O cheiro de café recém-coado já dominava o pequeno apartamento antes mesmo que o sol iluminasse completamente as ruas de Kalm.
Duas semanas. Esse foi o tempo exato que Lucia levou para transformar a hospitalidade inesperada de Genesis em uma convivência genuinamente pacífica. Nos primeiros dias, seu corpo estranhou a maciez do colchão de plumas e a ausência completa de perigo, mas a exaustão acumulada de anos finalmente cobrou a conta. Quando ela conseguiu dormir uma noite inteira e acordou sem sobressaltos, soube que a trégua havia começado.
O passado de veterana não havia desaparecido, apenas se adaptado àquela nova realidade de forma mundana e tranquila. Na primeira semana, Lucia consertou silenciosamente a dobradiça da porta do armário da cozinha que rangia sempre que era aberta. Depois, reorganizou a pequena despensa para que todos os mantimentos ficassem visíveis e com acesso fácil. Quando se sentava na sala, escolhia instintivamente a poltrona com a melhor visão da rua lá fora — não por medo de uma emboscada, mas pelo puro e simples costume de quem apreciava observar o ambiente ao seu redor.
Sem que nenhum dos dois precisasse discutir regras de convivência, Lucia adotou uma postura de gentileza prática dentro do apartamento. Ela tomou para si as tarefas mais manuais da casa, garantindo que o espaço funcionasse com uma fluidez silenciosa. Era a forma dela de agradecer pelo teto, protegendo o tempo e a quietude que o anfitrião precisava para o próprio trabalho.
Naquela manhã, Genesis estava sentado à pequena mesa encostada na janela, banhado pela luz clara do amanhecer. Ele usava óculos de leitura de armação fina e mantinha a postura impecavelmente reta enquanto a caneta deslizava pelo papel. Uma xícara de chá intocada esfriava ao seu lado.
Lucia caminhou pela sala em passos silenciosos — um hábito antigo que ela nunca perderia —, segurando duas canecas quentes. Ela parou bem ao lado da cadeira dele e pousou o café fresco na mesa, substituindo o chá esquecido. Em um gesto solto e familiar que evidenciava o quanto havia baixado a guarda, a atiradora apoiou a mão no ombro de Genesis, debruçando-se levemente para ler as linhas recém-escritas no papel.
— Sabe... — Lucia comentou, a voz mansa carregando um tom de humor observador e experiente. — Para alguém que está escrevendo uma resenha sobre um romance tão previsível, você gasta um vocabulário muito bonito para dizer que o protagonista tomou uma decisão estúpida.
Genesis parou de escrever, mas não desviou os olhos do papel. O toque amigável no ombro e a presença dela já haviam se tornado uma parte natural e bem-vinda de suas manhãs. Ele soltou uma risada baixa, o som vibrando de forma confortável.
— A sutileza é uma arte que a literatura exige, minha cara — Genesis respondeu, a voz aveludada e polida. Ele recostou a cabeça levemente para trás, olhando para ela pelo canto do olho com um sorriso brando. — Nem todos os conflitos do mundo podem ser resolvidos com a precisão de um disparo limpo e direto, como você faria. O autor apenas escolheu o caminho mais cênico para o desastre.
Lucia deu um sorriso de canto, apertando o ombro dele de leve antes de se afastar para dar um gole no próprio café.
— Caminho cênico ou não, ele perdeu a mão na construção do clímax no terceiro capítulo. É só dizer isso na resenha — ela retrucou de forma descontraída, encostando o quadril no batente da janela, observando o movimento tranquilo da rua. — Você está sendo generoso demais com ele.
— A generosidade é o privilégio de quem já não precisa carregar o peso do mundo nas costas, Lucia — ele pontuou com uma sabedoria leve, girando a caneta entre os dedos. — Além disso, se eu destruir a obra nas páginas do jornal local, a bibliotecária nunca mais me deixa pegar os clássicos na seção reservada. É uma questão de sobrevivência diplomática.
Lucia balançou a cabeça, rindo soprado para dentro da caneca. A facilidade com que conversavam sobre coisas tão triviais ainda a surpreendia de vez em quando, mas, acima de tudo, a confortava. Ela finalmente tinha um momento de paz, apenas aguardando o dia em que o passado bateria àquela porta, não como uma ameaça, mas na forma de um novo amigo.
Lucia balançou a cabeça, rindo soprado para dentro da caneca diante da resposta diplomática dele. Ela deu um último aperto amigável no ombro de Genesis antes de soltá-lo por completo, contornando a pequena mesa para puxar a cadeira à frente dele e finalmente se sentar.
Ela deu mais um gole no café e pousou a caneca sobre a madeira. Com a mão livre, puxou a faca e começou a cortar um pedaço do pão fresco que haviam comprado mais cedo. A lâmina deslizou pela casca crocante enquanto ela soltava um suspiro quase imperceptível, os ombros relaxando um pouco mais ao se acomodar na cadeira.
— Para ser sincera... eu estou um pouco ansiosa para amanhã — ela confessou, a voz ganhando uma nota rara de expectativa. Ela passou um pouco de manteiga na fatia, um sorriso saudoso e inevitável curvando os lábios. — É difícil não ficar imaginando como ele está agora. Aquele garoto era um desastre completo quando o assunto não envolvia treinamento tático.
Lucia deu uma pequena mordida no pão, mastigou devagar e apontou a faca de forma descontraída na direção de Genesis, o olhar ganhando um brilho divertido.
— Será que ele finalmente aprendeu a cortar aquele cabelo direito? Ou pelo menos a pentear a franja que vivia caindo no olho dele? — ela perguntou, o tom assumindo a cadência afetuosa e intrometida de uma irmã mais velha lembrando do caçula desajeitado. — E as roupas? Pelos deuses, me diga que ele aprendeu a se vestir bem e parou de aceitar qualquer coisa que a corporação jogava no armário dele.
Genesis não conseguiu conter a diversão. A imagem mental que Lucia guardava do jovem recruta oprimido contrastava de forma tão brutal e maravilhosa com o homem de 32 anos, pai de família e adepto de ternos de lã fria feitos sob medida e roupas confortáveis, que a ironia era simplesmente deliciosa demais.
Ele soltou uma risada aberta, o som caloroso preenchendo o espaço iluminado do apartamento, e ergueu a própria xícara de café.
— Ah, minha cara... eu jamais ousaria estragar a surpresa — Genesis respondeu, os olhos azuis faiscando de pura diversão por cima da borda de porcelana. Ele deu um gole calmo, saboreando a bebida antes de abrir um sorriso misterioso e satisfeito. — Tudo o que eu posso dizer é que você vai precisar julgar isso com os próprios olhos.
Lucia deu de ombros, usando a ponta da faca para empurrar umas migalhas invisíveis no prato, ainda sustentando aquele tom de humor.
— Bom, então eu já assumo que é a Inome quem escolhe e compra as roupas dele — ela deduziu, parecendo bastante convencida de sua própria lógica. — Porque o garoto que eu conhecia tinha um péssimo senso de moda. Se deixassem por conta dele, era capaz de sair na rua parecendo um manequim de loja de ferragens, vestido de preto da cabeça aos pés.
Genesis riu de forma aberta, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto apoiava o cotovelo na mesa.
— Você está se precipitando, minha cara — ele rebateu, o olhar azul transbordando uma ironia mansa. — Subestima muito a capacidade de adaptação do nosso antigo herói.
Lucia apenas sorriu, encostando-se no encosto da cadeira enquanto envolvia a caneca de café com as duas mãos para sentir o calor da cerâmica.
— Talvez — ela cedeu, a expressão amolecendo até se tornar genuinamente afetuosa. — Nós trocamos algumas mensagens pelo PHS ontem à noite, para combinar o horário. Ele não mandou nenhuma foto dele, claro. Mas me mandou algumas fotos da família. Da esposa... segurando a filha no colo, bem por cima do barrigão da nova gravidez.
Ela olhou para o fundo escuro do café, o sorriso ganhando uma nota de reverência silenciosa. O peso daquelas décadas de sangue e poeira parecia finalmente muito distante.
— É difícil de acreditar, sabe? — Lucia murmurou, a voz soando quase vulnerável. — Aquele garoto engessado, que não sabia o que fazer com as próprias mãos quando alguém o abraçava... virou um pai de família. Ter uma casa, uma esposa, filhos... é o tipo de paz que a corporação jurava que ele nunca seria capaz de ter.
Genesis acompanhou a reflexão com um silêncio respeitoso. Ele bebeu o restante de seu café, a expressão teatral dando lugar a uma compreensão profunda e madura, forjada por quem também havia precisado se desconstruir para sobreviver.
— A corporação entregou uma espada nas mãos dele e tentou convencê-lo de que aquilo era o mundo inteiro, Lucia — Genesis respondeu, a voz aveludada preenchendo o espaço iluminado do apartamento com uma verdade serena. — Mas o amor tem uma forma muito peculiar de expandir os nossos horizontes. A Inome não apenas o vestiu bem ou o ensinou a sorrir... ela deu a ele um motivo para soltar a espada. O que você verá amanhã não é uma arma tentando se passar por um homem comum. É apenas um homem que, finalmente vive uma vida mundana, comum, para alguns entediante...., e vive perfeitamente em paz com isso.
Lucia manteve o olhar fixo nele por alguns instantes, absorvendo a tranquilidade e a verdade daquelas palavras. Aos poucos, um sorriso enviesado, carregado de uma provocação amigável, despontou no rosto dela.
— Você também passou por esse exato processo, não é? — ela constatou, apoiando o queixo na mão de forma relaxada. — Porque, sendo bem honesta... quando eu hackeei os servidores antigos da Shinra buscando o seu paradeiro, o seu perfil psicológico não era nada lisonjeiro. Os relatórios diziam coisas terríveis sobre você. Destacavam que você era insuportavelmente egocêntrico, arrogante e dono de uma competitividade cega.
Genesis não tentou se defender ou justificar o passado. Pelo contrário, ele soltou uma risada rica e genuína, jogando a cabeça levemente para trás, achando uma graça sincera no fantasma de quem ele costumava ser sob o teto da corporação.
— A Shinra sempre careceu de qualquer senso poético, mas devo admitir que os analistas deles eram impecáveis na precisão — ele concordou, erguendo a xícara em um brinde bem-humorado à própria arrogância do passado.
O sorriso dele, no entanto, suavizou logo em seguida. Genesis apoiou os braços na mesa e olhou para Lucia, o tom de voz ganhando uma empatia acolhedora, típica de quem reconhece um igual.
— Mas veja só as ironias do destino, Lucia... Se até o monstro egocêntrico e competitivo daqueles relatórios conseguiu soltar as armas e aprender a viver em paz — ele disse, apontando de leve com a caneta na direção dela —, imagine você, minha cara, que acabou de colocar os pés nesse mesmo processo. O mundo lá fora é bem menos hostil quando a gente para de atirar nele.
Lucia concordou com um aceno leve, o sorriso ainda brincando nos lábios. Ela esticou o braço, puxando o PHS do bolso da jaqueta que estava pendurada no encosto da cadeira. A tela acendeu com um toque rápido, iluminando o rosto dela enquanto a foto voltava a aparecer no visor.
Ela ficou observando a imagem em silêncio por alguns instantes, o polegar roçando a borda do aparelho com um carinho genuíno.
— A Kether é a cara dele — Lucia comentou, a voz suave, analisando a imagem. — Os mesmos traços, o mesmo formato do rosto. É quase uma cópia em miniatura.
Genesis recostou-se na cadeira, cruzando os braços com um sorriso de quem conhecia muito bem a pecinha de quem estavam falando. Ele convivia o suficiente com a família em Costa del Sol para saber que a aparência angelical da criança era apenas metade da história.
— Fisicamente, é impossível negar a paternidade — ele concordou, os olhos azuis brilhando com uma diversão explícita. — Mas, em questão de temperamento... eu me pergunto constantemente se o Sephiroth também era um pequeno furacão incontrolável na infância, exatamente como ela é.
Lucia piscou, erguendo os olhos do visor do PHS. A incredulidade tomou conta das feições dela por um segundo antes que ela soltasse uma risada aberta e espontânea.
— Espera aí... você está me dizendo que a menina é terrível? — ela perguntou, achando a ideia simplesmente fantástica. Imaginar a filha do antigo e engessado General da Shinra como uma criança caótica e cheia de energia era uma ironia maravilhosa demais para ignorar.
Genesis riu, um som que carregava uma mistura de exaustão afetuosa e puro fascínio.
— Terrível é um eufemismo brando, Lucia — ele respondeu, gesticulando com a mão de forma leve antes de apoiar o braço na mesa. — Atualmente, ela desenvolveu uma obsessão implacável por literatura. Ou melhor, por histórias infantis. Ela me persegue pela casa inteira implorando para que eu leia livros para ela, o tempo todo. E garanto a você, a pequena tem uma determinação assustadora. Ela simplesmente não desiste até conseguir exatamente o que quer.
Ele suspirou, encostando-se na cadeira, mas o sorriso frouxo no rosto o entregava completamente.
— E quando ela percebe que estou ocupado e não estou dando a atenção devida, ela usa o recurso final: simplesmente sai correndo, rindo a plenos pulmões pela praia, me obrigando a largar tudo e correr atrás dela — ele detalhou, balançando a cabeça em uma falsa reprovação. — É um jogo de chantagem emocional perfeitamente executado só para ganhar exclusividade. Mas... admito que talvez seja apenas a idade. Dizem que os três anos são a fase dos furacões incontroláveis.
Lucia ouviu o relato com um sorriso largo, os olhos escuros brilhando de diversão enquanto observava o poeta. A imagem mental que ele pintava era ao mesmo tempo absurda e incrivelmente reconfortante. Ela deu mais um gole no café, saboreando a cena.
— Sabe, eu acho genuinamente engraçado — Lucia comentou, a voz mansa e transbordando uma calma sincera. — A facilidade absurda que você tem com as crianças dos seus amigos. O grande e temido Genesis Rhapsodos, reduzido a um refém de uma menininha, correndo pela areia para ler livrinhos. Se me contassem isso há vinte anos, eu diria que era um delírio.
Genesis ergueu a xícara, recebendo a constatação dela como um elogio da mais alta honra.
— As crianças, minha cara, são o público mais exigente e honesto que um homem pode ter — ele rebateu de forma polida, embora os olhos azuis carregassem um carinho evidente. — E, sinceramente, ser derrotado por uma risada infantil é um destino muito mais digno do que qualquer glória que a corporação tentou nos vender.
O sino da porta do café soou de forma suave, misturando-se ao burburinho tranquilo dos clientes habituais que buscavam refúgio do vento matinal. A mesa redonda e espaçosa que Lucia e Genesis ocupavam perto da janela estava incrivelmente farta. Uma profusão de aromas quentes pairava sobre a toalha de tecido claro: fatias grossas de bolo recém-assado, pães macios que ainda soltavam vapor, pequenos potes de cerâmica com manteiga fresca e geleias artesanais de frutas vermelhas, ladeados por bules de café forte e um chá claro de ervas.
Lucia havia escolhido sua roupa com cuidado. Vestia peças confortáveis, mas perfeitamente adequadas para a ocasião, trocando as roupas de ficar em casa por uma calça escura de bom caimento e um suéter macio e estruturado que afastava o frio típico de Kalm. Do outro lado da mesa, Genesis exibia um terno ligeiramente diferente do habitual, confeccionado em um tom de cinza mais claro, mantendo sua elegância sem esforço. Ele bebia o chá em goles pausados enquanto lia com interesse genuíno um livro de capa dura intitulado A Botânica e as Flores de Gaia.
Lucia partiu um pedaço de pão com os dedos, mas não o levou à boca. Ela acompanhou o movimento da rua pela vidraça por um instante antes de soltar um suspiro longo, apoiando os antebraços na mesa, e finalmente erguer o olhar para o poeta.
— Eu estou muito nervosa — ela confessou, a voz saindo baixa e honesta, despida de qualquer filtro. A ansiedade era inteiramente humana, vibrando de forma inegável no tom dela enquanto batucava levemente os dedos na borda do prato.
Genesis não riu nem minimizou a tensão da amiga. Com um gesto polido, ele marcou a página com uma fita de seda e fechou o livro de forma mansa, voltando toda a sua atenção para ela. O olhar azul transmitia uma empatia segura e profundamente carinhosa.
— É perfeitamente natural, minha cara. Duas décadas não é um intervalo de tempo que se possa ignorar com facilidade — ele disse, a voz aveludada carregando um conforto acolhedor. — Mas eu lhe garanto: a ansiedade vai desaparecer no exato instante em que vocês trocarem a primeira palavra.
Ele ergueu o braço de forma elegante, puxando discretamente a manga do terno para consultar o relógio clássico preso ao pulso.
— Se os meus cálculos estiverem corretos, não teremos que esperar muito — Genesis avaliou, voltando a encará-la com um sorriso tranquilizador. — A caravana de passageiros que faz a rota de Costa del Sol até aqui é conhecida por ser rigorosamente pontual. As estradas estão seguras e limpas hoje, o que significa que ele deve cruzar a entrada de Kalm em questão de minutos.
O sino da porta soou mais uma vez, cortando o murmúrio suave do café. Quando Lucia ergueu os olhos para a entrada, o ar simplesmente travou em sua garganta.
A figura que cruzou a porta não era o adolescente tenso e engessado que ela guardava na memória, sempre enfiado em uniformes táticos rígidos e tão privado de convívio social que mal sabia como agir fora de uma zona de combate. Sephiroth vestia um sobretudo casual de lã escura e roupas confortáveis, perfeitamente adequadas para uma viagem de caravana. Em um dos ombros, ele carregava uma mochila de lona simples. O que ela viu foi um homem feito, dono de si, exalando uma presença sólida e tranquila que estava a anos-luz de distância do garoto assustado que a corporação tentava moldar.
Os olhos felinos varreram o ambiente e pararam na mesa perto da janela. Sephiroth estancou no meio do salão. Os lábios dele se entreabriram, o choque genuíno quebrando completamente a sua postura firme. Por um segundo, a vulnerabilidade no rosto dele foi idêntica à do menino de quatorze anos que ela costumava proteger.
Aos poucos, o choque cedeu. A surpresa derreteu, dando lugar a um sorriso brando, profundamente aliviado e iluminado, e ele voltou a caminhar em direção à mesa.
Lucia não pensou duas vezes. Ela levantou de prontidão, a cadeira arrastando no chão enquanto ela contornava a mesa farta e encurtava a distância entre os dois. Sem qualquer barreira, ela jogou os braços ao redor dele, puxando-o para um abraço apertado e caloroso. Sephiroth correspondeu no mesmo instante, soltando o peso da mochila no chão para poder envolvê-la com os dois braços, abaixando um pouco a cabeça para retribuir o abraço da antiga parceira.
— Nossa, Sephiroth! Olhe só para você! — Lucia exclamou, a voz embargada por um riso frouxo e emocionado. Ela deu dois tapinhas firmes nas costas dele antes de se afastar apenas o suficiente para segurá-lo pelos ombros, avaliando-o de cima a baixo com um orgulho escancarado. — Você cresceu! Pelos deuses, virou um homem imenso. E que cabelão é esse agora?
Sephiroth soltou uma risada baixa, o peito vibrando com um som grave e genuinamente feliz, quase tímido diante da inspeção afetuosa e intrometida que só uma irmã mais velha saberia fazer.
— É muito bom ver você também, Lucia — ele murmurou, a voz mansa carregando um afeto que ele nunca precisou disfarçar perto dela. — Faz muito tempo.
A poucos passos dali, Genesis acompanhava a cena confortavelmente encostado em sua cadeira. O livro sobre as flores de Gaia repousava fechado sobre a toalha da mesa, esquecido em meio aos bolos e pães. Com um sorriso largo e genuinamente feliz desenhado no rosto, o poeta ergueu a xícara de porcelana, bebericando mais um gole de seu chá enquanto apreciava, em um silêncio satisfeito, o reencontro daquela família que o mundo tentou destruir.
Lucia não quebrou o contato de imediato. Com um sorriso largo que ainda iluminava seu rosto, ela segurou a mão de Sephiroth com firmeza e o puxou gentilmente, guiando-o até a cadeira vazia de frente para ela.
Sephiroth se deixou levar com uma facilidade que, no passado, seria impensável. Ele puxou o assento e se acomodou, ajeitando a mochila de lona confortavelmente sobre o próprio colo antes de descansar os braços na mesa farta. Genesis, assumindo seu papel de anfitrião com um aceno polido e satisfeito, empurrou uma xícara limpa na direção do platinado e a encheu com o café quente.
— Então... — Lucia começou, apoiando o queixo em uma das mãos, os olhos escuros fixos nele com uma curiosidade genuína e afetuosa. — Me conte tudo. Perguntas triviais primeiro: como você conseguiu sair daquela empresa? O que você ficou fazendo durante todo esse tempo longe de Midgar?
Sephiroth retribuiu o olhar de forma serena. Ele pegou uma fatia do pão fresco sobre a toalha, partindo um pedaço pequeno com os dedos, sem pressa.
— A Shinra deixou de ser uma opção no instante em que a verdade veio à tona — ele respondeu, a voz grave e mansa, mas carregada de uma repulsa antiga e contida ao mencionar a corporação. — Inome e eu tivemos acesso a alguns arquivos confidenciais escondidos nos subsolos da Mansão Shinra. Documentos que o Hojo fez questão de enterrar e manter em segredo por décadas.
Ele fez uma pausa curta, levando o pedaço de pão à boca e mastigando devagar. Lucia ouvia atentamente, absorvendo a tranquilidade com que ele falava sobre algo que, ela sabia, devia ter sido o maior abalo de sua vida.
— Eu descobri que ele escondeu a identidade da minha mãe a vida inteira — Sephiroth continuou, bebendo um pouco do café logo em seguida. Ele abaixou a xícara de porcelana, os olhos felinos focados diretamente nela, transmitindo uma clareza absoluta. — Descobri que ela não era uma incubadora falha, como ele sempre me fez acreditar. Ela tinha um nome, e uma história. Lucrecia Crescent.
Lucia franziu os lábios levemente, sentindo o peso daquela revelação, mas manteve a postura acolhedora, deixando-o falar no próprio tempo.
— Quando tivemos a confirmação sobre o que realmente aconteceu com ela... eu não pensei duas vezes — ele explicou de forma breve, resumindo a jornada intensa para não pesar o reencontro. — O repúdio por tudo o que a diretoria representava e pelo que Hojo fez com a minha família foi absoluto. Inome e eu desertamos naquela mesma noite. Deixamos tudo para trás e partimos pelo continente para buscá-la.
Ele deu mais um gole no café, a expressão perfeitamente pacífica, demonstrando que, apesar de toda a caçada e do peso daquelas descobertas, abandonar a espada da corporação havia sido a escolha mais simples e libertadora de sua vida.
Genesis acompanhava a conversa em um silêncio confortável, os olhos azuis transbordando uma satisfação genuína ao ver a dinâmica tão familiar se desenrolar à sua frente. Ele levou a xícara de porcelana aos lábios, bebericando o chá quente, e com a mão livre reabriu o livro sobre as flores de Gaia, voltando a ler as páginas enquanto deixava que os dois tivessem o espaço necessário para resgatar o tempo perdido.
Sephiroth terminou de mastigar o pedaço de pão e pousou as mãos sobre a mesa, voltando toda a sua atenção para a mulher à sua frente.
— Mas e você, Lucia? — ele perguntou, o tom grave carregando um interesse sincero. — O que você fez assim que nós perdemos o contato?
A atiradora soltou um suspiro leve, recostando-se um pouco mais na cadeira enquanto as memórias daquela época turbulenta voltavam à mente.
— Quando o nosso antigo esquadrão simplesmente desmoronou... as coisas perderam o sentido — Lucia explicou, a voz mansa, mas pontuada por uma antiga frustração. — O Glenn sumiu de forma repentina e sem dar nenhuma resposta. Logo depois disso, o Matt acabou se afastando e cada um precisou tomar um rumo solitário. Percebi que a lealdade à corporação não valia mais nada, então decidi apagar os meus rastros e abandonar a companhia de vez.
Ela levou a caneca aos lábios, dando um gole demorado no café antes de continuar, abrindo um sorriso enviesado e um tanto irônico.
— Passei todos esses anos sobrevivendo por conta própria, rastreando e vendendo as informações confidenciais da Shinra para quem estivesse disposto a pagar.
Para a surpresa dela, Sephiroth não esboçou nenhum julgamento moral ou tático. Pelo contrário, os ombros largos dele sacudiram enquanto ele soltava uma risada aberta e descontraída, achando uma graça enorme na ironia daquela situação.
— Então parece que nós acabamos sabotando o seu mercado na época — Sephiroth comentou, os olhos felinos brilhando com um humor raro. — Durante os anos em que Inome e eu vivemos foragidos nas regiões geladas, nós passamos a vazar os relatórios e os crimes da corporação para o público, totalmente de graça.
Lucia parou com a caneca a poucos centímetros do rosto. Ela piscou, a mente conectando as peças soltas de seu antigo ofício com uma clareza repentina. Ela pousou o café na mesa, rindo soprado.
— Espera aí... — ela ponderou, erguendo as sobrancelhas em pura compreensão. — Houve uma época em que pacotes de dados altamente restritos começaram a pipocar do nada na rede. Eu tive acesso a algumas dessas informações adicionais e sempre fiquei me perguntando quem estava escancarando o banco de dados da Shinra com tanta facilidade e sem cobrar um único Gil por isso.
Sephiroth abriu um sorriso tranquilo, inclinando levemente a cabeça em um gesto afirmativo, divertido com a coincidência.
— Provavelmente, éramos nós.
Lucia soltou uma risada aberta, debruçando-se um pouco sobre a toalha farta da mesa para dar um empurrãozinho de leve no ombro dele. O gesto era tão natural e afetuoso que apagava completamente as duas décadas em que estiveram separados.
— Quem diria... — ela provocou, os olhos escuros brilhando de pura diversão. — O menino de ouro da Shinra, o soldado certinho que seguia absolutamente todas as regras, acabou virando um irresponsável espalhando segredos de estado de graça por aí.
Sephiroth balançou a cabeça, o sorriso tranquilo não abandonando o rosto em nenhum momento. Ele aceitou o empurrãozinho sem recuar um milímetro, ajeitando a postura na cadeira de forma relaxada, parecendo perfeitamente confortável com a intimidade da brincadeira.
— E mesmo assim, eu ainda diria que você consegue ser bem pior do que nós, Lucia — ele rebateu, o tom grave assumindo uma ironia mansa e familiar. Ele apontou brevemente para ela de forma descontraída antes de voltar a segurar sua xícara. — Nós estávamos apenas arruinando a reputação da diretoria. Você estava ativamente lucrando em cima do desespero deles.
Genesis, ainda com os olhos fixos nas páginas de seu livro sobre botânica, apenas virou a folha com a ponta dos dedos e soltou um murmúrio baixo e elegante de concordância, um sorriso satisfeito curvando os lábios enquanto saboreava a interação sem precisar dizer uma única palavra.
Lucia não se deu por vencida na provocação. Em vez de recuar, ela se inclinou ainda mais sobre a mesa, os olhos escuros brilhando com uma curiosidade radiante e quase infantil. Com uma animação escancarada, ela esticou a mão e segurou com firmeza o antebraço de Sephiroth, apertando-o de leve como se quisesse ter certeza de que o homem à sua frente era realmente de carne e osso.
— Agora chega de falar da Shinra, me conta...! — ela exigiu, a voz carregada de um tom brincalhão e completamente maravilhado. — Você, amando? Como assim? Eu preciso dos detalhes. Ela usou algum feitiço de alto nível em você? Uma matéria de controle mental, talvez? Porque o Sephiroth que eu conhecia mal sabia sorrir para uma foto, quem dirá conquistar o coração de alguém para construir uma família!
Sephiroth soltou uma risada rica e profunda, o som preenchendo o espaço entre eles com uma naturalidade que aqueceu o peito de Lucia. Ele negou com a cabeça, abaixando o olhar por uma fração de segundo. Quando voltou a encará-la, o humor brincalhão havia se misturado a uma ternura palpável e inabalável.
— Nenhum feitiço, Lucia — ele respondeu, a voz mansa transbordando uma paz absoluta. Ele descansou a mão sobre a mesa, os traços felinos suavizados pela simples menção da esposa. — Inome apenas... olhou para mim de um jeito que a corporação nunca fez. Ela viu o que ninguém mais via. Ela enxergou o meu lado mais frágil e humano, num momento em que até eu mesmo acreditava que ele não existia.
Ele fez uma pausa, o sorriso brando ganhando um contorno reverente, cheio de um orgulho manso que pertencia apenas a um pai de família.
— E ela me mostrou que, nessa humanidade, não havia fraqueza — Sephiroth concluiu, olhando-a com a tranquilidade de quem finalmente havia encontrado o próprio lugar no mundo. — Havia amor, e uma devoção inteira. Inome me deu um motivo para ser mais do que uma arma.
Lucia soltou um suspiro teatral, juntando as duas mãos na altura do peito com um brilho de pura adoração zombeteira no olhar.
— Ai, que bonitinho! — ela exclamou, a voz afinando de propósito para provocá-lo, o sorriso rasgando o rosto. — Olhem só para ele... meu menino apaixonado! Quem diria que por baixo de toda aquela armadura e daquela cara amarrada existia um romântico incurável?
Sephiroth balançou a cabeça, rindo da provocação sem o menor pingo de vergonha. A época em que ele tentava manter uma fachada impenetrável havia ficado presa nos escombros do passado.
— Você terá que ir até Costa del Sol em breve para ver com os próprios olhos — ele retribuiu, ajeitando-se de forma confortável na cadeira. — Precisa conhecer a Inome, a Kether... e o Oitavo Luar, o estabelecimento onde eu trabalho atualmente. Fico de garçom na maior parte do tempo, mas também assumo a cozinha quando o movimento aperta.
A caneca de café de Lucia parou no meio do caminho até a boca. Ela piscou, os olhos se arregalando levemente enquanto o cérebro tentava processar a informação que acabara de receber. Ela abaixou a mão, encostando a louça na mesa, completamente incrédula.
— Garçom? — ela repetiu, a voz subindo uma oitava, a expressão de puro choque quebrando qualquer resquício de seriedade. — Um cozinheiro?! Pelos deuses, Sephiroth, eu achei que no mínimo você ainda trabalhava como mercenário por aí! Você, anotando pedidos e servindo mesas?
A surpresa dela era tão escancarada e cômica que até Genesis, que folheava silenciosamente o livro de botânica, não conseguiu segurar uma risada baixa. Ele ajeitou os óculos de leitura, balançando a cabeça em um silêncio divertido enquanto acompanhava a reação da amiga.
Sephiroth deu de ombros, um gesto simples que carregava a paz absoluta de um homem que havia vencido a própria guerra. O sorriso dele era sereno, os olhos felinos transbordando uma satisfação profunda.
— Quando eu era adolescente e dizia para vocês que tudo o que eu mais queria era uma vida comum... eu estava sendo literal, Lucia — ele explicou, a voz grave soando como uma verdade inabalável e resolvida. — Eu não queria outra espada, não queria glória e muito menos continuar lutando. Servir mesas, cozinhar, voltar para casa no fim do dia e encontrar a minha família segura... para mim, esse é um verdadeiro sonho realizado.
O choque cômico de Lucia foi se desmanchando aos poucos, dando lugar a uma expressão de pura e absoluta ternura. Ela olhou para o homem à sua frente, enxergando não apenas a realização de um sonho distante, mas a prova viva de que o passado não precisava ditar o futuro de nenhum deles.
Com um sorriso suave, ela esticou a mão e apertou os dedos dele sobre a mesa, o gesto carregado de um carinho silencioso.
— Eu tenho muito orgulho de você, Sephiroth. De verdade — ela disse, a voz baixando para um tom sincero e quase reverente. — Estou muito feliz pela vida que você construiu. Pela sua esposa, pelos seus filhos. Você merece cada segundo dessa paz.
Sephiroth aceitou o toque, retribuindo o sorriso com uma gratidão silenciosa e profunda. Então, de forma inesperada e descontraída, ele apontou levemente com o queixo na direção do anfitrião da casa, que continuava folheando seu livro como se não estivesse prestando atenção em cada palavra.
— Mas, pelo visto, eu não preciso me esforçar muito para convencê-la a nos visitar — Sephiroth comentou, o tom ganhando uma nota clara de diversão familiar. — Genesis já me contou por mensagem que você está morrendo de curiosidade para ver a Kether de perto e conferir se ela é mesmo um furacão.
Lucia arregalou os olhos levemente, soltando a mão de Sephiroth para virar o rosto na direção do poeta. Genesis sequer se deu ao trabalho de parecer culpado; ele continuava com os olhos fixos na página de botânica, mas o sorriso de canto o entregava completamente.
— Sério isso? — Lucia provocou, semicerrando os olhos em uma falsa indignação, apontando para ele de forma acusatória. — Quatorze dias de trégua pacífica sob o seu teto, dividindo o mesmo café, e você já está vazando minhas informações confidenciais? Que belo guardião de segredos você se tornou.
Genesis finalmente soltou uma risada rica e aveludada, fechando o livro de capa dura sobre a toalha da mesa. Ele ajeitou os óculos de leitura, olhando para ela com uma diversão polida e perfeitamente descarada.
— Minha cara Lucia, poetas não fazem fofoca. Nós apenas... compartilhamos narrativas de interesse comum — ele rebateu, erguendo a xícara de chá com um gesto teatral e elegante. — Além disso, a sua curiosidade era um fato inegável. Eu apenas decidi otimizar a comunicação entre a família para adiantar o convite. Um mero serviço de utilidade pública.
Lucia levou as duas mãos às próprias bochechas, sentindo o rosto esquentar de repente. Uma vergonha genuína e bem-humorada tomou conta de suas feições, desarmando completamente qualquer resquício de pose séria que ela ainda tentasse manter diante dos dois.
Genesis riu ainda mais da reação dela, um som rico e desimpedido que ecoou de forma agradável pelo café, deliciando-se com a pequena e rara quebra de postura da atiradora após sua "fofoca diplomática".
Sephiroth acompanhou o humor da cena com um sorriso brando, balançando a cabeça de forma tranquilizadora enquanto se ajeitava na cadeira.
— Não tem problema nenhum, Lucia — ele garantiu, a voz grave carregando aquele conforto familiar e pacífico. Ele apoiou os antebraços na mesa, olhando-a com uma sinceridade mansa e afetuosa. — Eu achei ótimo saber. Na verdade, eu só fiz questão de vir sozinho dessa vez para que pudéssemos ter exatamente esse momento.
Ele fez uma pausa curta, o olhar felino passeando pela mesa farta antes de voltar para ela, transmitindo uma calma absoluta.
— Queria te ver pessoalmente primeiro, para que tivéssemos a chance de sentar e conversar com calma, só nós... exatamente como nos velhos tempos — ele explicou, o sorriso ganhando um tom levemente divertido. — Se eu tivesse trazido a Inome e a Kether hoje, eu garanto que não teríamos conseguido trocar meia dúzia de palavras sem que a Kether tomasse toda sua atenção com suas várias perguntas, toda vez que ela conhece alguém novo.
As mãos de Lucia desceram devagar pelo rosto, o calor nas bochechas cedendo lugar a um sorriso curioso e levemente provocador. A menção de Kether com suas perguntas reacendeu a dúvida que rondava sua cabeça desde o início da manhã.
— Mas vem cá, aproveitando que tocamos nesse assunto... — Lucia começou, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos. — O Genesis levantou um ponto um pouco antes de você chegar. Você realmente era terrível como a Kether na infância?
A pergunta pairou sobre a mesa farta. Por uma fração de segundo, o sorriso de Sephiroth vacilou. Não foi uma quebra brusca, apenas a sombra passageira de uma memória densa, o roçar leve sobre uma ferida antiga que já estava cicatrizada, mas cuja marca jamais desapareceria. Ele olhou para a própria caneca escura, traçando a borda de cerâmica com o polegar de forma lenta.
— No comecinho... talvez. Quando eu devia ter uns dois anos — ele respondeu, a voz grave descendo um tom, soando reflexiva. — Eu tenho algumas lembranças muito vagas de ser barulhento. Mas não durou muito. O treinamento rígido e os laboratórios... eles puniam qualquer comportamento que não fosse estritamente produtivo. Qualquer deslize infantil era corrigido rapidamente.
O clima na mesa mudou. A curiosidade brilhante nos olhos de Lucia se apagou no mesmo instante, substituída por um peso instantâneo de culpa. O instinto protetor, o mesmo que a fazia zelar por ele no passado, atacou com força ao perceber que havia cutucado uma memória sombria de maneira tão leviana.
Ela descruzou as mãos e se inclinou para frente, a expressão carregada de um arrependimento sincero.
— Sephiroth... me desculpe — ela disse, a voz mansa e apertada. — Eu não devia ter perguntado isso. Sinto muito.
Sephiroth ergueu os olhos no mesmo instante, percebendo a aflição dela. O resquício de sombra desapareceu de seu rosto, dando lugar a um sorriso genuíno e profundamente sereno. Ele esticou a mão sobre a toalha e tocou a ponta dos dedos dela, um gesto simples de conforto que mostrava o quanto os papéis haviam evoluído.
— Não tem problema nenhum, Lucia. De verdade — ele garantiu, o tom firme, despido de qualquer ressentimento ou dor reprimida. — O passado ficou exatamente onde deveria estar. Na verdade... ver a Kether correndo livre por aí, fazendo birra, exigindo atenção e sendo caótica... me traz muita paz. Me faz feliz saber que ela está vivendo tudo aquilo que eu não pude experimentar. Para mim, isso já é o suficiente.
O alívio foi imediato. A tensão se dissipou com a mesma rapidez que surgiu, e Lucia deixou escapar um riso anasalado, recostando-se na cadeira com a leveza de quem estava genuinamente em casa.
— Sendo assim... — ela começou, o tom brincalhão voltando com força total, os olhos escuros brilhando de uma curiosidade indiscreta. — Como é que você tem coragem de já estar esperando outro bebê, se a Kether dá tanto trabalho assim? Pelo visto, o gosto pelo perigo você não perdeu.
A compostura inabalável de Sephiroth vacilou por um segundo. Uma ponta de timidez, rara e perfeitamente humana, cruzou as feições dele. Ele desviou o olhar para a mesa, ajeitando a xícara no pires de forma quase robótica antes de limpar a garganta.
— Simplesmente... aconteceu — ele respondeu de forma contida, apressando-se em levar a xícara aos lábios para tomar um gole generoso de café, tentando esconder o constrangimento evidente atrás da porcelana.
Genesis, que acompanhava a troca com um interesse imenso, não deixou a oportunidade passar. Ele soltou uma risada rica e sonora, abandonando de vez o livro de botânica para cruzar os braços sobre a mesa.
— Se continuarem nesse ritmo, tenho plena convicção de que ele e Inome vão povoar Costa del Sol inteira sozinhos dentro de uma década — o poeta provocou, a voz aveludada carregada de uma ironia polida e afiada. — Eu realmente acredito nisso. A cidade inteira será tomada por miniaturas caóticas de cabelos platinados exigindo livros, atenção e geleia de morango.
Lucia simplesmente não aguentou. Ela caiu na gargalhada, tombando a cabeça para trás em um riso aberto, sonoro e sem amarras, chegando a bater a mão na mesa para recuperar o fôlego.
— Pelos deuses, Sephiroth! — ela conseguiu dizer, enxugando uma lágrima imaginária no canto do olho. — Eu definitivamente não esperava esse tipo de proeza de você!
Sephiroth abaixou a xícara com calma. O constrangimento inicial deu lugar a um humor sutil e afiado que ele raramente demonstrava na juventude, mas que o convívio fora da corporação havia polido com maestria. Ele olhou diretamente para o poeta, a sobrancelha levemente erguida e um sorriso enviesado desenhado no rosto.
— Pelo menos eu estou contribuindo ativamente para o futuro da população de Gaia, Genesis — ele retrucou, a voz grave e perfeitamente pacífica, sem elevar o tom. — Enquanto a sua maior contribuição para a sociedade até o momento tem sido aterrorizar os escritores locais com resenhas amarguradas no jornal da cidade.
Genesis levou a mão ao peito em um gesto de falsa ofensa, mas o sorriso presunçoso e polido não vacilou um milímetro sequer. Ele ignorou elegantemente a alfinetada sobre suas críticas jornalísticas e focou no ponto que lhe convinha.
— Relacionamentos convencionais e bebês chorões exigem um nível de sacrifício e caos que a minha alma de artista simplesmente não comporta — Genesis declarou com um aceno teatral de mão, como se afastasse a mera possibilidade. — Deixo a nobre tarefa de povoar o planeta para os heróis aposentados. A paternidade, definitivamente não é para mim.
Sephiroth soltou uma risada genuína, o peito vibrando com um humor descarado e afiado que raramente tinha a chance de usar no passado. Ele recostou-se na cadeira de forma relaxada, os olhos felinos cravados no poeta com uma ironia perfeitamente calculada.
— É mesmo? Engraçado você dizer isso com tanta convicção — Sephiroth rebateu, a voz grave carregada de uma provocação mansa. — Porque, se conviver com crianças é uma tarefa tão indigna para a sua alma de artista, eu ainda estou tentando entender por que você passou os últimos meses me importunando sem parar, exigindo ser abençoado com o título de padrinho assim que o Malkuth nascer.
Lucia, que estava prestes a pegar outro pedaço de pão, simplesmente desmoronou. Ela precisou levar as duas mãos à boca rapidamente para abafar a crise de riso que a atingiu em cheio.
Os ombros dela sacudiam sem parar enquanto ela tentava, sem sucesso, conter as gargalhadas sonoras e abafadas pelas palmas das mãos. A imagem mental do sempre impecável e arrogante Genesis Rhapsodos mendigando o título de padrinho de um recém-nascido chamado Malkuth era maravilhosa demais. A fachada de intelectual intocável do ruivo havia caído por terra em questão de segundos.
Genesis não se deixou abalar pela quebra de sua própria fachada. Mantendo a pose impecável, ele cruzou as pernas e ajustou a postura com uma dignidade quase ensaiada, erguendo o queixo de forma presunçosa.
— Há uma diferença abismal entre tolerar o caos infantil e moldar um intelecto brilhante — ele argumentou, a voz aveludada banhada em uma prepotência perfeitamente bem-humorada. — O pequeno Malkuth não será um mero bebê chorão. Sob a minha tutela, ele será o meu sucessor natural como o maior e mais implacável avaliador literário desta geração. E, muito possivelmente, um escritor de imenso prestígio. Alguém precisa herdar o refinamento que claramente falta a vocês dois.
Sephiroth riu de forma aberta, balançando a cabeça de um lado para o outro. Ele apoiou o cotovelo na mesa, os olhos felinos brilhando de pura diversão enquanto observava o amigo.
— O garoto sequer nasceu e você já está tentando ditar o futuro dele, Genesis? — ele provocou, o tom grave carregando um afeto inegável. — Deixe o meu filho em paz. Se ele decidir que quer ser apenas um garçom, um pescador ou passar o dia inteiro empilhando blocos de madeira, o seu grande legado literário vai ter que esperar sentado.
Lucia finalmente conseguiu abaixar as mãos, o riso perdendo a força aos poucos, embora um sorriso largo e radiante continuasse dominando cada traço de seu rosto. Ela suspirou, enxugando o canto dos olhos.
Ela olhou de Sephiroth, com sua postura relaxada, a mochila de lona gasta no colo e a expressão de um pai de família comum, para Genesis, com seu terno alinhado, o livro de botânica na mesa e sua empáfia teatral que não enganava mais ninguém. O peso de duas décadas de fugas, mortes e sobrevivência parecia ter sido completamente varrido daquele café. Um calor repentino, profundo e reconfortante tomou conta de seu peito.
Lucia esticou os braços sobre a mesa, apoiando as mãos perto da xícara de Sephiroth e do pires de Genesis.
— Falando sério agora... — ela começou, a voz amolecendo, carregada de uma sinceridade crua e afetuosa. — Eu não consigo descrever o quanto estou feliz de estar sentada aqui com vocês dois hoje. Depois de tudo o que a gente passou... ver que nós conseguimos encontrar um pouco de paz no fim das contas. É bom demais.
O sorriso brando de Sephiroth ganhou um contorno levemente ladino. A gratidão pela declaração de Lucia ainda brilhava em seus olhos, mas ele não perdeu a oportunidade de quebrar a densidade emocional com a mesma naturalidade e leveza que guiava a conversa desde o início.
— O sentimento é recíproco, Lucia — Sephiroth garantiu, antes de inclinar a cabeça de forma curiosa na direção do ruivo. — Mas a verdadeira questão que não quer calar aqui é: como você está conseguindo aguentar conviver com o Genesis debaixo do mesmo teto nas últimas semanas sem perder a sanidade?
Genesis inspirou fundo, ajeitando a postura na cadeira. Ele abriu a boca e ergueu o dedo indicador, perfeitamente pronto para disparar um de seus discursos polidos sobre como sua companhia era um privilégio literário inestimável.
Mas Lucia sequer deu tempo para que ele formulasse a primeira sílaba.
— Ah, isso é a parte mais fácil — ela o interrompeu, abrindo um sorriso largo e vitorioso. Com um orgulho escancarado e zombeteiro, ela estufou um pouco o peito e cruzou os braços, piscando para Sephiroth. — Ele me obedece.
A frase caiu sobre a mesa como uma sentença absoluta.
Genesis congelou com o dedo no ar. A réplica afiada simplesmente morreu em sua garganta. Para o absoluto deleite de Sephiroth e Lucia, o rosto do ruivo ganhou um tom rubro inegável. Uma timidez rara e genuína quebrou inteiramente a pose de intelectual inabalável que ele tentava sustentar.
Totalmente desarmado, flagrado na própria submissão à dinâmica de Lucia, Genesis pigarreou. Ele baixou a mão devagar, desviou o olhar rapidamente e puxou o livro de botânica para perto de si como se a textura da capa fosse subitamente o objeto mais fascinante de toda a sala.
Sephiroth não aguentou. O platinado jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada profunda e retumbante, achando simplesmente fantástica a facilidade com que a atiradora conseguiu domar e envergonhar o homem que costumava ser o membro mais teatral e indomável da corporação.
A gargalhada de Sephiroth foi perdendo a força aos poucos, transformando-se em um sorriso largo e genuinamente divertido. Ele observou o modo como Genesis tentava, sem sucesso, se esconder atrás das páginas do livro para disfarçar o constrangimento, e então voltou o olhar para a atiradora. Os olhos felinos brilhavam com uma pitada de malícia mansa.
— Pensando bem... — Sephiroth comentou, apoiando o queixo na mão enquanto avaliava a cena. — Talvez ele simplesmente esteja gostando de você, Lucia. Isso explicaria essa obediência repentina.
Lucia não perdeu o ritmo. Longe de ficar envergonhada com a insinuação, ela abriu um sorriso enviesado, encostando-se no encosto da cadeira com os braços cruzados, cheia de si.
— Ah, mas a culpa disso é toda dele — ela revidou, apontando de forma descarada para o poeta do outro lado da mesa. — Afinal de contas, essa convivência pacífica toda só começou porque ele me levou para um encontro.
Sephiroth parou, a mão congelando a poucos centímetros da própria xícara de café. A expressão relaxada dele deu lugar a uma surpresa cômica e escancarada. Ele piscou, alternando o olhar entre a antiga parceira e o amigo ruborizado.
— Um encontro? — Sephiroth questionou, erguendo as duas sobrancelhas, claramente adorando o rumo daquela fofoca.
Do outro lado da mesa, Genesis afundou o rosto um pouco mais atrás da capa dura de A Botânica e as Flores de Gaia. A postura eternamente elegante dele estava por um fio, e a voz saiu ligeiramente mais apressada e defensiva do que a sua clássica oratória permitia.
— Não era um encontro — Genesis murmurou, recusando-se a baixar o livro e fazer contato visual com qualquer um dos dois. A timidez ainda tingia o rosto dele de forma inegável. — Foi estritamente uma... troca de informações. Um arranjo estratégico e logístico. Nada além disso.
Sephiroth soltou uma risada anasalada, girando a xícara de porcelana no pires com calma, claramente se deliciando com o desconforto do amigo.
— Se a logística foi tão proveitosa assim — o platinado sugeriu, os olhos felinos brilhando de malícia —, eu diria que a situação exige no mínimo mais um encontro para que vocês possam revisar todos esses arranjos de forma adequada.
Lucia riu, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão. Ela lançou um olhar enviesado e cheio de desafio na direção do poeta do outro lado da mesa.
— Por mim, tudo bem — ela declarou com uma naturalidade descarada. — Mas, dessa vez, eu só vou se ele fizer um convite de verdade. Com todas as palavras, olhando na minha cara, sem fingir que esbarrou comigo sem querer.
Genesis soltou um suspiro longo e perfeitamente dramático. Lentamente, ele fechou o livro de botânica e o abaixou sobre a mesa, desistindo da tática de se esconder. O rosto dele ainda carregava aquele tom avermelhado de timidez, mas ele se recusou a perder a compostura, endireitando os ombros e erguendo o queixo com sua típica afetação.
— Se a formalidade é uma exigência inegociável para a nossa próxima... saída — Genesis começou, a voz aveludada tentando mascarar o leve tropeço nas palavras —, então eu farei questão de formular um convite com a devida propriedade. Apenas certifique-se de estar pronta no horário estipulado. Detesto atrasos.
Lucia sorriu com a resposta do ruivo, mas logo voltou sua atenção para Sephiroth, apoiando os braços na mesa.
— E que dia eu posso aparecer lá no Oitavo Luar? — ela perguntou, animada com a perspectiva da viagem.
— O estabelecimento fica aberto durante a semana toda, até o cair da noite — Sephiroth explicou com tranquilidade. — Vocês serão bem-vindos em qualquer dia que escolherem.
Antes que Lucia pudesse sugerir uma data, Genesis já se adiantou, recuperando totalmente sua postura confiante e pragmática.
— Eu já tenho uma viagem marcada para Costa del Sol no mês que vem — o poeta anunciou, ajeitando as abotoaduras do terno cinza. — Farei questão de comprar as passagens de Lucia para que possamos ir juntos.
Lucia franziu a testa, balançando a cabeça em negativa no mesmo instante.
— Mês que vem? De jeito nenhum. Eu quero ir pra lá ainda este mês — ela decretou, impaciente para rever a família dele.
Genesis não hesitou nem por um segundo, cedendo à exigência dela com uma facilidade impressionante.
— Sendo assim, eu simplesmente entro em contato com a companhia e troco as nossas passagens para a próxima semana. Problema resolvido.
Sephiroth observou a troca rápida entre os dois, um sorriso ladino e silencioso tomando conta de seu rosto. Ele recostou-se na cadeira, perfeitamente relaxado.
— Então está combinado para a próxima semana — Sephiroth concordou, mas não sem lançar um olhar divertido e carregado de ironia para o ruivo. — Mas veja só... você mal percebeu e já está incluindo a Lucia em absolutamente todos os seus planos, Genesis. Depois ainda quer me convencer de que é apenas logística.
Genesis franziu as sobrancelhas, o cenho marcando uma linha de falsa indignação enquanto ele erguia a mão em um de seus típicos gestos dramáticos, recusando-se a perder a majestade da discussão.
— Você perdeu completamente o seu senso crítico, Sephiroth. Tornou-se apenas um homem apaixonado e incurável — o ruivo declarou, a voz aveludada carregada de uma teatralidade defensiva. — Está transbordando tanto romance por causa da sua própria vida doméstica que agora começou a ver amor nos simples arranjos logísticos dos outros. É uma projeção perfeitamente compreensível, embora equivocada.
Sephiroth não recuou nem tentou se defender. Pelo contrário, o sorriso em seu rosto se alargou ligeiramente, os olhos felinos brilhando com a paz absoluta de quem não via problema algum naquela acusação. Ele levou a xícara aos lábios, deu um gole calmo no café e deu de ombros com uma serenidade inabalável.
— Talvez seja — ele admitiu, a voz grave e mansa, sem um pingo de vergonha de sua própria felicidade.
Lucia não disse uma única palavra. O silêncio descontraído caiu sobre a mesa enquanto ela apenas estreitava os olhos, intercalando o olhar entre o poeta que tentava recuperar a compostura e o homem que exalava uma tranquilidade inatingível. Com um sorriso divertido e vitorioso brincando nos lábios, ela simplesmente partiu mais um pedaço do pão fresco, levou à boca e mastigou devagar, deliciando-se tanto com a refeição farta quanto com o absurdo reconfortante de ver as duas antigas lendas da Shinra trocando alfinetadas como dois adolescentes comuns.
As horas dentro do café se dissolveram com a mesma facilidade com que o açúcar derretia nas xícaras quentes. O que começou como um longo e farto desjejum logo se transformou em uma caminhada tranquila pelas ruas de paralelepípedo de Kalm. O trio vagou pela cidade durante a tarde inteira, sem pressa ou destino. Longe dos uniformes rígidos, das missões e do peso da corporação, eles eram apenas três velhos amigos redescobrindo o convívio comum. O murmúrio das conversas contínuas, as risadas soltas de Lucia e os debates amigáveis entre Genesis e Sephiroth preencheram as horas até que o sol finalmente se rendesse, pintando o céu de Kalm com tons profundos de violeta e anil.
O anoitecer já havia abraçado a cidade, iluminado apenas pelo brilho quente e amarelado dos postes de rua e das vitrines, quando eles chegaram ao ponto de embarque. A última caravana do dia com destino a Costa del Sol estava prestes a iniciar viagem.
Sephiroth ajeitou a alça da mochila de lona no ombro, despedindo-se com um último abraço apertado e afetuoso em Lucia, seguido por um aperto de mão firme e genuíno em Genesis. O platinado subiu os degraus da condução com um sorriso pacífico no rosto e, assim que ele se acomodou, a estrutura de madeira começou a se mover devagar pela estrada iluminada, ganhando velocidade aos poucos.
Lucia ficou na calçada ao lado do ruivo, os olhos escuros brilhando de pura alegria. Ela ergueu os dois braços, acenando freneticamente para a silhueta do amigo através da janela da caravana, e ergueu a voz a plenos pulmões para sobrepujar o barulho das rodas na pedra:
— Até semana que vem! — ela gritou, o sorriso rasgando o rosto com a promessa do reencontro.
Genesis não acenou de forma tão espalhafatosa, mas mantinha uma postura elegante com um aceno polido e brando. A afetação teatral havia dado lugar a um carinho desarmado que ele raramente demonstrava em público. O poeta ergueu o queixo e projetou sua voz aveludada pela brisa noturna, garantindo que o Sephiroth ouvisse perfeitamente:
— E faça o favor de dizer à pequena Kether que eu já estou sentindo saudades!
O caminho de volta pelas ruas iluminadas de Kalm foi banhado por um silêncio leve e confortável. O ar frio da noite parecia apenas refrescar a mente de Lucia, que ainda processava a alegria e a leveza de tudo o que haviam vivido naquelas últimas horas.
Assim que chegaram e pararam diante da porta do pequeno prédio onde o poeta morava, antes mesmo que ele pudesse alcançar as chaves no bolso do sobretudo, Lucia se virou. Num impulso súbito e escancaradamente sincero, ela passou os braços ao redor dele, puxando-o para um abraço apertado.
— Obrigada por isso, Genesis — ela murmurou contra o ombro dele, a voz embargada por um alívio genuíno. — Por me proporcionar essa oportunidade. Ver o Sephiroth daquele jeito, ter esse momento com vocês... foi o melhor dia que eu tive em anos.
Genesis piscou, pego de surpresa pelo gesto repentino. Suas mãos hesitaram no ar por uma fração de segundo, mas a guarda impecável dele já havia desmoronado há muito tempo perto dela. Visivelmente amolecido pela sinceridade da atiradora, ele suspirou devagar e retribuiu o abraço, envolvendo as costas dela com firmeza em um gesto surpreendentemente terno e seguro.
Ele descansou o queixo de leve no topo da cabeça dela, a voz aveludada perdendo qualquer resquício de afetação teatral, soando apenas como o homem que ele era hoje.
— Sabe, minha cara... — Genesis murmurou, o tom calmo, carregado de uma proposta silenciosa e definitiva. — Essa mesma paz poderia muito bem ser adicionada ao seu dia a dia de forma permanente. Isso, é claro, se você decidisse ficar.
Lucia se afastou devagar, rompendo o abraço apenas o suficiente para encará-lo. Os olhos escuros encontraram os azuis com uma decisão clara e pragmática brilhando nas pupilas.
— Sendo assim... qual é o valor do aluguel? — ela perguntou, assumindo seu lado prático. — Para nós dividirmos.
Genesis sustentou o olhar, a expressão perfeitamente serena. Ele balançou a cabeça de leve, descartando a ideia com tranquilidade.
— Não faço a menor questão que você pague por isso, Lucia — ele respondeu, a voz mansa e segura. — Você já toma conta de toda a parte manual e da manutenção do apartamento. Isso é mais do que o suficiente. Você pode ficar.
Um sorriso largo e genuíno iluminou o rosto da mulher. Sem aviso, ela se inclinou para frente e depositou um beijo rápido e carinhoso na bochecha dele.
— Obrigada pelo carinho — ela agradeceu, o tom carregado de um afeto leve.
Antes que ele pudesse sequer processar o gesto, Lucia recuou. Ela enfiou a mão no bolso da calça, pescou uma segunda chave e destrancou a porta do prédio com agilidade. Ela entrou rapidamente, e logo o som de seus passos apressados e ritmados ecoou pela escada, sumindo rumo ao andar de cima.
Do lado de fora, a brisa noturna soprou pela calçada. Genesis permaneceu exatamente onde estava, estático diante da porta. Lentamente, ele levantou a mão e levou dois dedos até a própria bochecha, encostando no ponto exato do beijo.
Ele piscou para a rua vazia, um suspiro derrotado, porém inegavelmente satisfeito, escapando de seus lábios.
— Talvez Sephiroth esteja certo no fim das contas... — ele murmurou para si mesmo.
O poeta abaixou a mão devagar, um sorriso ladino e desarmado, tomando conta de suas feições. Ele balançou a cabeça, finalmente cedendo àquela verdade incontestável, e empurrou a porta de madeira do prédio, seguindo o mesmo caminho que ela havia feito.
Seus passos ressoaram pelos degraus enquanto ele subia logo atrás, erguendo a voz o suficiente para que ela ouvisse lá de cima, o tom aveludado banhado em uma provocação irresistível e bem-humorada.
— Fugindo da cena do crime de forma tão descarada, Lucia? — Genesis chamou pelas escadas, a diversão transbordando em cada sílaba. — Pois saiba que eu exijo no mínimo um chá quente preparado por você como compensação por esse ataque surpresa à minha compostura!
Uma risada abafada, leve e vitoriosa ecoou do corredor do andar de cima como única resposta.
Do lado de fora, a brisa fria da noite varreu as ruas de paralelepípedo, balançando levemente as placas de metal dos comércios já fechados. Uma a uma, as luzes das janelas vizinhas em Kalm começaram a se apagar enquanto a cidade mergulhava em um sono silencioso e pacífico. Apenas as luzes do pequeno apartamento no andar de cima se acenderam, lançando um brilho quente, dourado e cheio de vida sobre a calçada vazia — um refúgio seguro e permanente que, depois de tantos anos em fuga, os dois finalmente podiam chamar de lar.

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