A chuva caía pesada e constante sobre o porto de Ucros, transformando o chão de tábuas e terra em uma massa escorregadia. Walmmore mantinha o capuz do sobretudo puxado sobre a cabeça, sentindo a água fria escorrer pelas laterais de seu rosto e empapar as escamas de obsidiana nos ombros. Nas tavernas escuras do submundo de Ucros, entre mercenários de ocasião e informantes de beco, ela ouvera repetidamente que o território em torno de Narrow Groove era o destino ideal para quem precisava sumir e testar a sorte sem prestar contas a ninguém. Cansada do ar intoxicante de sua terra natal, gastara suas últimas moedas para garantir um lugar no convés de um navio cargueiro.
À medida que a embarcação soltava as amarras pesadas, a carcaça de madeira rangia contra o balanço das ondas escuras. Walmmore apoiou as mãos na amurada áspera e encharcada, sentindo o cheiro acre de maresia, peixe seco e mofo que impregnava o convés. Com o peito contraído, ela viu as silhuetas conhecidas das montanhas e as torres de Ucros desvanecerem lentamente, sendo tragadas pela névoa espessa e pela tempestade. Cada milha percorrida no mar parecia arrancar um pedaço da sua própria identidade; o que ficava para trás era a casa fria da infância, as cinzas da pira de seu pai e o nome de uma família que nunca a aceitara.
Ao seu redor, o navio fervilhava com a presença de passageiros de várias raças, todos amontoados sob as lonas de proteção. Um grupo de elfos de vestes finas permanecia isolado junto ao mastro principal, trocando comentários em sussurros e mantendo um olhar desdenhoso sobre o resto do convés. Mais ao centro, famílias de humanos se apertavam sob mantas de lã molhada, compartilhando pedaços de pão seco e tentando distrair as crianças com pequenos jogos de dados. Em outros cantos, figuras solitárias e taciturnas ajustavam suas adagas na cintura, mantendo a guarda alta.
Walmmore acompanhava o falatório abafado, as gargalhadas breves e o choro das crianças com um sentimento sufocante de desamparo. Vê-los tão ancorados em seus próprios grupos tornava o seu vazio ainda mais evidente. Ninguém falava com ela; apenas lançavam olhares breves e desconfiados para a sobra de seus chifres e escamas sob a sombra do capuz. Ela levou a mão ao peito por baixo do casaco, apertando os dedos contra a superfície rígida do amuleto de seu pai. Naquele navio à deriva sob a tempestade, Walmmore sentiu o peso real do mundo, completamente perdida e sozinha.
O destino final do navio não foi Narrow Groove, mas sim as docas desgastadas de Cidade Velha, a porta de entrada costeira daquela região. Cidade Velha erguia-se como um emaranhado de píeres de madeira carcomida pela maresia, ruas de terra batida infestadas de poeira e construções mofadas de tábua corrida. O ar no porto cheirava a peixe podre, piche queimado e rum barato, dominado pelo ranger constante das placas de madeira dos saloons e pelo barulho de botas pesadas sobre o cascalho. Era um lugar rústico, parado no tempo, onde a lei valia pouco e cada visitante precisava conquistar o próprio sustento no suor ou na lâmina.
Sem moedas e sem conexões, Walmmore começou do nível mais baixo. Aproveitando a densidade muscular e o vigor extraordinário que herdara do sangue draconiano, ela se colocou à disposição nas docas como carguista. Enquanto homens comuns precisavam de duas ou três pessoas para mover engradados pesados de ferro e barris de suprimentos, Walmmore os carregava sozinha sob o sol forte, suportando o peso nas costas sem vacilar. O trabalho braçal e exaustivo rendeu-lhe as primeiras moedas suficientes para alugar um pequeno quarto no sotão de uma hospedaria barata — um espaço exíguo com teto inclinado, cama de palha rangente e uma janela pequena de onde observava o movimento da cidade.
À noite, nas mesas escuras do térreo, Walmmore prestava atenção nas conversas paralelas de mercadores, viajantes e agenciadores do submundo. Seguindo as dicas e rumores que ouvia, percebeu que sua força física e a precisão técnica de sua formação na academia de Veridios valiam muito mais do que moedas de trocado por carregar caixotes. Ela abandonou as docas e passou a aceitar pequenos contratos de proteção, transicionando gradualmente para o mercado de mercenários.
Com o passar dos anos, Walmmore chegou aos 30 anos de idade, moldada pelo pragmatismo e pela sobrevivência crua. Seu sobretudo escuro de couro flexível e seu capuz tornaram-se sua assinatura visual, ocultando parcialmente as escamas de obsidiana e seus pequenos chifres enquanto transitava pelos becos de Cidade Velha. Ela não usava armaduras pesadas; preferia trajes leves que permitiam mobilidade absoluta para o seu trabalho.
Ao longo dessa década no submundo, sua reputação consolidou-se por meio de contratos de extrema eficiência. Walmmore realizou roubos arriscados de joias e documentos confidenciais no interior de cofres bem guardados, infiltrações silenciosas em escritórios de mercadores corruptos e a eliminação cirúrgica de informantes que sabiam demais, executados nas sombras das calçadas antes que pudessem abrir a boca. Quando contratada para sequestros, usava sua força biológica e técnicas de imobilização para render e transportar alvos de alto valor sem disparar alarmes ou deixar rastros. A combinação da disciplina tática da Ordem dos Cavaleiros de Veridios com a resistência inabalável de seu sangue dracônico fez de Walmmore uma das figuras mais temidas e respeitadas do submundo local — uma mercenária letal que cumpria cada contrato até o fim, sem hesitação e sem perguntas.
A viagem para o território de Narrow Groove foi feita a bordo de uma pequena caravana de mercadores. O caminho de terra batida e poeira alaranjada era cortado pelo ranger de rodas de ferro e pelo ronco pesado dos motores a vapor dos veículos mecânicos dos comerciantes mais abastados. À medida que adentravam as terras dos viajantes, o cenário mudava: vilarejos fixos eram raros, dando lugar a arraiais itinerantes cobertos por tendas de tecido colorido, fogueiras acesas ao ar livre e tendais de trocas. Ali, a cultura cigana e nômade dominava. Entre os acampamentos, ouvia-se o dedilhar constante de instrumentos de corda e o som metálico das máquinas potentes de contar moedas que os grandes comerciantes ostentavam nas mesas de negociação.
Walmmore desembarcou no povoado de Vulto dos Ventos, uma pequena cidade de passagem em Narrow Groove erguida sobre estacas de madeira e lonas reforçadas. Ela ajustou o capuz para cobrir os chifres e caminhou entre as bancas de ervas e tecidos até a tenda principal de atendimento, onde fora convocada para um contrato de alto valor.
No interior da tenda, iluminada por lanternas de óleo e perfumada com incenso de mirra, um casal de contratantes a aguardava. Tratava-se de dois prósperos mercadores da raça felinídea — vestindo sobretudos de veludo bordados com fios de ouro e ostentando anéis pesados nos dedos.
— A reputação que precede você no submundo é de alguém que cumpre o que é pago para fazer, sem perguntas — disse o homem, desferindo um olhar avaliador sobre a estrutura física de Walmmore enquanto a esposa ao lado ajustava um colar de pérolas. — Precisamos que um problema seja eliminado pela raiz. Há um acampamento de dragões dominando a rota da garganta rochosa ao norte. Eles pertencem à Tribo Solar.
Ao ouvir o nome da Tribo Solar, Walmmore sentiu o peito apertar dolorosamente. O sangue draconiano em suas veias pareceu pulsar mais quente, e a memória das escamas de seu pai, da honra e dos preceitos de Veridios sobre a santidade dos dragões ecoou em sua mente como um eco distante.
— A Tribo Solar? — perguntou Walmmore, a voz mantida em um tom neutro e grave, embora suas garras se fechassem em punhos por baixo do sobretudo de couro.
— Sim, esses monstros arrogantes — respondeu a mulher felinídea, com um ricto de desprezo na face elegante. — Eles atacaram duas das nossas caravanas blindadas este mês, queimaram nossas máquinas de contagem e dizem que a rota passa por terras sagradas da linhagem deles. Nós compramos os direitos dessa estrada com os nômades locais. Eles estão prejudicando nossos lucros e impedindo a expansão dos nossos negócios. Queremos que você vá até lá e acabe com a tribo. Não queremos negociação; queremos o acampamento dizimado para servirem de exemplo.
A motivação fútil daquele casal de comerciantes ricos — matar dragões nobres apenas para garantir a passagem livre de suas moedas e máquinas — fez o estômago de Walmmore revirar. O conflito moral travava uma batalha silenciosa dentro dela: a mercenária que precisava sobreviver contra a filha de um dragão que conhecia o valor sagrado de seu povo.
Walmmore encarou o casal nos olhos. Ela engoliu o amargor na garganta e deu um passo à frente, sua voz fria e calculada cortando o silêncio da tenda.
— Eu vou até o acampamento da Tribo Solar — declarou ela, mantendo o olhar fixo no casal. — E garanto a vocês dois que trarei exatamente a justiça que essa situação merece.
O casal de felinídeos sorriu de canto, satisfeito com o tom firme da mercenária, inclinando as cabeças ornadas com joias antes de apontarem para a saída da tenda. Walmmore, mantendo o semblante rígido, juntou as palmas das mãos à altura do peito e curvou levemente o tronco no gesto solene de reverência veridiana, a saudação respeitosa dos que reconhecem a marcha da Consciência antes de qualquer palavra.
O casal de felinídeos sorriu de canto, satisfeito com o tom firme da mercenária, inclinando as cabeças ornadas com joias antes de apontarem para a saída da tenda. Walmmore, mantendo o semblante rígido, juntou as palmas das mãos à altura do peito e curvou levemente o tronco no gesto solene de reverência veridiana, a saudação respeitosa dos que reconhecem a marcha da Consciência antes de qualquer palavra.
Assim que cruzou os panos da entrada e pisou na terra seca e poeirenta de Vulto dos Ventos, um turbilhão sufocante tomou conta de sua mente. Ao longo dos últimos dez anos no submundo, tirar a vida de humanos, elfos ou felinídeos tornara-se um processo frio, automatizado pela sobrevivência; ela não sentia peso na consciência ao lâminar aqueles que vendiam vidas ou alimentavam o crime. Mas dragões... dragões eram a raiz de tudo o que restara de sua essência. Matar os seus iguais, extinguir a herança de Benjiro e macular a própria carne dracônica por moedas de mercadores gananciosos era algo completamente inadmissível.
A caminhada até a garganta rochosa ao norte levou poucas horas. À medida que se aproximava do cânion de basalto, o ar tornava-se denso, vibrando com uma quentura sufocante e o cheiro forte de enxofre e ozônio seco.
Não demorou para que vultos imponentes se projetassem das formações rochosas. Em questão de segundos, quatro dragões em formas esguias e cobertos por escamas em tons de dourado e cobre cercaram Walmmore, os olhos felinos brilhando com desconfiança e os dentes à mostra, prontos para soltar labaredas ao menor movimento brusco.
Walmmore manteve os pés firmes no chão de pedregulho, erguendo as mãos abertas de forma serena.
— Eu venho em paz — disse ela, a voz grave ecoando pelo desfiladeiro com tranquilidade calculada. — Preciso conversar diretamente com o líder da sua tribo.
Um dos guardas de escamas acoradas aproximou-se devagar, a respiração quente e ruidosa roçando o capuz de Walmmore. Ele franziu o focinho, inspirando fundo o ar que circundava a jovem, até que o olhar agressivo deu lugar a uma expressão de surpresa.
— O cheiro da rocha vulcânica e da obsidiana... — murmurou o dragão, a voz ressonante ecoando das profundezas do peito. — Você carrega a aura e o sangue da Tribo das Escamas de Obsidiana. Eles são um povo pacífico e honrado, tementes aos preceitos da Consciência. Uma filha de obsidiana não viria com más intenções ao nosso território. Podem baixar a guarda, ela pode passar.
Os outros guardas recolheram as garras e se afastaram, abrindo caminho pelo cânion.
Walmmore engoliu em seco, sentindo o estômago revirar em nós violentos. A ironia dolorosa daquelas palavras pesava como chumbo em suas entranhas: o dragão a deixara entrar puramente pelo respeito ao nome da tribo de seu pai, sem saber que ela trazia no bolso o pedido de massacre assinado por mercadores. Seguindo a passos lentos o guia de escamas douradas em direção ao centro do acampamento da Tribo Solar, Walmmore lutava contra a náusea e a angústia que apertavam seu peito a cada metro avançado.
Walmmore inclinou a cabeça levemente para o guarda de escamas douradas que a acompanhara.
— Obrigada pela condução e pela confiança — murmurou ela, a voz baixa carregada de um respeito sincero.
O guarda assentiu em silêncio e abriu passagem para a câmara principal do cânion. O salão natural era uma vasta caverna de basalto aquecida pelo calor radiante das rochas. Ao fundo, erguia-se um trono esculpido em quartzo bruto e pedra vulcânica, onde repousava o líder da Tribo Solar. Ele era uma figura colossal; suas escamas reluziam em tons de bronze e ouro velho, emanando uma quentura sufocante que fazia o ar ao redor oscilar. Seus olhos, como duas brasas de âmbar derretido, fixaram-se em Walmmore no instante em que ela pisou no recinto.
Ao perceber a presença da visitante, o líder ergueu seu corpo massivo e desceu do trono, o som de suas garras de ferro estalando contra o piso de pedra a cada passo pesado.
— Uma filha da Obsidiana em minhas terras — disse o líder, a voz grave fazendo o chão de rocha vibrar sob as botas de Walmmore. — O que traz você até o coração da minha tribo?
— Fui contratada pelo casal de felinídeos da família Vane — respondeu Walmmore, mantendo os pés firmes e o tom sereno. — Eles queriam o massacre do seu povo para liberar a rota de comércio. Mas eu não estou aqui para cumprir esse contrato. Vim para resolver essa disputa em paz, sem o derramamento do sangue dos meus iguais.
O líder da Tribo Solar soltou um bufo quente, e duas colunas de fumaça subiram de suas narinas.
— Aqueles comerciantes gananciosos acham que a terra sagrada do nosso clã tem preço — ruiu o dragão. — Se você quer encerrar essa disputa sem mortes, a solução é simples: ou eles nos pagam cinquenta mil moedas de ouro como reparação pelas invasões, ou você resolve essa questão em uma luta franca contra mim, sob as leis dos dragões.
— Eu aceito a luta — declarou Walmmore sem hesitar, sabendo que o casal jamais pagaria tal quantia e que o duelo era a única forma de honrar a memória de seu pai e proteger a tribo.
Eles se dirigiram a uma grande arena circular escavada no centro do cânion, cercada por paredes de rocha queimada. Os guerreiros da Tribo Solar se acomodaram nas beiradas para assistir ao confronto.
O líder ocupou o centro do terreno, abrindo suas grandes asas para abafar a luz do sol e encarando a jovem.
— A luta começa ao meu sinal — avisou o líder, ajeitando a postura e cravando as garras na terra. — VAMOS! — rugiu o líder da Tribo Solar.
O urro do grande dragão fez os paredões de basalto da arena vibrarem, espalhando uma onda de poeira e cascalho pelo ar. Antes mesmo que o eco se dissipasse, o líder inclinou o corpo maciço para a frente. Na mente do gigante de bronze, a hesitação de Walmmore em permanecer em sua forma humanoide soava como uma afronta: Por que ela continua sobre duas patas? Será a arrogância de quem viveu entre os povos do continente ou um profundo desrespeito pela nossa verdadeira forma?
Decidido a punir a suposta presunção, o líder projetou sua carcaça com uma velocidade surpreendente para o seu tamanho. Sua cauda espessa cortou o ar como um chicote de pedra, desferindo um golpe horizontal na altura do peito de Walmmore.
Walmmore não recuou. Ela sacou a espada de aço escuro das costas com um estalo metálico limpo e fincou os calcanhares na terra. Em vez de saltar, girou o corpo para o lado e aparou o impacto da cauda com o plano da lâmina. O choque de carne, escamas e ferro produziu um estrondo surdo; a força do golpe empurrou as botas de Walmmore pelo pedregulho, abrindo dois sulcos fundos no chão, mas sua densidade muscular e o sangue de obsidiana seguraram o tranco. Ela absorveu a energia do impacto nas pernas, deu um passo à frente e desferiu uma estocada precisa na articulação da pata dianteira do dragão, usando o cabo pesado da espada para golpear a carne abaixo das escamas com força suficiente para fazer o gigante tombar de joelhos.
O líder rosnou, o hálito quente de enxofre queimando a poeira ao redor. Furioso ao sentir a dor do golpe, ele abriu as imensas asas de bronze para abafar a luz e investiu com uma sequência brutal de patadas. Cada patada caía como uma marreta sobre o solo, esmigalhando as pedras da arena. Walmmore deslocava-se com agilidade cirúrgica, usando os ensinamentos da academia de Veridios para antecipar a trajetória dos ataques: esquivava-se por centímetros, sentindo o deslocamento de ar quente roçar sua pele, e desferia contragolpes sequenciais. Ela atingiu o cotovelo do dragão com o pomo da espada, girou por baixo de sua barriga e desferiu uma joelhada potente contra a caixa torácica dele, ouvindo o estalo da carcaça de bronze ressoar pelo cânion.
Percebendo que a força física da jovem rivalizava com a sua própria, o líder deu um salto para trás e escancarou as mandíbulas, liberando uma torrente de fogo solar brilhante e denso. A onda de chamas douradas engoliu o centro da arena, elevando a temperatura do local a níveis insuportáveis.
Walmmore cruzou os braços cravados de escamas escuras diante do rosto e avançou diretamente contra a tempestade de fogo. O calor extremo queimou o capuz do seu sobretudo, revelando seus chifres negros e seus olhos semicerrados pela concentração. O sangue de obsidiana em suas veias absorveu o impacto térmico, retendo a dor enquanto ela rasgava a cortina de fumaça.
Emergindo do fogo como um vulto implacável, Walmmore deu um salto explosivo, impulsionada por toda a força de suas pernas. Ela atingiu o peito do líder no ar com um tacle de ombro devastador, arremessando o gigante de vários quilos contra o paredão rochoso da caverna. A rocha ruiu em pedaços ao redor do corpo do dragão.
Antes que o líder pudesse se reerguer, Walmmore montou sobre a articulação do pescoço dele, travou as pernas ao redor de seu tronco e pressionou o gume frio e pesado da espada de aço contra a dobra exposta da garganta dele, exatamente no Ponto onde as escamas erguidas deixavam a carne vulnerável.
Ambos arfavam pesadamente. A fumaça do sopro queimado subia devagar entre eles. O líder da Tribo Solar encarou os olhos de Walmmore, vendo neles não a arrogância que imaginara, mas uma combinação aterradora de técnica militar e o vigor indomável de seu próprio povo.
— A luta acabou — disse Walmmore, a voz firme e pausada, o braço sem tremer um único milímetro sobre a garganta do dragão.
O líder da Tribo Solar soltou uma gargalhada grave que fez o peito dele vibrar contra a lâmina de Walmmore.
— Uma vitória limpa e indiscutível — declarou ele, erguendo as garras abertas em sinal de rendição. — A honra da luta é sua, filha da Obsidiana.
Walmmore recolheu a espada com um movimento ágil e deu um passo para trás, descendo do corpo do gigante. O líder ergueu sua carcaça maciça, sacudindo a poeira de basalto das escamas e ajustando as asas de bronze.
— Em respeito à sua força e ao sangue que carrega, eu aceito o seu pleito — disse o dragão, a voz ressoando com imponência. — O casal da família Vane será poupado, e a rota de comércio permanecerá aberta mediante um acordo justo. Meu nome é Solon, líder e guardião da Tribo Solar.
Solon fez um gesto calmo com a garra, indicando a passagem de volta para o interior das rochas.
— Venha. Acompanhe-me até os meus aposentos privados. Precisamos conversar sem o barulho da arena.
Walmmore guardou a lâmina na bainha das costas, vestiu o sobretudo escuro e o seguiu por um corredor reservado, onde a temperatura era mais amena e o chão coberto por tapeçarias densas em tons de carmesim e ouro. O aposento do líder era amplo, iluminado por braseiros suspensos que vertiam uma luz suave sobre móveis de madeira nobre e entalhes dracônicos.
Ao fechar a porta pesada de carvalho, Solon voltou-se para ela, observando-a com curiosidade refinada.
— A força do seu sangue é indiscutível, mas a sua técnica de combate não pertence aos clãs das montanhas — comentou ele, cruzando os braços. — De onde surgiram habilidades tão precisas?
Walmmore manteve a postura ereta, omitindo com cuidado qualquer menção à linhagem elfica de sua mãe.
— Treinei durante anos com a Ordem dos Cavaleiros de Veridios — respondeu ela com sobriedade. — Aprendi a disciplina, a tática e o manejo da lâmina sob os dogmas da Consciência.
Solon assentiu devagar, com um brilho de admiração nos olhos.
— Os Cavaleiros de Veridios... guerreiros de uma retidão ímpar — elogiou o líder. — Um povo que entende a disciplina como extensão da alma.
Assim que as palavras saíram de sua boca, o corpo do grande dragão começou a emitir um brilho dourado e suave. Suas escamas massivas pareceram se retrair e mesclar, reduzindo sua estatura até que a forma bestial desvanecesse por completo. Solon assumiu uma forma meio-humana: um homem alto e elegante, de pele clara, feições finas e cabelos ruivos vívidos que caíam em ondas até os ombros. Ele não possuía a musculatura avantajada dos guerreiros comuns, ostentando um porte esguio e gracioso, vestido com trajes reais de seda negra e mantos bordados em fios de ouro.
Ele deu passos lentos e silenciosos sobre o tapete até parar diante de Walmmore. Solon estendeu a mão fina e envolveu os dedos da jovem, erguendo a mão dela com extrema delicadeza para selar um beijo respeitoso e demorado sobre o dorso de suas escamas escuras.
Walmmore sentiu o toque quente dos lábios dele e, tomada por uma onda súbita de receio, tentou puxar a mão de volta, dando um pequeno passo atrás com o corpo rígido.
Solon não a segurou com força, mas manteve os olhos fixos nos dela, tombando a cabeça levemente para o lado.
— Qual é o seu medo, guerreira? — perguntou ele, a voz agora suave e aveludada.
Walmmore engoliu em seco, sentindo o peito acelerar sob a armadura leve. A proximidade e a postura solene daquele rei dracônico a desarmavam por completo.
— Eu... nunca consumei nada antes — confessou ela em um sussurro hesitante, a honestidade escapando antes que pudesse erguer suas barreiras habituais. — Não estou habituada a este tipo de aproximação.
Solon esboçou um sorriso sereno, desprovido de qualquer zombaria.
— A sua força no combate despertou em mim um interesse genuíno, Walmmore — revelou ele, aprofundando o olhar. — Uma guerreira que carrega a disciplina de Veridios e a fúria da Obsidiana é uma visão rara. Além disso... a sua reputação como uma mercenária implacável e letal já era bem conhecida por mim muito antes de você colocar os pés no meu cânion.
Walmmore paralisou no lugar, os olhos arregalando-se em choque absoluto. A percepção de que sua identidade, sua fama no submundo e seus passos haviam sido mapeados por ele desde o primeiro instante fez seu sangue gelar na mesma proporção em que o ar do aposento parecia escapar de seus pulmões.
— Como... como você sabe sobre mim? — perguntou Walmmore, a voz falhando enquanto sentia um tremor involuntário percorrer seus braços e pernas.
A sensação de ter sua vida e seus passos expostos diante daquele rei fez seu sangue gelar. As escamas em seus ombros e pescoço se eriçaram e ela deu um passo involuntário para trás, sentindo o peito arfar pesadamente sob o couro do sobretudo.
Solon observou o abalo da jovem com um olhar calmo e compreensivo. Ele deu um passo lento à frente, as barras de seu manto de seda roçando suavemente a tapeçaria do chão.
— As tribos pacíficas de dragões mantêm laços invisíveis, mas profundos, Walmmore — explicou ele, a voz mantendo um tom aveludado e sereno. — Nós compartilhamos informações sobre nossas linhagens, sobre os nossos que vagam pelo mundo e sobre tudo o que possa afetar o equilíbrio do nosso povo. Um rei precisa saber de cada detalhe para proteger suas terras e manter a ordem. Quando uma filha da Tribo de Obsidiana começou a erguer o próprio nome como uma mercenária letal nos submundos do continente, a notícia não passou desapercebida pelos clãs.
O peso da revelação desabou sobre as costas de Walmmore. A vergonha de ter sido vista como uma assassina de aluguel por seu próprio povo e a culpa dilacerante por ter aceitado a missão do casal de felinídeos esmagaram sua postura. Ela baixou a cabeça, as lágrimas quentes voltando a queimar em seus olhos enquanto as palavras jorravam desordenadas de sua boca.
— Me perdoe... por favor, me perdoe — pediu ela copiosamente, a voz embargada enquanto apertava os punhos contra o peito. — Eu nunca quis prejudicar o seu povo, eu juro... eu só precisava sobreviver naquelas cidades, eu aceitei o contrato por desespero... perdoe-me por ter colocado os pés aqui com essa intenção, por favor, me perdoe...
— Acalme-se, guerreira — interrompeu Solon suavemente.
Ele deu mais alguns passos em sua direção, cortando a distância que os separava.
— Não há motivo para vergonha e absolutamente nada a ser perdoado — disse ele, a voz soando firme e profundamente reconfortante. — Nós acompanhamos a sua trajetória. Sabemos que, por mais sombrios que tenham sido os trabalhos que você aceitou para garantir a sua subsistência, você jamais levantou a sua lâmina contra um único irmão de sangue. Você manteve a honra do seu pai e a essência do seu sangue intactas, mesmo imersa na poeira e na lama do submundo.
Walmmore deu um passo trêmulo para trás, tentando absorver o alívio e a intensidade das palavras dele, até que suas costas tocaram a pedra fria entalhada no canto do aposento. Sem mais espaço para se afastar, ela parou, o peito subindo e descendo em arfagens rápidas.
Solon continuou avançando sem pressa até parar a poucos centímetros dela, encurralando-a suavemente contra a quina do ambiente. O calor radiante que emanava do corpo do rei dracônico e o aroma sutil de sândalo e fogo aqueceram o ar ao redor de Walmmore, preenchendo o pequeno espaço entre os dois enquanto ele a encarava do alto com um olhar calmo e magnético.
Walmmore desviou o olhar, baixando a cabeça para esconder o turbilhão de emoções e a confusão que a dominavam. O calor que emanava de Solon tornava a proximidade quase palpável, e a sensação de alívio por não ser julgada por sua história pesava no peito.
— Obrigada... — murmurou ela, com a voz grave falhando levemente.
Solon estendeu a mão com calma, tocando a curva do queixo de Walmmore com a ponta dos dedos. O toque era quente e firme, erguendo o rosto dela com delicadeza até que seus olhos fossem forçados a encontrar os dele novamente.
— Se você quiser ir embora agora, eu abro esta porta e a deixo partir sem qualquer impedimento — disse o rei, a voz soando suave, mas carregada de uma honestidade profunda. — Mas devo admitir... durante toda a minha vida, nunca me senti atraído por outra moça que não fosse da Tribo Solar. Você despertou algo diferente em mim, guerreira.
Ele inclinou o corpo ligeiramente, mantendo o olhar fixo no dela.
— Me diga, Walmmore... o que você quer?
Walmmore sentiu o peito arfar sob o couro do sobretudo. A pergunta pairou no ar por longos segundos enquanto ela lutava para organizar os próprios pensamentos. Pela primeira vez em anos de isolamento e focado absoluto no combate, a barreira de sua postura defensiva cedeu à curiosidade que guardara por tanto tempo.
— Eu... tenho uma curiosidade imensa sobre o que é uma consumação — assumiu ela em tom baixo, o olhar hesitante vacilando por um instante —, mas sou completamente inexperiente. Eu não sei como nada disso funciona.
Solon esboçou um sorriso sereno, desprovido de qualquer pressa ou cobrança.
— Isso não é um problema — respondeu ele, a voz baixando para um sussurro aveludado.
Sem afastar a mão do queixo dela, Solon inclinou o rosto e roçou os lábios suavemente contra a maçã do rosto de Walmmore, sentindo a textura firme e aquecida de suas escamas escuras. O contato fez um arrepio percorrer a espinha da jovem. Devagar e sem pressa, ele desceu os beijos pela linha da bochecha, contornando o maxilar até alcançar a curva do pescoço, onde a pele encontrava as primeiras placas de obsidiana. Walmmore prendeu a respiração, fechando os olhos enquanto sentia o calor dos lábios dele contra a sua pele, deixando-se guiar pela sensação inédita que preenchia o aposento.
As mãos de Solon desceram devagar pelos ombros de Walmmore, deslizando o couro pesado do sobretudo para fora do corpo dela. O casaco gasta caiu sobre o tapete com um baque surdo, deixando-a apenas com as roupas de baixo leves. A sensação da pele exposta ao ar aquecido do aposento fez a jovem estremecer, mas o calor constante que emanava do rei mantinha o frio distante.
Com paciência e um cuidado quase cerimonioso, ele desatou as fivelas de couro que prendiam a bainha da espada e a colocou de lado. Em seguida, as mãos finas de Solon encontraram a cintura de Walmmore, puxando-a suavemente para mais perto. A diferença entre a constituição física dos dois era marcante: enquanto Walmmore ostentava a firmeza densa e a rigidez muscular de uma guerreira moldada pelo treino e pela estrada, Solon movia-se com a leveza graciosa e o calor fluido da linhagem solar.
Os lábios dele subiram do pescoço até o contorno do maxilar, alcançando os lábios dela em um beijo calmo, profundo e envolvente. Walmmore prendeu o fôlego por um segundo, sem saber ao certo como reagir, antes de ceder ao ritmo que ele ditava. A boca de Solon tinha gosto de especiarias e do ar quente das montanhas. Lentamente, ela ergueu os braços, apoiando as mãos hesitantes nos ombros de seda dele, sentindo o pulsar constante da vida sob o tecido nobre.
Guia-a passos lentos, Solon conduziu-a em direção ao leito elevado ao fundo do quarto — uma grande cama recoberta por mantas de veludo carmesim e peles macias. Ele a deitou com delicadeza sobre os tecidos, mantendo-se sobre ela sem derramar o peso completo do corpo, dando-lhe tempo e espaço para se acostumar com a proximidade.
— Respire, Walmmore — sussurrou ele contra a pele da fonte dela, roçando os dedos ruivos pelos fios do cabelo de sua nuca. — Não há pressa aqui.
A rigidez que acompanhava Walmmore desde a morte do pai e os anos de isolamento no submundo começou a ceder, músculo por músculo. Seu corpo, moldado pela disciplina militar e pelo hábito constante de antecipar o perigo, levou instantes para compreender a ausência de ameaça. A respiração dela, antes presa no peito, desacelerou em um ritmo trêmulo à medida que a pressão do ambiente dava lugar ao calor acolhedor do aposento.
Solon desfez com paciência os nós delicados da túnica de seda. O tecido nobre deslizou sem ruído por seus ombros esguios, caindo sobre as dobras do veludo carmesim da cama. Sem o filtro das vestes, o contraste entre as duas linhagens tornou-se evidente. Walmmore carregava a constituição densa e firme de uma guerreira terrestre — braços fortes, Ombros marcados por escamas de obsidiana de um negro profundo e fosco, e a pele rija. Solon, por sua vez, ostentava a pele dourada e reluzente da linhagem solar: um tom quente e liso, desprovido da rigidez das armas, mas carregado de uma vivacidade mística.
O movimento no aposento tornou-se desacelerado e medido, conduzido por um respeito silencioso que transformava o toque em algo quase sagrado. Solon movia-se sem qualquer pressa, deslizando as palmas das mãos pela extensão dos braços de Walmmore até o contorno marcado de suas costelas. Cada vez que percebia um travamento na musculatura dela ou um sobressalto na respiração, ele pausava, mantendo apenas a pressão morna das mãos até sentir a tensão se dissolver. Entre um toque e outro, ele aproximava o rosto do ouvido dela e soprava palavras baixas no idioma primordial dos dragões — sílabas guturais, densas e quentes que não soavam como comando, mas como um mantra ancestral de proteção. A sonoridade daquela língua antiga fazia a estrutura óssea e as veias de Walmmore responderem, ressoando no peito dela como uma memória viva que nunca fora esquecida.
A dinâmica entre os dois encontrou um ponto exato de equilíbrio. Walmmore,, via sua densidade muscular ser acolhida sem a necessidade de defesa. Solon não tentava sobrepujar a firmeza de guerreira que ela carregava; em vez disso, usava a fluidez de seu próprio calor solar para emoldurar a rigidez das escamas de obsidiana, amainando a guarda de Walmmore através de um encaixe paciente.
Quando a aproximação se aprofundou e a união finalmente se consumou, a brevidade do desconforto inicial — uma pontada rápida, afiada pela novidade do momento — durou apenas o espaço de um suspiro trêmulo. A dor ruiu quase instantaneamente, engolida por uma onda de quentura radiante que se espalhou das entranhas de Walmmore para o restante de seu corpo. O calor que emanava de Solon atravessou a pele e se misturou ao sangue dela, fazendo com que a essência dracônica de ambos entrasse em uma sintonia profunda.
A cadência que Solon estabeleceu era medida e contida, livre de qualquer precipitação. Cada movimento, cada estocada ritmada, avançava com uma pressão firme e pausada, permitindo que a extensão de seu corpo encontrasse o dela em uma passagem gradual. Não havia violência no ritmo; era um movimento contínuo e profundo, calculado para que a presença dele fosse absorvida em ondas, sem causar sobressaltos ou rompimentos.
A princípio, a reação instintiva de Walmmore, fora tensionar a musculatura do quadril para sustentar e amortecer o impacto. No entanto, à medida que a cadência dele se mantinha constante e suave, ela começou a entender o fluxo. A respiração de Walmmore, antes entrecortada, ajustou-se ao ritmo das arfagens de Solon. Ela permitiu que a rigidez de sua postura ceda espaço a uma resposta fluida, inclinando levemente a cintura para acompanhar a amplitude de cada impulso.
A cada avanço medido de Solon, a resistência natural das escamas de obsidiana cedia lugar à recepção. O movimento de ida e volta tornou-se um diálogo silencioso de corpos: a força contida do rei solar encontrando o acolhimento progressivo da guerreira. Walmmore começou a corresponder à cadência com leves elevações de seu próprio quadril, sincronizando o encaixe de suas pernas e descobrindo uma harmonia orgânica que ela jamais imaginara possuir.
O atrito suave e constante fazia o calor interno de ambos aumentar a cada repetição do ciclo, espalhando uma vibração morna que percorria a espinha de Walmmore até a ponta dos pés. As estocadas, longe de soar como uma imposição, tornaram-se o elo através do qual a energia de duas linhagens antigas se entrelaçava, conduzindo-os juntos em uma dança de peso, ritmo e entrega.
O ritmo dos corpos gradualmente desacelerou até que a penumbra do aposento fosse preenchida apenas pelo crepitar brando dos braseiros e pelo som pesado de suas respirações. A onda de calor que unira as duas linhagens acomodou-se devagar no peito de ambos, deixando um rastro de quietude e cansaço físico.
Walmmore virou-se de lado sobre as peles macias da cama, encolhendo as pernas contra o peito e abraçando os próprios joelhos em uma postura pequena e recolhida. A atitude defensiva e contida, quase instintiva, criava um contraste marcante com a densidade muscular de seus braços e a rigidez das escamas que marcavam suas costas.
Solon não se afastou. Ele acomodou-se imediatamente atrás dela, moldando a extensão de seu corpo quente à curvatura das costas de Walmmore. Envolvendo-a por trás, o rei inclinou o rosto e pousou um beijo demorado e suave sobre a carne exposta do ombro dela, exatamente na transição macia onde a pele encontrava as primeiras placas foscas de obsidiana.
Walmmore fechou os olhos, sentindo o roçar dos lábios dele e o calor radiante que continuava a emanar do peito do dragão contra sua espinha. Dentro dela, uma tempestade silenciosa e profunda começou a se desenhar.
Havia a surpresa involuntária de ter gostado do momento — o alívio físico, a descoberta de uma intimidade desprovida de violência e a rara sensação de ser acolhida sem precisar provar seu valor com uma lâmina em mãos. Mas, entrelaçado a esse conforto, erguia-se um medo gélido e paralisante.
Passara dez anos moldando a própria mente para a solidão, convencida de que o desapego e a frieza eram as únicas armas capazes de protegê-la da dor do rejeitamento que sofrera no passado. Saborear a quentura daquele abraço e a plenitude da união acendia um pavor profundo: o temor de se tornar vulnerável, de criar raízes e de passar a desejar desesperadamente por mais daquela sensação. Para uma mercenária que vivia da poeira e do perigo da estrada, ansiar pelo calor de alguém era o passo mais curto para a ruína.
Logo, a gestação carregou o ritmo cadenciado e lento do mundo, estendendo-se ao longo de nove meses completos. Durante esse tempo, o fruto da união entre a obsidiana e o sol desenvolveu-se no ventre de Walmmore até que o momento da celebração e do parto finalmente chegasse nas terras da Tribo Solar.
A criança recebeu o nome de Khalistro. Desde o primeiro instante, o menino trazia gravado na própria carne o mosaico de suas origens: suas costas e ombros já eram marcados por pequenas escamas reluzentes e negras como a obsidiana de Walmmore, enquanto o topo de sua cabeça era coroado por fios finos e alvos de um cabelo branco impecável. Suas orelhas levemente pontiagudas revelavam, sem espaço para disfarces, o sangue élfico que Walmmore sempre carregara em silêncio. Quando o pequeno abriu os olhos pela primeira vez, encarou o mundo com íris de um amarelo vívido e denso, a marca inconfundível do olhar de Solon.
De Solon, não houve qualquer sombra de negação da paternidade. O rei da Tribo Solar acolheu o filho de braços abertos diante de todo o seu povo, sem hesitação ou questionamentos sobre suas traços mistos. Khalistro foi integrado à tribo com as honras de uma linhagem nobre, destinado desde a infância a receber a formação de um Feiticeiro Solar de Veridios, unindo a magia radiante da linhagem de seu pai à disciplina rígida e tática da Consciência.
O garoto cresceu cercado de respeito, tratado por todos no cânion sob o status e o título de um verdadeiro príncipe.
Para Walmmore, no entanto, aquele título de "príncipe" trazia um incômodo profundo e uma preocupação constante. O problema não era a honra em si, mas a clareza dolorosa com que ela enxergava a sombra que aquele status projetava sobre o garoto.
Ver Khalistro, tão novo, ser cercado por expectativas colossais, obrigações da tribo e a exigência de se tornar um Feiticeiro Solar impecável fazia seu peito apertar. Walmmore conhecia de perto o peso de carregar obrigações rígidas e sabia o quanto o mundo cobra caro daqueles de quem muito se espera.
Ao olhar para o filho sendo tratado como nobre, ela não via privilégio; via apenas a pressão esmagadora e a responsabilidade precoce que já começavam a ser depositadas sobre os ombros de uma criança que mal tivera tempo de descobrir o próprio caminho.
Walmmore manteve Khalistro no cânion da Tribo Solar. Ela sabia que arrastar o garoto para a poeira e para os contratos de sangue do submundo seria sua ruína, enquanto ali ele recebia a formação de Feiticeiro Solar e a proteção do reino.
Aos dez anos de idade, Khalistro exibia a disciplina rígida do treinamento de Veridios. Quando Walmmore ajustou as fivelas de seu sobretudo de couro para partir em uma nova missão, Solon aproximou-se em sua forma meio-humana. Ele tomou a mão de Walmmore, ergueu-a com delicadeza e beijou a palma de sua mão.
— Volte logo — disse Solon, olhando-a nos olhos.
Walmmore desviou o olhar para o chão de pedra, puxando a mão devagar.
— Nós não somos um casal, Solon.
— Você foi quem trouxe a bênção a este reino ao nos dar um herdeiro — respondeu o rei com firmeza tranquila. — Você merece todo o respeito deste povo.
Walmmore murmurou um agradecimento baixo, ajeitando a gola do casaco para esconder o embaraço. Antes que alcançasse a saída, Khalistro correu e a envolveu em um abraço apertado pela cintura.
— Volta logo, mãe... por favor — pediu o menino, encarando-a com seus olhos amarelos.
Walmmore afagou os cabelos brancos do filho, despediu-se e deixou a Tribo Solar.
O novo contrato a levou até as cordilheiras gélidas de Osnain, onde os ventos uivavam com força cortante entre os picos de pedra. O contratante — um nobre obstinado e influente — buscava explorar um antigo santuário de altitude para extrair cristais rósseos e minérios raros, uma área sagrada guardada com rigor pela Tribo dos Ventos.
Ao chegar aos limites do território montanhoso, o representante do nobre ajustou a capa de pele pesada para se proteger das rajadas gélidas e apontou com impaciência para as correntes de ar que blindavam o topo:
— Aquele dragão interrompeu nossas escavações e destruiu o maquinário que levamos até lá! Ele e seu bando alegam que o solo do santuário é profanado com a nossa presença e se recusam a nos deixar aproximar das ruínas. Queremos a cabeça da criatura para tomarmos o pico de uma vez.
Walmmore ouviu em silêncio, a expressão totalmente impassível sob o capuz. Ao contrário da hesitação de anos atrás, não havia incerteza; a maturidade, a experiência acumulada e a plena consciência de sua força lhe davam um porte calmo e resoluto. Ela sabia exatamente como conduzir a situação sem se curvar à ambição do nobre e sem derramar o sangue de seu próprio povo.
Ajustando as fivelas do sobretudo e a bainha da espada nas costas, ela encarou os picos encobertos pela névoa fria. Deu o primeiro passo rumo ao território da Tribo dos Ventos com uma pisada firme e calculada, pronta para impor sua presença e resolver aquele conflito sob suas próprias regras.
Ao cruzar as correntes de ar uivantes das montanhas, Walmmore alcançou o cume onde residia Vaelor, o líder da Tribo dos Ventos. O majestoso dragão, em sua forma humanoide envolta em mantos alvos que esvoaçavam com a brisa contínua, não sacou lâminas nem exigiu um duelo de força ao receber a visitante de escamas escuras.
Em vez de um confronto de armas, Vaelor pediu algo diferente: uma história. Ele queria ouvir os relatos das estradas do submundo, as rotas pelas quais ela passara e a memória do sangue ancestral que ela carregava. Walmmore aceitou o pedido. Sentada diante dele sobre a pedra gélida do cume, narrou suas vivências com sua voz grave e pausada.
Fascinado pela presença e pela profundidade daquela guerreira, Vaelor aproximou-se. Envolvidos por esse fascínio mútuo e pelo respeito ancestral, os dois consumaram sua união no topo do santuário gélido.
Dessa entrega nasceu Izumi, uma jovem dragonesa que carregava na pele a herança exata dos dois mundos: coberta pelas escamas prateadas e esguias do pai, coroada por cabelos brancos e ostentando marcantes olhos cinzas que refletiam a névoa dos picos de Osnain.
A reputação de Walmmore deixou de ser apenas um boato do submundo e passou a ser sussurrada com reverência nas terras dracônicas. Entre as tribos, a história da mercenária híbrida que dominava a Consciência de Veridios e trazia soluções sem derramar o sangue de seus iguais espalhou-se rapidamente. Os líderes das tribos e subtribos já não encaravam a chegada de um mercenário com hostilidade; em vez disso, aguardavam a presença de Walmmore com expectativa, sabendo que ela era a chave para resolver os conflitos trazidos pelos mortais.
Nas fendas vulcânicas e áridas onde habitava a Subtribo das Fagulhas, a aproximação foi explosiva e direta. O líder daquele clã, um dragão impetuoso temperado pelo calor das rochas derretidas, não quis conversas longas: exigiu um teste de resistência física e firmeza de espírito sob a chuva de brasas do território. Walmmore manteve sua postura irredutível de Veridios, permitindo que suas escamas de obsidiana absorvessem o incandescência do ar até que o dragão reconhecesse sua tenacidade. A admiração pela força contida da guerreira culminou em uma união ardente, dando origem a Noxx.
Já nas terras brumosas e úmidas da Subtribo dos Charcos, o encontro deu-se de forma oposta. O senhor daquela região inundada era um dragão recluso, que testou a paciência e a furtividade de Walmmore. Ela rastreou o líder em silêncio absoluto ao longo de dias por entre os pântanos e águas paradas, demonstrando controle impecável sobre seu corpo e ambiente. O respeito velado construído naquela quietude resultou no vínculo do qual nasceria Saphira.
Para os nobres, comerciantes e contratantes que desembolsavam fortunas esperando ver cabeças de dragões decepadas e ruínas banhadas em sangue, o resultado das missões de Walmmore causava profunda perplexidade. A mercenária sempre retornava com os objetivos cumpridos — rotas liberadas, mineradores afastados ou limites de território respeitados —, mas sem deixar um único rastro de massacre. Eles observavam aquela mulher de poucas palavras sem compreender como uma figura do submundo conseguia pacificá-los.
A verdade por trás daquela eficiência pacífica permanecia trancada em um pacto silencioso, conhecido exclusivamente pelos líderes dracônicos e por Walmmore.
Diferente de Khalistro, que permanecera sob a tutela do rei e a disciplina rígida do cânion da Tribo Solar, os outros três filhos foram criados sob o teto da própria Walmmore. Ela estabelecera um lar simples e discreto em Narrow Groove — uma casinha pacata cravada na região de Vulto dos Ventos. Era dali que a mercenária partia, deixando os pequenos sob os cuidados uns dos outros ou sob a vigília de aliados, sempre que precisava se ausentar para cumprir seus contratos no submundo.
O tempo fluiu com a cadência própria da longevidade dracônica e, quando Walmmore alcançou a marca de seus duzentos anos de idade, a estrutura de sua família refletia a união daquelas quatro gerações sob a mesma teto.
Khalistro, o mais velho, aos seus cem anos de idade já se consolidara como um Feiticeiro Solar experiente, servindo como a principal ponte entre a nobreza do cânion e a simplicidade da casinha em Narrow Groove. Abaixo dele vinha Izumi, que aos oitenta anos trazia a elegância prateada das montanhas de Osnain e o olhar cinzento e observador herdado da Tribo dos Ventos. Noxx, com meio século de vida, ostentava o temperamento focado e a vivacidade incandescente da Subtribo das Fagulhas, enquanto a caçula Saphira, de apenas vinte e cinco anos, mantinha a postura cautelosa, calma e profunda da Subtribo dos Charcos.
Apesar das origens em tribos e subtribos diferentes, a dinâmica entre os irmãos desenvolveu-se de forma surpreendentemente harmoniosa. A convivência na casinha de Narrow Groove fortaleceu os laços entre eles, criando um núcleo unido pelo sangue de Walmmore e pela rotina compartilhada durante suas ausências.
Essa proximidade estendia-se com frequência à Tribo Solar. Solon jamais restringiu seu afeto apenas a Khalistro; pelo contrário, recebia Izumi, Noxx e Saphira no cânion com portas abertas e um carinho paternal genuíno. Ele observava o crescimento dos quatro com visível apego, enxergando naquela prole diversa um grupo promissor de futuros guerreiros — jovens que uniam o sangue das grandes linhagens à disciplina tática e à resiliência que herdaram de Walmmore.
Walmmore observava a empolgação de Solon com um incômodo silencioso que nunca a deixara por completo. Para ela, a insistência velada em encarar a prole como uma futura geração de guerreiros soava como uma repetição dolorosa do ciclo rígido que moldara sua própria juventude. Walmmore conhecia o preço de carregar armas e viver em função da batalha, e a ideia de ver seus filhos destinados ao mesmo fardo militar, treinados para servirem como escudos de territórios ou símbolos de poder, fazia sua mandíbula enrijecer.
Diferente de Solon, que mantinha um afeto protetor e próximo de todos os quatro, os outros líderes não demonstravam qualquer interesse no crescimento diário de Izumi, Noxx ou Saphira. Para os senhores dos Ventos, das Fagulhas e dos Charcos, a paternidade não envolvia criar, ensinar ou conviver. No entanto, a busca por Walmmore não fora mero acaso: residia na natureza dos dragões machos — especialmente daqueles que lideravam clãs e territórios — um impulso biológico e ancestral avassalador de deixar proles. Era uma necessidade visceral de perpetuar a própria linhagem, espalhando sangue forte pelo mundo para garantir que sua herança sobrevivesse ao tempo, mesmo que nunca voltassem a ver os filhotes.
Para esses líderes, uma vez garantido o nascimento de um descendente saudável, o ciclo estava concluído; a semente do clã fora lançada e a exigência de sua essência dracônica, satisfeita. Walmmore entendia esse instinto primitivo das grandes feras, mas recusava-se a aceitar que o destino de seus filhos fosse ditado pela indiferença dos pais ou pelas ambições de Solon. Dentro da casinha pacata de Narrow Groove, longe dos tronos e das expectativas das tribos, ela fazia questão de mantê-los protegidos de qualquer rédea que tentasse transformá-los em meros soldados.

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