... — ela riu, ajeitando um pouco a postura contra ele para poder encará-lo melhor. — Além de dar banho com muito cuidado, tem que alimentar, fazer arrotar, trocar fraldas várias vezes ao dia... — Ela foi contando cada tarefa nos dedos, dando uma risada gostosa ao observar a expressão atenta dele. — Você vai aprender tudo isso.
Sephiroth escutava cada palavra com a testa meio franzida. A Shinra o havia treinado para suportar e aniquilar qualquer tipo de ameaça, mas o funcionamento e a rotina de cuidados de um bebê eram um mistério absoluto para ele.
— São tantas coisas... — ele murmurou, quase sem acreditar na quantidade de atenção contínua que um recém-nascido exigia. Ele olhou novamente para a própria mão, grande e marcada pelos calos de anos empunhando a Masamune, que descansava de forma tão suave sobre a barriga de Inome. — É frágil...
— E como saberei se a minha execução nessas necessidades será precisa o suficiente, Inome? Não há protocolos a seguir... — perguntou ele. A voz grave carregava uma curiosidade genuína, mas também um receio palpável. Para um homem acostumado a métricas de sucesso, cartilhas táticas e resultados absolutos no campo de batalha, a ideia de falhar em algo tão delicado por não ter um manual de instruções era genuinamente assustadora.
Inome sorriu com a preocupação palpável dele. Ela levou as mãos até o rosto de Sephiroth, os polegares acariciando suavemente a pele clara e os traços fortes do maxilar dele. O toque quente dela servia como uma âncora, trazendo a mente analítica dele de volta para o conforto e a segurança daquela cabine.
— Você apenas vai sentir. É o instinto. E eu vou te dizer também, passo a passo. — Ela sorriu um pouco mais, mantendo o contato visual firme e acolhedor, transmitindo toda a paciência do mundo.
Sephiroth inclinou levemente o rosto contra a palma da mão dela, rendendo-se àquele carinho. Os olhos a fitavam com uma esperança silenciosa e profunda. Ele queria desesperadamente acreditar nesse instinto natural que ela mencionava, depositando toda a sua confiança nela, mesmo que, no fundo de sua mente, a sombra da preocupação e o medo crônico de errar ainda estivessem presentes.
Depois de longas horas enfrentando as correntes marítimas, o casco do navio pesqueiro finalmente raspou contra o cais de madeira velha na costa isolada da região de Nibelheim. O clima ali era bem diferente da nevasca de Icicle Inn; o frio cortante dava lugar a um vento úmido e denso, carregado com o cheiro de sal e o peso de um céu cinzento que parecia esmagar a paisagem. Inome e Sephiroth desceram pela rampa improvisada, com suas mochilas pesadas ajustadas firmemente nas costas, mantendo os rostos parcialmente escondidos para evitar qualquer olhar mais atento dos marinheiros no cais.
Pisando em terra firme, a mulher olhou em volta. A enorme cadeia montanhosa do Monte Nibel erguia-se ao longe como uma muralha de pedra escura e intimidadora, engolindo os resquícios de luz do entardecer. Ela ajeitou a alça da mochila no ombro, sentindo a curiosidade se misturar com uma ansiedade inegável diante daquele lugar sombrio.
— Sabe qual é a caverna que você viu? — Inome sussurrou, aproximando-se o suficiente para que apenas ele a ouvisse por cima do barulho das ondas quebrando nas pedras.
Os olhos de Sephiroth varreram os picos irregulares da montanha com a precisão natural que ele possuía. Ele não precisou de muito tempo; a bússola mental que o guiava desde os sonhos alinhou-se perfeitamente com a geografia real à sua frente.
— Fica nas fendas rochosas do extremo leste do Monte Nibel... — ele respondeu, a voz assumindo o tom clínico e tático de sempre. — É uma formação geológica íngreme e isolada, situada fora de qualquer rota de patrulha documentada pela corporação ou pelos guias locais. O trajeto exigirá cautela.
Sem hesitar e sem precisar de um mapa, ele ajustou o peso da Masamune escondida sob a mochila, tomando a frente e começando a andar a passos firmes em direção ao início da trilha pedregosa. Inome respirou fundo, reunindo sua determinação, e foi logo atrás, acompanhando o ritmo de Sephiroth rumo aos caminhos esquecidos da montanha.
Assim que adentraram a rota alternativa, a mente de Sephiroth foi tomada por um déjà vu quase palpável. Cada rocha pontiaguda, cada inclinação íngreme do terreno e até mesmo o som cortante do vento uivando pelas fendas pareciam se sobrepor perfeitamente à topografia exata que ele havia mapeado em seu sonho. A montanha era traiçoeira, exigindo atenção dobrada a cada passo.
Deixando os instintos de combate se misturarem com um instinto puramente protetor, ele parou por um instante e olhou seriamente para Inome.
— Do meu lado, Inome. — Ele disse, a voz num tom baixo e restrito que não admitia contestação. Sem esperar resposta, ele estendeu a mão, segurando a dela. O aperto era firme, ancorando-a ao seu lado com uma precisão cuidadosa, garantindo que ela não escorregasse nas pedras soltas. Inome apenas concordou em silêncio, aceitando o gesto e passando a caminhar colada a ele.
A subida exigiu fôlego. O caminho tornou-se cada vez mais estreito até desaguar na entrada de uma fenda profunda e escura, engolida pelas sombras e escondida das vistas aéreas por um teto natural de rocha maciça. O ar lá dentro era gelado, estagnado e tinha um cheiro denso de poeira e minério, como se aquele espaço não fosse visitado há décadas.
No centro da caverna, iluminado apenas por feixes muito fracos da luz da tarde que lutavam para entrar pelas frestas superiores, descansava um objeto bizarro e totalmente antinatural para a geologia local. Um caixão escuro, construído em madeira grossa e ladeado por pesados ornamentos metálicos oxidados, completamente fechado.
Inome olhou desconfiada para a estrutura mórbida, sentindo os pelos dos braços arrepiarem sob o tecido da jaqueta. Ela soltou um suspiro tenso, os olhos varrendo as sombras do local antes de murmurar:
— Você tem certeza que está igual como no seu sonho...?
— Absoluta. — Sephiroth a fitou. Seus olhos já estavam focados, avaliando a tampa do caixão com a frieza de quem analisa um artefato potencialmente letal. Ele soltou a mão dela, assumindo sua postura de prontidão. — Se prepare para atirar, se necessário.
Ele apontou com o queixo para a arma dela. Inome não hesitou. Ela concordou com a cabeça, sacando o armamento com agilidade. O clique metálico da trava de segurança sendo destravada ecoou pela caverna enquanto ela firmava a base dos pés, a postos, com a mira estabilizada na direção da estrutura.
Com a cobertura de Inome garantida, Sephiroth caminhou até a lateral do caixão. Ele não precisou de ferramentas ou de impulso. Usando apenas uma das mãos, cravou os dedos sob a borda da tampa e empurrou. O som pesado da madeira se arrastando e o ranger agudo das dobradiças velhas quebraram o silêncio fúnebre do subsolo.
Sephiroth abriu o caixão por completo, revelando a figura que habitava o interior.
Lá dentro, repousava um homem de pele absurdamente pálida, quase translúcida, e longos cabelos negros que se espalhavam de forma desgrenhada sob o corpo. Ele vestia trajes escuros pesados, cobertos por um longo manto carmesim empoeirado, e, descansando sobre o próprio peito em uma imobilidade cadavérica, exibia uma bizarra e imponente garra metálica dourada no lugar do braço esquerdo. Vincent Valentine estava ali, silencioso e congelado no tempo.
Inome não afrouxou a postura. Com os dedos firmes próximos ao gatilho, ela manteve a mira estabilizada no centro do peito do homem recém-desperto, mas não atirou. Seu instinto a fez aguardar, esperando Sephiroth ditar o ritmo daquele encontro bizarro.
O silêncio úmido e pesado da caverna foi quebrado pelo leve estalo das articulações de Vincent Valentine. Com uma lentidão fantasmagórica, o homem apoiou a garra metálica na borda de madeira do caixão e forçou o corpo para cima, sentando-se. Seus olhos vermelhos, intensos e brilhantes na penumbra, vagaram brevemente pelo cano da arma de Inome antes de se fixarem com absoluta perplexidade no rosto do homem de cabelos prateados.
Vincent soltou um riso seco e rouco, o som arranhando a garganta que não era usada há décadas, soando quase como um lamento.
— Vão com calma... — ele falou, a voz baixa, arrastada e áspera, levantando a mão humana em um gesto lento para indicar que não oferecia ameaça. Seu olhar, no entanto, parecia cravado na alma de Sephiroth. A semelhança subjacente com Lucrecia nos traços do rosto e a presença esmagadora de energia no sangue dele eram inconfundíveis para o ex-Turk que havia testemunhado a tragédia desde o marco zero. — Sephiroth... você... depois de tudo o que Hojo fez... de todo o pesadelo que foi o Projeto S, o qual eu falhei miseravelmente em impedir... você está bem.
Ele piscou, parecendo processar a anomalia à sua frente. Em seus piores tormentos trancafiado naquele caixão para expiar seus pecados, Vincent sempre imaginou que a criança gerada nos laboratórios se tornaria uma calamidade incontrolável ou uma ferramenta oca nas mãos da corporação. Ver Sephiroth ali, vestido com roupas de trilha civis, lúcido, calmo e claramente exercendo o papel de protetor ao lado de uma mulher armada, estilhaçava suas expectativas mais sombrias.
Sephiroth não recuou nem alterou sua expressão neutra. Seus olhos analíticos percorreram a figura pálida e desgastada no caixão, avaliando a pesada garra dourada e processando a familiaridade com que aquele estranho pronunciava o nome de Hojo e o obscuro "Projeto S". Ele não se lembrava de ter visto o rosto daquele homem nos arquivos confidenciais da Shinra antes de desertar, mas o visual excêntrico batia com precisão milimétrica com a visão que havia tido.
— Você detém a vantagem do reconhecimento, mas a recíproca não é verdadeira. — Sephiroth respondeu, a cadência de sua voz soando grave, polida e cirurgicamente direta. Ele abaixou levemente a mão, sinalizando para que Inome relaxasse um pouco a arma, mas manteve a postura de prontidão. — Você é o indivíduo que minhas visões indicaram neste local. Contudo... exijo saber qual é a sua identidade, e qual é a sua exata relação com o meu passado.
Vincent esboçou um sorriso pálido e cansado, finalmente movendo as pernas rígidas por cima da borda de madeira e saindo do caixão. O impacto de suas botas no chão de pedra levantou uma nuvem fina de poeira esquecida.
Vincent esboçou um sorriso pálido e cansado, finalmente movendo as pernas rígidas por cima da borda de madeira e saindo do caixão. O impacto de suas botas no chão de pedra levantou uma nuvem fina de poeira esquecida.
— Prazer, dupla. Sou o Vincent. — Ele deu um aceno meio desnorteado, cambaleando quase imperceptivelmente. Sua mente lutava para recalcular a gravidade, lembrando ao próprio corpo o peso de existir e de se manter em pé após tantas décadas, mas logo forçou a coluna a ficar reta, recuperando uma postura sombria e imponente.
Inome, ainda segurando a arma, mas apontando-a ligeiramente para o chão, esboçou um sorriso incerto, sem baixar totalmente a guarda. — Ahm... Prazer. O que você faz aqui?
Sephiroth, cruzando os braços de forma rígida sobre o peito, interveio e finalmente confessou o que o atormentava. — Tive um sonho, alguns dias atrás, que me direcionou com exatidão até este local... e, há pouco, você citou o Projeto S. — A voz dele soou formal e analítica, mas escondia uma urgência contida. — Qual foi a sua real participação na construção do meu passado?
Vincent suspirou pesadamente, o som lúgubre ecoando nas paredes úmidas da caverna. — Vamos lá... muitas perguntas... — Ele limpou a garganta seca, o olhar rubro se perdendo por um momento nas sombras do chão antes de voltar para Sephiroth. — Primeiramente, sim, de certa forma eu fiz parte. Eu e a Lucrecia nos conhecemos bem antes de o projeto sequer existir, na verdade. Nós tínhamos um... caso. Estávamos juntos. Mas, quando ela repentinamente aceitou se casar com o Hojo, ela já estava grávida.
Vincent cerrou o punho da mão humana, a amargura de anos transbordando em cada sílaba. — Hojo sempre foi um manipulador ardiloso e covarde. Ele se aproveitou de uma culpa profunda que Lucrecia carregava para nos afastar de vez. Ele a isolou do mundo, tratou-a apenas como uma incubadora conveniente para a insanidade científica dele, e me alvejou quando tentei intervir, fazendo de mim a sua cobaia pessoal. O que aquele desgraçado fez para separar a nós dois... o desgosto que eu sinto por aquele cientista não tem tamanho.
Sephiroth travou. Sua mente, normalmente uma fortaleza impenetrável de lógica, sofreu um abalo sísmico. As peças fragmentadas de sua história colidiam de forma violenta dentro de sua cabeça. Ouvir aquele homem falar de Lucrecia de forma tão calorosa, humana e saudosa era um choque brutal. Nas memórias frias de sua juventude na Shinra, sempre que o jovem recruta questionava sobre a própria origem, Hojo apenas desviava o olhar com um desdém asqueroso, rindo e dizendo que a mãe dele não passava de um vaso falho que havia morrido no parto. Para o cientista, Lucrecia não importava.
Um peso físico e sufocante instalou-se sob as costelas do guerreiro. Sephiroth descruzou os braços lentamente, a mão grande subindo até o próprio peito e apertando os dedos contra o tecido grosso da jaqueta de trilha, como se tentasse conter o baque interno. Inome, percebendo a respiração dele falhar por uma fração de segundo e a sua postura inabalável vacilar de forma significativa, guardou a arma no coldre e deu um passo rápido, parando rente ao lado dele e
O olhar de Vincent suavizou-se de uma maneira que contrastava com sua figura sombria. Havia um alívio genuíno, uma alegria silenciosa em seus olhos vermelhos ao ver que, apesar de tudo, seu filho estava ali, são, salvo e livre das garras da Shinra.
— Eu e sua mãe ficamos desolados quando vimos que Hojo não deixaria sequer te vermos... — Vincent revelou, a voz grave carregada de uma dor antiga, mas firme. — Por culpa de tudo o que aconteceu, Lucrecia se isolou na Caverna de Cristal, escondida atrás de uma cachoeira. E eu, antes de me trancar neste caixão para lidar com os meus próprios demônios, todos os dias ia falar com ela.
O silêncio que se seguiu foi denso. Sephiroth abaixou ainda mais o olhar, os olhos fixos nas pedras irregulares do chão. A mente dele estava tão tomada pela imagem e pela angústia de saber do sofrimento da mãe que a implicação gigantesca na fala de Vincent — o fato de ele ter se incluído no desespero parental — sequer pareceu registrar de imediato em seu cérebro. A preocupação com Lucrecia o consumia por inteiro. Ele apertou os dedos com mais força contra o tecido da jaqueta, os nós dos dedos ficando brancos. A garganta fechou. Ele travou o maxilar, lutando ferozmente contra a ardência nos olhos, engolindo a seco porque se recusava terminantemente a chorar ou demonstrar fraqueza na frente de um estranho, por mais que seu peito estivesse em pedaços.
Inome, por outro lado, com a mente livre do turbilhão emocional que cegava o companheiro, ligou os pontos quase que instantaneamente.
A mulher deslizou a mão pelas costas de Sephiroth até o braço dele, fazendo um carinho gentil e contínuo para ancorá-lo na realidade. Enquanto o confortava, ela virou o rosto, alternando o olhar com atenção entre a figura alta e de cabelos prateados ao seu lado e o homem pálido de cabelos negros à frente. Os traços fortes do rosto, a intensidade do olhar, a postura reservada que ambos carregavam... as semelhanças eram gritantes.
— Vocês definitivamente são parecidos... — ela comentou, jogando a constatação no ar, a voz soando suave, mas cheia de significado.
Vincent sustentou o olhar da mulher. Ele não desviou, nem tentou disfarçar a verdade que agora pairava clara no ambiente. Um sorriso minúsculo e conformado surgiu no canto de seus lábios.
— De fato. — Vincent disse, fitando Inome com uma certeza inabalável. — Somos.
— Preciso processar essa informação... antes de irmos ao encontro de minha mãe. — Sephiroth disse.
Sua voz, normalmente tão calculista e inabalável, falhou de forma dura. A rachadura em sua armadura emocional finalmente cedeu ao peso de tudo o que lhe havia sido roubado. Ele virou o rosto abruptamente, recusando-se a deixar que vissem as lágrimas que já não conseguia segurar, e caminhou a passos rápidos em direção à entrada da caverna, buscando o isolamento. O vento frio do Monte Nibel soprava pelas frestas, mas mesmo a alguns metros de distância, Inome e Vincent conseguiam ouvir o som abafado e entrecortado de sua respiração. Ele chorava de forma silenciosa, engolindo o pranto, mas a dor contida por décadas era pesada demais para não ser sentida no ambiente.
Inome acompanhou a silhueta dele se afastar com um olhar cheio de compaixão. Em seguida, ela voltou para Vincent. Dando um sorriso amigável que quebrava completamente a tensão lúgubre do lugar, ela levou as mãos para trás das costas e balançou-se levemente nos calcanhares.
— Você deveria dar um abraço no seu filho. Não acha? — ela sugeriu, o tom leve, mas pontual.
Vincent piscou, pego de surpresa pela franqueza dela. Ele soltou um riso curto e áspero, negando devagar com a cabeça enquanto olhava para a figura imponente e letal de cabelos prateados encostada nas rochas da entrada.
— Ele já está meio grandinho para isso, não acha? — o atirador murmurou, a voz rouca carregando uma dose de hesitação. — Talvez se ele tivesse uns dez anos...
Inome fez uma careta na mesma hora, erguendo uma das sobrancelhas em uma expressão de clara reprovação diante da desculpa esfarrapada do ex-Turk.
— Ele é seu filho, homem. Filho não tem idade para abraçar — ela rebateu, firme e certeira.
A simplicidade daquela verdade atingiu Vincent em cheio. Ele abaixou o olhar para a própria garra metálica, ponderando sobre o tempo perdido e o abismo de tragédias que os separava, mas percebeu que Inome estava absolutamente certa. Ele soltou um suspiro profundo e conformado.
— Vou falar com ele... — Vincent disse, ajeitando o peso do manto carmesim sobre os ombros pálidos. — Mas não garanto o abraço.
Com passos silenciosos, o homem de vermelho começou a caminhar em direção à luz fraca da entrada da caverna, seguindo Sephiroth.
Inome ficou um pouco mais atrás, parada na penumbra. Em silêncio, ela apenas observava as sombras alongadas dos dois homens projetadas contra a parede de pedra pela fraca luz externa, ouvindo atentamente o desenrolar daquela conversa.
Vincent parou bem próximo a Sephiroth. Quebrando a barreira invisível e imponente que o ex-general costumava impor ao seu redor, o atirador ergueu a mão humana e deu tapinhas gentis, ainda que hesitantes, nas costas largas dele.
— Desculpe por não ter tentado o suficiente, filho. — Falou francamente, a palavra final soando com um peso inédito, mas carregada de sinceridade. — Mas vejo que você conseguiu vencer a natureza que tentaram te impor. — Ele subiu o olhar, admirando a resiliência do guerreiro ao seu lado.
Sephiroth virou o rosto na direção oposta, o vento frio batendo contra as lágrimas teimosas que ainda lutavam para cair. Ele se recusava a ser visto daquela forma, travando o maxilar com força, mas quando falou, sua voz soou firme, afiada e inegavelmente carregada de sua postura habitual.
— Todos nós... fomos vítimas das maquinações de Hojo. O sangue dele precisará ser derramado, com a maior urgência possível... — disse pausadamente, calculando cada palavra em meio ao ódio gélido que sentia do cientista. — Por anos... quando ele me concedeu o acesso a uma única fotografia, ele a classificava como Jenova, de forma proposital... orquestrando uma mentira para moldar a minha mente... — ele continuou dizendo, mantendo os olhos fixos na paisagem montanhosa lá fora, sem olhar para trás. — Se não fosse pela Inome... se ela não tivesse recuperado os registros documentais do meu nascimento... eu teria acreditado fielmente que era a prole biológica de um monstro.
Vincent ouviu o desabafo sombrio, compreendendo perfeitamente a dimensão e a crueldade daquela tortura psicológica. Porém, percebendo o quão tenso o filho estava, o ex-Turk decidiu quebrar a densidade esmagadora daquele momento.
— Por sorte, você é só filho de um casal que não deu certo — Vincent disse num tom atipicamente mais leve e brincalhão, soltando um riso curto e soprado.
Sephiroth deu um riso curto, o som carregando uma mistura de alívio e incredulidade enquanto sua mente tentava organizar aquela nova e avassaladora realidade.
— Minha mãe... como ela era... antes do Hojo...? — Sephiroth perguntou genuinamente, a voz polida e contida, tentando buscar algo palpável, uma memória emprestada sobre a mulher que lhe deu a vida e o calor que ele nunca pôde experimentar.
Vincent sorriu nostalgicamente, cruzando os braços sob o manto carmesim e olhando na mesma direção que Sephiroth olhava, perdendo-se nas montanhas gélidas e cinzentas do Monte Nibel.
— Sua mãe... ela era absolutamente brilhante. — A voz rouca de Vincent ganhou um tom macio, embargado pelas lembranças de um tempo muito anterior à tragédia. — Uma cientista de primeira linha, muito focada e apaixonada pelo que pesquisava. Mas, por trás de toda aquela genialidade, ela tinha uma alma incrivelmente gentil. Lucrecia possuía um sorriso doce e um tanto tímido. Ela se preocupava profundamente com as pessoas, sempre atenta ao bem-estar de todos ao redor dela, muitas vezes se esquecendo de cuidar de si mesma. Era uma mulher determinada, obstinada com suas convicções... mas, ao mesmo tempo, carregava uma pureza e um coração imenso.
Vincent pausou por um segundo, o vento frio balançando seus cabelos negros, antes de finalizar com uma certeza que fez o peito de Sephiroth apertar novamente.
— Se ela tivesse tido a escolha, Sephiroth... ela jamais teria soltado a sua mão.
Sephiroth absorveu cada palavra em um silêncio reverente. Saber que a mulher que lhe deu à luz era alguém movida por gentileza, inteligência e cuidado — e não a calamidade extraterrestre que as mentiras da corporação tentaram implantar em sua mente — agiu como um bálsamo sobre a ferida mais profunda que ele carregava.
— Inome... cita qualidades similares em mim... Vejo que puxei a ela... — ele murmurou, a voz grave saindo num tom reflexivo e quase vulnerável. Em sua mente, ele tentava juntar essas similaridades como peças de um quebra-cabeça vital, querendo desesperadamente se sentir ancorado e acolhido pela figura materna que ainda não conhecia.
Vincent virou o rosto para observá-lo de perfil, notando a forma como a tensão nos ombros largos do guerreiro finalmente começava a ceder. O ex-Turk deu um sorriso fraco e sincero.
— Com certeza. Você tem o olhar da sua mãe. Chega a ser engraçado... — Vincent respondeu, soltando um suspiro leve. Ele estreitou um pouco os olhos vermelhos, analisando os traços do filho com o afeto de um pai que finalmente tinha a chance de fazê-lo. — É claro que a exposição celular e o Mako alteraram a cor e a estrutura das suas pupilas... mas o formato. A intensidade com que você foca em algo quando está determinado, a linha do seu maxilar, a curva sutil da sua sobrancelha. É puramente a Lucrecia. Quando você olha de soslaio, é como se eu estivesse vendo ela naqueles corredores outra vez.
Ouvir aquilo fez o coração de Sephiroth falhar uma batida. Se Inome havia sido a primeira a lhe mostrar que ele era um homem capaz de amar e ser amado, as palavras de Vincent foram a prova final de que ele possuía uma origem humana. Ele não era uma arma biológica ou um retalho de experimentos macabros. Ele era o filho de alguém. O herdeiro de um rosto, de uma história e de uma humanidade que tentaram lhe arrancar à força.
Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo o ar gelado do Monte Nibel, permitindo que aquela verdade se instalasse definitivamente em seu espírito.
Inome, ainda parada na penumbra do interior da fenda, assistia à interação com um sorriso radiante e os olhos levemente marejados. Ela deu um passo à frente para se aproximar da entrada, abraçando o próprio corpo por conta do frio, mas sentindo um calor imenso no peito. Era um alívio indescritível ver a sombra fria do "General Perfeito" finalmente se quebrar, sendo substituída pelo homem livre que agora começava a reconstruir seus verdadeiros laços de sangue.
Ela chegou cortando o clima denso com a sutileza e a praticidade que lhe eram características. Ela caminhou até os dois, enfiando-se exatamente no meio da dupla e dando tapinhas gentis, mas firmes, nas costas de ambos.
— Bom, Vincent. Quais são os planos? — Ela o fitou, indo direto ao ponto e trazendo a dupla de volta à realidade prática da missão. — É fácil chegar até a Lucrecia?
Vincent olhou para a mulher, e logo em seguida para Sephiroth. A sombra em seu rosto pareceu pesar ainda mais, e ele soltou um suspiro lento.
— Temos um problema, sim. O caminho até a caverna escondida atrás da cachoeira é o menor dos nossos obstáculos... — Vincent explicou, a voz rouca carregando os detalhes da tragédia de forma dolorosa. — A questão é que Lucrecia foi consumida pela culpa de tudo o que aconteceu. E por conta dos experimentos que Hojo fez nela durante a gestação, as células de Jenova presentes no organismo dela não permitiam que ela morresse, mesmo que tentasse. Para conter as mutações e tentar fugir do próprio tormento, ela se selou dentro de um gigantesco cristal de Mako puro. Ela está presa lá, em um estado de estase. Imortal, congelada no tempo, mas provavelmente ainda consciente. Temos que saber uma maneira segura de quebrar aquele cristal e livrá-la daquele sofrimento sem comprometer a integridade física dela.
Sephiroth ouviu tudo com atenção redobrada. O nome de Hojo e a menção às células malditas trouxeram um frio cortante à sua espinha, mas, dessa vez, não havia desespero, apenas um foco absoluto. Ele fechou os olhos, processando a logística daquele resgate e o cenário angustiante em que a mãe se encontrava. O silêncio reinou na entrada da caverna por alguns instantes antes dele finalmente se pronunciar.
— Nós iremos... — a voz de Sephiroth ressoou grave e inabalável. Ele abriu os olhos, as íris verdes brilhando com uma resolução ferrenha e implacável. Ele olhou para Vincent e, em seguida, para a imensidão da montanha à sua frente. — Eu quero ouvir minha mãe, pelo menos uma vez.

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